Arquivo de 1 de Janeiro de 2009

Ressuscitar o homem de Neandertal não é possível. Ainda…

O genoma do mamute abre as portas para reavivar espécies extintas. As dificuldades técnicas não são insolúveis, mas existem dilemas éticos

Javier Sampedro

O genoma recuperado dos gelos siberianos é um avanço enorme que nem mesmo o recém-falecido Michael Crichton ousou imaginar em seu livro Jurassic Park. Mas daí a ressuscitar o mamute, existem obstáculos gigantescos que a genética atual não é capaz de contornar. Mas todos esses problemas são puramente técnicos, e serão solucionados mais cedo ou mais tarde. Será que veremos um parque safári na Sibéria com mamutes devolvidos à vida pela graça do homem? E principalmente, o que acontecerá com o homem de Neandertal, o segundo genoma fóssil previsto?
Um óvulo fecundado humano é muito parecido com o de um mamute. Se o primeiro produz uma pessoa e o segundo, um mamute, isso se deve ao genoma, o conjunto de genes, que dirige o desenvolvimento da evolução.
O genoma do mamute consiste em 4 bilhões de bases, ou letras químicas do DNA (aggcttcaa…), e seqüenciá-lo é determinar a ordem exata dessas letras. Isso é o que os cientistas russos e norte-americanos
(quase) conseguiram fazer recentemente.
O genoma do mamute atual é como se fosse uma cópia imperfeita de um livro (tecnicamente, sua cobertura é de 0,7 vezes um genoma). Segundo estima o caçador de genomas fósseis Svante Pääbo, diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, uma seqüência de "qualidade razoável" precisaria de uma cobertura de 12 vezes, ou 12 livros imperfeitos.
Ainda assim, uma "qualidade razoável" significa um erro a cada 10 mil bases (as letras a, g, c, t do DNA). Como o genoma dessa espécie tem uns 4 bilhões de bases, isso dá um total de 400 mil erros. Esses "erros" no genoma de papel se transformariam em "mutações" reais num mamute reconstruído.
"Ainda não podemos devolver o mamute à vida", diz o subdiretor do centro de DNA antigo da Universidade de Adelaide, Jeremy Austin. "Uma seqüência genômica não faz um ser vivo. Tudo o que temos agora é um genoma parcial, com um número considerável de erros. Seria como tentar fabricar um carro com apenas 80% das peças, e sabendo que algumas estão quebradas".
Entretanto, nenhum desses obstáculos é insuperável. Contorná-los é apenas uma questão de mais mamutes e mais dinheiro. E a solução de muitos outros problemas aparentemente mais graves pode ser mais simples ainda: a trapaça. Ou seja, abandonar a obsessão de reproduzir fielmente um mamute, e conformar-se com algo que apenas se pareça com o animal. A evolução biológica, afinal de contas, também é oportunista.
Por exemplo, os genes do mamute são agora entidades virtuais: textos
(aagattcct…) escritos em um papel, ou gravados na memória de um computador, e será preciso transformá-los em coisas, DNA real dentro de cromossomos palpáveis, para que sirvam para algo. "Mesmo que tenhamos um genoma completo e bastante preciso", diz Jeremy Austin, "resta a questão de como construir os cromossomos". Não sabemos nem sequer quantos cromossomos tinha o mamute.
Mas é provável que isso não seja necessário. Duas espécies de moscas indistinguíveis à vista humana podem diferir enormemente em sua estrutura cromossômica. Até duas pessoas tem algumas diferenças na estrutura. Os elementos essenciais de cada cromossomo são os que iniciam sua duplicação em cada ciclo de divisão celular - origens de replicação - e os que garantem a distribuição das duas cópias às células filhas - centrômeros. E ambos foram sintetizados artificialmente com sucesso.
O mesmo vale dizer em relação a colocar os cromossomos dentro de um núcleo. E o restante são técnicas que ainda não foram testadas em elefantes, mas que já são corriqueiras em outros mamíferos: introduzir o núcleo em um óvulo, estimulá-lo para que comece a desenvolver-se e implantá-lo numa elefanta. Esses são os passos de uma clonagem, ainda que entre espécies diferentes, sendo que uma delas inexistente.
De acordo com projetos existem há anos, o primeiro objetivo de uma ressurreição hipotética do mamute será provavelmente um parque-safári.
Em 2002, por exemplo, uma equipe de cientistas japoneses financiados pela companhia tecnológica Field inspecionou os gelos siberianos em busca de mamutes bem preservados. Eles estavam interessados nos testículos do animal, porque o esperma é um dos tecidos que melhor se conservam a frio. Sua intenção era utilizar um espermatozóide para fecundar um óvulo de elefanta. Se nascesse uma fêmea híbrida, eles tornariam a fecundá-la com outro espermatozóide do mamute original, e assim sucessivamente até construir um parque-safári de 150 quilômetros quadrados na república siberiana de Sakha, no noroeste da Rússia.
Se a finalidade de ressuscitar o mamute é exibi-lo num parque-safári siberiano, as trapaças podem ser levadas ao extremo, como sugere Pääbo à revista Nature. O Instituto Broad de Cambridge, Massachusetts, um dos pólos do projeto genoma, já trabalha na seqüência de um dos parentes vivos do mamute, o elefante africano Loxodonta africana.
Comparar os genomas dos dois paquidermes conduzirá os cientistas aos genes-chave que distinguem o mamute, ou seja, os genes responsáveis pela sua cor escura, por seu pelo abundante e, sobretudo, por seus dentes exagerados. Pääbo acredita que a introdução desses poucos genes num elefante comum produziria algo bastante parecido com um mamute para ser exibido num parque-safári. Um pseudo-mamute de exibição.
"Não seria um mamute em nenhum sentido que pudesse satisfazer a um purista", diz o geneticista de Leipzig, "nem a um ecólogo, nem a um idealista que sonhe em restaurar um grandioso passado perdido. Mas seria suficiente para um parque de atrações e evitaria os problemas técnicos mais perigosos. E é tudo o que posso aspirar a ver nos meus anos de vida".
Michael Crichton acertou três vezes com seu livro Jurassic Park (1990). Primeiro, preveu a ressurreição de espécies extintas. Depois, sua exibição em parques de atrações. E terceiro, as trapaças ao estilo de Pääbo. Seus cientistas não puderam recuperar nenhum genoma completo de dinossauro, e introduziram os genes-chave de dinossauro em simples rãs (uma escolha discutível; o avestruz parece uma opção melhor, já que as aves evoluíram a partir dos dinossauros). Dessa forma, os monstros jurássicos do parque não eram nada além de pseudossauros de exibição incapazes de satisfazer a um purista. Mas isso não os impedia de dar mordidas.
O verdadeiro dilema ético é que, quando for possível ressuscitar o mamute, também será possível ressuscitar o homem de Neandertal, uma vez que esse será o segundo genoma fóssil seqüenciado. Essa é uma questão totalmente diferente, mas não por questões ecológicas. Os problemas técnicos serão tão formidáveis quanto no caso do mamute. Mas também, da mesma forma, nenhum deles será insuperável. E a solução estará em abandonar a obsessão em reproduzir fielmente um Neandertal, e conformar-se com algo que se pareça com ele.
A comparação do genoma humano com o do Neandertal já está em marcha, e pouco a pouco revelará os genes específicos do Neandertal. Será possível então criar um pseudo Neandertal, mas nesse caso a história é bem diferente, porque falamos de uma espécie humana inteligente, que cuidava de seus doentes e enterrava seus mortos.
Os Neandertais se extinguiram há menos de 30 mil anos. As últimas populações viveram em Gibraltar. Sua capacidade craniana era maior que a nossa, e as evidências anatômicas e genéticas apontam para o fato de que eles possuíam a faculdade da linguagem. Eles se espalharam por todo o continente europeu durante centenas de milhares de anos, e co-existiram com a nossa espécie, o Homo sapiens, durante cerca de 10 mil anos na Europa. Nosso papel em sua extinção é um mistério.
Em todo caso, o avanço da genética foi mais rápido do que imaginou Crichton ou qualquer cientista dos anos 90. Os únicos genomas seqüenciados até então eram de vírus, com cerca de 10 quilobases (10 mil letras de DNA).
O genoma humano é 10 mil vezes maior, e os mamutes e dinossauros estão próximos disso, de modo que ler um genoma fóssil completo desses animais era inimaginável (por isso as rãs). Mas 20 anos depois isso é um fato.
"O campo do DNA antigo avançou muito desde o primeiro estudo, de 1984, que conseguiu uma amostra de material genético da quagga, uma espécie de zebra extinta", diz Michael Bunce, chefe de DNA antigo da Universidade de Murcoch, na Austrália ocidental. Para este cientista, como para a maioria, o maior interesse desses trabalhos não é reavivar as feras, mas aprender como os genomas se relacionam com os organismos, como as variações dos genes alteram a forma e as características das espécies.
"Comparando os genomas do mamute e dos elefantes atuais, ou do Neandertal e dos humanos modernos, podemos começar a responder as questões biológicas mais fundamentais", afirma Bunce. "Que genes são responsáveis por quais características físicas? Comparado com seus primos africanos, que genes alteraram o mamute para adaptá-lo a climas frios?"
No fundo, Bunce está buscando os mesmos genes que os hipotéticos criadores do parque-safári, ainda que por razões distintas. "Se poderemos dentro de alguns anos devolver o mamute à vida? Nada disso.
Sabermos a seqüência de DNA de algo não quer dizer que possamos manipulá-la geneticamente para recriar o organismo extinto. Esse tipo de desenvolvimento ainda é uma fantasia", diz o especialista.
Mas há uma palavra que aparece por todas as partes nesse contexto: ainda.
Um túnel do tempo
Há túneis do tempo genéticos que nenhum escritor explorou, mas com os quais os lingüistas trabalham diariamente. Não há gravações de 10 mil anos atrás que demonstrem que a palavra pé era "pod" na língua indo-européia ancestral. Os lingüistas comparam as palavras pie, foot, vot, pés e pada e deduzem qual a sua origem evolutiva. Os biólogos podem fazer o mesmo com os genes.
A comparação entre genomas e linguagens é mais do que uma metáfora, porque o DNA é um texto num sentido muito literal. Todos os genes têm a mesma estrutura (a famosa dupla hélice do DNA). A informação genética é a única coisa que distingue um gene do outro, que é a ordem das bases (as letras a, g, c, t) em fileiras. Da mesma maneira que a informação de um texto está contida na ordem das letras.
A comparação entre genomas de mamíferos permite reconstruir o genoma do primeiro mamífero. A comparação entre humanos, moscas e medusas revela o genoma do primeiro animal, a origem da evolução animal. O mesmo vale para cada gene concreto. Não é necessário recuperar fisicamente aquele DNA de 600 milhões de anos atrás. Pode-se deduzi-lo, assim como a palavra pod.
Se há uma conclusão geral, é que todas as funções fundamentais já estavam presentes no primeiro animal, há 600 milhões de anos. A evolução consistiu desde então em amplificar e refinar funções concretas em cada linhagem animal. Por exemplo, os sentidos sempre existiram, e todos têm uma lógica genética similar. Mas os genes dos receptores sensoriais (olfativos, do tato e demais) se propagam e retraem continuamente no genoma para adaptar-se às demandas do entorno.
Os geneticistas também exploram as possibilidades futuras. Utilizam os mesmos mecanismos que a evolução, mas em simulações aceleradas. Por exemplo, as proteínas costumam ser feitas de módulos, e a evolução gera novidade recombinando-os. As opções combinatórias são inesgotáveis, e os seres vivos só usam uma pequena fração das possibilidades. No laboratório, podem ser criadas muitas funções novas por meio desse método.
Um parque-safári verdadeiramente inovador não resgataria o passado de gelo. Mas o deduziria a partir de seus herdeiros atuais. E mostraria a estes as suas possibilidades futuras, além da certeza da extinção.
Tradução: Eloise De Vylder

El País

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Atividade ao ar livre previne miopia nas crianças

Gonzalo Casino

Deixar que as crianças passem mais tempo na rua, que façam mais atividades ao ar livre, que sua vista perambule fora das quatro paredes de um recinto fechado. Essas são recomendações consistentes e consensuais para prevenir a miopia de crianças cujos pais são míopes e têm, portanto, um alto risco de desenvolver a doença. Os estudos realizados nos últimos anos apontam nessa direção e os pesquisadores encontraram um ponto de acordo num campo no qual a controvérsia era a norma.

Seis em cada dez crianças com ambos os pais míopes desenvolvem a miopia se não fazem mais de cinco horas de atividades semanais ao ar livre; por outro lado, se passam mais de duas horas por dia (mais de 14 horas por semana), o risco cai para 20% (só duas em cada dez crianças serão míopes), segundo revela o estudo Cleere, realizado durante dez anos com 633 crianças míopes e 617 não-míopes na Universidade Estadual de Ohio (EUA), pelo grupo da pesquisadora Lisa A. Jones.

Mas o importante é que este trabalho não é uma pesquisa isolada. Da mesma forma, o estudo Orinda realizado na Califórnia, mostrou que, se passarem tempo suficiente ao ar livre, as crianças geneticamente predispostas à miopia têm uma probabilidade de desenvolver a doença apenas ligeiramente maior do que as crianças de pais sem esse defeito visual.

Da mesma forma, um estudo de miopia de Sidney, realizado com mais de quatro mil crianças em idade escolar de origem européia, mostra que passar mais tempo ao ar livre pode compensar o risco associado às tarefas escolares e ao trabalho visual próximo. Este efeito protetor das atividades ao ar livre foi também comprovado em crianças da China, Índia e Malásia, segundo indica o estudo Scorm, de Cingapura.

Estes e outros trabalhos foram apresentados em julho de 2008 no último congresso internacional de miopia, e agora são publicados na edição de janeiro de 2009 da revista Optometry and Vision Science. “A maioria dos estudos, incluindo o nosso, sugere que ficar algumas de horas ao ar livre pode ser benéfico para reduzir o risco de desenvolver miopia”, afirma ao El País Jane Gwiazda, diretora de pesquisa do The New England College of Optometry e co-autora de um dos trabalhos.

Seus estudos mostram que as crianças míopes dedicam, em média, 8,3 horas semanais a atividades ao ar livre, contra 12,6 horas das crianças não míopes.

Entretanto, acrescenta, “a quantidade de horas de leitura, estudo e uso do computador não diferem entre os dois grupos de crianças”.

A que se deve o efeito protetor das atividades ao ar livre? “O mecanismo é desconhecido”, responde Donald O. Mutti, da Faculdade de Optometria da Universidade Estadual de Ohio, um dos autores do primeiro estudo mencionado. Para Gwiazda, “uma possível explicação é que olhar objetos a longa distância durante horas, como acontece nas atividades ao ar livre, pode ser um sinal para o olho bloquear o desenvolvimento e a progressão da miopia. Também pode ser uma consequência do fato de que a luz solar contrai a pupila, aumentando a profundidade de campo e reduzindo as imagens borradas”.

Em todo caso, o que os estudos epidemiológicos revelam é que o efeito protetor está relacionado ao simples fato de estar ao ar livre, e não está associado à realização de alguma atividade específica, quer seja um esporte ou outra coisa

É difícil saber se as atividades ao ar livre podem frear a atual epidemia de miopia (há 1,6 bilhões de míopes no mundo e a previsão é de que haja 2,5 bilhões em 2020), como sugerem os estudos populacionais. Para demonstrá-lo seria necessária a realização de testes clínicos aleatórios, e esses estudos ainda não foram feitos. “Não conheço nenhuma medida preventiva provada”, resume Mutti.

Até hoje, as medidas preventivas avaliadas em testes clínicos não foram satisfatórias. Por um lado, os remédios estudados, como a atropina, apresentam efeitos adversos; por outro, o uso de lentes progressivas, bifocais ou lentes rígidas permeáveis a gases mostraram resultados muito limitados.

Monitores e livros sob suspeita
Ter pais míopes é, sem dúvida, o principal fator de risco para desenvolver miopia. Se, além disso, a pessoa tem antepassados asiáticos, o risco aumenta (em alguns países da Ásia mais da metade da população é míope). Entretanto, os genes relacionados com a suscetibilidade à miopia são desconhecidos por falta de estudos de genética molecular suficientes neste campo.

Por sua parte, os estudos epidemiológicos identificaram que ter um QI elevado e um maior grau de escolaridade também são fatores de risco.

Essa associação das tarefas intelectuais com a miopia pode ser interpretada como o resultado de um esforço visual maior para perto.

Entretanto os últimos trabalhos parecem descartar que a leitura e o trabalho próximo aos olhos sejam realmente um fator importante, como parece ser passar pouco tempo ao ar livre.

O uso prolongado e contínuo de computadores estava associado a um notável efeito prejudicial para desenvolvimento da miopia, mas os estudos não confirmaram isso. O efeito nocivo dos monitores (televisão, computador, consoles) sobre a visão não parece ir mais além da fadiga visual. Em alguns estudos epidemiológicos, as crianças míopes e as não míopes utilizam os computadores por tempo similar.

Ler com pouca luz tampouco parece piorar a visão, ainda que possa causar fadiga visual. Outra idéia mítica que os especialistas desautorizam é que os exercícios visuais sejam capazes de preservar a visão.

El Pais

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Papéis Falsos

Jaldes Reis de Meneses

Duas cenas clássicas que vimos em filmes documentários antigos ainda não se apresentaram na atual crise do capitalismo: correntistas suicidas em Wall Srett, desesperados, se atirando do alto do prédio da bolsa de valores, como também o protesto social anticapitalista de trabalhadores, em passeata ou em greve geral, empunhando os duros símbolos psicanalíticos da realidade que são os espectros da foice martelo.

A cena do correntista (ou do banqueiro) suicida talvez aconteça a qualquer momento. Quanto à produção do trabalho como antagonista do capital, discernirmos um paradoxo, ou seja, a presença de uma ausência como a pretender encenar a asséptica dupla face de uma mesma moeda: uma grande crise do capitalismo sem antagonista político visível, conquanto no mesmo drops (de ectasay?) desmorone a chamada ideologia neoliberal dos mercados. Contudo, a história é aberta e apronta surpresas, do bojo da crise pode emergir – por quem sabe responder ao que fazer – o protagonismo de novos movimentos e símbolos radicais.

Sempre é penoso olhar olho no olho. Na ausência da épica dos enfrentamentos diretos do trabalho contra o capital, ao distinto público passivo é servido, em satélite, a ópera bufa encenada pelos três patetas, George W. Bush, Jonh McCain e Barak Obama, regidos pelos desafinados maestros Henry Paulson [Secretário do Tesouro] e Ben Bernanke [Presidente do Federal Reserve]. No vai-e-vem da crise, certamente as instâncias do mercado, governo e parlamento acertarão os ponteiros, finalmente aprovando os tais 700 bilhões de dólares em socorro da bancarrota do sistema financeiro. Mesmo assim, a tragédia nos será servida na forma da ópera-bufa dos três aloprados circunstanciais, elevados ao andar da "grande política" como gente pequena, mais pela fortuna do que pela virtu (de relance, rememorando a célebre formulação de Maquiavel em O príncipe).

Os sonhadores todos os matizes, da esquerda à direita no debate econômico mundial – quem pode deixar de sonhar nas horas difíceis? –, repetem feito papagaio que a crise ainda se encontra no começo; que é inevitável passar pela recessão, mas escapar da depressão, desde que se adote – simples assim –, novas regras de supervisão e regulação; desde que desçam do céu novas lideranças, da estripe de um Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), repleto de idéias de salvação do mundo, munido de uma política econômica semelhante ao New Deal (1932-1939).

A propósito de anjos da anunciação, cabem dois comentários maldosos:

▪ Menos mal que a inteligentsia mundial espere a descida de Roosevelt dos céus como um anjo, pois, em aberta dissidência, a chanceler alemã, Angela Merkel, parece eleger o anjo hitlerista do apocalipse, a deduzir de suas diatribes racistas fora de hora contra "a dominação anglo-saxã" dos mercados globais (http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u411047.shtml).

▪ A crise de inteligência histórica hoje é abissal. Esquece-se que a composição de forças políticas e sociais do New Deal esteve distante de ser pacifica. Roosevelt não teve sossego nem chegou precisamente a encetar a um "grande acordo nacional", embora tenha sabido usar os meios de comunicação de massas (o cinema e o rádio). O grande capital – financeiro e industrial – jamais apoiou fervorosamente o New Deal. Afirmá-lo é simplesmente construir uma mitologia à posteriori.

Todavia, o New Deal granjeou apoios inesperados. Esteve com as políticas econômicas de Rooselvelt a parcela mais representativa do movimento operário e do PC norte americano (portanto, o cortejo de intelectuais ligados ao Partido, a exemplo de Paul Sweezy e da redação da Monthly Review, histórica revista da esquerda americana). Em contraponto, não se deve omitir o fato que o acordo social do New Deal foi vivido como tormenta repressiva pelos que ousaram empunhar a bandeira da dissidência. O cassetete da polícia foi bastante ativo (quem quiser provar a literatura indireta da tormenta, aconselho a leitura do belo poema fúnebre de Allem Grinsberg em memória da mãe – Kaddish). Sem delongas, o fato é que, já em 1939, as bases econômicas do New Deal estavam totalmente erodidas e sob a pesada crítica do Partido Republicano.

Na verdade, o episódio que salvou a economia americana foi a Segunda Guerra Mundial, por meio do superaquecimento das encomendas da indústria bélica, num inusitado encontro das teorias de manejo do fundo público de Keynes com as prédicas mais apocalípticas de Rosa Luxemburgo sobre a acumulação destrutiva do capital.

Em tudo na vida há um balsamo. Sem sombra de qualquer dúvida, passados quase dois agitados séculos em que se manifestou – aí por volta de 1826 – o fenômeno da fase de depressão dos ciclos econômicos capitalistas, a teoria econômica deu saltos.

A analítica das crises começou pela pena de um dissidente: Marx, um pensador lido com a devida vênia pelos especuladores inteligentes como George Soros – "ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz" (http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/entrevistas/a-crise-do-capitalismo-e-a-importancia-atual-de-marx) –, além de acadêmicos conservadores insuspeitos de qualquer simpatia com o socialismo, a exemplo de Schumpeter – "Karl Marx foi o primeiro (…) a formular corretamente a questão fundamental [das crises e do futuro do capitalismo] em termos científicos…", vale dizer, sem trocar nem confundir "prognóstico" com desejo de "preferência". (Joseph A. Schumpeter, Ensaios, Lisboa, Celta, p. 188).

Em resumo, Marx reformulou a teoria do valor-trabalho procedente da economia política clássica (Smith e Ricardo). Nele, assim como na econômica política clássica, o trabalho é a fonte de toda riqueza humana; contudo, no capitalismo, a classe proprietária dos meios de produção (fábricas, máquinas, terra, etc.) pode contratar o único fator produtivo vivo, realmente que pode gerar mais-valor, lucro, a força social do trabalho dos despossuídos de meios de produção. Contudo, Marx foi além: ao analisar o processo capitalista em sua inteireza (produção e reprodução social), percebeu um movimento incessante de transformação do valor-trabalho em dinheiro, até alcançar os píncaros de um capital-fictício cuja teleologia baseia-se em papéis sem outro lastro senão o poder finalístico do Estado em emitir moedas e títulos públicos. Por isso, o fiador de toda e qualquer especulação sempre é o Banco Central, e a farra da desregularão financeira dos mercados teve, durante duas décadas a fio, o seu saxofonista, hoje aposentando na emissão de notas, Mr. Alan Greenspan, aquele da "exuberância irracional dos mercados".

Atualíssimo em ajudar a explicar os fundamentos da riqueza virtual de Wall Srett, Marx está a nos alertar que, através do crédito estatal e da especulação, o movimento de transformação do trabalho em moeda é substituído pelo alargamento alucinado da base monetária (a questão dos derivativos, do sub-prime, etc.). Embora notação polêmica, talvez a chamada lei do valor (a lei da produção mercantil capitalista) seja desprovida de qualquer atributo de designação à priori do conteúdo político das classes, devendo ser compreendida mais como lei de movimento do circuito de produção, distribuição, consumo, entesouramento e "fictização" da riqueza. Portanto, pode até não ter lugar uma revolta do trabalho, mas a análise de Marx é imprescindível na compreensão da crise.

Vale à pena observar que Marx estudou as crises do capitalismo em seu período concorrêncial (da primeira revolução industrial até, no máximo, a grande depressão de 1776/92), numa fase histórica em que o fenômeno dos ciclos de crise emergiu de maneira selvagem. De lá para cá, pencas de economistas se debruçaram sobre o tema, formulando elementos práticos de uma teoria, dia-a-dia mais sofisticada, de gestão das crises.

Na galeria de honra dos economistas, avulta a figura central de Keynes, especialmente as contribuições geniais do papel anticiclico da gestão planejada entre a capacidade ociosa das empresas e a demanda agregada dos consumidores, a crítica ao caráter deletério da riqueza fictícia e, last but not least, as intervenções saneadoras do Estado nos surtos de especulação financeira, chamando o feito à ordem. Por demorado, encerro o presente artigo com uma pergunta que faz pensar. Eficazes, as economias políticas de matriz keynesianas padecem, no entanto, de um sério defeito de fabricação, a merecer reflexão: as políticas keynesianas têm a propriedade de prolongar o ciclo econômico (por isso são chamadas de políticas anticíclicas), mas não logram, per si, instaurar um ciclo econômico novo. Foi assim que os mesmos Estados Unidos "prolongaram" a possibilidade do acontecimento de uma recessão no começo dos anos 60 até o final da década. Neste ínterim, residem a força e a fragilidade da base conceptual do keynesianismo. E agora, José, que a festa acabou?

Jaldes Reis de Meneses é professor dos Programas de Pós-Graduação em História e Serviço Social (UFPB).

MST

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Morre o mais famoso desmemoriado da história da neurociência

Jurek Martin

Histórias de pessoas que perdem a memória são comuns em filmes desde o cinema mudo. Em "Amnésia", longa metragem lançado em 2000 e aclamado pela crítica, o herói descobre depois da morte de sua mulher que não se lembra de nada por mais de alguns momentos. Enquanto luta para resolver o assassinato, ele grava freneticamente cada pensamento a cada descoberta, antes que seja apagado de sua mente.
Nem tudo no filme, contudo, era ficção, como acontece na maior parte dos filmes sobre amnésia. "Amnésia" foi inspirado pela vida real de um homem conhecido apenas como HM ou Henry M, cuja verdadeira identidade foi revelada apenas após a sua morte em Connecticut, na semana passada, aos 82 anos de idade. Seu nome era Henry Gustav Molaison e, sem dúvida, foi o paciente mais famoso e mais examinado na história da neurociência.
Ele nasceu no dia 26 de fevereiro de 1926, em Hartford, filho de um eletricista acádio de Thibodeux, Louisiana, e de mãe irlandesa. Em 1953, HM passou por cirurgia experimental no cérebro em Hartofrd, para corrigir ataques epiléticos, que tiveram início depois que foi derrubado por uma bicicleta, quando tinha nove anos de idade. Os ataques tinham se tornado tão freqüentes e severos que não estava conseguindo mais manter o emprego de mecânico e nenhum tratamento funcionou.
O cirurgião, William Beecher Scoville, que tinha técnicas de lobotomia refinadas, removeu dois dedos de tecido do cérebro de HM, cortando profundamente o hipocampo. Os ataques se tornaram menos freqüentes, mas a vida do paciente foi mudada radicalmente para sempre. Ele se lembrava de seu nome e de sua vida pregressa, mas quase nada do que aconteceu depois que saiu da mesa de operação. Cada experiência, cada rosto era eternamente novo para ele. O que ele absorvia ficava em sua mente por apenas 20 segundos, mas ainda assim sua inteligência básica era incomparável. Ele foi vítima de "amnésia profunda", ou, para dar o termo técnico, amnésia anterógrada severa.
Scoville, com dor na consciência, contatou dois médicos canadenses, Wilder Penfield e Brenda Milner, famosos por seu trabalho com perda de memória. Milner começou a visitar HM regularmente. Neste período inicial da neurociência, o conhecimento do cérebro era rudimentar, com amplas discordâncias sobre a causa da amnésia. A função da memória, assumia-se, era distribuída pelo cérebro e não dependente de uma região ou órgão neural.
O estudo seminal de Milner, baseado em seu trabalho com HM, foi publicado em 1962. Ele revelou que há pelo menos dois sistemas no cérebro responsáveis por criar memórias; um subconsciente, do "aprendizado motor", pelo qual as pessoas podem se lembrar como executar tarefas básicas, tais como andar de bicicleta; o outro, da memória declarativa, armazena fatos e experiências até que sejam lembrados conscientemente. Esse se baseia no hipocampo, parte do qual tinha sido removida do cérebro de HM.
Legiões de pesquisadores pousaram em Connecticut para examinar o mais famoso paciente de neurociência, que foi sempre muito atencioso, apesar de não se lembrar de seus visitantes repetitivos.
HM morou na casa dos pais e depois com outro parente, antes de eventualmente mudar-se para um asilo. Ele funcionava em um nível básico, com o que ele se lembrava de seus primeiros 27 anos de vida. Ele sabia preparar uma refeição, fazer a cama e trabalhar no jardim. Ele também era capaz de fazer palavras cruzadas, uma habilidade mais motora. Ele não tinha problemas com conversas diretas. Milner recentemente lembrou-se dele como "um homem muito gracioso, muito paciente, sempre disposto a tentar as tarefas que dava para ele. E ainda assim, toda vez que eu entrava na sala, era como se nunca tivéssemos nos encontrado".
Suzanne Corkin, que foi aluna de Milner e hoje está no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, tem lembranças similarmente agradáveis de sua longa colaboração com HM, sobre quem está escrevendo um livro. "Era como um membro da família. Talvez as pessoas pensem que é impossível ter um relacionamento com alguém que não que nos reconhece, mas eu tive". Ela acrescentou que ele tentou demonstrar reconhecimento: "Ele pensou que me conhecia do colégio".
Corkin fez arranjos para que o cérebro do paciente fosse preservado para a posteridade científica, como foi o de Einstein. Logo após sua morte, ela levou uma equipe de cientistas para tirar uma série de imagens de ressonância magnética de seu cérebro, tentando descobrir quais áreas dos lobos temporais eram danificadas.
A arte não imita a vida necessariamente em "Amnésia", mas, de acordo com um artigo da neuropscióloga Sally Baxendale, na "British Medical Journal" em 2004, é um de apenas três filmes a retratar a amnésia com algo próximo da realidade. Em geral, os roteiros retratam a perda de memória depois de um trauma e a recuperação depois de outro, ou mostram o sujeito vivendo uma vida normal, o que, segundo ela: "É neurologicamente improvável". Os assassinos da ficção, como Jason Bourne, são particularmente dados a esquecer o que fizeram.
O extenso artigo de Baxendale, apropriadamente intitulado "Memórias não são feitas disso", observa que "Amnésia" foi "parcialmente inspirado por estudos neuropsicológicos do famoso paciente HM".
Não se sabe se HM jamais usou fotografias ou palavras escritas na pele para tentar se lembrar do que esquecia rapidamente, como o personagem Leonard faz no filme, mas, na maior parte, a compreensão da amnésia profunda está correta. "A seqüência fragmentada das cenas do filme, quase um mosaico, também refletem inteligentemente a natureza perpétua da aflição", observou Baxendale.
Poderíamos especular quem poderia fazer o papel de HM em um filme. Talvez o falecido Peter Sellers, como fez com Chauncey Gardiner; ou Dustin Hoffman, que interpretou o autista sábio Raymond em Rain Man. Talvez Tom Hanks, em uma revisão de seu papel como Forrest Gump. Cada personagem, apesar de dificuldades mentais, alcançou certa serenidade, como, aparentemente aconteceu com Henry Gustava Molaison. Afinal, ele doou seu cérebro para a ciência.
Tradução: Deborah Weinberg

Financial Times

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A Revolução Mexicana em perspectiva

Grupo São Paulo

O candidato López Obrador, cuja eleição foi roubada em 2006, declarou um estado de alerta contra a eventual aprovação da reforma energética privatizadora no México, nessa primeira quinzena de setembro. Isso trouxe de volta ao cenário político internacional os reflexos positivos e negativos da revolução mexicana de 1910-1920. Nesse contexto, é objetivo desse artigo apontar possíveis limites, avanços e perspectivas desse momento histórico nos dias de hoje. A revolução, e suas ramificações ideológicas, só podem ser compreendidas se a colocarmos a partir de seus antecedentes, sobretudo no final do século XIX, quando começou a ser forjado o processo de formação do chamado capitalismo monopolista naquele país.

Nesse período, verificou-se uma tentativa por parte da chamada "elite crioula", brancos descendentes da colonização espanhola nascidos no México, da criação do que era chamado de nação mexicana. Após a independência do México, a "elite crioula" assume o poder com os liberais. Esse processo se intensifica com maior clareza no período que Porfírio Diaz, em função de uma suposta modernização do país, governou ditatorialmente o México entre os anos de 1879– 1910.

Em nome do progresso capitalista, iniciou-se então uma política de extermínio tanto de camponeses como das etnias indígenas e de suas organizações autônomas, intimamente ligadas às terras comunais. Na prática, foi uma tentativa de unificação da sociedade mexicana provocada pelo capitalismo internacional. Buscou-se a consolidação de uma democracia liberal, a partir da Constituição mexicana de 1857.

Essa visão unilateral da história do México priorizou a idéia de que uma nova nação só sairia do papel quando as diferenças fossem sobrepujadas pela noção abstrata de um contrato social entre indivíduos iguais, no qual a heterogeneidade perdeu o seu contorno em nome da homogeneidade. Os indígenas e camponeses não foram convidados para esse pacto nacional.

No entanto, continuaram resistindo movidos pela defesa de suas terras, costumes e de suas relações sociais, sendo gerado a partir daí o programa agrário da revolução. Na prática, foram os próprios povos organizados que criaram os mais importantes líderes populares desse momento histórico: Zapata e Villa. A constituição de 1917, como reflexo dessa luta, incluiu as conquistas revolucionárias expressadas e votadas pelos zapatistas, villistas e as alas radicais dos carrancistas e magonistas. Mesmo não tendo ultrapassado os marcos da propriedade burguesa, ela chegou a declarar inconstitucional uma das bases de funcionamento do capitalismo: os grandes proprietários e os latifúndios.

Foi nos anos 30, no entanto, que o então presidente Lázaro Cardenas procurou efetivar alguns fundamentos realmente populares conquistados pela revolução e outorgados pela constituição. Por outro lado, com a criação do Partido Revolucionário Institucional (PRI), os caudilhistas da revolução tentaram organizar e cooptar as forças políticas revolucionárias de fato, sobretudo camponesas e operárias, transformando-as em corporações no interior de um mesmo partido político. Foi aí que o México começou a vivenciar uma das ditaduras, fantasiada de democracia liberal e burguesa, mais longas da humanidade.

A partir de 1982, em um claro continuísmo desse longo período, intensificou-se no México o processo de desarticulação total das conquistas sociais e políticas da revolução com as pretensões privatizantes do capitalismo transnacional, dos organismos financeiros multilaterais e da tecnoburocracia. A História do México, segundo Pablo González Casanova, pode resumir-se na ocupação integral tanto da nação como do Estado, que está tendo seu compromisso cada vez mais reduzido a um mero assistencialismo transitório e particular. A privatização, nesse sentido, é o novo nome da ocupação no México.

As vertentes populares da revolução, no entanto, não se perderam. Seguiram e seguem sendo uma fonte de identidade, articulação e legitimidade para as expressões de resistência dos trabalhadores do campo e da cidade. Na expressão do Subcomandante Marcos, a luta continua a ser pela democracia, liberdade, justiça e pelo respeito às diferenças. "Não pretendemos um mundo zapatista. Não pretendemos que todos se façam indígenas. Nós queremos um lugar aqui, o nosso, que nos deixem em paz, que ninguém mande em nós. Nosso pensamento segue sendo o mesmo: não buscamos a tomada do poder, pensamos que as coisas se constroem desde baixo".

Na revolução mexicana, os camponeses contaram com uma forma de organização própria e tradicional, os Calpulli, distritos rurais autogeridos. Trata-se de uma forma herdada de séculos que o capitalismo monopolista não conseguiu eliminar. Vê-se, portanto, que a luta pela autonomia persiste e resiste até os dias de hoje, sendo esse o maior legado político deixado pela revolução.

Alejandro Buenrostro y Arellano, Guga Dorea, Marietta Sampaio, Elisa Helena Rocha de Carvalho, José Juliano de Carvalho Filho, do Grupo de São Paulo - um grupo de 10 pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

Correio da Cidadania

Comentários

Revolução no século XXI?

Entrevista ao investigador e ensaísta Néstor Kohan

Nestor KohanAgência Bolivariana de Imprensa (ABP)

ABP: - Quais são na sua opinião as vias e as formas da revolução na América Latina?
Nestor Kohan (NK): -
Na minha opinião, gostaria de destacar em primeiro lugar nessa pergunta algo que é prévio à resposta. Refiro-me à pertinência ou não da revolução… Porque, durante os últimos 25 anos, ou seja, um quarto de século, as grandes fábricas do imperialismo e também das diversas variantes do reformismo, e a social-democracia internacional, trataram de inocular no movimento popular latino-americano a peregrina ideia de que a revolução já não é viável, nem possível, nem desejável. Perguntar então quais as vias e as formas, pressupõe trazer à discussão essa violenta campanha de desarme ideológico. Esclarecido isto, parece-me, na minha modesta opinião — porque eu não sou um guru com uma bola de cristal nem um adivinho que tenha a verdade revelada de nenhum oráculo — que os caminhos e as formas do processo revolucionário latino-americano são diversas e variadas. Não se podem encapsular em receitas feitas nem em fórmulas de gabinete. As transformações sociais vêm e virão através de movimentos sociais, organizações políticas e organizações insurrectas, político-militares. Durante o último quarto de século, os “tanques pensantes” do imperialismo e da social-democracia supostamente progressista, trataram de diminuir esse leque de formas de luta, de o esmagar, de o segmentar, reduzindo-o à luta dos movimentos sociais, desprezando a organização política e deslegitimando, demonizando e satanizando, de modo absolutamente “macartista”, as formas não institucionais, insurgentes e político-militares que historicamente têm assumido e continuam a assumir a rebeldia e a resistência populares. Voltar então a recuperar o debate sobre as vias e as formas de luta e de transformação social radical, torna-se uma tarefa inadiável. Já é hora de fazer um inventário e um balanço crítico do reformismo e do pós-modernismo que tanto nos incitou a desprezar as formas politicamente organizadas da rebeldia popular (que não se limitam aos protestos espontâneos) e a recusar as vias de confrontação radical — inclusive político-militares — com os poderes estabelecidos.
ABP: - É pertinente considerar a combinação de todas as formas de luta?
NK: -
Os inimigos dos nossos povos, o imperialismo e as burguesias crioulas (erradamente chamadas “nacionais”) não renunciam a nenhuma forma de luta. Desde a construção de consenso e a submissão à hegemonia, até ao exercício da força material. Se eles usam e apresentam todas essas formas, em nome de quê deveriam os povos renunciar a certas formas de luta? Perante a violência de cima, exercida, não por um louco à solta, mas por toda uma série de instituições repressivas — polícia, forças paramilitares, forças armadas, organismos de inteligência, etc. — os nossos povos deveriam por acaso responder oferecendo mansa e submissamente “a outra face”? Não me parece justificado. Não me parece realista. Não me parece desejável.

ABP: - Como seria essa situação no caso colombiano?
NK: -
Na Argentina existia um historiador e pensador, de origem comunista na sua juventude, depois peronista revolucionário, na maturidade, que se chamava Rodolfo Puiggrós. A sua obra historiográfica é prolífica e muito polémica. Eu compartilho alguns dos seus pontos de vista, noutros casos (não no caso do populismo) tenho opiniões muito diversas das que o tornaram famoso. No entanto, gosto sempre de citar uma ideia sua: dizia o velho Puiggrós que muitas vezes nós, os argentinos, temos sido “inspectores de revoluções alheias…”. Ou seja, que, como não pudemos fazer a nossa própria revolução, vamos mundo fora de dedo em riste, inspeccionando revoluções alheias… Creio que devemos aprender essa lição. Não sou colombiano. Não conheço em profundidade a realidade colombiana. Esclarecido isto, creio, no entanto, que como internacionalistas convictos, que trazemos na cabeça e no coração a Pátria Grande latino-americana, podemos opinar sobre outros países irmãos. Creio que o povo colombiano foi um dos povos mais dignos e combativos da história da nossa América. Qualquer pessoa que esteja minimamente informada e que não tenha palas nos olhos nem receba uns dinheiritos do imperialismo, sabe perfeitamente que a violência na Colômbia não foi iniciada pelo povo, mas sim pelas classes dominantes, com o assassinato do caudilho popular Jorge Elieser Gaitán em 1948. Qualquer pessoa que não tenha vendido a caneta nem a consciência aos grandes monopólios de (in)comunicação, nem repita como um papagaio submisso as suas propagandas, desenhadas a partir duma estratégia de “guerra psicológica”, sabe perfeitamente que na Colômbia as organizações político-militares nasceram há várias décadas e que nunca tiveram nada a ver com a máfia nem com o narcotráfico. Portanto, se na Colômbia, apesar das inumeráveis campanhas militares de extermínio contra o povo, levadas a cabo por vários governos formalmente “constitucionais” mas desavergonhadamente financiados pelos EUA, continuam a desenvolver-se diversas formas de protesto popular (desde a mobilização estudantil, a greve operária, o protesto sindical urbano, a rebeldia indígena, as ligas agrárias e camponesas, até às lutas guerrilheiras, isso não corresponde a nenhum “complot” duns monstros irracionais ou delirantes. Para compreender a história da América Latina é preciso deixar de lado a deformante estética de Hollywood e a sua eterna “conspiração” internacional de monstros malditos que pretendem acabar com a vida aprazível das famílias norte-americanas. Colômbia é parte da nossa América. Ali proliferam diversas formas de luta popular. Os sectores progressistas e honestos, que não cedem à chantagem da maquinaria de guerra psicológica do Comando Sul do Exército norte-americano e dos seus organismos de inteligência, não só não deveriam demonizar essas lutas mas, na minha modesta opinião, deveriam apoiá-las.
ABP: - Como deve enfrentar-se hoje o terrorismo de Estado e o intervencionismo imperialista?
NK: -
Em primeiro lugar chamando as coisas pelo seu nome. Quando os norte-americanos intervêm, não estamos perante a “defesa dos direitos humanos”, mas perante uma intervenção imperialista. Não se metem nos outros países em nome da “racionalidade liberal” para enfrentar o fundamentalismo. Fazem-no para defender os seus interesses, impondo pela força o seu “american way of life” e os seus negócios. Em segundo lugar, quando o Estado de qualquer país da América Latina utiliza as suas instituições permanentes, formadas por dezenas e centenas de milhares de pessoas, profissionais e treinadas, que estudam como vigiar, como bater, como reprimir, como matar, como assassinar, devemos chamar as coisas pelo seu nome. Isso não é “segurança”. Isso é repressão. Isso é violência de cima. Isso não é “democracia”, isso é terrorismo. Devemos pôr fim à legitimação da violência de cima contra o povo. Para enfrentar a violência dos Estados e a intervenção do imperialismo, todas as formas de rebeldia, resistência e solidariedade popular são legítimas. Desde as grandes campanhas de repúdio, as mobilizações sobre as embaixadas ianques, as greves, os protestos e também a resistência armada. A violência dos povos é uma justa resposta a uma violência sistemática implementada contra os povos. Quem disse que a única violência legítima é a que se exerce para manter e reproduzir o capital?

ABP: - Tem alguma opinião sobre o debate em torno às FARC e à luta armada, que recentemente teve lugar entre o comandante Fidel Castro e o sociólogo James Petras?
NK: -
Essa é uma pergunta extremamente difícil, devo reconhecer. É-me difícil opinar, porque o tema é complexo e porque além disso sinto-me muito vinculado a ambos os polemistas. No caso de Fidel, não apenas lhe dedico uma admiração pessoal e um carinho que não posso nem quero dissimular como, além do mais, o considero um mestre. Não só meu, mas de várias gerações de revolucionários da nossa América. Já o disse em vários artigos publicados em Cuba, na Venezuela e na Argentina. Também condensei essa opinião num livro dedicado à biografia de Fidel (intitulado “Fidel para principiantes”, para o qual passei anos a ler e a estudar os discursos de Fidel e muitíssima bibliografia sobre a sua vida e sobre a história da revolução cubana). Tive a imensa honra de o conhecer pessoalmente em 2001 e de conversar longamente com ele. Uma experiência absolutamente inesquecível, que continua a emocionar-me cada vez que o recordo. Tenho realmente muito carinho por Fidel. Digo-o sem diplomacia nenhuma. É o que sinceramente sinto e o que penso. Sempre defendi Cuba e a sua revolução socialista e continuarei a fazê-lo.
Quanto a James Petras, também o conheço pessoalmente há aproximadamente 15 anos, desde uma visita que fez à Argentina. Estive com ele várias vezes na Havana e em Caracas. James foi sempre muito corajoso. Nos anos 90, quando toda a gente se tornou neoliberal ou social-democrata, Petras continuava a denunciar o imperialismo e a domesticação dos intelectuais “aggiornados”. Creio que Petras sempre foi um defensor sincero da revolução cubana. Não de maneira hipócrita, para ser convidado para eventos e grandes hotéis, mas por convicção. Petras tem um estilo muito aguerrido nas polémicas, é ácido, é irónico (domina a ironia, não apenas em inglês, mas também em espanhol, o que é difícil, pois não é a sua língua). Por vezes, o estilo extremamente ácido de Petras magoa, ofende ou incomoda (o que nem sempre é o melhor, se queremos convencer o outro), mas muitas vezes, por detrás desse estilo discutível, há verdades fortes e muito bons fundamentos. Recordo as suas polémicas dos anos 90 e as suas contestações ácidas dos que pretendiam deixar de questionar o imperialismo.
Li algumas partes da polémica. Não estou certo de tê-la lido integralmente, talvez haja intervenções que me falta consultar.
O primeiro que poderia dizer, sublinhando uma vez mais a complexidade do problema abordado e a dificuldade de opinar a esse respeito, é que é muito saudável que haja polémica entre os revolucionários. Se há polémica, é porque o marxismo está vivo e a revolução está viva. Se há polémica, é porque o pensamento radical — onde se encontram tanto Petras como Fidel — não morreu e continua na luta. Bem-vinda seja então a polémica fraternal entre companheiros e irmãos da mesma causa!
Em segundo lugar, acrescentaria que Fidel tinha exprimido a mesma opinião sobre a possível caducidade da luta armada já antes da morte do comandante Marulanda. Nos últimos anos, Fidel veio duas vezes à Argentina, se bem me lembro. Uma vez, esteve em Buenos Aires, outra em Córdoba. Juntamente com milhares e milhares de jovens, fui aos dois actos. Não podia perdê-los. Escutar Fidel é um privilégio. Compartilhei grande parte do que disse. Mas devo confessar, para ser sincero, que não gostei nada quando afirmou que a luta armada era coisa do passado. Não me pareceu uma formulação feliz, sobretudo tendo em conta que o seu auditório não era de velhos nostálgicos que recordavam os anos 60 (embora também houvesse esse tipo de público) mas de jovens que começavam a ter as suas primeiras experiências políticas após a rebelião popular de 19 e 20 de Dezembro de 2001. Jovens que hoje pensam em como organizar forças sociais revolucionárias na Argentina. Muitas vezes, correntes reformistas ou populistas, maioritariamente institucionalistas e inclusive arregimentadas pelo Estado e pelos partidos burgueses, disseram-nos, na Argentina “o que vocês pensam está certo, mas é romântico, velho e antigo, lembrem-se do que disse Fidel quando cá veio…”. Essa formulação infeliz de Fidel, pouco justificada e até incompreensível, se a analisarmos na óptica dos movimentos populares (não na lógica estatal da diplomacia ou da razão de Estado), serviu para legitimar o governo de Kirchner e também para combater qualquer opção de mudanças de fundo, radicais e revolucionárias, no nosso continente. Embora sendo absolutamente defensores da revolução cubana, com a cabeça e com o coração, com a militância e com as ideias, nos livros e na militância da vida quotidiana, essa formulação de Fidel não nos ajudou nem nos ajuda.
Acaso desapareceu a selvagem política de “segurança” (leia-se repressão) das burguesias crioulas (burguesias lumpen, como as chamavam Ruy Mauro Marini e André Gunder Frank) na América Latina? Já não há violência de cima contra os nossos povos, no nosso continente? Pode-se mudar o mundo sem revolução (como propõe por aí John Hochoway…)? Pode acaso haver revolução sem confrontação social, sem exercício da força material e sem grandes choques de classe? Pode-se recuperar para o povo o que as burguesias e o imperialismo historicamente lhe expropriaram sem enfrentar por todos os meios possíveis o Estado burguês e as suas instituições de repressão?
As respostas, no meu modo de ver, não são positivas, pelo contrário. Sem revolução não poderemos expropriar os grandes ricaços, resistir ao imperialismo, defender os nossos recursos naturais e sociais, fazer respeitar as nossas pátrias nem construir o socialismo! Recordo e trago à colação o testemunho do embaixador norte-americano — homem sinistro da CIA — no recente documentário “Salvador Allende”. Recordando o que sucedeu no Chile, este cínico agente da CIA em Santiago, organizador e executor do nascimento a sangue e fogo do neo-liberalismo à escala mundial em Setembro de 1973, declarou perante as câmaras desse conhecido documentário o seguinte (cito de memória): “Nenhuma classe social se suicida. Que queriam inventar? Isto já foi demonstrado por Lenine”. Como dizem os advogados: perante a confissão não são necessárias provas. Se os imperialistas o reconhecem…
Fidel sabe-o melhor que ninguém. Basta consultar os seus formidáveis discursos após a morte do seu querido amigo e companheiro Salvador Allende… não aprendemos nada com aquela experiência? Hoje, na Bolívia, na Venezuela, na Colômbia e em vários outros países volta a colocar-se o problema de forma urgente. Proliferam outra vez as ilusões sobre a suposta “neutralidade profissional das Forças Armadas”, na Bolívia e noutros países. É verdade, a história nunca se repete, mas devemos aprender com ela.
Em terceiro lugar, alega-se que “já não há condições para a luta armada”. Isto é verdade? Talvez possa ter sido verdade nos anos 90, quando proliferava e reinava o neo-liberalismo mais furioso e agressivo (ainda assim, naqueles anos — 1994, se não estou em erro, apenas cinco anos depois da queda do muro de Berlim — os zapatistas desafiaram as circunstâncias, espingarda na mão, e começaram a desmontar a euforia neoliberal, acompanhando desse modo a persistência irreverente e até então solitária da insurreição colombiana). Mas, no século XXI, é claro que a situação mudou. Não se pode esconder. Hoje há uma viragem à esquerda em todo o continente. Já não estamos nos 90. Pelo lado revolucionário ou pelo lado reformista, os “neoliberais clássicos” retrocedem. Graças ao comandante Hugo Chávez e à revolução bolivariana, hoje volta-se a discutir o socialismo (palavra proibida nos anos 90…) na agenda latino-americana. Hoje há novas gerações que avançam, deixando para trás o pessimismo e a resignação dos anos 90. Além disso, actualmente o imperialismo sofre uma crise tremenda, estamos longe da euforia de Francis Fukuyama, que vaticinava o reinado indiscutível e eterno dos EUA.
Para quê dizer então que “não há condições”? Para quê continuar a repetir um slogan dos anos 90, quando a situação mudou de forma tão notável? Só se poderá explicar pela lógica diplomática e pela razão de estado. Mas acontece que o próprio Fidel foi o grande mestre que nos ensinou a desprezar essa lógica, dando ímpeto ao internacionalismo militante nas épocas mais obscuras! Aprendemo-lo com ele e com o Che! Porque abandoná-lo e subordinar-se à razão de estado e às conveniências geopolíticas ou diplomáticas?
Penso, inclusive, que se não houvesse condições… não teríamos que tentar criá-las? Não foi a revolução cubana a grande mestra que nos ensinou que não devemos ajoelhar-nos perante o culto cego e fanático das “condições objectivas” (tão cultivadas pelos manuais do marxismo ortodoxo da antiga União Soviética, questionados ácida e mais que justamente por Fidel e por Che)?
Em quarto lugar, emerge a questão da hegemonia. A esta altura da história, já é bem claro que o capitalismo não cai sozinho. Basta de catastrofismo determinista e economicista! Por mais crise económica que haja (inclusive perante uma crise tremenda como a actual, só comparável com a de 1929), o sistema do capitalismo não se derruba se não houver organização, construção de força social e apoio popular que o empurre e o derrube. A teoria da hegemonia de António Gramsci parece-nos de uma actualidade espantosa. Ganhar mentes, corações e espíritos — ou seja, lutar no terreno da subjectividade popular — é a grande tarefa. Fidel compreendeu-o de maneira clara e transparente. É um mestre. Chama-lhe batalha das ideias, utilizando a terminologia de José Martí. É a luta pela hegemonia. Está muito bem. Nada mais urgente na época da imagem e dos grandes multimédia da (in)comunicação.
Ora bem. A batalha de ideias e a luta pela hegemonia, urgentes, inadiáveis, insubstituíveis, não excluem nem cancelam a violência revolucionária. António Gramsci era muito claro quando nos ensinou que hegemonia é uma combinação de consenso e violência. Nunca há consenso puro, como também não existe violência pura. Há sempre uma combinação de ambos. Nem o regime mais despótico (pensemos em Pinochet ou Videla) subestimou a construção do consenso. Nem os regimes mais “pacíficos” (pensemos na Suécia ou na Noruega, paraísos desejados por todo o social-democrata que se preze) cancelam a violência. O político social-democrata e pacifista Olof Palme morreu de morte natural? Em França não há serviços de inteligência? Não há polícia na Alemanha nem grupos de choque anti-distúrbios? No estado espanhol não se tortura e não se reprimem as manifestações?
Todo o projecto revolucionário na nossa América deve combinar a batalha das ideias, a luta pela nova hegemonia, a criação de consenso com a estratégia de confrontação e a utilização de todas as formas (actuais ou potenciais, conforme o país) de luta. Preparar-se em todos os terrenos é a grande tarefa do momento.
Em quarto lugar, fala-se da insurreição colombiana e aconselha-se a renúncia à luta armada. Isso foi a primeira coisa que Fidel disse. Respondendo às críticas que recebeu, esclareceu mais tarde que não deveriam entregar as armas, embora a ideia de certo modo rondasse a polémica, e por isso teve que a esclarecer, de contrário não seria preciso.
Perguntemo-nos, então: deveriam entregar as armas? Em nome de quê? As guerrilhas devem render-se? Por acaso já há garantias democráticas, participação popular, nível de vida digno para os humildes, respeito para com as mulheres, defesa do meio ambiente e soberania completa para o povo colombiano? Acabaram-se os paramilitares? Já não há presos políticos na Colômbia? Todos os torturadores, violadores e assassinos da motosserra foram julgados e encarcerados?
Porque exigir à guerrilha que se ajoelhe sem condições? Esquecemo-nos dos 5.000 assassinados da União Patriótica, quando as FARC tentaram uma saída política e foram aniquilados como moscas perante o silêncio cúmplice de grande parte do progressismo ilustrado e bem-pensante? Alguém pede ao exército colombiano, por exemplo, que deposite as armas numa praça de Bogotá? Qualquer pessoa com bom senso acharia um despropósito. Não é verdade?
A legitimidade da insurreição colombiana não se pode anular por decreto. Além disso, a melhor maneira dos ianques não dirigirem a sua energia repressiva e contra-revolucionária sobre o heróico povo cubano, que tão valentemente resistiu durante tantos anos ao bloqueio, é manterem-se as actuais resistências anti-imperialistas (Colômbia, Palestina, Iraque, Afeganistão) e surgirem até novas resistências. Que a insurreição colombiana — especialmente as FARC— continue a existir e a desenvolver-se, é a melhor garantia para que a Venezuela bolivariana não seja cercada pelo fantoche dos ianques Uribe, e assim possa aprofundar o seu processo. A continuação das FARC é a melhor forma de garantir que os ianques tenham que dispersar forças, contribuindo desse modo para que a Cuba de Fidel se mantenha firme, sem ceder um milímetro, como sempre fez. Essa era precisamente a estratégia do Che na sua “Mensagem aos povos do mundo através da Tricontinental”: multiplicar as lutas para dispersar a força do inimigo. Hoje não é o Vietname, mas a Colômbia, a Palestina, o Iraque, o país basco e o Afeganistão. A estratégia do Che continua a ser actual e pertinente, adaptada à nossa conjuntura.
Hoje, a melhor defesa de Cuba passa pela continuidade das lutas sociais radicais, sindicais, camponesas, estudantis e político-militares, contra o capitalismo e o imperialismo em toda a América Latina, incluindo a resistência armada dos guerrilheiros e das guerrilheiras colombianas! Fraco e magro favor fariam a Cuba as FARC se abandonassem a luta armada, na minha modesta opinião.
Em quinto lugar, considero um erro — produto de todo o exagero que costuma acompanhar as polémicas — contrapor as virtudes de Marulanda sobre as do Che, como por momentos parece sugerir um dos escritos de Petras. É preciso escolher um ou outro? Sinceramente, não me parece. Ernesto Guevara e Manuel Marulanda são dois dos grandes símbolos do melhor que o nosso continente produziu. A juventude de todo o mundo (incluindo a cubana e a argentina) deveria aprender de ambos, não de um ou de outro. Fidel é também outro desses mestres, embora se possa divergir fraternal e respeitosamente dele numa opinião pontual.
ABP: - O governo colombiano vaticina o ocaso definitivo das FARC. É realista, esse diagnóstico?
NK: -
Reitero que não sou colombiano e que também não aspiro a ser inspector doutras realidades. No entanto, pelo pouco que conheço, na Colômbia esses vaticínios triunfalistas já são habituais e até “folclóricos”: diversos governos anunciaram, durante décadas, a morte de Marulanda uma quantidade inumerável de vezes, muitíssimo antes do seu recente falecimento. Esses vaticínios dão vontade de rir. Era o que fazia o tirano Somoza, pouco antes de ser derrubado pela revolta sandinista. Somoza dizia “são uns foragidos, já estão derrotados”, pouco tempo antes de cair. Eu não compraria “carne podre”, como costumam dizer os jornalistas na Argentina (isto é: informação falsa, sem veracidade). A derrota final, o ocaso final e a dissolução da guerrilha das FARC tem mais a ver com os desejos dos narco-guerrilheiros e com toda a política mafiosa dum governo ilegítimo (questionado pela Supremo Tribunal de Justiça colombiano) que com a verdade histórica. Quanto à delirante e macartista acusação do governo colombiano e do seu patrão ianque, que acusam as FARC de ser um grupo “terrorista”, limito-me a recordar a análise do livro do brilhante intelectual norte-americano Noam Chomsky “Estados canalhas” (editorial Paidos) que demonstra de forma contundente e demolidora que as FARC não são terroristas, traficantes, nem nada parecido.

ABP: - A crise financeira do capitalismo coincide com o fim das FARC?
NK: -
A crise financeira só agora começou. É mais que provável que se agrave. Até os jornais mais conservadores e neoliberais o vaticinam. Esse fenómeno do capitalismo não tem nada a ver com uma suposta derrota das rebeliões e rebeldias populares, incluindo a luta da insurreição colombiana das FARC. Enquanto o capitalismo está em crise, as rebeldias aumentam e crescem, acompanhadas de novos sujeitos sociais que começam a lutar (o caso dos indígenas colombianos é muito expressivo neste sentido). Portanto, essa suposta coincidência não o é, do meu ponto de vista.
ABP: -Alguns sectores da esquerda consideram que as FARC devem terminar com a luta armada e entregar todos os prisioneiros de guerra sem condições. Que opina a esse respeito?
NK: -
O desejável seria que todos os seres humanos vivessem no planeta Terra de maneira harmoniosa e pacífica. Quem pode desejar o contrário? Só um louco ou um perverso. Mas lamentavelmente vivemos desde há milénios em sociedades divididas em classes sociais, com exploradores e explorados, com gente que exerce o poder e gente que resiste. Enquanto existam classes sociais antagónicas haverá contradições e confrontações, haverá lutas de classes. A forma mais aguda dessas confrontações sociais, segundo António Gramsci, é a guerra civil. Lenine — peço desculpa por citar alguém tão importante e tão demonizado… mas já é altura de começar a recuperar tudo o que perdemos no terreno teórico durante os últimos 25 anos — considerava que as guerras civis se desenvolvem, não entre uns quantos loucos à solta, por um lado, e todo o povo, pelo outro lado, mas entre duas partes do povo. As guerras civis reais, não a das ilustrações e dos livros de epopeia ou dos filmes de Hollywood, desenvolvem-se entre duas partes do povo. Nessas guerras, nessas confrontações de classe, nessas lutas de classe, surge o problema dos prisioneiros. Não pode apelar-se a um falso e hipócrita humanitarismo ao estilo da ONU ou do Vaticano, pondo dum lado “vítimas inocentes e virtuosas” e do outro lado “guerrilheiros monstruosos”, representantes do “eixo do mal”. Essa imagem macartista e maniqueísta, que lamentavelmente conseguiram instalar muitos monopólios da (in)comunicação, é insuportável, e sinceramente provoca náuseas.
Além disso, no meu país toda a gente comentou que quando a senhora Ingrid Betancourt apareceu perante os meios de comunicação, surgiu elegante e luminosa. Não tinha nada a ver com a propaganda duma mulher maltratada, à beira da morte. Para ter aparecido assim da noite para o dia quase como um modelo televisivo, não a devem ter tratado mal os insurrectos, não é verdade? Isso mesmo comentou muita gente na Argentina, inclusive gente que não é de esquerda nem simpatiza com o socialismo. Trata-se duma evidência para qualquer um.
Então, o problema dos prisioneiros e das prisioneiras deve analisar-se do ângulo da luta de classes do povo contra os exploradores, evitando o falso atalho da CNN e doutras agências similares que manipulam a verdade e constroem o que eles querem para convencer milhões.
Nunca entendi porque deveriam as FARC entregar os prisioneiros militares (colombianos ou ianques, que hoje participam e actuam na guerra civil colombiana) a troco de… nada! De nada? Não há insurrectos, prisioneiros nos cárceres da Colômbia? Ninguém reparou que há mais de meio milhar de combatentes presos nas piores condições imagináveis? O próprio governo de Uribe vangloria-se publicamente de ter aprisionado, durante o seu primeiro governo, nada menos que 150.000 (cento cinquenta mil) civis, muitos deles acusados de supostos “vínculos com as FARC”. Porque é que ninguém falou, durante a crise do caso Betancourt, das prisioneiras políticas do povo, violadas nas masmorras do regime de Uribe? Houve muitas missas hipócritas (a uma delas assistiu a presidente argentina Cristina Kirchner, diga-se de passagem…). Missas e velas que pediam a liberdade duma só parte. O humanitarismo vê dum só olho? É um humanitarismo vesgo? Por que não faziam missas pelas prisioneiras políticas torturadas e violadas? Não existem? Isso só se explica pela hipocrisia duma moral burguesa (falsamente religiosa) que, repito, simplesmente dá náuseas e vontade de vomitar.

ABP: - Muitos movimentos actuais falam sempre da unidade. Quais seriam na sua opinião os passos práticos para esse objectivo?
NK: -
A unidade é incontornável. Mas não a unidade com os poderosos, não a unidade com a burguesia, mas a unidade das rebeldias, unidade da esquerda social, da esquerda política e da esquerda insurrecta. As três são dimensões duma mesma batalha anti-imperialista e anti-capitalista. Os passos concretos poderiam ser construir uma agenda mínima de mobilizações a nível continental contra o imperialismo, pela defesa dos recursos naturais, pela defesa dos presos políticos do povo. Unidade concreta entre as coordenações da Via Camponesa, da Coordenadora Continental Boliviana, do Encontro do Cone Sul e doutras experiências de articulação a nível latino-americano.
ABP: - A Coordenadora Continental Boliviana tem uma proposta para criar o Movimento Bolivariano. Como avalia essa iniciativa?
NK: -
Creio que é uma proposta interessante. Pode ajudar a confluir na grande torrente da luta contra os poderosos do norte, porque o novo governo de Obama continuará esmagando e dominando os nossos povos. Devemos preparar-nos para enfrentar um império com cara “multicultural”, presidente negro, generais gays, torturadoras mulheres… Construir um movimento bolivariano onde convirjam diversas rebeldias, pode ser um passo importante para a unidade anti-imperialista continental.
ABP: - Que opinião tem sobre constituir o dia 26 de Março como dia universal do direito à rebelião armada?
NK: -
Se não estou mal informado, essa data foi escolhida por causa da morte do comandante Manuel Marulanda Velez. Creio que é uma boa escolha. Recordemos que o dia 8 de Março foi escolhido pela revolucionária comunista Clara Zetkin como dia universal da mulher. Talvez esta nova data se transforme com o tempo numa data emblemática…
ABP: - Que lhe dizem estes três nomes: Bolívar, Marulanda e Che?
NK: -
Os três sintetizam a história da nossa América. Bolívar, juntamente com San Martin, Tupac Amaru, Bartolina Sisa e Toussaint de Louverture, sem esquecermos Artigas, Mariano Moreno ou Manuel Rodriguez, entre muitíssimos outros, significa o momento da primeira independência americana. O Che sintetizou o momento mais alto, a nível mundial, da rebelião pela segunda independência. Manuel Marulanda, tão demonizado, tão injustamente “esquecido”, mas ao mesmo tempo tão admirado pelos seus companheiros e companheiras, é o nome que sintetizou a continuidade da luta revolucionária do Che nos tempos do neo-liberalismo, pós-modernismo, social-democracia e contra-revolução “democrática”. Todos esses nomes são grandes mestres, espelhos onde as novas gerações de jovens rebeldes deveriam rever-se. Nenhum deles morreu! Todos estão vivos, acompanham-nos dia a dia nas novas rebeliões do século XXI pela Pátria grande, pela luta anti-imperialista, o homem novo, a mulher nova e o socialismo.

Esta entrevista foi publicada pela Agência Bolivariana de Notícias
Tradução de Luzia Paramés

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Por que o espectro de Trotsky segue rondando o mundo?

Mário Maestri

Uma resposta a Miguel Urbano Rodrigues.

Em 21 de agosto de 1940, quando Trotsky morria assassinado, o movimento que organizara pela revolução mundial e contra a burocracia stalinista bordejava o imenso buraco negro que seus opositores lhe haviam aberto. Durante a Segunda Guerra e nos anos que a sucederam, as já desmilingüidas fileiras da apenas-fundada 4ª Internacional foram quase varridas da Europa pela repressão burguesa e stalinista.
A contribuição da população soviética e do operariado comunista europeu na vitória sobre o fascismo cobriram de prestígio a direção stalinista. Em março de 1953, quando Stálin morreu, as forças contra as quais Trotsky combatera viviam verdadeiro apogeu. Multidões de populares desfilaram diante do corpo do “Pai dos Povos” enquanto jorravam elogios mundiais de acólitos. As direções stalinistas dirigiam a URSS, a China, o Leste Europeu e milhões de trabalhadores no coração e na periferia do capitalismo.
Nesse então, os poucos milhares de militantes trotskistas que continuavam denunciando políticas que apontavam como suicidarias para os trabalhadores seguiriam sendo caluniados, reprimidos, assassinados. A construção de movimento revolucionário em momento de expansão do capitalismo, sem raízes orgânicas com o grande operariado, sob o tacão do prestígio stalinista, sem dirigentes fogueados nos confrontos da primeira metade do século mostrava-se missão quase impossível.
O humilde túmulo com a foice, o martelo e o nome Trotsky, no jardim da pequena morada transformada em bunker na periferia da capital mexicana, era metáfora da agonia que vivia uma memória e um ideário que nas décadas seguintes interessariam talvez apenas a historiadores. Uma pregação que parecia destinada ao culto de grupinhos de sectários atraídos pelo calor decrescente obtido na adoração passiva de ideal que refulgira no passado.
O Homem Põe, a História Dispõe
Às portas dos setenta anos da morte de Trotsky, a história arranjou-se para que seu ideário galvanize centenas de milhares de ativistas sociais, jovens e adultos, estudantes, intelectuais e trabalhadores, enquanto que o representante das práticas que combateu, desacredito, encontre apenas raros defensores oblíquos, disfarçados e envergonhados. Singular inversão que se materializou em menos de três dramáticas décadas. Na França, as organizações trotskistas já superam o antigo poderoso PCF, sob o perigo da extinção. Em 2007, seu candidato à presidência obteve 1,93% dos votos. Na Itália, militantes inspirados no ideário de Trotsky defendem em crescente número e destaque a herança liquidada por um PCI transformado em braço do capitalismo e imperialismo.
Em artigo recente, “Apontamentos sobre Trotsky – O mito e a realidade”, Miguel Urbano Rodrigues registra a perplexidade da geração de comunistas educada sob a pesada sombra do PC Russo diante da incrivelmente “tenaz sobrevivência […] do nome e de algumas teses” de Trotsky “no debate de idéias contemporâneo”. Miguel Urbano é velho e brilhante intelectual do pequeno e combativo Partido Comunista Português que, com reais vínculos com a diminuta classe operária lusitana, resistiu com brio à degringolada colaboracionista eurocomunista, sem realizar entretanto a catarse de heranças e práticas que contribuem para mantê-lo no isolamento relativo. Fundado em 1921, nas eleições legislativas de 2005, o PCP obteve 7,60% dos sufrágios.
O ensaio de Miguel Urbano de explicação do crescente prestígio de Trotsky e multiplicação de seus seguidores repete a tradicional pragmática stalinista, apenas depurada das suas mais esdrúxulas excrescências. A apologia de Trotsky seria obra sobretudo de “intelectuais burgueses” interessados em “combater a URSS” e a “herança da Revolução de Outubro”. O combate que lhe deu o stalinismo contribuiria também a esse reconhecimento! Como pouco se lê, pouco se reedita, pouco se publica sobre Trotsky, seu prestígio seria simples mitificação, na qual incorreriam sobretudo trotskistas em sua “maioria” “pequeno-burgueses enraivecidos” que, logo “voltam a integrar-se no sistema após uma breve militância pseudo-revolucionária”.
Se a calúnia e a repressão aos trotskistas resultassem em difusão e apoio, a Rússia seria hoje a pátria da 4ª Internacional, tamanha a sanha stalinista contra a memória do construtor do Exército Vermelho e seus seguidores na antiga URSS! Apenas no Brasil, onde são escassas as edições marxistas, entre outras obras, foram recentemente reeditadas a biografia de Isaac Deutscher [Civilização Brasileira], a Revolução permanente [Expressão Popular], a História da revolução russa [Sandermann], Literatura & Revolução [Zahar]. Movimento editorial substancialmente ainda mais dinâmico em países como a França, Itália, Espanha, Alemanha, Argentina.
A afirmação de Miguel Urbano que sobre “o homem e a [sua] obra não foram nas últimas décadas publicados livros importantes que acrescentem algo de significante aos produzidos pelos seus biógrafos, nomeadamente a trilogia do historiador” Isaac Deutscher” [1907-1967], deve-se à ignorância do jornalista que, sintomaticamente, constrói seu artigo sobretudo apoiado na obra do historiador polonês, dos anos 1950-60, sem qualquer referência à monumental biografia do historiador marxista Pierre Broué [1926-2005], de 1988, autor igualmente de, entre outros, Communistes contre Staline : Massacre d’une génération, de 2003. Esta afirmação de Miguel Urbano, como a sobre a escassa reedição de obras de Trotsky, devem-se certamente a uma espécie de cegueira seletiva.
Pro Outro Lado da Trincheira
Não há dúvidas que nos últimos anos alguns militantes de destaque mudaram-se de mala e cuia para o outro lado da trincheira, após militâncias não tão breves em organizações trotskistas. Talvez o caso mais célebre seja o ex-primeiro ministro francês Lionel Jospain, antigo militante lambertista infiltrado no Partido Socialista. No Brasil temos também algumas dezenas de semelhantes trânsfugas, que pularam a cerca para se entregarem aos doces prazeres da gestão do poder, participando gostosamente nos governos neoliberais de Lula da Silva, com destaque para Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, e Luís Gushiken, também lambertistas.
Igual trajetória percorreu a imensa maioria dos dirigentes dos partidos comunistas burocratizados do Oriente e do Ocidente, que abandonou a trincheira momentos antes e sobretudo durante a maré contra-revolucionária vitoriosa dos anos 1980. Porém, nas filas stalinistas, a traição-deserção não foi fenômeno individual, mas movimento social de centenas de milhares de burocratas russos, ucranianos, poloneses, húngaros, iugoslavos, chineses, etc., que participaram ativamente do processo de restauração capitalistas e canibalização das riquezas sociais, passando a constituir um dos eixos centrais da nova classe proprietária.
Nos partidos comunistas ocidentais não foi diferente. Apenas um exemplo excelente. Massimo D’Alema, o jovem ex-dirigente do PCI, participou à cabeça do governo italiano do ataque militar imperialista ao pouco que sobrava da antiga federação iugoslava. Hoje com pouco mais de oitenta anos, Miguel Urbano certamente conheceu e conviveu com boa parte dessa direção vira-casaca, à qual negou-se a seguir, perseverando em seus compromissos.
Sempre segundo o articulista, o prestígio de Trotsky deveria-se sobretudo à mitificação sobre seu papel na Revolução Russa empreendida por ele mesmo e por autores e historiadores sobretudo trotskistas. “Duas obras do próprio Trotsky e a trilogia de Deutscher […] funcionaram também como estímulos na fabricação do mito.” Para comprovar sua tese, dedica a maior parte de seu artigo à demonstração de que Trotsky e Lênin divergiram fortemente antes de 1917 e diversas vezes após a Revolução, com destaque para a Paz de Brest-Litovski e as polêmicas sobre os sindicatos e a Gosplan [Comitê Estatal de Planejamento].
Para o jornalista português, seria igualmente despropositada não apenas naquela literatura a apresentação de Lênin e Trotsky como os dois principais dirigentes revolucionários russos. “[…] a tentativa dos seus epígonos e de historiadores burgueses de o guindar a ‘companheiro de Lênin’, colocando-o ao nível do líder da Revolução, falseia grosseiramente a história.” Miguel Urbano denuncia portanto a “idealização de Trotsky” [revolucionário de segunda linha, em relação a Lênin], definindo-o, direta ou indiretamente, como homem “vaidoso”, “arrogante”, “orgulhoso”, “autoritário” e, segundo Lênin, “canalha”, “oportunista” e “conciliador”.
Miguel Urbano impugna a “mitificação” de Trotsky e denuncia a “diabolização” de Stálin, para ele, dirigente revolucionário de alto coturno, ao qual literalmente canoniza: “[…] revolucionário cuja contribuição para a transição do capitalismo para o socialismo na União Soviética foi decisiva. Sem a sua ação à frente do Partido e do Estado, a URSS não teria sobrevivido à agressão bárbara do Reich nazi, sem ela a pátria de Lênin não se teria transformado em poucas décadas na segunda potencia mundial, impulsionando um internacionalismo que apressou a descolonização, incentivou e defendeu revoluções no Terceiro Mundo e estimulou poderosamente a luta dos trabalhadores nos países desenvolvidos do Ocidente.”
História e Luta de Classes
A compreensão das razões pelas quais o espólio de Trotsky segue galvanizando os que combatem a opressão capitalista não se encontra no exame pontilhista de sua trajetória antes e durante a Revolução Russa, tendo como o padrão referencial absoluto um Lênin idealizado e mitificado. Lênin e Trotsky, os dois maiores dirigentes daqueles embates, divergiram forte e duramente em muitíssimas ocasiões, com destaque para os anos anteriores à Revolução. As desqualificações que voaram de um lado ao outro, entre os dois, e dos dois com boa parte dos dirigentes políticos de então, registram a dureza da discussão e vertente cultural não muito sadia da época. O prosseguimento da história terminou comprovando quem tinha razão e quem se enganara nos diversos embates e que o denominador comum entre ambos foi sempre a luta intransigente em defesa dos oprimidos.
Lênin destacou-se como o principal teórico do partido revolucionário, destacamento político e orgânico das classes trabalhadoras, em geral, e de seus segmentos industriais avançados, em especial, construído para o assalto ao poder burguês e consolidação da ordem socialista. Sua contribuição sobre o centralismo democrático e a ditadura do proletariado são fundamentais à sociologia revolucionária. Lênin foi sempre sobretudo homem de partido e de organização. A sua compreensão tardia de que apenas a revolução socialista consolidaria as conquistas democráticas na Rússia tzarista ensejou que boa parte de sua publicística anterior a 1917 seja de difícil leitura e compreensão, exigindo comumente uma complexa contextualização histórica.
A história demonstrou que Trotsky não avaliou corretamente a importância do partido no assalto ao poder. Sua convergência com os bolcheviques constituiu também autocrítica nesse relativo. A seguir, abraçaria explicitamente as contribuições de Lênin quanto à organização partidária. Sua incompreensão parece ter nascido igualmente da forma de entender a sociedade. Na sua ação e interpretação dos fenômenos sociais, enfatizou sempre o movimento das massas trabalhadoras. Para ele, a revolução foi sempre processo de construção das condições objetivas e subjetivos de poder no seio das massas exploradas. Visão que contribuiu poderosamente para sua definição precoce e pioneira do caráter socialista da revolução russa.
Na mais pura tradição marxiana, Trotsky não via saúde social e política fora da materialidade das classes trabalhadoras em movimento. A visão leninista da revolução abraçava esse princípio, sem a mesma ênfase e a mesma sensibilidade. Porém, se a visão leninista da revolução enfatizava a organização partidária, a própria esquerda stalinista obliterou fortemente o caráter determinante do movimento vivo dos trabalhadores e a necessidade de sua expressão plena nos aparatos partidários e jamais substituição pelos mesmos. Na interpretação de Miguel Urbano não há aceno aos fluxos e refluxos da revolução mundial no século 20, que enquadraram-determinaram os fatos que analisa.
O Princípio e o Fim
Olvidando o movimento vivo das classes como o alfa & ômega da história, Miguel Urbano eleva Lênin – e com ele o partido – à figura de perfeição lapidar, transformando-o em verdadeiro deus ex-machina da história. Para ele, Vladimir Ulich era “genial”, “excepcional”, “habilidoso”, a tal ponto possuidor das qualidades revolucionárias que seria impossível pensar a unidade partidária sem ele. “Essa unidade na ação e no pensamento, mesmo entre os membros da velha guarda bolchevique, desapareceu quando Lênin morreu. Sem ele, era impossível.” Proposta de inexorável divisão dos bolcheviques, pois Lênin, ser humano, cedo ou tarde, morreria. Substituição dos trabalhadores na construção da história, por protagonistas magníficos, registrada já na proposta de que sem Stálin a “URSS não teria sobrevivido à agressão” nazista e se transformado “em poucas décadas na segunda potencia mundial”.
Trotsky foi dirigente revolucionário de destaque, como Lênin, sendo até a conclusão da revolução de 1917 mais conhecido do que o último no exterior. Não foi por azares da sorte que presidiu o soviet de Petrogrado, na Revolução de 1905 e de 1917. Apesar dos ataques incessantes stalinistas, sua posição referencial deve-se também a outros fenômenos, entre eles, à sua indiscutível habilidade como teórico, orador e escritor, que lhe permitiu socializar maciçamente, sob a forma de obras teóricas e históricas magistrais, a memória da Revolução Russa. A excelência de seu 1905: balanço e perspectivas, escrito inicialmente em 1906, quando tinha 26 anos, registrava já as qualidades que lhe permitiram produzir trabalhos da dimensão de A história da Revolução Russa [1930-32], obra referencial sobre 1917, na tradição das monumentais histórias da Revolução Francesa de Jules Michelet [1798-1874] e Kropotkine [1842-1921]. Devido a sua morte prematura e características individuais, Lênin não deixou obras semelhante, capazes de serem lidas à margem de esforço militante ou acadêmico.
A atualidade de León Trotsky deveu-se sobretudo à sua compreensão precoce dos perigos e das raízes sociais da burocracia na URSS, vetor da expropriação da direção política da URSS aos trabalhadores. Realidade intuída tardiamente por Lênin, nos meses e semanas anteriores ao seu falecimento. A carta de Lênin de dezembro de 1922 é incorretamente apresentada como “testamento”, pois ele jamais deixou documento de tal caráter, ao possivelmente não acreditar-se tão próximo do fim. Seu rompimento final com Stálin deu-se devido ao modo inaceitável com que tratara Natália Krupskaya [1869-1939], importante dirigente bolchevique e sua esposa. Lênin possivelmente acreditava que continuaria ainda por algum tempo arbitrando as fricções no partido, das quais não avaliou plenamente a gravidade e o sentido social.
Grande parte da produção teórica de Trotsky deu-se no contexto do combate à burocratização da URSS, nos momentos e sobretudo após a morte de Lênin. É dolorosa a leitura atual do ensaio Novo Curso, de 1923, devido à sua extrema lucidez sobre as raízes e os malefícios da perda da direção da URSS pelo proletariado, deslocado pelo aparato burocrático. Fenômeno que passou a exigir revolução política que devolvesse o poder aos trabalhadores em Estado em que a propriedade já fora expropriada. Um ensaio que ampliava a visão de Lênin do partido, ao reafirmar que sua essência dependia da capacidade de organizar e expressar as grandes massas trabalhadoras em geral e o moderno proletariado industrial em especial. Entre outros trabalhos, a crítica de Trotsky à burocratização da URSS foi ampliada em A revolução traída, de 1935, reeditada em português, em 2008, pela Centauro, que acaba de publicar igualmente A revolução desfigurada.
A Cola da Burguesia
A longa pregação sobre a necessária revolução social no Ocidente e política no Oriente constitui certamente a grande razão do crescente renascimento do interesse sobre Trotsky, quando da dolorosa concretização de seus terríveis prognósticos sobre a destruição dos Estados de economia nacionalizada e planejada, enfraquecidos pela ditadura de burocracias parasitárias. Devido à atualidade desse ideário, a burocracia soviética da era Gorbachiov reabilitou praticamente todos os bolcheviques perseguidos e assassinados pela direção stalinista, à exceção de León Trotsky e seus mais próximos seguidores, pois seguiam apontando para a necessidade da devolução plena do poder aos órgãos soviéticos, como única forma de barrar o caminho à vitória da contra-revolução e ao restabelecimento do capitalismo.
Uma terceira grande razão da atualidade de Trotsky foi sua mobilização permanente pela independência do mundo operário; sua denúncia da submissão dos trabalhadores aos setores ditos progressistas da burguesia [frente popular]; sua oposição visceral à proposta de superação gradual da ordem burguesa sem a destruição de seu Estado. Políticas transformadas em práticas oficiais dos partidos comunistas, devido às necessidades diplomáticas egoístas e imediatistas da direção soviética burocratizada. Propostas que ensejaram derrotas históricas ao movimento revolucionário na Alemanha, França, Espanha, Itália, Brasil, etc. e, nas últimas décadas, a dissolução e metamorfose dos partidos comunistas em agentes do grande capital e do imperialismo. Uma pregação e um ideário plenamente vigentes nos atuais e difíceis dias que vivemos.
A recuperação do stalinismo e de Stálin realizada por Miguel Urbano sequer necessita resposta. O literal massacre físico de praticamente toda a geração bolchevique dirigente de 1917, com destaque para o Comitê Central de Lênin; o descrédito em que lançou a idéia do socialismo e do comunismo; o descalabro a que a URSS foi exposta, no início da II Guerra, pela purga de dezenas de milhares oficiais soviéticos e confiança depositada na paz pactuada o nazismo; os malefícios da coletivização forçada dos campos; a traição à revolução espanhola, balcânica, européia, etc.; a redução do movimento comunista a simples cola das burguesias ditas democráticas; a expropriação do poder aos trabalhadores nos países operários, etc. foram políticas que levaram à destruição das conquistas de 1917, quando o dinamismo da nacionalização e planejamento da produção não conseguiu mais se sobrepor ao peso do parasitismo nacional-burocrático, como já sugerira Trotsky desde 1923!
O trotskismo constitui apenas a última extensão orgânica por um grande teórico e dirigente revolucionário dos ensinamentos acumulado na primeira metade do século 20. Nesse sentido, o ideário de León Trotsky constitui essencialmente uma valiosa ampliação das idéias e lutas de Marx, Engels, Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Lênin, Gramsci, etc., em uma nova e difícil conjuntura histórica. Sobretudo com a crise e dissolução das propostas políticas stalinistas, maoístas, titoístas, foquistas, torna-se de certo modo desnecessário o qualificativo trotskista, inventado originalmente pelos stalinistas, ao constituir um certo entrave à necessária reunificação dos comunistas revolucionários em um movimento mundial pela reconstrução da sociedade centrada nos valores, práticas e ações revolucionárias e democráticas do mundo do trabalho.

(*) Mário Maestri, 60, é historiador. E-mail: maestri@via-rs.net
RODRIGUES, Miguel Urbano. “Apontamentos sobre Trotsky – O mito e a realidade”. 11/2008. http://resistir.info/mur/apontamentos_trotsky.html

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E depois vem o resto do mundo

A economia e as relações com China, Rússia e Oriente Médio são prioridades de Obama para 2009

Paul Kennedy*

Já ficou perfeitamente claro, ao menos para este observador, que a equipe de Obama, por mais esperta, experiente e maravilhosa que seja, não pode concretizar todas as esperanças nela depositadas por americanos jubilosos, mas angustiados, e por multidões igualmente angustiadas, mas esperançosas no exterior.
Este próximo presidente, no começo ousado e inspirador em seus discursos, depois cauteloso, reflexivo e avisado em suas reconsiderações, tem o temperamento para ser um grande líder. Ao mesmo tempo, porém, ele enfrentará uma lista extraordinária de problemas e desafios no momento em que os Estados Unidos e o mundo caminham para 2009. Barack Obama precisa saber também que terá de priorizar: ele não poderá ser todas as coisas para todas as pessoas, não poderá concretizar todas as esperanças, não poderá enfrentar todos os males da Terra. Se não tiver um foco, estará perdido.
Duas áreas pedem uma atenção imediata e constante da administração Obama. Ele terá de dedicar uma boa parte de suas energias para resgatar e recuperar a economia americana e as redes comerciais e financeiras globais a ela interligadas; sem essa recuperação, estaremos todos com um problema grave. Mas Washington não pode se concentrar somente em assuntos econômicos, porque terá de dar uma grande atenção também à política global, isto é, às relações com uma China suscetível e em ascensão, com uma Rússia suscetível e cada vez mais debilitada (acreditem ou não), com o barril de pólvora do Sul da Ásia, os pavorosos campos minados árabes. Nosso novo presidente terá de avançar para o futuro com Adam Smith e John Maynard Keynes numa mão, e Carl von Clausewitz e sir Halford Mackinder na outra.
Mas se um plano de recuperação socioeconômica nacional, mais economia global e geopolítica de grande potência global estão no centro das políticas de primeiro mandato de Obama, quais questões teriam de ser relegadas para segundo plano e empurradas para a periferia? A quais assuntos uma nova administração americana bem intencionada, enormemente otimista e altamente popular não poderá dedicar muita atenção ou recursos, embora tenha de reconhecer sua importância?
A lista é longa e o espaço curto, por isso nos limitaremos às quatro áreas de política que, por relevantes que sejam para seus protagonistas, provavelmente não ficarão no topo da agenda da administração Obama. Todas são importantes, esta é minha impressão, mas duvido que qualquer uma delas receba atenção significativa. Como seria bom se eu estivesse enganado!
Primeiro, América Latina. Sempre me espantei com a pouca atenção que os Estados Unidos dedicam ao resto do Hemisfério Ocidental, particularmente a nosso vizinho do sul, o México, mas também a nações importantes como Brasil e Argentina. Minhas visitas a esses três países nos últimos anos sugerem que existe um anseio generalizado em todo subcontinente por uma relação respeitosa, equilibrada, com seu primo ianque. Mas será que Washington dará muita atenção, além de uma ou duas visitas presidenciais simbólicas? Duvido. Nós não damos à América Latina a atenção que ela merece e seria admirável se Obama pudesse romper essa maneira de pensar.
Segundo, África. Isso soa ridículo, eu sei. Toda a retórica da campanha do novo presidente sugere que o destino do continente onde ele tem raízes familiares está perto de seu coração e mente. Pode ser. Mas precisamente o que a nova administração pode fazer para auxiliar a África é um grande enigma. A melhor ajuda e mais imediata seria promover um forte aumento dos preços mundiais das commodities - café, amendoim, borracha, petróleo, madeiras nobres, fosfato - que reverteria o declínio de suas exportações, proporcionaria moedas fortes e salvaria empregos. Mas a depressão mundial corrente torna isso improvável - e os Estados Unidos preferem preços baixos para as commodities porque importam muitos desses produtos.
Também seria maravilhoso se a administração Obama pudesse milagrosamente trazer paz e segurança para regiões conflagradas que, em pura extensão, são provavelmente duas vezes maiores que a Europa. Nenhuma outra potência externa poderia fazê-lo. Um comprometimento por dez anos de 250 mil soldados americanos, com toda retaguarda logística, poderia consegui-lo. Qual a possibilidade disso? Seria mais fácil um porco voar. Num período de dois ou três anos, até onde declinará a importância da África Central para a nova administração? Não estou sendo cínico, apenas realista. Se houver uma futura grande crise envolvendo Ucrânia ou Taiwan, quando é que o próximo subsecretário de Estado para a África conseguirá falar com o presidente, se é que vai conseguir?
Terceiro, a reforma dos sistemas da Organização das Nações Unidas e de Bretton Woods. Bem, boa sorte. Todos podem ver que as estruturas internacionais econômicas, financeiras, políticas e de segurança de 1944 e 1945 estão defasadas neste século; na verdade, elas provavelmente já estavam defasadas em 1980. Um sistema de segurança global em que somente 5 de 192 nações têm privilégios especiais de participação permanente e de veto (o Conselho de Segurança da ONU) e 3 desses 5 estão vivendo um relativo declínio secular prolongado - Grã-Bretanha, França e, convenhamos, a Rússia farsesca de Putin - é um absurdo.
Como os Cinco Permanentes não abrirão mão de seus poderes, ao menos poderiam permitir que Índia e Brasil entrassem no seu clube. Mas isso provavelmente não terá destaque na lista de urgências da nova equipe administrativa de Washington. Tampouco poderá haver alguma mudança significativa no equilíbrio de poder no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional (FMI), espertamente instalados na Rua 14 NW no centro de Washington; os EUA gostam da situação atual gerada por Bretton Wood. Evidentemente, Obama encorajará o Banco Mundial a ajudar os 60 países mais pobres do mundo, e instigará o FMI para ser gentil com a Islândia. Mas esse não será um item de peso. Quanto a outras reformas da ONU - melhor cooperação para manutenção da paz, melhoria de técnicas de desenvolvimento -, sim, ótimo, mas não precisamos nos preocupar com isso.
Quarto, Europa, a União Européia (UE), relações transatlânticas em geral. Essa conclusão pode provocar reações em Berlim, Roma, Londres e Paris (o que não provoca reações em Paris?), mas suspeito que o êxtase pan-europeu provocado por Obama - lembram-se dos 200 mil fãs no Portão de Brandemburgo? - não levarão a uma identificação recíproca da Europa como a estrela-guia da futura estratégia e política externa americana. A Europa está bem como está. Ela não é um problema, como China, Rússia, Oriente Médio, Irã. Ela é cada vez menos importante como ajuda nos campos estratégico e militar. Ela é definitivamente importante em termos de coordenação econômica, mas esta é feita melhor de Nova York que do Distrito de Colúmbia. Em poucas palavras, o apreço extraordinário que a Europa tem por Obama provavelmente não será correspondido por sua própria estima pela Europa, embora possivelmente ouviremos, nos próximos anos, muitos belos discursos sobre a relação sólida e duradoura. Mas o novo presidente terá preocupações muito mais importantes.
Portanto, os especialistas estão certos: salvar a economia americana e preservar a ordem geopolítica terão de ser as prioridades gêmeas da nova administração Obama. O resto, mesmo campos importantes como África, América Latina, Europa e ONU, vem um pouco atrás. Aqueles maravilhosos e cínicos diplomatas franceses do passado reconheceriam isso. Como era mesmo aquela expressão deles? Gouverner c’est choisir: governar é escolher. Sempre foi assim.

*Paul Kennedy é professor de história na Universidade de Yale e autor, entre outros, de Ascensão e Queda das Grandes Potências (Campus). Atualmente, está escrevendo uma história da 2ª Guerra Mundial.

Estado de S. Paulo

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Setor de navegação é duramente atingido pela crise financeira global

Thomas Schulz

O setor de navegação é mais beneficiado do que qualquer outro pela globalização. Mas isto também o tornou mais vulnerável à crise econômica global. As taxas de afretamento despencaram, as companhias de navegação estão demitindo e muitos navios permanecem atracados por meses a fio.
A ansiedade teve início no verão, quando as longas filas desapareceram: filas de caminhões, com quilômetros de extensão, que aguardavam para entrar nos terminais de contêineres na região de Los Angeles, um dos gargalos mais críticos da globalização nos últimos anos, ou longas filas de navios porta-contêineres que disputavam espaço na barra do porto de Hong Kong, aguardando muitas vezes vários dias para atracar.
Mas agora o que se acumula são as mercadorias que costumavam ser freneticamente procuradas, e os produtos eletrônicos e têxteis empilham-se em fábricas chinesas, já que o consumo caiu, primeiro entre os norte-americanos e agora entre os europeus. Minério de ferro e outros minerais acumulam-se nas minas sul-americanas, porque os chineses não precisam mais tanto de recursos naturais para a fabricação de produtos.
Atualmente muitos navios navegam carregados pela metade. Isso quando chegam a deixar o porto. As companhias de navegação estão tirando cada vez mais navios de circulação, devido à falta de demanda, e ancorando-os por tempo indefinido. Os especialistas calculam que um quarto de todos os navios usados para transportar matérias-primas pelo Oceano Pacífico encontra-se parado.
Até recentemente a navegação era indubitavelmente uma próspera indústria da globalização, o pulso acelerado desse processo, injetando cada vez mais mercadorias no mundo em um ritmo cada vez mais acelerado. Mas a crise financeira fez com que essa atividade sofresse uma paralisação inesperada. Embora a pulsação do setor continue existindo, não se trata mais do pulso rápido e poderoso de um corredor. Ao contrário, lembra mais o pulso de um paciente em coma.
Durante meses, os preços vêm caindo no setor. Na primavera deste ano, grandes companhias de navegação comercial como a Maersk e a Hapag-Lloyd ainda estavam cobrando cerca de US$ 2.000 (€ 1.600) para transportar um contêiner da Ásia para a Europa. Atualmente, algumas companhias ganham apenas US$ 500 (€ 400) pelo mesmo serviço. Na primavera, o preço diário do afretamento de um navio contendo 2.500 contêineres standard (TEU) era US$ 30 mil (€ 24 mil). Hoje esse valor caiu para menos de US$ 12 mil (€ 9.600). Em junho, a taxa diária de afretamento para o transporte de commodities na classe Panamax era de US$ 64 mil (€ 52 mil). Atualmente paga-se diariamente por esse serviço menos de US$ 11 mil (€ 8.800).
Executivos de companhias de navegação e proprietários de navios, procurando reduzir os temores, argumentam que nessa indústria são comuns as fases de booms substanciais seguidas de quedas acentuadas. No entanto, nos bastidores fala-se a respeito de uma "tempestade perfeita", o que significa que tudo que podia dar errado, acabou de fato dando, culminando no pior desastre possível. "As condições negativas que estamos presenciando no mercado não têm precedentes na história do setor", afirma Ron Widdows, diretor-executivo da companhia de navegação NOL. Bertram Rickmers, um armador alemão, conclui: "A festa acabou".
Desconfiança e nervosismo generalizados
Ao contrário do que ocorreu em crises passadas, desta vez não foram apenas as taxas de afretamento que caíram. Agora as conseqüências da crise financeira estão sendo sentidas também na indústria de transporte marítimo. Os bancos, extremamente nervosos e, em alguns casos, também enfrentando dificuldades, pouco estão emprestando nos dias de hoje.
A desconfiança e o nervosismo andam tão generalizados que em algumas regiões o transporte marítimo de matérias-primas sofreu uma estagnação nos últimos meses, porque os bancos têm se recusado a emitir as cartas de crédito - garantias de pagamento fornecidas aos exportadores para cargas que muitas vezes valem várias centenas de milhões de dólares - que são tão críticas para o comércio internacional. Recentemente, os principais líderes do setor de transporte marítimo de matérias primas seguiram para Londres para uma reunião de crise convocada às pressas. "Essa é uma indústria que faz uso intensivo de capital, e neste momento o capital anda escasso", explica Gus Biesbroeck, vice-diretor de transporte marítimo global do Fortis Bank.
Atribui-se o boom ocorrido nos últimos anos em grande parte à disponibilidade de dinheiro barato e abundante. Os bancos e os investidores injetaram centenas de bilhões de dólares no setor, que cresceu a índices até 20% ao ano. Os alemães mostraram-se particularmente propensos a tirar vantagem dessas condições propícias. Em um período de dez anos, as companhias de navegação alemãs cresceram até atingir níveis que fazem lembrar os das lendárias dinastias de armadores gregos, e Hamburgo tornou-se o principal centro mundial de financiamento de navios. Quase 40% da frota mundial de navios porta-contêineres são de propriedade alemã.
Segundo uma lista obtida por "Spiegel", até o final de agosto deste ano os proprietários de navio e financiadores de transporte marítimo alemães haviam encomendado, ou manifestado desejo de encomendar, mais 1.550 navios, que deverão ser entregues nos próximos anos - um número bem maior do que o setor necessita hoje em dia.
"Quase todas as companhias de transporte marítimo enviaram equipes aos estaleiros da Coréia do Sul e do Japão para negociar cancelamentos ou adiamentos", diz Claus-Peter Offen, que, com os seus 91 navios, é dono de uma das maiores frotas privadas de navios porta-contêineres do mundo. Ele ainda conta com uma encomenda de 40 novos navios, incluindo o os maiores navios porta-contêineres do mundo, com uma capacidade de 14 mil TEU. "Os nossos navios são inteiramente financiados, e 15 deles já foram vendidos a outras companhias", diz Offen, observando que não tem motivos para cancelar nenhuma das suas encomendas.
Mas muita gente está longe de desfrutar de uma situação favorável como a de Offen, o armador de Hamburgo. Segundo estimativas do setor, pelo menos um quarto de todos os navios que estão sendo construídos em todo o mundo, com um valor total de US$ 500 bilhões (€ 400 bilhões), ou carece de um financiamento equilibrado ou não tem financiamento algum. Offen acredita que não há financiamento - e é improvável que qualquer financiamento se materialize - para a maioria dos cerca de 2.000 navios para transporte de commodities encomendados.
Estaleiros abandonados
Algumas companhias de transporte marítimo ou financiadoras do setor estão abandonando entradas pagas aos estaleiros no valor de até 40% do preço dos navios, seja porque não conseguem captar os milhões de dólares restantes, seja para minimizar as perdas atuais.
Porém, algumas dessas companhias têm sorte, porque encomendaram navios de estaleiros inexistentes. Quando os grandes estaleiros asiáticos receberam um excesso de encomendas nos últimos anos, e o tempo de entrega aumentou para até quatro anos, muitos estaleiros pequenos, especialmente na China, foram simplesmente criados a partir do nada. Em muitos casos, contratos para a construção de novos navios foram fechados com esses estaleiros que existiam apenas nas pranchetas de desenho. "Hoje esses estaleiros não existem mais, e tampouco os navios", afirma Offen.
E até mesmo a maioria dos estaleiros de pequeno porte existente provavelmente desaparecerá rapidamente. Os executivos da indústria de transporte naval alemães já estão observando a existência de estaleiros fantasmas na China, com carcaças de navio abandonadas na metade do processo de construção, e nos quais não se vê nenhum funcionário.
Entretanto, no ano que vem um número tão elevado de navios entrará no mercado que a capacidade mundial de contêineres crescerá cerca de 13%. Porém, o transporte marítimo de contêineres crescerá apenas 5% - ou seja, a menos que uma recessão global faça com que a demanda caia ainda mais.
Um aumento da capacidade de carga aliado a uma queda do consumo terá conseqüências desastrosas para as tarifas de navegação. O Baltic Dry Index (BDI), um índice padrão para transporte de minérios e grãos, caiu 8.756 pontos no início deste ano, chegando a 733 pontos ao final de novembro.
Eivind Kolding, o diretor-presidente da Maersk, a maior empresa de transporte naval do mundo, queixa-se de que atualmente recebe apenas US$ 600 (€ 480) por contêiner transportado entre o Extremo Oriente e a Europa. A companhia está sofrendo prejuízos enormes com cada contêiner individual.
A Neptune Orient Lines, que até meados deste ano era a candidata favorita para assumir o controle sobre a empresa de navegação Hapag-Lloyd, de Hamburgo, já anunciou planos para demitir quase 10% da sua força de trabalho. E algumas das companhias de navegação menores já faliram.
Isso explica por que as companhias de transporte marítimo de todas as partes já estão adotando o processo de "lay up" para os seus navios, que consiste em ancorá-los durante meses em uma baía qualquer, com tripulações inativas a bordo, em vez de continuarem operando com prejuízo as embarcações segundo o cronograma estabelecido. Na semana passada, a Grand Alliance, uma das maiores companhias de transporte de contêineres do mundo, e que inclui a Hapag-Lloyd, de Hamburgo, decidiu suspender por um período inicial de 18 meses os seus serviços previstos entre a Ásia e os Estados Unidos.
Queda vertiginosa das taxas
Não há dúvida de que as companhias de transporte marítimo não estarão operando novos navios em um futuro próximo. Como resultado, não há clientes suficientes para os navios, financiados e encomendados pelas companhias de transporte marítimos, bancos e seguradores do setor. Como resultado, os preços dos aluguéis das embarcações estão despencando.
Isso constitui-se em um problema especial para quem encomendou um navio no auge do boom, às vezes a preços exorbitantes, mas que foi incapaz de alugá-lo durante vários anos e agora procura desesperadamente compradores. O aluguel de um navio porta-contêiner com capacidade de 1.740 TEU, que é especialmente popular entre os financiadores de embarcações, proporciona atualmente uma receita diária de apenas US$ 9.000 (€ 7.200), ainda que ele só se torne lucrativo a partir de US$ 13 mil (€ 10.400) diários.
Não se sabe se as cerca de 70 seguradoras alemãs do setor sobreviverão à crise. Recentemente elas atraíram quase € 4 bilhões (US$ 5 bilhões) em capital de investimento, um número que provavelmente cairá para apenas cerca de € 1 bilhão (US$ 1,25 bilhão) no ano que vem. No futuro, o setor, anteriormente inundado com dinheiro barato pelos bancos de financiamento naval, terá que trabalhar com uma quantidade bem maior de equity capital, afirma Albrecht Gundermann, diretor-gerente da Maritim Equity, de Hamburgo.
Está ficando evidente como a situação é ruim. A MPC Capital, uma líder do mercado, fechou um fundo de financiamento e espera amargar um prejuízo anual de € 70 milhões (US$ 88 milhões). A seguradora Lloyd Fonds anunciou que demitirá 15% dos seus funcionários.
"Sem dúvida algumas companhias sairão do mercado", diz Offen. Sönke Fanslow, diretor-gerente da financiadora naval Hansa Treuhand, está convencido de que haverá "um enxugamento do mercado em todas as áreas relacionadas ao transporte marítimo".
No entanto, algumas companhias, especialmente aquelas que estão estabelecidas há muito tempo, vêem os problemas dos seus concorrentes "com uma satisfação mal disfarçada", diz um executivo do setor. "Nos últimos anos os fundos tinham dinheiro sobrando, e, como resultado, eles arruinaram os preços". Um outro executivo da área afirma: "Recentemente, alguns indivíduos perderam a noção das proporções envolvidas".
Offen calcula que poderá demorar dois ou talvez até três anos para que os mercados de transporte marítimo voltem a se normalizar. "Neste ínterim, o cenário continua excelente para uma indústria que lida com mais de 90% do transporte intercontinental de mercadorias. A globalização não será revertida. Equipamentos eletrônicos e tênis esportivos não voltarão a ser produzidos na Alemanha", diz ele.

Der Spiegel

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O luxo terá de esperar

A crise afeta produtos suntuosos e obriga os ricos a esconder o exibicionismo

Elisa Silió

"É claro que a moda é um capricho efêmero e egoísta, mas em uma era tão sombria como a nossa o luxo deveria ser defendido palmo a palmo", declarou em 1957 à revista "Time" o estilista Christian Dior. Um título que hoje, com a queda da economia mundial, não seria bem recebido. A desvergonha com que se comportaram os que fizeram naufragar as Bolsas - depois de se garantir uma indenização mais que substanciosa, os chamados "pára-quedas de ouro" - causou um grande alvoroço público.
Escandaliza que Stanley O’Neal, presidente da arruinada Merrill Lynch, tenha cobrado da empresa US$ 357 mil em 2007 em gastos de avião e carro para uso particular, antes de abandonar o barco em outubro passado com US$ 161 milhões a mais em sua vultosa carteira. Ou que os diretores máximos da AIG tenham comemorado em um luxuoso hotel da Califórnia o resgate do Tesouro americano com uma sessão de tratamentos e massagens de 400 mil euros às custas dos contribuintes. Para não falar nas críticas que despertaram os executivos da General Motors, Ford e Chrysler, à beira da bancarrota, que foram à reunião no Capitólio solicitar ajudas em avião particular, e não em linhas comerciais.
A uma fábrica em risco de quebrar, o dono não pode chegar na última Maseratti. Não é o momento de fazer ostentação quando milhões têm de fazer grandes esforços para chegar ao fim do mês. Por isso os gestos se encadeiam. O estilista Marc Jacobs, acostumado a dar uma festa todos os anos para 800 pessoas no Rockefeller Center, cancelou a de 2008 "devido ao clima financeiro". Ou, em Barcelona, no baile beneficente Gala Austria - a 180 euros o convite -, as mulheres, mais discretas, decidiram não usar suas melhores jóias. Não procede.
Os ricos de sempre consomem o luxo com prudência, conscientes de que é politicamente incorreto; para as fortunas surgidas do boom imobiliário ou da especulação na Bolsa, faz meses que as contas não fecham, e não compram impulsivamente; e a classe média-alta, que se permitia algum capricho, hoje decide poupar um pouco. Assim, no Ocidente e no Japão, o luxo extremo parece ser o único que não se abala.
Este ano o consumo de luxo aumentará 3% - contra 9% em 2006 e 6,5% em 2007 - e entrará em recessão em 2009, segundo o sétimo Estudo de Mercado de Bens de Luxo, realizado pela Bain & Company. No próximo ano as vendas globais desses bens baixarão 7% a uma taxa de câmbio constante e 2% a uma taxa de câmbio corrente. Entre as marcas mais afetadas estarão Ralph Lauren e Coach, enquanto Gucci ou Louis Vuitton se manterão estáveis, segundo o relatório.
Há um ano o mercado de luxo na Espanha experimentava um crescimento entre 15% e 20%. Atraídas pelos cantos de sereia. muitas grandes firmas - Tiffany, Marc Jacobs ou Óscar de la Renta em Madri e Bulgari ou Hermès em Barcelona - planejaram inaugurar sucursais no país. Sua abertura coincide hoje com o cataclismo das Bolsas no mundo, e reina o desconcerto. "Os planos de abrir uma loja são feitos com cinco anos, aluga-se com tempo o local e se adquirem compromissos. Não se pode adiar", explica Susana Campuzano, diretora do Programa Superior de Gestão de Empresas de Luxo do IE Business School. "Estudos internacionais indicam que a Espanha gosta de luxo - não como os nórdicos, que o rejeitam -, mas nos parece que é para os outros. Não houve uma cultura do perfume ou de investir em cremes", continua.
Mas sem dúvida o setor mais abalado está sendo o automobilístico. De janeiro a maio, vendeu cerca de 30% menos Porsches ou Lexus e nenhum Lamborghini, diante dos cinco no mesmo período de 2007, segundo a Associação Espanhola de Fabricantes de Automóveis e Caminhões. Enquanto a apresentação mundial de novos modelos de Volvo ou Chrysler está sendo adiada, a frota de autos de luxo de segunda-mão não pára de crescer. Os donos dos todo-terrenos - muitos nas mãos de reis do cimento - têm dificuldades para enfrentar seu alto consumo de gasolina ou pagar seu seguro. "Os gastos mensais de um carro de luxo são entre 20% e 30% maiores que os de um de linha média", contabiliza o diretor-geral da Auto Scout24, Gerardo Cabañas.
"Havia gente de classe média-alta que deixava meio salário em minha loja de roupa. Hoje há dias em que não entram mais que cinco pessoas. Se continuar assim, e altos como estão os aluguéis nos bairros de luxo, teremos de fechar", conta o dono de uma butique de Madri que vende várias marcas exclusivas. No entanto, paralelamente entraram no mercado espanhol várias revistas sofisticadas (Robb Report, Per se, Revista GP Millionaire, Special Class BCN), constituiu-se o primeiro holding de empresas de luxo - o grupo AB Diseño y Moda - e uma iniciativa de capital de risco na medida do mundo da moda espanhola, Brand Capital Made in Spain.
"Quando nos velhos tempos as marcas de artigos de luxo eram empresas de propriedade privada, os proprietários se preocupavam em obter benefícios, mas o objetivo principal da casa era produzir os melhores artigos possíveis", lembra a correspondente da revista "Newsweek" Dana Thomas, em seu livro "Deluxe - Cuando el lujo perdió su esplendor" (Ediciones Urano, 2008). "Hoje se colecionam como cromos, são exibidos como objetos de arte e são empunhados como ícones. Se desviou o foco do que é o produto que ele representa."
"As marcas mais internacionais e diversificadas serão as mais resistentes", aponta Claudia D’Arpizio, autora do estudo da Bain & Company. O Japão (12% do mercado) já entrou em recessão e perderá este ano 7% das vendas; a Europa (38% do mercado) avança 5% em 2008 empurrada pelos países do leste, e os EUA estagnaram, como após o 11 de Setembro, pelo alto valor do euro e as "subprime". A previsível alta do dólar e do iene favoreceria o mercado desses países em 2009.
"É impossível prever o que acontecerá", diz Pedro Nueno, professor do IESE. "Rússia e China podem compensar as perdas em outros mercados. Os dois estão se abrindo a um ritmo brutal e têm sociedades tremendamente consumistas." Sofrerão, ele diz, "as empresas muito locais, e não as casas de moda com muitas licenças. E aquelas marcas que ainda não são conhecidas nos países emergentes e que querem se estabelecer".
"O luxo cresce o quanto quiser servindo-se da imagem, mas quando vem uma crise o atordoa no que não lhe corresponde. Por isso na Hermès ou na alta relojoaria suíça, que têm fila porque há mais demanda que oferta, não notam a crise", raciocina Campuzano, também diretora da empresa Luxury Advice. "Cinqüenta por cento dos compradores são o que se chama de excursionistas - consomem entre um e três produtos por ano - e esses desaparecem em momentos como este."
Em tempos revoltos também há quem, desconfiando dos bancos, afirme que é preciso esvaziar as contas e esbanjar. "Muitos decepcionados com seus assessores financeiros que viram desaparecer parte de seus fundos decidiram gastar mais que nunca", declarou Klaas Simon Obma, um dos responsáveis pela Feira para Milionários de Munique, que foi visitada em outubro passado por 20 mil pessoas. Mais exclusivo foi em maio (antes do colapso) o primeiro Luxury Market realizado na Espanha, com o castelo de Peralada como cenário, do qual participaram 40 expositores e 1.800 clientes. "Não queremos fazer um show, mas um evento exclusivo e cumprimos as expectativas. Até se vendeu maquinário de ginástica de ouro. De fato, vamos crescer. O rico de sempre não é afetado pela crise e inclusive está reativando dinheiro que estava nos bancos", afirma Juan Maiz, sócio da feira. Na Iberjoya, pelo contrário, os expositores reconheceram ter reduzido os custos ao incluir menos pedras preciosas e de menor tamanho.
"Quando se percebe um risco social, físico ou econômico sempre afeta o consumo. Não sei se é uma estratégia de marketing ou uma realidade quando as marcas dizem que não se ressentem da crise", diz María Justina March, professora de psicossociologia do consumo na Universidade de Elche. "Há 50 anos na Espanha as pessoas lutavam para sobreviver. Hoje se orientam para o desejo. Se alguém não pode comprar a bolsa cara, compra a imitação", diz sua colega Ana Martínez, da Universidade Rey Juan Carlos I de Madri.
A empresa Look and Stop aluga hoje 38% mais bolsas exclusivas do que em janeiro, e as vendas diminuíram um pouco. Além disso, há seis meses implementou a compra desses acessórios de suas clientes está sendo um sucesso. "Não é um ‘quero e não posso’. São mulheres que estão preocupadas com o dinheiro e que preferem alugar uma bolsa da moda de 1.500 euros por um mês a 150 euros. Elas sabem que vão se cansar." O aluguel de jóias também subiu, como o depósito de penhores na Caja España, que aumentou 17% em 2008.
Os que nunca empenharão suas jóias são os clientes da catalã Alberta La Grup. "São gente com casas por meio mundo que foram afetadas pela crise na Bolsa mas não em seu modo de vida", conta Lourdes Carbó. Sua agência organiza para essas famílias mudanças, presentes de Natal ou a busca de um mordomo por honorários que vão de 1.200 a 3.500 euros mensais. Carbó só lembra como excepcional de uns pais que pediram presentes menos espetaculares para o aniversário de seu filho, com o objetivo de que ele tome consciência da crise. "O que baixou em 20% ou 30% foram os serviços para empresas. Se cortam orçamentos, todos notamos", acrescenta.
O aluguel de aviões particulares também está em baixa. Quando se impõem diretas aos empregados, a diretoria deve dar o exemplo e viajar em vôos comerciais. Por isso na Taxijet, companhia mais barata e menos luxuosa, que começará a operar em março, estão surpresos com a resposta positiva. Nas limusines se dá a tendência contrária, mas são contratadas por menos tempo.
O estilista Tom Ford prevê maus tempos: "Aqui no Ocidente estamos acabados, nosso momento chegou e passou… É o início do renascimento de culturas que historicamente adoraram o luxo e não puderam mantê-lo por muito tempo". É questão de confiança. Uma executiva de Hong Kong é capaz de gastar quase todo o salário em uma bolsa, convencida de que não vão lhe faltar oportunidades. Quem faria isso em Nova York ou Madri?
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

El País

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