Entrevista ao investigador e ensaísta Néstor Kohan
Agência Bolivariana de Imprensa (ABP)
ABP: - Quais são na sua opinião as vias e as formas da revolução na América Latina?
Nestor Kohan (NK): - Na minha opinião, gostaria de destacar em primeiro lugar nessa pergunta algo que é prévio à resposta. Refiro-me à pertinência ou não da revolução… Porque, durante os últimos 25 anos, ou seja, um quarto de século, as grandes fábricas do imperialismo e também das diversas variantes do reformismo, e a social-democracia internacional, trataram de inocular no movimento popular latino-americano a peregrina ideia de que a revolução já não é viável, nem possível, nem desejável. Perguntar então quais as vias e as formas, pressupõe trazer à discussão essa violenta campanha de desarme ideológico. Esclarecido isto, parece-me, na minha modesta opinião — porque eu não sou um guru com uma bola de cristal nem um adivinho que tenha a verdade revelada de nenhum oráculo — que os caminhos e as formas do processo revolucionário latino-americano são diversas e variadas. Não se podem encapsular em receitas feitas nem em fórmulas de gabinete. As transformações sociais vêm e virão através de movimentos sociais, organizações políticas e organizações insurrectas, político-militares. Durante o último quarto de século, os “tanques pensantes” do imperialismo e da social-democracia supostamente progressista, trataram de diminuir esse leque de formas de luta, de o esmagar, de o segmentar, reduzindo-o à luta dos movimentos sociais, desprezando a organização política e deslegitimando, demonizando e satanizando, de modo absolutamente “macartista”, as formas não institucionais, insurgentes e político-militares que historicamente têm assumido e continuam a assumir a rebeldia e a resistência populares. Voltar então a recuperar o debate sobre as vias e as formas de luta e de transformação social radical, torna-se uma tarefa inadiável. Já é hora de fazer um inventário e um balanço crítico do reformismo e do pós-modernismo que tanto nos incitou a desprezar as formas politicamente organizadas da rebeldia popular (que não se limitam aos protestos espontâneos) e a recusar as vias de confrontação radical — inclusive político-militares — com os poderes estabelecidos.
ABP: - É pertinente considerar a combinação de todas as formas de luta?
NK: - Os inimigos dos nossos povos, o imperialismo e as burguesias crioulas (erradamente chamadas “nacionais”) não renunciam a nenhuma forma de luta. Desde a construção de consenso e a submissão à hegemonia, até ao exercício da força material. Se eles usam e apresentam todas essas formas, em nome de quê deveriam os povos renunciar a certas formas de luta? Perante a violência de cima, exercida, não por um louco à solta, mas por toda uma série de instituições repressivas — polícia, forças paramilitares, forças armadas, organismos de inteligência, etc. — os nossos povos deveriam por acaso responder oferecendo mansa e submissamente “a outra face”? Não me parece justificado. Não me parece realista. Não me parece desejável.
ABP: - Como seria essa situação no caso colombiano?
NK: - Na Argentina existia um historiador e pensador, de origem comunista na sua juventude, depois peronista revolucionário, na maturidade, que se chamava Rodolfo Puiggrós. A sua obra historiográfica é prolífica e muito polémica. Eu compartilho alguns dos seus pontos de vista, noutros casos (não no caso do populismo) tenho opiniões muito diversas das que o tornaram famoso. No entanto, gosto sempre de citar uma ideia sua: dizia o velho Puiggrós que muitas vezes nós, os argentinos, temos sido “inspectores de revoluções alheias…”. Ou seja, que, como não pudemos fazer a nossa própria revolução, vamos mundo fora de dedo em riste, inspeccionando revoluções alheias… Creio que devemos aprender essa lição. Não sou colombiano. Não conheço em profundidade a realidade colombiana. Esclarecido isto, creio, no entanto, que como internacionalistas convictos, que trazemos na cabeça e no coração a Pátria Grande latino-americana, podemos opinar sobre outros países irmãos. Creio que o povo colombiano foi um dos povos mais dignos e combativos da história da nossa América. Qualquer pessoa que esteja minimamente informada e que não tenha palas nos olhos nem receba uns dinheiritos do imperialismo, sabe perfeitamente que a violência na Colômbia não foi iniciada pelo povo, mas sim pelas classes dominantes, com o assassinato do caudilho popular Jorge Elieser Gaitán em 1948. Qualquer pessoa que não tenha vendido a caneta nem a consciência aos grandes monopólios de (in)comunicação, nem repita como um papagaio submisso as suas propagandas, desenhadas a partir duma estratégia de “guerra psicológica”, sabe perfeitamente que na Colômbia as organizações político-militares nasceram há várias décadas e que nunca tiveram nada a ver com a máfia nem com o narcotráfico. Portanto, se na Colômbia, apesar das inumeráveis campanhas militares de extermínio contra o povo, levadas a cabo por vários governos formalmente “constitucionais” mas desavergonhadamente financiados pelos EUA, continuam a desenvolver-se diversas formas de protesto popular (desde a mobilização estudantil, a greve operária, o protesto sindical urbano, a rebeldia indígena, as ligas agrárias e camponesas, até às lutas guerrilheiras, isso não corresponde a nenhum “complot” duns monstros irracionais ou delirantes. Para compreender a história da América Latina é preciso deixar de lado a deformante estética de Hollywood e a sua eterna “conspiração” internacional de monstros malditos que pretendem acabar com a vida aprazível das famílias norte-americanas. Colômbia é parte da nossa América. Ali proliferam diversas formas de luta popular. Os sectores progressistas e honestos, que não cedem à chantagem da maquinaria de guerra psicológica do Comando Sul do Exército norte-americano e dos seus organismos de inteligência, não só não deveriam demonizar essas lutas mas, na minha modesta opinião, deveriam apoiá-las.
ABP: - Como deve enfrentar-se hoje o terrorismo de Estado e o intervencionismo imperialista?
NK: - Em primeiro lugar chamando as coisas pelo seu nome. Quando os norte-americanos intervêm, não estamos perante a “defesa dos direitos humanos”, mas perante uma intervenção imperialista. Não se metem nos outros países em nome da “racionalidade liberal” para enfrentar o fundamentalismo. Fazem-no para defender os seus interesses, impondo pela força o seu “american way of life” e os seus negócios. Em segundo lugar, quando o Estado de qualquer país da América Latina utiliza as suas instituições permanentes, formadas por dezenas e centenas de milhares de pessoas, profissionais e treinadas, que estudam como vigiar, como bater, como reprimir, como matar, como assassinar, devemos chamar as coisas pelo seu nome. Isso não é “segurança”. Isso é repressão. Isso é violência de cima. Isso não é “democracia”, isso é terrorismo. Devemos pôr fim à legitimação da violência de cima contra o povo. Para enfrentar a violência dos Estados e a intervenção do imperialismo, todas as formas de rebeldia, resistência e solidariedade popular são legítimas. Desde as grandes campanhas de repúdio, as mobilizações sobre as embaixadas ianques, as greves, os protestos e também a resistência armada. A violência dos povos é uma justa resposta a uma violência sistemática implementada contra os povos. Quem disse que a única violência legítima é a que se exerce para manter e reproduzir o capital?
ABP: - Tem alguma opinião sobre o debate em torno às FARC e à luta armada, que recentemente teve lugar entre o comandante Fidel Castro e o sociólogo James Petras?
NK: - Essa é uma pergunta extremamente difícil, devo reconhecer. É-me difícil opinar, porque o tema é complexo e porque além disso sinto-me muito vinculado a ambos os polemistas. No caso de Fidel, não apenas lhe dedico uma admiração pessoal e um carinho que não posso nem quero dissimular como, além do mais, o considero um mestre. Não só meu, mas de várias gerações de revolucionários da nossa América. Já o disse em vários artigos publicados em Cuba, na Venezuela e na Argentina. Também condensei essa opinião num livro dedicado à biografia de Fidel (intitulado “Fidel para principiantes”, para o qual passei anos a ler e a estudar os discursos de Fidel e muitíssima bibliografia sobre a sua vida e sobre a história da revolução cubana). Tive a imensa honra de o conhecer pessoalmente em 2001 e de conversar longamente com ele. Uma experiência absolutamente inesquecível, que continua a emocionar-me cada vez que o recordo. Tenho realmente muito carinho por Fidel. Digo-o sem diplomacia nenhuma. É o que sinceramente sinto e o que penso. Sempre defendi Cuba e a sua revolução socialista e continuarei a fazê-lo.
Quanto a James Petras, também o conheço pessoalmente há aproximadamente 15 anos, desde uma visita que fez à Argentina. Estive com ele várias vezes na Havana e em Caracas. James foi sempre muito corajoso. Nos anos 90, quando toda a gente se tornou neoliberal ou social-democrata, Petras continuava a denunciar o imperialismo e a domesticação dos intelectuais “aggiornados”. Creio que Petras sempre foi um defensor sincero da revolução cubana. Não de maneira hipócrita, para ser convidado para eventos e grandes hotéis, mas por convicção. Petras tem um estilo muito aguerrido nas polémicas, é ácido, é irónico (domina a ironia, não apenas em inglês, mas também em espanhol, o que é difícil, pois não é a sua língua). Por vezes, o estilo extremamente ácido de Petras magoa, ofende ou incomoda (o que nem sempre é o melhor, se queremos convencer o outro), mas muitas vezes, por detrás desse estilo discutível, há verdades fortes e muito bons fundamentos. Recordo as suas polémicas dos anos 90 e as suas contestações ácidas dos que pretendiam deixar de questionar o imperialismo.
Li algumas partes da polémica. Não estou certo de tê-la lido integralmente, talvez haja intervenções que me falta consultar.
O primeiro que poderia dizer, sublinhando uma vez mais a complexidade do problema abordado e a dificuldade de opinar a esse respeito, é que é muito saudável que haja polémica entre os revolucionários. Se há polémica, é porque o marxismo está vivo e a revolução está viva. Se há polémica, é porque o pensamento radical — onde se encontram tanto Petras como Fidel — não morreu e continua na luta. Bem-vinda seja então a polémica fraternal entre companheiros e irmãos da mesma causa!
Em segundo lugar, acrescentaria que Fidel tinha exprimido a mesma opinião sobre a possível caducidade da luta armada já antes da morte do comandante Marulanda. Nos últimos anos, Fidel veio duas vezes à Argentina, se bem me lembro. Uma vez, esteve em Buenos Aires, outra em Córdoba. Juntamente com milhares e milhares de jovens, fui aos dois actos. Não podia perdê-los. Escutar Fidel é um privilégio. Compartilhei grande parte do que disse. Mas devo confessar, para ser sincero, que não gostei nada quando afirmou que a luta armada era coisa do passado. Não me pareceu uma formulação feliz, sobretudo tendo em conta que o seu auditório não era de velhos nostálgicos que recordavam os anos 60 (embora também houvesse esse tipo de público) mas de jovens que começavam a ter as suas primeiras experiências políticas após a rebelião popular de 19 e 20 de Dezembro de 2001. Jovens que hoje pensam em como organizar forças sociais revolucionárias na Argentina. Muitas vezes, correntes reformistas ou populistas, maioritariamente institucionalistas e inclusive arregimentadas pelo Estado e pelos partidos burgueses, disseram-nos, na Argentina “o que vocês pensam está certo, mas é romântico, velho e antigo, lembrem-se do que disse Fidel quando cá veio…”. Essa formulação infeliz de Fidel, pouco justificada e até incompreensível, se a analisarmos na óptica dos movimentos populares (não na lógica estatal da diplomacia ou da razão de Estado), serviu para legitimar o governo de Kirchner e também para combater qualquer opção de mudanças de fundo, radicais e revolucionárias, no nosso continente. Embora sendo absolutamente defensores da revolução cubana, com a cabeça e com o coração, com a militância e com as ideias, nos livros e na militância da vida quotidiana, essa formulação de Fidel não nos ajudou nem nos ajuda.
Acaso desapareceu a selvagem política de “segurança” (leia-se repressão) das burguesias crioulas (burguesias lumpen, como as chamavam Ruy Mauro Marini e André Gunder Frank) na América Latina? Já não há violência de cima contra os nossos povos, no nosso continente? Pode-se mudar o mundo sem revolução (como propõe por aí John Hochoway…)? Pode acaso haver revolução sem confrontação social, sem exercício da força material e sem grandes choques de classe? Pode-se recuperar para o povo o que as burguesias e o imperialismo historicamente lhe expropriaram sem enfrentar por todos os meios possíveis o Estado burguês e as suas instituições de repressão?
As respostas, no meu modo de ver, não são positivas, pelo contrário. Sem revolução não poderemos expropriar os grandes ricaços, resistir ao imperialismo, defender os nossos recursos naturais e sociais, fazer respeitar as nossas pátrias nem construir o socialismo! Recordo e trago à colação o testemunho do embaixador norte-americano — homem sinistro da CIA — no recente documentário “Salvador Allende”. Recordando o que sucedeu no Chile, este cínico agente da CIA em Santiago, organizador e executor do nascimento a sangue e fogo do neo-liberalismo à escala mundial em Setembro de 1973, declarou perante as câmaras desse conhecido documentário o seguinte (cito de memória): “Nenhuma classe social se suicida. Que queriam inventar? Isto já foi demonstrado por Lenine”. Como dizem os advogados: perante a confissão não são necessárias provas. Se os imperialistas o reconhecem…
Fidel sabe-o melhor que ninguém. Basta consultar os seus formidáveis discursos após a morte do seu querido amigo e companheiro Salvador Allende… não aprendemos nada com aquela experiência? Hoje, na Bolívia, na Venezuela, na Colômbia e em vários outros países volta a colocar-se o problema de forma urgente. Proliferam outra vez as ilusões sobre a suposta “neutralidade profissional das Forças Armadas”, na Bolívia e noutros países. É verdade, a história nunca se repete, mas devemos aprender com ela.
Em terceiro lugar, alega-se que “já não há condições para a luta armada”. Isto é verdade? Talvez possa ter sido verdade nos anos 90, quando proliferava e reinava o neo-liberalismo mais furioso e agressivo (ainda assim, naqueles anos — 1994, se não estou em erro, apenas cinco anos depois da queda do muro de Berlim — os zapatistas desafiaram as circunstâncias, espingarda na mão, e começaram a desmontar a euforia neoliberal, acompanhando desse modo a persistência irreverente e até então solitária da insurreição colombiana). Mas, no século XXI, é claro que a situação mudou. Não se pode esconder. Hoje há uma viragem à esquerda em todo o continente. Já não estamos nos 90. Pelo lado revolucionário ou pelo lado reformista, os “neoliberais clássicos” retrocedem. Graças ao comandante Hugo Chávez e à revolução bolivariana, hoje volta-se a discutir o socialismo (palavra proibida nos anos 90…) na agenda latino-americana. Hoje há novas gerações que avançam, deixando para trás o pessimismo e a resignação dos anos 90. Além disso, actualmente o imperialismo sofre uma crise tremenda, estamos longe da euforia de Francis Fukuyama, que vaticinava o reinado indiscutível e eterno dos EUA.
Para quê dizer então que “não há condições”? Para quê continuar a repetir um slogan dos anos 90, quando a situação mudou de forma tão notável? Só se poderá explicar pela lógica diplomática e pela razão de estado. Mas acontece que o próprio Fidel foi o grande mestre que nos ensinou a desprezar essa lógica, dando ímpeto ao internacionalismo militante nas épocas mais obscuras! Aprendemo-lo com ele e com o Che! Porque abandoná-lo e subordinar-se à razão de estado e às conveniências geopolíticas ou diplomáticas?
Penso, inclusive, que se não houvesse condições… não teríamos que tentar criá-las? Não foi a revolução cubana a grande mestra que nos ensinou que não devemos ajoelhar-nos perante o culto cego e fanático das “condições objectivas” (tão cultivadas pelos manuais do marxismo ortodoxo da antiga União Soviética, questionados ácida e mais que justamente por Fidel e por Che)?
Em quarto lugar, emerge a questão da hegemonia. A esta altura da história, já é bem claro que o capitalismo não cai sozinho. Basta de catastrofismo determinista e economicista! Por mais crise económica que haja (inclusive perante uma crise tremenda como a actual, só comparável com a de 1929), o sistema do capitalismo não se derruba se não houver organização, construção de força social e apoio popular que o empurre e o derrube. A teoria da hegemonia de António Gramsci parece-nos de uma actualidade espantosa. Ganhar mentes, corações e espíritos — ou seja, lutar no terreno da subjectividade popular — é a grande tarefa. Fidel compreendeu-o de maneira clara e transparente. É um mestre. Chama-lhe batalha das ideias, utilizando a terminologia de José Martí. É a luta pela hegemonia. Está muito bem. Nada mais urgente na época da imagem e dos grandes multimédia da (in)comunicação.
Ora bem. A batalha de ideias e a luta pela hegemonia, urgentes, inadiáveis, insubstituíveis, não excluem nem cancelam a violência revolucionária. António Gramsci era muito claro quando nos ensinou que hegemonia é uma combinação de consenso e violência. Nunca há consenso puro, como também não existe violência pura. Há sempre uma combinação de ambos. Nem o regime mais despótico (pensemos em Pinochet ou Videla) subestimou a construção do consenso. Nem os regimes mais “pacíficos” (pensemos na Suécia ou na Noruega, paraísos desejados por todo o social-democrata que se preze) cancelam a violência. O político social-democrata e pacifista Olof Palme morreu de morte natural? Em França não há serviços de inteligência? Não há polícia na Alemanha nem grupos de choque anti-distúrbios? No estado espanhol não se tortura e não se reprimem as manifestações?
Todo o projecto revolucionário na nossa América deve combinar a batalha das ideias, a luta pela nova hegemonia, a criação de consenso com a estratégia de confrontação e a utilização de todas as formas (actuais ou potenciais, conforme o país) de luta. Preparar-se em todos os terrenos é a grande tarefa do momento.
Em quarto lugar, fala-se da insurreição colombiana e aconselha-se a renúncia à luta armada. Isso foi a primeira coisa que Fidel disse. Respondendo às críticas que recebeu, esclareceu mais tarde que não deveriam entregar as armas, embora a ideia de certo modo rondasse a polémica, e por isso teve que a esclarecer, de contrário não seria preciso.
Perguntemo-nos, então: deveriam entregar as armas? Em nome de quê? As guerrilhas devem render-se? Por acaso já há garantias democráticas, participação popular, nível de vida digno para os humildes, respeito para com as mulheres, defesa do meio ambiente e soberania completa para o povo colombiano? Acabaram-se os paramilitares? Já não há presos políticos na Colômbia? Todos os torturadores, violadores e assassinos da motosserra foram julgados e encarcerados?
Porque exigir à guerrilha que se ajoelhe sem condições? Esquecemo-nos dos 5.000 assassinados da União Patriótica, quando as FARC tentaram uma saída política e foram aniquilados como moscas perante o silêncio cúmplice de grande parte do progressismo ilustrado e bem-pensante? Alguém pede ao exército colombiano, por exemplo, que deposite as armas numa praça de Bogotá? Qualquer pessoa com bom senso acharia um despropósito. Não é verdade?
A legitimidade da insurreição colombiana não se pode anular por decreto. Além disso, a melhor maneira dos ianques não dirigirem a sua energia repressiva e contra-revolucionária sobre o heróico povo cubano, que tão valentemente resistiu durante tantos anos ao bloqueio, é manterem-se as actuais resistências anti-imperialistas (Colômbia, Palestina, Iraque, Afeganistão) e surgirem até novas resistências. Que a insurreição colombiana — especialmente as FARC— continue a existir e a desenvolver-se, é a melhor garantia para que a Venezuela bolivariana não seja cercada pelo fantoche dos ianques Uribe, e assim possa aprofundar o seu processo. A continuação das FARC é a melhor forma de garantir que os ianques tenham que dispersar forças, contribuindo desse modo para que a Cuba de Fidel se mantenha firme, sem ceder um milímetro, como sempre fez. Essa era precisamente a estratégia do Che na sua “Mensagem aos povos do mundo através da Tricontinental”: multiplicar as lutas para dispersar a força do inimigo. Hoje não é o Vietname, mas a Colômbia, a Palestina, o Iraque, o país basco e o Afeganistão. A estratégia do Che continua a ser actual e pertinente, adaptada à nossa conjuntura.
Hoje, a melhor defesa de Cuba passa pela continuidade das lutas sociais radicais, sindicais, camponesas, estudantis e político-militares, contra o capitalismo e o imperialismo em toda a América Latina, incluindo a resistência armada dos guerrilheiros e das guerrilheiras colombianas! Fraco e magro favor fariam a Cuba as FARC se abandonassem a luta armada, na minha modesta opinião.
Em quinto lugar, considero um erro — produto de todo o exagero que costuma acompanhar as polémicas — contrapor as virtudes de Marulanda sobre as do Che, como por momentos parece sugerir um dos escritos de Petras. É preciso escolher um ou outro? Sinceramente, não me parece. Ernesto Guevara e Manuel Marulanda são dois dos grandes símbolos do melhor que o nosso continente produziu. A juventude de todo o mundo (incluindo a cubana e a argentina) deveria aprender de ambos, não de um ou de outro. Fidel é também outro desses mestres, embora se possa divergir fraternal e respeitosamente dele numa opinião pontual.
ABP: - O governo colombiano vaticina o ocaso definitivo das FARC. É realista, esse diagnóstico?
NK: - Reitero que não sou colombiano e que também não aspiro a ser inspector doutras realidades. No entanto, pelo pouco que conheço, na Colômbia esses vaticínios triunfalistas já são habituais e até “folclóricos”: diversos governos anunciaram, durante décadas, a morte de Marulanda uma quantidade inumerável de vezes, muitíssimo antes do seu recente falecimento. Esses vaticínios dão vontade de rir. Era o que fazia o tirano Somoza, pouco antes de ser derrubado pela revolta sandinista. Somoza dizia “são uns foragidos, já estão derrotados”, pouco tempo antes de cair. Eu não compraria “carne podre”, como costumam dizer os jornalistas na Argentina (isto é: informação falsa, sem veracidade). A derrota final, o ocaso final e a dissolução da guerrilha das FARC tem mais a ver com os desejos dos narco-guerrilheiros e com toda a política mafiosa dum governo ilegítimo (questionado pela Supremo Tribunal de Justiça colombiano) que com a verdade histórica. Quanto à delirante e macartista acusação do governo colombiano e do seu patrão ianque, que acusam as FARC de ser um grupo “terrorista”, limito-me a recordar a análise do livro do brilhante intelectual norte-americano Noam Chomsky “Estados canalhas” (editorial Paidos) que demonstra de forma contundente e demolidora que as FARC não são terroristas, traficantes, nem nada parecido.
ABP: - A crise financeira do capitalismo coincide com o fim das FARC?
NK: - A crise financeira só agora começou. É mais que provável que se agrave. Até os jornais mais conservadores e neoliberais o vaticinam. Esse fenómeno do capitalismo não tem nada a ver com uma suposta derrota das rebeliões e rebeldias populares, incluindo a luta da insurreição colombiana das FARC. Enquanto o capitalismo está em crise, as rebeldias aumentam e crescem, acompanhadas de novos sujeitos sociais que começam a lutar (o caso dos indígenas colombianos é muito expressivo neste sentido). Portanto, essa suposta coincidência não o é, do meu ponto de vista.
ABP: -Alguns sectores da esquerda consideram que as FARC devem terminar com a luta armada e entregar todos os prisioneiros de guerra sem condições. Que opina a esse respeito?
NK: - O desejável seria que todos os seres humanos vivessem no planeta Terra de maneira harmoniosa e pacífica. Quem pode desejar o contrário? Só um louco ou um perverso. Mas lamentavelmente vivemos desde há milénios em sociedades divididas em classes sociais, com exploradores e explorados, com gente que exerce o poder e gente que resiste. Enquanto existam classes sociais antagónicas haverá contradições e confrontações, haverá lutas de classes. A forma mais aguda dessas confrontações sociais, segundo António Gramsci, é a guerra civil. Lenine — peço desculpa por citar alguém tão importante e tão demonizado… mas já é altura de começar a recuperar tudo o que perdemos no terreno teórico durante os últimos 25 anos — considerava que as guerras civis se desenvolvem, não entre uns quantos loucos à solta, por um lado, e todo o povo, pelo outro lado, mas entre duas partes do povo. As guerras civis reais, não a das ilustrações e dos livros de epopeia ou dos filmes de Hollywood, desenvolvem-se entre duas partes do povo. Nessas guerras, nessas confrontações de classe, nessas lutas de classe, surge o problema dos prisioneiros. Não pode apelar-se a um falso e hipócrita humanitarismo ao estilo da ONU ou do Vaticano, pondo dum lado “vítimas inocentes e virtuosas” e do outro lado “guerrilheiros monstruosos”, representantes do “eixo do mal”. Essa imagem macartista e maniqueísta, que lamentavelmente conseguiram instalar muitos monopólios da (in)comunicação, é insuportável, e sinceramente provoca náuseas.
Além disso, no meu país toda a gente comentou que quando a senhora Ingrid Betancourt apareceu perante os meios de comunicação, surgiu elegante e luminosa. Não tinha nada a ver com a propaganda duma mulher maltratada, à beira da morte. Para ter aparecido assim da noite para o dia quase como um modelo televisivo, não a devem ter tratado mal os insurrectos, não é verdade? Isso mesmo comentou muita gente na Argentina, inclusive gente que não é de esquerda nem simpatiza com o socialismo. Trata-se duma evidência para qualquer um.
Então, o problema dos prisioneiros e das prisioneiras deve analisar-se do ângulo da luta de classes do povo contra os exploradores, evitando o falso atalho da CNN e doutras agências similares que manipulam a verdade e constroem o que eles querem para convencer milhões.
Nunca entendi porque deveriam as FARC entregar os prisioneiros militares (colombianos ou ianques, que hoje participam e actuam na guerra civil colombiana) a troco de… nada! De nada? Não há insurrectos, prisioneiros nos cárceres da Colômbia? Ninguém reparou que há mais de meio milhar de combatentes presos nas piores condições imagináveis? O próprio governo de Uribe vangloria-se publicamente de ter aprisionado, durante o seu primeiro governo, nada menos que 150.000 (cento cinquenta mil) civis, muitos deles acusados de supostos “vínculos com as FARC”. Porque é que ninguém falou, durante a crise do caso Betancourt, das prisioneiras políticas do povo, violadas nas masmorras do regime de Uribe? Houve muitas missas hipócritas (a uma delas assistiu a presidente argentina Cristina Kirchner, diga-se de passagem…). Missas e velas que pediam a liberdade duma só parte. O humanitarismo vê dum só olho? É um humanitarismo vesgo? Por que não faziam missas pelas prisioneiras políticas torturadas e violadas? Não existem? Isso só se explica pela hipocrisia duma moral burguesa (falsamente religiosa) que, repito, simplesmente dá náuseas e vontade de vomitar.
ABP: - Muitos movimentos actuais falam sempre da unidade. Quais seriam na sua opinião os passos práticos para esse objectivo?
NK: - A unidade é incontornável. Mas não a unidade com os poderosos, não a unidade com a burguesia, mas a unidade das rebeldias, unidade da esquerda social, da esquerda política e da esquerda insurrecta. As três são dimensões duma mesma batalha anti-imperialista e anti-capitalista. Os passos concretos poderiam ser construir uma agenda mínima de mobilizações a nível continental contra o imperialismo, pela defesa dos recursos naturais, pela defesa dos presos políticos do povo. Unidade concreta entre as coordenações da Via Camponesa, da Coordenadora Continental Boliviana, do Encontro do Cone Sul e doutras experiências de articulação a nível latino-americano.
ABP: - A Coordenadora Continental Boliviana tem uma proposta para criar o Movimento Bolivariano. Como avalia essa iniciativa?
NK: - Creio que é uma proposta interessante. Pode ajudar a confluir na grande torrente da luta contra os poderosos do norte, porque o novo governo de Obama continuará esmagando e dominando os nossos povos. Devemos preparar-nos para enfrentar um império com cara “multicultural”, presidente negro, generais gays, torturadoras mulheres… Construir um movimento bolivariano onde convirjam diversas rebeldias, pode ser um passo importante para a unidade anti-imperialista continental.
ABP: - Que opinião tem sobre constituir o dia 26 de Março como dia universal do direito à rebelião armada?
NK: - Se não estou mal informado, essa data foi escolhida por causa da morte do comandante Manuel Marulanda Velez. Creio que é uma boa escolha. Recordemos que o dia 8 de Março foi escolhido pela revolucionária comunista Clara Zetkin como dia universal da mulher. Talvez esta nova data se transforme com o tempo numa data emblemática…
ABP: - Que lhe dizem estes três nomes: Bolívar, Marulanda e Che?
NK: - Os três sintetizam a história da nossa América. Bolívar, juntamente com San Martin, Tupac Amaru, Bartolina Sisa e Toussaint de Louverture, sem esquecermos Artigas, Mariano Moreno ou Manuel Rodriguez, entre muitíssimos outros, significa o momento da primeira independência americana. O Che sintetizou o momento mais alto, a nível mundial, da rebelião pela segunda independência. Manuel Marulanda, tão demonizado, tão injustamente “esquecido”, mas ao mesmo tempo tão admirado pelos seus companheiros e companheiras, é o nome que sintetizou a continuidade da luta revolucionária do Che nos tempos do neo-liberalismo, pós-modernismo, social-democracia e contra-revolução “democrática”. Todos esses nomes são grandes mestres, espelhos onde as novas gerações de jovens rebeldes deveriam rever-se. Nenhum deles morreu! Todos estão vivos, acompanham-nos dia a dia nas novas rebeliões do século XXI pela Pátria grande, pela luta anti-imperialista, o homem novo, a mulher nova e o socialismo.
Esta entrevista foi publicada pela Agência Bolivariana de Notícias
Tradução de Luzia Paramés