De senhor da guerra a estadista?
O líder rebelde Laurent Nkunda ganhou controle sobre grande parte do leste do Congo. Muitos congoleses o temem, e um relatório da ONU diz que ele recebe apoio do governo de Ruanda. Mas as regiões sob seu comando exibem sinais de ordem, e agora ele quer um papel político
Horand Knaup
O general está atrasado. Uma hora se passa, depois outra. Pessoas importantes não têm pressa. O sol incide no estádio em Rutshuru, onde as áreas com sombra são reservadas para altos oficiais e autoridades na arquibancada. Mas há muito tempo é pedido paciência para as pessoas no leste do Congo, e elas também sabem muito bem que muitos devem sofrer enquanto um punhado de pessoas se dão extremamente bem.
O general Laurent Nkunda, 41 anos, é alto e magro. Ele usa óculos modestos, tem seis filhos, estudou psicologia por vários anos e aprendeu seus conhecimentos militares em Ruanda. Ele é um bom ouvinte e tem o dom de convencer pessoas.
Entretanto, organizações de direitos humanos e as forças de paz da ONU estacionadas no Congo o acusam de sérios crimes de guerra. A "BBC" noticiou na quinta-feira que seus rebeldes receberam ajuda do governo de Ruanda -sugerindo que a guerra civil daqui faz parte de um conflito regional mais amplo- e o governo em Kinshasa adoraria vê-lo ser levado ao Tribunal Penal Internacional em Haia.
Para isso, eles teriam que pegá-lo, o que não é fácil. Nkunda é um homem poderoso. Há várias formas de obter influência em um país grande e sem lei como o Congo: um líder ambicioso pode buscar aliados no exterior ou formar seu próprio exército. Ele pode tentar capturar recursos, e pode dar passos para a derrubada do presidente. Nkunda empregou todos os métodos.
O general sai de sua limusine. Os vidros são escurecidos. Ele escolheu um uniforme cinza de campo com chapéu combinando para sua aparição. Ele deseja que o mundo o veja como um homem preparado para o combate. Altos guarda-costas abrem caminho para sua primeira aparição em um grande palco.
Equipes de filmagem e fotógrafos estrangeiros estão ali, juntamente com cerca de 3 mil moradores de Rutshuru. Há um motivo simples para o rápido crescimento do interesse neste senhor da guerra: muitos líderes milicianos no leste do Congo têm ambições mais altas, mas nenhum se iguala a Nkunda em intelecto, liderança ou proeza militar. Seu exército de cerca de 8 mil homens é considerado o mais disciplinado entre todas as facções em guerra. Além de combater os rebeldes maji-maji e as milícias hutus, as forças de Nkunda estão enfrentando os -e são muito superiores aos- 20 mil soldados do governo na região. E agora Nkunda decidiu desafiar politicamente o presidente Joseph Kabila, 37 anos.
"Um país tão grande, um país tão rico, e não há estradas, não há hospitais, não há escolas -como é possível?" o general discursa no estádio. Ele faz as perguntas que todos fazem, perguntas que tornam a situação no Congo -por causa da falta de respostas- ainda mais trágica do que o sofrimento na Somália.
O Congo possui um dos depósitos de minerais mais ricos do mundo. Ele possui tanta água em seus rios que poderia abastecer metade do continente com energia hidrelétrica. O leste do país em particular tem o potencial de produzir três colheitas por ano. "Este país não tem liderança", diz o general, enquanto os alto-falantes zumbem. "Eu quero tornar o Congo forte de novo."
No final de outubro, as tropas de Nkunda apareceram no aeroporto da cidade de Goma. Os soldados do exército congolês -em número muito superior às forças de Nkunda- fugiram. As forças de paz da Missão na República Democrática do Congo (Monuc) já estavam preparadas para entregar a cidade. Mas então Nkunda ordenou a seus homens que suspendessem o avanço, permitiu a passagem de caminhões transportando ajuda e recuou suas unidades.
Então Nkunda é um humanitário?
Dificilmente. Em 2002, suas tropas teriam cometido um massacre de civis em Kisangani, no nordeste do Congo. Em 2004, seus soldados avançaram, estuprando e saqueando, por Bukavu, na costa sul do Lago Kivu. Na área sob seu controle, crianças são abduzidas e forçadas a ingressar no serviço militar.
Os rumores sobre o comportamento das tropas se espalharam. Quando avançaram há poucas semanas em Rutshuru, perto da fronteira com Uganda, muitos moradores fugiram para o campo de refugiados de Kibati, fora de Goma. "Nós temos medo de Nkunda", eles disseram. "Seus homes estupram as mulheres e matam muitas pessoas. Eles cortam suas cabeças e forçam os homens a servirem em seu exército."
Jean-Paul, o porta-voz da Monuc, tem uma visão igualmente drástica de Nkunda e seus homens. "Seu exército não é conhecido por seus atos de caridade. Há enormes violações de direitos humanos na área que ele controla."
Todavia, muitos congoleses reconheceram que há significativamente mais ordem no reino de Nkunda do que fora dele. O sistema escolar, a polícia, os tribunais e as repartições públicas funcionam razoavelmente bem em sua zona, e os agricultores puderam voltar aos seus campos. Agora o general quer ser mais do que um líder rebelde, e ele tem mantido seu papel de estadista.
Motivos para a guerra, tanto étnicos quanto econômicos
Há muitos motivos para a guerra que transcorre no leste do Congo nos últimos 13 anos. Eles incluem recursos naturais, que atraem ladrões e empresários de reputação duvidosa; um fraco governo central, que é incapaz de manter a ordem; ministros do governo que tiram proveito da falta de lei e despudoradamente enchem seus bolsos; e o choque de diferentes grupos étnicos e lingüísticos.
Há uma rivalidade tensa e potente entre os grupos étnicos nande e hutu de um lado, e os tutsis no outro. No ex-reino de Ruanda, que se estendia até o que atualmente é o leste do Congo, os tutsis e hutus não eram tribos diferentes -as palavras se referiam a diferentes classes sociais.
Mesmo que Nkunda tenha trazido certa ordem ao seu reino, ele não é popular entre a maioria dos congoleses. Ele é um tutsi, e tutsis são tolerados, não apreciados. Eles têm casas maiores e rebanhos de gado maiores. Milhares perderam tudo que tinham nas últimas semanas e fugiram para as florestas para escapar do combate, mas alguns tutsis conseguiram manter em segurança seus consideráveis rebanhos de gado, mesmo quando cercados por combates armados.
O desprezo pelos tutsis é alimentado por uma história de conflito, inveja e, para muitos, experiências pessoais dolorosas. Quando Laurent Kabila, o pai do atual presidente, que era aliado dos tutsis na época, atravessou o leste do Congo a caminho da capital congolesa de Kinshasa, em 1996, para derrubar o impopular ditador Mobutu Sese Seko, ele tratou os hutus com grande brutalidade. Até hoje, nem nandes e nem hutus sentam ao lado de um tutsi em um ônibus em Goma, e quando uma onda de violência varreu a cidade no final de outubro, foram principalmente as lojas de tutsis que foram saqueadas.
"Muitos acreditam que os tutsis simplesmente vieram de Ruanda", diz Hussein Kalumbi, um professor. "Os nandes acreditam que são daqui." A mãe de Kalumbi, que vive perto de Rutshuru, é uma tutsi que nasceu no Congo. Mas ela fala a língua ruandesa, o kinyarwanda, e seus ancestrais eram governados por um rei ruandês, cujo reino se estendia por grande parte do atual Congo.
Não é pequeno o número de hutus e nandes que acusam o presidente de Ruanda, Paul Kagame, também um tutsi, de querer reviver a história. Kagame, eles acreditam, está planejando estabelecer um novo império que englobaria as regiões onda a língua ruandesa é falada -Ruanda e parte de Uganda e do Congo. Neste arranjo, seria dado ao general Nkunda o papel de um governador no Congo.
A verdade provavelmente não é tão complicada. O general só conseguiu se tornar tão forte graças aos seus aliados poderosos -tanto voluntários quanto involuntários.
Kagame, o presidente de Ruanda, é um dos aliados voluntários. Ruanda claramente se beneficia com as condições instáveis, e ganha milhões de dólares por ano exportando matérias-primas oriundas do Congo. Também não é segredo que um número considerável de combatentes de Nkunda são ex-soldados do exército ruandês. De fato, um relatório para a ONU, que a "BBC" noticiou na quinta-feira, diz que o governo de Ruanda ajuda diretamente os rebeldes de Nkunda no leste do Congo com crianças-soldados, assistência e até mesmo disparos de morteiros a partir do território ruandês.
O relatório também alega que elementos do exército congolês colaboraram com a milícia de Nkunda na exploração dos recursos minerais do Congo. O ministro da informação congolês, Lambert Mende Omalanga, negou essas acusações de apoio congolês.
Caos e corrupção
Mas o ajudante mais importante de Nkunda -uma pessoa que assumiu o papel involuntariamente- é Joseph Kabila, o presidente do Congo. Ele está tentando governar um país enorme de Kinshasa, uma capital na periferia.
O problema é que Kabila, após oito anos no governo, ainda não saiu do estágio de teste. Seu governo central está entre os mais corruptos do mundo. Há ministros que possuem participações acionárias em minas, ministros que controlam companhias aéreas e ministros que embolsam o dinheiro para pagar os soldados. O orçamento da presidência por si só é 20 vezes maior do que o orçamento para a saúde de todo o país. Todavia, ambos os Kabilas, pai e filho, por muito tempo foram apoiados por muitos congoleses. Esses dias já passaram e a população esgotada do Congo percebeu que nada em seu país mudou desde a queda de Mobutu.
No Congo de Kabila, a polícia e os tribunais são disfuncionais, não há sistema de ensino e não há estradas ou sistema de transporte funcional. No meio do ano, pelo menos duas dúzias de presos morreram de fome nos presídios da província de Kasai do Leste. Em Butembo, a 200 quilômetros ao norte de Goma, apenas 10 dos cerca de 200 presos foram condenados após um julgamento de fato. Os professores não são mais pagos pelo governo, mas por taxas pagas pelos pais dos alunos. Para obter um passaporte, um cidadão congolês precisa viajar para Kinshasa e pagar US$ 1 mil, o equivalente a vários anos de salário.
Um órgão do governo chamado Conader, cuja função é coordenar o processo de desarmamento entre as várias milícias, fracassou miseravelmente. O Banco Mundial, a Holanda e outros injetaram mais de US$ 400 milhões no programa. Poucos milhares de milicianos receberam US$ 110 cada para entregar suas armas, mas os fundos não eram mais suficientes para pagar pelos materiais de construção que foram prometidos aos homens para que pudessem construir suas casas. O dinheiro simplesmente desapareceu, e quando uma comissão buscou investigar os distribuidores dos recursos em Kinshasa, um incêndio destruiu toda os registros contábeis.
O problema mais sério é a falta de segurança. O poder agora pode garantir a lei e a ordem. Os soldados de Kabila, em particular, estão entre os saqueadores mais notórios do leste do Congo. Quando passaram correndo por Goma no final de outubro, fugindo de Nkunda, eles tomaram carros e motos. Qualquer um que se recusasse a entregar seu veículo era baleado. "A maioria dos soldados do governo poderia ser mandada de volta para casa", disse um oficial da Monuc em Goma. "Eles são podres." Por desespero, e para limitar maiores ataques contra a população civil, a Monuc começou a entregar pacotes de alimentos aos soldados do governo.
No estádio em Rutshuru, Nkunda discursa sem anotações. Ele apela ao orgulho, patriotismo e esperança dos congoleses. "Outros países estão se desenvolvendo. Nós não, apesar de sermos ricos. Me dói ver o que ocorreu na Somália." É claro, ele acrescenta, tudo vai melhorar, desde que ele conte com o apoio das pessoas. "Rutshuru se tornará um modelo para todo o Leste da África", ele diz para sua platéia.
Os oficiais que desertaram do exército congolês explicam por que fugiram. Um ladrão que foi pego no flagra é arrastado ao palco -um menino assustado de 12 anos. Ele é supostamente um combatente maji-maji que foi capturado e agora será devolvido aos seus pais. Essa coleção heterogênea de personagens parece reforçar a promessa de Nkunda de um futuro melhor.
Sua aparição populista é bem organizada. Ele dança com garotas jovens, comanda o juramento dos novos recrutas da polícia e apresenta o novo representante da cidade. "Vocês querem ser governados por estranhos ou por pessoas que conhecem?" ele diz. No estádio, as pessoas murmuram de forma complacente, o que o general interpreta como um sinal de aprovação.
Um presidente sem poder, soldados que precisam ser alimentados pela ONU e que, por sua vez, são incapazes de impedir nem mesmo uma das partes em guerra -estas são as circunstâncias que permitiram a Nkunda e seus soldados tomarem o interior e expandir sua esfera de influência. A paz no Congo não é mais possível sem ele. O presidente Kabila percebeu isso e, na segunda-feira, uma delegação de rebeldes de Nkunda se reunirá para negociações com os emissários de Kinshasa.
Tradução: George El Khouri Andolfato
Der Spiegel
Permalink Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 256.