Arquivo de 5 de Janeiro de 2009

QUANTO CUSTA O MUNDO?

Os Estados jogam ao monopólio de crise.

Robert Kurz

Tudo tem de acabar um dia em colapso - o Império Romano, o socialismo real, o Lehman Brothers e o discurso da hegemonia neoliberal. Só o capitalismo é que não. Ele vai sobreviver até mesmo ao universo. É o que garante, além da teoria de esquerda pós-marxista, em termos práticos, o Estado, que acaba de ressuscitar das ruínas.

Fá-lo, em todo o caso, embora ele próprio ainda recentemente estivesse sem cheta, enquanto os dólares e euros só pareciam estar jorrando da cornucópia do Investment-Banking. Não interessaria nada que tenha sido uma bolha de crédito historicamente sem precedentes; já foi há tanto tempo e tudo correu bem. Mas a crise hipotecária nos E.U.A., em ebulição moderada desde 2007, foi apenas o catalisador da fusão nuclear há muito esperada do sistema global de crédito, que abre caminho desde as "segundas-feiras negras" do Outono deste ano. De repente, é o Estado que é invocado como gestor da crise e salvador, começando por sua vez a agitar a cornucópia.

Os Estados Unidos só por si montaram pacotes de salvamento na ordem dos 8 biliões de dólares, incluindo 3 biliões de cobertura de risco para perdas de créditos (garantias), 3 biliões sob a forma de injecções de capital (nacionalização parcial dos bancos através da compra de acções) e de quase 2 biliões por empréstimos estatais para o sector financeiro. No âmbito da UE estruturaram-se de forma semelhante os pacotes de salvamento da Alemanha, França e Grã-Bretanha, ascendendo a cerca de 2,2 biliões de dólares.

Até agora, apenas uma fracção destas importâncias foi gasta. Nos orçamentos dos Estados elas não surgirão inicialmente como nova dívida do consumo público, mas sob a forma de títulos de crédito e valores mobiliários portadores de juros. A esperança é que com estas medidas se reconstitua a "confiança" no sector financeiro, que as garantias nunca sejam executadas, que os bancos possam utilizar os empréstimos obtidos do Estado e que a cotação das acções bancárias adquiridas possa voltar a subir, de modo que, possivelmente, no fim se obtenha mesmo um lucro para as finanças públicas.

Esta esperança, no entanto, é bastante ingénua. Inspira-se na experiência das operações estatais de salvamento no colapso do sistema das caixas de poupança nos E.U.A. em fins dos anos 80 e na crise bancária escandinava nos anos 90. Porém, estas acções de apoio só foram tão bem-sucedidas porque ficaram limitadas a um sector e ocorreram no quadro duma tendência ascendente continuada da economia global da bolha do crédito. Mas agora é o rebentamento da bolha que está à vista, até nos mais remotos recantos do mercado mundial. Se inicialmente ainda se acreditava que a crise poderia ficar limitada aos Estados Unidos e a algumas franjas da Europa Ocidental, ela atingiu entretanto também a Rússia, a Europa Oriental e partes da Ásia e da América Latina. A União Europeia já tem não apenas de reabilitar o sistema bancário dos seus Estados centrais, mas tem também de salvar da bancarrota estatal os novos países aderentes - do Báltico à Hungria. E a reacção em cadeia ainda continua.

A metáfora da "criação de confiança" é ela própria uma bolha retórica. Na realidade, já não se trata do estado de espírito no sector financeiro, mas de pesados factos objectivos. Não foi o sistema global de crédito que se desacoplou duma economia real saudável, pelo contrário, foi ele que fomentou uma insustentável conjuntura económica baseada no deficit. As condições reais de valorização do capital mundial, se é que ainda se pode falar de algo assim, já na década de 80 tinham atingido os seus limites. O célebre "jobless growth [crescimento sem emprego]" dos anos 90 baseava-se apenas num financiamento a crédito sem substância, já sem base em salários e lucros reais. Os rendimentos fictícios da bolha do imobiliário nos E.U.A., Inglaterra ou Espanha e o "milagre do consumo" que lhes estava associado perante a queda constante dos rendimentos reais foram apenas a ponta do iceberg. Por isso é que, juntamente com o crash do crédito, a economia mundial, que já não é real, faz uma travagem a fundo.

Enquanto os buracos abertos no sistema financeiro ainda não foram tapados, tornam-se necessários, ao mesmo tempo, programas estatais de conjuntura. Os E.U.A. gostariam de também aqui dar o máximo; Obama anunciou uma injecção na economia de quase 900 mil milhões de dólares. Na União Europeia, pelo contrário, a esperança é a última a morrer; o governo de Merkel acredita poder tratar o assunto com uns míseros 11 mil milhões de euros e o ministro das finanças Steinbrueck fantasia sobre um reendividamento moderado de apenas 8 mil milhões de euros em 2009. A discussão sobre as drásticas reduções de impostos e até mesmo cupões de consumo de 500 euros por cada cidadão adulto mostram que a situação não é essa. Mas se o fim da conjuntura da economia mundial baseada no deficit derrete as receitas fiscais, se o crédito do Estado tem de apoiar a venda de mercadorias em quebra e, simultaneamente, atacar realmente os astronómicos custos do saneamento do sistema financeiro, então o colapso das finanças públicas está programado. A ilusão do Estado é apenas a continuação da ilusão da bolha do crédito.

O monopólio de crise jogado pelos Estados também é levado a sério num discurso "geopolítico" que prevê a deslocalização do poder mundial em direcção à China e à Índia. Mas estes supostos milagres de crescimento não são autónomos, pelo contrário, estão completamente amarrados ao circuito do deficit da economia mundial. Se o colapso das finanças públicas dos E.U.A. desvalorizar o dólar, os fundos públicos dos países emergentes talvez ainda possam pagar uma rodada de cerveja com os seus activos em dólares, aparentemente inesgotáveis. Os postos de trabalho na indústria de exportação de sentido único, que de todo o modo assentam principalmente no investimento de conglomerados transnacionais e suas cadeias de criação de valor fictício, têm pés de barro. O efeito dominó da crise económica mundial em breve vai dominar também a China, a Índia e o Japão. O crash do sistema de crédito que aí já se nota, o final do boom de exportação e as convulsões sociais, incluindo a queda da nova classe média, podem em breve reduzir a nada todos os programas de potência mundial, programas espaciais e programas de armamento.

Por todo o mundo a esquerda política reconciliada com a economia de mercado está de boca aberta. Toda a pragmática realpolitik no melhor dos mundos se revela como mentira vital. A ruptura de época de 2008 não desmente a de 1989, mas constitui a sua continuação. Pois o fim do capitalismo de Estado do Leste, tal como a crise asiática e latino-americana da década de 90 e o crash das Dot-com de 2001 foram os precursores da crise geral do mercado e do sistema mundial.

O capitalismo está a fracassar segundo os seus próprios critérios. O business as usual político já era. Isto vai tornar-se conhecido, o mais tardar, quando a crise irromper no quotidiano dos homens e mulheres pós-modernos da Eu, S. A. (Sociedade Unipessoal).

Publicado no semanário TAZ (Berlin) em 15.12.2008.

http://obeco.planetaclix.pt/

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Em busca do tempo perdido

Antes de começar a tratar seres humanos com células-tronco embrionárias, precisamos resolver questões fundamentais

Lygia da Veiga Pereira

A obtenção da primeira linhagem de células-tronco (CTs) embrionárias humanas no Brasil, a BR-1, contribui para o avanço das pesquisas nacionais e nos libera de restrições de importação O ano de 2008 será lembrado como um período de grandes altos e baixos. Deixo os baixos – e que baixos! – por conta da crise deflagrada pelo estouro da bolha de ganância do mercado financeiro – e fico por aqui neste assunto para não correr o risco de falar do que não compreendo bem e, pior, de perder o interesse do leitor.
Vamos comemorar os altos, especificamente o “final feliz” da trajetória política e científica das pesquisas com CTs embrionárias humanas no Brasil. Não custa repetir: as embrionárias são o tipo mais versátil de CTs até hoje identificadas em mamíferos, com capacidade
de dar origem a qualquer tecido do corpo. Quando transplantadas em animais doentes, essas células são capazes de aliviar os sintomas de diversas doenças, desde Parkinson até diabetes. Porém, como são retiradas de embriões produzidos por fertilização in vitro (FIV), são foco de grande polêmica no mundo todo.
Este ano comemoramos o fim dessa polêmica no Brasil – pelo menos do ponto de vista legal. Depois de três anos de análise, a Lei de
Biossegurança de 2005, que permite o uso para pesquisa de embriões inviáveis, ou que estejam congelados há pelo menos três anos, foi finalmente consagrada e considerada constitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Essa decisão não significa que a partir de agora podemos tratar pacientes com as CTs embrionárias – antes de começarmos mesmo os testes clínicos em seres humanos, temos algumas questões fundamentais que devem ser resolvidas para que esses tratamentos sejam seguros. Mas ela deixou de uma vez por todas claro que o Brasil é um país laico, com uma política de desenvolvimento científico moderna, sintonizada com os modelos praticados pelos países mais desenvolvidos. Passamos a integrar o grupo que investe na promessa terapêutica de todos os tipos de CTs, incluindo as embrionárias, composto por Estados Unidos, Reino Unido, França, Israel, Suécia, China, Japão e Austrália, entre outros. Além disso, com o fim do debate legal, mais grupos de pesquisa no Brasil deverão passar a trabalhar também com as CTs embrionárias.
Uma boa notícia leva a outra: logo em seguida, o governo federal anunciou o investimento de mais R$ 21 milhões em pesquisas com CTs, e a criação da Rede Nacional de Terapia Celular, com os objetivos de estruturar o esforço nacional de pesquisa em terapia celular, ampliar a geração de conhecimento por meio de uma maior interação na comunidade científica e qualificar novos profissionais. Essa rede deve criar uma grande sinergia entre os grupos brasileiros, acelerando o ritmo das pesquisas com células-tronco no país.
Finalmente, em outubro de 2008, nosso grupo anunciou o estabelecimento da primeira linhagem de CTs embrionárias humanas no Brasil, a BR-1 – ou seja, conseguimos extrair aquelas 50-100 células pluripotentes de um embrião descongelado, cultivá-las e multiplicá-las em milhões de células, que agora podem ser usadas para pesquisa por vários grupos brasileiros. Apesar de não ser inédito no mundo – afinal, as primeiras linhagens de CTs embrionárias humanas surgiram nos Estados Unidos em 1998, esse é um feito de grande importância para o país. Adquirimos autonomia em relação às pesquisas com CTs embrionárias, que antes dependiam do recebimento de células de grupos estrangeiros, amarradas a várias restrições de patentes. Passamos a dominar todos os processos envolvidos no uso terapêutico das CTs embrionárias, desde a retirada daquelas poucas células de um embrião até a transformação dessas células em neurônios capazes de tratar um camundongo com lesão de medula.
Mas, e os nossos pacientes? Quando poderão ser tratados com as CTs embrionárias? Por incrível que pareça, apesar dos ótimos resultados terapêuticos dessas células em várias doenças em modelos animais, no mundo todo ninguém recebeu ainda uma injeção de CTs embrionárias. Algumas empresas americanas comunicaram ter desenvolvido tratamentos seguros com essas células e já pediram licença para iniciar testes em seres humanos – provavelmente este ano. Assim, finalmente, saberemos se a promessa terapêutica dessas células se cumpre nos pacientes.
Como os leitores podem ver, o que chamei de “final feliz” foi na verdade um começo muito entusiasmado da busca pelo tempo perdido nas pesquisas com CTs embrionárias no país. Com a primeira linhagem brasileira – BR-1 – recuperamos bastante o atraso. Este ano seguiremos neste ritmo, contando com um governo comprometido com políticas bem definidas de prioridades nas pesquisas com células-tronco, unindo forças e criando condições para transformálas numa realidade terapêutica em benefício de toda a população.

image Lygia da Veiga Pereira é professora livre-docente e chefe do Laboratório de Genética Molecular do Instituto de Biociências da USP e autora dos livros Clonagem: da ovelha Dolly às células-tronco e Seqüenciaram o genoma humano… E agora? (Editora Moderna).

Scientific American Brasil

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O turbilhão de violência da Grécia

A revolta de uma geração desapontada

Manfred Ertel e Daniel Steinvorth

A convulsão social violenta que seguiu-se ao assassinato de um adolescente de 15 anos colocou a Grécia à beira de uma crise política. As manifestações marcam uma explosão de ira por parte dos jovens do país, que contam com poucas perspectivas de obter um lugar para si em uma sociedade na qual todas as iniciativas estão sufocadas.
O clima no auditório lotado fazia lembrar os protestos dos movimentos estudantis de 1968. Centenas de jovens entravam no salão escuro, sentavam-se nos degraus das escadas ou subiam nas mesas. Eles gritavam "assassinos" e "porcos" - a aplaudiam estrondosamente os pedidos de vingança. A fumaça de cigarros e o cheiro de suor pesavam no ar.
Jorgos Barutas, 29, precisou esforçar-se para fazer-se ouvir. O engenheiro de computação, exibindo uma barba de cinco dias e óculos com aros de aço, estava à beira das fileiras de cadeiras inclinadas e gritava para a platéia com uma voz grave. "Temos que manter a pressão até que o governo renuncie". Aplausos. "Precisamos transformar os protestos em um movimento político". Aplausos. "Temos que formular objetivos políticos". Novamente, aplausos estrondosos. Barutas desceu do palanque, sentindo-se satisfeito, e os estudantes deixaram o salão.
Fora do campus da Universidade Politécnica de Atenas, tais declarações políticas altaneiras são rapidamente esquecidas. Incêndios e os restos calcinados de barricadas feitas às pressas bloqueiam os caminhos para os salões de palestras. Figuras vestidas de preto e usando máscaras de esqui fazem gestos ameaçadores e dão empurrões para impedir que pessoas de fora entrem.
Contêineres de lixo estão em chamas em frente à entrada da universidade, e nas ruas laterais, jovens montam barreiras entre carros queimados e quiosques, ou pilhas de pedras do tamanho exato para serem arremessadas.
É o quinto dia da intensa rebelião de jovens em Atenas. Os protestos tiveram início no distrito de Exarchia - um nicho tradicional de artistas, anarquistas e intelectuais de esquerda - e espalharam-se rapidamente pelo país inteiro. Eles também geraram protestos violentos nas grandes cidades de Tessalonica, Patras e Heraklion - e em 20 outras cidades gregas.
Depois que a polícia matou a tiros Alexandros Grigoropoulos, um adolescente de 15 anos, uma semana atrás, em um sábado, houve protestos violentos em ilhas gregas como Lesbos, onde a polícia usou gás lacrimogêneo contra os manifestantes. Só em Atenas centenas de lojas foram destruídas e saqueadas, escolas interromperam as aulas e as universidades cancelaram palestras. Faltando apenas alguns dias para o Natal, "a cidade ficou paralisada", diz o porta-voz do governo, Evangelos Antonaros.
No decorrer dos últimos sete dias, uma onda de protestos chegou a disseminar-se para grandes cidades européias. Simpatizantes ocuparam os consulados gregos em Berlim e Londres, anarquistas organizaram manifestações de solidariedade em Barcelona, Roma e Copenhague, e a sensação de indignação chegou até a Nova York.
A Politécnica de Atenas, no centro de Exarchia, é o foco dos protestos e um local repleto de simbolismo para os esquerdistas gregos. Foi lá que os estudantes entrincheiraram-se dentro dos prédios da universidade em 1973 para protestarem contra a junta militar. Quando os tanques derrubaram os portões em 17 de novembro e acabaram com o levante esquerdista, pelo menos 34 jovens morreram e 800 ficaram feridos.
Atualmente, o relativamente grande movimento anarquista Bloco Negro, na capital grega, identifica-se fortemente com a tradição daqueles jovens rebeldes dos anos setenta. Durante anos, eles vêm incendiando postos policiais, bancos e instituições estatais. "Sob uma perspectiva estatística, há ataques como este todos os dias", afirma um especialista em segurança.
Uma lacuna crescente de prosperidade entre jovens e velhos.
A morte do estudante proporcionou pela primeira vez um apoio generalizado aos anarquistas do Bloco Negro - e colocou o país à beira de uma crise política. "Um jovem morto por uma bala da polícia é a pior coisa que pode acontecer", reconhece Antonaros. Mas ele acrescenta: "Isto não tem nada a ver com convulsão social".
É verdade que as rebeliões, que continuaram até o fim de semana, e especialmente a simpatia óbvia pelos jovens manifestantes, são uma expressão do desapontamento generalizado do povo grego com o governo e o sistema político. A classe política do país vem perdendo credibilidade há anos devido ao enriquecimento ilícito, às propinas e à "corrupção generalizada", diz um diplomata da União Européia. No decorrer dos últimos meses, vários ministros tiveram que renunciar devido a alegações de corrupção, sendo que o mais recente foi o antecessor do porta-voz do governo, Antonaros, e o ministro da Marinha Mercante, ambos muito próximos ao primeiro-ministro conservador Costas Karamanlis.
Para tornar a situação ainda mais difícil, a Grécia enfrenta uma situação financeira precária. Embora o crescimento médio da economia tenha sido de 4,3% desde 2000, a Grécia possui um dos maiores índices de inflação da zona do euro, em torno de 4,5%. O índice de desemprego de 7,5% continua dentro das normas européias, mas a lacuna de prosperidade entre a geração mais velha - trabalhadores e funcionários públicos veteranos - e os jovens que acabam de sair da faculdade continua aumentando. Quase um quarto de todos os adultos com menos de 29 anos encontra-se desempregado.
A atual crise não atingiu apenas os perdedores tradicionais da modernização, tais como indivíduos de estratos com menos vantagens educacionais e imigrantes. Desta vez, jovens com educação superior de famílias de classe média de boa situação financeira também precisam trabalhar em empregos desqualificados para manterem-se à tona. Devido à falta de renda, muitos jovens gregos moram com os pais até depois dos 30 anos de idade. "O sistema é ajustado às necessidades dos que estão estabelecidos e dos indivíduos mais velhos", afirma o sociólogo Stratos Georgoulas, da Universidade Egéia em Lesbos. "E os jovens estão sofrendo devido a isso".
Esperanças e oportunidades frustradas
Os especialistas econômicos passaram a referir-se à geração ? 700 (geração US$ 935), e o líder estudantil Barutas é um exemplo típico disso: ele cursou engenharia elétrica durante cinco anos na Politécnica de Atenas, e formou-se com notas excelentes. Agora ele trabalha como professor de uma escola de segundo grau ganhando oito euros líquidos por hora, 12 horas por semana, o máximo permitido. Tais empregos são freqüentemente limitados por contratos de quatro ou cinco meses. "Como é que eu vou viver e constituir família ganhando isso?", questiona o engenheiro.
"Aproximadamente 21% da população têm diploma universitário, de forma que nem todo especialista em línguas e literatura pode tornar-se imediatamente professor", diz o governo. "A geração atual de jovens acalentou grandes sonhos", rebate o professor de arquitetura Stavros Stavrides. "E agora esses sonhos e oportunidades foram frustrados".
Stavrides juntou-se a vários dos seus colegas em apoio aos protestos. "Temos dezenas de milhares de jovens que estão se rebelando e o governo não sabe como responder a essa situação", diz Nikos Belavilas, professor de planejamento urbano. "O sistema político não conseguiu integrar os jovens", acrescenta o sociólogo Georgoulas. "E é por isso que as coisas estão explodindo".
A sensação geral de frustração e impotência entre os manifestantes também é compartilhada pelo polícia, que é mal treinada e precisa defender constantemente a sua reputação contra as alegações generalizadas de infiltração direitista e xenofobia. O professor Belavilas fala de uma "brutalidade dos Bálcãs" que a tropa policial de choque utilizou contra os jovens manifestantes. Nos últimos anos foi registrado um número cada vez maior de mortes, e o tiroteio fatal em Exarchia é apenas um dentre vários exemplos disso.
A violência que se seguiu faz com que vários gregos mais velhos recordem-se do período de guerra civil de 1946 a 1949. E o cenário lembra de fato uma guerra civil: os jovens agrupam-se nas ruas e nas praças, ou sob a proteção das manifestações de massa, e jogam pedras, garrafas e pedaços de madeira contra a polícia que avança. Pequenos grupos de hooligans saqueadores, incluindo crianças, marcham pelos movimentados distritos comerciais. Armados de martelos e canos de ferro, eles quebram vitrines e janelas de automóveis, e incendeiam veículos e barricadas. Quando mais escura a noite, mais violenta a rebelião.
"Somos todos responsáveis"
Chocada pela reação furiosa à morte do jovem a tiros, a polícia desta vez está agindo com certa moderação ou respondendo com gás lacrimogêneo. E quando as unidades especiais, usando capacetes e escudos, avançam contra os manifestantes, estes recuam rapidamente para ruas vicinais escuras, seguindo geralmente para o campus da Politécnica.
O clima no campus lembra o de um festival ao ar livre. Por trás das barricadas nas entradas do campus e das faixas com slogans, fogueiras enormes ardem luminosas e o roque pesado ressoa pelas noites amenas. Há abundância de cerveja, e depois as garrafas vazias chovem sobre os policias que aventuram-se a chegar muito perto da universidade. Lá, os manifestantes são praticamente inatingíveis. Após a experiência fatal com as forças armadas em 1973, a universidade não pode ser invadida pela polícia, e tornou-se um paraíso anarquista. E um número surpreendentemente elevado de gregos acha que isso é bom.
Petros Markaris está sentado na sua cadeira e encontra-se indignado - mas não apenas por causa da destruição. O escritor de 71 anos de idade, cujos romances descrevem as razões subjacentes pelas quais os jovens estão rebelando-se na Grécia, diz que pressentiu os protestos. "Nós somos responsáveis por este surto de violência porque nós próprios o cultivamos", afirma Markaris.
A seguir ele desabafa a sua raiva, um ressentimento profundo devido ao fato de o seu país ser o palco de uma série infindável de escândalos, e de os "grupos corruptos" na política, na igreja, nas associações e nos sindicatos contarem com liberdade para saquear os bens públicos a bel prazer. Ele afirma que nenhum indivíduo dos dois campos políticos dominantes - nem os conservadores de centro-direita nem os socialistas, ambos dominados por clãs familiares - permitirão que os jovens tomem os seus lugares na sociedade. A Grécia de hoje sufoca todas as iniciativas.
"Os turistas alemães adoram a Acrópoles e a nossa história", afirma o escritor. "Mas os dias nos quais a Grécia foi uma civilização avançada acabaram há muito tempo".
Tradução: UOL

Der Spiegel

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Geração deixada para trás por trabalhadores migrantes filipinos

Carlos H. Conde
Em Manila (Filipinas)

O único desejo de Dolores Gerong neste Natal é voltar para as Filipinas, onde estão as três filhas. E o desejo dela é motivado por algo mais do que os sentimentos comuns na temporada de festas de fim de ano. Há quase dois anos ela deixou o seu país para trabalhar como empregada doméstica em Hong Kong, tornando-se parte do universo de trabalhadores filipinos migrantes espalhados pelo mundo.
Gerong diz que as três filhas adolescentes que ela deixou para trás precisam da sua companhia. O marido não pode ajudá-la: ele trabalha como motorista na Arábia Saudita há 14 anos.
"Fico preocupada todas as vezes que a minha irmã, que mora com as meninas, me diz que elas muitas vezes ficam até tarde na rua, gastando com bobagens o dinheiro que eu trabalhei duro para ganhar, e apresentando resultados inferiores na escola", diz Gerong, 35, por telefone, de Hong Kong. "Preciso ter uma conversa séria com as minhas filhas".
A angústia de Gerong é um tema familiar nas Filipinas, onde quase nove milhões de pessoas - 10% da população do país - saiu para trabalhar no exterior. Esses migrantes trabalhadores estão dispostos a suportar a separação, às vezes durantes anos a fio, para ajudar as famílias que ficam no país nativo.
A contribuição deles também é apreciada pelo governo. O envio de dinheiro pelos migrantes, que, segundo estimativas do ano passado do Banco Mundial chegou a US$ 17 bilhões, ajuda a manter a economia filipina à tona. Reconhecendo o valor dessas pessoas, o governo implementou treinamento vocacional e outros programas para aumentar a atratividade dos trabalhadores filipinos no mercado global. Atualmente há preocupações quanto ao efeito que a crise financeira poderia ter sobre o emprego no exterior.
Mas cada vez mais se questiona os custos sociais desta forte dependência dos trabalhadores ausentes, especialmente agora que a maioria consiste de mulheres, em sua maior parte mães que deixaram os filhos para trás.
Segundo vários estudos recentes, o preço pago pela "feminização da migração" tem sido alto.
Os homens filipinos há muito tempo trabalham no exterior, especialmente em obras de construção civil e no setor de navegação. Mas nas últimas duas décadas a demanda sempre crescente no mundo desenvolvido por enfermeiras, babás e empregadas domésticas filipinas abriu as portas para as mulheres do país. Atualmente elas são encontradas em grande número nos Estados Unidos, na Europa, no Oriente Médio e em outras partes do sudeste da Ásia, especialmente Hong Kong e Cingapura.
É cada vez menos provável encontrá-las nas Filipinas, cuidando das suas próprias famílias. Cerca de seis milhões de crianças filipinas estão crescendo sem a presença de pelo menos um dos genitores por causa da migração.
"O fato de que atualmente o genitor ausente é geralmente a mãe resultou em deslocamentos, perturbações e mudanças nas medidas para cuidar das crianças", disse em setembro, em uma conferência sobre migração em Manila, Vanessa Tobin, vice-diretora da Unicef.
Os adolescentes têm sido particularmente atingidos. Um estudo divulgado neste ano pelo Centro de Políticas Ásia-Pacífico, uma instituição sem fins lucrativos, indica que os adolescentes de 13 a 16 anos são os mais afetados, sendo que muitos abandonam a escola, experimentam drogas ou, no caso das meninas, engravidam.
De fato, uma das maiores preocupações de Gerong é com o fato de a sua filha mais velha ter agora um namorado. "Fico perturbada por não estar lá para acompanhá-la nesse processo", afirma ela.
Rosemarie Edillon, diretora-executiva do Centro de Políticas Ásia-Pacífico, afirma: "É preocupante que adolescentes desta faixa etária , que exigem a maior atenção dos adultos, sejam atualmente os mais negligenciados".
No estudo feito em 120 domicílios em várias cidades e vilas na província de Ilocos Norte, os pesquisadores do grupo descobriram que as crianças e adolescentes que tinham pelo menos um genitor migrante apresentavam uma incidência maior de problemas de saúde como infecções de ouvido e escabiose.
"Seria de se esperar que elas tivessem dinheiro para comprar remédios, mas há um limite para aquilo que uma avó é capaz de fazer", afirma Edillon. Muitos filhos de migrantes são deixados aos cuidados de um avô ou de outros parentes.
Rebecca Lucero, que deixou o filho de três meses para trás há 18 anos para trabalhar em um hotel Holiday Inn em Dubai, decidiu voltar de vez para as Filipinas em 2000, quando o menino tinha dez anos. Foi uma decisão que, segundo ela, quase acabou com a culpa que ela sentia por ter deixado Patrick aos cuidados da sua mãe (o marido dela, Rodrigo, ainda está trabalhando em um hotel em Dubai).
"Sinto-me realmente feliz por ter retornado exatamente quando Patrick estava entrando na fase da adolescência", diz Lucero. "Agora, posso vê-lo crescer e orientá-lo. Desde que voltei tenho procurado recuperar o tempo perdido, mas valeu a pena".
No bairro de Lucero, onde 75% dos mais de mil domicílios contam com pelo menos um genitor trabalhando no exterior, medidas vêm sendo tomadas no sentido de reduzir o impacto da migração sobre as crianças.
Pouca gente se dedica mais a essa iniciativa do que Nimfa Melegrito, que dirige a Sammaka - um acrônimo na língua Tagalog para Organização dos Trabalhadores Migrantes e suas Famílias - a partir da casa dela em uma área de favelas na cidade de Quezon.
Melegrito, 62, é ela própria uma ex-trabalhadora migrante - ela passou dez anos trabalhando como costureira na Arábia Saudita - que sente que a sua família pagou um preço pela sua ausência. Embora fosse capaz de mandar dinheiro para casa, ela esteve menos envolvida com as vidas dos filhos. Ao contrário do que ela esperava, nenhum deles terminou a faculdade. Melegrito está convencida de que "as coisas teriam sido diferentes se eu estivesse aqui para cuidar deles".
Melegrito e a sua organização estão tentando ajudar as famílias de migrantes a lidar com os seus vários problemas. "Gravidez de adolescentes, uso de drogas, notas baixas na escola - pense em qualquer problema, que nós o enfrentamos", diz ela.
Eles têm cooperado com grupos como o Centro Kanlungan de Trabalhadores Migrantes, uma organização privada e sem fins lucrativos, fornecendo orientação e outros serviços de apoio às famílias. Uma dos principais objetivos é fornecer treinamento e acesso a empregos que pagam melhor nas Filipinas, a fim de reduzir a grande dependência do dinheiro enviado por parentes migrantes, explica Melegrito.
O grupo dela já conseguiu obter a participação de adolescentes filhos de migrantes. Um deles é Rommel Miñoza, 14, que mora com a avó desde os dois anos de idade, já que a mãe trabalha como esteticista na Arábia Saudita.
"Ele é um bom menino, e conhece os sacrifícios que a mãe tem feito apenas para poder enviar para casa algumas centenas de dólares por mês", diz a avó, Inocencia Miñoza.
Rommel tende a chorar quando a sua mãe é mencionada. "Ainda que comunique-se constantemente pelo telefone celular, ele sente muita saudade dela", diz Rommel.
O garoto diz que homenageia a mãe todas as vezes que participa de um projeto para o grupo de Melegrito, que tem organizado reuniões para que as crianças possam se socializar. Às vezes, o grupo de Melegrito traz alunos de escolas particulares exclusivas de Manila para que estes ajudem os filhos de migrantes a fazer as tarefas escolares e a superar o isolamento.
"Precisamos desse tipo de apoio comunitário, de forma que essas crianças não se sintam nem um pouco abandonadas", diz Melegrito.
Acadêmicos como Rhacel Salazar Parreñas, socióloga da Universidade da Califórnia em Davis, há muito falam sobre a necessidade de que uma comunidade maior assuma um papel mais ativo na redução do impacto da migração.
Embora os filipinos sejam conhecidos pelas suas famílias grandes - segundo a Unicef, 63% das famílias que têm uma mãe trabalhando no exterior contam com um avô ou outros parentes morando consigo -, Parreñas acha que a sociedade filipina não se empenhou suficientemente para reconhecer as circunstâncias especiais das famílias de migrantes.
"Os cursos de ‘valores familiares’ na escola não mencionam tais famílias. Em vez disso, os textos escolares insistem em normalizar a família nuclear na qual um pai, uma mãe e os filhos moram juntos", escreveu Parreñas em uma mensagem enviada por e-mail.
"As Filipinas enfrentam o desafio de ajustarem-se aos modelos familiares diferentes, e, conseqüentemente, de reconhecerem as experiências e o bem-estar dos filhos de pais migrantes, de forma que eles não se sintam como as ‘anomalias’ na sociedade", acrescenta Parreñas.
Tradução: UOL

Herald Tribune

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A Gênese dos "Cem Anos de Solidão"

Gabriel Garcia Márquez já havia publicado nos anos de 1960 vários contos aparecidos em diversas revistas ou jornais latino-americanos, mas até então parecia uma das tantas promessas literárias que não vingam. Sentindo-se impossibilitado por suas tarefas como roteirista de cinema e como redator publicitário, ele decidiu-se por uma medida extrema. Ficaria trancado num lugar até colocar todo o livro que fazia tempo o incomodava em sonhos de uma só vez no papel. Para a glória das letras, assim foi que ‘Cem anos de Solidão’ veio à luz em 1967.

Na estrada para Acapulco

A solidão e o sonho

“Nem nos meus mais delirantes sonhos poderia eu imaginar que um milhão de pessoas poderiam ler uma obra escrita no meu quarto, com as 28 letras do alfabeto como todo arsenal, pareceria uma loucura.”
(G.G.Márquez no IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, Cartagena das Índias, março de 2008).

Garcia Márquez já fizera um tanto de tudo. Para desgosto da mãe, Luiza Santiaga, largara o direito para dedicar-se às letras. Tornou-se jornalista profissional para melhor se intimar com as palavras e com gente ligada aos livros, suas duas paixões assumidas. Começando na sua Colômbia, não tardou para que, no tempo da ditadura de Rojas Pinilla, o enviassem à Paris como correspondente, ideal de oportunidade insubstituível de qualquer intelectual latino-americano.

Desempregado, padeceu do conhecido roteiro comum aos ‘artistas da fome’, vagando por pensões e hotéis onde, por vezes, viveu por favor. Com a erupção da Revolução Cubana de 1959, convidaram-no para ser assumir a Prensa Latina, órgão oficial do regime fidelista criado para contrapor-se à sempre hostil mídia norte-americana.

Mudou-se então por uns tempos para Nova York, mas um desentendimento ocorrido em Cuba com o superior dele, fez com que ele se demitisse e viesse a morar na Cidade do México.

Sobrevivia fazendo roteiros e criando anúncios para uma agência de propaganda. Nada menos do que a “Walter Thompson”, uma das maiores empresas de publicidade dos Estados Unidos. Foi uma troca radical: deixou de servir a Cuba de Fidel Castro para ligar-se a Madison Avenue de Nova York. (*)

Evidentemente que aquilo o incomodava. Pulsava-lhe o talento de autor originalíssimo mas afogado pela necessidade do ganha pão diário, com família a sustentar. O estalo o acometeu dirigindo para Acapulco no seu velho ‘Opel’. A história de Macondo lhe apareceu por inteira na mente desde os 16 anos de idade forçava-o agora que a contasse. Não iria mais perder tempo, afinal iria fazer 40 anos. O livro tinha que sair de dentro dele de qualquer modo.

Afinal, lembra Mário Vargas Llosa, escrever uma novela é um ato ‘de rebelião contra a realidade e contra Deus’, uma atitude de insatisfação frente à vida, porque o autor, sempre um dissidente, não aceita o mundo tal qual é, e teima em inventar um outro mais próximo ao seu delírio. É,portanto, um deicida, um inconformado que recria um outro mundo com palavras e com a força da sua imaginação.

(*) Ainda assim, Garcia Márquez nunca rompeu com Fidel Castro como fez a maioria dos intelectuais e escritores latino-americanos conforme a Revolução de 1959 ia causando desencanto. Quando visitava Havana sempre levava consigo uma pilha de livros que ele pessoalmente selecionava para Castro ler, mantendo com ele uma relação de amizade que permaneceu inalterada esses anos todos. Tanto que hoje, octogenário, vive em Cuba procurando tratar-se de um câncer.

Na Cova da Máfia

O mundo onírico latino-americano (tela de Roberto Fabelo)

Recebeu integral apoio de Mercedes sua mulher. Entregou a ela uma suposta vara mágica que lhe permitiria prover a família e trancou-se numa pequena peça da casa que ele apelidara de ‘Cova da Máfia’. Sua residência ficava então de San Angel Inn, onde escolheu amuralhar-se, determinado que nada, a não ser caso de morte, fosse perturbá-lo. Supôs que a faina se estenderia por seis meses. Dar conta do mundo onírico que o envolvia exigiu-lhe no entanto um tempo bem maior.

Mercedes, enquanto isso, encarnou a função que a ‘abuela Mina’ - a avó materna de Garcia Márquez - desempenhara certa feita para manter a casa em ordem e com refeições diárias frente a um marido um tanto que ausente e que tinha ‘uma noção alegre do dinheiro’ (ver ‘Vivir para contarla’, 2002, pág. 97 e 98).

Ainda que amigos o procurassem para longas conversas à noite, o ritmo do trabalho de oito a dez horas por dia não se alterou. Resmas de papel eram consumidas num teclar insano da máquina de escrever. O escritor cismara acreditar que qualquer erro datilográfico que cometesse era sinal de deficiência na criação. Daí arrancar a página e rasgá-la com furor para recomeçar uma outra desde o começo.

Aos poucos a saga dos Buendias, perdidos em Macondo, lugar remoto do interior da Colômbia, tomou forma. Eram histórias que ele ouvira da matriarca da sua família, sua avó, que se misturavam a tantas outras das mulheres ‘da sua tribo’ que começaram a lhe chegar de todos os lados ao longo dos anos.

Na verdade eram recordações nostálgicas da Aracataca natal, um lugarejo alquebrado pelo sol inclemente e por borrascas arrasadoras, descrito então por ele à sombra inspiradora de um dos seus deuses tutelares: o romancista norte-americano William Faulkner.

Entre outros motivos, dava preferência aos relatos da veneranda e das tias porque segundo ele ‘são elas – as mulheres - que sustentam o mundo, enquanto que os homens o desordenam com sua brutalidade histórica’ (in ‘Vivir para contarla’, 2002, pág, 89). Era um ‘Paraíso hermético’ povoado com vozes ancestrais e outras assombrações que insistiam em entrar em contato mediúnico com ele.

Dezoito meses depois deu por findo o trabalho.
Somente muitos anos passados soube que a senhora que contratara para fazer a revisão dos originais e datilografar o material corrigido, certa vez deixara cair um maço de folhas dentro da água ao descer do ônibus. Por sorte ela as juntou uma a uma e depois, em casa, secou-as a ferro. Garcia Márquez não ficara com cópia nenhuma. Uma temeridade naqueles tempos em que não havia ainda a xerox.

O primeiro sinal

Ilustração cubana de ‘Cem anos…(Roberto Fabelo)

Terminados os três primeiros capítulos, ele os enviou ao novelista mexicano Carlos Fuentes, então na Europa, o primeiro a reconhecer-lhe a genialidade. "São absolutamente magistrais" - disse Fuentes entusiasmado após a leitura das 70 e poucas páginas - "toda a história ‘fictícia’ coexiste com a história ‘real’, o sonhado com o documentado, e graças às lendas, as mentiras, os exageros, os mitos…Macondo se converte num território universal, numa história quase bíblica das fundações e das gerações e das degenerações, numa história de origem e destino do tempo humano e dos sonhos e desejos com que os homens se conservam e se destroem".

Fragmentos da novela começam a aparecer em Bogotá, Lima, México e até Paris. A recepção foi unânime. Um novo fenômeno das letras hispânicas entrava na história das letras. Cervantes, enfim, achava um sucessor. (ver Mário Vargas Llosa - Garcia Márquez, historia de um deicidio, pág.77-84)
Todavia, as dificuldades financeiras do casal Márquez não se haviam desfeito. Mercedes amealhara uma dívida de dez mil dólares enquanto o marido se enfurnava para exorcizar os demônios de dentro de si. Para despachar o chumaço de páginas para o Editorial Sudamericana de Buenos Aires eles precisavam de 82 pesos. Contando os tostões, Mercedes alcançou apenas 53. Decidiram então dividir em dois o pacote. Na atrapalhação, remeteram a segunda parte. Felizmente, o editor ansioso logo tratou de enviar-lhes o valor necessário para que tudo fosse logo imprimido.
O livro surgiu então em junho de 1967, tendo um sucesso estrondoso. Nos três anos seguintes vendeu quase 500 mil exemplares. Em razão disto, acumularam-no de prêmios na Itália, na França e nos Estados Unidos. Assustado com tudo, Garcia Márquez então se mudou para Barcelona atrás de sossego. De pouco serviu, pois a imprensa e os editores, tentando saltar pela parede de negativas e silêncio que Mercedes formara ao redor dele, o perseguiam por todos os lados.

O dinheiro recebido, mesmo com a chatice do assédio correspondente à fama atingida, deixou-o muito bem de vida. Permitiu que ele por fim realizasse a ambição de se consagrar apenas às letras e a nada mais. Para sorte os seus leitores, nesses últimos quatro decênios, ele os têm abastecido de incontáveis outras novelas (’O amor em tempo de cólera’, ‘O general e seu labirinto…., ‘Crônica de uma morte anunciada’, ‘ Ninguém escreve ao coronel’, ‘Do amor e outros demônios’, ‘Memórias de minhas tristes putas’).
Nem o Prêmio Novel que recebeu em 1982 fez por alterar a qualidade do que continua a sair da sua prodigiosa imaginação fazendo dele e dos ‘Cem Anos de Solidão’ o maior sucesso literário da língua espanhola desde que Cervantes mandou imprimir a primeira parte de ‘D.Quixote de la Mancha’, em 1605.

Edição magistral

Para afirmar ainda mais a sua exaltação como autor quase que insuperável das modernas letras hispânicas, Garcia Márquez viu-se premiado com uma edição especial da Editora Alfagarra, a pedido da Real Academia Espanhola de Letras, que imprimiu 650 mil exemplares dos ‘Cem Anos de Solidão’, numa tiragem especial que contém excelentes artigos introdutórios de Álvaro Mutis, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa, Víctor García de la Concha e Cláudio Guillén. Poucos autores alcançaram em vida tal homenagem.

Bibliografia

- Llosa, Mário Vargas – Garcia Márquez, historia de um deicidio. Barcelona-Caracas: Monte Ávila Editores, 1971.
- Márquez, Gabriel Garcia – Discurso de agradecimento no IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, Cartagena das Índias, março de 2007.
- Márquez, Gabriel Garcia – Vivir para contarla. Buenos Aires; Editorial Sudamericana, 2002.

Voltaire Schilling - Terra História

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Um ataque ao império de kronos

Quando o planeta esperava uma explosão de riqueza, o que explodiu foi a bolha do capital virtual

Maria Rita Kehl*

Uma crise é uma cambalhota na experiência subjetiva do tempo. O império de kronos, tempo linear que experimentamos como uma seqüência de minutos, horas, dias, é interrompido por kairós, instante brusco e disruptivo do acontecimento. O que o sujeito faz da oportunidade que se abre nesse momento, o rumo que escolhe tomar na chamada hora H, decide o desenlace da crise. Daí a tendência, mil vezes enfatizada pelo imaginário dos filmes de ação, de associar as crises a velocidade e precipitação.
A menos que… a menos que a crise em questão seja provocada, como esta que hoje vivemos, por alguns excessos de velocidade.
Tomemos as ressonâncias subjetivas do vocabulário econômico que caracterizou o último período (anos? décadas? Tudo foi tão rápido que a medida se perdeu). Do que se falava no longínquo semestre passado? De uma espantosa aceleração na concentração planetária do capital. O dinheiro se reproduzia em um irreal “mercado de futuros”. Fortunas se acumulavam da noite para o dia. A perspectiva do tempo, tal como a conhecíamos no remoto século 20, foi subitamente abolida. O presente, único tempo que existe porque ao menos o corpo está nele, virou fichinha no pôquer incerto das apostas globais. O passado, substância da memória e da transmissão, tornou-se um entrave à disponibilidade permanente exigida do sujeito, vulgo consumidor, para as novidades instantâneas do mercado. Modernidade líquida, escreveu Zygmund Baumann, que logo a seguir foi tomado pela volúpia da velocidade e lançou outros livros em ritmo compatível com o que acabara de criticar: amor líquido, sujeito líquido, e por aí vai. A primeira idéia era boa, embora Marx tenha enxergado mais longe: na modernidade, o sólido se desmancha no ar. Dinheiro sem lastro, sujeito sem história, experiência sem tempo, presente comprimido.
A revolução industrial já havia promovido uma aceleração espantosa do tempo, que começou a ser regulado em função do trabalho mecânico e da produtividade. Minutos passaram a fazer diferença no que se refere ao rendimento do trabalho mecanizado, como os décimos de segundo fazem diferença hoje diante dos instrumentos do trabalho computadorizado e dos relógios de precisão digital que medem as oscilações dos investimentos nas bolsas de valores ao redor do mundo. É evidente que algo do valor da vida se perde quando o tempo, matéria do vivido, passa a ser 100% empregado a serviço de um Mestre que reina sobre quase todo o planeta na forma dos caprichos, sempre misteriosos aos olhos do homem comum, do capital financeiro globalizado. Paradoxalmente, na medida em que o presente se desvaloriza ante o futuro, “aproveitar bem o tempo” tornou-se um dos imperativos da vida privada nas sociedades liberais, em que o indivíduo dispõe de uma enorme variedade de escolhas quanto ao desfrute de seu tempo (supostamente) livre. Só que o ritmo do trabalho, de forma desproporcional à oferta efetiva de empregos, invade cada vez mais a experiência da temporalidade, mesmo nas horas ditas de lazer. Não me refiro ao ócio, esta forma de passar o tempo desmoralizada em nossos dias, mas às atividades de lazer marcadas pela compulsão de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão que tornam a vivência do lazer tão cansativa e vazia quanto a produção. Nada causa tanto escândalo hoje quanto o tempo vazio. É preciso “aproveitar” o tempo, fazer render a vida, sem preguiça e sem descanso.
Essa forma contemporânea de temporalidade acelerada, em que a oferta de objetos se antecipa ao desejo e atropela a própria fruição, também produz seus desajustados. São os depressivos. A aliança entre ideais de precisão científica e eficiência econômica conduz à idéia de que a vida é um investimento no mercado de futuros cujo sentido depende de se conseguir garantir, de antemão, os ganhos que ele deverá render. É evidente, de acordo com a lógica subjacente a esse projeto, que o campo incerto da subjetividade deve ser reduzido a sua dimensão mais insignificante a fim de que nenhum rodeio inútil se interponha entre cada projeto de vida e sua meta final. Tal desvalorização dos meios em favor de uma finalidade urgente e inquestionável favorece o sentimento, genuinamente depressivo, de desvalorização da vida. O que existe no futuro, afinal? Nada além da morte certa. Tudo o mais depende do que construímos no presente - e também do acaso insondável.
Em maio passado, pesquisadores ingleses do King’s College divulgaram os resultados de uma investigação a respeito dos efeitos psíquicos das profissões que exigem respostas velozes a estímulos ininterruptos. A pesquisa concluiu que as profissões que exigem atenção constante e ações rápidas durante muitas horas diárias - lideradas pela de pregadores da bolsa de valores - provocam depressão entre os que se dedicam a elas. Desânimo, falta de prazer na vida, sentimentos de vazio e de inutilidade estão entre os sintomas mencionados por esses trabalhadores deprimidos. A lentidão dos depressivos, mergulhados em uma temporalidade estagnada e angustiante, opõe uma espécie de resistência passiva a essa corrida em direção ao futuro.
Eis que de repente, na mesma velocidade em que o planeta parecia caminhar para uma verdadeira explosão de riqueza futura, o que explodiu foi outra coisa: a bolha do capital financeiro virtual. Com temor de devotos ante a ira dos deuses, governos de grandes potências empregam a palavra temível: desaceleração. Nações inteiras parecem escorregar de seus postos avançados no futuro de volta às vicissitudes do presente. A rigor, seria a hora de reduzir a velocidade - não sem algum alívio, aliás. Voltamos a viver em nossa matéria mortal; não haverá pão sem suor e trabalho - ao menos para os que se alimentam de pão. Mas como diminuir a velocidade e repensar a rota da nau dos insensatos sem ter que largar milhares, milhões de pessoas ao mar?
De acordo com a OMS, o crescimento das depressões no século 21 tem proporções de epidemia. Os depressivos serão os primeiros segregados da crise econômica? Ou não. Quem sabe, por ironia, à custa deles a indústria farmacêutica ainda ofereça um último fôlego produtivo ao capitalismo global.

*Maria Rita Kehl, psicanalista, escreveu, entre outros, A Fratria Órfã (Olho d’Água) e O Tempo e o Cão - A Atualidade das Depressões, que será lançado em 2009, pela editora Boitempo.

Estado de S. Paulo

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Um débito colossal

FÁBIO KONDER COMPARATO

A escravidão de africanos e afrodescendentes no Brasil foi o crime coletivo de mais longa duração praticado nas Américas

A ESCRAVIDÃO de africanos e afrodescendentes no Brasil foi o crime coletivo de mais longa duração praticado nas Américas e um dos mais hediondos que a história registra.

Milhões de jovens foram capturados durante séculos na África e conduzidos com a corda no pescoço até os portos de embarque, onde eram batizados e recebiam, com ferro em brasa, a marca de seus respectivos proprietários. Essa carga humana era acumulada no porão de tumbeiros, com menos de um metro de altura.

Aqui desembarcados, os infelizes eram conduzidos a um mercado público, para serem arrematados em leilão. O preço individual de cada "peça" dependia da largura dos punhos e dos tornozelos.

Nos domínios rurais, os negros, malnutridos, trabalhavam até 16 horas por dia, sob o chicote dos feitores. O tempo de vida do escravo brasileiro no eito nunca ultrapassou 12 anos, e a mortalidade sempre superou a natalidade; de onde o incentivo constante ao tráfico negreiro. Segundo as avaliações mais conservadoras, 3,5 milhões de africanos foram trazidos como cativos ao Brasil.

O seu enquadramento no trabalho rural fazia-se pela violência contínua. Daí a busca desesperada de libertação, pela fuga ou o suicídio. As punições faziam-se em público, geralmente pelo açoite. Era freqüente aplicar a um escravo até 300 chibatadas, quando o Código Criminal do império as limitava ao máximo de 50 por dia. Mas em caso de falta grave, os patrões não hesitavam em infligir mutilações: dedos decepados, dentes quebrados, seios furados.

Tudo isso sem contar o trauma irreversível da desculturação, pois todos os cativos eram brutalmente afastados de sua língua, de seus costumes e suas tradições. Desde o embarque na África, procurava-se agrupar indivíduos de etnias diferentes, falando línguas incompreensíveis uns para os outros. Para que pudessem se comunicar entre si, tinham que aprender a língua dos patrões, gritada pelos feitores. Foi esse, aliás, o principal fator de disseminação da "última flor do Lácio" em todo o território nacional.

Outro efeito desse crime coletivo foi a geral desestruturaçã o dos laços familiares. As jovens escravas "de dentro" serviam habitualmente para saciar o impulso sexual dos machos da casa grande, enquanto na senzala homens e mulheres viviam em alojamentos separados. O acasalamento entre escravos era tolerado para a reprodução, jamais para a constituição de uma família regular.

O resultado inevitável foi a superposição do direito de propriedade aos deveres de parentesco, mesmo sangüíneo. Há alguns anos, um pesquisador ianque encontrou, no 1º Cartório de Notas de Campinas (SP), uma escritura pública de 1869, pela qual um varão, ao se tornar maior de idade, decidiu alforriar a própria mãe, que recebera por herança de seu progenitor.

O fato é que, em 13 de maio de 1888, abolimos a escravidão tal como encerramos, quase um século depois, os horrores do regime militar: viramos simplesmente a página. Os senhores de escravos e seus descendentes não se sentiram minimamente responsáveis pelas conseqüências do crime nefando praticado durante quase quatro séculos.

Ora, essas conseqüências permanecem bem marcadas até hoje em nossos costumes, nossa mentalidade social e nas relações econômicas. Atualmente, negros e pardos representam mais de 70% dos 10% mais pobres de nossa população. No mercado de trabalho, com a mesma qualificação e escolaridade, eles recebem em média quase a metade do salário pago aos brancos, e as mulheres negras, até metade da remuneração dos trabalhadores negros. Em nossas cidades, mais de dois terços dos jovens assassinados entre 15 e 18 anos são negros.

Na USP, a maior universidade da América Latina, os alunos negros não ultrapassam 2%, e, dos 5.400 professores, menos de dez são negros. É vergonhoso que tenhamos esperado 120 anos para ensaiar a primeira medida de apoio oficial à população negra: a reserva de vagas para matrícula em estabelecimentos de ensino superior.

No entanto, tal medida representa hoje o cumprimento de um expresso dever constitucional. O artigo 3º da Constituição de 1988 declara, como objetivos fundamentais da República, "erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais", bem como "promover o bem de todos", sem preconceitos de qualquer espécie.

Mas o preconceito que tisna os brasileiros de origem africana não é neles marcado apenas fisicamente, como se fazia outrora com ferro em brasa. Ele aparece registrado como uma degradação social permanente em todos os levantamentos estatísticos.

Que as nossas classes dominantes tenham, enfim, a mínima hombridade de reconhecer que esse colossal passivo de nossa herança histórica ainda nem começou a ser pago!

FÁBIO KONDER COMPARATO , 71, é professor titular aposentado da Faculdade de Direito da USP e autor, entre outras obras, de "Ética - Direito, Moral e Religião no Mundo Moderno" (Companhia das Letras).

Folha de S. Paulo

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Jardim Santo André na Galeria Vermelho

Um espaço badalado das artes de São Paulo reproduz os grafites que estão mudando a paisagem de um dos bairros mais violentos do ABC. Retrato de um país secularmente desigual — onde, no entanto, a periferia cobra seus direitos, e se expressa cada vez mais por meio da criação simbólica

Eleilson Leite

Em 17 de outubro, a neblina que normalmente encobre o Jardim Santo André, na periferia do ABC Paulista, formou um denso véu, como se fosse um recurso de cena para a tragédia iminente, cujo desfecho teve transmissão ao vivo em cadeia nacional. Às seis da tarde daquele fatídico dia, Eloá Cristina, uma jovem de 15 anos, foi assassinada pelo seu ex-namorado, que a havia mantido em cativeiro por cinco dias em sua própria casa.

Numa manhã comum de um dia qualquer no mês de setembro, no mesmo Jardim Santo André, Richard, garoto de dez anos, foi atropelado por um motorista imprudente que conduzia seu carro em alta velocidade nas estreitas ruas do bairro.

Viver nesse bairro é estar exposto ao risco permanente. Encravado na parte serrana de Santo André, o Jardim é cercado de mata, que serve de local de desova de corpos de vítimas do conflito entre grupos rivais ligados ao narcotráfico. Somente no primeiro semestre de 2008, foram registrados 45 homicídios no local. Isso representa 75% de todos os casos da cidade e 20% de todo o ABC. Nesse bairro, formado por seis favelas em processo de urbanização, vivem 7,5 mil famílias, mais de 30 mil pessoas. Um terço da população não tem fonte de renda e 75% têm menos de 40 anos e baixíssimo índice de escolaridade.

Do Jardim Santo André, como em geral acontece com toda a periferia, o que se conhece são suas tragédias — que infelizmente não são poucas. Mas nesse bairro, o pulso ainda pulsa. Em duas de suas comunidades, a Lamartine e a Dominicanos, as cores do grafite deram um tom mais alegre aos muros, escadarias e fachadas de casas. Durante seis meses um ateliê foi instalado no local. Vinte pessoas, entre adolescentes, jovens e adultos, receberam capacitação na arte de pintar e deram um colorido novo ao bairro.

Identificados em um mapa, os pontos configuram um roteiro de arte que proporciona um encanto em cada canto. É um movimento de apropriação simbólica do espaço público

São 48 pontos de intervenção artística, que formam uma galeria a céu aberto. Essas intervenções foram feitas pelas ONGs Jardim Miriam Arte Clube (Jamac) e Ação Educativa, no Projeto Arte em Toda Parte, que integra as ações do programa São Paulo de Cara Nova, da secretaria de Habitação e da CDHU – Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Governo do Estado de São Paulo. Identificados em um mapa, esses pontos configuram um roteiro de arte que proporciona um encanto em cada canto. É um movimento de apropriação simbólica do espaço público. A idéia do projeto era despertar nos moradores um sentimento de pertencimento que fortalecesse os laços de identidade e o tecido social daquelas comunidades. Deu certo.

O êxito do projeto pode ser verificado com nitidez no trabalho desenvolvido pelo Jamac. Esta ONG, fundada e coordenada pela artista plástica Mônica Nador, foi procurada pela CDHU em função do reconhecido trabalho que Mônica desenvolve em fachadas de casas, em bairros de periferia no Brasil e em vários países do mundo. No Jardim Santo André, 29 residências tiveram suas paredes externas rebocadas, para receberem pinturas em stencil graffiti. As casas ficaram com o mesmo padrão visual, mas com desenhos e cores diferentes, o que resultou num conjunto bastante interessante.

O processo foi filmado pelo cineasta Carlos Jerônimo Vilhena de Toledo, que editou um belo documentário. Jerônimo também fotografou as casas, registrando o antes e o depois. As fotos foram impressas em um folder, que traz também o mapa localizando as casas. Tanto o mapa quanto o filme podem ser vistos na Galeria Vermelho, que fica na região da avenida Paulista, em São Paulo. Algumas das pinturas feitas pelo Jamac no Jardim Santo André foram reproduzidas nas paredes internas e externas da galeria. Se você não tiver como ir pessoalmente à periferia de Santo André, poderá tomar contato com o projeto Arte em Toda Parte numa galeria de bacana. Aproveita. Não é todo dia que a arte da periferia tem acolhida no circuito in. A Exposição vai até 17 de janeiro, mas a Galeria Vermelho ficará fechada entre os dias 20 de dezembro e 4 de janeiro.

Já a Ação Educativa enfatizou o processo formativo, realizando inúmeras aulas teóricas e práticas, formando doze alunos que participaram de pinturas em muros de casas, escadarias, rampa de skate entre outros suportes, utilizando, além do stencil, o graffiti a mão livre e mosaico. O resultado ficou mais próximo do que se chama de Arte Pública. Com uma estética de rua, o conjunto é aparentemente desconexo, em função da liberdade de escolha dos desenhos dada aos moradores. Mas confere ao transeunte uma sensação de arrebatamento, tamanha a vibração que as cores concentradas provocam. O trabalho da Ação Educativa mobilizou três importantes grafiteiros: Bete Nóbrega, Tota e Thiago Vaz — que deram aulas no ateliê — e alguns convidados, como Chorão, Celso Gitahy, Rodrigo Medeiros, Moises e Eymard Ribeiro — que atuaram nas intervenções.

No vídeo de Jerônimo Vilhena, moradores contam como passaram a dar valor estético à casa, que antes só servia de abrigo. A nova estima pessoal se estendeu para a rua e o bairro, num movimento subjetivo que só a arte pode produzir

Há tempos, acredito que a arte é a expressão humana de maior potencial transformador. Com o projeto Arte em Toda Parte, percebi o quanto essa idéia é verdadeira. No vídeo de Jerônimo Vilhena, há depoimentos comoventes dos moradores que passaram a dar valor estético à casa que antes só lhes servia de abrigo. Esta nova estima pessoal se estendeu para a rua e o bairro, num movimento subjetivo que só a arte pode produzir.

Em algumas das muitas escadarias do bairro, a Ação Educativa reproduziu, na testeira dos degraus, versos de poemas de Solano Trindade e Sergio Vaz. O poeta da Cooperifa ficará imortalizado no bairro, entre outras, por sua poesia Receita para Um Novo Dia que nos ensina a ter esperança no futuro sem esquecer as dores do passado e o sofrimento do presente. E essa é uma receita muito boa para o povo do Jardim Santo André que, cansado de tanta guerra e morte, cria por si próprio uma nova forma de viver.

O projeto Arte em Toda Parte concluiu uma etapa experimental e superou as expectativas. Presente à Galeria Vermelho no lançamento do Mapa das Artes do Jardim Santo André, no último dia 10, o secretário de Habitação de São Paulo, Lair Krähenbühl, ficou impressionado com os resultados e comovido com a motivação da comunidade, que lotou dois ônibus para entregar a ele uma moção pedindo a continuidade do projeto. Espero que o secretário, que também é presidente da CDHU, continue apoiando a iniciativa, idealizada por Viviane Frost, que responde pela Superintendência de Ações de Recuperação Urbana do órgão. É a chance para que garotas como Michelli da Silva e Joyce dos Santos, meninas com a mesma idade da Eloá Cristina e que receberam o certificado do projeto, possam continuar fazendo muita arte em toda parte do Jardim Santo André.

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique

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CABANADA e CABANAGEM

Claudio Recco

A Cabanada foi uma das primeiras rebeliões ocorridas no Brasil no período regencial, de duração significativa, entre 1832 e 1835, abrangendo regiões das províncias de Pernambuco e de Alagoas. No entanto é um movimento pouco retratado nos livros didáticos e, portanto desconhecido da maioria, provavelmente por ter características peculiares, eventualmente opostas à da maioria dos movimentos da época.

Ao contrário dos principais movimentos que ocorreram em Pernambuco e que deram a província uma marca de “mais avançada”, a rebelião teve caráter conservador, pois defendia o retorno de D. Pedro I ao Brasil.

Desenrolou-se na zona da mata e no agreste povoada por sertanejos ou mestiços de branco e índio, por escravos negros e por fazendeiros e senhores de engenhos de açúcar que formavam a elite local, dominando e controlando os grupos populares. Esse é um dos fatores explicativos da postura política do movimento, na medida em que essa elite agrária apoiou os movimentos que exigiram a renúncia de D. Pedro I, ao contrário da elite urbana do Recife, formada principalmente por mercadores de origem portuguesa partidários do imperador.

Na medida em que as camadas populares percebiam os grandes proprietários como responsáveis pela situação de pobreza e miséria, se colocavam contra as posições políticas dos mesmos, instigados por aqueles que haviam perdido privilégios com o fim do Primeiro Reinado.

Liderados por Vicente Ferreira de Paulo, cerca de mil homens se reuniam na região denominada Panelas de Miranda, porém, de início, sem qualquer objetivo político definido, limitando-se apenas a viver de saques às fazendas e da pilhagem. Em contrapartida, os proprietários recorrem aos novos governantes da Província para manter a ordem tradicional. Um conflito que nasceu da pobreza passou a ter conotação política, na medida em que os populares se organizaram para resistir a repressão.

Assim, no final julho 1832, na região de Passo, D.Pedro I foi proclamado Imperador do Brasil, fazendo com que o problema criado tomasse maior vulto, forçando o governo a enviar tropas para a região, para reprimir o movimento considerado restaurador.

Depois de quase quatro anos de luta, chegou a Panelas o Bispo D. João Marques Perdigão, com o objetivo de pacificar a região. O Bispo obteve a rendição dos sublevados com a condição de serem anistiados, pondo fim a “Guerra dos Cabanos". Além disso, obteve da Assembléia Provincial de Pernambuco ajuda material aos cabanos, como instrumentos de trabalho, remédios e roupas. Dessa maneira os índios retornaram a suas aldeias, assim como os lavradores retomaram seus trabalhos na antiga estrutura fundiária, porém aos negros só restaria a volta ao cativeiro, situação que o obriga a se manter no interior isolado, em pequenos quilombos. Nesse contexto é que se organizou a Guarda Negra, que persegue os desertores, responsáveis pela fraqueza do movimento, e promove assaltos as fazendas, para saqueá-las e promover a libertação de escravos. Essa situação de belicosidade no interior de Pernambuco prolongou-se até 1850, quando da promulgação da Lei de Terras que possibilitou a expansão do latifúndio e devido a prisão de Vicente Ferreira de Paula.

Na serra dos Timóteos, no Sítio Cafundó e em vários outros lugares ainda se encontra muito material de guerra da época, abandonado ao termo da campanha”.

CABANAGEM

Um dos mais duradouros movimentos sociais do período regencial foi a Cabanagem no Pará, no entanto, datas diferentes são utilizadas como referências para sus eclosão e para seu desfecho, abrangendo praticamente toda a década de 30.

O termo Cabanagem se origina das habitações – cabanas – humildes, na beira dos rios, nas quais vivia a população pobre, em particular indígenas e mestiços. Parte dessa população já havia participado da Guerra de Independência do Brasil e dos diversos conflitos que se desenvolveram na província na década de 20, marcados por forte sentimento liberal e anti-lusitano. Mesmo com o reconhecimento da Independência, a elite mercantil de origem portuguesa se manteve no controle político e econômico da região.

Essa situação foi responsável por uma série de pequenas revoltas até 1829, conhecidas como “Quarteladas de Belém”, reação popular contra os privilégios e desmandos lusitanos.

Percebe-se que a luta dos paraenses tem um sentido socioeconômico e político, sendo que as mudanças políticas, superestruturais e que deveriam ocorrer com maior rapidez não foram realizadas. Ao contrário, mesmo após a abdicação de D. Pedro I, o governo regencial manteve a prática de nomear os governantes das províncias, descontentando tanto as elites locais como as camadas mais pobres – tanto da cidade quanto do campo.

As primeiras agitações importantes ocorreram em 1832 sob a liderança de Batista Campos, que dominou a comarca de Rio Negro na região do Amazonas e impôs sua política ao governo da província. A reação do Rio de Janeiro foi uma política repressiva, que na prática de novo ânimo aos rebelados e, em janeiro de 1834 iniciou-se a Cabanagem, que depôs e executou Lobo e Silva, presidente da província, e outras autoridades locais

O primeiro governo cabano foi liderado pelo fazendeiro Clemente Malcher que declarou-se fiel ao imperador ainda menor de idade e passou a reprimir o movimento popular, sendo deposto e fuzilado. O substituto Francisco Pedro Vinagre adotou política semelhante, procurando resguardar o poder para si, negociando diretamente com a regência, numa postura que traía o movimento cabano.

O governo regencial, bastante temeroso com o desenrolar dos acontecimentos, enviou um grande contingente militar a província, comandado por Manuel Jorge Rodrigues, que tomou o controle de Belém, com a ajuda do próprio Francisco Vinagre, traindo pela segunda vez os cabanos.

A reação dos cabanos partiu do interior e organizados e armados, retomaram a capital e proclamaram a República e o desligamento da província do restante do império. Os cabanos dominaram a província durante um ano; em maio de 1836 chega grande esquadra a região e inicia-se violenta repressão, forçando os cabanos a abandonar a capital e a recuar para o interior, onde focos de lutas se mantiveram, assim como a política repressiva adotada pelo governo, até 1840.

Incapazes de resistir os rebeldes foram massacrados. Ao final do movimento, cerca de 30mil homens haviam morrido nos diversos conflitos promovidos por mercenários e pelas tropas governamentais.

Chegava ao fim a Cabanagem que, segundo o historiador Caio Prado Júnior, "foi o mais notável movimento popular do Brasil… o único em que as camadas mais inferiores da população conseguem ocupar o poder de toda uma província com certa estabilidade. Apesar de sua desorientação, da falta de continuidade que o caracteriza, fica-lhe contudo a glória de ter sido a primeira insurreição popular que passou da simples agitação para uma tomada efetiva de poder."

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