A prova da evolução - 200 anos de Darwin, 2ª parte
Como o imigrante Fritz Müller testou – no Brasil, pela primeira vez – a Teoria de Darwin.
Paulo Verri Filho
Foto: Djan Chu

Eram semanas com tempo de sobra para o professor Fritz Müller. Naquele ano de 1861, o Liceu de Nossa Senhora do Desterro, na ilha de Santa Catarina - atual cidade de Florianópolis -, passara por mudanças. Os constantes ataques dos jornais contra os imigrantes alemães e a falta de orientação religiosa nas aulas significaram para alguns professores que suas funções não seriam mais reconhecidas. A escola agora se chamaria Colégio da Santíssima Trindade, e abriria suas portas aos padres jesuítas católicos. Para os professores contrários à nova orientação religiosa, restavam apenas poucas horas de aula para dar, em salas quase sem alunos. O imigrante Johann Friedrich Müller, que havia sido contratado para ensinar matemática e história natural, estava nesse grupo.
Müller, porém, já aprendera a encontrar novos afazeres para preencher o seu dia. Ele costumava vestir seus trajes de perambular pelo mato: um facão e uma lata perdurados na cintura, além de um longo cajado. Daí caminhava sem sapato, como gostava, até a praia para capturar caranguejos. Não fazia isso por lazer. Muito menos os animais que encontrava na areia eram levados a sua mulher, Karoline, para preparar o almoço.
Seus propósitos eram outros. O naturalista Fritz Müller era um sujeito com ideias arrojadas, sobretudo para o fim do século 19 no arcaico sul do Brasil, povoado por pioneiros europeus, conforme contextualiza Moacir Werneck de Castro na biografia de Müller, O Sábio e a Floresta. Naquele verão, ele tinha decidido realizar um experimento que colocaria à prova teorias do inglês Charles Robert Darwin, lançadas em livro na Inglaterra menos de dois anos antes. Em A Origem das Espécies, Darwin chegou a assumir que haveria "repugnância natural" para os leitores aceitarem uma das suas teses: a de que uma espécie daria origem a outra distinta. O inglês solicitava no livro o envolvimento de outros naturalistas para que eles estudassem, imparcialmente, os dois lados dessa questão. Müller não pensou duas vezes: encarou como uma oportunidade e resolveu colaborar com Darwin.
"Fritz Müller pode ter sido o primeiro a ler a obra de Darwin no Brasil", acredita o historiador Thomas F. Glick. Para isso, deve ter contado com o irmão Hermann, que vivia na cidade de Lippstadt, na Alemanha. Hermann Müller conhecia o interesse do irmão por história natural e desejava mantê-lo atualizado das novas publicações científicas. Assim, provavelmente, tenha lhe enviado a tradução alemã de A Origem do geólogo Heinrich Georg Bronn, publicada em três partes, nos meses de abril, maio e junho de 1860.
Ainda garoto, na Alemanha, Fritz Müller caminhava pelos campos ao lado do avô, o químico e farmacêutico Johann B. Trommsdorff, e demonstrava habilidade em observar plantas, das quais fazia descrições morfológicas. Também frequentou o curso de farmácia, mas desistiu, pois seus verdadeiros interesses prevaleceram. Durante o curso, um professor logo percebeu o legítimo talento de Müller e o presenteou com um microscópio para que ele estudasse sanguessugas. Foi a motivação que faltava. Tempos depois, esse trabalho originaria a sua tese de doutorado em filosofia aplicada em história natural e o seu título de doutor pela Universidade de Berlim.
Para comprovar as teorias de Darwin, Müller, que havia chegado a Blumenau em 1852, resolveu testar, inicialmente, o mecanismo darwinista de especiação. O modelo mostrado em A Origem esquematizava a diferenciação entre uma população ancestral e as descendentes. Ou seja, o inglês acreditava que parte de uma espécie (uma população) poderia se diferenciar do restante, e ganhar características próprias, transformando-se em nova espécie que poderia competir com a anterior e se destacar, tornando-se mais apta.
Para pôr esse mecanismo à prova, Müller teve a ideia de acompanhar o desenvolvimento embrionário de animais encontrados com facilidade na ilha. Os escolhidos foram microcrustáceos do gênero Tanais. Após serem coletados nas praias, eles eram levados vivos à casa do alemão e observados por longos períodos. Após algum tempo, Müller conseguiu descobrir que, próximos da maturidade sexual, os machos se pareciam com as fêmeas, e depois sofriam metamorfoses - assim surgiam variações. No final, somente restavam duas formas de macho, sendo que uma delas predominava. O pesquisador verificou também que entre os "sobreviventes" existia número maior de crustáceos com pinças gigantes. Portanto, concluiu que esses animais, todos da mesma espécie, competiam entre si. Mas apenas um grupo ganhava a disputa, após o desaparecimento dos menos aptos.
Ao término desse e de outros trabalhos, um desconhecido naturalista que mal conseguia dar aulas para sustentar a família realizara uma série extraordinária de observações e experimentos que, aparentemente, confirmavam a especiação. "Aos olhos de Fritz Müller, a seleção darwiniana explicava os fatos observados nos crustáceos", afirma o zoólogo Nelson Papavero.
Animado, müller decidiu então escrever um livro a respeito: Für Darwin ("Para Darwin"), lançado em Leipzig, na Alemanha, em 1864. Em 91 páginas, com textos e ilustrações, o autor explicava as razões que o motivaram a testar Dar-win, demonstrava os resultados e comprovava que a teoria do inglês estava correta.
Ao conhecer o livro, no ano seguinte, Dar-win logo enviou uma carta a Desterro, na ilha de Santa Catarina. Nela, reconhece o trabalho e elogia o naturalista alemão, ao afirmar que prestava admirável serviço à causa a que ambos se dedicavam, além de considerar as observações sobre classificação e embriologia boas e originais. Darwin pediu autorização para traduzir o seu livro para o inglês. Müller consentiu e, em 1869, o trabalho foi lançado na Inglaterra com o nome apropriado de Fatos e Argumentos a Favor de Darwin. "A obra", explica Papavero, "faz de Fritz Müller o primeiro a criar uma filogenia (estudo do desenvolvimento evolutivo de um organismo ou grupo de organismos no tempo) séria, com base em estudo de material vivo, e ainda conter densidade incrível de fatos novos não só para o Brasil do século 19. Além de ter sido importante para sustentar a teoria de Darwin, que nessa mesma época, na distante Inglaterra, continuava a ser alvo de críticas."
Ao longo de 16 anos, Fritz Müller e Charles Darwin trocaram correspondência. De acordo com a tradução feita pelo médico Cezar Zillig de Fritz Müller - Werke, Briefe und Leben ("Obras, Cartas e Vida"), livro de Alfred Möller que compila os trabalhos do naturalista alemão, foram encontradas 39 cartas de Darwin a Müller. O inglês, além de fazer perguntas, também solicitava a participação do alemão em seus estudos. Müller respondia e cooperava, principalmente em botânica e zoologia. Ele realizou dezenas de experimentos pelos quais tentava descobrir, por exemplo, as razões da "metamorfose completa" de alguns insetos, como a das libélulas Pseudoneuroptera, ou os motivos do desenvolvimento tardio das orquídeasCatasetum.
Certa vez Fritz Müller escreveu para Darwin para contar que percebera "curiosa contenda" entre uma abelha rainha e as operárias Trigona mirim. Isso lhe permitiu "projetar alguma luz sobre as faculdades intelectuais dos animais". Darwin fez com que essa carta fosse publicada na revistaNature com o título: "O hábito de vários insetos". A admiração e a cooperação recíprocas entre os dois continuariam até a morte de Darwin, em 1882. Como reconhecimento, o inglês citou 17 vezes o colega nas edições revisadas de A Origem, e o chamava de "Fritz Müller, príncipe dos observadores da natureza".
Fonte: Viaje aqui – http://viajeaqui.abril.uol.com.br
Permalink Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 777.