Arquivo de Outubro de 2009

Órfãos de boa cepa

Michel Sleiman

Órfãos do Eldorado é uma prova de que fábula, realidade, gênero literário, lenda e originalidade de autor são, em mãos hábeis e gênio criativo, uma coisa só. Seria redutor, porém, atribuir a bem sucedida recepção da obra de Milton Hatoum pelo leitor em geral a uma ou duas dessas componentes. Desde Relato de um Certo Oriente, passando por Dois Irmãos, Cinzas do Norte e agora este Órfãos, todos obras premiadas, o que temos são escrituras decantadas, inter-referidas, que revelam sondagem de vários focos do humano, além de pesquisa e conhecimento buscado que confluem na concepção e na escritura do romance. Mas também na sua reescritura, na remodelagem de suas partes, afinal, um livro é apenas a parte visível de um longo processo, um processo poroso, que se deixa revelar pela leitura, como o rosto que na sua elocução deixa ver o interno do corpo e o invisível, ao olho, da alma que o move. É como um organismo o romance: vibra, expande-se, retrai-se, a toda vez que a leitura move as “artérias do lido”, estando o hálito leitor a animar as páginas antes fechadas na estante, na mesa, no móvel ao lado da cama.

Hoje morando em São Paulo, com passagem por Paris, Madri e Nova York, o romancista de Manaus tem relatado mesmo é a saga do Norte brasileiro. Seus primeiros dois romances focaram o âmbito da família nortista de origem libanesa. Tal família pôde bem ser um retrato do Brasil miscigenado através de algumas de suas facetas; no entanto, desfocando na medida do possível o étnico, o autor tratou de temas atávicos que tocam a organização desse núcleo social como um todo: as relações de amor (mais ódio que amor) e ódio (mais amor que ódio). Temas caros como a disputa entre irmãos, ou a ruptura com os pais e irmãos em favor de novos enlaces do ser desta vez com o mundo, estão na base dessas narrativas, sublinhadas por um viés delimitador entre o masculino e o feminino, expostos na diversificada galeria das personagens. Tal delimitação, ao que parece, reforça os papéis dos sexos, concebidos no âmbito familiar e que lhe são a base de sustentação, enquanto organismo guardião das convenções sociais e ao mesmo tempo das espécies. Isso tudo, porém, não está no Relato ou no Dois Irmãos senão tomado no momento da crise: homens e mulheres fractos, feridos no estatuto da tradição que os dispõe, no estado como se encontram, na cena de conflito em meio às peripécias da narrativa.
No terceiro romance, a intimidade dos pares da cena familiar é protagonizada no cenário mais amplo das ruas – da cidade, do estado, do país, do mundo. O exterior à casa é o tema propriamente de Cinzas do Norte, romance que se pode qualificar de histórico na melhor tradição de um gênero agora já híbrido, que amarra desde Balzac, Flaubert e Faulkner até Graciliano Ramos e Érico Veríssimo e os solta em nova malha, num romance cujo conflito mais sensível ainda é a relação pai e filho, mas a partir das posições que assumem diante um mundo que se confronta com o encolhimento das liberdades coletivas: a ditadura é também a do pai e das imposições feitas ao artista, mas também há a ditadura das economias autofágicas.
Órfãos do Eldorado é um minuto posterior às narrativas citadas de Hatoum, mas as surpreende no tempo histórico da narrativa, indo a memória do narrador colher os fatos no tempo da primeira e da segunda guerras. O Eldorado, nesse ínterim, nos termos do mito manauara, reside na realidade subaquática de um mundo que apenas flutua na bacia sem fim das águas amazônicas. É para esse fundo que o imaginário das personagens conflui, com exceção do imaginário do protagonista e narrador do romance, que, ao contrário, olha o rio para ver o que está além dele e na sua superfície. É por isso incompreendido pelos demais habitantes do local: por não ter aceitado a versão do mito, por resistir a ele e buscar de forma tenaz uma explicação ao fenômeno que fosse menos lendária, da primeira até a última linha do livro. Nessa perspectiva, o dinheiro, que para o pai era um norte a ser conquistado, para o filho é a capacidade de ser trocado por espécies consumíveis. Filho único a decretar a morte de uma dinastia de empreendedores, o decaído Cordovil solapa o império aparentemente sólido do pai e do avô talvez por ter descoberto nele fragilidade tão semelhante quanto o é a fragilidade das explicações míticas em torno da cidade submersa de sonhada opulência. O romance também se coloca como um epílogo às narrativas do Norte empreendidas pelo autor desde a publicação do Relato em 1989. Vinte anos depois, Órfãos é o testemunho do que parece ter sobrado do Amazonas sonhado pelos aventureiros, metáfora de um “resto” que o autor formula, em sua fábula, na base concreta da casa de órfãs de Vila Bela, onde surgiu e sumiu a amada Dinaura – indo ao encontro do rio, como disseram as gentes, ou indo para além dele, como prefere pensar o narrador. O cenário, o tempo, as personagens, a locução do narrador neste romance de Milton Hatoum não devem ser entendidos, quero pensar, no âmbito único dessa forte narrativa, mas no de todas as anteriores, pois parecem tais órfãos rebentos de pais mais distantes.
Livro mais breve, de fato narrativa de feição mais simples que as anteriores, embora talvez mais contundente, Órfãos do Eldorado é um livro que se lê de uma tirada. Terminado o livro, a sensação é a de ter-se cruzado uma eternidade: referenciais cruzados, texto alimentado por outros, passagens que aparentam fontes de outras literaturas, uma força que se amarra sobretudo pelo poético. Esta obra alça o reconhecido contador de estórias ao ranking de poeta maduro, que tem na palavra o poder de dispor os fatos, de levá-los até uma próxima estação.

Fonte: ICARABE - http://www.icarabe.org/

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O campeão mundial do suco de laranja

O brasileiro José Luís Cutrale e sua família detêm 30% do mercado global de suco de laranja, quase a mesma participação da Opep no negócio de petróleo

Alexandre Secco
Felipe Patury

O HERDEIRO NO COMANDO
O empresário José Luís Cutrale detesta ser fotografado. Nessa foto ele foi flagrado na cerimônia de posse do Conselho de Desenvolvimento, em Brasília.

Apenas em dois momentos específicos da história, no ciclo do açúcar e no do café, o Brasil controlou amplamente o comércio global de um produto agrícola como acontece agora com o mercado mundial de laranja. De acordo com os números mais recentes, 70% do suco consumido no mundo é plantado ou industrializado por brasileiros. E esse mercado notável tem um rei. É José Luís Cutrale, detentor de uma marca fabulosa. Comandando um negócio que foi fundado por seu avô no começo do século passado e ampliado várias vezes por seu pai, José Luís administra a Sucocítrico Cutrale, empresa responsável pela venda de um de cada três copos de suco de laranja comercializados no exterior. Os dados do setor ignoram o volume da fruta vendida in natura, o chamado suco natural, inexpressivo em termos globais. Analisados os ramos de atividade com alguma expressão na pauta de exportações nacional, em nenhum outro setor da economia se encontram empresários brasileiros operando nesse patamar. Sua marca individual aproxima-se da participação coletiva dos países da Opep no mercado de petróleo, que é de 40%.

Cutrale vende suco concentrado para mais de vinte países, entre os quais os Estados Unidos, todos os da Europa e a China. Seus clientes são grandes companhias do padrão da Parmalat, da Nestlé e da Coca-Cola, dona de uma das marcas de suco de laranja mais populares nos Estados Unidos. O principal segredo do negócio consiste em adquirir fruta a um preço baixo – preço de banana, brincam os fornecedores –, esmagá-la pelo menor custo possível e vender o suco a um valor elevado. Observado por seus números, o mercado global de laranja pode não parecer tão impressionante. Movimenta "apenas" 9 bilhões de reais por ano, contra mais de 90 bilhões de reais da soja. Acontece que o setor gera uma lucratividade elevada, no momento em torno de 15% do faturamento para os melhores produtores. Para efeito de comparação, o Grupo Pão de Açúcar apresentou um lucro líquido equivalente a 2,5% do faturamento. Em anos anteriores, a taxa de retorno da Sucocítrico Cutrale já ultrapassou a casa dos 70%. A informação foi confirmada a VEJA por três pessoas: um ex-executivo do grupo Cutrale com acesso aos balanços e dois diretores de empresas concorrentes que também se beneficiaram dessa boa fase. O auge da lucratividade ocorreu nos anos 80. Naquele tempo, a Cutrale podia lucrar até 800 milhões de dólares, ou 2,4 bilhões de reais – equivalente ao lucro do Banco Itaú no ano passado.

Cutrale recusa-se a falar sobre a lucratividade da companhia. Há dois anos, a Receita Federal se interessou pela questão e teve dificuldade em analisar as contas do grupo. Fiscais de Brasília e São Paulo procuraram entender como a Cutrale ganha tanto dinheiro. Não localizaram nenhuma irregularidade. Uma autoridade da Receita relatou a VEJA que a estratégia para elevar a lucratividade do grupo passa por contabilizar uma parte dos resultados por intermédio de uma empresa sediada no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. Com isso, informa a autoridade da Receita, a Cutrale conseguiria pagar menos imposto no Brasil. Trata-se de um mecanismo legal. Foi o que a Receita descobriu ao escarafunchar as contas da organização da família Cutrale.

CONDOMÍNIO EM FORMA DE CORAÇÃO
Alguns diretores da Cutrale vivem neste condomínio em forma de coração, em um terreno cercado de laranjais em Araraquara, no interior de São Paulo.

Avesso a badalações e ausente das colunas sociais, José Luís Cutrale é um rosto pouco conhecido fora do mundo dos negócios. A fotografia exibida nesta reportagem foi tirada numa rara aparição. Ela ocorreu no Palácio do Planalto durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, criado pelo presidente Lula e do qual Cutrale faz parte. No meio empresarial, no entanto, o nome de Cutrale é muito comentado. Primeiro pela riqueza que a família amealhou. Alguns empresários o classificam como o homem mais rico do campo brasileiro. Ou talvez o brasileiro mais rico de todos os campos. O banqueiro Pedro Conde, em conversas com empresários amigos, que relataram o que ouviram a VEJA, referiu-se várias vezes a Cutrale como o homem mais rico do Brasil. Disse a um interlocutor certa vez que sua fortuna acumulada equivalia a 5 bilhões de dólares – ou 15 bilhões de reais pelo câmbio do momento.

A credibilidade da estimativa feita por Pedro Conde advém do fato de o banqueiro ser amigo do rei da laranja, além de ter sido dono do BCN, comprado há alguns anos pelo Bradesco, no qual Cutrale concentrava o grosso de suas operações financeiras. Era o maior cliente do banco. Procurado por VEJA para falar sobre suas estimativas, Pedro Conde não deu retorno à reportagem. Outro grande empresário, dono de uma fortuna de 3 bilhões de reais, diz o seguinte a respeito de Cutrale: "Eu sei o que é ser rico e não me ocorre nenhum brasileiro que seja mais rico que ele". Perguntado por VEJA a respeito de sua fortuna e apresentado ao debate que se dá em torno do tema, José Luís Cutrale diz apenas: "Sobre esse assunto eu não falo".

Outra razão pela qual o nome de Cutrale freqüenta rodinhas de empresários é a atuação agressiva da empresa, principalmente em relação aos fornecedores. Os plantadores de laranja no Brasil têm poucas opções para escoar a produção. Há apenas cinco grandes compradores da fruta e Cutrale é o maior deles. Por essa razão, acabam mantendo com o rei da laranja uma relação que mistura temor e dependência. Por um lado, precisam que ele compre a produção. Por outro, assustam-se com alguns métodos adotados por Cutrale para convencê-los a negociar as laranjas por um preço mais baixo. Produtores ouvidos por VEJA afirmam que a família Cutrale costuma fazer enorme pressão para conseguir preços melhores na fruta ou mesmo adquirir fazendas. "Empregados deles nos visitavam e queriam que a gente vendesse nossa propriedade. Do contrário diziam que seríamos prejudicados na safra seguinte", afirmou um produtor que passou pela experiência de negociar com os Cutrale. Outro fazendeiro relata história semelhante, pois também foi procurado para vender sua fazenda de laranja. "Antes de eu ser abordado, minha fazenda foi sobrevoada algumas vezes por um helicóptero da companhia", diz.

Outra reclamação comum feita a VEJA por produtores diz respeito aos termos de alguns contratos de compra de laranja. Há três anos, 200 produtores acionaram em bloco a Cutrale. Acusavam-na na Justiça de descumprir um contrato pelo qual a empresa se comprometia a receber 5 milhões de caixas de laranjas. Segundo os produtores, nos dias em que eles tentaram fazer a entrega, os portões estavam fechados e a laranja começou a estragar. Os produtores quiseram ser ressarcidos pelo prejuízo, mas a Cutrale alegava que não lhes devia nada, já que não havia recebido a fruta. Os produtores receberam uma liminar para entregar o produto. Só depois disso a Cutrale aceitou a encomenda. "É difícil conseguir bons preços tratando com alguém que pode dizer não até sua laranja apodrecer", conta um produtor que por razões óbvias prefere não se identificar.

O JATO INTERCONTINENTAL
Uma vez por mês, o empresário José Luís Cutrale dá um giro por Estados Unidos, Europa e Ásia para monitorar seus negócios. Ele viaja em seu próprio jato, um Falcon avaliado em quase 100 milhões de reais (à esq.). Apenas para efeito ilustrativo, a foto mostra uma opção de decoração sugerida pelo fabricante.

Essa linha dura já rendeu à Cutrale discussões legais por formação de cartel. De 1994 para cá, Cutrale já foi alvo de cinco processos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, a autarquia encarregada de preservar a concorrência. Ele não estava sozinho no caso. Foi investigado juntamente com outras grandes indústrias do setor. Jamais sofreu uma punição. Num desses processos, duas associações de produtores de laranja denunciaram ao Cade que Cutrale e outras indústrias estavam se reunindo para combinar preços, o que prejudicava os plantadores. O desfecho do caso foi amigável. As empresas assinaram um "termo de compromisso de cessação das irregularidades" com os fazendeiros, comprometendo-se a não se reunir para organizar preços. O Cade decidiu que as empresas de suco de laranja não poderiam se organizar dessa forma.

Em vários aspectos, a indústria de suco de laranja lembra as empreiteiras. Além de ser um mercado concentrado nas mãos de poucos gigantes, os dois setores mantêm uma longa história de dependência em relação ao governo. Nos anos 70, Brasília criou uma linha de crédito especial para incentivar a exportação de produtos semi-industrializados. A idéia era usar dinheiro público para estimular a venda de manteiga de cacau, café solúvel e suco de laranja em vez de cacau, café e laranja, que são muito mais baratos e dão menos lucro. Acreditava-se que o comércio exterior brasileiro poderia dar um salto se o plano desse certo. O governo financiava a produção e as vendas para o exterior, estabelecia cotas para os exportadores e definia os preços de exportação. A operação era comandada pela Cacex, a carteira de comércio exterior do Banco do Brasil. O projeto fracassou para o cacau e para o café, mas deu certo para a laranja. Um ex-diretor do Banco do Brasil lembra que José Cutrale chegava a visitar a Cacex pelo menos uma vez por mês nos anos 70. Um dos mais poderosos diretores da Cacex, Carlos Viacava, manteve um relacionamento tão bom com a empresa que acabou contratado pela Cutrale como diretor quando saiu do governo.

Um ex-diretor do Banco do Brasil conta a VEJA que José Cutrale costumava levar a mulher, Amélia, para as reuniões de negócios em Brasília. Com Amélia ao lado, Cutrale conversava com os diretores do bancão oficial como se falasse com gerentes de agência do interior. Choramingava tanto enquanto pedia ajuda oficial que, freqüentemente, ficava com os olhos marejados, segundo relato do ex-diretor. Os pedidos mais comuns: uma cota maior na Cacex e um preço menor para exportar suco de laranja.

Há ainda uma terceira razão pela qual Cutrale desperta curiosidade no meio empresarial. Trata-se de uma certa pitada de excentricidade que a família demonstra na vida particular. Nas outras empresas, os altos executivos moram cada qual em sua casa e se reúnem no horário comercial. Na Cutrale é diferente. A companhia mandou construir um condomínio fechado em forma de coração ao lado de sua sede, no interior de São Paulo. Ali vivem alguns executivos da organização. São dez casas, no total, cercadas por um imenso laranjal. A maior é de José Cutrale, pai de José Luís, atualmente com 77 anos. O imóvel tem 844 metros quadrados e uma piscina coberta de 250 metros quadrados. As outras nove casas são de 500 metros quadrados cada uma. São ocupadas pelos empregados mais estimados por José Cutrale. Quem vive no condomínio não precisa sequer atravessar o portão para ir ao trabalho. De uns anos para cá, José Cutrale passou a morar mais tempo num apartamento na Park Avenue, endereço chique de Nova York.

O primeiro Cutrale a negociar laranja no Brasil foi Giuseppe Cutrale, que deixou os laranjais da família na Sicília no início do século passado para tentar a sorte em São Paulo. Começou comprando frutas no subúrbio do Rio de Janeiro – então a mais importante região produtora de laranja do país – e as revendia no Mercado Municipal de São Paulo. Valendo-se de contatos que mantinha com a comunidade italiana em outros países, passou a exportar fruta para o Canadá, a Alemanha e a Holanda. Foi a fase meramente comercial do grupo, na qual a família alcançou um padrão de vida de classe média e comprou uma casa num bairro operário de São Paulo. O começo da II Guerra Mundial obrigou Giuseppe a suspender as exportações, e os Cutrale pareciam ter chegado ao fim. Em 1955, o caçula dos onze filhos de Giuseppe, José Cutrale, recomeçou do zero o negócio do pai e conduziu a família para o clube dos bilionários. Na década de 60, com o lucro obtido no negócio, adquiriu laranjais e uma primeira fábrica de suco concentrado em parceria com Pedro Conde, do BCN. Fez trinta anos atrás aquilo que os especialistas pregam nas palestras sobre o futuro da agroindústria: agregou valor.

O PATRIARCA DO IMPÉRIO
A família Cutrale negocia laranjas há mais de 100 anos. José Cutrale (acima), hoje com 77 anos, herdou do pai um empreendimento quebrado e em quarenta anos transformou a empresa em um império bilionário.

José Cutrale ainda tem poder para interferir nos negócios, mas as operações do dia-a-dia estão a cargo de seu único filho, José Luís. Aos 56 anos, José Luís Cutrale atua no ramo há 42, desde que deixou o colégio, aos 14 anos de idade. "Foi uma das decisões mais acertadas de minha vida", diz. "Na escola, só tinha meninas de nariz empinado", conta. Sua primeira missão empresarial foi, sob a supervisão do pai, tomar conta do caixa da banca de laranja que a família mantinha no Mercado Municipal, em São Paulo. E suas tarefas foram se tornando mais complexas, conforme o grupo crescia. José Luís aprendeu inglês, francês e italiano e, buscando aprimorar-se nos contatos com a clientela, decidiu matricular-se em cursos de oratória. Atualmente, para acompanhar os negócios de perto, ele cumpre um périplo mensal que passa por São Paulo, Flórida, Nova York e Amsterdã. Freqüentemente, viaja para a Ásia. Para se locomover, ele usa o próprio jato, um Falcon 900, avaliado em 100 milhões de reais. Os dois filhos, José Luís Júnior e José Henrique, já trabalham com o pai. Nenhum deles terminou a faculdade.

Fonte: Revista Veja - http://veja.abril.uol.com.br/

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‘O país é absurdamente desigual ainda’. Entrevista especial com Sergei Soares

Foto/imagem do Filme Garapa, de Jose Padilha

Foto/imagem do Filme Garapa, de Jose Padilha.

O mais recente relatório sobre a desigualdade no Brasil, divulgado pelo IPEA, aponta que o país conseguiu atingir a primeira meta dos Objetivos do Milênio, que visa reduzir a pobreza em 25 anos, dez anos antes do prazo estabelecido. Ainda assim, há muita pobreza no país e, por consequência, muita desigualdade. Segundo Sergei Soares, que participou do debate realizado na apresentação do relatório, Brasília é o distrito mais desigual do Brasil. “Basicamente, porque tem muitos funcionários públicos bem pagos e muito bem qualificados também, não estou dizendo que é injusto, mas eles recebem salários muito elevados e são muitos. E, por outro lado, tem muitos migrantes pobres, que vão para Brasília em busca de oportunidade e não conseguem achar muita coisa. Então, a cidade tem um cinturão de miséria muito grande”, contou ele à IHU On-Line durante a entrevista que concedeu por telefone.

Sergei Suarez Dillon Soares é físico e trabalha como Técnico de Planejamento e Pesquisa no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). É um dos organizadores do livro Os mecanismos de discriminação racial nas escolas brasileiras (Brasília: IPEA, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Estudo recente do IPEA destaca que a desigualdade vem caindo no país. Em que quesitos ela caiu mais e em quais permanece forte?

Sergei Soares – Quando falamos que a desigualdade vem caindo, estamos nos referindo, exclusivamente, à questão da renda. Chamamos essa “conta” de domiciliar per capita, onde juntamos, em um domicílio, a renda de todos os membros e depois dividimos pelo número de pessoas na família. Porque não usamos a renda do trabalho? Porque queremos ver efetivamente uma medida de bem-estar. Então, se temos uma pessoa que ganha um salário mínimo, mas tem uma família muito grande, esta não está bem. Entretanto, uma pessoa sozinha que ganha um salário mínimo não está tão mal assim. Esta é a medida de renda que utilizamos, e que é a medida usada internacionalmente para comparações de desigualdade. Nesse sentido, temos uma queda que vem desde 2001 de modo extremamente estável. Perdemos mais ou menos a mesma quantidade de desigualdade a cada ano, eu diria que é um ritmo bom, mas, em outros aspectos da vida, como acesso a serviços públicos, ser proprietário de bens duráveis, educacionais e políticos, eventualmente, não está sendo medida com o mesmo cuidado. É claro que estas desigualdades contribuem para o bem-estar das pessoas, mas acho que quase qualquer um concordaria que se eu escolher uma como sendo a mais importante seria a desigualdade de renda. Dinheiro é muito importante em uma economia capitalista.

IHU On-Line – A desigualdade diminui de forma uniforme em todas as regiões do país?

Sergei Soares – Não. Ela vem diminuindo de modo uniforme no tempo. Medimos a desigualdade usando uma medida chamada de índice de Gini. Basicamente, ela vai de zero, que é a igualdade perfeita, inatingível, a um, que é a desigualdade perfeita, também inatingível, além de ser indesejável. Nossos índices de Gini, antes do início desta queda, situavam-se em torno de 0,6 ou, multiplicando por 100, 60. A desigualdade começou a cair em torno de 1999 e 2001, e vem caindo em torno de 0,7 ou 0,8 pontos de Gini ao ano, isto é um ritmo de queda que é equivalente ou melhor do que o ritmo dos países hoje desenvolvidos, principalmente europeus, enquanto estes mesmo construíam seus sistemas de bem-estar social. Então, se olharmos a queda de desigualdade na Inglaterra, entre 1880 e 1960, é um ritmo bem inferior ao nosso. A queda da desigualdade nos Estados Unidos, nos anos do Roosevelt, é um ritmo ligeiramente inferior ao nosso. Isto eu considero uma boa notícia, estamos indo em um ritmo bom, mas claro que estamos com um atraso entre 50 e cem anos em relação ao tempo que os outros levaram para construir sociedades com alto índice de igualdade.

IHU On-Line – Qual é o papel das políticas públicas na incidência da queda da desigualdade social?

Sergei Soares – A redução da nossa desigualdade tem sido muito saudável, no sentido de que é linear na distribuição de renda. Quanto maior a renda das pessoas, menor o crescimento dela ao longo dos últimos seis, sete anos. Então, se olharmos as pessoas que tem renda 1/10 superior, significa que a renda delas tem crescido algo em torno de 1% ao ano. Já as pessoas com renda de 1/10 inferior, o crescimento foi em torno de 7 ou 8% ao ano. É como se as pessoas mais ricas estivessem morando em um país como a Alemanha, relativamente rico, mas que cresce devagar, e as mais pobres em um país como a China, pobre, mas crescendo muito rápido.

Entre a classe média, também segue a tendência, é impressionante. As distribuições de renda não costumam ser tão “bonitinhas”, mas a incidência é uma linhazinha crescente com a renda. O que é uma coisa muito saudável. Mostra que estamos reduzindo a desigualdade para todo mundo, não é que em uma parte da distribuição de renda teremos uma grande redução, mas outros estão ficando para trás. O que está acontecendo é uma redução na desigualdade muito saudável, e igualmente repartida ao longo da distribuição de renda.

Distribuição de renda por regiões

Outra coisa: o regional. A desigualdade tem caído em todas as regiões, com exceção da região centro-oeste, que tem algumas peculiaridades. A região centro-oeste tem algo chamado Brasília. E Brasília é a unidade da federação mais desigual do Brasil. Basicamente, porque tem muitos funcionários públicos bem pagos e muito bem qualificados também, não estou dizendo que é injusto, mas eles recebem salários muito elevados e são muitos. E, por outro lado, tem muitos migrantes pobres, que vão para Brasília em busca de oportunidade e não conseguem achar muita coisa. Então, a cidade tem um cinturão de miséria muito grande. Tem, também, os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul que são muito dependentes da soja, que não é uma cultura promotora de igualdade. Lá tem o grande proprietário da terra que ganha muito, e há os empregados que não ganham tanto dinheiro. Então, deve ser por isso que a região centro-oeste tem reduzido pouco, ou nada, a desigualdade. Agora, em todas as outras regiões, a redução foi bem razoável. Aconteceu na região sudeste, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, na região sul, que já era a mais igualitária do Brasil, e na região nordeste, que era muito desigual e teve uma boa redução da desigualdade.

IHU On-Line – O que o país deveria fazer para acelerar a diminuição da desigualdade?

Sergei Soares – Diria que, mais importante que acelerar, é manter. A história está cheia de reduções de desigualdade que duram pouco tempo. É interessante uma comparação entre Estados Unidos e o Reino Unido. Se observarmos a desigualdade no Reino Unido, houve um momento em que caiu em torno de 0,3 pontos de Gini. Sei que isso parece um número meio difícil de interpretar, mas é só para comparação. Nos EUA, logo no final da grande depressão e no início da segunda guerra, ela caiu da ordem de 0,7, ou seja, bem mais rápido. Só que os americanos mantiveram a queda por pouco tempo, e os ingleses mantiveram a queda da desigualdade por quase um século.

Hoje em dia, a Grã-Bretanha é muito mais igualitária do que os EUA. Claro que mais rápido sempre é melhor, mas o nosso desafio principal é manter nossa desigualdade em queda por duas ou três décadas. Se mantivermos o ritmo que estamos, conseguiremos chegar em 22 anos ao nível de desigualdade do Canadá, que é um excelente paradigma de civilização, com uma distribuição de renda muito justa. Estamos aqui “soltando foguetes” e comemorando sete anos de redução, mas não podemos esquecer que temos que manter mais 22, e este é o principal desafio.

E, felizmente, temos muita coisa que podemos fazer para reduzir a desigualdade no Brasil, porque o país é absurdamente desigual ainda. Temos fortes desigualdades regionais, o que quer dizer que precisamos ter a renda no Piauí crescendo, a longo prazo, mais do que no Rio Grande do Sul, pois este é mais rico que o Piauí. Pode crescer em todos os lugares, mas deve crescer mais nos lugares mais pobres. A renda dos negros tem que crescer mais rapidamente que a renda dos brancos, pois temos que reduzir as desigualdades racionais.

Em termos de políticas, a tributária seria muito importante. Temos um esquema tributário extremamente desigual, no qual tem pouco imposto de renda e muito imposto indireto, como o CPMF e o ICMS, que são impostos muito regressivos. Temos que mudar o mix da tributação e começar a cobrar mais imposto de renda, imposto sobre veículos, IPTU, desses impostos diretos que são mais progressivos, e menos dos regressivos. É preciso investir muito em educação, pois tem uma relação muito forte com rendimentos e desigualdades no mercado de trabalho. Também temos que melhorar nosso sistema de transferências. O Bolsa Família e o crescimento do salário mínimo já foram muito importantes, mas, ainda, não é tão progressivo assim. Porque se por um lado se tem a aposentadoria rural, o piso do regime geral, o Bolsa Família, por outro lado, há as aposentadorias dos funcionários públicos que são muito regressivas. Embora, justiça seja dita, essa regressividade corresponde a políticas que não existem mais, que foram eliminadas no governo FHC e, principalmente, no governo Lula. Tem outras coisas ainda que podemos pensar, em reforma agrária, melhorias de acesso à credito, enfim, há muita coisa.

IHU On-Line – Esse relatório apresenta algum dado diferente dos documentos anteriores que avaliaram a desigualdade no Brasil?

Sergei Soares – Vem caindo há sete anos e estamos documentando nestes anos. Eu diria que a boa notícia do ano passado, de 2007 para 2008, é que a redução na desigualdade foi quase que exclusivamente consequência do mercado de trabalho. Isto é boa notícia porque, até 2007, a redução de desigualdade tinha sido mais ou menos igualmente distribuída entre o mercado de trabalho e as transferências. Se dependermos somente de transferência para reduzir a desigualdade, haverá um problema tributário, onde teremos que cobrar mais e mais impostos para dar mais e mais dinheiro para os pobres.

Eu seria até favorável que fizéssemos isso. Mas, o fato é que não é o mais tranquilo, ideal e politicamente fácil. O bom de 2007 para 2008 é que quase tudo veio do mercado de trabalho. E, se o mercado de trabalho se torna mais igualitário, isso quer dizer que devem ser cobrados menos impostos para a desigualdade cair. O Bolsa Família, por exemplo, não teve expansão, e o salário mínimo não subiu tão fortemente neste período.

IHU On-Line – Considerando o índice de Gini, como estamos em relação aos demais países da América Latina no tema da desigualdade?

Sergei Soares – Como falei, tínhamos um índice em torno de 60. Isto nos colocava, com tranquilidade, como país mais desigual da América Latina. Tirando alguns países africanos, nós éramos o mais desigual do mundo. Hoje em dia, certamente, não podemos mais ser chamados assim entre os países com certo desenvolvimento, que já têm uma economia de mercado. O país mais desigual do mundo, hoje, é a África do Sul. E, na América Latina, estamos com um índice de Gini em torno de 54, o que nos coloca mais ou menos igual ao Chile. O Brasil é, claramente, mais igualitário do que alguns outros países como a Colômbia, e outros muito pobres como Honduras, Haiti, cuja comparação não é a melhor possível.

IHU On-Line – O Brasil vai superar a desigualdade social?

Sergei Soares – Claro que eu espero que sim, que consigamos superar nossas desigualdades. O que posso dizer é que, em curto prazo, tudo parece estar se movendo bem, as notícias parecem as melhores possíveis. A distribuição educacional está cada vez melhor. A tendência, se olharmos no discurso de todos os candidatos, é reforçar o Bolsa Família. É quase impensável, nem que ganhe o PSDB na próxima eleição, que haja um retrocesso com relação ao Bolsa Família, a ideia de todo mundo é que isso é uma política que deu certo, inclusive transformá-la em direito, modificar para que vire um programa de renda mínima. Eu diria que nosso maior atraso, o que não é nenhuma crítica a nenhum ministro nem secretaria em particular, mas onde estamos patinando é com relação à educação. Nossos resultados estão melhorando com muita lentidão. Claro que a educação é uma coisa difícil, lenta, mas é o que mais me preocupa. É onde poderíamos fazer um esforço maior. Estamos gastando pouco com educação, em torno de 3,8% do PIB. Há vários países que gastam mais do que 6%. Com relação ao que éramos, estamos muito melhores, mas ao que poderíamos e deveríamos ser, ainda falta muito.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - http://www.unisinos.br/ihu/

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SP e Rio têm transporte mais caro na América Latina, diz pesquisa

As cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro têm as tarifas mais caras de transporte público dentre as grandes cidades da América Latina. Na capital paulista, gasta-se em média US$ 0,99 por uma passagem de ônibus, metrô ou trem. O valor no Rio é de US$ 1,01. As duas capitais brasileiras ficam respectivamente em 40º e 42º lugar no ranking das mais caras dentre 73 cidades de todo o mundo, segundo a edição 2009 do estudo "Prices and Earnings", realizado pelo banco suíço UBS. Os valores são referentes a março deste ano.

A pesquisa do banco suíço é publicada a cada três anos, analisando o custo de vida das cidades, com base nos preços de alimentação, moradia e transporte, entre outros. Em relação a transportes, é verificado o valor gasto com uma passagem para percorrer 10 quilômetros - ou dez paradas - de ônibus, metrô ou trem. Os dados de 2009 mostram que a média mundial é de US$ 1,40 - e Europa Ocidental e América do Norte concentram os valores mais altos. As passagens mais baratas estão na América do Sul.

Três cidades sul-americanas apresentam valor de passagem inferior a US$ 0,50, que é a metade do registrado nas capitais paulista e fluminense: Buenos Aires (US$ 0,31), Caracas (US$ 0,40) e Lima (US$ 0,38). O preço das passagens no Brasil é superior até mesmo ao de cidades que têm sistemas de transporte considerados modelos, como o de Bogotá, que custa US$ 0,57. A capital colombiana foi pioneira na implementação de um eficiente sistema de corredores de ônibus, o TransMilenio, que já foi adotado por outras cidades, como a Cidade do México.

Defesa
"O Brasil tem uma estrutura de transporte diferente da de outros países. É uma estrutura mais empresarial, com regras trabalhistas e fiscais mais rígidas e por isso o valor da tarifa é maior", diz o superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Marcos Pimentel Bicalho.

Segundo ele, em muitos países da América Latina o transporte ainda é informal e com pouca ação do Estado, o que permite que áreas menos lucrativas para os empresários não sejam atendidas. "Bogotá tem o TransMilenio que é espetacular. Os corredores parecem metrô em relação à rapidez e à quantidade de gente transportada. Mas a cidade tem outra realidade: os milhares de micro-ônibus que rodam sem regulação." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: Agência Estado - http://noticias.uol.com.br/ultnot/agencia/

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Questão de visibilidade

Entrada da África do Sul acaba de render mais algumas fichas para a SciELO.

Imagine um portal de publicações científicas que agregue o conteúdo de 637 periódicos especializados editados em 14 países. Que, ao longo de 12 anos, tenha veiculado 204.764 artigos de pesquisa em 13.824 edições dessas revistas. E que, por não cobrar o acesso a todo esse conhecimento acumulado, tenha computado mais de 4 milhões de citações aos trabalhos nele disponíveis.
Trata-se da SciELO, a Biblioteca Eletrônica Científica Online ("Scientific Electronic Library Online", na sigla em inglês). Apesar do nome, nasceu há 12 anos em São Paulo. De lá para cá, espalhou-se pela América Latina e pela península Ibérica. Agora, atravessou o Atlântico Sul.
A SciELO foi iniciativa de visionários como Abel Packer e Rogerio Meneghini, da Bireme -a Biblioteca Virtual de Saúde/Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde, da Opas (Organização Pan-americana da Saúde). Contaram, desde o início, com recursos da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Hoje recebem apoio também do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
É provável que nenhuma outra instituição ou iniciativa tenha feito tanto para tornar a pesquisa brasileira mais visível no cenário internacional.
Ao veicular de graça na internet as edições completas dos periódicos científicos associados, a SciELO (www.scielo.org) torna-as acessíveis para qualquer outro pesquisador, ou curioso, do planeta.
Claro, a língua portuguesa continua a ser uma barreira. Mesmo assim, só a publicação de resumos em inglês ("abstracts") já ajuda a aumentar a circulação da informação, ao menos nos países que integram a rede. Por outro lado, boa parte dos periódicos científicos dessas nações é publicada em inglês, a língua franca da ciência (há nove "brazilian journals" na lista de 221 publicações tupiniquins).
A última aquisição foi a África do Sul, onde se fala inglês de verdade -além de africâner, xhosa, zulu e sotho. Uma participação ainda modesta, com apenas cinco periódicos e um total de 25 números. Bem menos que a potência científica da Espanha, cuja adesão teve início em 1999 e conta hoje com 39 revistas (das quais pelo menos cinco em inglês).
A entrada da África do Sul acaba de render mais algumas fichas para a SciELO. Wieland Gevers, um bioquímico que presidiu a Academia de Ciências daquele país de 1998 a 2004, escreveu para o periódico americano "Science" -um dos mais lidos e influentes do mundo- um editorial sobre globalização das publicações científicas que elege a SciELO como exemplo a ser seguido por outras nações africanas e regiões do mundo. O texto saiu na edição de anteontem.
Gevers destaca em seu artigo dois objetivos como as grandes qualidades na SciELO. O primeiro é a indexação de periódicos locais que, mesmo tendo qualidade e periodicidade regular, são ignorados por bases de dados globais, como a da ISI-Thomson Reuters.
O outro é dar acesso livre, em escala mundial, a esse conteúdo, que de outro modo poderia passar despercebido -dentro e fora dos países postos em rede pela SciELO.
Não é café pequeno. Em alguns gabinetes de Brasília, contudo, a SciELO costuma provocar urticária. Ali se faz vista grossa -e põe grossa nisso- para a inovação brasileira que faz sucesso por todo lado: Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Espanha, México, Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai, Venezuela -e, agora, África do Sul.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo - http://www.uol.com.br

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O texto como placebo

Autoajuda encerra uma lição que vale para a ciência: O paciente precisa do amparo das palavras.

Moacyr Scliar

A palavra placebo (do latim agradarei) refere-se a uma substância ou um procedimento que teoricamente não faria efeito sobre o organismo, mas que acaba tendo resultados terapêuticos, pela crença que uma pessoa deposita nela. Pergunta: é o texto um placebo? No caso da ficção, pode-se dizer que sim. É algo que resulta da imaginação de um escritor, de um cineasta, de um dramaturgo; mas, quando agrada o espectador ou o leitor (um objetivo implícito na própria criação ficcional), exerce um efeito que poderíamos chamar de terapêutico. A ficção ajuda a viver. E isso inclui uma melhora da saúde – pelo menos do ponto de vista psicológico. Para muitas pessoas a leitura é um amparo, um consolo, uma terapia. Daí nasceu inclusive um gênero de livros que se tornou popular: as obras de autoajuda. Diferentemente da ficção, elas aconselham o leitor acerca de problemas específicos: luto, controle do stress, divórcio, depressão, ansiedade, relaxamento, autoestima, e até a felicidade. Esse tipo de leitura faz um enorme sucesso; não há livraria que não tenha uma seção destinada especialmente à autoajuda.
Um dos autores mais conhecidos dessa área é o médico hindu Deepak Chopra. Formado em medicina pela Universidade de Nova Déli, na Índia, emigrou para os Estados Unidos, especializou-se em endocrinologia e trabalhou no New England Memorial Hospital, em Massachusetts. Uma carreira médica habitual, portanto, que mudou em 1985, quando Chopra fundou a Associação Americana de Medicina Védica. Em 1993, mudou-se para San Diego, na Califórnia, onde fundou o The Chopra Center For Well Being. Ainda no mesmo estado, agora em La Jolla, criou em 1996 o Chopra Center. Fazendo um parênteses: a Califórnia é um conhecido reduto da vida e da medicina alternativas, como aromaterapia, osteopatia, toque terapêutico, terapia floral e outras.

Deepak Chopra é autor de mais de 50 livros de autoajuda, que, traduzidos em 35 idiomas, fi zeram enorme sucesso; em 1999, a revista americana Time incluiu-o na sua lista das 100 personalidades do século, como o “poeta e profeta das terapias alternativas”. As obras mostram a diversidade de áreas que Chopra aborda: ele fala de religião e misticismo (budismo,cristianismo, cabala), dá conselhos a pais, aborda o envelhecimento, aconselha sobre guerra e paz, fornece “sete leis espirituais” para o sucesso, e publicou dois romances, em 1999, Lords of light (Senhores da luz), e em 2000, The angel is near (O anjo está perto). Também fundou, com seu fi lho, Gotham Chopra, uma editora de revistas em quadrinhos e criou, junto com dois colaboradores, um tarô cabalístico composto de 22 cartas, cada uma das quais representa a história de um personagem do Antigo Testamento.
Não faltam críticos para a medicina alternativa. O argumento principal é de que a medicina moderna deve se basear em evidências resultantes de estudos experimentais, epidemiológicos, estatísticos, o que não acontece com muitos dos métodos alternativos. Isto não quer dizer que esse tipo de tratamento não funcione, ou que a literatura de autoajuda não surta efeito. Neste último caso, o que temos é um apelo espiritual ou psicológico traduzido na palavra escrita, que, ao longo do tempo, sempre teve uma aura de autoridade e de verdade. Não por acaso as três grandes religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, baseiam-se em textos: o Antigo Testamento, o Novo Testamento, o Corão. Os muçulmanos, aliás, falam nos “povos do livro”. Por outro lado, a própria medicina tem uma longa tradição de obras escritas para o público em geral. Aquele que foi, talvez, o pioneiro de todos eles, o Regimen Sanitatis Salernitanum (Regime de Saúde da Escola de Salerno) – uma das primeiras escolas médicas do Ocidente – datada do século XII ou XIII, e dá conselhos em versos, para facilitar a leitura e a memorização. Creia-se ou não na autoajuda, ela encerra uma lição, que vale para a medicina científica: o paciente precisa do amparo das palavras. Se não encontrar um médico com quem possa falar, recorrerá aos livros de autoajuda. E isso é um problema porque, como se sabe – e diferentemente de nosso organismo – o papel aceita tudo.

Fonte: Mente e Cérebro - http://www2.uol.com.br/vivermente

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A Bomba Atômica

Pensem nas crianças mudas telepáticas
Pensem nas meninas cegas inexatas,
Pensem nas mulheres rotas alteradas,
Pensem nas feridas como rosas cálidas,
Mas não se esqueçam da rosa da rosa,
Da rosa de Hiroxima a rosa hereditária,
A rosa radioativa estúpida e inválida,
A rosa com cirrose a anti-rosa atômica,
Sem cor nem perfume sem rosa sem nada.
Rosa de Hiroxima
Vinícius de Morais

"Soldados alemães, cidadãs e cidadãos da Alemanha: nosso líder, Adolf Hitler, se foi…".
Com esse pronunciamento no dia 8 de maio de 1945 o almirante Dönitz, que fora nomeado por Hitler seu sucessor, anunciou pela rádio a rendição incondicional da Alemanha. Hitler e sua companheira de anos Eva Braun, haviam cometido suicídio no dia 30 de abril de 1945, após seu bunker em Berlim estar totalmente cercado pelo exército vermelho da URSS.
A Segunda Guerra Mundial terminava, mas somente no continente europeu. No Pacífico o Japão ainda resistia às investidas norte-americanas.
Em maio de 1945 os líderes aliados reunidos na Conferência de Potsdan, haviam exigido a rendição incondicional do império japonês. Essa imposição já era aceita por uma parte do gabinete japonês, mas não pelos generais– o Japão nunca havia perdido uma guerra.

"Meu Deus, o que foi que nós fizemos?"
Eram 8h 16min 8s. do dia 6 de agosto de 1945. A interrogação foi a primeira reação de um dos tripulantes do Elona Gay, após presenciar a devastação produzida pela primeira bomba atômica jogada sobre uma cidade povoada.
Elona Gay foi o nome dado ao avião norte-americano B-29 pelo seu comandante em homenagem à própria mãe. A cidade era Hiroxima, no Japão, que desapareceu em baixo de uma nuvem em forma de cogumelo. As notícias sobre a cidade eram desencontradas, e ninguém sabia exatamente o que ocorrera. No dia 9 outra bomba atômica foi lançada sobre a cidade de Nagasaki. Os norte-americanos haviam treinado durante meses uma esquadrilha de B-29 para um ataque especial. Nos aviões, quase ninguém sabia o que transportava.
Morreram cerca de 100 mil pessoas em Hiroxima e 80 mil em Nagasaki. As vítimas eram civis, cidadãos comuns, já que nenhuma das duas cidades era alvo militar muito importante. O cenário histórico dessa tragédia que permanece até hoje na memória de milhares de japoneses era a guerra no Pacífico, entre Japão e Estados Unidos no contexto do término da Segunda Guerra Mundial.
Os generais japoneses ainda tentaram resistir, até serem convencidos do contrário pelo próprio imperador Hiroíto. No dia 15 de agosto de 1945 os japoneses escutam pelo rádio a rendição incondicional do país. Em 2 de setembro o encouraçado norte-americano Missouri entrou na baía de Tóquio e a paz foi assinada. A Segunda Guerra chegava ao fim, deixando um salde de 50 milhões de mortos em seis anos. A bomba atômica tinha sido mais um episódio desumano na história da Segunda Guerra Mundial.

Será que não existia uma maneira menos estúpida de forçar a rendição japonesa?
Para alguns historiadores o governo norte-americano tinha que dar um basta pois não podia mais resistir às pressões do Congresso, que não aceitava mais perdas de vidas norte-americanas, numa guerra que já se prolongara demais. Uma outra corrente entretanto, acharia que estúpida é a pergunta feita acima, já que o uso de armas atômicas contra o Japão não correspondia a qualquer necessidade bélica. O Japão estava em negociações secretas com os Estados Unidos para capitulação definitiva. Era uma questão de dias.
Para essa segunda corrente, as bombas atômicas tinham outro endereço: a URSS. Se até agora EUA e URSS estavam do mesmo lado, isso era fruto de uma aliança circunstancial, contra um inimigo comum que já não os preocupava mais: o nazifascismo.
As bombas de Hiroxima e Nagasaki, segundo essa última interpretação marcam o início do contexto conhecido como "guerra fria", a disputa político-ideológica e militar que bipolarizou o mundo entre o socialismo soviético e o capitalismo norte-americano por mais de 40 anos, até a desintegração da URSS, a reunificação da Alemanha e mais simbolicamente a queda do muro de Berlim em novembro de 1989.
Nas duas conferências que selaram o final da guerra, realizadas pelos três grandes vencedores — norte-americanos, britânicos e soviéticos — em Yalta e Potsdam, são estabelecidos os pontos de divisão do mundo entre os blocos capitalista e socialista. Em 25 de abril de 1945 a Conferência de São Francisco criou a Organização das Nações Unidas, cuja carta foi promulgada em junho.

Quanto ao Japão, que teve mais de um milhão e oitocentas mil vítimas, além de 40% das cidades arrasadas e a economia totalmente destruída, foi desmilitarizado e ocupado pelos Estados Unidos até 1951, quando as Nações Unidas (exceto a URSS e China), concluíram com ele, o Tratado de São Francisco, devolvendo sua soberania e marcando sua reconstrução integrada ao capitalismo internacional.

Fonte: História Net - http://www.historianet.com.br

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A Bomba Atômica

Pensem nas crianças mudas telepáticas
Pensem nas meninas cegas inexatas,
Pensem nas mulheres rotas alteradas,
Pensem nas feridas como rosas cálidas,
Mas não se esqueçam da rosa da rosa,
Da rosa de Hiroxima a rosa hereditária,
A rosa radioativa estúpida e inválida,
A rosa com cirrose a anti-rosa atômica,
Sem cor nem perfume sem rosa sem nada.
Rosa de Hiroxima
Vinícius de Morais

"Soldados alemães, cidadãs e cidadãos da Alemanha: nosso líder, Adolf Hitler, se foi…".
Com esse pronunciamento no dia 8 de maio de 1945 o almirante Dönitz, que fora nomeado por Hitler seu sucessor, anunciou pela rádio a rendição incondicional da Alemanha. Hitler e sua companheira de anos Eva Braun, haviam cometido suicídio no dia 30 de abril de 1945, após seu bunker em Berlim estar totalmente cercado pelo exército vermelho da URSS.
A Segunda Guerra Mundial terminava, mas somente no continente europeu. No Pacífico o Japão ainda resistia às investidas norte-americanas.
Em maio de 1945 os líderes aliados reunidos na Conferência de Potsdan, haviam exigido a rendição incondicional do império japonês. Essa imposição já era aceita por uma parte do gabinete japonês, mas não pelos generais– o Japão nunca havia perdido uma guerra.

"Meu Deus, o que foi que nós fizemos?"
Eram 8h 16min 8s. do dia 6 de agosto de 1945. A interrogação foi a primeira reação de um dos tripulantes do Elona Gay, após presenciar a devastação produzida pela primeira bomba atômica jogada sobre uma cidade povoada.
Elona Gay foi o nome dado ao avião norte-americano B-29 pelo seu comandante em homenagem à própria mãe. A cidade era Hiroxima, no Japão, que desapareceu em baixo de uma nuvem em forma de cogumelo. As notícias sobre a cidade eram desencontradas, e ninguém sabia exatamente o que ocorrera. No dia 9 outra bomba atômica foi lançada sobre a cidade de Nagasaki. Os norte-americanos haviam treinado durante meses uma esquadrilha de B-29 para um ataque especial. Nos aviões, quase ninguém sabia o que transportava.
Morreram cerca de 100 mil pessoas em Hiroxima e 80 mil em Nagasaki. As vítimas eram civis, cidadãos comuns, já que nenhuma das duas cidades era alvo militar muito importante. O cenário histórico dessa tragédia que permanece até hoje na memória de milhares de japoneses era a guerra no Pacífico, entre Japão e Estados Unidos no contexto do término da Segunda Guerra Mundial.
Os generais japoneses ainda tentaram resistir, até serem convencidos do contrário pelo próprio imperador Hiroíto. No dia 15 de agosto de 1945 os japoneses escutam pelo rádio a rendição incondicional do país. Em 2 de setembro o encouraçado norte-americano Missouri entrou na baía de Tóquio e a paz foi assinada. A Segunda Guerra chegava ao fim, deixando um salde de 50 milhões de mortos em seis anos. A bomba atômica tinha sido mais um episódio desumano na história da Segunda Guerra Mundial.

Será que não existia uma maneira menos estúpida de forçar a rendição japonesa?
Para alguns historiadores o governo norte-americano tinha que dar um basta pois não podia mais resistir às pressões do Congresso, que não aceitava mais perdas de vidas norte-americanas, numa guerra que já se prolongara demais. Uma outra corrente entretanto, acharia que estúpida é a pergunta feita acima, já que o uso de armas atômicas contra o Japão não correspondia a qualquer necessidade bélica. O Japão estava em negociações secretas com os Estados Unidos para capitulação definitiva. Era uma questão de dias.
Para essa segunda corrente, as bombas atômicas tinham outro endereço: a URSS. Se até agora EUA e URSS estavam do mesmo lado, isso era fruto de uma aliança circunstancial, contra um inimigo comum que já não os preocupava mais: o nazifascismo.
As bombas de Hiroxima e Nagasaki, segundo essa última interpretação marcam o início do contexto conhecido como "guerra fria", a disputa político-ideológica e militar que bipolarizou o mundo entre o socialismo soviético e o capitalismo norte-americano por mais de 40 anos, até a desintegração da URSS, a reunificação da Alemanha e mais simbolicamente a queda do muro de Berlim em novembro de 1989.
Nas duas conferências que selaram o final da guerra, realizadas pelos três grandes vencedores — norte-americanos, britânicos e soviéticos — em Yalta e Potsdam, são estabelecidos os pontos de divisão do mundo entre os blocos capitalista e socialista. Em 25 de abril de 1945 a Conferência de São Francisco criou a Organização das Nações Unidas, cuja carta foi promulgada em junho.

Quanto ao Japão, que teve mais de um milhão e oitocentas mil vítimas, além de 40% das cidades arrasadas e a economia totalmente destruída, foi desmilitarizado e ocupado pelos Estados Unidos até 1951, quando as Nações Unidas (exceto a URSS e China), concluíram com ele, o Tratado de São Francisco, devolvendo sua soberania e marcando sua reconstrução integrada ao capitalismo internacional.

Fonte: História Net - http://www.historianet.com.br

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Marxismo e Revisionismo

V. I. Lenine

Um conhecido aforismo diz que, se os axiomas geométricos contrariassem os interesses dos homens, seguramente haveria quem os refutasse. As teorias das ciências naturais, que contrariavam os velhos prejulgamentos da teologia, provocaram e seguem provocando, até hoje em dia, a luta mais raivosa. Nada tem de extraordinários, portanto, que a doutrina de Marx que serve diretamente à educação e à organização da classe de vanguarda da sociedade moderna, que indica as tarefas desta classe e demonstra a inevitável substituição – em virtude do desenvolvimento econômico – do regime atual por uma nova ordem; não é de estanhar que esta doutrina teve que lutar a cada passo dado ao longo da história.

Não nos referimos à ciência e à filosofia burguesas, ensinadas, de forma burocrática, pelos professores oficiais para entorpecer as novas gerações das classes proprietárias e "amestra-las" contra os inimigos internos e externos. Esta ciência não quer nem ouvir falar de marxismo, declarando-o refutado e destruído; tanto os jovens cientistas, que fazem carreiras refutando o socialismo, como os anciães caducos, que guardam o legado de todo tipo de antiquados "sistemas", se atiram sobre Marx com o mesmo anseio. Os avanços do marxismo, a divulgação e a aceitação de suas idéias entre a classe trabalhadora, provocam, inevitavelmente, a reiteração e o aprofundamento destes ataques burgueses contra o marxismo, que de cada uma de suas "destruições" por obra da ciência oficial, sai mais fortalecido, com mais vigor e mais fundamental.

Porém, entre as doutrinas vinculadas à luta da classe operária e divulgadas predominantemente entre o proletariado, o marxismo tão pouco firmou sua posição de imediato. Durante o primeiro meio século de sua existência (desde a década de 40 do século XIX), o marxismo lutou contra as teorias que lhes eram profundamente hostis. Na primeira metade da década de 40, Marx e Engels ajustaram contas com os jovens hegelianos radicais, que defendiam o ponto de vista do idealismo filosófico. Ao final desta década passa ao primeiro plano a luta, no campo das doutrinas econômicas, contra o proudhonismo (1). Esta luta chega ao seu final na década de 50: crítica aos partidos e às doutrinas que se revelaram no turbulento ano de 1848. Na década de 60, a luta desloca-se, do campo da teoria geral, para um campo mais próximo ao movimento operário propriamente dito: expulsão do bakunismo da Internacional. No começo da década de 70, se destaca na Alemanha, por breve espaço de tempo, o proudhonista Mühlberger, ao final deste período, o positivistaDühring. Porém a influência de um ou outro sobre o proletariado já é extremamente insignificante. O marxismo já triunfava, incondicionalmente, sobre todas as demais ideologias do movimento operário.

Desde a década de 90 do século passado, este triunfo, em seus traços principais, já estava consumado. Até nos países latinos, onde por mais tempo se haviam mantido as tradições do proudhonismo, os partidos operários estruturaram, de fato, seus programas e sua tática sobre bases marxistas. A organização internacional do movimento operário, ao prosseguir — em forma de congressos internacionais periódicos —, se colocou, imediatamente e quase sem luta, em tudo que é essencial, no terreno do marxismo. Entretanto, quando o marxismo suplantou todas as doutrinas mais ou menos completamente hostis ao mesmo, as tendências que se abrigavam nestas doutrinas começaram a buscar outros caminhos. Mudaram as formas e os fundamentos da luta, mas a luta continuou. E o segundo meio século de existência do marxismo (década de 90 do século passado) começou com a luta contra a corrente hostil ao marxismo em seu próprio seio.

Esta corrente deve seu nome ao ex-marxista ortodoxo Bernstein, que é quem fez mais ruído e quem deu o formato mais completo às emendas feitas a Marx, à revisão de Marx, ao revisionismo(2). Inclusive na Rússia, aonde o socialismo não marxista, logicamente — em virtude do atraso econômico do país e do predomínio da população campesina, oprimida pelos vestígios feudais —, se manteve mais tempo, inclusive na Rússia, aos nossos olhos, este socialismo se converte claramente, em revisionismo. Tanto na questão agrária (programa de municipalização de toda a terra) como nas questões programáticas gerais e táticas, nossos social-populistas substituem, cada vez mais com "emendas" a Marx, os restos agonizantes e caducos do velho sistema, coerentes ao seu modo e profundamente hostis ao marxismo.

O socialismo pré-marxista foi derrotado. Já não continua a luta em seu próprio terreno, mas no terreno geral do marxismo, a título de revisionismo. Vejamos, pois, qual é o conteúdo ideológico do revisionismo.

No campo da filosofia o revisionismo ia a reboque da "ciência" acadêmica burguesa. Os professores "retornavam a Kant", e o revisionismo se arrastava atrás dos neokantianos; os professores repetiam, pela milésima vez, as vulgaridades dos sacerdotes contra o materialismo filosófico, e os revisionistas sorrindo complacentemente resmungavam (repetindo com todas as letras o último manual) que o materialismo havia sido "refutado" já há muito tempo. Os professores tratavam Hegel como um "cachorro morto" (3) e, pregando eles mesmos, o idealismo, só que mil vezes mais pobre e trivial que o hegeliano, dando de ombros, desdenhosamente, frente à dialética, os revisionistas se afundavam no pântano do envelhecimento filosófico da ciência, substituindo a "sutil" (e revolucionária) dialética pela "simples" (e pacífica) "evolução". Os professores ganhavam seu soldo do Estado ajustando seus sistemas, tanto os idealistas como os "críticos", à "filosofia" medieval imperante (o que equivale a dizer: a teologia), e os revisionistas se juntavam a eles, esforçando-se por fazer da religião uma "incumbência privada", não em relação ao Estado moderno, mas em relação ao partido da classe de vanguarda.

Desnecessário explicitar que significação real de classe tinham semelhantes "emendas" a Marx: a coisa é clara por si só. Assinalaremos, somente, que Plekanov foi o único marxista dentro da social democracia internacional que fez, do ponto de vista do materialismo dialético conseqüente, a crítica daquelas incríveis banalidades acumuladas pelos revisionistas. É necessário destacar isto decididamente, porque, em nosso tempo, se fazem tentativas, profundamente errôneas, para fazer passar a velha e reacionária miscelânea filosófica sob a bandeira da crítica do oportunismo tático de Plekanov (veja-se o livro "Ensaios sobre a filosofia do marxismo" de Bogdánov, Bazárov e outros). Aqui não é o lugar oportuno para analisar este livro, e no momento, tenho que limitar-me a declarar que, não demora, irei demonstrar em uma série de artigos, ou em um folheto especial, que tudo o que se disse no texto sobre os revisionistas neokantianos guarda, também, relação, em essência com estes "novos" revisionistas neohumanistas e neoberkelianos. (veja-se V. I. Lênin, Obras, 5 ed. em russo, t. 18 – Nota do editor).

Passando à Economia Política, deve ser destacado, antes de tudo, que neste campo as "correções" dos revisionistas eram mais variadas e minuciosas; tratavam de influenciar o público com "novos dados do desenvolvimento econômico". Diziam que, no campo da economia rural, não se opera de nenhum modo a concentração e o deslocamento da pequena produção pela grande e, que no comércio e na indústria ocorre com extrema lentidão. Diziam que, agora, as crises tornaram-se mais raras e mais fracas, e que era provável que os cartéis e os trustes dessem ao capital a possibilidade de eliminar, por completo, as crises. Diziam que a "teoria do colapso", para o qual marcha o capitalismo, é inconsistente por causa da tendência das contradições de classe se atenuarem e suavizarem-se. Diziam, finalmente, que não seria mau corrigir também a teoria do valor de Marx em consonância com Böhm-Bawerk (4).

A luta contra os revisionistas, em torno destas questões, serviu para reavivar fecundamente o pensamento teórico do socialismo internacional, tal qual, vinte anos antes, havia ocorrido com a polêmica de Engels contraDühring. Os argumentos dos revisionistas foram analisados com fatos e cifras nas mãos. Demonstrou-se que os revisionistas sistematicamente embelezavam a pequena produção atual. O fato da superioridade técnica e comercial da grande produção sobre a pequena, não só na indústria, mas também na agricultura, está demonstrado com dados irrefutáveis. Porém, na agricultura, a produção mercantil está muito menos desenvolvida, e os estatísticos e economistas atuais não sabem, no geral, destacar aqueles ramos (e, às vezes, inclusive as operações) especiais da agricultura que demonstram como esta se vê envolvida, progressivamente, no intercambio da economia mundial. A pequena produção se sustenta sobre as ruínas da economia natural, graças à deterioração infinita da alimentação, à fome crônica, ou à prolongação da jornada de trabalho, à queda na qualidade do gado e nos cuidados com o mesmo; em uma palavra, graças àqueles mesmos meios com que se sustentou, também, a produção artesanal contra a manufatura capitalista. Cada avanço da ciência e da técnica mina, inevitável e inexoravelmente os alicerces da pequena produção na sociedade capitalista. E a tarefa da economia socialista consiste em investigar este processo em todas as suas formas, não poucas vezes complexas e intrincadas, e demonstrar ao pequeno produtor: a impossibilidade de sustentar-se sob o capitalismo; a situação desesperada das fazendas camponesas no regime capitalista e a necessidade de que o campesinato aceite o ponto de vista do proletariado. Frente ao problema de que tratamos, os revisionistas cometeram, no aspecto científico, o pecado de incorrer em uma superficial generalização de alguns fatos, separados unilateralmente, à margem de suas conexões com todo o regime do capitalismo, e, no sentido político, cometeram o pecado de conclamar ou empurrar o camponês, inevitavelmente, de modo voluntário ou involuntário, para o ponto de vista do proprietário (ou seja, ao ponto de vista da burguesia), em vez de empurrá-lo ao ponto de vista do proletariado revolucionário.

O revisionismo saiu ainda pior em relação à teoria das crises e a teoria do colapso. Somente durante um tempo muito curto, e unicamente os muito míopes, podiam pensar em modificar os fundamentos da doutrina deMarx em função de alguns anos de auge e prosperidade industrial. Logo, a realidade se encarregou de demonstrar ao revisionistas que as crises não haviam fenecido: após a prosperidade sucediam-se as crises. Modificaram-se, as formas, o encadeamento, o quadro das diversas crises, entretanto estas continuavam sendo parte integrante, inevitável, do regime capitalista. Os cartéis e os trustes, unificando a produção, reforçaram ao mesmo tempo, à vista de todos, a anarquia da produção, a insegurança econômica do proletariado e a opressão do capital, aprofundando deste modo, em um grau nunca visto, as contradições de classe. Que o capitalismo marcha para o colapso – tanto no sentido das crises políticas e econômicas isoladas, como no sentido da completa demolição de todo o regime capitalista – demonstram, de modo bem palpável e em proporções particularmente extensas, os modernos e gigantescos trustes. A recente crise financeira na América do Norte, o espantoso desemprego em toda a Europa, sem falar da próxima crise industrial, cujos sintomas não são poucos, tudo isto fez com que as recentes "teorias" dos revisionistas tenham sido esquecidas por todos, inclusive, ao que parece, por muitos dos próprios revisionistas. O que não se pode esquecer são os ensinamentos que esta instabilidade dos intelectuais deu à classe trabalhadora.

Em relação à teoria do valor, só é necessário dizer que, excluindo alusões e sussurros muito vagos, ao modo de Böhm-Bawerk, os revisionistas não acrescentaram absolutamente nada nem deixaram, portanto, nenhuma contribuição ao desenvolvimento do pensamento científico.

No campo da política, o revisionismo tentou rever o que constitui realmente a base do marxismo, ou seja, a teoria da luta de classes. A liberdade política, a democracia, o sufrágio universal destroem a base da luta de classes – nos diziam os revisionistas – e negavam a velha tese do Manifesto Comunista de que os trabalhadores não têm pátria. Na medida em que na democracia impera a "vontade da maioria", não devemos ver no Estado, segundo eles, o organismo da dominação de classe, nem negarmo-nos a fazer alianças com a burguesia progressista, social-reformista, contra os reacionários.

É indiscutível que estas objeções dos revisionistas se reduziam a um sistema bastante harmônico de concepções, a saber: as bem conhecidas concepções liberais burguesas. Os liberais sempre disseram que o parlamentarismo burguês suprime as classes e as diferenças de classe, já que todos os cidadãos, sem exceção, têm direito ao voto e a intervir nos assuntos do Estado. Toda a história da Europa durante a segunda metade do século XIX, e toda a história da revolução russa, no início do século XX, demonstram, cabalmente, quão absurdos são tais conceitos. Com as liberdades do capitalismo "democrático", as diferenças econômicas, longe de se atenuarem, se acentuam e se aprofundam. O parlamentarismo não elimina, ao contrário, deixa evidente que, na essência, as repúblicas burguesas democráticas são órgãos de opressão de classe. Ajudando a informar e a educar e a organizar massas da população incomparavelmente mais extensas que as que antes participavam de modo ativo dos acontecimentos políticos, o parlamentarismo prepara, desta forma, não a eliminação das crises e das revoluções políticas, mas a intensificação da guerra civil durante estas revoluções. Os acontecimentos de Paris, na primavera de 1871, e os da Rússia, no inverno de 1905, demonstraram, com excepcional claridade, quão inevitavelmente ocorre esta intensificação. A burguesia francesa, para esmagar o movimento proletário, não vacilou nem um segundo em aliar-se ao inimigo de toda a nação, as tropas estrangeiras que haviam arruinado sua pátria. Quem não compreenda a inevitável dialética interna do parlamentarismo e da democracia burguesa, que leva a solucionar o conflito pela violência massiva de modo mais intenso que em tempos anteriores, jamais saberá desenvolver, no âmbito deste parlamentarismo, uma propaganda e uma agitação conseqüentes do ponto de vista dos princípios, que preparem verdadeiramente as massas operárias para a participação vitoriosa em tais "disputas". A experiência das alianças, dos acordos, e dos blocos com o liberalismo social reformista no Ocidente e com o reformismo liberal (democratas constitucionalistas (5)) na revolução russa, mostra, de maneira convincente, que estes acordos não fazem mais que entorpecer a consciência das massas, não reforçando, mas debilitando a significação real de sua luta, unindo os lutadores com os elementos menos capazes de lutar, com os elementos mais vacilantes e traidores. O millerandismo francês (6) – a maior experiência de aplicação da tática política revisionista em ampla escala, realmente nacional – nos deu uma avaliação prática do revisionismo, que o proletariado do mundo jamais esquecerá.

O complemento natural das tendências econômicas e políticas do revisionismo era sua atitude frente à meta final do movimento socialista. "O objetivo final não é nada; o movimento é tudo"; esta frase proverbial de Bernstein expressa a essência do revisionismo melhor que muitas extensas dissertações. Determinar o comportamento de um caso para outro, adaptar-se aos acontecimentos do dia, às mudanças dos detalhes políticos, esquecer os interesses fundamentais do proletariado e os traços fundamentais de todo regime capitalista, de toda a evolução do capitalismo, sacrificar estes interesses fundamentais no altar das vantagens reais ou supostas do momento: essa é a política revisionista. Da essência desta política se deduz, com toda a evidência, que a mesma pode adotar formas infinitamente diversas e que cada problema um pouco "novo", cada mudança um pouco inesperada e imprevista dos acontecimentos – mesmo que esta mudança só altere a linha fundamental do desenvolvimento em proporções mínimas e por curto prazo –, provocará sempre, inevitavelmente, esta ou outra variedade de revisionismo.

O caráter inevitável do revisionismo está condicionado por suas raízes de classe na sociedade atual. O revisionismo é um fenômeno internacional. Para nenhum socialista com um pouco de esclarecimento e de reflexão pode existir a menor dúvida que a relação entre os ortodoxos bernsteinianos na Alemanha, entre osguesdistas e os jauressistas (atualmente, em particular os broussistas) na França (7), entre a Federação Social Democrata e o Partido Trabalhista Independente na Inglaterra (8), entre De Brouckère e Vandervelde na Bélgica(9), os integralistas e os reformistas na Itália(10), os bolchevistas e os mencheviques na Rússia, é, em todas as partes, substancialmente, uma e a mesma relação, em que pese a gigantesca diversidade das condições nacionais e dos fatores históricos na situação atual em todos estes países. A "divisão" no seio do socialismo internacional contemporâneo já se desenvolve, agora, nos diversos países do mundo, essencialmente, em uma mesma linha, o que demonstra o formidável passo adiante que foi dado em comparação com o que ocorria há 30 ou 40 anos, quando nos diversos países lutavam tendências heterogêneas dentro do socialismo internacional. E esse "revisionismo de esquerda" que hoje se perfila nos países latinos com o nome de "sindicalismo revolucionário"(11), se adapta, também, ao marxismo "emendando-o": Labriola na Itália, Lagardelle na França apelam a cada passo do Marx mal compreendido ao Marx bem compreendido.

Não podemos nos deter a examinar aqui o conteúdo ideológico deste revisionismo, que se distancia muito, em termos de desenvolvimento, do revisionismo oportunista, e que não está internacionalizado, que não enfrentou nenhuma batalha prática importante com o partido socialista de nenhum país. Por isso, nos limitaremos a esse "revisionismo de direita", que descrevemos acima.

Em que se estriba seu caráter inevitável na sociedade capitalista? Por que é mais profundo que as diferenças decorrentes das particularidades nacionais e do grau de desenvolvimento do capitalismo? Porque em todo país capitalista existem sempre ao lado do proletariado, extensas camadas da pequena burguesia, de pequenos proprietários. O capitalismo originou-se e segue originando-se, constantemente, da pequena produção. O capitalismo cria de novo, infalivelmente, toda série de "camadas médias" (apêndice das fábricas, trabalho a domicilio, pequenas oficinas disseminadas por todo o país, em virtude das exigências da grande indústria, por exemplo, da indústria de bicicletas, de automóveis, etc.). Estes novos pequenos produtores se vêm atirados também, de modo não menos inevitável, às filas do proletariado. É perfeitamente natural que a mentalidade pequeno-burguesa irrompa de novo, uma ou outra vez, no seio dos grandes partidos operários. É perfeitamente natural que deva suceder deste modo, e assim sucederá sempre, até chegar aos imprevistos da revolução proletária, pois seria um profundo erro pensar que é necessário que a maioria da população se proletarize "por completo" para que essa revolução se realize. O que vivemos com freqüência, hoje em dia, no plano puramente ideológico, são as disputas em torno das emendas teóricas feitas a Marx; o que hoje apenas se manifesta na prática a propósito de certos problemas parciais, isolados, do movimento operário, como divergências táticas com os revisionistas e os rompimentos sobre este terreno, sem falta, a classe operária terá que viver, em proporções incomparavelmente maiores, quando a revolução proletária acirrar todos os problemas em litígio e concentrar todas as divergências nos pontos de importância mais imediata para determinar a conduta das massas, obrigando a separar, no calor do combate, os inimigos dos amigos, expulsar os maus aliados, para aplicar os golpes decisivos sobre o inimigo.

A luta ideológica do marxismo revolucionário contra o revisionismo, iniciada no fim do século XIX, nada mais é que o prelúdio dos grandes combates revolucionários do proletariado, que, apesar de todas as vacilações e debilidades dos filisteus, avança até o triunfo completo da sua causa.

VI. Ilín.


Notas:

(1) Proudhon (1809-1865): socialista pequeno-burguês francês, anarquista, fundador do proudhonismo, corrente anticientífica e antimarxista. Ao criticar a grande propriedade capitalista de acordo com sua posição pequeno-burguesa, Proudhon aspirar perpetuar a pequena propriedade privada, propunha organizar o Banco do Povo e o Banco do Câmbio, com ajuda dos quais obteriam os operários – segundo ele – seus próprios meios de produção, se converteriam em artesãos e assegurariam a venda "eqüitativa" de seus produtos. Proudhon não compreendia o papel histórico e o significado do proletariado e negava a luta de classes, a revolução proletária e a ditadura do proletariado. Como anarquista, negava, também, a necessidade do Estado. Marx e Engels mantivera, uma luta conseqüente contra as tentativas de Proudhon de impor suas idéias à I Internacional. O proudhonismo foi submetido a uma crítica demolidora na obra de Karl Marx: "Miséria da Filosofia". A luta determinada de Karl Marx e F. Engels e seus partidários contra o proudhonismo terminou com a completa vitória do marxismo na I Internacional. Lênin caracterizou o proudhonismo de "teoria do pequeno-burguês e do filisteu obtuso", incapaz de colocar-se do ponto de vista da classe operária. As idéias do proudhonismo são utilizadas em grande escala pelos "teóricos" burgueses para defenderem a colaboração entre as classes.

(2) Lênin alude ao bernsteinianismo: corrente hostil ao marxismo, na social democracia internacional, surgida ao fim do século XIX na Alemanha, e que deve seu nome ao social-democrata oportunista alemão Eduardo Bernstein. Depois da morte de Engels, Bernstein propugnou a descarada revisão da doutrina revolucionária de Marx, de acordo com o espírito do liberalismo burguês (nos artigos "Problemas do Socialismo" e no livro "Premissas do socialismo e tarefas da social democracia"), pretendendo converter o Partido Social Democrata num partido pequeno burguês de reformas sociais.
Na Rússia foram partidários do bernsteinianismo os "marxista-legais", os "economistas", os bundistas e os mencheviques.

(3) Lênin cita as palavras do epílogo de Karl Marx na segunda edição do primeiro tomo do "O Capital".

(4) "Teoria da utilidade limite" foi elaborada pelo economista burguês austríaco Böhm-Bawerk em oposição à teoria do valor de Marx. Böhm-Bawerk determina o valor das mercadorias em função da sua utilidade para os homens e não em função da quantidade de trabalho socialmente necessário utilizado em sua produção.

(5) Democratas Constitucionalistas (Partido Democrata Constitucionalista): principal partido da burguesia imperialista russa, fundado em outubro de 1905. Os democratas constitucionalistas se denominavam partido "da liberdade do povo", mas na realidade aspiravam um entendimento com a autocracia a fim de manter o tzarismo na forma de monarquia constitucional. Ao estourar a guerra imperialista (1914-1918), exigiram continuar "a guerra até a vitória". Depois da revolução de Fevereiro e como resultado de uma confabulação com os líderes socialistas revolucionários e mencheviques do Soviete de Petrogrado, ocuparam os postos de direção no governo burguês e aplicaram uma política antipopular contra revolucionaria.
Triunfando a Grande Revolução Socialista de Outubro, os democratas constitucionalistas – inimigos cruéis do Poder soviético – tomaram parte na luta armada e em todas as ações da contra-revolução. Depois da derrota dos intervencionistas e dos guardas brancos, os democratas constitucionalistas continuaram sua atividade contra-revolucionaria no exterior.

(6) Millerandismo (ministerialismo): corrente oportunista nos partidos socialistas da Europa Ocidental nos fins do século XIX e começo do XX; deve seu nome ao socialista francês A. Millerand, que em 1899 tomou parte do governo burguês reacionário da França e aplicou, juntamente com a burguesia, uma política imperialista.

(7) Guesdistas e jauresistas, broussistas (possibilistas): Guesdistas: partidários de Julio Guesde e Pablo Lafargue, corrente marxista de esquerda, que propugnava uma política revolucionária proletária independente. Os guesdistas conservaram o nome do Partido Operário da França e continuaram apoiando o programa do partido, aprovado em 1880 em Havre, cuja parte teórica foi escrita por Karl Marx. Exerciam grande influencia nos centros industriais da França e uniam os elementos avançados da classe operaria. Em 1901, os guesdistas formaram o Partido Socialista da França.
Jauresistas: partidários de Juan Jaurés, que encabeçou a ala direita, reformista, do movimento socialista francês. Encobrindo-se com a exigência de "liberdade de crítica", os jauresistas tratavam de revisar as teses fundamentais do marxismo e defendiam a colaboração de classe entre o proletariado e a burguesia. Em 1902, os jauresistas formaram o ês que manteve posições reformistas.
Broussistas (possibilistas): membros da corrente oportunista surgida no movimento operário francês nos anos 80 do século XIX, encabeçada por Benito Melon e Pablo Brousse. Os possibilistas eram adversários de um partido revolucionário do proletariado e defendiam a renuncia à luta revolucionária, considerando que a marcha paulatina para o socialismo era, possível, unicamente, com a colaboração da administração local, ou seja, dos municípios. Por sua política oportunista, que se reduzia à chamada "política de possibilidades" foram qualificados, ironicamente, por Guesde, de possibilistas. Ao término da década de 80, os possibilistas, com o apoio de alguns elementos oportunistas de outros países, em particular de Hyndman (Federação Social Democrata da Inglaterra), tentaram apoderar-se da direção do movimento operário internacional. Contudo, a maioria das organizações socialistas dos diversos países não seguiu os possibilistas e participaram do Congresso de marxistas ocorrido em Paris de 14 a 20 de julho de 1889. Este Congresso foi o começo da II Internacional.Engels sustentou uma luta perseverante contra os possibilistas desmascarando sua atividade separatista. Em 1902, os possibilistas, junto com outros grupos reformistas, fundaram o Partido Socialista Francês.
Em 1905, o Partido Socialista da França e o Partido Socialista Francês se unificaram em um só partido. Durante a guerra imperialista de 1914-1918, Guesde, com toda a direção do Partido Socialista Francês, adotou as posições do social chauvinismo.

(8) Se refere à Federação Social Democrata da Inglaterra, fundada em 1884. Juntamente com os reformistas (Hyndman e outros) e os anarquistas, formava parte da Federação Social Democrata da Inglaterra um grupo de social democratas revolucionários partidários do marxismo (Harry Quelch, Tom Mann, Edward Eveling, Leonora Marx e outros), que constituíram a ala esquerda do movimento socialista da Inglaterra. F. Engels criticou energicamente a Federação Social Democrata da Inglaterra pelo seu dogmatismo e sectarismo, por separar-se do movimento operário de massas da Inglaterra e por ignorar as suas peculiaridades. Em 1907, a Federação Social Democrata da Inglaterra passou a chamar-se Partido Social Democrata. Este junto com os elementos de esquerda do Partido Operário Independente formaram, em 1911, o Partido Socialista Britânico; em 1920, a maioria de seus filiados tomou parte na fundação do Partido Comunista da Grã Bretanha.
Independent Labour Party (I.L.P.) (Partido Trabalhista Independente) foi fundado em 1893. Era encabeçado por James Keir Hardie, Ramsay MacDonald e outros. Ainda que pretendesse manter independência política em relação a outros partidos burgueses, na realidade, o Partido Trabalhista Independente só era "independente" do socialismo, porém "muito dependente do liberalismo" (Lênin). No começo da primeira guerra mundial (1914-1918), o Partido Trabalhista Independente publicou um manifesto contra a guerra (em 13 de agosto de 1914). Em seguida, em fevereiro de 1915, na Conferência de Londres dos socialistas dos países do Pacto, os independentes aderiram à resolução social chauvinista adotada pela Conferência. A partir de então, os líderes dos independentes, encobrindo-se com frases pacifistas, mantiveram uma posição social chauvinista. Em 1919, os líderes do Partido Trabalhista Independente, sobre pressão das massas radicalizadas do partido, acordaram em abandonar a II Internacional. Em 1921, os independentes ingressaram na chamada Internacional II e meio e, depois após a desagregação da mesma, voltaram a ingressar na II Internacional. Em 1921, a ala esquerda do Partido Trabalhista Independente da Inglaterra se separou do mesmo e ingressou no Partido Comunista da Grã Bretanha.

(9) No Partido Operário Belga, Brouckère e seus partidários se pronunciaram contra a participação dos socialistas em um governo burguês reacionário e lutavam contra Vandervelde, que encabeçava os revisionistas belgas. Posteriormente, Brouckère adotou posições oportunistas.

(10) Os integralistas: partidários do socialismo "integral", variedade do socialismo pequeno burguês.

(11) "Sindicalismo revolucionário": corrente pequeno-burguesa, semi-anarquista, surgida no movimento operário de diversos países da Europa Ocidental no final do século XIX. Os sindicalistas negavam a necessidade da luta política da classe operária, o papel dirigente do partido e a ditadura do proletariado, e consideravam que os sindicatos, mediante a greve geral dos operários, mas sem revolução, poderiam derrotar o capitalismo e tomar em suas mãos a direção da produção. Lênin destacava que "o sindicalismo revolucionário tem sido em muitos países o resultado direto e inevitável do oportunismo, do reformismo e do cretinismo parlamentar". (Veja-se Obras, 5ª ed. em russo, t. 16, pág. 188).

Fonte: Marxists - http://www.marxists.org/

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Concentração de terras, rebanhos e devastação aumentam

O Censo Agropecuário 2006, divulgado em 30/9 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra um agravamento da concentração de terras nos últimos 10 anos e o retrato de um modelo de desenvolvimento para o campo que está na contramão das preocupações ambientais e sociais.

A concentração e a desigualdade regional é comprovada pelo Índice de Gini da estrutura agrária do País. Quanto mais perto esse índice está de 1, maior a concentração. O Censo do IBGE mostra um Gini de 0,872 para a estrutura agrária brasileira, superior aos índices apurados nos anos de 1985 (0,857) e 1995 (0,856).

O estudo reafirma o velho quadro da concentração fundiária no Brasil. Os dados levantados apontam que as pequenas propriedades (com menos de 10 hectares) ocupam apenas 2,7% da área ocupada por estabelecimentos rurais. Já as grandes propriedades (com mais de 1000 hectares) ocupam 43% da área total.

O que torna os números assustadores é o fato de as pequenas propriedades representarem 47% do total de estabelecimentos rurais, enquanto os latifúndios correspondem a apenas 0,91% desse total.

Segundo o levantamento de 2006, o Brasil possui 5,2 milhões de estabelecimentos agropecuários, ocupando 36,75% do território nacional.

O Censo mostra que a atividade principal nessas áreas é a criação de bovinos, que ocorre em mais de 30% dos estabelecimentos. Em seguida, estão o cultivo de outras lavouras temporárias (que inclui feijão e mandioca), em cerca de 18% dos estabelecimentos; o cultivo de cereais (12%) e a criação de aves (9%). Na última década, rebanho bovino cresceu 12,1% e o Pará foi o Estado que registrou o maior aumento (119,6%). Apenas 19,9% do total de propriedades que criam gado possuem 80,7% do rebanho do país. O maior rebanho bovino encontrava-se em Mato Grosso do Sul (20,4 milhões de cabeças), seguido por Minas Gerais (19,9 milhões) e Mato Grosso (19,8 milhões).

Os maiores aumentos dos efetivos bovinos entre os censos foram nas Regiões Norte (81,4%) e Centro-Oeste (13,3%). Segundo o IBGE, as reduções do número de estabelecimentos com bovinos e dos rebanhos do Sul e do Sudeste mostram que a bovinocultura deslocou-se do Sul para o Norte do país, destacando-se, no período, o crescimento dos rebanhos do Pará, Rondônia, Acre e Mato Grosso. Nestes três estados da região Norte, o rebanho mais que dobrou, enquanto que em Mato Grosso o aumento foi de 37,2%.

Coincidência?

O estudo também aponta que diminuíram as áreas de florestas e de pastagens naturais mantidos dentro das propriedades rurais. Houve uma redução de 12,1 milhões de hectares (-11%) nas áreas com matas e florestas contidas em estabelecimentos agropecuários. Mais uma vez, a região Norte lidera o ranking do desmatamento, com menos 6,8 milhões de hectares. Mais uma vez o Pará ocupa um lugar de destaque. As propriedades deste Estado apresentaram 3,2 milhões de hectares a menos de floresta. A região Centro-Oeste aparece em segundo lugar, com menos 3,2 milhões de hectares. Pastagens plantadas também se expanderam para o Norte, e lavoura aumenta mais no Centro-Oeste.

Ainda de acordo com o Censo, os estabelecimentos que têm como atividade principal a cana-de-açúcar e a soja ficaram com a maior participação no valor da produção agropecuária (ambos com 14% cada um), seguidos por criação de bovinos (10%), cultivo de cereais (9%) e cultivo de outros produtos da lavoura temporária (8%).

O levantamento demonstra que a modernização das lavouras em função da inserção cada vez maior do país no mercado de commodities mundiais (características das grandes propriedades) ampliou a concentração de terras em algumas regiões do país, como é o caso Centro-Oeste, maior região produtora de soja.

A produção de soja cresceu 88,8% entre 1995 e 2006, alcançando 40,7 milhões de toneladas. O produto foi cultivado em 15,6 milhões de hectares, o que significou ampliação de 69,3% na área colhida.

"Em termos absolutos, representa um aumento de 6,4 milhões de hectares, caracterizando a soja como a cultura que mais se expandiu na última década. Grande parte desta área pertence à região Centro-Oeste", informa o IBGE, em comunicado.

O IBGE aponta também que 46,4% dos estabelecimentos agropecuários cultivaram soja transgênica em 2006. As sementes geneticamente modificadas foram cultivadas em 4 milhões de hectares.

Pequena propriedade emprega e produz mais

O Censo desvendou também a farsa do emprego alardeada pelo agronegócio. Nos pequenos estabelecimentos estão quase 85% dos trabalhadores. Embora a soma de suas áreas represente apenas 30,31% do total de propriedades, os pequenos estabelecimentos respondem por 84,36% das pessoas empregadas. Mesmo que cada um deles gere poucos postos de trabalho, os pequenos estabelecimentos (área inferior a 200 hectares) utilizam 12,6 vezes mais trabalhadores por hectare que os médios e 45,6 vezes mais que os grandes estabelecimentos.

Os dados também mostram que esses trabalhadores fazem parte da agricultura familiar. Produtores e seus parentes representam 77% (ou 12.801.179) do total de ocupados nos estabelecimentos agropecuários.

Apesar de ocupar apenas um quarto da área, a agricultura familiar responde por 38% do valor da produção (ou R$ 54,4 bilhões) desse total. Mesmo cultivando uma área menor, a agricultura familiar é responsável por garantir a segurança alimentar do país gerando os produtos da cesta básica consumidos pelos brasileiros. O valor bruto da produção na agricultura familiar é 677 reais por hectare/ano.

Os dados do IBGE apontam que em 2006, a agricultura familiar foi responsável por 87% da produção nacional de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do café , 34% do arroz, 58% do leite , 59% do plantel de suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos e, ainda, 21% do trigo. A cultura com menor participação da agricultura familiar foi a soja (16%). O valor médio da produção anual da agricultura familiar foi de R$ 13,99 mil.

Enquanto isso…

A pesquisa confirma também as prioridades do atual governo. Dos 5,2 milhões de propriedades existentes, somente 920 mil obtiveram financiamentos para produção, sendo 85% destes receberam de programas governamentais. Dos que não foram agraciados, 3,63 milhões (85,42%) são pequenas propriedades. Já as grandes propriedades, captaram 43,6% dos recursos.

Veneno

A maioria dos estabelecimentos onde houve utilização de agrotóxicos não recebeu orientação técnica (56,3%). O Estado com maior número de estabelecimentos que utilizavam agrotóxicos era o Rio Grande do Sul (273,85 mil).

A aplicação manual dos venenos, por meio do pulverizador costal - que é o equipamento de aplicação que apresenta maior potencial de exposição aos agrotóxicos - é a mais utilizada, presente em 70,7%. Quanto ao destino das embalagens vazias, embora haja um número ainda considerável de estabelecimentos que deixam-nas no campo (126 mil ou 9,0%), há aquelas que são queimadas ou enterradas em 358 mil estabelecimentos (25,7%). Além disso, em cerca de 20% das propriedades que aplicaram agrotóxicos não se utilizava equipamento de proteção.

Fonte: MST - http://www.mst.org.br/mst/index.html

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Por que temos que ingerir mais venenos?

Reinaldo Onofre Skalisz

Primeiro, foi o aumento em 50 vezes da quantidade de resíduo de glifosato, que pode permanecer nos grãos de soja, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Esta decisão foi tomada para ser liberado no Brasil o plantio e o consumo da soja transgênica.

Na soja não-transgênica (convencional) só era permitida a quantidade de 0,2 mg/kg de glifosato, mas dificilmente era encontrado o resíduo deste veneno, pois o uso do mesmo na soja convencional é feito antes do plantio, portanto, não entra em contato com a planta, como também o produto não é absorvido pelas raízes.

Mas, com a introdução da soja transgênica, a Anvisa aumentou para 10mg/kg a quantidade de glifosato, que pode permanecer nos grãos, pois este agrotóxico é utilizado para exterminar as plantas daninhas até 56 dias antes da colheita. Quando é utilizado o agrotóxico atinge também as folhas da soja e é absorvido, passando a circular no interior da planta, chegando também aos grãos.

Em análises laboratoriais, constatou-se que mais de 60% das amostras de soja transgênica apresentaram resíduos de glifosato, dentro dos limites estabelecidos pela Anvisa. Em algumas amostras, a presença desse agrotóxico apresentou-se acima do permitido. Na soja convencional, isto não acontece.

A Anvisa publicou no Diário Oficial da União, no dia 29 de julho de 2009, uma Consulta Pública, ficando aberto o prazo de 30 dias para que sejam apresentadas críticas e sugestões relativas à proposta de aumentar a quantidade máxima de resíduo de glifosato, de 0,1mg/kg para o milho convencional, hoje, para 1,0 mg/kg de milho transgênico e convencional.

Mais uma vez, aumenta-se o nível de resíduo para se liberar o glifosato, agora para uso no milho transgênico.

Para se ter uma idéia da potência deste veneno, damos como exemplo o que significa 0,1 mg/kg - é como se comparássemos a décima parte de um milímetro, numa régua, com um quilômetro de comprimento.

Será que o ser humano e os animais estão se tornando resistentes ao glifosato, como as plantas daninhas estão?

Será que vamos poder nos alimentar com milho verde e outros derivados, do milho transgênico, tranqüilamente? Ou vamos entrar nas estatísticas dos intoxicados?

Será que as aves e os animais poderão se alimentar com um milho e seus derivados transgênicos?

Quando a Anvisa vai divulgar o resultado das reuniões realizadas nos dias 6 a 9 de maio de 2008 (data publicada na Resolução RDC n° 10, de 22 de fevereiro de 2008), que teve como assunto a discussão dos relatos de intoxicação ocupacional e acidental, a solicitação de revisão da dose estabelecida para a Ingestão Diária Aceitável (IDA) por parte de empresa registrante, a necessidade de controle de limite máximo de impurezas presentes no produto técnico e possíveis efeitos toxicológicos adversos, do glifosato?

Como poderemos apresentar sugestões ou críticas à Consulta Pública, se a única informação que foi publicada no Diário Oficial da União é a de que vai ser aumentado o Limite Máximo de Resíduo para 1,0 mg/kg para incluir milho transgênico? Não cita nem o nome da empresa solicitante.Suspeitamos que seja a Monsanto.

E os documentos e as justificativas apresentados pela empresa para avaliação, estão à disposição do público? Por que não se fazer uma Audiência Pública com a apresentação dos documentos?
Continuaremos na interrogação e forçosamente iremos ingerir mais venenos.

Reinaldo Onofre Skalisz é engenheiro agrônomo e membro da Associação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária (Amar).

Fonte: MST - http://www.mst.org.br/mst/index.html

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Amazônia pode ficar 10ºC mais quente até 2060, diz estudo

James Painter
Analista da BBC para a América Latina

Um aquecimento global de 4ºC deve ter consequências dramáticas para a América Latina e pode subir as temperaturas na região amazônica entre 8ºC e 10ºC, o que levaria à destruição de grande parte da floresta, de acordo com um novo estudo do Departamento de Meteorologia britânico (Met Office).
O cenário catastrófico pode se tornar realidade já em 2060 - quatro décadas antes do previsto pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC).

Segundo Gilvan Sampaio, climatologista e pesquisador do Inpe, as novas previsões sobre mudança climática apontam para aumentos mais drásticos de temperaturas em um período menor de tempo por conta de inovações na área de pesquisas sobre o clima. Em 2007, a previsão era que a Terra ficasse de 1,8°C a 4°C mais quente em um período de cem anos.

"Nas nossas melhores estimativas, um aquecimento global de 4ºC aconteceria na década de 2070. Mas em uma situação extrema plausível isso poderia acontecer em 2060", disse à BBC Brasil o pesquisador Richard Betts, do Hadley Centre, a unidade do Met Office que estuda mudanças climáticas.
Os novos modelos climáticos computadorizados do Hadley Centre foram divulgados durante uma conferência na Universidade de Oxford e simulam situações em que altas emissões de dióxido de carbono são amplificadas pelo efeito de retroalimentação (feedback) dos ciclos de carbono.
Este é o nome dado por cientistas aos ciclos de absorção e liberação de carbono por florestas e oceanos.
As simulações apresentadas em Oxford indicam que a Amazônia é uma das regiões que mais vai sofrer com o aquecimento global. No entanto, para o cientista José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um aquecimento global de 4ºC elevaria a temperatura na região amazônica em cerca de 5ºC.
"Este tipo de acréscimo na temperatura já seria pior do que os cenários mais extremos do IPCC", disse Marengo à BBC Brasil.
Nordeste
Segundo ele, outros modelos indicam que "a probabilidade de um aquecimento de 3,3ºC até 2100 é maior que 50% em um cenário de altas emissões".
José Marengo já aplicou uma versão do modelo climático desenvolvido pelo Hadley Centre sobre um cenário de altas emissões para investigar as conseqüências desse aquecimento global de 3,3ºC no Nordeste.
O cientista do Inpe descobriu que o acréscimo seria ainda mais dramático na "região mais vulnerável às mudanças climáticas no Brasil, uma das mais vulneráveis da América do Sul".
O estudo de Marengo indica que até 2100 as chuvas no Nordeste seriam reduzidas entre 40% e 60% em comparação com os níveis atuais.
Além disso, a duração média da temporada seca saltaria de 12 dias para 30 dias por ano, aumentando o risco de estiagens, e a área utilizável para plantações de grãos como arroz, feijão e soja também cairia significativamente.
Hidrelétricas
Marengo afirma estar particularmente preocupado com os impactos sobre a geração de energia hidrelétrica.
Ele cita como exemplo disso a Bacia do Rio São Francisco, que deve registrar uma redução de cerca de 25% no volume d’água, o que afetaria severamente a produção de eletricidade da região.
Além disso, o pesquisador do Inpe lembra que a densidade demográfica no Nordeste é muito maior do que na Amazônia. Os impactos das mudanças climáticas sobre pequenos produtores rurais levariam a movimentos migratórios.
O novo estudo do Hadley Centre mostra fortes variações na subida de temperatura e no regime de chuvas nas várias regiões do planeta.
Na América Central, as consequências do aquecimento global são menos disputadas.
"Deve ser registrada uma queda de pelo menos 20% no volume de chuvas lá, na hipótese de 4ºC", afirmou Betts.
Mais ao sul do continente, na região da Argentina, por exemplo, a previsão é de um aumento nas chuvas.
Caribe
Na conferência de Oxford, outros cientistas apresentaram estudos que indicam consequências graves para as regiões mais baixas da América Latina e do Caribe, na hipótese de um aquecimento de 4ºC.
O cientista Stefan Rahmstorf, do Instituto de Potsdam, na Alemanha, afirmou que um aquecimento neste nível elevaria o nível do mar entre um metro e 1,3 metro até 2100 em relação aos níveis de 1990.
Os países mais ameaçados pela subida dos oceanos são Guiana, Suriname, Belize, Jamaica, Equador e o território da Guiana Francesa, além da Península de Yucatán, no México.
O Met Office também apresentou mapas na conferência que mostram que grande parte dessas áreas já estão enfrentando a elevação do nível do mar.
A comunidade científica concorda ser possível se preparar para enfrentar o problema porque a elevação acontece vagarosamente. No entanto, a combinação de ressacas, furacões de maior intensidade e a elevação do nível oceânico pode provocar problemas mais imediatos.
Desde o fim da década de 90, as emissões de gases do efeito estufa vêm ficando próximas às previsões mais extremadas do IPCC.
No seu relatório de 2007, o IPCC afirma que, na pior das hipóteses, a temperatura global subiria 4ºC até o fim do século, caso a emissão de gases do efeito estufa continuasse a crescer, embora um aquecimento maior não tenha sido descartado.
No mesmo relatório, o painel de cientistas convocado pelas Nações Unidas recomenda limitar o aquecimento global a 2ºC para evitar consequências "potencialmente dramáticas" das mudanças climáticas.

Fonte: Portal Ciência e Vida - http://sociologiacienciaevida.uol.com.br

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Comentários

Quando gritar não é suficiente

De crime contra os costumes, o estupro passou a crime contra a dignidade sexual.

Mônica Manir
Bruna Rodrigues

SÃO PAULO - "Será justo, então, o réu Fernando Cortez, primário, trabalhador, sofrer pena enorme e ter a vida estragada por causa de um fato sem consequências, oriundo de uma falsa virgem? Afinal de contas, esta vítima, amorosa com outros rapazes, vai continuar a sê-lo. Com Cortez, assediou-o até se entregar. E o que em retribuição lhe fez Cortez? Uma cortesia…"


INTIMIDADE INVADIDA – ‘O estupro é algo muito íntimo. Não raro a vítima evita contar sobre a violência até para o marido porque está no inconsciente que, quando o crime acontece, a mulher deu causa’, afirma Silvia Pimentel

A gentileza de Fernando Cortez indignou a jurista Silvia Pimentel. Tanto que, ao lado das pesquisadoras Valéria Pandjiarjian e Ana Lúcia Schritzmeyer, ela decidiu escanear outras cortesias do gênero pelas cinco regiões do Brasil. Diante de 50 decisões de tribunais de Justiça, as três compilaram tudo em livro e confirmaram o seguinte: o crime de estupro era o único do mundo em que a vítima é acusada e considerada culpada da violência praticada contra ela.

Isso foi em 1997. Silvia diz hoje ter vontade de fazer outra pesquisa, mas é bem possível que a essência do problema dispense atualização. Por sua experiência como vice-presidente do Cedaw, Comitê para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres, organismo da ONU, o estupro continua entre o crime e a cortesia pelos hemisférios afora. Aqui, a lei nº 12.015, do último 7 de agosto, tenta apertar o cinto em torno da violência sexual, acomodando o atentado violento ao pudor sob a premissa do estupro no Código Penal. De crimes autônomos, tornaram-se um só. É por causa dessa mudança que o médico Roger Abdelmassih foi acusado de 56 estupros contra pacientes, e não de 53 atentados ao pudor e 3 estupros.

Uma das criadoras do Conselho Estadual da Condição Feminina, do Estado de São Paulo, fundadora do Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem), professora de filosofia do direito da PUC-SP, Silvia se diz uma aprendiz contumaz. A lição mais recente veio da última reunião do Cedaw, em Nova York, da qual é recém-chegada. Ali confirmou que o estupro ainda é estratégia poderosíssima em conflitos armados: "O inimigo acaba com a autoestima da outra parte, as mulheres estupradas perdem a autoestima, seus maridos também, seus pais idem". No âmbito doméstico, ele continua abafado pelas conivências familiares. No meio jurídico, se não for por cortesia, por vezes vigora pelo padrão. "In dubio pro stereotypo", diz Silvia, em frase de sua autoria, que ela aos poucos destrincha na entrevista a seguir.

A lei 12.015 é uma conquista das mulheres na medida em que suprime o atentado violento ao pudor e o inclui no artigo que trata do estupro?

É uma conquista, em primeiro lugar, porque os crimes sexuais deixaram de ser crimes contra os costumes. Até este mês, estupro, atentado violento ao pudor, posse sexual mediante fraude e assédio estavam sob essa rubrica no Código Penal. A minha hipótese é a de que isso acontecia porque o estupro, em especial, é visto como um ato disfuncional da sociedade ofensivo aos seus bons costumes. Daí a veemência e repúdio ao delito em si, havendo o uso de expressões contundentes e desqualificadoras em relação ao estuprador. Contudo, ainda se expressa desrespeito também à parte ofendida, levantando dúvidas quanto às suas declarações e à sua própria moralidade.

O fato de unificar a expressão ‘atentado violento ao pudor’ com o estupro fará diferença quanto ao tratamento da vítima?

Acho que essa unificação responde de imediato a uma crítica quanto à linguagem. No ideário popular, a violência sexual máxima é o estupro. E ele designa mais do que a conjunção carnal com a penetração vaginal. Entendemos também como estupro a penetração anal, por exemplo. Ofende tanto quanto. Nos Estados Unidos, ambos são rape. Na Inglaterra, também.

Por que fazemos diferença aqui?

O direito brasileiro definia assim porque está ligado de uma maneira muito forte à ideologia patriarcal. A legislação penal que vigorou entre nós nos primeiros anos do Brasil foram as ordenações filipinas, e essas expressões todas derivam delas. A ideia de pudor, por exemplo, está intimamente ligada a recato, honestidade, virgindade, defloramento. Antes, cabia ao marido pedir a anulação do casamento caso sua mulher tivesse sido deflorada por outro homem. A questão da virgindade era o ponto alto. O estupro, visto apenas como penetração vaginal, é aquele que de fato compromete essa noção familiar porque a vítima pode perder a virgindade e ainda correr o risco de ficar grávida. Mas a nossa sociedade se transforma, e o direito existe para acompanhá-la. Hoje a palavra "estupro" designa mais do que designava. No artigo 213 da mesma lei, por exemplo, estupro significava "constranger a mulher". Agora é "constranger alguém", pode ser de ambos os sexos.

Nesse mesmo artigo, estende-se também como estupro ‘praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso’. De que ato libidinoso se trata aqui?

Se você quer saber se eu acho essa linguagem boa, eu vou dizer que não. Não acho. Primeiro, precisamos ler duas ou três vezes para entender quem é esse "ele". Depois, "ato libidinoso" é muito amplo. No direito, muitas vezes existe indeterminação numa norma legal. Onde está a definição de ato libidinoso? Não está. Já deve existir uma definição por parte dos penalistas para isso, mas não é uma definição legal. Por não estar definida, paira certa vaguedad. Não gosto de traduzir para o português essa vagueza, é estranho demais. Os juristas argentinos, aliás, há muito tempo trabalham bem com esse conceito. De qualquer forma, a linguagem jurídica tem sempre de ser muito comunicativa.

Alguns homens já dizem que um beijo roubado pode torná-lo um criminoso…

Um beijo roubado não vai torná-lo criminoso da noite para o dia, isso não deve ser encarado como estupro. Agora, não podemos nos esquecer do assédio sexual. Nesse sentido, meu projeto vai mais no sentido educativo do que o atual, propondo políticas internas nas empresas para uma atenção maior para o tema. Acho mais rico que trabalhem a questão do que punam. A ideia que temos é de que assédio sexual não é crime, mas é. Para caracterizar assédio sexual ele precisa ser de um superior, e muitos chefes têm esse tipo de procedimento. Eles se valem da relação de poder que têm no ambiente para obter isto ou aquilo em troca de benesses. Não é nada fácil comprovar um assédio sexual. É mais fácil comprovar o estupro, que deixa evidências para o IML.

Antes da lei, podia-se somar as penas de estupro com a de atentado ao pudor. Ou seja, chegaríamos a 20 anos de reclusão máxima, e não a 10. A pena foi, de certa forma, atenuada. Seria uma falha da unificação?

Em termos de Direito Penal, não me preocupo tanto com a quantidade da pena, e sim com uma tipificação clara, com uma penalização razoável e uma punição efetiva. E não estou dizendo, com isso, que os colegas que criticaram esse ponto estejam juridicamente incorretos. Ocorre que, muitas vezes, quando se estabelecia a soma das penas de estupro e atentado violento ao pudor, a pena ficava tão imensa que descaracterizava até o crime.

A senhora mencionou, no início da entrevista, que se levantam dúvidas quanto às declarações da parte ofendida. Isso ainda acontece com frequência?

Existem pesquisas, como a minha, que mostram que a palavra da mulher, especialmente a da mulher adulta, não é levada a sério. Muitos ainda dizem que ela quis ser estuprada ou se insinuou além da conta. Com as crianças, há uma boa vontade por parte dos operadores do direito. Ainda assim, se a boa vontade fosse tão grande, não teríamos uma prostituição de menores do tamanho da que existe no nosso país. Essa prostituição significa estupro reiterado pelos homens que mantêm relações sexuais com menores.

Em relação aos demais poderes, o Judiciário ainda é o mais resistente a essas reivindicações de gênero?

O Judiciário tem sido tradicionalmente apontado como poder conservador. Ao mesmo tempo, é ele, principalmente por meio das suas instâncias primeiras, que está trazendo luz a uma série de temas polêmicos. Um exemplo é a união civil homoafetiva. Esse projeto de lei, apresentado por Marta Suplicy há tantos anos, não consegue ser aprovado no Legislativo. Ao mesmo tempo, em nove Estados brasileiros e no Distrito Federal, temos decisões judiciais reconhecendo a união, de fato, de um par homossexual como aspecto de relação familiar.

Vem também da desconfiança quanto ao Judiciário a dificuldade de denunciar?

Existe essa dificuldade em todas as regiões do mundo, dos países mais modernos aos menos desenvolvidos. A violência sexual é algo muito íntimo, muito privado. Não raro a mulher evita contar sobre essa violência até mesmo para o marido. Ela se envergonha. Por quê? Porque está no inconsciente que, quando o estupro acontece, a mulher deu causa. Vou dar um exemplo. Uma aluna minha foi estuprada na Praça da Sé por volta das 18h30 num dia da semana. No seguinte, ela foi à faculdade. Estava mal, com a cabeça encostada na parede. No final da aula, ela e uma colega vieram até mim. A colega disse que ela queria contar do estupro. A menina estava tão chocada que nem retirou a calça jeans para ir ao banheiro desde a noite anterior. Ainda assim, não quis denunciar o caso na delegacia da mulher nem contar para os pais. O máximo que consegui foi orientá-la na parte médica. Pois a menina tinha um namorado. Três meses depois o menino terminou o relacionamento. Ela disse que ele passou a olhá-la de forma diferente depois que soube do estupro. Ela estava se sentindo culpada de alguma maneira. Ou seja: gritou, mas não gritou o suficiente. Impediu, mas não como devia.

O estupro é um crime que envolve muita reincidência?

Li muito a respeito, e em diferentes perspectivas, mas existe pouco estudo e conhecimento a respeito da reincidência. Agora, é fato que essas relações sexuais se dão muitas vezes com pessoas das próprias relações, como amigos e parentes. Isso torna a situação ainda mais difícil porque implica estabilidade de um relacionamento social que transcende o relacionamento com aquele tio ou aquele pai. A família inteira se envolve. É altamente provável que as mães saibam quando os pais reiteradamente têm relações com suas filhas. Dizer que não sabiam? Você acredita nisso? Eu, desde que tenho filho, tenho sonho leve. A gente fica atenta. Até porque isso se dá na própria casa, que em geral não é do tamanho de um Palácio de Versailles. Para manter o status quo, há interesses os mais óbvios, como os econômicos e financeiros, até dependência emocional e psicológica. Conheço casos de mães que praticamente negociavam a filha de 2 anos com o marido/amante/namorado para não perder o parceiro.

A senhora acha que a mudança da lei pode provocar protestos em torno do estigma de ser chamado de estuprador? Quem praticava atentados violentos ao pudor não recebia essa denominação…

Eu acho que a notícia de que alguém teria praticado mais de 50 atos hoje categorizados como estupros determina uma decisão diferente. Pode-se, pelo menos, mudar essa naturalização da violência sexual. Ser chamado de estuprador é, sim, muito forte, tanto que, quando o acusado chega à prisão, ele recebe uma sanção dos próprios presidiários no sentido do que os presos entendem por estupro. Veja o disparate, o nonsense da situação. Esses mesmos homens que estupram um estuprador que vai para a cadeia talvez tenham tido relações nunca sabidas com as próprias filhas. Onde está a lógica? O pai que tem relações incestuosas entende que tem o direito de fazê-lo. As meninas seriam suas coisinhas. Por que os homens têm essa compreensão e, na cadeia, se julgam no dever ético de punir o estuprador? Acham que os outros estupradores estariam colocando em risco suas próprias filhas e mulher, que são propriedade deles. Se o outro estupra minha propriedade (filhas e mulher), ele está invadindo/usurpando a propriedade alheia.

Pode ser que o agressor ache que não estuprou.

Em 1996 estive no Peru, onde um jovem sociólogo havia entrevistado presos estupradores. Dali saiu um livro. Enfim, seus entrevistados eram presos condenados por estupro, todos na cadeia. O autor dizia que o mais chocante para ele foi olhar nos olhos desses homens e perceber que eles não tinham a mínima noção da ofensa que faziam. Diziam: "Mas eu nunca machuquei a minha filha". Alguns não machucam mesmo, isso se dá pela sedução. Freud veio mostrar que existe o complexo de Édipo e o complexo de Electra. Nossa condição humana, o instinto do seres humanos, nos leva à atração. Agora, somos seres humanos, não somos animais irracionais. Devemos articular as nossas ações, que são razão e não-razão. Daí a importância de vivermos numa sociedade que tenha claro, como valor social e jurídico, o não-incesto. Qual é a primeira ação tipificada como crime na sociedade? O incesto. As pessoas têm que se organizar internamente, saber que uma sociedade civilizada repudia não só o incesto, mas qualquer violência sexual contra as mulheres, sejam elas pequenininhas, adolescentes, mulheres maduras ou idosas.

São muitos os casos de violência sexual contra mulheres idosas?

Em dados numéricos, não. Mas existe sim. Algumas pesquisas mostram que o estuprador compulsivo violenta a primeira mulher que aparece. Claro que as bonitas estão mais vulneráveis, e as crianças mais ainda, isso em todas as sociedades. Na ONU, venho falando muito nesse tema e vejo que minhas palavras causam mal-estar porque as pessoas não querem dar nome às coisas. A primeira coisa que devemos fazer quando descobrimos um problema é nomeá-lo.

A violência sexual permeia todas as camadas sociais?

Várias colegas minhas da área de psicologia e alguns de pesquisas dizem que é provável que os dados mostrando alta incidência de estupro nas camadas menos favorecidas têm relação com a menor intimidade delas. Nas camadas sociais mais altas, as questões vão para os divãs dos psicólogos e psiquiatras. Muitas mulheres de classe média alta podem não ter contado o que viveram aos maridos, mas certamente o fizeram aos seus terapeutas. O importante é lembrar que a divisão entre o mundo privado e o público sempre existiu, mas essa divisão foi questionada em termos históricos pelas mulheres feministas. Elas perceberam que o historicamente privado não pode continuar a sê-lo porque as maiores violências que acontecem contra as mulheres se dão dentro de casa. E em todas as camadas sociais.

Uma maior educação pode diminuir a incidência desse crime?

Não existe nenhuma pesquisa sobre isso. Na minha percepção, a educação precisa ter um papel nisso tudo, que é o de contribuir para o domínio sobre os próprios instintos.

Há dados a respeito de violência sexual praticada por médicos?

Eu desconheço. Talvez procurando no Conselho Federal de Medicina… O que posso dizer é que nunca vi ninguém fazer intervenção cirúrgica sem ter um assistente. Mas muitas pessoas não querem perder o emprego. Ao mesmo tempo, a mulher dizer que um médico tentou uma violência sexual contra ela é muito difícil. O parceiro sempre pode ter dúvida. Não é que o cara seja louco, mas isso está consoante com a maneira de se interpretar o fenômeno que mencionamos anteriormente. Além de se sentir culpada por causa do marido, ela se percebe muito coitada, fica fragilizada, machucada no âmago.

O estupro é a forma mais intensa de submissão?

Sim, é a forma mais intensa de submissão, uma arma muito usada na guerra, inclusive. O inimigo acaba com a autoestima da outra parte. As mulheres estupradas perdem a autoestima, seus maridos também, seus pais idem. Veja você o caso congolês. Há um filme chamado Rape in Congo, que foi passado para nós na última reunião da ONU. É uma grita geral porque os homens estão sendo estuprados. É óbvio que estou de acordo com que a gente grite por eles, mas por que não gritam igualmente pelas mulheres estupradas? Lembra-se das comfort women, famosas na 2ª Guerra Mundial? Justificou o ódio de uma grande região da Ásia em relação aos japoneses, que tomavam as meninas dos povos conquistados e as levavam aos locais onde estavam os guerreiros para que servissem de prostitutas. Têm sido feitos livros e pesquisas para que essas mulheres contem suas histórias.

Além do Congo, que outro caso recente de violência sexual foi ouvido pela ONU?

Foi um caso que envolve liberianos num campo de refugiados no Arizona (EUA). Uma menina liberiana de 9 anos foi estuprada por liberianos. Quando a família soube do fato, pôs a menina pra fora de casa. A Libéria tem uma presidente mulher. Ela se manifestou publicamente fazendo o seguinte: passou uma mensagem à família da menina dizendo que ela não poderia ter feito isso, mas passou outra ao governo do Estado americano no sentido de que deem a esses rapazes estupradores a possibilidade de se reinserirem culturalmente na sociedade. Como recebemos a Libéria exatamente agora, levantei o tema. Foi lembrado pela delegação deles que deveríamos considerar que o país ficou 14 anos em guerra civil e que ambas as facções ou grupos que brigavam entre si, partidos políticos que sejam, estupravam as mulheres da outra facção. O que estou verificando pouco a pouco é que o estupro em conflitos armados é um dos problemas mais universais e um dos que mais precisam ser trabalhados.

E como o Comitê Cedaw lida com esses casos?

Bom, nós lidamos diretamente com todos os países que ratificaram a Comissão da Mulher. Eles são obrigados a nos entregar relatórios de cumprimento dos 16 artigos de substância sobre os direitos femininos, dizendo o que fizeram e o que deixaram de fazer e apontando os obstáculos. Nós analisamos esses relatórios e encaminhamos perguntas a eles. Depois chamamos os representantes desses países e mantemos um dia inteiro de diálogo construtivo. Nesse trabalho na ONU, aprendi muito escutando grupos de ONGs que trouxeram mulheres violentadas. Vi que o curative rape ainda vigora em algumas regiões do mundo, em diferentes versões. Numa delas, meninas que chegam à puberdade e ainda não definiram sua sexualidade são violentadas para que optem pela heterossexualidade. Já em alguns grupos étnicos do Laos, as meninas são disponibilizadas para o estupro coletivo e até agradecem por isso. Se não forem estupradas, não viverão além de 35 anos. Acho que nenhuma sobrou para contar história diferente. Já na região da Mauritânia as meninas, quando fazem 9 anos, são amarradas a uma cadeira durante o dia. Em volta são colocados 18 litros de leite, uma quantidade enorme de cereais, isto e aquilo, para que engordem até 120, 130 quilos. Quando atingem esse peso, estariam no ponto para serem dadas aos seus esposos. Qual é a crença? Quanto maior forem, maior será o tamanho do lugar que ocuparão no coração do marido. O que cada vez mais aprendo dessas situações horrorosas a que as mulheres são submetidas é que há sempre uma justificativa comum: a sublimação é boa para a sociedade.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo - http://www.estadao.com.br

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Baço é mais importante para o sistema de defesa do corpo do que se pensava

Natalie Angier
The New York Times

Como uma inveterada maçã podre, frequentemente comparada à rabugenta personagem Lucy Van Pelt, do desenho Snoopy, sinto-me gratificada por saber que, caso meu baço verdadeiro resolva alguma vez agir com seriedade, essa ação pode salvar minha vida.

Cientistas descobriram que o baço, há muito relegado ao lado B dos órgãos abdominais, e conhecido tanto por seu valor metafórico quanto pelo fisiológico, desempenha um papel mais importante no sistema de defesa do corpo do que jamais se suspeitou.

The New York Times

O baço funciona como reservatório para números enormes de células imunológicas chamadas monócitos.

Em relato publicado na edição atual do jornal "Science", pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts e da Escola de Medicina de Harvard descrevem estudos mostrando que o baço funciona como reservatório para números enormes de células imunológicas chamadas monócitos - e que, no caso de um trauma grave ao corpo, como um ataque cardíaco, cortes profundos ou invasão de micróbios, o baço lançará essa multidão de monócitos na corrente sanguínea para aplacar a crise.
"O paralelo para isso em termos militares seria um exército de prontidão", explica Matthias Nahrendorf, um autor do relatório. "Não é bom ter de recrutar um exército completo do nada toda vez que você precisar dele".
O fato de pesquisadores estarem, somente agora, descobrindo um importante atributo de um órgão bastante grande, que é estudado pelo menos nos últimos dois mil anos, demonstra que, mais uma vez, não há nada tão estranho quanto o lugar que chamamos de lar.
"Muitas vezes, ao se deparar com algo no corpo que parece ser importante, você pensa, ‘Por que ninguém conferiu isso antes?’", disse Nahrendorf. "Quanto mais você aprende, contudo, mais percebe que estamos apenas arranhando a superfície da vida. Não sabemos a história completa a respeito de nada".
Nahrendorf, com Filip K. Swirski, Mikael J. Pittet e uma dúzia de outros colegas realizaram os estudos iniciais usando camundongos, mas os cientistas suspeitam que os resultados possam se aplicar também a humanos.
Ulrich H. von Andrian, imunologista da Escola de Medicina de Harvard que não estava envolvido com o estudo, concordou que as descobertas foram uma surpresa. "Se alguém tivesse de adivinhar a fonte dessas células, teria imaginado que elas vinham provavelmente da medula óssea, e não do baço", disse ele. "A descoberta agrega mais uma camada de complexidade, não associada previamente a esse órgão".
O recente trabalho também soa como uma nota admonitória contra subestimar uma parte do corpo ou considerá-la vestigial, descartável ou obsoleta. Num ensaio de acompanhamento, Ting Jia e Eric G. Pamer, do Centro de Câncer do Memorial Sloan-Kettering, admitem que "o baço não possui o ‘peso’ dos órgãos vizinhos", como o fígado ou o estômago, "pois podemos sobreviver sem ele".
O baço pode se romper durante esportes de contato, por exemplo, ou num acidente de moto, ponto no qual os cirurgiões não têm opção. "Trata-se de um órgão tão vascularizado, e o risco de uma grande hemorragia é tão grande, que se o baço se rompe, temos uma emergência cirúrgica", disse James N. George, hematologista da Universidade de Oklahoma. "É preciso removê-lo".
As novas descobertas não se opõem, de nenhuma forma, à necessidade de se extirpar um baço rompido, dizem os pesquisadores. Mas elas sugerem que a perda do órgão representa mais que uma mera "inconveniência", como é muitas vezes retratada, e poderia ajudar a explicar relatos anteriores mostrando um risco aumentado de morte prematura para pessoas que se submeteram a esplenectomias.
Em estudo que apareceu no "The Lancet" em 1977, por exemplo, pesquisadores comparavam um grupo de 740 veteranos de guerra americanos, que haviam removido seus baços como resultado de ferimentos de batalha, a uma amostra similar de veteranos que haviam sofrido outros tipos de ferimentos, mas mantinham seus baços.
Os homens operados, segundo os pesquisadores, apresentavam o dobro de chances de morrer de doenças cardiovasculares do que os veteranos do grupo de controle. Tudo isso significa que a perda do baço deveria ser diligentemente evitada, particularmente entre nossos pequenos esportistas da guerra, talvez pelo uso de equipamentos de proteção adequados.
Os pesquisadores citam outros casos, onde órgãos foram considerados tão dispensáveis que poderiam ser removidos "profilaticamente" - muitas vezes com consequências adversas. Em anos recentes, por exemplo, muitas mulheres mais velhas passando por histerectomias foram aconselhadas a remover os ovários ao mesmo tempo, a explicação racional sendo: se você passou da idade para gerar filhos, por que manter órgãos reprodutores que podem se tornar cancerosos e causar sua morte?
Porém, pesquisas de acompanhamento mostraram que as mulheres submetidas a ovariectomias traziam um risco aumentado de morrer durante um dado tempo de estudo, eram mais suscetíveis a doenças cardíacas e câncer de pulmão, e tinham duas vezes mais chances de desenvolver Mal de Parkinson do que as mulheres que haviam mantido seus ovários. "A evolução leva vantagem sobre nós", disse Nahrendorf. "Eu teria muito cuidado em dizer, ‘ Você não precisa deste órgão, livre-se dele’".
Outro motivo para gostar do baço - um órgão purpúreo do tamanho de um punho, pesando 150g e localizado no quadrante superior esquerdo da cavidade abdominal, logo atrás do estômago e sob o diafragma - é sua ilustre história médica e poética. Galen considerava o baço como fonte de um dos quatro humores corporais, especificamente a amargura associada a pessoas irritadas e melancólicas. Em seu poema, "Baço" ("Spleen"), Charles Baudelaire descreve um jovem narrador tão enfadado e deprimido, indiferente mesmo a lindas mulheres e homens divertidos, que seria como se "águas verdes de Lethe" preenchessem suas veias.
Mais recentemente, pesquisadores determinaram que o baço é como uma zona úmida elaborada, uma baía do Mississipi para filtragem e renovação do sangue. Em outros órgãos, o sangue flui por uma rede interconectada de artérias, veias e capilares, cada vez mais estreitos. O baço, pelo contrário, possui um sistema circulatório "não-capilar": à medida que o sangue flui para dentro, ele é despejado em sinuosidades parecidas com um pântano, e para sair ele precisa se espremer entre as células.
Esse despejamento e a espremida entre as células ajudam a filtrar e excluir parasitas nascidos no sangue, hemácias envelhecidas frágeis demais para se comprimir, e as pequenas bolas oxidadas, os BBs, com as quais os glóbulos vermelhos são frequentemente marcados. O baço foi muitas vezes chamado de cemitério para glóbulos vermelhos, mas funciona mais como um centro de reciclagem, pois o ferro e outros componentes são arrancados das células e usados para estocar novas gaiolas de hemoglobina.
Filtragem, canibalismo, e agora - sério cultivo de monócitos. No novo estudo, os pesquisadores começaram examinando os monócitos, os maiores glóbulos brancos do corpo humano. "Era reconhecido que essas células eram os principais reparadores após um ataque do coração", disse Nahrendorf. "Elas removem células musculares mortas, começam a reconstruir tecido cicatrizado estável e estimulam a geração de novos vasos sanguíneos".
As células se apressam para cortar e colar. "24 horas após um infarto no miocárdio", explica Nahrendorf, "há milhões de monócitos" se reunindo ao redor do coração quebrado. Todos eles pareceriam sensíveis, desejáveis, uma excelente exibição de prontidão emergencial - entretanto, Nahrendorf e seus colegas ficaram intrigados por uma grande dúvida: de onde vinha esse time de resposta rápida? Os números circulando no sangue eram simplesmente baixos demais. Os pesquisadores buscaram em um órgão depois do outro, até que checaram o baço e descobriram o filão principal de monócitos. "Os números ali eram enormes, dez vezes maiores que na corrente sanguínea", disse Nahrendorf.
Pelos cálculos dos pesquisadores, os monócitos, como todas as células do sangue, nascem na medula óssea e, em algum ponto, migram ao baço, atraídos por sinais ainda não identificados. Eles se sentam e esperam - um grupo calmo que, quando estimulado por assinaturas químicas de danos, como a angiotensina, as células se movem sem hesitar, uma reação que os pesquisadores esperam algum dia compreender bem o bastante para repetir o quanto for necessário. Abençoado seja o chefe, abençoado seja a rainha - e abençoados sejam os monócitos vivendo em meu baço.
Tradução: Pedro Kuyumjian

Fonte: Portal Ciência e Vida - http://sociologiacienciaevida.uol.com.br

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As revoluções de Caio Prado Júnior.

MARIA CÉLIA WIDER

Nascido em família tradicional, o escritor paulistano foi membro do Partido Comunista Brasileiro e preso diversas vezes. Autor de livros importantes para entender a sociedade brasileira, como Formação do Brasil contemporâneo, Caio Prado Júnior foi considerado o maior historiador brasileiro do século XX por Sérgio Buarque de Holanda.

RAÍZES, TRADIÇÃO E RUPTURA DE CAIO PRADO
Caio Prado Júnior nasceu na cidade de São Paulo, em 11 de fevereiro de 1907. Era o terceiro de quatro filhos de duas famílias representantes da alta burguesia paulistana: seu pai era Caio da Silva Prado e a sua mãe Antonieta Penteado da Silva Prado. Esse aspecto é importante não apenas como curiosidade biográfica, mas para acentuar a tradição política, econômica e social que ele herdou e na qual foi criado. Data do início século XVIII a chegada do primeiro Prado ao Brasil, vindo de Portugal. Representantes da família Silva Prado aparecem na história brasileira desde a Proclamação da Independência, participando ativamente da vida política e econômica do País. Mais tarde, no período da Primeira República, a família se tornaria símbolo do desenvolvimento econômico e industrial de São Paulo, notadamente a partir do deslocamento da atividade cafeeira para o Estado e sua considerável expansão, de 1850 em diante. Os Álvares Penteado estão ligados à industrialização de São Paulo. Antônio de Álvares Leite Penteado, avô materno de Caio, foi um grande empreendedor, que fez fortuna como fazendeiro, industrial e comerciante.

Caio Prado rompeu com a condição familiar e social ao se tornar militante do Partido Comunista

As duas famílias moravam em palacetes na Avenida Higienópolis, no bairro de mesmo nome. Antônio Álvares Penteado fizera construir sua residência – um palacete em estilo art nouveau –, conhecida como Vila Penteado, que ocupava o quarteirão delimitado pela Avenida Higienópolis e pelas ruas Itambé, Maranhão e Sabará. No enorme jardim, onde havia até um lago artificial, as crianças da família brincavam acompanhadas de preceptoras e governantas.
Caio Prado Jr., que a família chamava carinhosamente de Caito, iniciou seus estudos em casa, com uma preceptora alemã, e fez o secundário no Colégio São Luís. Sempre foi um aluno brilhante, além de ser dedicado e estudioso, e ainda tinha aulas complementares de música e línguas – era fluente em francês, inglês, espanhol e alemão. O ambiente doméstico era sofisticado e ele conviveu com artistas, intelectuais e políticos que freqüentavam as reuniões de seus pais. Também eram comuns as viagens, seja para o exterior seja para as fazendas da família.
Foi com tal condição social e familiar que ele acabou rompendo ao se tornar militante do Partido Comunista, em 1931. O significado dessa atitude foi captado pelo sociólogo Florestan Fernandes na seguinte observação: “Ele foi além e espatifou todas as concepções, os valores e suas próprias raízes”². Mas, ironia da história, no partido ele foi recebido com desconfiança, afinal era um notório intelectual burguês. E Caito passou a se equilibrar aí, em parte aceito e em parte rejeitado, em ambos os contextos.

INGRESSÃO NA POLÍTICA E NA CADEIA
Formado em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), o jovem iniciou sua atividade política no então Partido Democrático (PD), fundado por membros da elite paulistana insatisfeitos com a hegemonia do Partido Republicano Paulista (PRP), entre os quais estava seu tio-avô, Antônio Prado, que participou ativamente do momento político. Getúlio Vargas liderou a revolução de 1930, que o levou ao poder, derrubando o presidente Washington Luis e pondo fim à República Velha.

O PD apoiava Vargas e data da época da campanha eleitoral a primeira prisão de Caio Prado Jr, ao demonstrar, numa recepção pública, excessivo entusiasmo pelo futuro presidente. No novo governo, ele participou de um comitê revolucionário em Ribeirão Preto, mas percebeu que as coisas não mudariam de acordo com suas expectativas. O jovem então radicalizou e se filiou ao PCB. Em 1935, ele era vice-presidente da Aliança Libertadora Nacional, em São Paulo. O movimento, liderado por Luís Carlos Prestes (1898- 1990), foi duramente reprimido pelo governo de Vargas, ao qual se opunha, e Caio Prado Jr. acabou sendo preso, dessa vez por um período mais longo: foram quase dois anos de detenção, primeiro no presídio Maria Zélia, um centro de repressão improvisado, depois no Presídio do Paraíso.

Caito já era um homem casado, com Hermínia Cerquinho, a Baby, e pai de dois filhos, Yolanda (Danda) e Caio Graco. Começou, para a família, uma rotina de visitas à cadeia e de confronto social: a mulher e os filhos do intelectual eram ostensivamente hostilizados no meio a que pertenciam. Lendo a correspondência trocada entre o casal nesse período, é possível perceber as condições precárias do cárcere e a angústia dos presos políticos com a falta de informações. Na medida do possível, na prisão Caio continuou lendo, estudando e escrevendo suas reflexões – datam daí seus Diários políticos. Assim que foi solto, em 1937, ele partiu para o exílio na França. Sua libertação se deveu a uma anistia dada por Vargas aos presos políticos, que não tinham culpa formada. Foi uma brecha, pois em seguida veio a ditadura do Estado Novo e uma repressão mais feroz aos opositores do regime. Em Paris, manteve seus contatos intelectuais e políticos, atuando no Partido Comunista Francês. Caito só voltaria ao Brasil em 1939, às vésperas da eclosão da Segunda Guerra Mundial, já separado de Baby.

A PREOCUPAÇÃO COM A REALIDADE BRASILEIRA
O Brasil era o principal foco das atenções de Caio Prado Jr.. Ele mesmo dizia que seu acentuado interesse pela situação brasileira nascera de uma longa viagem que fizera pelo País, aos 18 anos de idade, na qual pôde observar nossa diversidade regional e os problemas decorrentes da miséria e do subdesenvolvimento. Desde então, Caio não se limitou a estudar o País do ponto de vista histórico, econômico, político e geográfico, e refletir sobre seus problemas em busca de soluções, mas empreendeu diversas viagens de reconhecimento, pois queria ver as coisas in loco. Ele se orgulhava de conhecer o Brasil por inteiro, de norte a sul.

As viagens que fez durante a vida toda, não só no Brasil, mas por diversos países, permitiramlhe imprimir em seus escritos a marca do olhar de etnógrafo e geógrafo. Além disso, ele fotografava não só as paisagens, mas as pessoas em várias atividades, as manifestações culturais e os aspectos arquitetônicos que o impressionassem. As fotos, que ele mesmo revelava, eram dispostas em álbuns, com explicações e, muitas vezes nas viagens pelo interior do País, desenhos dos mapas dos roteiros. Ao mesmo tempo, sua atividade intelectual continuava intensa e ele participara dos primeiros cursos de História, Geografia e Filosofia da recém-fundada Universidade de São Paulo e começara a escrever artigos para a revista Geografia, publicada pela Associação dos Geógrafos do Brasil, da qual foi um dos fundadores.

Em 1933, ele publicou, às expensas próprias, o livro Evolução política do Brasil e outros estudos – Ensaios de interpretação materialista da História do Brasil, no qual se firmava como pensador marxista e revolucionário. O livro foi um marco da história do marxismo no Brasil, colocou em evidência as camadas populares e a questão da cidadania. Com espírito de polemista, ele dizia na introdução: “Os historiadores, preocupados unicamente com a superfície dos acontecimentos – expedições sertanejas; entradas e bandeiras; invasões ou guerras – esqueceram quase que por completo o que se passa no íntimo da nossa história de que estes acontecimentos não são senão reflexos exteriores.”³

No mesmo ano, viajou à União Soviética, cuja experiência socialista ele desejava ver pessoalmente. De volta ao Brasil, relatou suas observações em concorridas conferências no Clube de Artistas Modernos e escreveu o livro URSS, um novo mundo, publicado no ano seguinte (aliás, a segunda edição do livro foi apreendida pela polícia).

FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO E A EDITORA BRASILIENSE
Foi na década de 1940 que se manifestaram grandes realizações de Caio Prado Jr., no campo intelectual, na atividade política e na vida pessoal. Em 1942, publicou Formação do Brasil contemporâneo, considerado seu livro mais importante. Era uma obra mais aprimorada e sólida. Na análise do historiador Paulo Teixeira Iumatti, autor do minucioso estudo Caio Prado Jr.: uma trajetória intelectual: “Em tais páginas de Formação do Brasil contemporâneo, vemos um historiador já amadure-cido e completo. O enfoque econômico, incluindo a abordagem da interação entre fatores geográfi- cos, sociais e culturais, livrara-se do esquematismo que marcara Evolução política do Brasil e suas primeiras monografias de geografia – trabalhos, que, no entanto, esboçavam tal enfoque.”

Em Formação do Brasil contemporâneo, Caio Prado Jr. estabelece o sentido da colonização brasileira, mostrando que o Brasil nunca fora o objetivo de sua própria produção. Ele revelou as relações, os processos e as estruturas sociais, econômicas e políticas que operavam na composição e transformação da sociedade brasileira5. Formação se tornou um dos livros mais influentes da historiografia brasileira do século XX. O livro havia sido pensado, inicialmente, para ser desenvolvido em quatro volumes, mas ficou no primeiro. Dois anos depois, ele publicou História econômica do Brasil, no qual retomava a análise iniciada em Formação.

No mesmo ano, ele se casou com Helena Maria Nioac, a Nena, que seria a grande companheira de sua vida. O filho deles, Roberto, nasceu em 1945. Caito e Nena moravam na Rua Maestro Elias Lobo, nos Jardins, onde reuniam a família algumas vezes por semana. Intelectual inquieto, ele fundou a Editora Brasiliense, em 1943, interessado, principalmente, em publicar livros que abordassem vários aspectos da realidade brasileira. De início, lançou livros de médicos, sanitaristas e especialistas em diversas áreas científicas. Vieram os relatos de viajantes, de exploradores e de cientistas europeus. E muita literatura brasileira: as obras completas de Lima Barreto, de Maria José Dupré, de Monteiro Lobato. Da literatura portuguesa, vieram as obras completas de Eça de Queiroz.

Monteiro Lobato e Caio Prado Jr. foram grandes amigos. Lobato, que, além de escritor, tinha experiência no ramo editorial, chegou a ser sócio de Caio na Brasiliense, de 1946 a 1948, quando morreu. Caio tinha também uma gráfi- ca, a Urupês, e uma livraria, a Monteiro Lobato, que se tornou ponto de encontro de intelectuais e militantes políticos. As articulações políticas não tinham fim: foi na editora que Caio e Antônio Cândido prepararam o I Congresso Brasileiro de Escritores, realizado em 1945, e que foi uma verdadeira arregimentação de intelectuais contra o governo.

A REVISTA BRASILIENSE E AS INVESTIDAS POLÍTICAS
O Estado Novo acabou oficialmente em 1945, com a renúncia de Getúlio Vargas. Era também o fim da 2ª Guerra Mundial, com a vitória dos Aliados sobre o Eixo. O País e o mundo entravam numa nova fase da história. Depois de 18 anos na clandestinidade, o PCB teve seu registro aceito pelo Tribunal Superior Eleitoral e voltou à legalidade. Caio se candidatou a deputado federal na eleição de 1945, mas não foi eleito. Ele conseguiria a vaga de deputado estadual constituinte em 1947, pelo PCB, que fizera a terceira maior bancada da Assembléia Legislativa.

O primeiro projeto de lei para a criação da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa Científica do Estado de São Paulo) foi de sua autoria. Ele acreditava que, por meio do amparo do Estado à pesquisa científica, tanto a vida cultural quanto a econômica e social de São Paulo e do Brasil poderiam ser transformadas. A criação da Fapesp só se tornou realidade muitos anos mais tarde, em 1960. Na atividade parlamentar, era clara a preocupação de Caio Prado Jr. com a modernização do Brasil. Além da pesquisa científi- ca, estavam na sua mira a fiscalização do poder público e o regime tributário.

Parece que uma das medidas repressoras dos governos, em momentos de crise, era prender Caio Prado Júnior

No total, ele apresentou ou subscreveu 31 emendas, das quais nove foram aprovadas e quatro parcialmente aprovadas, e foi líder da bancada comunista. Isso tudo em um mandato curtíssimo. Foram apenas dez meses: no mesmo ano das eleições, o registro do Partido Comunista foi cassado, bem como os mandatos dos parlamentares. E Caio voltou para a prisão. A próxima investida política importante veio em 1955, com a fundação da Revista Brasiliense. As bases do nacionalismo conseqüente, que seria a tônica da publicação, haviam sido lançadas na tese Diretrizes para uma política econômica brasileira, apresentada por Caio Prado Jr. no concurso para a cátedra da Faculdade de Direito (nesse concurso, que virou um acontecimento e atraiu a atenção de estudantes e intelectuais, curiosos em ouvir o historiador revolucionário em uma instituição tão tradicional, ele foi preterido como titular e obteve a livre-docência).

A Revista foi concebida com o intuito de congregar escritores e estudiosos de assuntos brasileiros interessados em examinar e debater os nossos problemas econômicos, sociais e políticos”6 e contou com a participação de intelectuais do centro à esquerda, de várias tendências do espectro político nacional. Foi um verdadeiro desafogo democrático. A lista de colaboradores era imensa. No conselho diretor, nomes como Sérgio Buarque de Holanda, Edgar Cavalheiro, Elias Chaves Neto (que era o diretor responsável), João Cruz Costa, Eudoro Berlink, Sérgio Milliet, Álvaro Dias, Nabor Caíres de Brito, Fernando Henrique Cardoso, Heitor Ferreira Lima, Paulo Dantas e Paulo Alves Pinto.

Caio Prado Jr. escreveu em praticamente todos os números da revista – foram 52 –, sobre assuntos diversos: conjuntura política nacional e internacional, a presença de capital estrangeiro no Brasil, política econômica, nacionalismo, questão agrária, além de resenhar livros. Fez uma oposição cerrada aos governos de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart.

Além das questões políticas imediatas, a Revista abria espaço para discussão do movimento estudantil, da crise universitária, do socialismo e do comunismo. Também eram abordadas questões culturais: literatura, pintura, arquitetura, teatro e cinema. Hoje, ela é fonte inestimável para pesquisas sobre o período histórico brasileiro, entre 1955 e 1964. Com o Golpe Militar de 1964, a última edição da Revista foi apreendida pela polícia e destruída na gráfica Urupês, e Caio Prado Jr. voltou a ser detido.

O PCB E A REVOLUÇÃO BRASILEIRA
Uma característica importante da personalidade de Caio Prado Jr. era sua independência intelectual: ele nunca se submeteu a sectarismos. Mesmo sendo um militante exemplar no PCB, como reconhecia o líder histórico do partido, Luís Carlos Prestes, a divergência era constante e foram inúmeras as polêmicas. O historiador, no entanto, sempre manteve suas críticas no âmbito da discussão política. Ele sabia que não tinha prestígio nem influência e se sentia marginalizado – sempre fora um militante de base – e atribuía isso à sua maneira de interpretar o Brasil, discordando dos dogmas oficiais do partido.

ATRÁS DAS GRADES

De 1935 a 1937, Caio Prado Júnior ficou detido no presídio Maria Zélia, em São Paulo, e depois foi transferido ao Presídio do Paraíso, na mesma cidade. Antes de ser preso, Caio Prado estava atuando como militante da ANL (Aliança Nacional Libertadora) de maneira praticamente profissional, discursando em diversos estabelecimentos. No cárcere, escreveu a lápis dois diários políticos em pequenos cadernos de brochura, em que anotava e resumia as notícias que lia nos jornais. Em 1937, aproveitou um momento de relaxamento do governo de Getúlio Vargas e, por meio de um habeas-corpus, saiu da cadeia e se exilou na França, onde ficou até 1939, quando voltou a São Paulo.

O Golpe de 1964 abalou profundamente as esquerdas brasileiras. Certamente, os movimentos de esquerda e as lideranças não haviam avaliado bem a situação do País no governo Jango. Alguém precisava ter coragem de fazer uma análise profunda do que tinha dado errado. Em 1966, Caio lançou o livro A revolução brasileira, no qual apontava os erros teóricos do PCB e acusava os comunistas de não conhecerem a realidade brasileira. Foi uma bomba: era uma análise incisiva demais, uma crítica duríssima, e os comunistas ficaram perplexos. O livro foi amplamente discutido em reuniões clandestinas por estudantes, intelectuais e operários.

Um dos problemas levantados, pelo qual ele se bateu, foi a questão agrária no Brasil. Era tese do PCB que o Brasil era um país semifeudal, o que, para o historiador, era um absurdo. Anos mais tarde, ele diria em uma entrevista ao jornal Estado de S. Paulo: “Não se trata de uma questão acadêmica, mas de um fato concreto muito importante para se traçar uma orientação política. Para o PCB estávamos vivendo em um país semifeudal, que precisava, portanto, de uma revolução democrático-burguesa para acabar com essa situação. A meu ver, tudo isso é fantasia, mesmo porque há particularidades chocantes para demonstrar esse fato”. Além da polêmica, o livro lhe rendeu o troféu Juca Pato, como intelectual do ano, concedido pela União Brasileira de Escritores. Ainda hoje, distantes do calor dos acontecimentos, historiadores e cientistas sociais discutem a propriedade das teses e conceitos do autor.

CAIO PRADO JÚNIOR OU 30-K-33, PARA O DOPS
Em 1968 o governo militar baixou o Ato Institucional nº. 5 (AI-5) e a ditadura recrudesceu. Caio Prado Jr. se preparava para o concurso para a cátedra de História da Civilização Brasileira da Faculdade de Filosofia da USP, tendo redigido a tese História e desenvolvimento. O titular da cátedra era Sérgio Buarque de Holanda, que ia se aposentar e insistiu para que Caio assumisse seu lugar – os dois eram amigos, o respeito e a admiração eram recíprocos. Mas o concurso foi anulado e o título de livre-docente do historiador foi cassado.

Caio Prado Jr. era fichado no DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social, depois transformado em DEOPS – Departamento Estadual de Ordem Política e Social) desde os anos 1930, quando iniciou sua militância política. Sua identificação era 30-K-33. Além de ter sido vigiado grande parte da vida, ele era com freqüência detido. Parece que, entre as medidas repressoras de vários governos autoritários em momentos de crise, uma delas era prender Caio Prado Jr.

Em 1968 não foi diferente. Dessa vez, a acusação era a de incitar estudantes à guerra e à subversão e ele foi indiciado num Inquérito Policial Militar (IPM). O historiador dera uma entrevista a uma revista do Grêmio da Faculdade de Filosofia da USP, que serviria como “a prova do crime”. Em um primeiro momento, ele se exilou no Chile, onde já estavam outros refugiados políticos, mas acabou voltando ao Brasil e se apresentando à Justiça Militar. Caio Prado Jr. foi condenado a quatro anos e seis meses de prisão. A condenação gerou espanto e indignação entre intelectuais brasileiros, europeus e latinoamericanos. O jurista Heleno Fragoso, em sua Apelação ao Superior Tribunal Militar, expressou esses sentimentos ao afirmar: “A condenação brutal de Caio Prado Júnior trouxe a todos os que neste país amam e servem à justiça profunda perturbação e desalento.

Dir-se-ia que a injustiça chegou aqui a seus últimos limites e a proporções alarmantes, que os tempos conturbados que a nação atravessa só fazem ressaltar. Essa sentença iníqua, que lembra bem os processos deploráveis que nos países totalitários se fazem contra escritores por delitos de manifestação do pensamento, apresentou nosso país perante todo o mundo como se fosse uma tirania, onde ter opinião constitui gravíssimo crime”7

DEPOIS DO CÁRCERE, MUITA PRODUÇÃO
Caio Prado Jr. foi libertado em agosto de 1971. Estava separado de sua segunda esposa e havia perdido o filho caçula, que se suicidara no ano anterior. Era preciso reorganizar a vida e retomar suas atividades. Ele voltou a escrever, além de organizar a publicação de artigos. Na cadeia, havia redigido O estruturalismo de Lévi-Strauss, o marxismo de Louis Althusser, em que analisava as concepções estruturalistas que julgava retrógradas e deformadoras do marxismo. O livro foi publicado em 1971.

Redigiu também um post scriptum para o História econômica do Brasil, em 1976. Retomando a análise que havia feito da situação econômica do País, ele criticou, embasado em dados sobre as conjunturas nacional e internacional, o “milagre econômico” brasileiro da década de 1970, e previu a iminência de uma “situação gravíssima”, que “será o resultado de uma inconseqüente política econômica – em termos das reais necessidades do País e da massa de seu povo.

A questão agrária no Brasil, uma coletânea de artigos que escrevera na Revista Brasiliense, saiu em 1979. Na década de 1980, publicou O que é liberdade e O que é Filosofia, ambos os textos extraídos de livros anteriores. A cidade de São Paulo, geografia e história, reunião de textos escritos nos anos 1930 e 1940, foi publicado em 1983. Esse livro, aliás, nos remete às histórias sobre as incursões do autor pela cidade ao lado do geógrafo francês Pierre Deff ontaines, que viera lecionar Geografia na recéaines, que viera lecionar Geografia na recnalm-criada USP, e que lhe ensinou a ver o meio físico e, principalmente, a entender a relação entre o meio físico e o trabalho humano.

O prazer de Caito em olhar a cidade era enorme e ele tinha o hábito, que manteve enquanto a saúde permitiu, de andar de bicicleta por toda parte, em passeios de reconhecimento. Ele também retomou sua vida social e as viagens de que tanto gostava. Em 1974, voltou a se casar, dessa vez com Maria Cecília Naclério Homem. Durante a década de 1970, sua filha Danda estava exilada em Paris e ele passava longas temporadas na cidade.

Na vida pessoal, o intelectual era um homem discreto e de hábitos regulares, que sempre se manteve ligado à família.

Assim como para a família, para os amigos próximos ele era Caito, mas companheiros de partido só o conheciam como Caio: nas conversas era uma mistura curiosa de nomes. Na vida pessoal, o intelectual era um homem discreto e de hábitos regulares, que sempre se manteve muito ligado à família. Tinha uma inesgotável curiosidade por tudo o que acontecia ao seu redor, adorava conversar e, principalmente, debater assuntos que julgasse controversos. Em 1988, Caio foi agraciado com o Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia, conferido pelo Ministério de Ciência e Tecnologia e pelo CNPq (área de Ciências Humanas), mas já não tinha condições de recebê-lo pessoalmente e sua filha Danda o representou na cerimônia de entrega do prêmio. Caio Prado Jr. morreu em 1990, depois de vários anos de luta contra o Mal de Alzheimer.

Em um discurso proferido em 1967, ao receber o troféu Juca Pato, ele havia falado sobre a função do intelectual: “Refiro-me ao intelectual atuante, ao homem de pensamento que não se encerra em torre de marfim, e daí contempla sobranceiro o mundo. E sim aquele que procura colocar o seu pensamento a serviço da coletividade em que vive e da qual efetivamente participa. E é justo o critério que norteia a concessão do prêmio Juca Pato, pois é sobretudo de homens de pensamento, que seja também homens de ação, que o Brasil necessita.

E necessita hoje mais do que nunca, neste momento que vivemos, quando parecem coincidir um máximo de necessidades e aspirações do povo brasileiro, a exigirem amplos horizontes e perspectivas, com o projeto, bem marcado e abertamente proclamado pelas atuais forças dominantes no País, de limitar aquelas perspectivas e encerrá-las na tutela de um estreito horizonte”. É possível vislumbrar aí, por suas próprias palavras, quem foi Caio Prado Jr.: um homem de pensamento e de ação.

REFERÊNCIAS

WIDER, Maria Célia. Caio Prado Jr. – um intelectual irresistível. São Paulo, Brasiliense, 2007
SECCO, Lincoln. Caio Prado Júnior – O sentido da evolução. São Paulo, Boitempo, 2008
IUMATTI, Paulo Teixeira. Caio Prado Jr.: uma trajetória intelectual. São Paulo, Brasiliense, 2007

MARIA CÉLIA WIDER nasceu em Petrópolis, em 1965. Formou-se em jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalhou como jornalista em Petrópolis e no Rio de Janeiro. Em 1988, mudou-se para São Paulo, onde reside até hoje, e passou a dedicar-se à literatura. É autora dos livros Alguém viu passar uma Imaginação? (Brasiliense, 2007) e Caio Prado Jr.: um intelectual irresistível (Brasiliense, 2007).

Fonte: Portal Ciência e Vida - http://sociologiacienciaevida.uol.com.br

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Darcy Ribeiro e a questão da terra

“reforma agrária não é problema, é a única solução” disse ele, em 1996
Os excertos abaixo apresentados foram retirados de Nepomuceno, Eric, organização e apresentação, Darcy Ribeiro, Crônicas Brasileiras: 2009, Editora Desiderata, Rio de Janeiro, pg. 37-50, crônicas publicadas no jornal Folha de S.Paulo, entre agosto de 1995 e fevereiro de 1997.

A primeira crônica, de 28 de agosto de 1995, foi dedicada a Florestan Fernandes, pois Darcy Ribeiro estava sucedendo Florestan naquela coluna das segundas-feiras.
“Sangue”, 29 de abril de 1996:
“Até quando se continuará sangrando o povo brasileiro para manter, intocável, o latifúndio improdutivo? Esta barbaridade se funda num privilégio inexplícito da Constituição Brasileira, que é a regalia abusiva de deixar a terra improdutiva por força dos direitos de propriedade. Com efeito, cerca de 20 mil grandes proprietários expulsaram dezenas de milhões de brasileiros do campo e os continuam expulsando, com base nesta legalidade desumana.
O que querem é preservar o seu direito de não plantar e nem deixar ninguém plantar na imensidão de terras que monopolizam. Impedem, desse modo, que se assentem num pé de chão milhões de famílias que só assim poderiam trabalhar, alimentar seus filhos e vender excedentes. É tolice pensar que a Reforma Agrária se deva fazer para aumentar a produtividade da terra. Isto é tarefa dos fazendeiros. A função dela é ocupar as massas de trabalhadores rurais ou rurificáveis da única forma em que eles podem ser inseridos na economia como produtores e consumidores. A alternativa é deixá-los morrer de fome ou forçá-los a se revoltarem na condição assumida de sem-terras para tomar o que de direito é deles. Como está sucedendo.
É totalmente impossível qualquer Reforma Agrária séria, por desapropriação de terras, nas condições em que isso se faz no Brasil. Simplesmente não temos dinheiro para custear a negociata em que se converteu a Reforma Agrária. O que cumpre fazer, imperativamente, é reverter ao domínio público as terras concedidas em qualquer tempo para usar e que não são usadas. Revogando-se aquele direito implícito de não usar e não deixar usar a terra. Essa é a única forma que existe de dar trabalho e perspectiva de prosperidade a milhões de famílias brasileiras submetidas ao desemprego, à violência e à fome. (…)”
“Recado, sem data:
“Isso aqui é um recado para meus amigos sem-terra e para meus amigos com-terra.
Vocês são protagonistas de uma luta histórica que se tivesse ocorrido um século atrás o Brasil não estaria agora afundado na crise de desemprego e fome que mata o nosso povo.
Os sem-terra do sul do Pará são a versão brasileira dos pioneiros norte-americanos que se ve no filme de faroeste indo para os Parás de lá. Foram com a garantia de que se fizessem uma roça e um rancho e lá vivessem por cinco anos poderiam demarcar 30 hectares de terra como propriedade da família. Graças a esta institucionalidade, os Estados Unidos construíram sua prosperidade com base em milhões de granjeiros. Nossa institucionalidade, ao contrário, concede terras de dezenas de milhares de hectares a latifundiários que apenas podem utilizá-la para se enriquecerem. Eles são os assassinos reais de Eldorado dos Carajás. (…).”
“Terra”, 9 de outubro de 1995:
“O que se chama Reforma Agrária é tão só a revisão da lei fundiária, vigente no Brasil há um século e meio. Lei que não reconhece o direito de posse, como ocorre na América do Norte, mas consagra os poderes burocráticos e cartoriais de esbanjar as terras públicas. O desafio que enfrentamos é reformar essa lei (…).
A Constituição de 1946 determinava que nenhuma propriedade com mais de 10 mil hectares podia ser registrada sem autorização prévia e expressa do Senado. Mas o Senado nunca piou sobre esta matéria. (…)
A única luta ativa contra esse despautério, que é o responsável principal pela fome e pelo desemprego em que se estiola nosso povo, é a ação dos grupos extralegais, mas legítimos, dos sem-terra, que invadem terras incultas.
(…) os sem-terra resolverão o problema. Engrossados pelas massas urbanas, ainda ruralizáveis, eles são a força irresistível de que necessitamos para meter o povo na história do Brasil.
Dizem os idiotas que não adianta fazer Reforma Agrária, porque sem muita assistência técnica e muito subsídio o pequeno lavrador não conseguirá nada. É mentira. Onde prevalece a pequena propriedade, o povo come mais e vive melhor. A função da pequena propriedade é dar emprego aos milhões de desempregados. É dar segurança e alegria à maioria das famílias brasileiras, para produzirem o que comem, vendendo barato as sobras.”
“Os Com-Terra”, 15 de janeiro de 1996:
“(…) Nunca tão poucos latifundiários infecundos – cerca de 20 mil – desgraçaram a vida de tantos milhões de brasileiros ao longo de tantos séculos. Estes com-terra vivem em boas casas, são gente educada, instruída e bem nutrida, cujo negócio não principal, mas secundário, é especular com a terra. Os sem-terra somam milhões de miseráveis, ignorantes, atolados nas fazendas, nas favelas e nas periferias, condenados ao desemprego e suas seqüelas: a fome, a droga e a violência.
A existência e a reprodução ampliada dessas massas espoliadas, ano após ano, sempre na mesma penúria, condena o Brasil ao atraso autoperpetuante em que vivemos afundados. Até quando?”
“Reforma Agrária é Solução”, 27 de setembro de 1996:
“O sistema econômico que estão implantando no Brasil tem duas características remarcáveis. Ambas tão intrínsecas a ele que são inarredáveis, apesar de sua evidente inconveniência social. A primeira delas é sua propensão desempregatícia, agravada pelo dogmatismo dos que formulam e executam nossa política econômica, mais atentos a doutrinas que a coisas. A segunda característica é sua arraigada irresponsabilidade social, que faz seus gestores indiferentes aos danos que causam, por mais dolorosos que sejam.
Em conseqüência desses imperativos de uma política econômica que pretende alcançar o progresso para o povo brasileiro, ainda que o faça matando-o, uma profunda revolução social está ocorrendo debaixo de nossos olhos. É o Movimento dos sem-terra, que se avoluma cada vez mais, com o apoio da opinião pública e que realiza, no mundo das coisas, a Reforma Agrária que discutimos no mundo das idéias há mais de um século. Sempre considerada indispensável, mas também irrealizável por nossa impotência para reformar uma estrutura latifundiária imposta pelos donos de metade do Brasil.
O MST conseguirá em breve assentar em lotezinhos de vinte a trinta hectares 200 mil famílias. Mas o mínimo necessário para fazer face ao desemprego imposto pelo sistema econômico é de um milhão de famílias, que reivindicam o simples direito de trabalhar com suas mãos numa terra sua, para dar de comer a seus filhos e livrá-los da criminalidade e da prostituição.
As famílias já assentadas custaram muito dinheiro ao governo pelo medo que ele tem dos latifundiários, que obrigam cada desapropriação de terras improdutivas a se fazer como uma negociata altamente lucrativa para seus supostos donos. O preço global das desapropriações necessárias, se feitas pelos critérios presentes, alcançará somas astronômicas, que o governo não terá como custear.
A compulsão de pagar altos preços por terras em situação de ilegalidade, porque incultas, se deve também à institucionalidade fundiária brasileira (…). Deve-se também à estreiteza da justiça ordinária, que não sabendo como tratar essa matéria, mais facilmente aprova espoliações de recursos públicos por razões formais do que atende ao reclamo de milhões de brasileiros.
Tudo isso ocorre dentro de uma situação já conflitiva e que tende a sê-lo cada vez mais. Agora não se poderá convocar as Forças Armadas para matar lavradores, mas as polícias públicas e particulares já o estão fazendo valentemente e, se seus mandantes não forem contidos e punidos com energia, se generalizará a matança.
Recordo aqui que a Reforma Agrária não é problema. É a única solução que se oferece para o mais grave desafio brasileiro, que é ocupar e dar emprego a milhões de pessoas que estão sendo excluídas e marginalizadas pelo sistema econômico.”

Fonte: Pibloktok - http://pibloktok.blogspot.com/

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A monocultura que vai terminar na pobreza

Paulo Mendes Filho

Uma cidade, Encruzilhada do Sul. Uma monocultura, eucaliptos. Uma situação insustentável. Miséria, favelas, pobreza e desilusão que tende a piorar. Basta conhecer, observar e conversar com as pessoas, com os agricultores e as agricultoras familiares do município para perceber o que está em curso.

A monocultura dos eucaliptos modificou a paisagem, a economia e principalmente a estrutura social do município. Indo lá, vendo e conversando, observamos que a invasão dos capitalistas está desequilibrando rapidamente a paisagem da região e a estrutura social e econômica da cidade.

Quem ainda não vendeu suas terrinhas e insiste em ficar, convive com as visitas dos desesperados animaizinhos que fogem da invasão. São mulitas, mão-pelada, gato-do-mato, ratões e capivaras famintos que devoram tudo que veem pela frente. As plantações, os maciços estão cada vez mais absorvendo a paisagem e desalojando tudo que ali existe. As matas ciliares estão cercadas e desprotegidas pela baixíssima possibilidade de alguém conferir se está dentro ou não da lei ambiental.

Falando em lei, a conversa é de que existem dois pesos e duas medidas. A dureza da lei ambiental para os agricultores e a moleza para os empresários da monocultura. Tudo remando a favor dos novos senhores da terra, da energia e da água. Tudo a favor para que os resistentes e teimosos agricultores tradicionais e os ecochatos abandonem suas terras e suas ideologias a favor do império.

O poder público propagandeando empregos de papel e sinalizando impostos que serão sonegados, apóia o projeto de olho nas contribuições de campanha. A adesão individual de alguns técnicos do poder público também é observada.

Uma invasão de poucos e grandes empresários que está sendo facilitada e apoiada estrategicamente pelo governo Yeda e por vários governantes municipais. Incentivando politicamente o plantio. Recebendo recursos das empresas. Facilitando créditos. Modificando o zoneamento ambiental da silvicultura. Desestruturando a Fepam e a Emater (Extensão Rural) e permitindo a prática do fato. Encontra-se em curso a maior ocupação de terra do Rio Grande do Sul por parte de um único grupo. Um verdadeiro império!

Uma verdadeira Encruzilhada ou quem sabe uma grande Cruzada rumo ao poder concentrado da energia, da água e da terra. É disso que estamos falando. A expansão de um único dono em mais de um milhão de hectares com a destruição de comunidades rurais, deslocamento de famílias inteiras para a favelação nas cidades e a concentração de poder. Esta nova situação vai influenciar por anos a vida da sociedade gaúcha. A mesma sociedade que é desrespeitosa com a luta de milhares pela Reforma Agrária abre as pernas para a invasão de uma única empresa que vai aumentar a violência das cidades.

A busca pela energia (pasta de celulose), a terra (poder estratégico) e água (Aquifero Guarani) faz com que a invasão tome conta de tudo rapidamente. Não há tempo a perder. Planta logo que o poder garante.

Em nossas barbas, está se estruturando o MAIOR IMPÉRIO do século XXI. Uma dominação que vai influenciar gerações futuras. Que vai excluir milhões de pessoas e vai concentrar poder e capital para poucos. Uma dominação sem precedentes que trará a insustentabilidade do nosso Estado.

Fonte: MST - http://www.mst.org.br/mst/index.html

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Filmes de guerrilha

Fernando Masini

Os atores Badu e Betty Faria em cena de "Os Monstros de Babaloo", de Elyseu Visconti

Coleção reúne as principais obras do Cinema Marginal, como os de Elyseu Visconti, que fala sobre o movimento e sua carreira

Um encontro com o cineasta Rogério Sganzerla em 1999 fez com que o produtor Eugênio Puppo levasse adiante um sonho antigo: reunir a turma do Cinema Marginal e correr atrás dos filmes que sobreviveram ao tempo. A iniciativa esbarrou na relutância dos diretores ainda vivos em retomar um assunto enterrado e no descaso com a conservação desses filmes, que marcaram época na passagem dos anos 70 no Brasil, quando o Cinema Novo perdia suas forças.

Entrou em cena no país um cinema anárquico, que passou a ser chamado "de invenção", cheio de referência ao modernismo oswaldiano e à chanchada nacional. Que usava pouco dinheiro para criar personagens irreverentes, debochados e prontos para esculhambar o que viesse pela frente. Chegou a cativar o público, com sucessos como “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), rodado por Sganzerla como um manifesto, hoje considerado um dos precursores do gênero.

Puppo vasculhou as prateleiras da Cinemateca Brasileira, foi atrás de colecionadores de filmes antigos e marcou encontros com os protagonistas daquela época: Sganzerla, Ozualdo Candeias, Andrea Tonacci, Carlos Reichenbach, entre outros. “Comecei a me dar conta de que havia pouca coisa disponível. Conseguimos com os próprios diretores algumas cópias baleadas em VHS”, diz Puppo. Muitas cópias encontradas na Cinemateca eram de preservação e havia um limite para exibi-las.

Mesmo assim, foram organizadas mostras em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, com mais de 40 filmes em cartaz, que deram um belo recorte da época. Obras muito raras foram apresentadas, como “Caveira, My Friend” (1970), de Álvaro Guimarães. “Foi uma das nossas maiores descobertas. Era um filme que ninguém tinha visto. Achamos uma cópia na casa de um amigo dele, perto de uma farmácia”, conta Puppo.

Para completar o projeto, acaba de ser lançada em DVD uma ampla coleção do Cinema Marginal que contará com 38 filmes, entre curtas e longas-metragens. A parceria é da Heco Produções e da Lume Filmes. A primeira fornada, já disponível, traz quatro discos, divididos por autor, com os clássicos “Bang Bang”, de Andrea Tonacci, “Sem essa, Aranha”, de Rogério Sganzerla, “Meteorango Kid”, de André Luiz Oliveira e “Monstros de Babaloo”, de Elyseu Visconti.

Trópico fez uma longa entrevista com Elyseu Visconti, 70 anos, a fim de entender a explosão criativa que tomou conta dessa geração de jovens cineastas e ouvir histórias de um período conturbado que obrigou essa turma a escapar dos limites da realidade para fazer cinema. Muitas vezes, colocando dinheiro do próprio bolso na produção.

“Eu nunca dependi da Embrafilme. Nós fazíamos filmes com recursos próprios. Julio Bressane vendeu uma quantidade inimaginável de terrenos para começar a fazer o trabalho dele”, conta. O longa “Monstros de Babaloo”, estreia de Elyseu Visconti nos cinemas, ficou dez anos preso na censura, a mando do regime militar. Só foi liberado em 1980.

A dificuldade de filmar levou Visconti a desviar o rumo de suas produções e fazer incursões pelo interior do país. Virou um documentarista preocupado com as manifestações culturais do povo brasileiro. Teve como mestres e parceiros de pesquisa o antropólogo Gilberto Freyre e o folclorista Câmara Cascudo. Rodou uma série de registros etnográficos, como “Boi Calemba” (1979), sobre a festa do boi-bumbá no norte do país.

Ao falar sobre a rivalidade entre Cinema Novo e Cinema Marginal, Visconti tem um detrator na ponta da língua. “Glauber Rocha nos chamava de fascista só porque a gente tinha amizades em São Paulo, com o pessoal da Vera Cruz. Temos que desmistificar o Glauber, ele não passa de um deputado baiano”, dispara. Mas ele também lança seus dardos contra os filmes brasileiros atuais: "Hoje o cinema é uma cópia das novelas, mal influenciado pelo cinema americano. O cinema brasileiro se transformou numa agressividade banal".

Conte um pouco como nasceu o Cinema Marginal?

Elyseu Visconti: O início foi uma experimentação. A gente fazia cinema comunitário, um ajudava o outro e havia uma sintonia grande. Começamos desse jeito: o Rogério Sganzerla, o Julio Bressane, o Neville d’Almeida, o Andrea Tonacci. Eu fazia parte do grupo que produzia no Rio de Janeiro. Foi uma leva muito interessante, que trazia a rivalidade com o Cinema Novo, com o cinema acadêmico, partidário. O nosso era o cinema do olho, o "cinema vérité" (cinema verdade, idealizado pelo documentarista francês Jean Rouch nos anos 60).

Já o Cinema Novo é uma cópia mal feita do Neorrealismo italiano. Toda ideologia e mensagem do Cinema Novo trazem muito do espírito do movimento italiano. Pegue, por exemplo, "Deus e Diabo na Terra do Sol" (1964), de Glauber Rocha. Tudo ali está no cinema de Francesco Rosi, braço direito do Luchino Visconti. Um de seus filmes é o "O Bandido Giuliano" (1962). Há uma grande influência do bandido nos cangaceiros; no personagem Antônio das Mortes, criado pelo Glauber.

O Cinema Marginal deixa de lado esse engajamento político do Cinema Novo?

Visconti: Não. O cinema que fizemos tem engajamento político dentro do valor estético. Havia a intenção de romper com todo o processo de linguagem do cinema brasileiro. Nós fazíamos os filmes com recursos do nosso próprio bolso. Eu nunca dependi da Embrafilme (instituição criada em 1969 para promover e divulgar o cinema nacional). Julio Bressane também não. Só Rogério Sganzerla conseguiu uma grana ali. A Embrafilme só nos prejudicou, porque havia censura da própria instituição, nos roteiros, nos argumentos.

O seu primeiro filme, “Os Monstros de Babaloo” (1970), sofreu com a censura?

Visconti: Foi boicotado por dez anos pelo regime militar. Quem liberou depois o filme foi o Ricardo Cravo Albin, do Concine (Conselho Nacional de Cinema). Meu segundo filme, “Lobisomem, Terror da Meia-Noite” (1971) ficou preso na censura burocrática da Embrafilme. “Barão Olavo, o Horrível” (1970), do Julio Bressane e “Copacabana Mon Amour”, do Rogério Sganzerla, também foram barrados.

O pessoal da Embrafilme não dava o certificado de produto nacional ao filme para que ele fosse exibido. Era obrigatório, por lei, o filme ter esse certificado. Eles acusavam que a gente estava rodando com filme vencido, que tecnicamente as fotografias eram péssimas. Imagina só: um dos melhores fotógrafos do Brasil, o Renato Laclete, estava na ativa naquela época. O Renato era um físico nuclear que largou tudo para fazer cinema. É um excelente fotógrafo.

“Lobisomem” foi seu segundo e último longa-metragem de ficção.

Visconti: Tenho outro que não está terminado. Chama-se "A Mulher do Calcanhar de Mármore". A protagonista sai do mar para enfrentar o Carnaval no Rio de Janeiro. Foi filmado durante minha viagem para a Índia, Paquistão e Ceilão. Quem interpreta é a atriz Gracinha Motta. Não foi finalizado porque eu não tinha mais dinheiro e houve um problema político muito grande comigo na época. Mas eu ainda guardo esse material e vou retomar o projeto.

Quando os filmes foram censurados, na década de 70, nós éramos muito amigos de Golbery do Couto e Silva (general e um dos principais mentores da ditadura militar). Telefonamos para ele, o Golbery esculhambou a Embrafilme e mandou soltar os filmes retidos. Depois de mais ou menos dois anos, eu consegui lançar o “Lobisomem” com muita dificuldade. Trouxe o filme para São Paulo e negociei um lançamento em Santos. Foi uma complicação danada. O Serviço Nacional de Informações (órgão de espionagem da ditadura) correndo atrás da gente.

Armei um esquema de segurança para o lançamento. Tinha um distribuidor na rua do Triunfo, na Boca do Lixo, em São Paulo, que me ajudou muito. Outro filme lançado na época foi o “Matou a Família e foi ao Cinema” (1969), do Julio Bressane. Foi exibido no cinema Candelária, em Belo Horizonte. Eu estava junto com ele. A reação do público foi formidável: quebraram o cinema, foi uma bagunça só.

Houve protestos da TFP (Tradição, Família e Propriedade). Lembro que tinha uma multidão na sala, umas mil pessoas, e o choque da polícia teve que invadir. O proprietário do cinema desapareceu, e eu fiquei escondido na sala de projeção, debaixo das latas de filme. Chegou um general baixinho, que parecia uma fera, e mandou prender o filme. Na verdade, a gente já esperava por isso.

O que o regime militar alegava ao prender os filmes?

Visconti: Eles não entendiam a nossa mensagem. Achavam que aquilo era anárquico. E era mesmo. Aos poucos, os filmes eram liberados. “Os Monstros de Babaloo”, por exemplo, foi aliviado porque fazia uma referência ao Médici.

Que tipo de filme a Embrafilme endossava?

Visconti: O que saía da panelinha formada pelo produtor Luiz Carlos Barreto e o exibidor Lívio Bruni. Eles distribuíam os filmes que eram produzidos com dinheiro do Banco Nacional, de Minas Gerais, do José Luís Magalhães Lins, muito ligado a esse pessoal.

Quando chegou a vez do Rogério lançar “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), no Rio de Janeiro, eles boicotaram o filme. Encontrei o Rogério num boteco e falei: “Rogério, nós vamos lançar esse filme nem que chova canivete”. Um dos sócios do Lívio Bruni, dono de mais de 300 farmácias no Rio, era meu amigo e topou tocar o projeto adiante. O Rogério mostrou toda a documentação, e ele comprou o filme, passou o cheque na hora.

Isso pressionou o Bruni a lançar o filme. Na calada da noite, conseguimos exibir “O Bandido da Luz Vermelha”, em Copacabana, no Bruni, na mesma sala onde também foi lançado em 1962 “Porto das Caixas”, de Paulo César Saraceni. Foi um momento histórico do cinema brasileiro, porque ninguém esperava pelo lançamento. Não houve nenhum problema com a polícia.

Você considera “O Bandido” o precursor do Cinema Marginal?

Visconti: É o início de tudo. O filme voltou com a linguagem do cinema tradicionalista. O pessoal da velha guarda -Anselmo Duarte, Walter Hugo Khouri- gosta muito do trabalho do Rogério.

Por outro lado, o pessoal do Cinema Novo esculhambava o Cinema Marginal. Glauber Rocha chegou a panfletar em Londres contra o nosso cinema, quando os filmes do Bressane foram exibidos lá. Rogério não deixava por menos. Ele tomou conta da coluna do Rubem Biáfora, no "Estado de S. Paulo", e escreveu metendo o pau no Cinema Novo. Fazia crítica analítica, estudando o processo de linguagem e comparando as estéticas, a fotografia…

Havia uma rivalidade muito grande entre Cinema Marginal e Cinema Novo?

Visconti: Glauber nos chamava de fascista só porque a gente tinha amizades em São Paulo com o pessoal da Vera Cruz, com o produtor Primo Carbonari. Imagina você que loucura. Eu que fiz guerrilha na antiga Tchecoslováquia, fui preso politicamente, raptei o embaixador norte-americano Charles Elbrick e fiquei incomunicável durante sete meses.

E o Glauber acusando a gente de fascista. É um desprezo total. Temos que desmistificar o Glauber, ele não passa de um deputado baiano. É uma diarréia cinematográfica. Talvez em “Terra em Transe” (1967) ele tenha trazido alguma contribuição, mas tudo cunhado para o Partido Comunista internacional. Só houve críticas de jornalistas que eram ligados ao partidão.

Quer dizer que você não concorda com o mito criado em cima do Glauber Rocha?

Visconti: De maneira nenhuma. Discordo também de o filme “Câncer” (1972) fazer parte dessa coleção do Cinema Marginal. “Câncer” teve dinheiro dos jornais da Bahia, de deputados. Glauber era muito amigo do Juracy Magalhães, um coronel fascista, governador da Bahia.

Isso tudo vinha em conflito com o nosso cinema. O dinheiro de produção era tirado do nosso bolso. Julio Bressane vendeu uma quantidade inimaginável de terrenos para começar a fazer o trabalho dele. Filmava em seguida, na Belair (produtora fundada em 1970 em parceria com Rogério Sganzerla). Quem não estava na patota do Cinema Novo, era fascista.

O Luiz Paulino dos Santos, baiano formidável, foi perseguido pelo Glauber na Bahia e abandonou o cinema. Agora, ele está vivendo no sul de Minas Gerais, tomando Santo Daime. Ele fez um filme fantástico, “Crueldade Mortal”, com música do Baden Powell. É um filme que precisa ser recuperado.

Muitos filmes dessa época sumiram?

Visconti: Muitos negativos desapareceram. Foram procurar, por exemplo, uma cópia do “Deus e Diabo na Terra do Sol” na Cinemateca Francesa. O “Carnaval na Lama” (1970), do Rogério Sganzerla, que eu editei, também sumiu. Você fazia o filme e ficava na prateleira. Muitos filmes não foram nem exibidos. É importante que agora o Eugênio Puppo esteja levantando tudo isso.

Como foi seu início no cinema?

Visconti: Estudei na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio, durante quatro anos. Desenhava com Abelardo Zaluar e fui aluno de gravura de Oswaldo Goeldi. Em casa, meu pai e minha mãe pintavam, e até a empregada pintava. Era uma loucura. Comecei a fazer estágio no Herbert Richers, em 1959. Fazia documentários, algumas chanchadas, reportagens. Dali, eu fui para o departamento de cinema da TV Rio. Era a época do Walter Clark. Consegui uma bolsa para a França e fiquei três anos lá fazendo escola de cinema para televisão.

Era um momento cultural muito efervescente na França, com a Nouvelle Vague.

Visconti: O ministro da cultura era André Malraux, uma figura genial, revolucionária. Tirou dinheiro do Ministério da Cultura para criar o Cinema Vérité, com o Jean Rouch. Dali, eu fui para a Itália. Tive contato com Pier Paolo Pasolini, Luchino Visconti e Roberto Rossellini. Depois fiz um filme sobre o nazismo na Tchecoslováquia.

E como surgiu o interesse pela cultura nacional, que resultou na realização de vários documentários?

Visconti: Quando "Os Monstros de Babaloo” e “Lobisomen” ficaram presos na censura, eu me auto-exilei no interior do Brasil e comecei a fazer o trabalho de antropologia visual. Antes, eu fiquei depondo no Dops uma semana, sendo investigado. Eles perguntaram sobre a minha origem, minha formação, se eu pertencia a alguma célula comunista, anarquista. Eles não entendiam nada de cinema.

Aí eu fui embora para o interior do país. Comecei a filmar grandes procissões em Bom Jesus da Lapa, à margem do rio São Francisco. Depois eu fiz “Ticumbi” (1978), no Espírito Santo, e “Feira de Campina Grande” (1979). E passei um tempo aprendendo com o Gilberto Freyre. Ele me ajudou muito, foi meu professor. Mais tarde, fui para o Rio Grande do Norte e encontrei Câmara Cascudo, um sábio. Ele me orientou muito nas pesquisas e na antropologia daquela região. Participou dos meus filmes “Boi Calemba” (1979) e “Pastoril” (1982).

Você não voltou a fazer ficção depois disso?

Visconti: Fiz vários roteiros. Um deles com o Luiz Rosemberg, chamado “Capitão Radar contra Paraty, a Cidade do Ouro”. Levei o roteiro para o Luiz Carlos Barreto, para o pessoal do Cinema Novo produzir. E o que eles fizeram? Pegaram o roteiro, chuparam até a última gota, e o Antônio Calmon fez o “O Capitão Bandeira contra o Doutor Moura Brasil” (1971).

Como foi a filmagem de “Os Monstros de Babaloo”?

Visconti: Nós realizamos “Os Monstros” em três ou quatro dias. Enquanto isso, o Julio Bressane fez em dois dias o “Barão Olavo” (1970) na minha casa, no meu estúdio em Teresópolis. Esse jeito ágil de produção é praticamente um trabalho de guerrilha. Em Niterói, encontrei um lugar incrível para rodar “Os Monstros”, no subúrbio, em Alcântara. Muita coisa foi filmada no Rio também. O filme foi rodado em preto e branco para dar a característica do horror. Nós gastamos o que seria hoje uns R$ 3 milhões. Eu paguei todo mundo: Betty Faria, Zezé Macedo, Wilza Carla…

O filme é muito influenciado pela chanchada e pelo cinema erótico.

Visconti: Zezé Macedo é uma caricatura da própria chanchada no filme. Ela foi a rainha da chanchada. É uma figura genial, é o nosso Totó de saias. Era uma grande poetisa. Estava sempre na rádio Nacional, no programa "Bom Bril, Gente que Brilha", na década de 40, recitando suas poesias. Era minha companheira.

No final do filme, tem uma sequência especial de chanchada com ela. A letra da música inclusive é da Zezé. Eu batizei a personagem dela de Frineia, que é a mulher mais bonita da Grécia. A Zezé, depois das operações plásticas, virou um monstro. Há também o aspecto da gula, da comilança, da sensualidade. É o cinema do traste, do horror, do mau gosto. Não é Nelson Rodrigues, pelo amor de Deus. Eu sou oswaldiano.

Hoje em dia o que você tem feito?

Visconti: Eu sou artista plástico. Faço gravuras e continuo desenhando até de madrugada. Pretendo levar uma exposição para a Alemanha. São desenhos expressionistas. Tenho também uma fase impressionista, de paisagens. Estou preparando vários projetos para cinema.

Tenho o roteiro pronto de “Eldorado”, baseado no livro de Couto Magalhães, o primeiro antropólogo do Brasil. Estou vendo se entro em coprodução com a França. Pretendo rodar também “A Sonâmbula”, uma ópera do Rossi. Este filme será rodado no Rio, na Serra dos Órgãos, no Tibete, em Nova York, em Paris e no lago Constance, na Alemanha.

Estou trabalhando também o roteiro de “Laços de Fita”, um conto do Guimarães Rosa. A locação será na beira do rio São Francisco. E preparo também um trabalho sobre a família Visconti, desde a Idade Média até o século 21. Eu não deixo cair a peteca na parte da antropologia visual, isso é importante e está em todos os meus projetos.

Hoje o cinema é uma cópia das novelas, mal influenciado pelo cinema americano. O cinema brasileiro se transformou numa agressividade banal.

Fonte: Trópico - http://p.php.uol.com.br/tropico

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Anistia a crimes de evasão de divisas

FAUSTO MARTIN DE SANCTIS

A anistia sugerida não beneficiaria nem enalteceria a sociedade, a não ser os que apostaram num caminho fácil e covarde.

UM PROJETO de lei aprovado pela Comissão de Finanças da Câmara dos Deputados, a ser votado em plenário, com solicitação do deputado José Mentor (PT-SP) para que a Comissão de Constituição e Justiça não o analise, e um outro projeto de lei, este do senador Delcídio Amaral (PT-MS), que seguirá diretamente à Câmara sem passar pelo Senado, permitem a repatriação de valores no exterior mediante o pagamento de 10% a 15% a título de tributação, anistiando o crime de evasão de divisas e de sonegação fiscal.
Tal medida não se aplicaria aos valores fruto de tráfico de drogas, terrorismo, pornografia infantil, corrupção e outros. Além disso, há previsão de registro na Receita Federal com a garantia do anonimato.
Qualquer medida desse porte exige intensa discussão com a sociedade. A anistia constitui verdadeiro esquecimento jurídico de uma ou mais infrações penais e só deve ser admitida em casos excepcionais.
A justificativa econômica apresentada (o retorno ao país de bilhões de dólares) em hipótese alguma legitima a medida. Ao contrário, subverte valores indispensáveis à comunidade e permite a seus filhos menos probos a oportunidade de contribuir com valores ilícitos e de maneira desigual.
A questão econômica ganha realce num país que historicamente defende preceitos universais, até mesmo em oposição a países tidos como imperialistas.
A anistia, dado seu alcance, retroage para apagar até o crime cometido no passado, extinguindo sua punibilidade, ainda que exista sentença penal condenatória irrecorrível.
Assim, mesmo que alguém esteja condenado definitivamente, será alcançado pela medida. Sua importância é tal que a Constituição Federal determina que somente o Congresso Nacional possui atribuição para sua concessão.
Dizer que ela não se destina a valores decorrentes de graves crimes parece constituir mero pretexto diante do ultraje às pessoas de bem. Como poderá a autoridade prever que tais quantias não são fruto de graves delitos, inclusive hediondos, cuja concessão de anistia é vedada pela Constituição Federal?
Surpreende a tentativa de aprovação sem debate efetivo, prejudicando os que não investiram no exterior suas economias e apostaram no país, em respeito às leis nacionais.
Pagar tributos é o custo de viver em uma sociedade civilizada. A não legitimidade da medida parece indiscutível, pois ela privilegia os mais abastados que, por motivo exclusivamente pessoal e de risco, aplicaram seus recursos fora do Brasil, ocultando-os das autoridades brasileiras.
A garantia de anonimato mostraria excessiva preocupação. Em outras palavras, como num passa-moleque, os valores retirados da sociedade são "legitimamente" devolvidos. Trata-se de aplicação inconteste do princípio da desigualdade.
Que dizer a nossos filhos que este país, que se diz democrático, faz com que as pessoas honestas sintam-se envergonhadas pelos que driblam sistematicamente a lei e sempre obtêm os beneplácitos estatais, cujo aparato parece estar constituído, paradoxalmente, para assegurar o direito de minorias abastadas?
O pleno exercício das liberdades públicas requer, de um Estado verdadeiramente de Direito, a efetivação de valores supremos, como a igualdade e a justiça. Será que a tal anistia não comprometeria a obediência cívica, estimulando a repulsa às instituições democráticas?
Esta terra há de merecer de seus representantes conduta que corresponda à nobreza de seu povo. Não se pode invocar determinada medida que salvaguarde um momento ou um grupo pequeno e seleto, o que pode comprometer o modelo social eleito.
Tratar abrupta medida com a naturalidade com que vem sendo apresentada, como mais um mecanismo legítimo, não resiste a uma análise adequada, uma vez que se apresenta com embasamento puramente econômico, insuficiente, até porque a lei, a expressão real de um povo, deve se constituir em medida que aperfeiçoe a sociedade em que vivemos.
A anistia sugerida não beneficiaria nem enalteceria a sociedade, a não ser os que apostaram num caminho fácil e covarde.
A quem realmente deseja regularizar situação ilícita bastaria realizar espontaneamente o retorno de seus valores, admitindo erros do passado, caso em que não faltará boa vontade dos órgãos estatais para equacionar da melhor forma sua situação. O direito ao arrependimento não estaria, nunca, inviabilizado.
Nenhuma ordem jurídica pode se sustentar se confiscados direitos democráticos básicos como a igualdade e a justiça social.

FAUSTO MARTIN DE SANCTIS é juiz federal titular da 6ª Vara Federal Criminal em São Paulo, especializada em crimes financeiros e em lavagem de dinheiro.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo - http://www.uol.com.br

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Abandono de locais históricos reflete desleixo com São Paulo

GABRIEL BRITO

No início de setembro deste ano, o Correio veiculou matéria que tratava das enchentes que assolaram São Paulo no retorno do feriado da Independência. Em questão, estavam os fatores responsáveis pelos transtornos causados pela chuva, refletidos dramaticamente no trânsito da cidade e registrando mortes por deslizamento de terra.

Um dos pontos centrais destacados foi o corte de verbas públicas para limpeza e varrição, algo muito repercutido por todos os veículos de comunicação. Apesar do aparente recuo do prefeito Gilberto Kassab ao avisar que descongelaria alguns gastos previstos em tais serviços, a situação pouco mudou e São Paulo continua coalhada de pontos repletos de sujeira ao ar livre.

Tradicional centro comercial e urbano, a região do Brás é uma das que mais sofrem com o abandono do poder público em seu entorno, concentrando lixo a céu aberto e toda sorte de entulhos. Conforme atestam fotos enviadas pelo leitor Marcos Anghinoni, uma enorme praça situada ao lado da Av. Prudente de Morais e da estação Brás de trem e metrô está completamente ao relento, situação que já se verifica há anos no local.

"A situação é péssima. Barro, lixo de toda espécie, fezes de animais, indigentes, forte odor de urina humana, comércio ilegal de alimentos e cigarros em grandes quantidades de origem duvidosa, sendo muito mal iluminada à noite, quando trabalhadores descem dos ônibus fretados e têm que cruzar a praça para se dirigir à escada rolante de acesso à estação", contou.

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Inconformado com a situação, Anghinoni já reportou o quadro aos devidos entes públicos, quais sejam, a Secretaria Municipal de Saúde e a Subprefeitura da Mooca, que engloba a região em sua jurisdição. Sua mensagem chegou ao ouvidor da saúde, Mario Sergio Mendes Cardoso, que também a encaminhou para a respectiva subprefeitura. Por ora, nenhuma providência foi tomada.

A estação Brás é parte remanescente da histórica linha "Ingleza", como se chamava popularmente a linha férrea da São Paulo Railway, construída em 1867 para ligar Santos a Jundiaí, sendo um dos pontos marcantes da expansão vivida pela cidade no início do século passado. Atualmente, cerca de 300 mil pessoas passam todos os dias por ali, para trabalhar nas incontáveis lojas e comércios, inclusive e maciçamente ambulantes, da região.

No lado oposto da estação, indo em direção ao famoso Largo da Concórdia, o que se vê já é um ambiente mais razoável e transitável, apesar da impressão de abandono causada por diversos galpões e ruas esvaziadas. Na página da subprefeitura da Mooca, hospedada no website da municipalidade, informa-se que o bairro "vem assistindo amplo projeto de revitalização impulsionado e implantado pela subprefeitura".

"Há o fato agravante de estas condições estarem ao lado de uma creche municipal, a CEI Vereador Nazir Miguel, onde as mães têm de passar com suas crianças, a maioria de colo, pelo local, que além de tudo é descoberto. Incluo ainda a questão da emissão do monóxido de carbono pelos ônibus, aspirado por adultos e as crianças mencionadas", completa Anghinoni.

Tendo sido diminuída a verba pública para limpeza de 948 milhões de reais para 765 milhões nesse ano, a pressão e participação popular nos assuntos de interesse direto da vida cotidiana continuam sendo o melhor caminho para uma cidade mais agradável e respirável.

Gabriel Brito é jornalista.

Fonte: Correio da Cidadania - http://www.correiocidadania.com.br/

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A morte de Deus na faixa de GAZA

Onde está Deus agora que o mundo materialista sofre, de novo, com mais uma guerra.

Eduardo Oyakawa

Quando nos jardins do Éden o homem exultava em harmonia com todos os outros seres que o enlaçavam e o completavam em inefável entendimento, Deus parecia um desses pais alegres ao ver sua criança brincar feliz no primeiro raio de sol, pela manhã ou na dourada tarde consumando o dia. Profundo era o diálogo entre Deus e o homem porque ambos se reconheciam em cada palavra, em cada escuta, nos gestos, nas pausas necessárias e reconfortantes do silêncio, em cada manifestação de encontro naquele jardim fundado em Cáritas, sob o signo do amor. Havia a cumplicidade entre criador e e criatura.

Se Deus inspirasse o seu espírito na seiva das frutas ou nas águas que verdejavam as plantações, imediatamente o homem se servia daquele presente não apenas para restituir vida à sua própria vida, mas, principalmente, para participar como convidado de honra daquele milagre celestial, aonde fome e saciedade significavam a mesma coisa.Não cabe aqui, no espaço deste artigo, repetir o enredo no qual se decretou o sombrio exílio do homem, pois todos conhecem o enredo suficientemente. Perdido em seu infinito orgulho, o ser humano caminha agora pelo mundo aprisionado por uma natureza desdivinizada, indiferente, impiedosa e cruel. Tornado um ser natural como todos os outros entes à vista, ele constrói sua própria história de zênites e ruínas, celebrando príncipes e reinos, elaborando sua complexa ciência, fundando suas artes, inventando as leis e a política.

Atribuindo à razão o desafio supremo de explicar o mistério de um mundo que ele presume ser o coração de sua gloriosa autonomia e suficiência, o ser humano auto proclama-se homo sapiens. Entretanto, lá no âmago de sua alma, o homem sente-se estranhamente incompleto e ainda que procure preencher o vazio existencial com fáceis e desmedidos aplausos ao seu ego e a sua força e poder, ele sempre incide no mesmo erro: embriagar-se de uma tola vaidade que o leva a aprofundar-se reiteradamente nos abismos do desterro.

Comentou o célebre ‘Baal Shem Tov’: "assim como uma pequena moeda mantida sobre a face pode impedir-nos de ver uma montanha, assim podem as vaidades da vida impedir-nos de ver a luz infinita…" Eis a terrível solidão da criatura no exílio: estar cego para a sua precária e risível condição de dependência da luz criadora! Mas, se esta solidão é o resultado das penas intrínsecas de quem habita um mundo dessacralizado, vivido como saudade infinita, o quê dizer da solidão divina?

A solidão de Deus é um recolhimento, uma separação, um afastamento do mundo humano. Parece que ele escondeu-se na última nuvem, dando as costas ao projeto humano de suficiência e autonomia. É como se ele dissesse: "Pois bem, ja que não precisam de mim, então que vivam sem a minha presença". Os santos místicos do judaismo e do cristianismo pensam que não, ao contrário, para estes homens piedosos e devotos, Deus precisa do homem tanto quanto a bela composição musical precisa das fugas do silêncio ou a noite, das estrelas que a iluminem…

Neste sentido é possivel dizer que o ser humano é a glória de Deus, que ele precisa do homem para reconhecer-se em sua própria criação. Mas, onde ele se refugiou neste mundo materialista e tecnológico em que vivemos? O messias, dizem os místicos, vive quase invisível entre nós, irreconhecível, trajando roupas simples, morando em lugares ermos e terríveis como a faixa de GAZA…

Não poucas vezes ele habita os corações dos doentes e marginalizados, dos humilhados da terra, dos injustamente encarcerados nos manicômios e prisões. Deus é sensível à angustia inaudível dos jovens nas danceterias e nos prostíbulos. Ele se apieda ate às lagrimas por uma sociedade que renega seus velhos à indigência moral e humana. Ele é o estrangeiro que nos pede ajuda e a quem viramos a face soberbamente. Mas, por que o messias repousa no rosto daqueles que são os ultrajados do mundo e da sociedade?

Como notou Agostinho a doença é a condição do homem religioso, na medida que este percebe que a saúde e a riqueza, a exuberância e a alegria advém da graça divina, e os ricos e poderosos são incapazes de reconhecerem esta contingência da cáritas, do amor, pois estão em estado de sono profundo, alienados pela vaidade da carne e do espírito. Portanto, só se pode reconhecer Deus no mundo, cuidando de seus filhos mais necessitados, provendo-lhes o milagre cotidiano de uma refeição decente, de um trabalho honesto e digno, dando-lhes hospitais, escolas e moradias.

Em nossa época marcada por um extremo individualismo, aonde os seres humanos se transformam em egos gigantescos, buscando sucesso e celebridade, onde a ganância é aplaudida como qualidade plenamente justificável neste mundo, olhar para os pequeninos parece ser uma tolice, um cinismo intolerável. Curiosamente, somente através deles, Deus pode escapar da sua celestial solidão e nos visitar para prometer uma outra vida transfigurada e renovada para além dos antidepressivos, dos suicídios e das guerras.

Em GAZA não matamos apenas covardemente crianças inocentes, matamos a esperança de Deus em nossa própria humanidade.

Fonte: Portal Ciência e Vida - http://sociologiacienciaevida.uol.com.br

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Por uma antropologia fundamental

Hilário Franco Júnior

O filósofo René Girard, que tem nova obra lançada no Brasil, busca uma teoria completa da cultura humana.

A trajetória intelectual de René Girard, conhecido entre nós graças à tradução de seu "A Violência e o Sagrado" (Paz e Terra/Unesp, 1990), é atípica. Apesar de eleito para a Academia Francesa em 2005, talvez goze de menos prestígio no seu país natal do que nos EUA, onde se doutorou e lecionou por décadas. Arquivista e paleógrafo de formação, ele viria a desenvolver uma teoria geral da cultura fundada no diálogo com a crítica literária, a antropologia, a psicanálise, a sociologia, a história, a filosofia, o darwinismo.

No princípio da carreira, opondo-se ao esteticismo literário então em voga, estudou no campo do romance –sobretudo em Proust, mas também em Cervantes, Stendhal, Flaubert e Dostoievski– as relações internas do triângulo sujeito-modelo-objeto, no qual detectou o mecanismo que chama de desejo mimético. Quer dizer, aquele centrado não nas qualidades do objeto desejado, e sim no fato de ele ser desejado por alguém tomado como modelo.

Por essa hipótese, o desejo não se dá pelo contato direito entre sujeito e objeto, e sim pelo contágio das relações humanas, de maneira que aquilo que é chamado de diferença é rivalidade mimética na qual “cada um ocupa sucessiva e depois simultaneamente todas as posições e não existem mais posições distintas”.

Transpondo a seguir essa análise para textos antigos, especialmente da tragédia grega, ele verificou que a “mimese de apropriação” ou desejo de possuir o objeto do outro, está na origem da “crise mimética” que envolve toda a sociedade e pode conduzi-la à sua própria destruição. Esta é evitada, contudo, pela descoberta de um mecanismo que cria maior coesão social. A violência (coração e alma do sagrado) e a imitação (sem a qual todas as formas culturais desapareceriam) escapam da circularidade da vingança ao serem concentradas sobre uma única vítima expiatória.

Com tal procedimento a sociedade humana é introduzida na esfera do sagrado, e com esta surge a cultura. Tais ideias estão expostas em amplo painel –uma dezena de livros, várias dezenas de artigos– de forte unidade interna, no qual cada nova publicação alarga, aprofunda, matiza ou corrige elementos anteriormente apresentados. De "Mensonge Romantique et Vérité Romanesque" (1961) até "Achever Clausewitz" (2007), a obra de Girard constituiu-se em círculos concêntricos, conjunto fortemente articulado que ele denominou “antropologia fundamental”.

Isto é, aquela que pretende superar as limitações que atribui a outras áreas do conhecimento. Contra o estruturalismo, com o qual concorda que as relações são mais importantes que os objetos, Girard insiste sobre o fato de toda relação pressupor o desejo, o que explica por que toda oposição repousa sobre uma identidade profunda entre os oponentes, cada um vendo no outro não apenas um rival, mas ao mesmo tempo um modelo.

Unidade profunda

Contra a psicanálise, observa que nela Édipo aparece já estruturado sem que seja explicada a emergência dessa estrutura, daí a necessidade de uma “dinâmica desestruturante”. Contra a tendência moderna de eleger objetos de estudo estreitamente recortados, Girard busca a unidade profunda, “uma teoria completa da cultura humana que vai se delinear a partir desse único princípio”, pois “a pesquisa científica é redutora, ou ela não é nada”.

A esse mosaico surpreendente, algumas vezes brilhante, algumas vezes excessivamente especulativo, peças importantes foram acrescentadas ou refinadas pelo livro de 1978 que acaba de receber tradução brasileira: "Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo".

Ele é estruturado como um diálogo com dois psiquiatras, Jean-Michel Oughourlian e Guy Lefort, na tentativa de tornar a exposição da teoria de Girard mais clara e mais ágil. Objetivo atingido apenas em parte. De um lado, porque não há uma verdadeira troca de ideias, os interlocutores quase sempre servem apenas de “escada” para que o autor responda a certas objeções feitas por terceiros e precise determinados pontos de sua teoria.

De outro lado, porque as inúmeras referências à etnologia e às sociedades arcaicas com frequência não estão fundadas em dados empíricos, deixando o texto em alto nível de abstração. O título do livro –sem ocultar certa presunção– é uma citação do texto bíblico (Mateus, 13,35), que de acordo com a interpretação de Girard alude ao assassinato fundador. Ou seja, a crucifixão de Jesus teria destruído o “mecanismo do bode expiatório” que se baseia na culpabilidade da vítima sacrificada. A inocência de Jesus desnudou a “mentira” dos mitos de forma que “os Evangelhos subvertem a ilusão universal e instauram uma nova era na história da humanidade”.

A função central do Cristo foi ter revelado a origem violenta da humanidade ao expor o próprio mecanismo vitimário. É sua mensagem que leva cada indivíduo a se reconhecer como perseguidor, e assim a renunciar à violência. Argumentação atraente, contudo viciada. Jesus era inocente apenas para quem acreditava nele. É bastante discutível afirmar que os Evangelhos “tornam os sacrifícios sangrentos detestáveis a nossos olhos. Eles destroem para sempre o religioso arcaico”.

Será? Não é do próprio sacrificado a afirmação de que “toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo” (Mateus, 7, 19)? Não foi em nome disso que por séculos hereges foram queimados? Que muçulmanos foram massacrados nas Cruzadas? Que judeus foram eliminados em pogroms medievais, modernos e contemporâneos?

Faceta mítica

Os Evangelhos, diz Girard, têm uma faceta mítica sem serem mitos, já que identificam e denunciam a ilusão dos perseguidores: “se os Evangelhos fossem mitos, em vez de condenar os linchadores, seria a vítima que eles condenariam”. Todavia, o autor reconhece que tanto no relato da Paixão quanto nos mitos anteriores o bode expiatório é divinizado.

Quer dizer, os Evangelhos são, sim, um mito, construído a partir do olhar do grupo favorável ao sacrificado enquanto os relatos anteriores revelam o olhar do grupo sacrificador. O que mudou entre as versões é que uma se define pela negatividade (condenar) e outra pela positividade (divinizar). A diferença não é mítica, é ideológica, é a existência de uma vítima condescendente com seu papel de vítima. Funcionalmente nada muda, a sociedade é salva pelo sacrifício, consentido ou não.

Enfim, o livro é não poucas vezes polêmico, em certas passagens de leitura pesada, em outras de argumentação pouco convincente, mas inegavelmente carrega a marca das grandes obras –colocar em xeque “verdades” inercialmente aceitas, apontar novos caminhos, instigar a reflexão.

Fonte: Trópico - http://p.php.uol.com.br/tropico

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Mosquito transmissor pode ajudar a combater a malária

Ao estudar genomas de mosquitos, um grupo de pesquisadores identificou diferenças no modo em que um gene único é expresso, que determinam se um mosquito pode ou não transmitir parasitas de malária. Alguns deles são capazes de matar os próprios parasitas da malária, enquanto outros são condenados a transmiti-los.

O estudo foi publicado na edição desta sexta-feira (2) da revista "Science", em artigo de Stephanie Blandin, do Laboratório Europeu de Biologia Molecular (EMBL) e do Instituto Nacional de Saúde e da Pesquisa Médica (Inserm), da França, e colegas.
Os pesquisadores combinaram estudos de interferência de RNA com o amplo mapeamento do genoma do Anopheles gambiae para mostrar que um único gene em mosquitos infeccionados com parasitas de malária exprime uma determinada proteína, chamada TEP1, de modo diferente dentro de populações dos insetos. E essas diferenças determinam se os parasitas de malária serão mortos ou não pelas próprias respostas imunes do mosquito ou se serão transmitidos a um novo hospedeiro.
Os autores analisaram vários níveis da expressão do gene TEP1 em mosquitos e observaram como eles afetaram o parasita de malária de roedor,Plasmodium berghei.
Os resultados indicam que a expressão TEP1 - e a ação de qualquer gene adicional que influi na proteína - é o que determina o destino desses parasitas da malária em roedores. Segundo a "Science", os resultados podem resultar no desenvolvimento de novos instrumentos para controlar a transmissão de malária no futuro.
"Os parasitas de malária passam parte de suas vidas no interior de mosquitos e outra parte dentro de seres humanos. Portanto, ao aprender como os mosquitos resistem à malária, podemos encontrar novos instrumentos para controlar a sua transmissão a seres humanos em áreas endêmicas", disse Stephanie.
Segundo os autores, embora o estudo tenha se concentrado no parasita que causa a malária em roedores, há evidência que o gene TEP1 também pode estar implicado na resposta imune dos mosquitos à malária humana - uma conexão que os cientistas estão explorando e que acreditam poder ajudar no desenvolvimento de programas de erradicação de malária mais efetivos.

Fonte: Portal Ciência e Vida - http://sociologiacienciaevida.uol.com.br

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República plena, não. Democrática, menos ainda

Aos 120 anos do regime, se falta rigor com o bem comum, sobra desprezo pelos pobres.

Renato Janine Ribeiro

O centenário da República foi uma efeméride importante. Naquele ano de 1989, o Brasil realizou suas primeiras eleições presidenciais em quase 40 anos. A Constituição tinha sido aprovada um ano antes - a mais democrática de nossas quatro Constituições republicanas, isto se excluirmos as outorgadas em 1937 e 1969, que não podem ser consideradas nem Constituições nem republicanas, não passando de atos de força. O ano também marcava o bicentenário da Inconfidência Mineira, nossa mais lembrada rebelião contra o poder colonial, e da Revolução Francesa, que efetuou na história do mundo o corte cirúrgico, repentino, datado, maior da História (outras mudanças, inclusive a descoberta da América, só ao longo dos anos foram revelando sua radicalidade). Duas décadas depois de seu centenário, o que dizer hoje da República, agora já aos 120 anos de idade?
A rigor, os primeiros cem anos da República foram fortemente deficitários em valor… republicano. Tivemos 40 anos de governos fraudulentos e oligárquicos, a que se seguiram 15 anos de ditadura ou quase. Nosso único período democrático ocorreu entre 1945 e 1964. Nesse último ano, porém, começou nova e longeva ditadura. Em outras palavras, nos primeiros cem anos da República tivemos liberdades democráticas no percurso que vai da queda de Vargas ao golpe militar, e desde o fim da ditadura castrense. Somando, dá 23 anos em 100. Já os últimos 20 anos foram, todos, de liberdade política. Em outras palavras, passamos de um porcentual temporal de 20% para outro de 100% de democracia. O avanço é impressionante. Se continuarmos assim, o segundo século de república vai esmagar, em qualidade, o primeiro.
Resta muito, é verdade, em termos de ética. Não se sabe se aumentou a corrupção ou se perdemos a ingenuidade e aumentou nossa percepção da corrupção, mas a sociedade passou a considerá-la inaceitável (o que acho um avanço), porque contraria frontalmente o espírito republicano, que defende a res publicacontra a apropriação privada do que a todos pertence. Contudo, a indiferença das lideranças no Congresso e em especial no Senado à opinião pública, a censura imposta ao Estado por um magistrado, fatos reiterados essa semana, são casos que fazem muitos se decepcionarem com a política e os políticos e, não fosse a falta de ambiente para um golpe militar, não sei se o regime civil se sustentaria facilmente.
Usei democracia e república, aqui, como sinônimos, embora a rigor não o sejam . Democracia é o poder do povo, e supõe que tenham poder os polloi, os muitos, em suma, os pobres. Quase toda democracia tem, por definição, preocupação social, porque os pobres são a maioria e, assim, escolhem quem governa. O populismo pode ser um excesso, um exagero, uma forma específica, mas toda democracia tem de mostrar um empenho em melhorar a condição dos mais pobres. Já a república é um regime que se define, a rigor, não pelo modo de eleição do governante, mas por sua preocupação com a coisa pública, com o bem comum. A democracia é quente, entusiasma (e irrita), enquanto a república é fria, racional, jurídica. Aliás, por isso tudo, uma monarquia pode ser mais republicana do que um regime no qual um general se proclame presidente, sem eleições e às vezes com um mandato vitalício.
A grande pergunta, então, que se torna ainda mais pertinente depois da queda do comunismo (isso porque ele parecia ter vindo para ficar; parecia ter trazido ganhos, ainda que a alto custo; e foi-se embora como uma página que a História apaga, como um erro, como algo que se quer esquecer), é: a Proclamação da República em 1889 foi um ganho para o Brasil? ou uma perda? A pergunta é ainda mais pertinente porque, a rigor, Pedro II poderia ser dito mais empenhado na res publica do que muitos de nossos presidentes. Mas está claro que é difícil responder. Na dimensão do tempo, o que acontece não pode ser comparado com o que poderia ter acontecido. Ao se tomar um caminho, inibe-se o outro - inibe-se até mesmo saber o que seria o outro. Mas é fato que o imperador respeitou mais a liberdade de expressão do que os presidentes da República Velha, e que no Parlamento do Império - em que pese suas eleições serem manipuladas - não se chegou ao nível de fraude que envergonha as primeiras décadas republicanas. Se coroada imperatriz, d. Isabel I certamente teria mantido a tradição que seu pai iniciara, de afastar-se dos partidos. Seria plausível abolir o poder moderador, tornar eleito o Senado, em síntese, ampliar de dentro as liberdades políticas. Uma evolução à inglesa seria possível - porque em 1889 fazia apenas meio século que a rainha Vitória subira ao trono e transformara a desmoralizada e agonizante monarquia britânica numa instituição respeitada, exemplar, e ela o conseguira justamente ao se afastar das disputas políticas, que ficaram com os eleitos do povo.
Terá nossa República sido, então, um retrocesso, como afirmou desde o início Eduardo Prado? Se afirmá-lo é impossível, porque esse caminho foi inibido historicamente, é porém duvidoso negá-lo, quando comparamos as últimas décadas do Império e as primeiras do novo regime. Mas isso, precisamente porque o ideal republicano foi o que menos existiu no governo fatiado entre as oligarquias. A autonomia das províncias, reivindicada contra o centralismo imperial, reduziu-se a uma federação de déspotas locais. Não houve mais uma figura respeitada - que, talvez por feliz acaso, coincidiu com um imperador ilustrado - capaz de atenuar a temperatura dos conflitos. Nossa história, aliás, quase toda escrita já na recentralização do poder que recomeça em 1930, costuma omitir as guerras civis internas aos Estados, que devastaram o Rio Grande do Sul e o Nordeste.
No entanto, vivemos agora o primeiro período consistentemente republicano de nossa história. Sob a vigência da Constituição de 1946, apelos a golpes e rebeliões militares foram frequentes. O presidente Vargas foi levado ao suicídio. Juscelino, cuja gestão foi mais democrática e tolerante que todas as anteriores, enfrentou uma sucessão de movimentos armados. Quando renunciou Jânio Quadros, o quarto presidente eleito de nossa história (porque não considero eleitos os da República Velha, em que prevalecia a desonestidade eleitoral), seu vice, Goulart, só tomou posse depois de ser devidamente mutilado em seus poderes pela emenda parlamentarista. Teve paz apenas nosso primeiro presidente eleito, Dutra, talvez por ser oficial general.
Já na fase ininterruptamente constitucional que vivemos desde 1985, que começou com a Nova República, o presidente Collor só foi destituído após o devido processo legal. As liberdades de expressão, de organização e de voto, apesar de enfrentarem dificuldades nos primeiros anos pós-ditatoriais, se consolidaram. Pela primeira vez em nossa história, o povo elegeu um presidente de esquerda e ele governa sem problemas que sejam enormes. O protagonismo popular aumenta. Até o que foi pouco ético - a aprovação de uma emenda constitucional instituindo a reeleição para beneficiar quem foi eleito sob regras que a proibiam - acabou tendo um resultado benéfico, com 16 anos seguidos de estabilidade sob partidos opostos.
Regimes políticos são formatados aos poucos. Quando uma Constituição é redigida, ainda não se sabe em que vai dar. Se George Washington e Thomas Jefferson não se tivessem contentado com dois mandatos presidenciais, a história dos Estados Unidos seria diferente. Se FHC ou Lula não tivessem podido se reeleger, não teríamos tido presidentes capazes de construir consensos - um diferente do outro, mas não diferente demais - que estruturaram a política brasileira. Talvez, agora, entremos na era dos gerentes. Talvez o próximo presidente não tenha esse fôlego de líder. Mas foi bom esse período, até porque, curiosamente, perfis pessoais tão diferentes - o intelectual e o metalúrgico - granjearam ambos um respeito mundial pelo presidente do Brasil.
Quinze anos atrás, sugeri que estaríamos vivendo algo parecido à 3ª República Francesa. A primeira (1793) foi turbulenta e morreu logo depois do Terror. A segunda (1848) durou meros três anos. A terceira (1875), alternando o centro-direita e o centro-esquerda, consolidou a instrução universal, a valorização dos salários dos trabalhadores, o respeito às instituições. Hoje a Presidência se alterna no Brasil entre dois partidos, um que tende à esquerda e outro à direita, mas ambos gravitando rumo ao centro. Isso evita a polarização excessiva, pelo menos em âmbito federal, fortalece o diálogo político, permite consensos eventuais, mesmo que não sejam explícitos. É verdade que nossa educação continua uma lástima e os avanços nessa direção - a definição de instrumentos de avaliação que permitem medir o que falta e o que pode ser feito, a convergência entre PSDB e PT sobre a necessidade e mesmo os meios de melhorar a educação - não apagam o fato de que ainda não se vê luz no fim do túnel. E é certo que nossa Previdência Social e a renda dos mais pobres continuam insuficientes para cobrir as despesas básicas. Ou seja, nosso balanço institucional e político é bem melhor que o nosso saldo social. Estamos melhor em república do que em democracia, se entendermos, como disse acima, que na democracia o conteúdo social é de sua essência. Aí, sim, falta muito.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo - http://www.estadao.com.br

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Ninho de epidemias

Grupo acha influenza entre pinguins na Antártida; região entra na lista de potenciais berçários de cepa agressiva.

EDUARDO GERAQUE

O pobre pinguim é cuidadosamente agarrado. Depois, tem um cotonete enfiado em sua traqueia e outro na cloaca pelo pesquisador insensível em busca de material de trabalho. Mas pior que o método é o diagnóstico: em plena Antártida, o pinguim está com o vírus da gripe.
"Temos a primeira evidência de que o influenza está circulando entre pinguins na Antártida", diz Edison Durigon, da Universidade de São Paulo. Um dos principais virologistas do país, Durigon coordena um grupo de caçadores de vírus perigosos que monitora aves e mamíferos desde a Amazônia até as ilhas subpolares.
Seus novos dados, ainda não apresentados à comunidade científica, indicam que a presença do influenza nesta região é alta. "Entre 8% e 10%", em uma população investigada de cem bichos, diz o cientista. Normalmente, em outras comunidades de aves já analisadas longe do continente gelado, a ocorrência do mesmo vírus costuma girar ao redor de 1%.
Em tese, pinguins com o vírus da gripe na Antártida não deveriam ser motivo de preocupação, ainda mais quando o Brasil está no meio de uma pandemia de influenza H1N1 que já matou mais de 400 seres humanos. Essas aves, afinal, estão confinadas ao oceano Austral -diferentemente dos pinguins do litoral argentino, que migram para o Brasil todo ano e que também tiveram diagnóstico positivo para o vírus.
Para completar, nenhum dos pinguins antárticos "gripados" estudados pelo grupo da USP teve sintomas da doença.
O problema é que a população humana na Antártida só aumenta, tanto por causa dos cientistas quanto devido ao crescimento do turismo na região. Só no verão de 2008/ 2009, quase 40 mil turistas visitaram o continente, segundo dados da Iaato (Associação Internacional de Operadores de Turismo na Antártida).
Isso, somado ao fato de que diferentes linhagens de influenza gostam de trocar genes entre elas -o que às vezes produz vírus mais agressivos-, monta um cenário potencialmente maléfico, possivelmente transformando a Antártida em um ninho de vírus e em mais uma região a merecer atenção redobrada das redes internacionais de monitoramento do vírus influenza.
Quem passou para quem?
Os dados que emergem agora do estudo dos pinguins de Adélia, de papua e de barbicha, espécies mais comuns no litoral da península Antártica -onde os brasileiros fazem pesquisas-, criam interrogações na cabeça dos virologistas.
A primeira pergunta é de onde os vírus vieram. Segundo Jansen Araujo, pesquisador do grupo de Durigon, os estudos feitos até agora não permitem afirmar com certeza quem está passando o vírus para quem, nem que tipo de influenza está em circulação (se os sazonais humanos ou o H5N1 aviário).
Nas enseadas, os pinguins vivem ao lado de aves migratórias como as skuas e os petréis-gigantes -e as análises das fezes deles também deram positivo para o influenza-, além de mamíferos, como elefantes marinhos e lobos marinhos.
A questão a ser respondida a partir de agora é complexa.
São as aves marinhas -os petréis-gigantes, por exemplo, migram por milhares de quilômetros em um ano- que levam os vírus de outras partes do mundo para a Antártida e, consequentemente, transmitem-nos aos pinguins? Ou são os turistas e cientistas?
Qualquer que seja o caso, dizem os pesquisadores, uma luz amarela se acende. Como os seres humanos, os pinguins vivem em aglomerações: seus ninhos costumam ter dezenas de milhares de aves, terreno fértil para a propagação de vírus.
"Temos de lembrar que lá é sempre frio, o que ajuda a sobrevivência do vírus", diz Durigon. O contato muito próximo entre aves e mamíferos pode ajudar na gestação de um vírus realmente perigoso no futuro.
Na gripe espanhola, por exemplo, em 1918, estima-se que 50 milhões de pessoas tenham morrido por causa de um vírus H1N1 que saiu das aves para o homem. O problema naquela época, é que o micro-organismo passou a ser transmitido direto entre os humanos, o que ainda não ocorreu, por exemplo, na gripe aviária.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo - http://www.uol.com.br

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Chineses no Rio de Janeiro

A cidade carioca serviu como porta de entrada para os primeiros imigrantes chineses, que chegaram ao Brasil no século XIX para introduzir a cultura do chá e, com o passar do tempo, passaram a se dedicar ao comércio.

SHU CHANG-SHENG

Quando se pensa em imigração de chineses no Brasil, o primeiro lugar que vem à cabeça é a cidade de São Paulo, onde vive a maior colônia chinesa do País. No entanto, foi o Rio de Janeiro, capital brasileira até 1960, que serviu como porta de entrada para esses imigrantes no Brasil. Por ter abrigado a Corte Portuguesa e o início do governo republicano, o território carioca e seu porto foram lugares-chave para os primeiros contatos dos chineses com as terras brasileiras. Comparativamente, apesar de a quantidade desses imigrantes que se estabeleceu no Rio de Janeiro não ter sido tão grande como em São Paulo, suas experiências foram pioneiras, ganhando um sentido referencial para o que seria realizado em outras regiões do Brasil. Além do mais, o Rio de Janeiro foi a primeira cidade brasileira a receber imigrantes chineses no século XIX.

É difícil dimensionar a presença do povo chinês no Brasil devido a problemas de declaração de nacionalidade e imigração irregular. O Consulado Geral da China no Rio de Janeiro calcula que atualmente há 150 mil pessoas no Brasil entre chineses, chineses naturalizados e descendentes - sete mil no Rio de Janeiro, 140 mil no Estado de São Paulo e três mil em Curitiba. Mas outras estimativas chegam a contar uma população em torno de 250 mil, com cerca de dez mil residentes no Rio de Janeiro. Os levantamentos indicam também a capital paulista como o grande centro chinês, com cerca de 90% dessa população. Rio de Janeiro e Curitiba viriam na seqüência do ranking populacional.

No Brasil, assim como no mundo inteiro, a maior parte dos imigrantes chineses tem origem nas três províncias marítimas no sul da China: Guangdong (i.e., Cantão), Fujian e Taiwan. Há muitos séculos, os cantoneses e fujianeses atravessavam os mares para exportar a porcelana, a seda e o chá para a Índia e o mundo árabe (de onde os produtos chineses chegariam à Europa). Ao longo do tempo, assentaram-se no Sudeste da Ásia para fugir das guerras e da falta de alimentos que assolavam o território chinês. Desde o final do século XVIII, os cantoneses e fujianeses já emigravam para a América do Sul (mais especificamente para Cuba e Peru), por meio do tráfico dos coolies (trabalhadores).

OS CULTIVADORES DE CHÁ DO SÉCULO XIX

Os chineses foram os primeiros imigrantes estrangeiros que chegaram ao Brasil no século XIX para trabalhar na agricultura. De fato, o interesse pela mão-de-obra da China já podia ser observado em 1808, quando o Conde de Linhares - título que na época pertencia ao militar Domingos de Sousa Coutinho (1755-1812) - chegou a cogitar a hipótese de trazer dois milhões de chineses como uma maneira de contornar a proibição do tráfico negreiro, que foi imposta pelos ingleses. Uma colônia de chineses foi trazida de Macau para o Rio de Janeiro pelo Governo Real Português, entre 1812 e 1819, de maneira a introduzir a cultura do chá no Brasil. Tratava-se de um projeto econômico estratégico, organizado pelo governo de Dom João VI, estimulado pelo Ministro do Reino, Conde de Linhares - nesse período, o posto era representado por Francisco de Sousa Coutinho Teixeira de Andrade Barbosa (1790-1857), - e protegido pelo Ministro de Guerra e dos Estrangeiros, Conde da Barca - António de Araújo e Azevedo (1754-1817).

O plano foi instituído em 1810 e, dois anos depois, chegaram ao Rio cerca de 300 chineses, além de mudas e sementes de chá vindas de Macau no navio Vulcano. Eram plantadores de ervas da província de Hubei, local famoso pelo chá verde, que foram colocados para trabalhar na fazenda da família imperial, no Rio de Janeiro (que mais tarde veio a ser o Jardim Botânico Real). Em 10 de setembro de 1814, desembarcaram no Porto do Rio quatro chineses cultos (provavelmente mestres do processamento de chá) que foram morar na residência do Conde da Barca. O pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), durante sua primeira viagem ao Brasil, entre 1821 e 1825, documentou a plantação chinesa de chá no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, publicando a gravura em seu livro Viagem pitoresca através do Brasil, cujo texto faz referência a uma colônia de 300 chineses na cidade.

Apesar da boa vontade de ambas as partes, o cultivo de chá pelos chineses foi, de modo geral, considerado um fracasso. Por um lado, o diretor do Jardim Botânico tratava os trabalhadores de forma severa, suspeitando de que eles, propositalmente, mantivessem segredos sobre suas técnicas mais sofisticadas de processamento do chá - o que não era verdade, pois os chineses geralmente bebem chá verde e simplesmente não conheciam os gostos euro-brasileiros, que preferiam tomar o chá preto adoçado com açúcar. Por outro lado, os próprios chineses não aceitaram de forma passiva as condições de servidão dentro da fazenda imperial. Quando dois deles fugiram do Jardim Botânico, o filho de D. João VI caçou-os com cavalos e cães. Muitos outros escaparam em seguida, estabelecendo-se em outros locais da cidade, onde passaram a trabalhar como vendedores ambulantes e cozinheiros. Por volta de 1825, vários chineses registrados com nomes brasileiros já tinham adquirido licença para mascatear. Com o passar do tempo, os plantadores de chá tornaram-se mascates, vendendo nas ruas peixes e pastéis. E por que muitos chineses se tornaram pasteleiros? Era um tipo de comércio que exigia pouco capital e permitia ao vendedor trabalhar sozinho. Coisa relativamente fácil para os que não têm dinheiro e nem falam o idioma da terra.

Em 1881, o Brasil assinou um tratado amplo de "amizade, comércio e navegação" com a China, que proibiu a contratação de mão-de-obra (coolies), visto que os brasileiros proprietários de terras tratariam os trabalhadores como escravos e não como colonos livres. Mas apesar da proibição oficial da China, devido à falta da mão-de-obra, conseqüente da proibição do tráfico negreiro, atividades ilegais do contrabando de cooliesreceberam apoio do governo brasileiro. Em 1882, foi fundada no Rio de Janeiro a Companhia de Comércio e Imigração Chinesa (CCIC), contando com o apoio ativo do governo brasileiro e visando trazer ao País 21 mil trabalhadores. O primeiro grupo de mil chineses foi enviado pela CCIC a Minas Gerais para trabalhar na Companhia Mineradora de São João d’El-Rey, de propriedade britânica, dona da maior mina da América do Sul, a de Morro Velho. Esse grupo confirmou os piores temores do governo chinês: mais da metade deles recusou-se a pôr os pés na mina, e os que aceitaram, fugiram pouco tempo depois.

A possibilidade de emigração seduzia os jovens chineses esfomeados e descrentes das áreas rurais assoladas pelas crises sociais e econômicas

O historiador brasileiro José Roberto Teixeira Leite realizou uma pesquisa nos quatro volumes do Registro dos estrangeiros, publicados a partir de 1960, pelo Arquivo Nacional. O autor notou que os chineses possuiam nomes cristãos e apenas quatro dentre eles tinham conservado seus nomes nacionais - justamente os quatro mestres de processamento de chá, registrados em 1814. Uma explicação para esses fatos é que os proprietários das minas e os fazendeiros impuseram nomes portugueses e cristãos aos coolies, da mesma forma que fizeram com escravos negros. Isso pode ser comprovado pelo fato de que nenhum escravo negro no Brasil conservou seu nome original africano.

OS COMERCIANTES DO SÉCULO XX

De modo geral, com a abolição da escravidão no Brasil, em 1888 (último país a fazê-lo), encerrou- se essa prática como sistema político e o mundo passou a realizar a migração voluntária. Alguns coolies sobreviventes do trabalho forçado também ganharam a liberdade e prosperaram no comércio, montando restaurantes e lavanderias, tornando-se casos raros de sucesso que incentivavam os imigrantes do século XX.

Desde 1900, a maioria dos imigrantes chineses era cantonesa. Dentre muitas histórias de sucesso que circulavam nas aldeias, a emigração ocupava um lugar central como campo de possibilidades. As histórias e fantasias, contadas e recontadas por retornados ("brasileiros" de torna- viagem), emigrados em visitas ocasionais ou por intermédio de cartas enviadas a parentes e amigos, espalharam-se entre os chineses. Por conta dessas narrativas, os jovens esfomeados e descrentes, das áreas rurais assoladas pelas crises sociais e econômicas, embarcaram com a ajuda das redes de apoio e solidariedade nos navios, atravessaram oceanos e chegaram finalmente à capital do Brasil. Os cantoneses mais afortunados tornaram-se donos de estabelecimentos como restaurantes, lavanderias e mercearias. Seguindo essa tradição, os recém-chegados normalmente começavam a trabalhar como empregados em restaurantes, pensões ou pastelarias de parentes e amigos, e após juntar dinheiro ou pegar empréstimos feitos por causa das viagens, montavam seus próprios negócios.

Outra região chinesa cujos habitantes costumavam emigrar para o exterior é a cidade de Qingtian, na província de Zhejiang. Diferentemente dos cantoneses que chegavam ao Brasil desde o século XIX, os qingtianeses começaram a emigrar para o Brasil somente depois de 1911, quando eclodiu a Revolução Republicana na China. Eles voltaram-se basicamente para o comércio e iniciaram sua trajetória mascateando pelas ruas do Rio de Janeiro. Posteriormente, os qingtianeses assentaram negócios e estabeleceram pontos de vendas espalhadas pelas ruas, localizadas geralmente perto do centro comercial ou de núcleo de imigrantes. Esse comércio se caracterizava pelos produtos típicos da China, trazidos pelos fornecedores chineses. Com o passar do tempo, os sacoleiros ambulantes transformaram- se em donos de bazares, após uma trajetória de privações e trabalho árduo. No tocante aos sacrifícios pelos quais passavam os mascates, destacam-se jornadas que se estendiam para além das 16 horas diárias.

Quando chegaram ao Brasil, muitos qingtianeses tornaram-se vendedores ambulantes nas principais ruas da cidade carioca. Assim surgiu um tipo de pequeno comércio, o tibao, sinônimo de sacoleiro ambulante: o vendedor carregava uma mochila ou bolsão cheio de mercadorias e transitava entre as ruas e bairros residenciais. Em 1926, o imigrante Chou Chi-Wen chegou ao Rio de Janeiro junto com o seu amigo Wang Yi-Tsong. Os dois abriram uma loja na Rua do Ouvidor, no centro do Rio, vendendo toalhas de mesa bordadas, trazidas da China. Chou Chi-Wen e Wang Yi-Tsong tornaram-se os primeiros lojistas chineses a trabalhar com produtos importados da China. Os dois obtiveram grande sucesso e expandiram seus negócios de varejo para atacado. Além de importar toalhas de mesa bordadas, eles também trabalhavam com outros tipos de mercadorias chinesas, como porcelanas, artesanatos e lenços de seda.

Em 1919, quando surgiu o Centro Social Chinês do Brasil, os imigrantes já eram donos de restaurantes, lavanderias e bazares

Por muito tempo, o tibao permaneceu como a principal atividade dos recém-chegados imigrantes qingtianeses, por possuir algumas vantagens: tratava-se de um pequeno comércio, fácil para se começar, e apresentava flexibilidade total em relação ao espaço e ao tempo. Aos poucos, os ambulantes juntaram dinheiro das vendas de toalhas bordadas e montaram pensões e restaurantes. Os primeiros qingtianeses donos de restaurantes foram Chu Zee-Ming, Ye Chio-Ming e Chiu Jen-Fong. Em 1925, os três entraram em sociedade e abriram um restaurante-pensão, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Por volta de 1930, Chu Zee-Ming abriu o restaurante "Fong- Shing", na Rua da Conceição, n° 57, no centro de Niterói. O negócio prosperou e tornou-se o maior restaurante dos qingtianeses. Em 1932, Ye Chio-Ming abriu um restaurante na Rua do México, nº 44, e Chiu Jen-Fong montou outro na Praça República.

A VIDA EM TERRAS BRASILEIRAS

Em 1919, cerca de cem imigrantes chineses reuniram-se no dia 4 de outubro e fundaram o Centro Social Chinês do Brasil, cuja sede inicial ficava em um sobrado na Rua Visconde de Rio Branco, nº 15, no Rio de Janeiro. A organização possuía um presidente, um vice-presidente, um tesoureiro, um secretário e 20 membros do conselho administrativo, eleitos anualmente. O Centro Social Chinês era reconhecido pelo governo republicano de Taiwan e fazia celebrações coletivas nas datas comemorativas no calendário chinês, como o dia da república, ano-novo, dia do meio outono, dia do verão, além de funcionar também como uma rede de solidariedade, ajudando os pobres e arrecadando dinheiro para ajudar a China. Na época, os chineses, majoritariamente cantoneses, já haviam estabelecido restaurantes, lavanderias e bazares de conveniência. Em 1921, o Centro Social registrou 296 associados, dentre eles, 244 eram cantoneses, 51 vieram de Qingtian e apenas uma pessoa da cidade de Xangai.

Segundo as estimativas de Guo Bingqiang, autor de Registro geral dos imigrantes chineses de Qingtian no Brasil (1910-1994), na década de 1920, cerca de 90 qingtianeses emigraram para o Brasil, entre os quais, aproximadamente 67 pessoas permaneceram no Rio de Janeiro, 15 ficaram em São Paulo e três pessoas foram para Porto Alegre. Em geral, exceto os donos de restaurantes e lojas, a maioria dos chineses era mascate (sacoleiro) ou trabalhava para outros chineses. Os empregados de restaurante, por exemplo, ganhavam mal, comiam os restos dos pratos de comida e dormiam no chão, debaixo das mesas. Mas alguns viveram no Brasil com sucesso, gozando de grande prestígio entre os compatriotas.

O caso de Wang Yi-Tsong (1877-1966), por exemplo, mostra que algumas histórias foram bem-sucedidas. Esse chinês chegou ao Brasil em 1915, via Argentina, e viveu em Porto Alegre, cidade que, na época, oferecia melhores condições para os imigrantes. Depois de dez anos de lutas na capital gaúcha, ele ganhou dinheiro e retornou a Qingtian para visitar a família e, em 1926, voltou ao Brasil. Dessa vez, Wang foi para o Rio de Janeiro e levou o amigo Chou Chi-Wen, com quem abriu a loja Toalhas Bordadas de Xangai, na Rua do Ouvidor, no centro da cidade. Em 1937, Wang abriu o restaurante Camões na Praça Tiradentes, nº 47, que logo se tornou um dos restaurantes mais populares do Rio.

Wang também era patriota. Durante a guerra sino-japonesa, ele reuniu os imigrantes chineses para fazer gioza, um delicioso prato da comida chinesa. O dinheiro da venda de gioza foi enviado para China, para ajudar na guerra de resistência contra os invasores japoneses. Ele incentivava os compatriotas a comprarem os "títulos de salvação nacional" e "títulos de reconstrução nacional" para ajudar a pátria. Sendo um dos homens que mais ajudaram a comunidade chinesa e a pátria, Wang é lembrado pela comunidade chinesa com muito respeito.

A IMIGRAÇÃO DEPOIS DA REVOLUÇÃO CHINESA DE 1949

A interação entre a política brasileira com a China, de 1881 a 1961, é irrelevante. A política exterior do Brasil republicano, especialmente de 1913 a 1961, seguiu uma linha americanista, de consulta e cooperação com a política americana no plano global. Em 1949, com a revolução de Mao Tsé-Tung, o Brasil transferiu sua representação diplomática na China para Tóquio, no Japão, sede do Comando Supremo das Forças Aliadas (no contexto pós-Segunda Guerra Mundial). Mais tarde, em 1952, o Brasil passou a embaixada para Taiwan, recusando o reconhecimento do regime comunista da China continental. De 1949 a 1974, por não existirem relações diplomáticas entre o Brasil e a China, os imigrantes não podiam obter documentos de viagem diretamente do governo da China nem do Brasil. Antes de solicitar o visto brasileiro em Hong Kong, os chineses tinham de ir primeiro a Macau para obter o passaporte da República da China - o regime nacionalista em Taiwan, reconhecido pelo governo brasileiro. Era um processo muito complicado e tortuoso.

Na China, de 1949 a 1950, a guerra civil entre os comunistas e nacionalistas ainda não tinha terminado completamente. Portanto, não era necessário ter passaporte para sair do país e os chineses podiam chegar a Hong Kong livremente e, de lá, podiam solicitar o visto brasileiro. Em conseqüência das guerras e revoluções, houve um grande fluxo de imigrantes chineses para o Brasil, principalmente para a cidade de São Paulo. Devido à falta de dados estatísticos, é impossível saber o número exato dos refugiados que chegaram aqui nesse período.

Porém, com o fim da revolução, a situação mudou completamente. Em 1951, os comunistas começaram a afirmar seu controle em todos os setores. Lançaram a repressão aos bandidos e aos contra-revolucionários (membros dos governantes nacionalistas que resistiram ao novo regime), criando um ambiente político do tipo "terror vermelho" na China continental. As entradas e saídas nas fronteiras começaram a exigir as documentações. Todos os passageiros que quisessem ir a Hong Kong e Macau eram barrados e somente passava quem já tinha na mão o passaporte e a permissão das autoridades comunistas.

De 1966 a 1974, deixar a China era considerado um ato de traição para o regime maoísta

Em agosto de 1952, o chinês Chen Chao solicitou ao governo da cidade de Qingtian a permissão para ir a Macau e obteve autorização dos comunistas para viajar. Na alfândega de Gongbei, já havia soldados para examinar as documentações, mas o exame não era rigoroso. Chen Chao saiu com tranqüilidade, mas o documento de viagem foi retido pela alfândega de Gongbei antes de chegar a Macau. Em Macau, por não possuir documentos de identificação, teve de recorrer ao grupo especializado em migração clandestina. Por isso, Chen teve de pagar para chegar a Hong Kong ilegalmente. Lá, ainda por falta de documentos, ele não podia solicitar diretamente o visto brasileiro. Depois de 11 meses de espera, recorreu a Chou Chi-Wen, que tinha parceiros comerciais em Hong Kong. Finalmente, Chen conseguiu emigrar para o Brasil, em 1953. A história de Chen ilustra bem a dificuldade que era para sair da China nesse período. Depois dele, outros dez qingtianeses também tentaram chegar a Macau, mas foram detidos em Cantão e mandados de volta para Qingtian, onde foram condenados à morte pelo regime comunista, que já estava inserido com mãos-de-ferro.

No ano de 1953, o governo chinês intensificou o controle sobre a emigração. Já não bastavam as permissões emitidas pelo governo municipal de Qingtian. Para emigrar era necessária a autorização dos governos provinciais. Esse foi o caso de Wu Hsian-Chao: na China, ele havia sido acusado de espionagem pelos comunistas, somente porque tinha parentes no Brasil. Mas Wu escapou da pena de morte porque sabia usar o ábaco (espécie de calculador mecânico). A sua profissão de contador o salvou, pois os comunistas resolveram poupar sua vida e colocá-lo para trabalhar sob vigilância.

Em 1957, Wu apresentou ao regime uma carta de convite do seu tio (que havia emigrado para o Brasil, em 1926), que passou pela aprovação de cinco hierarquias: o comitê do partido da sua unidade de trabalho, o governo do município de Wenzhou, o departamento da polícia de Wenzhou, o departamento de assuntos estrangeiros de Xangai e o departamento de segurança pública da província de Zhejiang. Após passar pela alfândega de Gongbei, ele finalmente chegou a Macau. Por falta de documentação, teve de gastar uma boa quantia em dinheiro para chegar ilegalmente a Hong Kong e receber uma cédula de identidade pelo canal clandestino. Wu precisou voltar novamente de Hong Kong para Macau para solicitar o passaporte da República da China, emitido pelo regime de Taiwan. Em seguida, retornou a Hong Kong para solicitar o visto do Consulado Brasileiro. Enfim, Wu embarcou em um navio holandês e chegou ao Rio de Janeiro, depois de 56 dias de travessia no alto mar.

O período de 1966 a 1974 foi de tempos extremos. Para o regime maoísta, a emigração constituía um ato de abandono da pátria, uma traição à revolução proletária. Por conseguinte, qualquer um que tentasse emigrar ou tivesse parentes no estrangeiro passava a ser alvo de perseguição política dos radicais. O país inteiro entrou em caos, as máquinas do Estado foram paralisadas e os canais clandestinos de emigração funcionavam precariamente. Chegavam apenas alguns qingtianeses ao Brasil. Alguns cantoneses vieram ao Brasil como refugiados da Revolução Cultural. A situação começou a se modificar em outubro de 1974, quando o Brasil e a China restabeleceram relações diplomáticas.

NOVOS IMIGRANTES: CHINESES NO SAARA

De 1974 a 1976, a China continental encontrava- se no final da Revolução Cultural e poucos chineses conseguiram emigrar para o Brasil. Para o alívio de todos, a Revolução Cultural terminou em 1976. Dois anos depois, iniciou-se na China uma nova era da sua história: a reforma e a abertura. A partir de 1979, a China começou a respeitar o direito do cidadão de entrar e sair do país. Muitos viajaram ao exterior para aprender novos conhecimentos, outros emigraram para encontrar com os parentes ou simplesmente em busca de uma vida melhor.

Seguindo os passos dos seus parentes e amigos já estabelecidos, os imigrantes que chegaram aqui depois da década de 1950 também iniciariam suas trajetórias como sacoleiros ambulantes (tibao). Dessa vez eles não vendiam somente toalhas de mesa, tecidos de seda, mas também jóias de ouro, pérolas e pedras preciosas. Praticando o tibao, esses recém-chegados acumularam suas economias e, na década de 1960, tornaram-se proprietários de lojas e restaurantes. De 1970 a 1980, a maioria das lojas chinesas era apenas bazares ou mercearias. Mas a partir da década de 1990, as lojas passaram a vender a varejo e atacado, colocando em suas prateleiras produtos importados da China, Taiwan, Hong Kong e Japão.

Os anos 1990 foram frutíferos para os imigrantes qingtianeses. Na China, o desenvolvimento econômico atingiu um ritmo cada vez mais acelerado. Ao mesmo tempo, na esteira da globalização, o Brasil também afrouxou seu controle sobre a economia e abriu suas portas para o mundo, principalmente no setor do comércio exterior. Essas mudanças deram grandes oportunidades para os imigrantes chineses no Brasil.

Para ilustrar esse momento, vale a pena citar a história de Ji Fu-Ren, que chegou ao Rio em 1958 e, dez anos depois, montou uma loja de artigos importados e comprava toalhas de mesa via Hong Kong. Em 1994, o governo brasileiro baixou os impostos sobre a importação, em caso de produtos comuns, os impostos diminuíram de 10% a 20%. Paralelamente, o governo chinês adotou uma política mercantilista, incentivando as empresas chinesas a exportarem mercadorias para ganhar divisas, com as quais financiaria a importação de máquinas. Ji Fu-Ren aproveitou as novas oportunidades e investiu todos os seus recursos no comércio exterior. Seguindo o seu exemplo, na década de 1990, outros qingtianeses também abriram suas empresas de importação no Rio de Janeiro.

Os qingtianeses no Rio eram um grupo pequeno, que não contava com mais de duas mil pessoas, e que possuíam características comuns: eram pobres quando chegavam, mas trabalhavam sem descansar, e eram corajosos e audaciosos nos empreendimentos. Eles se estabeleceram no Saara, a tradicional zona do comércio popular no centro do Rio de Janeiro. A área ganhou esse nome provavelmente por ter sido a região que concentrava muitos mascates sírio-libaneses, com suas caravanas de produtos vindos do Oriente Médio. Inicialmente, o Saara era dominado pelos imigrantes árabes e judeus e, após 1970, vieram os coreanos e japoneses. A partir dos anos 1990, chegaram os chineses que expandiram sua presença.

Em 1995, havia no Saara apenas duas ou três lojas atacadistas de chineses, número que aumentou cada vez mais. Em 2007, o número chegou a 40 lojas qingtianesas e, hoje, os chineses ocupam mais de 20% dos espaços comerciais da região. Em alta temporada, as ruas do Saara ficam bastante congestionadas, quando os consumidores enchem toda a região.

AS DIVERGÊNCIAS ENTRE COMUNISTAS E TAIWANESES NO RIO

Dentro da pequena comunidade chinesa no Rio de Janeiro, há união e divergências, sobretudo acerca da questão de Taiwan. Alguns defendem a independência da ilha, a maioria defende o status quo (nem a unificação, nem separação), ao passo que outros defendem a unificação no futuro sob a bandeira da República Popular da China. Não obstante, no cotidiano, os taiwaneses se dão muito bem com os compatriotas cantoneses e qingtianeses.

Há amizade e desacordos entre os imigrantes chineses. O Centro Social Chinês do Rio de Janeiro (Chunghwa Huikuan) é fortemente ligado ao governo de Taiwan, enquanto os chineses oriundos da China continental se reúnem em torno da Associação Chinesa do Rio de Janeiro (Hualian), uma organização ligada ao governo de Pequim. No Rio, 30% dos chineses vieram de Taiwan - muitos nasceram no continente, mas exilaram-se na ilha junto com o regime de Chiang Kai-Shek. É o caso, por exemplo, de Tso Chia-Ya, que nasceu no continente em 1948 e, aos 2 anos de idade, foi para Taiwan com a família, após perder o pai, que morreu executado pelos comunistas durante a guerra civil. Tso cresceu em Taiwan, mas emigrou para o Brasil em 1972, quando os Estados Unidos abandonaram a ilha, estabelecendo as relações diplomáticas com o continente comunista. "Tínhamos medo de que os comunistas invadissem Taiwan. Por isso, toda a nossa família emigrou para o Brasil", conta Tso. Ele afirma que no Rio de Janeiro chegaram cerca de dois mil chineses- taiwaneses até os anos de 1970, mas agora, quase 40 anos depois, restam apenas 700 desses imigrantes. Isso porque a economia de Taiwan cresceu tanto que o país se tornou um dos tigres asiáticos (Coréia do Sul, Singapura, Taiwan e Hong Kong), atraindo os taiwaneses de volta para sua terra natal. A entrada de imigrantes taiwaneses no Brasil diminuiu e o pequeno grupo envelheceu.

A união, a solidariedade e as divergências entre os chineses são exemplificadas pelo qingtianês Chou Huimin (1907-1980), que chegou ao Rio de Janeiro em 1929, via Europa. Ele era um homem generoso e conhecido por ajudar os outros. Falava fluentemente português, gostava de dançar e participava dos desfiles de samba durante o carnaval. Tinha muitos amigos, entre chineses e brasileiros, e foi eleito vice-presidente do Centro Social Chinês. Na década de 1960, manteve amizades com embaixadores do governo de Taiwan. Em 1967, na comemoração do seu 60º aniversário, cerca de 300 imigrantes chineses compareceram. O embaixador Chu Shao-Chang e todos os funcionários da Embaixada da República da China prestigiaram a homenagem.

Mas Chou também mantinha boas relações com o regime comunista. Em 1950, o irmão dele foi executado pelo governo comunista por crime "contra-revolucionário", no entanto, Chou não guardou rancor contra o regime. Em 1956, uma delegação "ópera de Pequim", enviada pelo governo chinês, o visitou no Rio e Chou ajudou o governo brasileiro a recepcionar os visitantes comunistas. Na época, muitos chineses refugiados do comunismo protestaram contra os visitantes do regime de Pequim, porque o governo havia estabelecido a reforma agrária e executado muitos proprietários rurais e seguidores de Chiang Kai-Shek. Em 1958, Chou recepcionou outra delegação de "acrobacia de Pequim", enviada pelo governo comunista, ajudando a delegação a obter sucesso nas apresentações. Em 1973, o Brasil e a China negociaram as relações diplomáticas e Chou participou de todos os receptivos das delegações da China continental.

Em 1971, quando as Nações Unidas expulsaram o regime de Taiwan dos seus organismos e reconheceram a República Popular da China, Chou e os outros qingtianeses pró-comunistas tentaram substituir a bandeira azul da República da China do Centro Social Chinês pela bandeira vermelha da República Popular da China. O ato causou a reação dos chineses pró-nacionalistas. No final desse episódio, a polícia do Rio de Janeiro foi acionada para impedir as tentativas de trocar a bandeira.

Apesar das divergências políticas, os taiwaneses convivem muito bem com os compatriotas cantoneses e qingtianeses, no Rio de janeiro. Durante as festas tradicionais, como o Festival da Primavera, o Centro Social faz comemorações durante o dia e a Associação Chinesa faz comemorações à noite. Assim, todos podem participar das atividades de ambas as organizações. Uma característica comum dos chineses é o orgulho pela própria cultura e o empenho em manter suas tradições. Muitos imigrantes chineses aderiram à Igreja Católica, mas preferem ao mesmo tempo preservar sua identidade cultural chinesa. Em casa, muitas famílias só conversam com os filhos nascidos no Brasil em chinês, para aprimorar a língua materna. As associações chinesas, seja o Centro Social Chinês, dominado pelos chineses pró-nacionalistas, ou a Associação Chinesa, pró-comunista, sempre incentivam o ensino da língua chinesa e promovem a cultura nas datas importantes, como o ano-novo chinês (geralmente em fevereiro, segundo o calendário lunar), com shows artísticos e danças típicas chinesas. Tudo isso é feito para fortalecer os laços culturais que anulam a enorme distância entre o Brasil e a China.

Shu Chang-Sheng nasceu na China em 1967, formou-se na Fudan University, em Xangai, no ano de 1989. Veio ao Brasil como estudante de intercâmbio. É mestre em Economia pela Universidade Federal Fluminense (1995-1998) e doutor em História pela mesma instituição. Publicou diversos artigos sobre a história da China contemporânea, entre eles, O movimento das Cem Flores: uma reflexão sobre a relação entre os intelectuais chineses e o Estado, Do grande Salto para Frente à Grande Fome: China de 1958-1962 e O comandante vermelho e seus guardas vermelhos na Revolução Cultural.

REFERÊNCIAS
LESSER, Jeff rey, A negociação da identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. Cap.2, A mão-de-obra chinesa e o debate sobre a integração étnica. São Paulo, Editora UNESP, 2001.
LEITE, José Roberto Teixeira. "Chineses entrados no Brasil 1814-1842." In: _____. A China no Brasil: influências, marcas, ecos e sobrevivência chinesas na sociedade e na arte brasileiras. Campinas, SP: Ed. da Unicamp, 1999. p. 269-275.
GUO, Bingqiang, "Registro geral dos imigrantes chineses de Qingtian no Brasil (1910-1994)", Qingtian, China, setembro de 2005.
Baxi Huaren Geng yun lu (História dos imigrantes chineses no Brasil), São Paulo-Brasil, Editora do Jornal Chinês "Americana", outubro de 1998, p. 14.
MEAGHER, Arnold. The Coolie Trade: the traffic in Chineses laborers to Latin America 1847-1874. Xlibris Corporation,2008.

Fonte: Portal Ciência e Vida - http://sociologiacienciaevida.uol.com.br

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Iluminismo ibérico

Historiador defende vigor das ideias de tolerância religiosa na Espanha, em Portugal e nas Américas na época da Inquisição.

O historiador norte-americano Stuart Schwartz tinha já uma carreira consolidada como especialista no período colonial brasileiro, autor de grossos e clássicos volumes repletos de estatísticas -como o "valor das exportações baianas de açúcar" entre 1698 e 1766, em seu livro "Segredos Internos"-, quando decidiu se ocupar de um tema que escapa a quantificações, em "Cada Um na Sua Lei" (Companhia das Letras/ Edusc, 488 págs., R$ 58).
Ali ele apresenta a existência de grande tolerância religiosa, entre pessoas comuns, na península Ibérica e sua colônias entre os séculos 16 e 18.
Foi ao ler "O Queijo e os Vermes", de Carlo Ginzburg, que Schwartz se surpreendeu com o fato de o "personagem" do livro, o moleiro italiano Menocchio, interrogado pela Inquisição, parecer em suas declarações tão "tolerante e moderno". Dizia Menocchio, de maneira aparentemente extravagante para o século 16, que a salvação era possível em qualquer religião. Schwartz mostra em seu novo livro que o moleiro não era exceção, e encontra nos arquivos das inquisições espanhola e portuguesa dezenas de exemplos de pessoas comuns, católicas, que questionavam os princípios teológicos e hierárquicos da igreja, e defendiam a primazia da caridade -de Deus e dos não cristãos- em detrimento da "verdade" católica.
Mesmo nos países mais identificados com a rigidez católica e inquisitorial, no início do período moderno, afirma o historiador, havia já um "solo" de tolerância e relativismo para o florescimento, mais tarde, das ideias iluministas.
(RAFAEL CARIELLO)

FOLHA - Esse ambiente de tolerância religiosa a que o sr. se refere tem raízes especificamente ibéricas?
STUART SCHWARTZ
- Não sei se são ibéricas ou se são cristãs. A península Ibérica tem essa história particular de convivência das três religiões monoteístas [cristianismo, judaísmo e islamismo] na Idade Média. Certamente alguma influência houve. Claro que não havia uma convivência absolutamente pacífica, mas as pessoas aprendiam, no contato direto, cotidiano, a viverem juntas essas "três leis", como eles as chamavam. Palavra que indica que a religião não era apenas uma crença, mas um padrão de comportamento, um conjunto cultural mais amplo. Mas seria errado pensar que se trata de um fenômeno exclusivamente ibérico. Se você vai ver a história do resto da Europa, encontra também tolerância religiosa na França, na Itália, no Reino Unido etc. O importante é notar que, na história da tolerância religiosa, Portugal e Espanha nunca são tratados, porque são vistos como o exemplo, o modelo da intolerância: a Inquisição, a expulsão dos judeus, a expulsão dos mouros. O que tratei de mostrar é que essa ideia é errada. Houve sentimento de tolerância, embora não tenha havido política de tolerância por parte do Estado e da Igreja. O livro trata da dissidência das pessoas comuns, do povo, diante de uma política de intolerância.

FOLHA - O que há na própria religião cristã que permite essa prática de tolerância, apesar do que desejaria a igreja àquela altura?
SCHWARTZ
- O cristianismo sempre teve dois lados: caridade e verdade. Essa gente que aparece no meu livro, pessoas simples, queria enfatizar a caridade, enquanto os teólogos buscavam reforçar a "verdade". Muitos diziam que a religião sem a caridade não faz sentido, e que dentro da Bíblia há trechos que enfatizam a caridade. Há aí exemplos de lavradores, artesãos, que questionam seus inquisidores, dizendo: "Não é na Bíblia que Cristo diz "Perdoai-os, ó Pai, porque eles não sabem o que fazem?’". Sem formação teológica, essas pessoas interpretam trechos das Sagradas Escrituras que acreditam serem a explicação da religião. Não estão convencidas de que haja somente uma verdade, mas creem que a verdade poderia ser diversa. Como dizem alguns: o Deus que criou o cristianismo também criou a lei dos mouros e a dos judeus. Se eles nasceram naquela lei, era a vontade de Deus que eles buscassem a salvação desse modo.

FOLHA - Em geral associamos essas ideias de respeito à diferença e de tolerância ao iluminismo. De certa forma o sr. recua, no tempo, a vigência dessa mentalidade. É isso?
SCHWARTZ
- Exatamente. Meu argumento é que, quando chega o século 18, e a influência das ideias de Locke, Voltaire e outros, já existia um solo para que essas ideias florescessem, também na América Latina e no mundo ibérico de forma geral. Ao mesmo tempo, as forças contrárias a essa vigência da tolerância, a autoridade dos governos e da religião, eram muito fortes. A batalha pela liberdade de consciência só foi se dar, afinal, no século 19.

FOLHA - Além desse solo antigo, cristão, medieval, há um contexto específico do século 16 que contribui para essas ideias, certo? O descobrimento contribuiu para a tolerância religiosa?
SCHWARTZ
- Os descobrimentos eram, primeiro, uma empreitada de ampliação da fé cristã, católica, uma oportunidade de expansão da cristandade. Essa era a justificativa de portugueses e espanhóis para navegarem para novas terras e conquistá-las. Mas ao mesmo tempo era uma revelação de que havia milhares, milhões de pessoas fora da igreja, que nunca haviam conhecido a palavra de Deus. Muitos se perguntavam se isso deveria, de fato, condená-los a ficarem excluídos da salvação.

FOLHA - E essas questões eram feitas só por pessoas simples ou também por integrantes da hierarquia da igreja?
SCHWARTZ
- Também. Esse debate acontecia desde os primórdios da igreja: se a salvação depende apenas da graça de Deus ou das ações, das obras dos homens. A linha que ganhou foi a de que não há salvação fora da igreja. Mas os franciscanos questionavam se a salvação pela lei natural, pelo entendimento que Deus dá a todos os seres humanos do que é bom e do que é mau, mesmo fora da igreja, não seria possível.

FOLHA - Havia espaço maior para a tolerância nas Américas?
SCHWARTZ
- A América representava uma terra de liberdade, para onde os colonos podiam ir, e se libertar do controle que havia na Espanha ou em Portugal.

FOLHA - Apenas para os judeus convertidos, os cristãos-novos, ou também para os cristãos-velhos?
SCHWARTZ
- Às vezes essa ideia, de que cada um se salva na sua lei, é tida na historiografia como uma atitude exclusiva dos convertidos. "Isso é coisa dos cristãos-novos que tratam de justificar a religião de seus antepassados." Mas há evidências de que os cristãos-velhos pensavam da mesma maneira.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo - http://www.uol.com.br

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A Lista de Schindler

TÍTULO DO FILME: A LISTA DE SCHINDLER (Scshindlerâ??s List, EUA, 1993)
DIREÇÃO: Steven Spielberg
ELENCO: Lian Neeson, Bem Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodal, Jonathan Sagalle, Embeth Davidtz. 195 min, CIC.
RESUMO
Vencedor de 7 Oscars e baseado no livro de Thomas Keneally o filme mostra a vida real e a trajetória do industrial tcheco Oskar Schindler.
Ao comprar em 1939 uma fábrica de esmaltados quase falida na Polônia dominada pela Alemanha de Hitler, Schindler usou suas boas relações com altos funcionários nazistas, para recrutar trabalhadores entre prisioneiros judeus do gueto da Cracóvia, passando a fornecer produtos para o exército alemão. Quando os nazistas iniciam a "solução final" (execução em massa dos judeus), Schindler intercede junto ao comandante Amon Goeth, subornando outros oficiais e garantindo tratamento diferenciado para seus operários, salvando-os dos campos de extermínio.
CONTEXTO HISTÓRICO
A derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial (1914-18) e a humilhação a que fora submetida pelo Tratado de Versalhes, deixaram o país à beira da anarquia e da guerra civil. A República proclamada na cidade de Weimar foi dominada por setores moderados que não conseguiram combater a miséria e nem controlar os movimentos políticos de esquerda. Sob pressão dos militares e de grupos nacionalistas totalitários, como os nazistas, a República de Weimar vivia ameaçada. A situação do país agravou-se com a crise mundial de 1929 atingiu a economia que se recuperava desde 1923, radicalizando as oposições. A articulação entre monarquistas conservadores, setores militares e empresariado, facilitou a ascensão de Hitler ao cargo de chanceler em 30 de abril de 1933.
Alguns meses depois, Hitler estabeleceu um Estado totalitário, com um poderoso e disciplinado aparato paramilitar, destacando-se agrupamentos como as SA (sessões de assalto), e as SS (sessões de segurança), além da Gestapo, a temida polícia política do nazismo.
Caracterizado pelo monopartidarismo, anti-comunismo, anti-liberalismo e um nacionalismo histérico, o nazismo alemão também apresentou um forte componente racista anti-semita, que defendia o "direito" das raças superiores dominarem as raças inferiores. Identificado com o movimento comunista internacional ou com o liberalismo responsável pela grande depressão de 1929, o judeu passou a ser considerado o grande mal que assolava a Alemanha.
Cruelmente perseguidos e excluídos de várias atividades públicas, à partir de 1935 com as leis de Nuremberg, os judeus passavam à condição de cidadãos de segunda categoria, perdendo direitos civis como o direito de casarem-se com "arianos puros". Em 1938 as ações anti-semitas cresciam vertiginosamente. Espancamentos, humilhação de crianças em salas-de-aula, destruição de sinagogas e casas, e até a utilização de sinais identificadores, já faziam parte do cotidiano da Alemanha de Hitler. Em escala mais reduzida o racismo germânico, também estendeu seus crimes sobre outros povos como eslavos e ciganos, além da perseguição sobre homossexuais e deficientes físicos.
A propaganda nazista controlada por Goebbels, supervisionava a literatura, o cinema e sobretudo o rádio e a imprensa, como podemos perceber neste trecho extraído do jornal nazista Das Scwarze Korps .
"O que isto significa? Significa não somente a eliminação dos judeus da economia alemã — eliminação que eles bem merecem por seus homicídios e pela excitação à guerra e aos assassinatos. Significa muito mais! Não podemos aceitar que um alemão viva sob o mesmo teto que um judeu, raça de assassinos, criminosos, inimigos mortais do povo alemão. Em conseqüência, os judeus devem ser caçados em nossas casas,em nossos quartéis, e devem ser alojados em ruas e casas onde vivam entre si, com o menor contato possível com os alemães. É necessário estigmatiza-los e proibi-los de possuir imóveis na Alemanha, pois é inconcebível que um alemão dependa de um proprietário judeu que ele alimenta pelo trabalho de suas mãos (â?¦). Nós nos encontraremos em face da dura necessidade de exterminar os guetos de judeus da mesma que temos o hábito de exterminar os criminosos no nosso Estado: pelo fogo e pelo gládio. O resultado será a desaparição efetiva e definitiva do judaísmo na Alemanha, sua destruição total."
Apesar desse texto ter sido publicado em 1938, o pior aconteceria somente durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), quando tem início a "solução final", que executou cerca de 6 milhões de judeus espalhados pelos vários campos de extermínio nos países europeus dominados pelo III Reich.

Fonte: História Net - http://www.historianet.com.br

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Atenção à linguagem afetiva das mãos!

O cérebro se prepara para perceber os gestos emocionais, descobriram neurocientistas. 

Você já se deu conta de que as mãos são capazes de transmitir uma riqueza infinita de gestos, que comunicam diferentes significados entre os seres humanos? Sabia que a riqueza dos gestos manuais humanos não tem paralelo entre os animais?
Alguns gestos comunicam informações objetivas, como números – é possível contar pelo menos até dez, posicionando especificamente os diferentes dedos das mãos. Outros gestos indicam alvos para orientar a atenção do interlocutor: veja aquele carro vermelho! E o indicador se estende com o punho fechado, apontando o objeto indicado.
Tudo com grande sutileza: o indicador estendido com a mão fechada na horizontal aponta; porém, se a mão for colocada à frente na vertical, trata-se de uma ameaça! Se, além disso, o polegar também se estender, a mão passa a representar um revólver – ameaça ou brincadeira.
O vocabulário das mãos é infinito e contribui para enriquecer a linguagem falada com uma dimensão que os linguistas chamam prosódia. Ela complementa as informações linguísticas ou acrescenta a elas um tom emocional que pode até mudar o sentido do que está sendo dito.

O gesto em preto tem o mesmo significado na maioria das culturas ocidentais, mas o gesto em vermelho significa uma coisa nos Estados Unidos e outra muito diferente no Brasil… Ganchos de parede de autoria dos designers ingleses Yve Thelermont e David Hupton.

O vocabulário gestual das mãos, obviamente, tem aspectos biológicos determinados pelo repertório comportamental transmitido pelo genoma, mas sofre também uma grande influência social e cultural.
Alguns gestos atravessam as culturas humanas e têm funções adaptativas importantes. Ao percebermos alguém que se aproxima para nos agredir, instantaneamente levamos as mãos espalmadas à frente para contê-lo – é um gesto de defesa inato.
Porém, se você tem dúvida sobre a importante determinação cultural e social de outros gestos, repare na figura ao lado. Não se atreva a utilizar o gesto em vermelho em ambientes de fino trato!
A percepção dos gestos
Sendo os gestos uma forma de comunicação da maior importância, como é que os percebemos? De que modo o cérebro atua para identificá-los em um par de mãos que não para de se mover, e decodificar o seu significado de forma a orientar o comportamento subsequente?
Essa questão tem interessado os neurocientistas desde que se descobriu que a face humana dispõe de regiões cerebrais inteiras para sua percepção. Essas regiões contêm neurônios especializados na identificação das faces e expressões que somos capazes de produzir. Será que o mesmo ocorreria com os gestos?
Um aspecto particular dessa questão é avaliar se os gestos que contêm informação emocional são tratados com mais atenção pelos sistemas perceptuais do cérebro, para tornar mais eficiente a sua identificação e agilizar a elucidação do seu significado. Durante uma conversa com alguém importante para você, é preciso estar preparado para sacar rapidamente qualquer informação de prazer ou desprazer, agrado ou desagrado, aprovação ou reprovação. A atenção tem que ser redobrada!
Os gestos são percebidos visualmente pelo sistema nervoso a partir da retina, que envia ao cérebro as informações de cor, movimento, localização espacial, forma e outros aspectos das mãos do interlocutor. No córtex cerebral essa informação é canalizada para áreas especializadas na identificação de diferentes objetos, entre eles as partes do corpo e, entre estas, as mãos. Mas as mãos podem se mover ou se posicionar sem que isso signifique qualquer coisa. Como saber?
Atenção para as mãos!
Um grupo de pesquisadores alemães das Universidades de Konstanz e de Münster, liderados por Tobias Flaisch e Markus Junghöfer, propôs-se a testar a hipótese de que os gestos emocionais teriam a capacidade de orientar a atenção visual, permitindo um processamento perceptual preferencial e mais eficiente do seu significado.
Para isso, recrutaram um grupo de voluntários jovens de ambos os sexos. Eles foram submetidos a testes que consistiam simplesmente na observação de fotografias de mãos efetuando gestos como se pode ver abaixo.

O gesto da esquerda tem caráter emocional positivo: OK. O do meio é neutro: pode significar o número 1 ou apontar para cima. Já o da direita é considerado um insulto.

Inicialmente, os voluntários foram solicitados a avaliar os três gestos, atribuindo-lhes uma nota segundo a sua carga emocional. Como se esperava, o polegar apontado para cima não teve avaliação negativa (claro, é um sinal de OK…); o indicador apontado para cima mostrou-se neutro, com notas intermediárias; e o terceiro dedo estendido teve a carga emocional considerada muito negativa. Nada de especial, até aí.
O cérebro presta mais atenção aos gestos emocionais
Na etapa seguinte, os voluntários foram divididos em dois grupos e submetidos a dois estudos complementares. Em um caso, vestiam uma touca com eletrodos para registro do eletroencefalograma (EEG), enquanto as imagens dos gestos eram apresentadas diante dos olhos, em sequência aleatória. No outro caso, as imagens eram projetadas com os sujeitos dentro do aparelho de ressonância magnética. O objetivo era comparar a atividade cerebral em áreas restritas do córtex para gestos emocionalmente negativos, positivos ou neutros.

Comparado com o gesto neutro, o terceiro dedo apontado para cima provoca maior atividade do eletroencefalograma (EEG) nas regiões de processamento visual, o que pode ser confirmado pela imagem de ressonância magnética funcional (RMf). Modificado de T. Flaisch e colaboradores. NeuroImage 45:1339-1346 (2009).

Os resultados foram surpreendentes. A atividade cerebral nas áreas visuais responsáveis pela identificação das mãos mostrou-se bem maior para os gestos carregados de conteúdo emocional negativo do que para aqueles com conteúdo emocional positivo, e bem mais ainda em comparação com os neutros.
O estudo com o EEG mostrou, além disso, que a atividade nas regiões visuais ocorre antes quando os gestos têm alguma carga emocional. Isso significa que essas regiões do cérebro são “preparadas” para processar com mais rapidez esses gestos, e mais lentamente no caso daqueles que não têm carga emocional.
E mais: o hemisfério cerebral direito apresentou sempre maior atividade durante o experimento do que o hemisfério esquerdo, indicando que é mesmo o nosso especialista em emoções, isto é, aquele que interpreta mais precisamente o significado emocional das coisas.
Quando uma área do cérebro encarregada de algum aspecto da percepção sensorial é sensibilizada de modo privilegiado para o processamento, dizemos que a pessoa está realizando uma percepção seletiva, o que é uma forma de atenção. Prestamos mais atenção ao que nos interessa mais perceber. O cérebro faz isso preparando-se para receber os estímulos relevantes, por meio da sensibilização da área cerebral correspondente.
A conclusão é que os gestos emocionais são estímulos relevantes para nós e que, por isso, nosso cérebro fica focalizado neles. Portanto, cuidado com as mãos! Seu interlocutor está prestando muita atenção nelas…

Fonter:Jornal da Ciência - http://www.jornaldaciencia.org.br/

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A Comuna de Paris

SOBRE " A COMUNA DE PARIS"

Karl Marx
Friedrich Engels

"Na alvorada de 18 de Março (1871), Paris foi despertada por este grito de trovão: VIVE LA COMMUNE! O que é pois a Comuna, essa esfinge que põe tão duramente à prova o entendimento burguês?
Mas a classe operária não se pode contentar com tomar o aparelho de Estado tal como ele é e de o pôr a funcionar por sua própria conta.
O poder centralizado do Estado, com os seus órgãos presentes por toda a parte: exército permanente, polícia, burocracia, clero e magistratura, órgãos moldados segundo um plano de divisão sistemática e hierárquica do trabalho, data da época da monarquia absoluta, em que servia à sociedade burguesa nascente de arma poderosa nas suas lutas contra o feudalismo."
"Em presença de ameaça de sublevação do proletariado, a classe possidente unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como o engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho. Na sua cruzada permanente contra as massas dos produtores, foi forçada não só a investir o executivo de poderes de repressão cada vez maiores, mas também a retirar pouco a pouco à sua própria fortaleza parlamentar, a Assembleia Nacional, todos os meios de defesa contra o executivo."
"O poder de Estado, que parecia planar bem acima da sociedade, era todavia, ele próprio, o maior escândalo desta sociedade e, ao mesmo tempo, o foco de todas as corrupções."
"O primeiro decreto da Comuna foi pois a supressão do exército permanente e a sua substituição pelo povo em armas.
A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio universal nos diversos bairros da cidade. Eram responsáveis e revogáveis a todo o momento. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna devia ser, não um organismo parlamentar, mas um corpo activo, ao mesmo tempo executivo e legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a polícia foi imediatamente despojada dos seus atributos políticos e transformada num instrumento da Comuna, responsável e revogável a todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcionários de todos os outros ramos da administração. Desde os membros da Comuna até ao fundo da escala, a função pública devia ser assegurada com salários de operários."
" Uma vez abolidos o exército permanente e a polícia, instrumentos do poder material do antigo governo, a Comuna teve como objectivo quebrar o instrumento espiritual da opressão, o "poder dos padres"; decretou a dissolução e a expropriação de todas as igrejas, na medida em que elas constituíam corpos possidentes. Os padres foram remetidos para o calmo retiro da vida privada, onde viveriam das esmolas dos fiéis, à semelhança dos seus predecessores, os apóstolos. Todos os estabelecimentos de ensino foram abertos ao povo gratuitamente e, ao mesmo tempo, desembaraçados de toda a ingerência da Igreja e do Estado. Assim, não só a instrução se tornava acessível a todos, como a própria ciência era libertada das grilhetas com que os preconceitos de classe e o poder governamental a tinham acorrentado.
Os funcionários da justiça foram despojados dessa fingida independência que não servira senão para dissimular a sua vil submissão a todos os governos sucessivos, aos quais, um após outro, haviam prestado juramento de fidelidade, para em seguida os violar. Assim como o resto dos funcionários públicos, os magistrados e os juizes deviam ser eleitos, responsáveis e revogáveis."
"Após uma luta heróica de cinco dias, os operários foram esmagados. Fez-se então, entre os prisioneiros sem defesa, um massacre como se não tinha visto desde os dias das guerras civis que prepararam a queda da República romana. Pela primeira vez, a burguesia mostrava a que louca crueldade vingativa podia chegar quando o proletariado ousa afrontá-la, como classe à parte, com os seus próprios interesses e as suas próprias reivindicações. E, no entanto, 1848 não passou de um jogo de crianças, comparado com a raiva da burguesia em 1871."
"Proudhon, o socialista do pequeno campesinato e do artesanato, odiava positivamente a associação. Dizia dela que comportava mais inconvenientes do que vantagens, que era estéril por natureza e até mesmo prejudicial, pois entravava a liberdade do trabalhador; dogma puro e simples… E é também por isso que a Comuna foi o túmulo da escola proudhoniana do socialismo."
"As coisas não correram melhor aos blanquistas. Educados na escola da conspiração, ligados pela estrita disciplina que lhe é própria, partiam da ideia de que um número relativamente pequeno de homens resolutos e bem organizados era capaz, chegado o momento, não só de se apoderar do poder, mas também, desenvolvendo uma grande energia e audácia, de se manter nele durante um tempo suficientemente longo para conseguir arrastar a massa do povo para a Revolução e reuni-la à volta do pequeno grupo dirigente. Para isso era preciso, antes de mais nada, a mais estrita centralização ditatorial de todo o poder entre as mãos do novo governo revolucionário. E que fez a Comuna que, em maioria, se compunha precisamente de blanquistas? Em todas as suas proclamações aos franceses da província, convidava-os a uma livre federação de todas as comunas francesas com Paris, a uma organização nacional que, pela primeira vez, devia ser efectivamente criada pela própria nação. Quanto à força repressiva do governo outrora centralizado, o exército, a polícia política, a burocracia, criada por Napoleão em 1798, retomada depois com prontidão por cada novo governo e utilizada por ele contra os seus adversários, era justamente esta força que devia ser destruída por toda a parte, como o fora já em Paris."
"Para evitar esta transformação, inevitável em todos os regimes anteriores, do Estado e dos órgãos do Estado em senhores da sociedade, quando na origem eram seus servidores, a Comuna empregou dois meios infalíveis. Primeiro, submeteu todos os lugares, da administração, da justiça e do ensino, à escolha dos interessados através de eleição por sufrágio universal e, evidentemente, à revogação, em qualquer momento, por esses mesmos interessados. E segundo, retribuiu todos os serviços, dos mais baixos aos mais elevados, pelo mesmo salário que recebiam os outros operários. O vencimento mais alto que pagou foi de 6000 francos. Assim, punha-se termo à caça aos lugares e ao arrivismo, sem falar da decisão suplementar de impor mandatos imperativos aos delegados aos corpos representativos.
Esta destruição do poder de Estado, tal como fora até então, e a sua substituição por um poder novo, verdadeiramente democrático, estão detalhadamente descritas na terceira parte de A Guerra Civil.(Karl Marx) Mas era necessário voltar a referir aqui brevemente alguns dos seus traços, porque, precisamente na Alemanha, a superstição do Estado passou da filosofia para a consciência comum da burguesia e mesmo de muitos operários. Na concepção dos filósofos, o Estado é "a realização da Ideia" ou o reino de Deus na terra traduzido em linguagem filosófica, o domínio onde a verdade e a justiça eternas se realizam ou devem realizar-se. Daí esta veneração que se instala tanto mais facilmente quanto, logo desde o berço, fomos habituados a pensar que todos os assuntos e todos os interesses comuns da sociedade inteira não podem ser tratados senão como o foram até aqui, quer dizer, pelo Estado e pelas suas autoridades devidamente estabelecidas. E julga-se que já se deu um passo prodigiosamente ousado ao libertarmo-nos da fé na monarquia hereditária e ao jurarmos pela república democrática."
(FRIEDRICH ENGELS: Introdução á Guerra Civil em França )
"Em presença de ameaça de sublevação do proletariado, a classe possidente unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho"
"A constituição comunal restituiria ao corpo social todas as forças até então absorvidas pelo Estado parasita que se alimenta da sociedade e lhe paralisa o livre movimento"
"A unidade da nação não deveria ser quebrada, mas, pelo contrário organizada pela Constituição comunal; ela deveria tornar-se uma realidade pela destruição do poder de Estado que pretendia ser a encarnação desta unidade mas que queria ser independentemente desta mesma nação e superior a ela, quando não era mais do que uma sua excrescência parasitária."
"Em vez de se decidir de três em três, ou de seis em seis anos, qual o membro da classe dirigente que deveria "representar" e calcar aos pés o povo no Parlamento, o sufrágio universal devia servir um povo constituído em comunas, tal como o sufrágio individual serve qualquer patrão à procura de operários, de capatazes ou de contabilistas para a sua empresa."
"A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio universal nos diversos bairros da cidade. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna devia ser, não um organismo parlamentar, mas um corpo activo, ao mesmo tempo executivo e legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a polícia foi imediatamente despojada dos seus atributos políticos e transformada num instrumento da Comuna, responsável e revogável a todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcionários de todos os ramos da administração. Desde os membros da Comuna até ao fundo da escala, a função pública devia ser assegurada com salários de operários. Os benefícios habituais e os emolumentos de representação dos altos dignatários do Estado desapareceram ao mesmo tempo que os altos dignatários. Os serviços públicos deixaram de ser propriedade privada das criaturas do governo central. Não só a administração municipal, mas toda a iniciativa até então exercida pelo Estado, foi posta nas mãos da Comuna."
"Uma vez abolidos o exército permanente e a polícia, instrumentos do poder material do antigo governo, a Comuna teve como objectivo quebrar o instrumento espiritual da opressão, o "poder dos padres"; decretou a dissolução e a expropriação de todas as igrejas, na medida em que elas constituíam corpos possidentes. Os padres foram remetidos para o calmo retiro da sua vida privada, onde viveriam das esmolas dos fiéis, à semelhança dos seus predecessores, os apóstolos."
"A Comuna realizou a palavra de ordem de todas as revoluções burguesas, um governo barato, abolindo essas duas grandes fontes de despesas que são o exército permanente e o funcionalismo de Estado."
"A supremacia política do produtor não pode coexistir com a eternização da sua escravatura social. A Comuna devia pois servir de alavanca para derrubar as bases económicas em que se fundamenta a existência das classes e, por conseguinte, a dominação de classe. Uma vez emancipado o trabalho, todo o homem se torna um trabalhador e o trabalho produtivo deixa de ser o atributo de uma classe."
"A Comuna tinha perfeitamente razão ao dizer aos camponeses: "A nossa vitória é a vossa única esperança".
"O domínio de classe já não se pode esconder sob um uniforme nacional, pois os governos nacionais formam um todo unido contra o proletariado."
"A Paris operária, com a sua Comuna, será para sempre celebrada como a gloriosa percursora de uma sociedade nova. A recordação dos seus mártires conserva-se piedosamente no grande coração da classe operária. Quanto aos seus exterminadores, a História já os pregou a um pelourinho eterno, e todas as orações dos seus padres não conseguirão resgatá-los.
Karl Marx (Guerra Civil em França - 30 de Maio de 1871)

Fonte: História Net - http://www.historianet.com.br

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