Sequoias, as superárvores

Elas chegam a ser as árvores mais altas do planeta. Proporcionam madeira, geram empregos, protegem mananciais e oferecem refúgio para inúmeras espécies da floresta. Isto é, se nós permitirmos.

Joel K. Bourne, Jr.
Foto:
Michael Nichols

Sequoias, as superárvores

A névoa costeira no parque Humboldt, no norte da Califórnia, garante umidade tanto para as árvores gigantescas como para as menores replantadas fora da reserva. As sequoias dependem da névoa para obter 30% de suas necessidades de água.

Em uma encosta na Califórnia repleta de sequoias enfezadas e arbustos venenosos, Mike Fay deu um passo em falso, escorregou e sentiu uma lasca na parte superior de seu pé esquerdo. Depois de andar centenas de quilômetros no mato calçando sandálias, ele estava acostumado com esse tipo de agressão contra seus pés de 52 anos. Mas aquela era a mãe de todas as estilhas. Ela foi desviada por um osso, alojou-se em um tendão e dali se recusou a sair. Por fim, sua parceira de trilha, Lindsey Holm, após vários puxões com um alicate, conseguiu remover a lasca de madeira.
"Foi uma das dores mais fortes que já senti", conta Fay. Para alguém que já foi ferido 16 vezes pelas presas de um elefante, dá para imaginar como o caso era sério. Mas ele enfaixou o ferimento, recolocou a mochila e saiu andando. Depois de três décadas ajudando a preservar as florestas africanas, Mike Fay, biólogo da Wildlife Conservation Society e explorador-residente da National Geographic Society, descobriu uma nova paixão: as sequoias. Sua obsessão pelas árvores gigantes surgiu anos atrás, depois de ter concluído o Megatransect, sua exploração da maior floresta intocada que resta na África. Certo dia, quando dirigia pelo litoral norte da Califórnia, Fay topou com trechos desmatados e florestas secundárias ralas. Em outra ocasião, num parque estadual, o tronco cortado de uma velha sequoia, medindo 1,8 metro, atraiu sua atenção. No cepo avermelhado haviam sido fixadas várias plaquetas e uma delas dizia: "Colombo, 1492".
"A que mais me impressionou estava a 8 centímetros da borda", diz Fay. "’Corrida do Ouro, 1849.’ Foi então que me dei conta de que, nesses derradeiros centímetros que marcaram o fim da existência daquela árvore, havíamos liquidado quase toda uma floresta de 2 mil anos."
No outono de 2007, Fay decidiu ver com os próprios olhos de que modo a árvore mais alta do planeta havia sido explorada no passado e como estava sendo tratada hoje. Sua ideia era percorrer toda a extensão das míticas florestas de sequoia da Califórnia, a fim de descobrir se havia alguma maneira de maximizar tanto a extração de madeira quanto os benefícios ecológicos e sociais. Se esse tipo de manejo fosse possível, acreditava ele, também seria viável em outras regiões do planeta. Ele e Lindsey fizeram fotos e tomaram notas durante os 11 meses da expedição, registrando a fauna e a flora silvestres, assim como as condições da mata e dos cursos d’água. Também conversaram com o povo da região, pessoas dependentes da floresta.
Era um ano auspicioso para se percorrer as florestas. Após décadas de enfrentamentos com ambientalistas e autoridades em razão de sua agressiva política de desmatamento, a madeireira Pacific Lumber Company estava insolvente e passava por complicado processo de reorganização. Mesmo com grande parte da mata primária remanescente sob proteção, as populações de espécies emblemáticas - as corujas-do-mato-setentrionais, as aves marinhas conhecidas como airos-marmoreados e os salmões-prateados - continuavam em declínio, ao mesmo tempo que a crise da economia e o estouro da bolha imobiliária causavam o fechamento de serrarias. Além disso, incêndios devastaram centenas de milhares de hectares. E o turismo estava em baixa.
No entanto, havia algo a mais brotando em meio às árvores. O burburinho entre ambientalistas, engenheiros florestais e até algumas madeireiras era de que o manejo das sequoias havia chegado a uma encruzilhada histórica - momento em que a sociedade poderia deixar para trás as discussões sobre derrubar ou não e adotar outro tipo de manejo, capaz de beneficiar as pessoas, a fauna e o planeta. Quanto mais Fay explorava, mais convencido ficava de que esse era de fato o caminho a seguir. "A Califórnia revolucionou o mundo com o chip de silício", diz Fay. "Agora pode fazer o mesmo com o manejo florestal."
Fay e Lindsey iniciaram sua caminhada pela ex-tremidade sul da floresta. Exceto em pequenos parques, onde toparam com raros trechos de espécimes antigos, eles ziguezaguearam por 2,9 mil quilômetros através de bosques que haviam sido desbastados pelo menos uma vez desde 1850, deixando ilhas de florestas secundárias mais altas em meio a um mar de árvores pequenas.
Foi em um glorioso dia de maio, porém, quando estavam prestes a completar três quartos da travessia, que eles chegaram ao Parque Estadual de Sequoias Humboldt, o qual abriga o maior trecho contínuo - cerca de 4 mil hectares - de floresta original. Os terrenos planos aluviais ao longo de seus córregos e rios constituem hábitat ideal para as árvores - a combinação de solos ricos, água e névoa vinda do oceano resultou ali na floresta mais alta do mundo. Das 180 sequoias maiores que 106 metros que se conhecem, mais de 130 se encontram nessa reserva.

Após cruzarem um riacho cor de esmeralda, escalaram a ribanceira e penetraram na sombra translúcida do bosque mais magnífico que haviam visto até então. Sequoias tão altas quanto os foguetes Saturno usados no programa Apollo brotavam do solo, com as bases chamuscadas pelo fogo. Algumas árvores exibiam cascas espessas e vincadas por grossos filamentos que subiam espiralados para o alto, dando aos troncos uma aparência de doces infantis. Outras tinham enormes cavidades que podiam abrigar 20 pessoas. Copas do tamanho de uma Kombi jaziam entre azedas e samambaias-de-metro depois de caírem de uma altura de 30 andares - vítimas de enfrentamentos titânicos com as ventanias. Não admira que esse mesmo bosque tenha sido escolhido para as filmagens de O Retorno do Jedi e a sequência de Parque dos Dinossauros: se um Tyranossaurus rex ou um Ewok peludo surgissem de repente, ninguém ficaria assombrado.
A magia das sequoias também encanta especialistas em manejo florestal. Como a casca e o cerne são ricos em compostos chamados polifenóis, insetos e fungos que provocam apodrecimento se mantêm distantes das árvores. E, como não há muita resina em sua casca fibrosa, as de maior porte são resistentes ao fogo.
Mas o aspecto que mais surpreende é sua capacidade de produzir brotos sempre que o câmbio - o tecido vivo logo abaixo da casca - fica exposto à luz. Quando o topo da árvore se rompe, um de seus galhos cai ou o tronco é cortado, um novo galho brota do local ferido e cresce com rapidez. Por toda a floresta é possível encontrar imensos cepos rodeados por um grupo de árvores de segunda geração. Essas árvores secundárias são clones da árvore original, e o DNA delas pode ter milhares de anos. Os cones das sequoias são minúsculos - do tamanho de uma azeitona - e só esporadicamente produzem sementes. Em consequência, esses brotos que nascem de cepos foram cruciais para a sobrevivência em épocas de derrubada mais intensa.
Além disso, em função de sua tolerância à sombra e da capacidade de produzir brotos, alguns espécimes ficam dormentes à sombra de suas matrizes por décadas. Mas, assim que uma árvore dominante cai ou é derrubada, rompendo a continuidade do dossel e permitindo que a luz penetre na mata, a sequoia volta a crescer - em um fenômeno conhecido como "liberação".
Durante milênios, as tribos tolowa, yurok e chilula viveram protegidas por uma muralha de sequoias com mais de 90 metros de altura, alimentando-se de salmão, alce e bolotas do carvalho Lithocarpus densiflorus e construindo longas canoas com os troncos tombados na mata.
Esse modo de vida terminou violentamenteem 1848, quando os Estados Unidos tomaram do México a Califórnia e ouro foi descoberto na região. Mas empresários logo concluíram que havia ali uma fonte mais acessível de riqueza: a madeira avermelhada, de fibras paralelas e resistente ao apodrecimento, cuja demanda já estava aquecida em um estado que, uma década depois, iria quadruplicar sua população. Com o tempo, os barões da madeira adquiriram milhares de terras, inaugurando uma era que prossegue até hoje. (Dos 650 mil hectares de florestas de sequoias, 34% pertencem a três empresas, 21% estão sob controle dos governos estadual e federal e o restante fica em pequenas propriedades.)
O terremoto e os incêndios que devastaram San Francisco em 1906 aceleraram a derrubada das árvores. Para suprir a demanda da reconstrução, vilarejos madeireiros brotaram onde havia sequoias, e empresas adotaram processos cada vez mais industriais. Em lugar de parelhas de bois, pequenos motores conhecidos como "burros a vapor" arrastavam as toras, que depois eram retiradas por ferrovias de bitola estreita.
A derrubada também ajudou a deslanchar o movimento conservacionista moderno. Em 1900, cidadãos preocupados fundaram o Sempervirens Club, cujas atividades levaram à criação, dois anos depois, do Parque Estadual de Sequoias Big Basin. Na década de 1920, a organização Save the Redwoods começou a comprar os bosques que se tornariam o esteio dos parques estaduais da Califórnia, uma política de aquisições que prossegue até hoje.
O último e mais intenso surto de desmatamento teve início após a Segunda Guerra Mundial. No início da década de 1950, as serrarias produziam 2 milhões de metros cúbicos de tábuas por ano, um nível que se manteve até a década de 1970. O corte raso e o uso dos enormes tratores amarelos da marca Caterpillar jogaram uma avalanche de terra nos cursos d’água enquanto circulavam pelo dédalo de estradas e trilhas de acesso às áreas de desbaste. Os cardumes de salmão encolheram, e o mesmo se deu com outras espécies que viveram por milênios nos bosques de sequoia. Hoje restam menos de 5% dos cerca de 800 mil hectares de floresta virgem, a maior parte em parques e reservas.

"A batalha para salvar as sequoias já foi travada e só restam as migalhas que caíram da mesa", diz o cientista Steve Sillett. "O desafio é descobrir formas de melhorar o manejo nos 95% da área em que as sequoias estão voltando a crescer."
O salmão e a coruja-do-mato não foram os únicos a sofrer com a destruição. As taxas de extração de madeira despencaram desde a década de 1990, quando já eram apenas a metade dos níveis dos anos 1970. Fay e Lindsey a cada duas semanas visitavam vilarejos para recarregar as baterias de computadores e câmeras e descarregar dados. Rio Dell, uma cidadezinha de 3,2 mil moradores, teve mais sorte que a maioria por ali. Ela fica na outra margem do rio Eel, diante de Scotia, a sede daquela que antes fora uma venerável empresa madeireira: a Pacific Lumber Company.
Em 2008, bem mais que nuvens pairavam sobre uma quermesse em Rio Dell, uma festa de rua anual repleta de competições como corte de toras e corridas com baldes d’água com bombeiros da região. Dias antes, após prolongada disputa em um tribunal federal em função de sua inadimplência, a Pacific Lumber (ou PL, como a empresa é conhecida ali), empregadora de gerações de trabalhadores nos vilarejos, foi vendida. O futuro dela agora está nas mãos da Mendocino Redwood Company (MRC). A única coisa que a maioria das pessoas em Rio Dell sabia era o novo nome da empresa formada com os ativos da antiga PL: Humboldt Redwood Company (HRC). Ninguém tinha a menor ideia de quem conti-nuaria empregado depois que baixasse a poeira.
Lá na rua, na prova de motosserra - na qual dois homens competem para ver quem é mais rápido no corte de uma tora -, Len Nielson, de Fortuna, acaba de vencer Chris Hall, de Rio Dell. No total - levando em conta o avô, o pai, os tios e os primos -, os parentes de Hall trabalharam 142 anos para a PL. Ele próprio começou a derrubar árvores com 15 anos. Hoje trabalha em uma usina de eletricidade. "Estamos satisfeitos com a partida de Hurwitz", diz Hall.
Em qualquer conversa sobre manejo florestal é quase impossível não surgir o nome de Charles Hurwitz. Em 1985, Hurwitz articulou a tomada de controle hostil da Pacific Lumber, que desde 1905 era gerida de modo conservador pela família Murphy. Deixando intocada parte de suas sequoias mais antigas, os Murphy, que haviam aprendido o negócio na prática, tinham como objetivo assegurar a extração de madeira, e os empregos, ainda por muito tempo no século 21. "Quando os Murphy eram donos da PL, eles se preocupavam com os empregados", diz Hall.
Com a aquisição da PL, Hurwitz passou a controlar cerca de 70% das sequoias antigas em mãos de particulares. Na primeira reunião com os funcionários, o empresário disse que acreditava na regra áurea, ou seja, "Quem tem o ouro impõe a regra". Em seguida, Hurwitz passou a desmontar a empresa e a vender seus ativos.
Mas, no que toca às sequoias, Hurwitz adotou como estratégia de negócios a derrubada de todas as árvores em determinada área, com isso dobrando - e até triplicando - a quantidade anual de madeira extraída das reservas da empresa, que chegaram a se estender por 85 mil hectares. Suas tentativas de desmatar o maior conjunto de árvores acabaram lançando um exército de jovens manifestantes nas ruas. Para os defensores da floresta, como se denominavam, essa foi uma época perigosa. A falecida Judi Bari, que participou de uma série de protestos em 1990, teve o quadril destroçado por uma bomba que explodiu em seu carro. Ninguém foi responsabilizado pelo crime.
Em 1998, David Chain, o "Gypsy", e outros manifestantes foram até uma área da PL onde acreditavam que estavam sendo abertas estradas antes do fim da temporada de nidificação dos airos-marmoreados, período no qual não é permitida a derrubada. Um empregado da PL foi filmado enquanto xingava os manifestantes. Em seguida, ele derrubou uma sequoia na direção deles. A árvore atingiu Chain na cabeça, matando-o instantaneamente. O madeireiro nunca foi condenado. Em 1999, os governos estadual e federal adquiriram parte da floresta Headwaters, assegurando sua proteção permanente.
A época de confrontos violentos parece ter ficado no passado. Uma semana após a aquisição da Pacific Lumber pela MRC, Mike Jani, o presidente da empresa, pediu a Fay e Lindsey que se juntassem a ele e aos ativistas ao pé de uma sequoia gigantesca na outra margem do rio Eel, diante de Rio Dell. Jani disse a eles que, sob as novas diretrizes, aquelas árvores não seriam abatidas.

"Lutar pelas florestas primárias é fácil", diz Lindsey. "É uma questão moral." Agora, mobilizar as pessoas em favor de um manejo sustentável de matas secundárias é um desafio bem maior - tem a ver com preservar o ecossistema e, ao mesmo tempo, maximizar a extração de madeira. Para muitos californianos, os terrenos que sofreram corte raso são exemplos de manejo ruim, mas apenas por motivos estéticos. E isso significa ignorar a questão principal, avalia Lindsey, que não é necessariamente contrária ao corte raso. "O que importa é uma silvicultura satisfatória, não a vista que se tem da janela."
A ideia de se explorar uma floresta sem destruí-la não é nova. Albert Murphy estipulou que a Pacific Lumber nunca cortasse mais de 70% de um grupo de árvores nem derrubasse uma quantia maior que aquela que cresceria em um ano - diretrizes seguidas até serem descartadas por Charles Hurwitz.
Agora Jani promete que a nova Humboldt Redwood Company vai retomar o corte seletivo. No condado de Mendocino, sua empresa matriz, a MRC, consolidou as estradas de acesso, replantou os talhões e passou a retirar entre um terço e metade do volume total de madeira produzido em suas terras a cada ano, empregando técnicas variadas de seleção. Com isso, a empresa sacrificou lucros maiores no curto prazo em favor de um investimento de longo prazo na floresta.
A Green Diamond Resource Company é a madeireira que mais adota a prática do corte raso, com mais de 70% de seus 175 mil hectares cobertos por bosques homogêneos que são cortados a cada 50 anos. "Gostamos de florestas com idades homogêneas", analisa Greg Templeton, da Green Diamond. "As sequoias crescem mais rápido quando recebem mais luz."

Na década de 1990, a Califórnia reduziu a área máxima de corte raso de 32 hectares para algo entre 8 e 16 hectares. Os pesados tratores foram substituídos por equipamentos menores e mais leves - veículos com esteiras e pás carregadeiras dotadas de garra articulada. Ao erguer troncos inteiros em vez de arrastá-los pelo solo, não produzem as erosivas trilhas que eram típicas dos grandes tratores nem destroem os córregos. De acordo com Templeton, o uso desses e outros equipamentos, assim como a menor quantidade de estradas e o estabelecimento de zonas-tampão ao longo dos cursos d’água, reduz de modo significativo os sedimentos que chegam aos riachos em que se reproduz o salmão. Encaixadas umas nas outras, as florestas da Green Diamond, com blocos de árvores jovens de até 20 anos separadas por árvores mais antigas nos 45 metros junto aos córregos, serão no futuro "um bom hábitat para a fauna silvestre", diz Neal Ewald, vice-presidente da empresa.

Na década de 1990, Lowell Diller, biólogo sênior da Green Diamond, constatou a alta densidade populacional de corujas-do-mato em matas secundárias. Sua pesquisa indicou que elas sobrevivem em florestas menores desde que haja boa quantidade de árvores antigas com cavidades onde possam fazer seus ninhos. E a mescla de árvores jovens com idades variadas criada pelo corte raso serve como bom hábitat para os ratos silvestres Neotoma fuscipes - a presa predileta.
No entanto, desde 2001, a quantidade de corujas diminui 3% ao ano nas terras da Green Diamond, informa Diller. Parte do problema é um misterioso declínio na população dos ratosNeotoma, assim como a crescente competição de outra espécie de coruja mais agressiva, aStrix varia, que avançou pelo território vinda do leste.
As florestas jovens também geram outras consequências não intencionais para a fauna local. Na primavera, os ursos-negros recorrem em parte à nutritiva seiva sob a casca das sequoias e de outras coníferas. Eles preferem as árvores jovens, que crescem mais rápido, e já acarretaram muitos prejuízos às matas comerciais. No entanto, os ursos só se tornam um problema depois que as empresas começam o plantio de árvores no esquema de safras comerciais.
Mike Fay está convencido de que há uma saída melhor: cultivar árvores de porte maior, que podem maximizar a produção de madeira e, ao mesmo tempo, oferecer hábitat para a fauna. "É como um ecossistema", diz ele. "Todos esses plantios poderiam ser de milho. Mas, se quisermos água pura, salmão, fauna silvestre e madeira de boa qualidade, precisamos de uma floresta."

"Minha ideia é abater menos árvores e obter mais lucro em cada uma", conta Jim Able, que administra pequenas áreas privadas. Able conduz Fay até um talhão que está sob seus cuidados há quase três décadas e que já foi submetido a desbastes seletivos em três ocasiões. Coníferas Pseudotsuga e sequoias de segunda geração, com até 60 metros de altura, erguem-se como flechas na encosta íngreme. O segredo está no critério. Ele e seus colegas marcam todas as árvores que pretendem derrubar, cuidando de nunca passar de 35% do volume do agrupamento arbóreo. Ao contrário do corte das árvores acima de determinado diâmetro, um critério de desbaste seletivo que Able considera pior que o corte raso, pois retira os melhores espécimes e deixa os piores, ele prefere extrair as árvores mais débeis e malformadas, poupando as mais retas e fortes para que prosperem com maior luminosidade. E, ao contrário daqueles que realizam os cortes rasos com intervalos de poucas décadas, Able retorna uma vez a cada década para decidir se vai retomar a extração. Ele nunca retira mais madeira do que a floresta é capaz de repor nesse período, o que significa que as árvores remanescentes - que ele chama de seu "principal" - continuam a aumentar em volume, altura e qualidade. "O que faço é permitir que as árvores velhas cresçam e, enquanto isso, tiro os juros", diz ele.
Alguns chamam isso de silvicultura ecológica, na qual o manejo visa assegurar um hábitat para a fauna e preservar os mananciais, tanto quanto os empregos e a produção. Os 890 hectares da floresta Van Eck administrados pelo Pacific Forest Trust cumprem uma função adicional: graças a seu fenomenal crescimento e sua vida longa, a sequoia forma as melhores florestas para a captura do dióxido de carbono na atmosfera.
A contrapartida financeira poderia ajudar os proprietários a realizarem a transição de um esquema de cortes rasos em intervalos curtos para as rotações de longo prazo, permitindo que as árvores maiores e de melhor qualidade voltassem a dominar a paisagem. Até agora, com base na quantidade estimada de carbono que a floresta Van Eck vai sequestrar ao longo de 100 anos, o Pacific Forest Trust já negociou mais de 2 milhões de dólares em créditos de carbono.
Certa manhã, Mike Fay sobe até o alto de uma árvore a fim de conversar com um cientista. Steve Sillett é famoso por localizar, escalar e estudar árvores gigantes. A 42 metros de altura, Fay passa diante de uma cavidade aberta pelo fogo, capaz de abrigar dois adultos em pé. Com 91,7 metros de altura, essa árvore não é a mais alta do mundo, que tem 115,6 metros, mas, para Sillett, ela é "superviçosa" - com espesso solo de dossel e extraordinária biodiversidade. Do alto, os dois contemplam uma imensidão de sequoias.
O objetivo dos silvicultores sempre foi conseguir que as árvores cresçam o mais rápido possível, de modo a aumentar o retorno dos investimentos e garantir fluxo de madeira para o mercado. Para eles, o momento mais lucrativo para derrubar as sequoias é quando alcançam a idade entre 40 e 50 anos, mesmo que ainda contenham quase só alburno macio e de baixa qualidade, com bem pouco da lendária resistência ao apodrecimento. No entanto, após extrair amostras e medir duas dúzias de árvores - com alturas de 29 a 113 metros desde a base até a copa -, Sillett descobriu que a taxa anual de produção de madeira de uma árvore aumenta com a idade durante pelo menos 1,5 mil anos. E, o que é mais importante, quanto mais velha, maiores são a qualidade e a resistência de seu cerne. Em resumo, as sequoias produzem mais madeira e de melhor qualidade à medida que envelhecem. De acordo com Sillett, isso talvez se aplique também a outras grandes árvores do mundo.
No último dia da trilha, Mike Fay e Lindsey Holm conversaram sobre os tipos humanos que haviam conhecido na travessia. Dois deles eram os irmãos Lud e Bud McCrary, octogenários pioneiros do manejo de árvores. E havia Tim Renner, veterano com aversão a ambientalistas. Renner contou que, certa vez, fora derrubar árvores na floresta de Arcata, em área de manejo que servia de parque. Ele guardava a motosserra quando um jovem cabeludo se aproximou. "Esse garoto vai me azucrinar", pensou.
O rapaz parou e contemplou o trecho da floresta recém-cortado. Então, para assombro de Renner, comentou: "Ficou ótimo! Agora entra mais luz. Acho que fica bem melhor assim".
Ou seja, junto com madeira de alta qualidade, sequestro de carbono, água limpa e hábitat para animais, a silvicultura ecológica pode trazer outro benefício pelo qual as sequoias são famosas: um sentimento avassalador de assombro.

Fonte: National Geographic - http://www.natgeo.com.br/

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