“É preciso recuperar o sentido da educação", diz Mészáros
João Alexandre Peschanski
Em entrevista ao Brasil de Fato, o filósofo húngaro István Mészáros alerta sobre as perversidades do capitalismo contemporâneo.
O mundo está preso a uma espiral destrutiva, a lógica do capital, que pode causar seu desaparecimento. Destrói-se a natureza, pensando que se está estimulando a produção de mercadorias necessárias para o bem-estar humano. Justificam-se ataques militares, que geram massacres, como se fossem as únicas formas de deter a violência. Tais anomalias não revoltam a maioria da população, pois estão encobertas em uma capa que turva sua compreensão. Esta, de acordo com o filósofo húngaro István Mészáros, se chama alienação. “É a perda de controle sobre as atividades humanas que poderíamos e deveríamos controlar”, diz. Mészáros esteve em São Paulo para o relançamento de seu livro A teoria da alienação em Marx (Boitempo Editorial, 2006), quando concedeu uma entrevista ao Brasil de Fato. Falou sobre os aspectos mais perversos do capitalismo e da lógica do capital, fenômenos que insiste em diferenciar. Explicou que, onde há alienação, estão os elementos que podem derrocar a dominação do povo. O alimento das práticas de transformação social é a educação. “É preciso recuperar o sentido da educação, que é conhecer-se a si mesmo, aprender por diferentes meios. O pensamento crítico precisa ser desenvolvido pelo povo, pois só ele tem a força de se libertar”, diz.
Brasil de Fato - Em A teoria da alienação em Marx, o senhor afirma que se tornou uma necessidade histórica problematizar o conceito de alienação. Por quê? István Mészáros - A sobrevivência da humanidade está ameaçada, não só em razão da potência militar de alguns países, mas também em virtude da devastação da natureza. Precisamos modificar, radicalmente, nosso modo de vida ou desapareceremos. Chegamos a esse ponto porque há um poder, do qual estamos alienado, que controla o sistema social, em vez de nós mesmos dirigirmos nosso destino. Poderosos interesses econômicos determinam o modo como devemos nos relacionar com a natureza, nos levando à nossa própria destruição. Na ECO-92, encontro internacional realizado no Rio de Janeiro em 1992, várias promessas foram enunciadas por governos, incluindo o estadunidense, para deter a devastação ambiental. Mas elas são descumpridas, quando o presidente George W. Bush deixa de assinar o Protocolo de Kyoto, apesar de reconhecer que os Estados Unidos são responsáveis por um quarto dos danos à natureza. A devastação é irreversível.
BF - O capitalismo contemporâneo funciona na lógica da produção destrutiva. As máquinas do sistema não páram, mas seu funcionamento é perverso, pois exaurem o planeta. Mészáros - Os Estados Unidos assumem um papel determinante no direcionamento do poder alienado que dirige os destinos da população mundial. A maioria dos outros países não é melhor, mas não consegue competir com o império. Ao mesmo tempo, a condição de superpotência dos EUA é paradoxal, pois o país passa por grandes dificuldades econômicas, manifestadas pela existência de uma dívida catastrófica, que não tem como ser quitada. Os juros só são pagos com dinheiro extraído de outros países, por meio de acordos de comércio injustos ou intervenções militares. Antes, o capitalismo se orgulhava de ser uma destruição produtiva, mas sua manifestação imperialista se sustenta na lógica da produção destrutiva. A alienação, absolutamente dominante, é o alicerce dessa lógica perversa.
BF - Por que decidiu basear sua análise em Os manuscritos econômico-filosóficos, do pensador Karl Marx, de 1844? Mészáros - Essa obra representa o momento da maturação da teoria do capital que Marx vai apresentar em outros textos, como O capital. Ele dizia que o mundo estava caminhando para a capacidade de se autodestruir. Hoje temos poderio militar para nos destruir mais de mil vezes. Há algumas décadas, quando Estados Unidos e União Soviética disputavam a hegemonia mundial, falava-se na teoria da destruição mútua assegurada. O poderio nuclear das duas potências mantinha um certo equilíbrio planetário. Hoje, pelo menos uma dúzia de países têm armas nucleares e a possibilidade de um confronto com bombas atômicas não é descartável. Além disso, outros armamentos, principalmente químicos, põem em risco a humanidade. Teóricos do Pentágono, que não posso chamar de outra coisa senão de loucos, defendem o uso de armas de destruição em massa contra países que resistem à dominação total dos Estados Unidos. O resultado de pensamentos como esse é a situação do Iraque, onde mais de 100 mil pessoas já morreram. A insanidade, com base na influência do Pentágono, se tornou a lógica dominante das relações internacionais.
BF - Como o senhor define alienação? Mészáros - É a perda de controle sobre as atividades humanas que poderíamos e deveríamos controlar. O sistema social é uma construção humana e deveria ser controlado pelos homens, mas está longe de nós, fora de nosso alcance, está alienado. Está, algumas vezes, usurpado.
BF - Como fazer esse controle? Mészáros - Não tem como ser controlado sob a hegemonia do poder do capital. A alienação não é algo mágico, que cai do céu, mas é parte fundamental do que chamo metabolismo social de humanidade. A alienação é um tipo de controlador do capital, que não se preocupa com o destino do planeta, mas com sua própria reprodução, infinita. A ironia da humanidade é que conseguiu desenvolver instrumentos suficientes para manter-se, para que todos tenham o que comer, mas são usados para estimular uma realidade destrutiva. A lógica do capital é estimular a alienação, pois faz com que a população aceite esse paradoxo. A alienação leva à racionalização da insanidade, o que cria a ilusão de ser a ordem correta das coisas. É o modo como se gera a ideologia dominante. Quando a invasão do Iraque começou, a justificativa era a existência de armas de destruição em massa. Três anos depois, vemos massacres, ruínas, sofrimento, mas nada do tal armamento. Essa incongruência foi racionalizada, impedindo que levasse à revolta dos que acreditaram nas justificativas do governo estadunidense. Mesmo assim, a alienação também está no fato de se acreditar que os problemas da humanidade podem ser resolvidos com violência. A mudança dessa dominação, que coloca em risco a sobrevivência do planeta, depende de uma ação revolucionária que vá além da lógica do capital. Dois elementos podem gerar essa ação revolucionária: a defesa da natureza e a resistência ao belicismo.
BF - Em Os manuscritos, Marx fala em diferentes formas de alienação, mas destaca a dos homens em relação a eles mesmos e seus pares. Como pensar em uma ação revolucionária, se estamos dispersos e atomizados? Mészáros - A lógica do capital força uma competição destrutiva dos humanos. A competição, em si, não é ruim. Pode levar à superação de limites e até a novas formas de cooperação. Hoje, a competição é antagônica: alguém tem sempre que ser destruído. Gera uma onda de medo, o que serve de suporte para governos autoritários. A base de nossa vida social, a produção e a reprodução das condições de nossa sobrevivência, fica fora de nosso controle. Aqui, mais uma vez, está a alienação. A própria noção de economia, fundamental para nossa vida, é desvirtuada. Antes, queria dizer poupar. Hoje, é consumir, ao último nível possível. Quebrar a alienação é repor as definições históricas juntas, mostrando a trajetória do conhecimento de cada conceito e prática.
BF - A União Soviética, a China e a Iugoslávia, países que reivindicaram o comunismo, não se preocuparam mais do que os capitalistas com a natureza. Mészáros - Nunca tivemos países realmente comunistas. Esses três países desafiaram, de fato, o capitalismo, mas nunca se desvencilharam do poder do capital. Encontraram outras formas de fazê-lo existir. Um dos países que mais devastou o ambiente foi a União Soviética, que poluiu territórios imensos. A construção do socialismo não pode se desligar da preocupação com a ecologia, base de nossa sobrevivência. A questão não é só derrubar o capitalismo ou os Estados capitalistas, que podem até ser facilmente derrubados, mas criar um novo poder, que enfrente a lógica do capital. A União Soviética é prova de que os Estados capitalistas podem ser derrubados e, depois, restaurados. A raiz do problema não é o capitalismo - um sistema recente dentro da história da humanidade - mas a lógica do capital. Os países citados se diziam comunistas, mas mantiveram a lógica da produção destrutiva. Pensavam que tinham que produzir mais do que os Estados Unidos, controlar mais áreas de influência. Seguiram, na verdade, a mesma lógica. Não foram buscar os sentidos originais dos conceitos e conhecimentos, como a definição antiga de economia ou as contradições apontadas por Marx. Reinterpretaram a alienação, mas mantiveram-na como lógica dominante.
BF - O grande desafio da humanidade é desenvolver uma cultura crítica, no sentido político do termo, em relação às práticas sociais, atualmente alienadas. Mészáros - Não basta manter a crítica em sua cabeça ou para um círculo fechado, é preciso fazer a ponte com a realidade. A crítica tem que ser o alimento para organizar um movimento de massa para transformar a lógica do capital. Isso exige que as pessoas críticas assumam a responsabilidade de mudar os rumos. Mas como isso é possível se apenas alguns estão no comando político e outros estão excluídos das decisões? Como esperar que as pessoas assumam a responsabilidade pelas decisões se nunca fi zeram isso, nem acham que sabem como fazer?
BF - A própria noção de que alguns sabem e outros têm que ser comandados é ideológica. A alienação mantém essa visão, que gera pessoas inseguras, fáceis de manipular. Mészáros - Não se pode perder de vista a necessidade do confronto. Os excluídos têm que questionar a razão de sua exclusão. Daí, vão chegar à conclusão de que não há nada que a justifique.
BF - Como se dá essa tomada de consciência? Mészáros - Não pode se dar simplesmente por um grupo de intelectuais. O pensamento crítico precisa estar ao alcance de e ser desenvolvido por uma massa de pessoas. O problema é que, desde a mais tenra idade, nas escolas, as pessoas são ensinadas a ser pacatas. Muitas pessoas nem têm acesso à educação formal. Formas alternativas de educação devem ser desenvolvidas pelo povo. É preciso recuperar o sentido da educação, que é se conhecer a si mesmo, aprender por diferentes meios, criativos e alternativos. O pensamento crítico precisa ser desenvolvido pelo povo, pois só ele tem a força de se libertar. Não há fórmula mágica, além da necessidade de estimular a criatividade que a alienação tenta destruir.
BF - Marx diz que é preciso buscar o ponto de contradição do sistema, pois só nele está a chave para a emancipação. O senhor está dizendo que é preciso desmistificar os mecanismos de alienação? Mészáros - A alienação só pode ser vencida com educação. Há uma relação dialética, é claro. Não se acaba com a alienação simplesmente passando uma lei: a alienação está proibida. Isso gera mais alienação. A educação precisa ser orientada para uma humanidade sustentável. É uma pedagogia com clara intenção política, a de libertar o povo, mas não é dogmática, pois emana do próprio povo. Ressalto que essa educação é emergencial. É preciso assumir a responsabilidade sobre a transformação dessa perspectiva, não tão distante, de um mundo prestes a desaparecer. O primeiro passo é parar a competição destrutiva e estimular uma interação positiva entre os homens.
Quem é: Autor do clássico Para além do capital, o húngaro István Mészáros nasceu em Budapeste, em 1930, onde se graduou em Filosofia. Integrou a Associação de Escritores Húngaros, editou a revista da Academia de Ciências, Magyar Tudomány, e a revista mensal Eszmélet. Após a revolta de 1956, abandonou o país. Em 1995, foi eleito membro da Academia Húngara de Ciências. Em 2006, recebeu o título de Pesquisador Emérito da Academia de Ciências Cubana.
Protocolo de Kyoto: - Conjunto de metas para a redução de gases poluentes, os quais, acredita-se, estejam ligados ao aquecimento global. O protocolo, assinado por 141 países, mas não os Estados Unidos, principal produtor desses gases, entrou em vigor em fevereiro de 2005, mas não surtiu qualquer tipo de efeito.
Karl Marx: (1818- 1883) - Filósofo e economista revolucionário, nascido na Alemanha, que criou as bases teóricas do comunismo. Suas obras vão desde a crítica ao modo de produção capitalista à estratégia que os trabalhadores, explorados dentro desse sistema, devem assumir para alcançar sua liberdade. Pentágono - Sede do Departamento de Defesa do governo dos Estados Unidos.
João Alexandre Peschanski, periodista de Brasil de Fato, enviado especial a Puerto Príncipe (Haití).
Fonte: Jornal Brasil de Fato - http://www.brasildefato.com.br/
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MIRABEAU BAINY LEAL disse,
14 de Novembro de 2009 @ 17h 49m
COLACIONO ALGUNS TEXTOS QUE, ENTENDO, ENRIQUECERIAM O DEBATE:
A Morte do Diploma e o Nascimento de uma Nova Escola
Dois artigos recentes comentam, por vias diversas, questões relacionadas à universidade brasileira e à conquista do diploma. José Lucas Alves Filho, economista e escritor, defende a abolição do vestibular como única forma de garantir a plena democratização do acesso à universidade, medida que superaria, em sua opinião, a necessidade de se estabelecer uma política de cotas para estudantes negros. Enquanto que o jornalista Daniel Piza defende a obrigatoriedade do diploma universitário para escritores, o que, segundo ele, resolveria o problema do baixo nível de qualidade da literatura nacional.
À parte o caráter de evidente bufonaria do texto assinado pelo colunista de O Estado de S. Paulo, sua idéia revela como o mal do bacharelismo insiste em se difundir entre nós. Na verdade, a obrigatoriedade do diploma é parte das bases de uma cultura nitidamente subdesenvolvida, ávida, por um lado, de uma mobilidade social burocratizada, na qual apenas alguns possam ascender socialmente; e, por outro, de uma reserva de mercado que assegure a poucos escolhidos determinados nichos profissionais, criando, dessa forma, supostas elites. A idéia restringe-se a, em termos gerais, estabelecer um processo educacional que independa de qualidades e méritos, mas que privilegie a mesmice e seja capaz de, ao final, catapultar uma minoria obediente ao promontório dos diplomados, garantindo aos seus membros, como prêmio por sua submissão intelectual, algumas benesses exclusivas. No entanto, a realidade produzida a partir do momento em que o bacharel escuta a porta da graduação se fechar às suas costas é bem outra. Todos os anos as faculdades (públicas e privadas) vomitam milhares de jovens diplomados, mas completamente despreparados. Jornalistas que não sabem escrever, médicos que diagnosticam às cegas e sentem até certo asco ao tocar seus pacientes, advogados em sua maioria barrados nos exames da OAB, professores que escolheram seus cursos porque a nota de corte do vestibular era a mais baixa, engenheiros que sofrem vertigens ao imaginar um exercício de cálculo. Mas todos, absolutamente todos, trazem sob o braço o canudo que os referenda, a chancela da instituição universitária, o certificado produzido em série e que, teoricamente, deveria escancarar a todos as portas do mercado de trabalho.
O que encontram, no entanto, são os índices de desemprego e subemprego - verificáveis com facilidade nos cadernos de economia dos jornais ou nas páginas da Web -, além de demandas profissionais para as quais não estão preparados.
São os frutos de um sistema educacional que ainda não encontrou soluções capazes de, ao menos, minimizar os nossos graves dilemas sociais. E não as encontrará, pois o modelo - fechado, nivelado, elitista e antidemocrático - apenas favorece a preservação das nossas profundas distorções, realimentando as injustiças da sociedade brasileira. Milhares de intelectuais, estadistas, escritores e cientistas - em todas as partes do mundo - foram alunos medíocres, abandonaram a escola, optaram conscientemente pelo autodidatismo, reconheceram a instituição escolar como objeto de escárnio, denunciaram a obtusidade das regras acadêmicas, apontaram o preconceito da maioria dos mestres em relação ao novo, salientaram a mesmice da maior parte das pesquisas desenvolvidas nas universidades, comprovaram a ausência de fomento às Ciências Humanas e a tudo o que represente espírito crítico, e, mais recentemente, revelaram o servilismo de muitos institutos públicos de pesquisa às orientações da iniciativa privada. Mais do que a eliminação do vestibular, portanto, devemos caminhar para a supressão da obsessiva obrigatoriedade do diploma. Ou seja, como afirmou o educador Lauro de Oliveira Lima em um pequeno livro visionário - Mutações em educação segundo Mc Luhan (Editora Vozes) -, cuja 1ª edição data de 1971, devemos buscar a “dessacralização da universidade”. O introdutor do pensamento de Jean Piaget no Brasil já questionava - muito antes do advento da Internet - a forma tradicional da escola, afirmando que “assim como a arte (…) impregna hoje o ambiente sócio-cultural inteiro, assim a informação (privilégio tradicional da escola) popularizou-se sem deixar recintos fechados (…). Ora, sem informação como sua especialização o que será a escola tradicional?” E apontava, com extrema lucidez, para os tempos que estamos vivendo: “É na vida ‘exterior’ que se irá buscar a matéria-prima da educação e o exterior será a própria galáxia.” Em um mundo interconectado pela rede mundial de computadores, as previsões de Lauro de Oliveira Lima transformam-se em profecias: “A velocidade de substituição do conhecimento eliminará a idéia de ensino e desafiará a pesquisa em todos os domínios (…).” Se, antes, o diploma jamais significou a garantia de um profissional competente, nos dias de hoje ele perde completamente a sua função: “O diploma supõe a existência de um ‘corpo de conhecimentos’ estático. Como se sabe, é cada vez menor o período em que todos os conhecimentos são substituídos. O fenômeno da substituição atinge, inclusive, as profissões, que desaparecem e nascem diariamente. Se os ‘ciclos de conhecimento’ são cada vez mais rápidos, não se justifica o diploma. (…) Acelerando-se o processo, chegamos à ‘educação permanente’, incompatível com o diploma.” As conseqüências do esvaziamento do diploma e do modelo educacional de nível superior também ganham a atenção do educador: “Isto implica no fim da ‘era dos bacharéis’, espécie de casta que dominou, durante séculos, a administração pública das nações. Ora, sem diplomas não há escolas… pelo menos, o tipo de escola com que nos acostumamos nos últimos séculos.” De fato, a disseminação da Internet e dos, cada vez mais aperfeiçoados, programas de inclusão digital permitirão dispensarmos a instituição escolar nos moldes como a conhecemos hoje.Lauro de Oliveira Lima vai ainda mais longe: “A escola até hoje só se justifica pelas regalias que traz aos portadores de seus diplomas, uma espécie de ‘carta régia’ que concede privilégios a seus portadores. A ‘regulamentação da profissão’ é a contrapartida da posse do diploma: sem ela o diploma ficaria reduzido a um papel com iluminuras.” O educador, como vemos, antecipou-se ao enterro da instituição escolar que conhecemos, mostrando qual a verdadeira finalidade - elitista e nada democrática - dos diplomas. A escola sobreviverá, no entanto, mas como um centro agregador de novas teorias e de discussões - ou um pólo difusor de idéias. Iremos a esses centros para dizer o que pensamos, a fim de discutir entre iguais, e para colocar à prova o fruto de nossas pesquisas, e não mais para decorarmos o que é certo e o que é errado. Ela perderá completamente seu poder punitivo e castrador. Deixará de domesticar as consciências, tornando-se um espaço de interlocução. As linhas mestras do pensamento continuarão sendo produzidas de maneira disseminada, independente da orientação dos professores ou de uma chancela institucional. O templo do saber não será mais a universidade, mas cada residência - e em cada residência, a consciência de cada pessoa. O estudo se transformará em um acontecimento inusitado, uma descoberta diária, livre das formalizações escolares, que só o banalizam. E avançaremos por ele ao sabor da nossa intuição, da nossa vontade e do nosso prazer. Os escritores continuarão, sim, sem necessitar de diplomas para serem respeitados. E essa maneira de aprender e de exercer diferentes profissões se estenderá a todos, libertando a sociedade do jugo das corporações, dos vestibulares excludentes, da censura camuflada sob a forma de currículos escolares, da disciplina que idiotiza, das regras que nivelam por baixo, dos professores - não todos, é verdade - que apenas sabem descarregar suas frustrações sobre os alunos e dos grupos que transformaram o acesso ao saber em nada mais que uma maneira de obter lucro. Rodrigo Gurgel. NOVAe 2003
“O diploma só deveria ser exigido para quem tem responsabilidades sobre a vida humana: médicos, químicos, físicos, engenheiros. O resto é ridículo. Daqui a pouco exigirão diplomas para músicos, pintores, poetas, escritores. Além do futebol e da música, o jornalismo era uma das poucas profissões acessíveis a um filho do proletariado. Se houvesse exigência de diploma, eu não poderia ser jornalista, pois só pude estudar até a segunda série ginasial. Aliás, nem eu, nem o Jaguar, o Millôr, o Paulo Francis… Hoje, qualquer idiota, que não serve para nada, se forma em jornalismo, e a imprensa é esta que vocês têm aí. Vou responder da seguinte maneira: o diploma ajuda o candidato a jornalista, mas a obrigatoriedade é ridícula e cruel, pois parte do princípio de que só é capaz quem se formou nessas máquinas de ganhar dinheiro e excluir o povo. Einstein não se formou em nada, e o inventor do alfabeto era analfabeto.” Fausto Wolff
Gaiolas e asas
Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram também atacados por eles. Digo “atacados” porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: “Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas.” Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças… E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, dar o programa, fazer avaliações… Ouvindo os seus relatos vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres… Sentir alegria ao sair da casa para ir para escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O seu sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha junto com os tigres. Nos tempos da minha infância eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando… O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca, pisava no poleiro - e era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras, enfiava o bico entre nos vãos, na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensangüentado… Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil. Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas? Me falarão sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, é preciso que todos tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas, eu pergunto: Nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação? O que os burocratas pressupõe sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E para se testar a qualidade da educação se criam mecanismos, provas, avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.
Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é “dígrafo”? E os usos da partícula “se”? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante”? Qual a utilidade da palavra “mesóclise”? Pobres professoras, também engaioladas… São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: “fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender - e aprender à sua maneira… “O sujeito da educação é o corpo porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era “ferramenta” e “brinquedo” do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender “ferramentas”, aprender “brinquedos”. “Ferramentas” são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia a dia. “Brinquedos” são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma. No momento em que escrevo estou ouvindo o coral da 9ª sinfonia. Não é ferramenta. Não serve para nada. Mas enche a minha alma de felicidade. Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo educação. Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo. Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer… Assim todo professor, ao ensinar, teria que perguntar: “Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?” Se não for é melhor deixar de lado. As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há professores que amam o vôo dos seus alunos. Há esperança… Rubem Alves