O macaco do medo
Durante décadas, só circulavam boatos: ele era feroz, sequestrava pessoas. Depois, caçadores europeus descobriram o gorila como troféu. Os zoológicos o exibiam como curiosidade. Pesquisadores finalmente o promoveram ao status de parente dócil do ser humano. A ONU declarou 2009 como o "Ano do Gorila". GEO aproveitou a ocasião para fazer uma crônica abrangente sobre o grande primata.
Richard David Precht

Um último olhar carinhoso: nunca antes Hollywood mostrou momentos tão ternos do gigante, como no filme com Naomi Watts, de 2005. Mas desta vez, como em outras, o King Kong aparece como um matador de pessoas

Uma suave camada de luz recobre a superfície da água. Às vezes, ela se abate, tórrida, sobre um contorno físico e irrompe em pérolas brilhantes, quando a boca aberta de um peixe abocanha alguma coisa no ar, submergindo em seguida.
À sombra, embaixo do telhado do rústico chalé, encontra-se um grupo de observadores, envolto pelo calor que abrasa o dia. De vez em quando, ouve-se um suspiro, mas ninguém levanta; ninguém desvia o olhar dos movimentos visíveis nas encostas do outro lado do braço de rio.
Ali, embaixo de imensas árvores de copas altas, um jovem gorila rodopia sobre o chão, como um dançarino enlevado. Com o maior impulso ele resvala, como que por engano, no poderoso líder do pequeno bando, ali sentado no capim. Antes mesmo que este pudesse esticar o braço para agarrá-lo o jovem desaforado, desaparece no mato, atrás de sua mãe.
A cena se repete sistematicamente, de minutos em minutos, sempre que o líder (um gigante) parece estar descansando novamente. De repente, o animal se levanta. Com os ombros maciços e o corpo compacto inclinados para frente, ele marcha a passos largos, apoiado nos ossos da mão, rumo às moitas, das quais o jovem animal sai disparado, ainda para se refugiar nos braços maternos.
Mas Gorgo, como se chama o grandalhão, passa pela moita e segue em frente. Como se não tivesse outra intenção a não ser fazer uma pequena excursão por seu território - os 2.700 metros quadrados de Pongolândia, no zoológico de Leipzig, na Alemanha.
Jovens gorilas precisam ser educados. Eles têm de aprender as normas que regem os seus grupos, e o respeito que devem ao chefe do clã. E os primatas velhos gostam de exagerar de vez em quando, a ponto de, segundo uma zoopedagoga, se darem ao trabalho de levantar e ameaçar. A classe de "alunos" reunida à sua volta acha que não precisa dessas ajudas gestuais. Os jovens, de 14 anos, já compreenderam que lá fora, na área livre, um bebê-primata de vez em quando é testado e, ocasionalmente, recebe indicações inequívocas de seus limites - até onde ele pode brincar.
Nenhum jardim zoológico do mundo gastou e se empenhou tanto na construção e elaboração de seus piquetes para primatas, como o Zôo de Leipzig. Eles gastaram 15 milhões de euros na selva artificial, de 30.000 metros quadrados, bem no coração da cidade. Esta soma inclui o transplante de árvores adultas, com troncos espessos e copas frondosas, a instalação de cipós sintéticos para balançar e andar dependurado, penhascos íngremes e rochas acidentadas. O parque tem ainda terrenos naturais de pedrisco, areia, terra e grama, além de uma biosfera tropical arejada e bem iluminada, com cachoeiras, nuvens de névoa artificial e… aquecimento do piso!
O motivo desse transtorno todo é que no parque, bem diante dos visitantes, transcorre um projeto de pesquisa único no mundo, concebido para durar décadas. É aqui que cientistas do Instituto Max-Planck de Antropologia Evolutiva estudam, praticamente como se fosse na Natureza, o cotidiano de cinco espécies de "homens-macacos". E, quando não há pesquisadores observando, câmeras inteligentes registram tudo o que se passa entre os animais.
Após centenas de anos cheios de lendas, pré-julgamentos e incertezas quanto à irrestrita transferência de comportamentos humanos, os pesquisadores querem explicar sistematicamente quais são as habilidades reais dos grandes primatas. Eles querem determinar qual é a competência social e o refinamento de raciocínio do Gorilla gorilla - aquele pressuposto primata malvado que, um dia, foi declarado macaco-monstro.
O primeiro pesquisador a avistar um gorila, teria sido o cartaginês Hannon. Por volta de 470 a.C., ele explorava a costa ocidental da África com sua frota, quando a tripulação descobriu uma ilha "com pessoas selvagens". Tratava-se, segundo Hannon "na maioria de mulheres com corpos densamente cobertos de pelos, que nossos intérpretes chamavam de gorilas". Três fêmeas teriam sido aprisionadas. Trezentos anos mais tarde, quando os romanos conquistaram Cartago, eles encontraram duas peles peludas em um templo, escreveu o naturalista Caio Plínio - mais conhecido como Plínio, o Velho.
Depois disso, nada mais se ouviu falar de gorilas na Europa, durante 1700 anos. Somente em 1625, ressurgiram relatos sobre "monstros-macacos". O pirata inglês Andrew Battell, alegou tê-los encontrado nas florestas da África Ocidental. "O monstro maior é chamado pongo; o menor, engeco. Em sua aparência física, pongo se parece com um homem - só que ele se assemelha mais a um gigante de pelos pretos e marrons", escreveu Battell. "Em geral, os pongos se movimentam em grupo e já mataram negros que trabalhavam na floresta. Até os elefantes fogem de seus punhos cerrados e galhos brandidos ameaçadoramente", completou o corsário.
Segundo Battell, teria sido impossível capturar um pongo vivo. Nem dez homens teriam sido capazes de dominar uma criatura dessas. Enquanto, no decorrer dos anos, naturalistas e acadêmicos europeus descobriam mais detalhes sobre o engeco - o chimpanzé -, o incrivelmente forte pongo permanecia um enigma.
Nem lorde Monboddo, um teorizador da evolução humana que viveu no século XVIII, alterou este fato ao citar, em 1774, o trecho da carta de um capitão de navio mercante, que alegava ter visto nas florestas da África Central "uma admirável e aterradora criação da natureza, com mais de dois metros de altura": o impungu, que andava ereto.
Ninguém queria, realmente, acreditar nesses relatos de terceira mão. Principalmente por que o respeitado zoólogo francês Georges Cuvier havia anunciado que, provavelmente, todas as espécies animais de grande porte já haviam sido descobertas. Quem quisesse contradizer esta convicção, teria de apresentar provas convincentes. Tal como a análise do reverendo Thomas Savage.
Em abril de 1847, este missionário norte- americano visitava um colega, perto da foz do Rio Gabão, no então Congo Francês, na África Central. Já no momento de sua chegada à casa missionária, seu olhar foi atraído por um enorme crânio animal - tão imenso como o experimentado naturalista nunca tinha visto antes. Com a curiosidade atiçada, ele imediatamente desconfiou tratar-se de um desconhecido primata ou "homem-macaco".
Os caçadores da região conheciam o animal e prontamente entregaram outras cabeças aos dois missionários. Os religiosos começam a examiná-las.
Apenas algumas semanas mais tarde, suas descrições e ilustrações do crânio chegam à Europa e aos Estados Unidos. Um desses detalhados diagnósticos é disponibilizado ao anatomista Richard Owen, diretor do atual Museu de História Natural, em Londres. Um segundo documento é entregue ao geólogo e naturalista Samuel Stutchbury, de Bristol; um terceiro segue para os Estados Unidos, diretamente às mãos do anatomista Jeffries Wyman, da Universidade de Harvard, perto de Boston.
Os dois missionários não poderiam ter agido mais habilidosamente, de forma a garantir a necessária atenção acadêmica para sua descoberta. Wyman publica, imediatamente, uma breve análise da nova espécie de "homens-macacos". Denomina o animal Troglodytes gorilla e, com isso, aplica, pela primeira vez, o nome do gênero usado até hoje gorilla - embora incluísse esses primatas na família dos chimpanzés.
Ainda em 1847, aparece no Boston Journal of Natural History uma exata dissertação sobre os crânios. Savage e Wyman assinam a matéria. "Eles são incrivelmente selvagens", declara o reverendo, que jamais viu um exemplar vivo da espécie. "Seu comportamento é sempre agressivo. Eles nunca fogem dos nativos; pelo contrário: ao olhar para um ser humano, os animais machos emitem urros aterrorizantes".

O relato, baseado no conhecimento de caçadores africanos, é uma sensação. Para Samuel Stutchbury, contudo, os desenhos craniais são insuficientes - ele quer ossos de verdade. No porto de Bristol, o geólogo interroga reiteradamente capitães de navios mercantes, que operam na costa ocidental da África Central. E por fim tem sorte. No verão daquele mesmo ano, ele recebe três crânios de gorilas, que logo repassa a Richard Owen para classificação. O anatomista londrino denomina a espécie Troglodytes savagei, em homenagem ao missionário Savage.
Contudo, os peritos em anatomia ainda se esforçam para enquadrar os crânios das bestas no sistema taxonômico zoológico. Esqueletos de gorilas já haviam chegado, há tempos, ao Museu de História Natural, de Paris, - e é neles que o zoólogo Isidore Geoffroy Saint-Hilaire reconhece que se trata de representantes de uma espécie completamente nova.
Contudo, os peritos em anatomia ainda se esforçam para enquadrar os crânios das bestas no sistema taxonômico zoológico. Esqueletos de gorilas já haviam chegado, há tempos, ao Museu de História Natural, de Paris, - e é neles que o zoólogo Isidore Geoffroy Saint-Hilaire reconhece que se trata de representantes de uma espécie completamente nova.
O gorila seria apenas mais um macaco grande? Ou um primo do ser humano? Esta questão começa a ser acirradamente debatida, depois que Charles Darwin publica, em 1859, sua revolucionária obra A Origem das Espécies.
Em 1861, outro europeu volta a relatar, em um livro, supostos encontros com gorilas. Filho de um comerciante, Paul Belloni Du Chaillu, que cresceu no estuário do rio Gabão, percebeu que as pessoas anseiam muito mais por mitos e lendas, do que por informações científicas.
Habilidosamente, ele sabe como saciar o desejo dos leitores por histórias de terror - e acrescenta uma dimensão sexual aos seus contos. Du Chaillu cria o clichê do gorila bestial, do abominável "homem das florestas", levado por apetites brutais, que se fixará de um modo tão duradouro na mente das pessoas.
Du Chaillu conta que só enfrentou um animal adulto, munido de um rifle. Segundo ele, "O gorila levantou-se lentamente de seu lugar. Na luz difusa do desfiladeiro, seus olhos sombrios, seu olhar maldoso, seus trejeitos satiricamente laboriosos e irados, ofereciam um aspecto tão atemorizante, que se poderia pensar ter diante de si um demônio saído do inferno. Como é o hábito desses animais, ele avançou subitamente em nossa direção, espancando seu peito com os punhos, e fazendo a floresta estremecer com seus gritos furiosos, cujos ecos ressoavam como trovões".
Habitantes nativos contam a Du Chaillu, que os gorilas matam até elefantes a pauladas; que eles arrastam andarilhos inocentes para o alto das árvores, onde os esganam brutalmente; e que nenhuma mulher está segura de suas perseguições. O fabulista assegura: alguns nativos acham que os gorilas nem são animais, mas almas penadas de pessoas mortas. Devido a inacreditável e impressionante semelhança fisiológica que os gorilas têm em relação aos seres humanos, e por esse motivo, por se sentirem tão próximos a esses animais, muitos nativos, aparentemente, se recusam a comer a carne de gorila.

"De fato, esta criatura é tão parecida com o ser humano, que a mera visão de um gorila morto foi horrível para mim", escreve Du Chaillu. A ele pareceu ter assassinado uma pessoa deformada.
Junto ao público na Europa e nos Estados Unidos, as lendas instigam o enorme desejo de finalmente ver uma dessas criaturas viva. Isto leva comerciantes ao longo da costa ocidental da África a iniciarem uma incessante busca, cujo intuito era arrebatar bebês-gorilas. Mas a captura de um gorila, mesmo que seja um filhote, é negócio caro e complicado.
Caçadores e comerciantes sabem apenas de uma coisa: para conseguir prender um único filhote vivo todos os membros adultos de sua família precisam ser mortos. Nenhum integrante do grupo jamais fugiria, deixando um filhote abandonado à própria sorte.
E mesmo quando uma caçada dessas ocasionalmente dá certo, então começam as verdadeiras dificuldades. Ninguém tem a mais vaga ideia do que os jovens gorilas comem. Por isso, a maioria dos macacos-bebês, que ficou sob cuidados humanos, morreu rapidamente - devido a uma dieta inadequada, ou em consequência do transporte estressante.
Primeiro, era preciso que carroças puxadas por cavalos ou bois levassem a valiosa presa até os portos. Em seguida, vinham as longas viagens por mar, em navios a vela, ou a vapor. Ninguém sabe quantos animais morreram neste traslado; nem quantos chegaram à Europa sem ter sua espécie reconhecida.
O primeiro gorila vivo teria desembarcado no continente europeu no verão de 1876. O berlinense Julius Falkenstein havia acompanhado a Expedição Loango alemã rumo à África Central, como médico militar. No acampamento de um comerciante português, em Pontanegra, ele descobriu um filhote de gorila e o ganha de presente, em agradecimento por seus empenhos médicos.
M’pungu, como é chamado o bebê- -gorila, mostra-se tranquilo, afetuoso, mas principalmente enfraquecido. Durante a maior parte do dia, ele dorme encolhido em algum canto. Paparicado com leite de cabra, bananas, goiabas, laranjas e mangas, M’pungu lentamente fica mais forte. Falkenstein se ocupa do animal e estuda suas motivações e reações: como ele brinca ou se gosta de música. E o médico anota tudo minuciosamente, dando origem às primeiras observações sistemáticas de um gorila.
No dia 29 de junho de 1876, Falkenstein retorna a Berlim, acompanhado de M’pungu. O Aquário Berlinense sob as Tílias, que desde a sua inauguração, em 1869, não exibia apenas animais aquáticos, mas também exóticos espécimes terrestres, torna-se o novo lar de M’pungu. E ele se transforma imediatamente em seu grande astro. A elite acadêmica estuda o primata, tido como "o mais elevado ornamento de nosso Aquário, em honra da Alemanha, para a alegria da humanidade, para a fama da Ciência". O renomado médico (não veterinário) Rudolf Virchow torna-se o clínico pessoal de M’pungu.
Contudo, as acomodações do gorila são escuras e apertadas; a iluminação é feita com lamparinas a gás. Felizmente, como sua jaula está ligada a uma casinha de palmeiras, cuja temperatura é mantida constante por meio de um aquecedor a vapor, o animal dos trópicos pelo menos tem um ambiente quente e úmido.
Após um ano, o número de visitantes do zoológico aumentou em 20%: 330.000 pessoas se acotovelam diante da jaula de M’pungu, que fica exposto diariamente a milhares de olhares perplexos. O diretor Otto Hermes saboreia o estrelato da sensação mundial que habita o seu Aquário, e começa a ser convidado a ministrar palestras - que, no entanto, revelam pouco conhecimento técnico.
Uma coisa, porém, está clara: o pequeno gorila não é nenhum monstro que sequestra mulheres ou quebra ossos humanos, como informam os relatos de Du Chaillu. Revistas alemãs, como a Gartenlaube e Daheim, escrevem reiteradamente sobre o macaco, em tom de simpatia.
Notícias sobre o engraçado comportamento do jovem primata espalham-se por toda a Europa. Milhares de pessoas correm para vê-lo, em 1877, quando ele é exibido pela primeira vez, durante sete semanas, em Londres. Muito antes de sua chegada, enormes placares publicitários anunciam sua presença no Royal Aquarium. Deputados, ministros, e até a família Real, admiram o animal exótico. Sua visita a Hamburgo, no Norte da Alemanha, atrai 40.000 visitantes.
Porém a frequente mudança de lugar, os ambientes desconhecidos e uma alimentação errada prejudicam o exilado da floresta tropical muito além do que qualquer um imagina. No dia 13 de novembro de 1877, mais de um ano e meio depois de sua chegada a Berlim, M’pungu é encontrado morto no chão de sua jaula. Na presença de Rudolf Virchow, seu assistente abre o crânio do animal morto com uma serra, e extrai seu cérebro.
Abalados e desconcertados, os peritos que assistem a intervenção reconhecem imediatamente o quanto a estrutura óssea que sustenta o órgão do raciocínio, com todas as suas depressões, ramificações de vasos sanguíneos e nervos, se parece com o crânio de uma criança.

Guardas florestais de uma Unidade Especial Contra a Caça Clandestina chegaram tarde demais. Agora eles transportam o imenso cadáver de um gorila-das-montanhas, no Parque Nacional de Virunga. Hoje, restam entre 400 e 700 animais dessa subespécie na África Oriental
Os próximos filhotes de gorilas também resistem pouco ao cativeiro em zoológicos europeus. Como até então nenhum pesquisador tinha observado os animais em liberdade durante um tempo mais prolongado, os Zôos simplesmente não dispunham dos conhecimentos técnicos indispensáveis. Assim, até meados do século XX, a conduta desses primatas continuou sendo um desafio para qualquer zoológico.
Além disso, no início do século XX, são apenas os grandes museus de História Natural, da Alemanha, França, Inglaterra, Áustria e dos Estados Unidos que exibem gorilas. Os animais empalhados - mais comuns - também atraem o público. A esta altura já não faltam caçadores, que constantemente reabastecem as instituições com novos exemplares. Os grandes destinos das expedições de caça são as cordilheiras enevoadas de regiões hoje pertencentes ao Congo, Ruanda e Uganda.
Quando o capitão alemão Robert von Beringe abate dois gorilas na extremidade Norte do lago Tanganica, sua façanha é considerada sensacional nos círculos dos exploradores. Até então, nenhum europeu havia presumido a existência de homens- -macacos tão longe, no leste africano. Ao se constatar que um dos animais mortos era uma variante ainda desconhecida - logo identificada pelo zoólogo berlinense Paul Matschie como a rara espécie independente dos gorilas-das-montanhas -, caçadores do mundo todo são atraídos para aquela região fria e úmida.
Entre 1902 e 1925, atiradores brancos matam 54 gorilas numa área de 390 quilômetros quadrados - 25% da população nativa de lá. A expedição que durou mais tempo foi liderada pelo príncipe Guilherme da Suécia. Em 1921, esse grupo abateu 14 gorilas-das-montanhas.

No mesmo ano, o norte-americano Carl Akeley também está caçando nas encostas dos vulcões nos montes Virunga, leste da África. Não é a primeira vez que ele fornece espécies exóticas de animais para a Sala da África do Museu Americano de História Natural, em Nova York. E desta vez a tarefa é abater gorilas-das-montanhas. Suas peles, artisticamente trabalhadas, devem conferir aos dioramas do museu uma aparência de vida real.
Akeley é um homem de cultura universal; um escultor para quem as reproduções - tão artificiais e irreais - dos gorilas nos museus, são um tormento. Ele contesta que esses primatas sejam animais extremamente selvagens, como fora relatado por Savage e Du Chaillu. "Acho que, normalmente, o gorila é uma criatura gentil e decente", afirma ele.
Carl abate cinco dessas criaturas decentes, mas também fotografa animais vivos e até produz um filme de curta- -metragem sobre um grupo de gorilas - o primeiro documento do gênero diretamente oriundo da selva.
Suas experiências e observações não o deixam imune. A caçada com a câmera torna-se mais importante para ele do que a perseguição com o rifle. "No fim, um gorila vivo é mais útil à ciência do que um morto", afirma Akeley. Ele está convicto de que, para o ensino evolucionário, para a Anatomia e Psicologia comparativas, não existem objetos de estudos mais interessantes do que esses primatas.
Mas o tempo urge. Agora, há caçadores demais atrás dos macacos. "Se outros três cavalheiros, como o príncipe da Suécia, caçarem no território de Mikeno (na extremidade Sul do atual Parque Nacional de Virunga), não sobrarão gorilas", profetiza Akeley.
A fim de garantir um refúgio para os gorilas-das-montanhas, Akeley quer preservá-los em uma reserva natural - seguindo o molde do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. Uma instituição dotada de guardas florestais e administradores, pesquisadores de campo e laboratórios. Graças aos seus bons contatos, a Casa Real belga finalmente adere ao plano e, em 1925, é criado oficialmente o Parque Nacional Albert, em Ruanda - uma homenagem ao rei Alberto I da Bélgica.
Esse primeiro parque nacional do continente africano é um sinal óbvio de como a postura dos humanos perante os grandes primatas começa a mudar. Do troféu de caça e objeto de incansável exibição, nasce agora uma espécie de relíquia da natureza - um bem que merece ser protegido.

Nesse meio tempo, na capital da República de Weimar, as pessoas se encantam com "Bobby" - o primeiro gorila do Zoológico de Berlim. Quando o animal chega à Alemanha, em 1928, ele já tem um passado agitado atrás de si. Um fazendeiro africano havia recolhido Bobby quando bebê na selva. Mercadores o levaram ao Sul da França, onde o comerciante de animais alemão Hermann Ruhe soube de sua existência. A próxima parada de Bobby foi um cercado, em Cros de Cagne, perto de Nice, onde Ruhe mantinha residência.
Mas o jovem "homem-macaco" não permanece muito tempo ali. As notícias sobre a dócil aquisição de Ruhe se espalham e, logo, ele recebe um telegrama com a oferta do Zôo de Berlim. Os jornais diários tratam sua chegada à capital alemã, como uma visita de Estado.
O gorila se desenvolve em um animal mais que forte. Ele sofre de obesidade. Em setembro de 1934, uma testemunha escreve: "Bobby, que à sua chegada mal pesava 15 quilos e ainda era um pequeno macaco-bebê, hoje representa uma maravilha do mundo zoológico com seu peso vivo de 222 quilos".
O solitário gigante com alma, que depende do entretenimento com as pessoas, é altamente querido por seus visitantes. Mas o peso de Bobby seria realmente uma sensação mundial? Ou algo comum aos gorilas machos? Em 1934, nenhum diretor de zoológico e nenhum veterinário sabem, ao certo, que peso um animal adulto atinge da selva - e do que ele se alimenta. Com certeza não é apenas de pão (feito com farinha branca) - a dieta favorita de Bobby no Zôo de Berlim. E, assim, também ele perece, vitimado pela dieta equivocada. Na tarde do dia 1o de agosto de 1935, o portentoso primata é encontrado morto em sua jaula.
Finalmente, o animal de 266 quilos é fotografado, medido, e dissecado, no Instituto Patológico Westend. Bobby provavelmente morreu de um colapso pulmonar, porém suas camadas de gordura subcutâneas também indicam um erro alimentar fatal como causa mortis. Uma dermoplastia (reprodução exata e sintética do corpo do animal, recoberta com seu pelo verdadeiro), no Museu de Ciências Naturais, em Berlim, e uma escultura em granito, no Jardim Zoológico da cidade, eternizam o físico impressionante do primeiro gorila macho crescido em um zôo.
Folgados 20 anos depois, 56 gorilas habitam os zoológicos do mundo; em 1960, já são 124. Mas a maioria ainda vive sozinha em suas jaulas. Só muito raramente os cercados são habitados por casais, como no Jardim Zoológico de Columbus, no Estado norte-americano de Ohio. E é ali que, pouco antes do Natal de 1956, acontece um fato inédito: o nascimento do primeiro bebê-gorila em cativeiro. Pela manhã, os tratadores encontram o recém-nascido deitado na palha que cobre o chão da jaula - semimorto. O veterinário consegue salvar "a menininha" através de uma respiração boca a boca. Colo, a menininha, sobrevive e floresce. Hoje, aos 52 anos, ela é a mulher-gorila mais velha do mundo em cativeiro.
Até a Realeza vem visitar
As encostas de um vulcão em Ruanda. O gorila-das-montanhas é quase invisível em meio à folhagem. Há séculos, este é o esconderijo de sua espécie: um espaço vital, sem perigos. Mas aos poucos surgem lendas, e o primata é estigmatizado como "o animal mais aterrador do mundo" - o que provoca uma onda sensacionalista
O fato de a mãe de Colo não saber o que fazer com a recém-nascida, e a constatação de que nem mais tarde ocupou-se dela, foram eventos típicos de uma época em que gorilas cativos cresciam sem contato com seus iguais; portanto, sem modelos que os inspirassem nos cuidados característicos da maternidade.
Algo muito parecido ocorreu em 1958, com a gorila Goma - o primeiro bebê- -gorila a nascer em um zoológico europeu. Goma foi rejeitada pela mãe, e cresceu junto com a família de Ernst Lang, diretor do zôo de Basileia, na Suíça. Lang percebera que um bebê primata precisava de muita atenção. A pequena Goma dormia em um cesto, usava fraldas, e era paparicada como um recém-nascido. Repórteres, fotógrafos e equipes de TV eram visitantes costumeiros na casa dos Lang. Em seu aniversário Goma ganhou um bolo e um pequeno buquê de rosas - que ela devorou avidamente.
Embora a história de Goma seja tocante, ela desnudou o completo despreparo dos tratadores. Na década de 1960, quase todos os gorilas nascidos em zoológicos são criados como crianças - enfiados em vestidos ou calças de couro, enfeitados com chapéus e lacinhos, e apresentados socialmente em reuniões de chás da tarde.
Paralelamente a isso, os primeiros biólogos de campo começam a pesquisar a vida dos gorilas na selva africana. De 1959 a 1961, o norte-americano George Schaller acompanha os gorilas-das-montanhas pelas florestas dos Montes Virunga. Um pouco mais tarde, a zoologista Dian Fossey transforma esta atividade em sua rotina de vida.
Por quase 20 anos ela registrou o comportamento social, os hábitos alimentares e a estrutura familiar dos grandes primatas. E suas conclusões mudaram a imagem da espécie entre os especialistas. Fossey demonstrou que, por natureza, gorilas são animais tímidos, sociáveis e pacíficos. Profundamente afetada pelo caráter das personalidades individuais nos grupos de gorilas, ela forma verdadeiros "laços de amizade" com diversos macacos.
E o que para essa especialista começou como um estudo de campo, transforma-se em uma luta pessoal pela proteção de seus singulares amigos. A norte-americana os defende contra os chamados comerciantes de carne de caça, que perseguem os gorilas e outros animais. Ela também enfrenta funcionários de zoológicos que buscam as reposições de gorilas na África, em vez de investir na formação de famílias a partir desses primatas que se reproduzem em cativeiro.
Assim, no final de 1968, ocorre uma transação comprometedora nas florestas secundárias do Parque Virunga. Em troca de um veículo de tração nas quatro rodas e de uma doação em dinheiro, a administração do Parque promete à cidade alemã de Colônia um jovem gorila-das-montanhas. Um agente do parque encarrega caçadores clandestinos de fazer a captura. Nesta empreitada são mortos dez membros de um clã e oito animais de um segundo grupo. Dois gorilas infantis são terrivelmente feridos - e, por fim, entregues a Dian Fossey para que ela os recupere.
A vidamente ela devora o Buquê de flores
Fossey sabe perfeitamente de que modo - e a que preço - os dois jovens animais - Coco e Pucker -, foram sequestrados de suas famílias. Ela se recusa terminantemente a entregar os órfãos para a administração do Parque. Mas por fim, diante de incríveis pressões e ameaças, é obrigada a ceder. Os dois animais são enviados para Colônia.
Para responder à crítica de que zoológicos contribuem para a extinção de espécies animais, os mais respeitados parques do mundo finalmente declaram desistir da caça de "homens-macacos" selvagens. Inicialmente, a promessa só valeu para a preservação dos orangotangos. Mas em 1973 ela atingiu um patamar de muito maior amplitude, com a entrada em vigor do Acordo de Washington para a Proteção de Espécies Ameaçadas, hoje subscrito pelos governos de 172 países.
Neste documento, os Estados signatários se comprometem a controlar o comércio internacional de espécies vivas da vida selvagem, bem como seus produtos (por exemplo, marfim e peles), para garantir que sua sobrevivência não seja ameaçada. E, desde 1975, também constam dessa lista os gorilas - considerados uma das espécies animais mais ameaçadas do planeta. Desde então, muitos zoológicos se esforçam para se transformar de parques de exibição animal em centros de preservação de espécies. Eles não apenas desistiram do comércio de gorilas selvagens, como também estudam o aprimoramento das condições de cativeiro.
Na década de 1970, as acomodações dos gorilas no Zoológico de Frankfurt, na Alemanha, são consideradas especialmente avançadas. Ali, a instalação externa é cercada com vidro blindado, em vez de grades, e os gorilas vivem aos bandos, em grandes haréns - quase como na selva. Em 2001 é inaugurado o átrio banhado em luz; ao mesmo tempo em que começa a funcionar a generosa instalação ao ar livre de Pongolândia, em Leipzig.
Programas internacionais determinam agora que os 800 gorilas mantidos globalmente em zôos sejam administrados como uma única e numerosa população. De modo algum é permitido que o banco genético desses indivíduos encolha por conta da consanguinidade. Em outras palavras: os zoológicos fazem um intercâmbio constante de animais. A filha do patriarca Gorgo também já foi separada do grupo de Leipzig, e transferida para um outro parque.
Caso seja possível estabelecer uma convivência harmoniosa entre os grupos nas modernas instalações zoológicas, a criação e manutenção dos gorilas não terá problemas. Os animais passam cerca de um terço do dia comendo. Devido a este comportamento de pastagem, os tratadores consideram os gigantes como o gado da espécie dos "homens-macacos".
No passado, a aparência feroz desses primatas desviou a atenção de sua índole mansa. Hoje, é justamente essa docilidade que oculta de um observador inexperiente os comportamentos que revelam, quando e como os gorilas se comunicam entre si. Com isso, a capacidade mental dos grandes primatas também é facilmente subestimada. Para evitar este fato, uma equipe do Instituto Max-Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, ocupa-se intensivamente da "conduta de aprendizagem social e cultural" dos gorilas.
Até pouco tempo, os primatologistas não sabiam que os gorilas - ao contrário do que é conhecido de chimpanzés e orangotangos - são capazes de fabricar e manusear ferramentas.
Em 2005, no Parque Nacional Nouabalé-Ndoki, na República do Congo, uma equipe do instituto de Leipzig observou e fotografou, pela primeira vez, como um gorila usou um pedaço de pau como uma ferramenta de medição. O animal testava a profundidade da água, a partir da segurança da margem de um charco. Um outro gorila usou um pedaço de pau para se apoiar e, com a mão livre, colher ervas que cresciam à distância, em um pântano.
Em 2005, no Parque Nacional Nouabalé-Ndoki, na República do Congo, uma equipe do instituto de Leipzig observou e fotografou, pela primeira vez, como um gorila usou um pedaço de pau como uma ferramenta de medição. O animal testava a profundidade da água, a partir da segurança da margem de um charco. Um outro gorila usou um pedaço de pau para se apoiar e, com a mão livre, colher ervas que cresciam à distância, em um pântano.
Koko forma frases compostas de três a seis palavras, inventa metáforas, como "tigre branco", para descrever uma zebra, e define aquilo que a distingue dos seres humanos: "Koko gorila". Em seres humanos, um QI (Quociente de Inteligência) de 100 é considerado normal - o de Koko varia entre 75 e 95.
Francine Patterson é professora de Koko há 30 anos. Durante esse tempo, ela colecionou muitos exemplos que revelam algo sobre a mente do animal. Por exemplo, o que os gorilas dizem quando estão contentes? - "Abraçar gorila". O que falam quando se irritam? - "Privada diabo". E o que pensam sobre a morte? - "Aconchegante, caverna. Até logo".
Apesar disso, o Projeto Koko, o mais longo estudo ininterrupto da comunicação entre homem e "homem-macaco", está sendo questionado. O argumento é que o desempenho de um animal, que cresce sob o estímulo de um ser humano, não é típico de sua espécie.
O mesmo também deve se aplicar à cientista que passou décadas em companhia de um único gorila. O comportamento de Francine Patterson, e o que ela concluiu a partir de suas pesquisas, está fortemente influenciado pelo relacionamento íntimo que manteve com o "homem-macaco" - e não resiste completamente a um exame científico.
Há, não obstante isso, um reconhecimento importante, que não se pode deixar de fazer. O fato de essa intimidade entre o humano e o animal ser possível. A percepção de que, atrás da protuberante testa de um gorila existe aquela capacidade cognitiva de intuição, que lhe permite aceitar e absorver o contato intensivo com uma pessoa. Koko, a embaixadora dos gorilas, é a prova de que nós, com os nossos esforços de compreensão, estamos no caminho certo.
Fonte: Revista GEOUol - http://revistageo.uol.com.br/
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