Arquivo de Janeiro de 2010

David Harvey defende transição anti-capitalista

Após a derrocada da União Soviética e dos regimes socialistas do Leste Europeu, e a queda do Muro de Berlim, falar em anti-capitalismo tornou-se proibido. O comunismo fracassou, o capitalismo triunfou e não se fala mais no assunto: essa mensagem cruzou o planeta adquirindo ares de senso comum. Mas os muros do capitalismo seguiram em pé e crescendo. E excluindo, produzindo crises, pobreza, fome, destruição ambiental e guerra. Para David Harvey, o capitalismo entrou em uma fase destrutiva que recoloca a necessidade de se voltar a falar de anti-capitalismo, socialismo e comunismo.

Marco Aurélio Weissheimer

Por que é preciso pensar em uma transição anti-capitalista? E o que seria tal transição? A participação de David Harvey, professor de Geografia e Antropologia da City University, de Nova York, no seminário de avaliação de 10 anos do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, foi uma tentativa de responder estas perguntas. A resposta, na verdade, inclui, em primeiro lugar, uma justificativa da pertinência das perguntas. Após a derrocada da União Soviética e dos regimes socialistas do Leste Europeu, e a queda do Muro de Berlim, falar em anti-capitalismo tornou-se proibido. O comunismo fracassou, o capitalismo triunfou e não se fala mais no assunto: essa mensagem cruzou o planeta adquirindo ares de senso comum. Mas os muros do capitalismo seguiram em pé e crescendo. E excluindo, produzindo pobreza, fome, destruição ambiental, guerra…
E eis que, nos últimos anos, voltou a se falar em anti-capitalismo e na necessidade de pensar outra forma de organização econômica, política e social. David Harvey veio a Porto Alegre falar sobre isso. Para ele, a necessidade acima citada repousa sobre alguns fatos: o aumento da desigualdade social, a crescente corrupção da democracia pelo poder do dinheiro, o alinhamento da mídia com este grande capital (e seu conseqüente papel de cúmplice na corrupção da democracia), a destruição acelerada do meio ambiente. Esse cenário exige uma resposta política, resume Harvey. Uma resposta política, na sua avaliação, de natureza anti-capitalista. Por que? O autor de “A produção capitalista do espaço” apresenta alguns fatos de natureza econômica para justificar essa afirmação.
O capital fictício e a fábrica de bolhas
O capitalismo, enquanto sistema de organização econômica, está baseado no crescimento. Em geral, a taxa mínima de crescimento aceitável para uma economia capitalista saudável é de 3%. O problema é que está se tornando cada vez mais difícil sustentar essa taxa sem recorrer à criação de variados tipos de capital fictício, como vem ocorrendo com os mercados de ações e com os negócios financeiros nas últimas duas décadas. Para manter essa taxa média de crescimento será preciso produzir mais capital fictício, o que produzirá novas bolhas e novos estouros de bolhas. Um crescimento composto de 3% exige investimentos da ordem de US$ 3 trilhões. Em 1950, havia espaço para isso. Hoje, envolve uma absorção de capital muito problemática. E a China está seguindo o mesmo caminho, diz Harvey.
As crises econômicas nos últimos 30 anos, acrescenta, repousam (e, ao mesmo tempo, aprofundam) na disjunção crescente entre a quantidade de papel fictício e a quantidade de riqueza real. “Por isso precisamos de alternativas ao capitalismo”, insiste. Historicamente essas alternativas são o socialismo ou o comunismo. O primeiro acabou se transformando em uma forma menos selvagem de administração do capitalismo; e o segundo fracassou. Mas esses fracassos não são razão para desistir até por que as crises do capitalismo estão se tornando cada vez mais freqüentes e mais graves, recolocando o tema das alternativas. Para Harvey, o Fórum Social Mundial, ao propor a bandeira do “outro mundo é possível”, deve assumir a tarefa de construir um outro socialismo ou um outro comunismo como alternativas concretas.
A irracionalidade do capitalismo
“Em tempos de crise, a irracionalidade do capitalismo torna-se clara para todos. Excedentes de capital e de trabalho existem lado a lado sem uma forma clara de uni-los em meio a um enorme sofrimento humano e necessidades não satisfeitas. Em pleno verão de 2009, um terço dos bens de capital nos Estados Unidos permaneceu inativo, enquanto cerca de 17 por cento da força de trabalho estava desempregada ou trabalhando involuntariamente em regimes de meio período. O que poderia ser mais absurdo que isso!” – escreve Harvey em seu livro “O enigma do capital”, que deve ser lançado em abril de 2010 pela editora Profile Books. Ele descarta, por outro lado, qualquer inevitabilidade sobre o futuro do capitalismo. O sistema pode sobreviver às crises atuais, admite, mas a um custo altíssimo para a humanidade.
Não basta, portanto, denunciar a irracionalidade do capitalismo. É importante lembrar, assinala Harvey, o que a Marx e Engels apontaram no Manifesto Comunista a respeito das profundas mudanças que o capitalismo trouxe consigo: uma nova relação com a natureza, novas tecnologias, novas relações sociais, outro sistema de produção, mudanças profundas na vida cotidiana das pessoas e novos arranjos políticos institucionais. “Todos esses momentos viveram um processo de co-evolução. O movimento anti-capitalista tem que lutar em todas essas dimensões e não apenas em uma delas como muitos grupos fazem hoje. O grande fracasso do comunismo foi não conseguir manter em movimento todos esses processos. Fundamentalmente, a vida diária tem que mudar, as relações sociais têm que mudar”, defende.
“Precisamos falar de um mundo anti-capitalista”
Harvey está falando da perspectiva de um possível fracasso do capitalismo, de um ponto de instabilidade que afete as engrenagens do sistema. Mais uma vez, ele não aponta nenhuma inevitabilidade ou destino histórico aqui. Trata-se de um diagnóstico sobre o tempo presente. “O capitalismo entrou numa fase de cada vez mais destruição e cada vez menos criação”. E quais seriam, então, as forças sociais capazes de organizar um movimento anti-capitalista nos termos descritos acima? A resposta de Harvey é curta e direta: Hoje não há nenhum grupo pensando ou falando disso. “As ONGs e movimentos sociais que participam do Fórum precisam começar a falar de um mundo anti-capitalista. A esquerda deve mudar seus padrões mentais. As universidades precisam mudar radicalmente”.
A justificativa desses imperativos? Harvey dá mais um exemplo da “racionalidade” capitalista atual. Em janeiro de 2008, 2 milhões de pessoas perderam suas casas nos EUA. Essas famílias, em sua maioria pertencente às comunidades afroamericanas e de origem hispânica, perderam, no total, cerca de 40 bilhões de dólares. Naquele mesmo mês, Wall Street distribuiu um bônus de 32 bilhões de dólares para aqueles “investidores” que provocaram a crise. Uma forma peculiar de redistribuição de riqueza, que mostra que, nesta crise, muitos ricos estão fincando ainda mais ricos. “Estamos vivendo um momento de negação da crise nos EUA. Os trabalhadores, e não os grandes capitalistas, é que estão sendo apontados como responsáveis. É por isso que precisamos de uma transformação revolucionária da ordem social”.

Fonte: Agência Carta Maior - http://www.agenciacartamaior.com.br

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Um olho na Europa. E o outro, no poder

Pesquisa investiga a função social do ensino secundário nos períodos colonial e imperial.

MANUEL ALVES FILHO

No Brasil, durante os períodos colonial e imperial [século XVI ao XIX], o ensino secundário cumpriu a função fundamental de formar quadros dirigentes e intelectuais afinados com os interesses das classes hegemônicas. A conclusão é da educadora Solange Zotti, que defendeu recentemente tese de doutorado sobre o tema na Faculdade de Educação (FE) da Unicamp. De acordo com a pesquisadora, o principal papel cumprido por esse nível de ensino era o de preparar os filhos da elite aristocrática para o ingresso no ensino superior, notadamente em países da Europa. O trabalho foi orientado pelo professor José Luís Sanfelice.

Em sua pesquisa, Solange Zotti investigou a função social do ensino secundário no contexto da formação da sociedade capitalista brasileira. No período tomado para análise, lembra, a estrutura econômica do país baseava-se na produção agrícola e extrativista e no uso da mão-de-obra escrava. Tal modelo, por sua vez, estava submetido aos interesses de Portugal e do capitalismo europeu de forma geral. Criado e consolidado nesse panorama, o ensino secundário foi organizado de modo a também servir aos projetos dos grupos que detinham o poder, tanto na fase colonial quanto na imperial. “Não por acaso, a educação no Brasil foi estruturada a partir da transplantação de padrões da cultura européia”, afirma a autora da tese.

Uma das marcas desse ensino, prossegue a educadora, era o seu caráter preparatório, visando principalmente ao ingresso dos estudantes no ensino superior. “Justamente por isso as disciplinas eram majoritariamente da área de humanidades, como literatura e idiomas, porque constituíam o conhecimento básico para o acesso às demais carreiras”, explica. Solange Zotti assinala que a origem do ensino secundário está no trabalho realizado pelos jesuítas, que chegaram ao Brasil em 1549, sendo o primeiro grupo liderado por Manoel de Nóbrega. Embora a missão principal dos religiosos naquela época fosse a catequização dos indígenas, eles também criaram um sistema de educação chamado de “primeiras letras”, equivalente ao ensino fundamental (séries iniciais) de hoje. O objetivo era fazer com que os jovens aprendessem a ler, a escrever e a fazer contas.

Os estudantes que se destacavam eram então selecionados para aprender latim, atividade que correspondia ao ensino secundário. Posteriormente, eram encaminhados a Portugal, onde dariam continuidade aos estudos e se formariam sacerdotes ou optariam por outras profissões. Numa segunda fase, com o advento dos colégios jesuítas, a educação passou a ser mais organizada no país. O currículo foi ampliado e o modelo contemplou a evolução seriada. “Ainda assim, a base do curso era humanística, pois era fundada em disciplinas como literatura, latim e retórica”, destaca Solange Zotti. Os alunos, de acordo com ela, eram os filhos dos colonos e das camadas dirigentes que tinham o papel de articular os interesses metropolitanos.

Novos quadros
A autora da tese observa que esse tipo de educação atendia tanto aos interesses da Igreja, empenhada em formar novos quadros e em expandir sua proposta evangelizadora, quanto do Estado português, que queria preservar a sua condição hegemônica. O atrelamento do trabalho jesuítico ao ideal político e econômico de Portugal foi de tal ordem que os religiosos, com raras exceções, não se posicionaram contra o regime escravagista.  “Como a escravidão era defendida como uma necessidade pelo Estado português, os jesuítas se adaptaram à situação. Nesse aspecto, o trabalho de catequização e educação realizado pelas ordens religiosas contribuiu para a concretização dos objetivos da colonização”, reflete Solange Zotti.

De acordo com ela, o sistema educacional implantado no Brasil era exatamente igual ao praticado em Portugal. Houve, reforça a educadora, uma “transplantação” da cultura européia em geral e portuguesa em particular para o país. A intenção era transformar a realidade local a partir dos conceitos estrangeiros. Essa lógica, conforme a autora da tese, sobreviveu ao fim dos trabalhos dos jesuítas em terras brasileiras, determinada pela Reforma Pombalina, empreendida por Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal. Naquele instante, a nação portuguesa começava a questionar o poder da Igreja na Europa e a sua própria situação política e econômica, visto ser o Estado menos desenvolvido do Continente.

Como consequência dessa reavaliação, o bloco europeu passou a entender que o desenvolvimento econômico estava diretamente associado ao avanço da ciência. Assim, a razão, o espírito crítico e o livre pensamento, princípios que não eram defendidos pela Igreja, ganharam relevância. “Diante disso, o Estado Português assumiu os rumos da educação no Brasil. Os colégios jesuítas foram extintos e o modelo de ensino criado pelos religiosos foi substituído por outro que instituía as aulas régias, compostas por disciplinas isoladas. No início, esse projeto enfrentou várias dificuldades, inclusive a falta de professores e a escassez de bibliografia adequada à nova proposta pedagógica”, conta Solange Zotti.

Apesar da mudança de foco, o ensino secundário permaneceu tendo um perfil fortemente humanista e seguiu servindo como preparatório ao curso superior. Também continuou voltado aos filhos das elites locais.  Com a chegada da família real ao Brasil, em 1808, consolidou-se o modelo de aulas régias. O conteúdo das disciplinas, assinala a pesquisadora, obedecia às determinações dos cursos superiores, sobretudo Direito e Medicina. “Na época, os estudantes saídos do ensino secundário faziam provas, semelhante ao vestibular atual, para comprovar o conhecimento adquirido e assim poder dar prosseguimento aos estudos em nível superior”, diz.

Mesmo com as especificidades de cada uma das conjunturas consideradas no trabalho acadêmico, reafirma Solange Zotti, é possível concluir que o ensino secundário no Brasil cumpriu, ao longo de todo o período tomado para análise, a função básica de formar quadros que estivessem comprometidos com os interesses dos detentores do poder político e econômico. “Esse projeto certamente ajudou a difundir uma visão de mundo desse grupo hegemônico. Tratou-se, em última análise, de uma função coerente com o modelo de sociedade de então, fortemente baseada nas atividades agrícola e extrativista. Dentro dessa lógica, na qual o regime escravista era encarado como necessário ao desenvolvimento, a educação era tida como um instrumento para preparar aqueles que teriam a missão de ocupar as posições de comando no país”.

Um ponto interessante levantado pela educadora refere-se ao fato de a educação atual guardar, de alguma forma, similaridades com a que era oferecida nos períodos colonial e imperial. “As críticas de hoje, de que o ensino secundário está mais preocupado com a preparação do jovem para o vestibular do que com o seu desenvolvimento intelectual, são semelhantes às que encontrei nos documentos oficiais que balizaram meu trabalho, como relatórios de ministros do Império”, compara Solange Zotti.   

Fonte: Jornal da UNICAMP - http://www.unicamp.br/

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O debate da política externa: os progressistas

Não é possível conceber uma política externa progressista e inovadora que não questione e enfrente os consensos éticos e estratégicos das potências que controlam o núcleo central do poder mundial.

José Luís Fiori

Mas, afinal de contas, professor, o que é ser conservador em matéria de política externa? E o que viria a ser uma política externa não conservadora?”
J.S.: Leitor do Valor Econômico

As grandes utopias do século XIX revolucionaram as idéias e os objetivos da política internacional, logo no início do século XX. Mas, nas décadas seguintes, seu impacto sobre a política externa das grandes potências, foi bem menor do que as expectativas criadas, num primeiro momento, pelas propostas do presidente americano, Woodrow Wilson, na Conferência de Paz de Paris, depois da 1º Guerra Mundial: cosmopolitas, anti-colonialistas e favoráveis a um sistema mundial de segurança, liderado pela Liga das Nações. E pelas idéias e propostas, quase simultâneas, de Vladimir Lênin, já na condição de chefe do estado russo: internacionalistas, anti-imperialistas e favoráveis à paz e à auto-determinação dos povos.
Um programa convergente, em muitos pontos, e absolutamente inovador, que se transformou na bandeira de luta das duas grandes potências, contra o velho sistema europeu de equilíbrio de poder, e contra o liberalismo colonialista, liderado pela Inglaterra e pela França. Mas depois da morte de Wilson e de Lênin, já nos governos de Warren Harding e Joseph Stalin, os Estados Unidos e a União Soviética adotaram políticas externas orientadas por seus interesses nacionais e pelos seus objetivos internos imediatos, na contramão do discurso de seus antigos governantes.
E depois da 2º Guerra Mundial, e da constituição do “duopólio” que geriu o status quo internacional durante a Guerra Fria, entre 1946 e 1991, as idéias libertárias e internacionalistas do início do século, se transformaram num instrumento ideológico esclerosado, na competição entre as duas grandes potências. Mas apesar disto, estas idéias se difundiram pelo mundo junto com a expansão progressiva do poder americano e soviético, e acabaram se transformando no senso comum pouco inovador, do discurso oficial de todas as lideranças políticas mundiais, e de todos os organismos multilaterais criados depois da guerra.
Por fim, depois da vitória americana, e do fim da Guerra Fria e da União Soviética, em 1991, a velha utopia liberal-democrática se transformou na linguagem imperial do poder vitorioso, válida urbe et orbi. Como se tivesse se estabelecido – por um passe de mágica - uma coincidência absoluta entre os interesses dos Estados Unidos e os interesses do resto da humanidade, e entre as posições dos países que desejam manter, e dos que desejam mudar o atual status quo mundial.
Esta história do século XX, também diz respeito à América Latina, e deixa uma lição importante, para o debate atual, sobre o futuro da política externa brasileira. Os Estados Unidos e a União Soviética sempre tiveram sua própria teoria e sua própria história das relações internacionais, e foram inovadores enquanto lutaram contra a ordem internacional liderada pelo Poder Britânico. E é isto, em última instância, que define a fronteira entre uma política externa conservadora, e uma política progressista. O ponto de partida é simples: um estado e um governo que se proponham expandir o seu poder internacional, inevitavelmente terão que questionar e lutar contra a distribuição prévia do poder, dentro do próprio sistema.
Como condição preliminar, eles terão que ter sua própria teoria e sua própria leitura dos fatos, dos conflitos, e das assimetrias e disputas globais, e de cada um dos “tabuleiros” geopolíticos regionais ao redor do mundo. Para poder estabelecer de forma sustentada e autônoma, os seus próprios objetivos estratégicos, diferentes das potências dominantes, e conseqüentes com sua intenção de mudar a distribuição do poder e da hierarquia mundial. Por isso, não é possível conceber uma política externa progressista e inovadora que não questione e enfrente os consensos éticos e estratégicos das potências que controlam o núcleo central do poder mundial.
Neste campo, não estão excluídas as convergências e as alianças táticas, e temporárias, com uma ou várias das antigas potências dominantes. Mas toda política externa progressista e inovadora, sabe que está e estará em permanente competição com estas potências, e que terá que assumir as suas divergências, com a visão de mundo, com os diagnósticos e com as estratégias defendidas por elas, seja no espaço regional, seja a escala global. Isto não é uma veleidade irrelevante, nem é o fruto de uma animosidade ideológica, é uma conseqüência de uma “lei” essencial do sistema inter-estatal, e de uma determinação que é em grande medida geográfica, porque o objetivo do “estado questionador”, é ampliar sempre e cada vez mais, a sua capacidade de decisão e iniciativa estratégica autônoma, no campo político, econômico e militar, para poder difundir melhor e aumentar a eficácia de suas idéias e propostas de mudança do sistema mundial.
Do lado oposto, fica mais fácil de definir e identificar as características essenciais de uma política externa conservadora. Em primeiro lugar, os conservadores não se propõem mudar a distribuição do poder internacional, nem questionam a hierarquia do sistema mundial. Sua reação frente aos desafios colocados pela agenda internacional, é quase sempre empírica, isolada, e moralista. Os conservadores não têm uma teoria nem uma visão histórica própria do sistema internacional e dos seus acontecimentos conjunturais, e são partidários, em geral, de uma política externa de baixo teor, sem grandes iniciativas estratégicas nacionais, e com uma alta taxa de submissão aos valores, juízos, e decisões estratégicas das potencias dominantes. Por isto, consciente ou inconscientemente, os conservadores delegam a terceiros, uma parte da soberania decisória de sua política externa, e acabam assumindo, invariavelmente, uma posição subalterna dentro da política internacional.
Como foi o caso, na década de 1990, da política externa do Brasil, e dos demais países da América do Sul. Uma década que passou para a história, sob o signo neoliberal da “diplomacia descalça”, do governo brasileiro da época, e da proposta argentina de estabelecer “relações carnais”, com os Estados Unidos.

Fonte: Agência Carta Maior - http://www.agenciacartamaior.com.br

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Tirar dos velhos para dar aos jovens!

Remi Castioni

Você não leu errado o título deste artigo. Tanto eu como vocês ficaríamos estarrecidos em pensar algo semelhante, mas não é o que se passa na Itália. No último domingo, 24 de janeiro, enquanto os italianos se preparavam para assistir ao clássico Internazionale vs. Milan, os jornais daquele país estampavam na primeira página a polêmica proposta de Renato Brunetta, ministro da Administração Pública, o equivalente ao nosso Ministério do Planejamento.

O ministro propõe repassar aos jovens italianos até 500 euros mensais se reduzidas as pensões dos aposentados. É tirar dos velhos para dar aos jovens com a justificativa de reativar a velha economia italiana abalada pelo impacto chinês, que colocou em cheque o sistema de distritos industriais, e pela crise mundial, que revelou a enorme dependência que os italianos têm da economia alemã. Dias antes, o mesmo ministro havia proposto uma lei para compulsoriamente retirar de casa os jovens que completem 18 anos e que vivam sob as expensas dos pais.

Dada a reação que a proposta teve, o governo tratou de esclarecer em nota que se tratava de uma iniciativa pessoal e que não tinha o seu aval, embora dias antes no Palácio Farnesina (o Itamaraty deles) o primeiro-ministro Silvio Berlusconi tenha dito que Brunetta era um ótimo ministro.

A proposta revela o embate geracional que existe na Itália e que deverá perdurar por vários anos. Os últimos dados divulgados pela OCDE mostram que a situação dos jovens é mais crítica no país da bota. Ao redor de 60% dos desempregados têm até 34 anos. A pergunta que se fazem os italianos é como a parcela da população menor demograficamente é a mais penalizada em termos de oferta de empregos. Os dados de 2009 revelaram que a taxa de desemprego na Itália não é tão alta assim, 8,3%. Porém, entre os jovens houve uma penalização, dada a baixa oferta de empregos na faixa etária até os 34 anos.

As propostas do ministro Brunetta anteveem a dificuldade de se lidar com tamanho desafio. As justificativas para essa medida são de que a Itália, mesmo sendo o terceiro país que concentra a taxa de idade mais elevada do mundo, só perdendo para o Japão e para a Alemanha, poderá estimular uma geração de dependentes de pensões dos seus pais. O ministro foi taxativo: o cobertor é curto e não dá para todos. Com a medida pretende-se dar aos jovens oportunidades para serem eles próprios os condutores do seu destino.

Políticas para os jovens já são uma constante na Europa há mais de uma década. No Brasil, o tema é parte da agenda atual, inclusive com uma Secretaria Nacional alojada na Secretaria Geral da Presidência da República. No nosso caso, guardadas as devidas diferenças com a Itália, os jovens também são altamente penalizados. A taxa de desemprego entre os jovens é o dobro da taxa total de desemprego.

Quando se combinam jovens e perifeira das grandes cidades, o problema salta aos olhos. Na Ceilândia, por exemplo, que concentra 1/5 da população do DF, 67% dos desempregados são jovens e 52% dos que têm entre 15 e 29 anos não têm o ensino médio completo. O tema do emprego dos jovens que tomam conta da agenda italiana nos dias de hoje será nosso objeto nos nossos próximos 20 anos, quando teremos uma pressão populacional dessa faixa etária.

Seria bom o Brasil começar a se preparar para debates desse tipo que assolaram o domingo dos italianos. Particularmente para os torcedores do Milan, que perderam o clássico e deram adeus às chances de vencer o campeonato.

Fonte: Universidade de Brasília - http://www.unb.br/

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Estudo de genoma traz estimativa de censo populacional dos primeiros humanos

Nicholas Wade

A partir da composição de apenas dois genomas humanos, geneticistas computaram o tamanho da população de humanos há 1,2 milhão de anos, da qual todas as pessoas no mundo descendem.

Eles estimaram o número em 18.500 pessoas, mas isso se refere apenas a indivíduos em condição de reprodução, a população "efetiva". A população real pode ter sido cerca de três vezes maior, ou 55.500 pessoas.

Estimativas similares para outros primatas da época correspondem a 21 mil chimpanzés e 25 mil gorilas. Em termos biológicos, ao que parece, os humanos não eram uma espécie com muito sucesso, e a estratégia de investir em cérebros maiores do que os colegas primatas ainda não produziam nenhuma grande recompensa. A população humana só atingiu níveis altos após o advento da agricultura.

Geneticistas há muito tempo sabem que os ancestrais dos humanos modernos correspondiam a apenas 10 mil indivíduos, que viveram em alguma época nos últimos 100 mil anos. O número extremamente baixo sugere que alguma catástrofe, como doença ou mudança climática induzida por um vulcão, tenha levado os humanos à beira da extinção.

No entanto, se a nova estimativa estiver correta, o tamanho da população humana tem sido pequeno e razoavelmente constante ao longo da maior parte dos últimos milhões de anos, excluindo-se a necessidade de buscar uma catástrofe como justificativa.

A estimativa, publicada numa edição recente do jornal The Proceedings of the National Academy of Sciences, foi calculada por uma equipe de geneticistas populacionais da Universidade de Utah liderada por Chad D. Huff e Lynn B. Jorde.

A população humana de um milhão de anos atrás era representada por espécies arcaicas, como o Homo ergaster, na África, e o Homo erectus, no leste da Ásia. A equipe de Utah afirma que sua estimativa de 18.500 indivíduos implica "uma população pequena para uma espécie que se espalhou por todo o Velho Mundo, o que é incomum".

No entanto, a estimativa só se aplicaria à população mundial se houvesse cruzamento consanguíneo entre humanos nos diferentes continentes. Caso contrário, e se os humanos modernos são descendentes de apenas uma dessas populações, como o Homo ergaster da África, então a estimativa se aplicaria apenas a ela.

Richard G. Klein, paleoantropólogo de Stanford, afirmou ser difícil acreditar que a população da qual os humanos modernos se originaram seja tão pequena quanto 18.500 pessoas, "a não ser que eles estivessem geograficamente restritos à África ou a uma pequena parte do continente".

Não há forma independente de avaliar uma estimativa baseada na genética do tamanho de uma população naquele período, disse Klein, embora arqueólogos tenham desenvolvido formas de avaliar populações antigas de épocas mais recentes.

A equipe de pesquisadores de Utah baseou sua estimativa na variação genética presente em dois genomas humanos completos, um preparado pelo projeto de genoma humano do governo americano e o outro por J. Craig Venter, pioneiro no sequenciamento genético. O governo decodificou uma única cópia de um genoma mosaico derivado de uma mistura de indivíduos, aparentemente de origem europeia ou asiática. Venter decodificou ambas as cópias de seu próprio genoma, o herdado pelo pai e o herdado pela mãe.

A equipe de Utah então teve três genomas com os quais trabalhar e observaram elementos antigos conhecidos como inserções Alu, cuja classe mais recente apareceu no genoma humano há cerca de um milhão de anos. O nível de variação visto no DNA imediatamente ao redor das inserções Alu deram uma ideia do tamanho da população humana naquela época.

A estimativa dos cientistas casa quase perfeitamente com uma anterior, também baseada em inserções Alu, porém com dados mais esparsos. As inserções indicam regiões antigas do genoma que não foram afetadas pelo recente crescimento da população, afirmou Dr. Huff.

Fonte: UOL Ciência e Saúde - http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/

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Acre teve sociedade indígena complexa

Cientistas mapearam mais de 200 sítios arqueológicos com trincheiras, estradas e possíveis características de defesa.
Brasileiros e finlandês usam imagens aéreas e de satélite para achar ocupação; grupo propõe que área tinha densa população há 700 anos.

REINALDO JOSÉ LOPES

Estranhos e gigantescos padrões geométricos no solo desmatado do Acre estão dando novo peso à hipótese de que a Amazônia antes de Cabral estava repleta de sociedades complexas, com grande densidade demográfica. Trincheiras de 11 m de comprimento e até 3 m de profundidade delimitam áreas que podem ter sido fortalezas ou centros cerimoniais, afirma um grupo de pesquisadores.
Como é muito mais fácil detectar o desenho dessas estruturas de cima, a bordo de um avião ou com imagens de satélite, elas são mais conhecidas como geoglifos, por analogia com os misteriosos desenhos da região de Nazca, no Peru. Mas, em vez de sinalizar mensagens para os céus, as marcas no solo acreano revelam a antiga presença humana, com vestígios de cerâmica, ferramentas de pedra e carvão de fogueiras.

Visão de conjunto
Os dados mais recentes sobre os geoglifos estão em artigo na última edição da revista científica "Antiquity", assinado por Denise Schaan, da Universidade Federal do Pará, Alceu Ranzi, da Universidade Federal do Acre, e Martti Pärssinen, do Instituto Iberoamericano da Finlândia. Por enquanto, a equipe conseguiu datar os restos de carvão em apenas um dos sítios arqueológicos, cuja existência parece recuar ao ano 1200 ou 1300 da Era Cristã. O período bate com outros complexos semelhantes da Amazônia pré-colombiana, como os da região do Xingu.
Novas amostras para datação "estão sendo processadas e devem revelar dados a qualquer momento", disse à Folha Alceu Ranzi, que vê semelhanças e diferenças importantes entre a ocupação antiga do Acre e a do Xingu. Nos dois locais, há a presença, por exemplo, de grandes trincheiras circulares e de estradas largas unindo possíveis áreas de habitação.
No Acre, as áreas marcadas pelos geoglifos só apareceram porque houve desmate recente, o que significa que, no passado, a área ocupada por populações indígenas era muito maior -inferência que também é feita para o Xingu. "Por outro lado, no Xingu ainda parece haver uma tradição que liga os cuicuros [tribo da região] às antigas vilas, enquanto os índios daqui não têm isso em sua memória histórica", diz Ranzi.
O pesquisador também ressalta que os povos xinguanos estão na fronteira entre a floresta amazônica e o cerrado. "Já aqui é mata fechada, "rainforest" [nome inglês para mata tropical densa] mesmo. Eu tendo a achar que, por razões climáticas, como grandes El Niños, o ambiente era aberto no Acre quando essa ocupação existia", afirma Ranzi. Outra possibilidade é que a presença populacional fosse tão densa que ocorreu uma derrubada significativa da mata para construir os centros que correspondem aos geoglifos.

Às centenas
Seja como for, Schaan, Ranzi e Pärssinen relatam um número considerável de possíveis sítios -mais de 200, por enquanto, o que corresponde a uma estimativa modesta, segundo eles, porque muita coisa ainda pode estar debaixo do dossel da mata ainda intacta. É uma área de uns 250 km de raio na bacia do rio Purus, que também avança do Acre rumo ao Estado do Amazonas. A população estimada para a região seria de 60 mil pessoas, propõem eles.
O diâmetro das áreas delimitadas pelas trincheiras vai de 90 m a 300 m. Parece haver uma tendência a encontrá-las em pequenas elevações, das quais pode se ver a planície de rios mais abaixo -em tese, uma excelente posição defensiva caso os geoglifos marquem mesmo áreas fortificadas.
Outra possibilidade é que o cuidado com a geometria dos locais reflita uma função ritual. E o grupo não descarta uma hipótese bem mais prosaica: para sustentar as populações densas, as trincheiras poderiam ser açudes, repletos de peixes e tartarugas semidomesticados.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo - http://www.uol.com.br

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Terra protegida

Na Amazônia, técnica de cultivo reaproveita a capoeira em vez de queimá-la.

Carlos Fioravanti

Pelo menos uma vez por mês as biólogas Elisa Vieira Wandelli, da Embrapa Amazônia Ocidental, e Sandra Celia Tapia-Coral, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), visitam seis famílias de agricultores de um assentamento próximo a Manaus. Elas acompanham a implantação da tipitamba, técnica de cultivo agrícola que substitui a queima pelo reaproveitamento da capoeira, vegetação secundária que cresce em áreas desmatadas e abandonadas. Na versão mais recente dessa metodologia, um trator tritura árvores com até 20 centímetros de diâmetro e lança as folhas e a madeira cortadas sobre o solo percorrido. Mais atrás, homens com enxadas uniformizam a cobertura que protegerá o solo contra erosão, calor intenso e perda de nutrientes que seriam inevitáveis se a vegetação fosse queimada. 
Já adotada por cem famílias de pequenos agricultores em seis estados da Amazônia, essa técnica começou a ser desenvolvida em 1991 no Pará por um grupo de pesquisadores brasileiros e alemães. Eles buscavam uma alternativa à agricultura fundamentada na derrubada e queima da vegetação natural, adotada por 600 mil famílias para produzir 70% do alimento consumido na Amazônia, mas de eficiência limitada: a produtividade só é boa por até dois anos, até a vegetação que sobreviveu ao fogo renascer. Além de reduzir a fertilidade do solo, essa forma tradicional de agricultura contribui para a destruição da floresta original, quando faltam terras novas para cultivar, e é uma das causas do abandono de 200 milhões de hectares já desmatados na Amazônia.
As primeiras tentativas de cortar, triturar e reaproveitar a mata manualmente mostraram-se pouco produtivas, mas indicaram o caminho que levou à mecanização e aos métodos atuais. Hoje estão claros os benefícios agrícolas e ambientais da metodologia desenvolvida pelas equipes coordenadas pelo engenheiro agrônomo Osvaldo Ryohei Kato, da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, e pelo biólogo Manfred Denich, da Universidade de Bonn, em um projeto chamado inicialmente Estudos de Impactos Humanos sobre Florestas e Áreas Alagáveis nos Trópicos (Shift, na sigla em inglês). Ao ser triturada e devolvida ao solo, a mata se transforma em um adubo de liberação lenta, que fornece fósforo, nitrogênio e potássio para as plantas enquanto se decompõe. Filho de imigrantes japoneses que nasceu e cresceu entre plantações de pimenta em Tomé-Açu, no nordeste paraense, Kato conta que o solo coberto de mata triturada adia em pelo menos quatro meses a retirada de gramí neas invasoras, que disputam espaço e nutrientes com as culturas agrícolas e aparecem mais rapidamente quando a mata é queimada. 
Arroz, hortaliças e frutas - Experimentos realizados nos últimos anos indicam que arroz, milho, feijão e mandioca podem crescer no solo tratado dessa forma. “As famílias podem fazer dois cultivos sucessivos na mesma área em vez de um só, já que não precisam mais deixar o solo se recuperando da queimada”, afirma Kato. Além disso, diz ele, a terra pode ser preparada em qualquer época do ano – e assim o calendário agrícola, que determina o que plantar em cada mês, ganha elasticidade. Segundo Kato, testes realizados pelos agricultores mostraram que a tipitamba pode ser empregada também no cultivo de hortaliças e de frutas como graviola, açaí, cupuaçu, murici, laranja, caju e maracujá. 
A tipitamba não constitui só uma alternativa às queimadas, responsáveis por 75% das emissões brasileiras de gases que contribuem para o aquecimento global, uma das causas das mudanças climáticas. Apoiada pelo governo alemão, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo governo do Pará – mais recentemente pelo Ministério do Meio Ambiente e Banco da Amazônia –, essa técnica é também uma forma de aproveitar a capoeira. Embora vista apenas como vegetação temporária de um espaço em transformação, a capoeira ocupa 76% dos 3,4 milhões de hectares da Região Norte classificados como terras úteis não utilizadas no Censo Agropecuário de 1995, o mais recente. 
O uso de técnicas de cultivo como a tipitamba poderia aplacar a imagem dessa mata como terra ociosa ou capoeira-reserva, expressão adotada pelo economista Francisco de Assis Costa, professor do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) da Universidade Federal do Pará (UFPA), em um estudo recente. Poderia também, com o tempo, eliminar o outro sentido que Costa analisa, o de capoeira-sucata ou capoeira-resíduo – áreas abandonadas e improdutivas que expressam, segundo ele, “o fracasso da vegetação original”, a floresta, ou da atividade agropecuária tradicional e de baixa eficiência econômica. Uma técnica de cultivo menos agressiva que a queimada poderia também reforçar o que ele chama de capoeira-capital, quando a vegetação se torna elemento produtivo ou meio de produção, como uma máquina que produzisse nitrogênio, fósforo e outros nutrientes necessários ao cultivo agrícola.

A possibilidade de reaproveitar periodicamente a mata ganha adeptos à medida que as barreiras se desfazem. O biólogo Flavio Luizão e sua equipe do Inpa temiam que a capoeira, ao se decompor, liberasse uma quantidade inaceitável de metano, um dos gases responsáveis pelo aquecimento global. Seus experimentos do Projeto LBA – Experimento de Grande Escala da Bios fera-Atmosfera na Amazônia mostraram, porém, que a liberação de metano pela madeira apodrecendo diminui em vez de aumentar. Para ele, o resultado sugere que o metano poderia estar sendo incorporado por microorganismos e insetos que decompõem folhas e galhos, já que essa biodiversidade se torna mais abundante, como Sandra Tapia-Coral verificou. Segundo Luizão, o solo, quando coberto pela mata triturada, fica mais poroso e água, micro e macroorganismos e oxigênio poderiam então circular mais facilmente, criando um ambiente que absorveria o metano. “Não vimos efeito adverso dessa metodologia”, diz Luizão. Eric Davidson, do Woods Hole Research Center, dos Estados Unidos, em conjunto com Kato e outros pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental, demonstrou este ano na revista Global Change Biology que cortar e triturar a mata emite menos metano logo após o plantio e absorve mais nos meses seguintes que a técnica tradicional de derrubar e queimar a vegetação natural. Outra conclusão desse estudo é que a tipitamba emite também cinco vezes menos outros gases responsáveis pelo aquecimento global.
Ainda há ajustes a serem feitos na tipitamba, palavra dos índios tiryios, do Pará, que significa “capoeira” ou “ex-roça”. O primeiro é o custo do equipamento, já que o valor do trator é cerca de R$ 200 mil e o triturador, cerca de R$ 100 mil. As máquinas, que vêm da Alemanha, representam uma versão mais robusta dos protótipos trazidos em 2000 para testes, utilizados na Europa Central para triturar galhos mais finos e menos duros. Os custos deixam de pesar, porém, se os equipamentos forem comprados por meio de cooperativas ou por empresas, como fez a Alumínio do Brasil (Albrás), que comprou um trator-triturador para incentivar 20 famílias a cultivar a terra sem queimar em torno da fábrica em Barcarena, no Pará. Em um dos capítulos do livro Inovação e difusão tecnológica para sustentabilidade da agricultura familiar na Amazônia – Resultados e implicações do projeto Shift Socioeconomia, organizado por Costa, Thomas Hurtienne e Claudia Kahwage (versão integral livre pelo Google Books), Geraldo Stachetti Rodrigues e outros pesquisadores da Embrapa mostram que serviços ambientais, como o seqüestro de carbono, que daria aos agricultores uma vantagem comparativa em relação aos que liberam carbono queimando a floresta, poderiam ampliar a eficiência econômica dessa técnica. 
Outro problema a ser resolvido é a produtividade no primeiro ano de cultivo, que, embora seja maior que a da terra queimada, ainda é considerada baixa. “É o mesmo problema do plantio direto sobre a palhada”, lembra Silas Aquino de Souza, da Embrapa Amazônia Ocidental de Manaus. Por esse motivo Luizão defende a idéia de que os agricultores deveriam receber um subsídio para poder vencer essa primeira fase. A produtividade começa a crescer a partir do segundo ano, reduzindo ou até mesmo eliminando a necessidade de nutrientes extras. “Nossa hipótese”, diz Kato, “é que a qualidade do solo melhore a longo prazo, como resultado do acúmulo de matéria orgânica em decomposição”. 
Uma barreira ficou para trás: convencer os agricultores a mudar os hábitos de cultivo da terra. Em 2000, com um protótipo de triturador, os pesquisadores ganharam a adesão de seis famílias de agricultores em Igaparé-Açu e de cinco em Marapanim, no Pará. Carlos Oliveira, durante o curso de mestrado na Universidade Federal do Pará e na Embrapa Amazônia Oriental, acompanhou as famílias de Marapanim e concluiu que os usuários se apropriam mais facilmente de uma tecnologia quando participam de seu desenvolvimento desde o início. Com o tempo as próprias famílias começaram a propor e a conduzir os experimentos de uso dessa técnica no cultivo de melancia, pimenta ou hortaliças. Hoje cem famílias adaptam a tipitamba aos cultivos e terras do Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia, Roraima e Maranhão, com apoio das unidades da Embrapa nesses estados. “Apenas oferecemos a inovação”, conta Kato. “Os agricultores é que decidem como usar e hoje são eles que nos ensinam o que dá ou não para plantar com essa técnica.”

Fonte: Revista Pesquisa - http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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A extrema pobreza é feminina

O núcleo duro da pobreza urbana brasileira é feminino, afirma economista. Nas favelas e periferias brasileiras, a perversa combinação entre baixa escolaridade, desigualdade de renda, falta de acesso a serviços de saúde e educação, e precárias condições de habitação caracteriza o núcleo duro da extrema pobreza.

A extrema pobreza é feminina

O núcleo duro da pobreza urbana brasileira é feminino, afirma economista.

Nas favelas e periferias brasileiras, a perversa combinação entre baixa escolaridade, desigualdade de renda, falta de acesso a serviços de saúde e educação, e precárias condições de habitação caracteriza o núcleo duro da extrema pobreza.

A partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (PNAD) de 2008, o economista André Urani, sócio-fundador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), desenvolveu uma análise comparativa sobre a evolução das condições de vida, entre 1993 e 2008, nas dez principais regiões metropolitanas do país: Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza e Belém.
O resultado: em 1993, havia 6,3 milhões de pessoas em condições de extrema pobreza nessas regiões, das quais 1,6 milhões vivia em famílias chefiadas por mulheres. Quinze anos depois, havia 3,5 milhões de pessoas em condições de extrema pobreza nessas regiões, das quais 1,8 milhão vivia em famílias chefiadas por mulheres.
Embora o percentual de pessoas que vivem na indigência – com renda familiar per capita de até R$ 104,00 – tenha caído 44% no Brasil metropolitano, entre 1993 e 2008, essa queda não se refletiu, necessariamente, nas condições de vida de quem vive em famílias chefiadas por mulheres. Nem o crescimento econômico, com a melhoria e a expansão do mercado de trabalho, nem as políticas de transferência de renda contemplaram quase os 2 milhões de brasileiros e brasileiras que permanecem em condições de indigência.
O fenômeno registrado nas principais regiões metropolitanas se repete no Brasil como um todo, ainda que com menos intensidade. Em 1993, havia 32,4 milhões de pessoas vivendo em condições de extrema pobreza no país, das quais 5,5 milhões viviam em famílias chefiadas por mulheres. Em 2008, havia 15,8 milhões de pessoas em condições de extrema pobreza no país, das quais 5,2 milhões eram pessoas vivendo em famílias chefiadas por mulheres. Ou seja, a redução da indigência no Brasil foi de apenas 1,7% entre famílias chefiadas por mulheres.
Por outro lado, a análise dos dados estatísticos permite concluir, também, que pode ter havido um aumento significativo no número de famílias monoparentais – com apenas um adulto responsável – e lares chefiados por mulheres.
Gênero e mobilidades
Para o economista André Urani, mulheres chefes de família são pouco sensíveis às melhorias no mercado de trabalho. Sobretudo, devido a uma combinação de fatores como falta de perspectiva de futuro, ausência de responsabilidade paterna, baixa escolaridade e falta de equipamentos públicos, como creches. “São problemas que os programas convencionais de transferência de renda, como o bolsa-família, não são capazes de resolver”, explica.
A economista Lena Lavinas entrevistou mais de 120 mil mulheres em Recife, no âmbito de uma pesquisa sobre as/os beneficiárias/os do Bolsa Família, e descobriu que mais da metade das pessoas que não recebem o benefício vivem em famílias chefiadas por mulheres, e que 60% das pessoas que não recebem, mesmo sendo elegíveis, são mulheres chefes de família.
Ela aponta a falta de mobilidade da mulher em famílias monoparentais, na condição de único adulto responsável pela renda familiar. E ressalta o fato de a renda feminina, em geral, ser menor do que aquela advinda de trabalho masculino equivalente ao feminino. Entre as famílias chefiadas por apenas um adulto, as chefiadas por mulheres com menos de 35 anos, responsáveis por crianças menores de seis anos, configuram essa situação de extrema pobreza identificada nos dados da PNAD 2008.
A dificuldade de atendimento pela rede social compromete a mobilidade das mulheres chefes de família, que não têm com quem deixar seus filhos para trabalhar. “Falta creche, falta escola em tempo integral, falta uma política habitacional, falta um conjunto de políticas na rede de assistência social que resolvam uma série de outros déficits, além da renda, que aparecem nas famílias monoparentais chefiadas por mulheres”, afirma Lena.

Fonte: Jubileu Brasil - http://www.jubileubrasil.org.br/

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Pentágono banca pesquisas sobre vizinhos

CLAUDIA ANTUNES

Brasil é 1 dos 10 países que têm sua "cultura estratégica" analisada em relatórios da Universidade Internacional da Flórida.
Americanos se deram conta da necessidade de entender melhor as nuances de cada Estado da região, afirma o coordenador do projeto.

O Departamento da Defesa dos Estados Unidos está financiando uma série de estudos acadêmicos que pretende analisar dez países da América Latina e do Caribe, incluindo o Brasil, do ponto de vista de sua "cultura estratégica" -isto é, das experiências históricas e influências externas e internas que moldam suas relações internacionais.
O objetivo dos relatórios, encomendados ao Centro de Pesquisa Aplicada da Universidade Internacional da Flórida (FIU), é, segundo seus participantes, ajudar os militares do Comando Sul, sediado em Miami, a lidar com os países em sua área de atuação levando em conta as diferenças entre eles.
"Eles [os militares] se deram conta da necessidade de entender melhor as nuances que diferenciam os Estados na América Latina, a dinâmica sócio-cultural de cada Estado. Se deram conta de que a região não pode ser tratada como um bloco homogêneo", diz Brian Fonseca, que é o coordenador do projeto na FIU.
O general Douglas Fraser, chefe do Comando Sul, "é um dos que entendem melhor essa necessidade", emenda.
O projeto tem como pano de fundo as mudanças da última década, com a fragmentação política sobretudo da América do Sul, a partir da ascensão de governos de esquerda ou centro-esquerda, e a diversificação das relações exteriores da região para incluir países como Rússia, China, Índia e Irã.
Até então, a maioria dos governantes latino-americanos tendia ao alinhamento com Washington. Reações negativas oficiais como as que se seguiram aos anúncios da reativação da Quarta Frota, no ano passado, e do acordo para o uso de bases colombianas, recentemente, inexistiam ou eram bem menos contundentes do que são agora.
"Liberdade acadêmica"
O projeto usa parte da verba de US$ 1 milhão de uma parceria entre a universidade e o Comando Sul. Fonseca afirma ter autonomia acadêmica para um trabalho sem facciosismo. "Há acordo sobre os tópicos, mas somos livres para adotar a abordagem que preferirmos."
No caso dos relatórios com foco na cultura estratégica, há cinco já prontos, sobre Brasil, Venezuela, Cuba, Haiti e Colômbia; dois em produção, sobre Equador e Nicarágua; e três a serem produzidos, sobre Bolívia, Chile e Argentina.
A dinâmica é a mesma nos dez casos. A universidade organiza um seminário, para o qual especialistas convidados levam textos. Depois, um ou dois deles resumem as conclusões em relatórios apresentados ao Comando Sul -e que logo estarão disponíveis na internet.
Fonseca, coautor do texto sobre o Haiti, diz que procura chamar especialistas "de vários lados do espectro político" e já recebeu negativas pelo fato de o projeto ser financiado pelo Pentágono.
Mas o Equador, por exemplo, com governo nacionalista de esquerda, enviou um vice-ministro da Defesa. Quando listados, os nomes dos participantes indicam maioria centrista, com alguns acadêmicos de centro-esquerda de universidades americanas.
O relatório da Venezuela não lista todos os participantes do seminário. O autor é o americano Harold Trinkunas, da Escola Naval de Pós-Graduação e do Centro Carter. O estudo da Colômbia é assinado por Victor Uribe-Uran, da FIU.
Crítico do "personalismo" do presidente Álvaro Uribe e da concentração de poder no Executivo em Bogotá, Uribe-Uran anota que "parece claro que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) receberam apoio" do governo venezuelano.
O estudo sobre o Brasil foi compilado por Luis Bitencourt, do Centro de Estudos da Defesa Hemisférica da Universidade Nacional da Defesa dos EUA, e Alcides Costa Vaz, da Universidade de Brasília. Outros convidados foram Clóvis Brigagão, da Universidade Candido Mendes (RJ), e o brasilianista Kenneth Serbin.
TRECHOS
BRASIL
Pode ser dito que a cultura estratégica do Brasil se baseia no autorreconhecimento do status diferenciado que o país tem na região. (…) esse status implica, para o Brasil, a necessidade e a escolha de ser capaz de agir ao mesmo tempo como o poder hegemônico regional e um líder benevolente quando as oportunidades o permitem, especialmente como mediador sempre que necessário. Essa ambiguidade é percebida pelos vizinhos
VENEZUELA
A cultura estratégica da Venezuela continua sendo defensiva e voltada para dentro. (…) A orientação ideológica da política externa bolivariana não se adequa bem a ela. (…) Enquanto o regime, não importa o quão autoritário, continuar a precisar de vitórias eleitorais para manter o poder, a opinião negativa do público sobre aventuras de política externa continuará sendo fator no cálculo do presidente
COLÔMBIA
Os colombianos são uma ameaça mais a si mesmos do que aos outros, e assim tem sido por séculos. É mais provável que a elite e seus seguidores usem a força entre si do que contra outro país. (…) O ataque recente do Exército a acampamento das Farc em território equatoriano, uma violação da soberania de outra nação, foi excepcional. É pouco provável que algo similar ocorra de novo (…), devido também à crise internacional que se seguiria
CUBA
Há alguma surpresa no fato de o mais visível dissidente em Cuba, Oswaldo Payá (…), prefaciar cada apresentação (…) com as palavras "a edição deste documento foi feita somente por cubanos dentro de Cuba"? (…) Com quem Washington estaria então falando se tentar modificar de fora o "caráter" e o "espírito" dos cubanos? Certamente não com a Igreja Católica, mencionada como parte da oposição. Ouçam o cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana: "A Igreja Católica cubana jamais aceitaria, nem sequer minimamente, qualquer intervenção estrangeira"
HAITI
O Haiti é um Estado predatório. A elite que detém o poder perseguiu (…) o autointeresse sem peias. O ethos da elite política é de autopreservação e de perpetuação do poder

Fonte: Universidade de Brasília - http://www.unb.br/

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Os anos loucos

Livro relaciona a ascensão do consumo de cocaína na década de 1920 ao caráter acelerado da vida moderna.

THOMAS WIEDER

No jargão do jornalismo, o termo usado seria "requentado" -um assunto que retorna oportunamente à primeira página de um jornal quando não há assuntos quentes em debate. Depois da Primeira Guerra [1914-18], as drogas exerceram esse papel.
A imprensa francesa multiplicou suas reportagens sensacionalistas sobre o que era então descrito como "o perigo tóxico". "A "coca" semeia a loucura e a morte no mundo atual", era a inquietação expressa por "Le Petit Journal" em 1925. "É necessário agir rápido, porque, em caso de demora, o comércio de "neve" ganhará tanta força que, no próximo 14 de julho, pode ser que a cocaína seja usada pelas multidões em desfile para celebrar a queda da Bastilha", afirmava um artigo no jornal "Le Matin" três anos mais tarde.
A droga, observa a historiadora Emmanuelle Retaillaud-Bajac, se impôs como "tema banal na produção midiática e cultural dos anos 20". Curiosamente, no entanto, esse período vem sendo há muito negligenciado pelos pesquisadores, que preferiram se interessar pelo surgimento da figura do "drogado", no século 19, ou, posteriormente, pelas novas formas de toxicomania surgidas no final do século 20, simbolizadas pelo LSD, ecstasy ou o crack.
Dando continuidade ao trabalho de Jean-Jacques Yvorel ("Les Poisons de l’Esprit - Drogues et Drogués au XIXe Siècle", Os Venenos do Espírito -Drogas e Drogados do Século 19, de 1992), o instigante estudo de Emmanuelle Retaillaud-Bajac, que serviu como tema ao seu doutorado, vai muito além de preencher um vazio historiográfico.
Em "Les Paradis Perdus -Drogues et Usagers de Drogues dans la France de l’Entre-Deux-Guerres" [Os Paraísos Perdidos - Drogas e Usuários de Drogas na França do Entreguerras, Presses Universitaires de Rennes, 467 págs., 22, R$ 55], a pesquisadora aponta para a inflexão histórica que o período do entreguerras representa para a história dos estupefacientes.
Do ponto de vista legislativo, para começar. Ao traçar as origens da lei de 1916, o primeiro artigo judicial a penalizar o comércio, uso e posse de "substâncias venenosas" na França, a historiadora revela que os efeitos perversos de uma política fundada exclusivamente sobre o princípio da proibição haviam sido antecipados.
Declínio do ópio
"Não tenho ilusões sobre os resultados que a lei propiciará", declarou o senador Emile (não Félix, como ela escreveu) Goy, durante os debates que precederam a aprovação da lei. "Talvez consigamos reduzir o número de casas de ópio, porque elas se localizam em ambientes especiais (…); mas como isso influenciará os hábitos solitários do cocainômano, do morfinômano, que aplica suas injeções solitariamente?"
A visão do senador foi precisa. Não somente porque ele pressentiu que a proibição transferiria o consumo da droga à clandestinidade, com efeitos que incluiriam o tráfico clandestino, o surgimento do traficante, a elevação no volume de produtos adulterados e o surgimento de bairros dedicados ao comércio de drogas nas grandes cidades, mas porque ele também adivinhou uma das tendências dominantes do entreguerras: o declínio do ópio e a ascensão da cocaína.
Retaillaud-Bajac consagrou belas páginas a essa tendência. Ela demonstra, na prática, que aquilo que parecia ser uma simples mudança de moda estava conectado a evoluções mais profundas. Se houve um "ciclo da cocaína" nos anos 1920 (acompanhado, na década seguinte, por um "ciclo da heroína"), foi porque aquela substância, dita estimulante, se coadunava bem com o clima dos anos loucos. "A embriaguez fria e solitária que esse pó brilhante, tão fácil de absorver, propicia se enquadra bem ao caráter da vida moderna", afirmavam em 1924 o doutor Bergé e o jornalista Victor Cyril.
Se as práticas se tornaram mais clandestinas, o uso se tornou mais democrático (nos anos 1920, era comum ver operários misturados aos burgueses nos centros de desintoxicação); e os debates sobre como classificar os usuários (delinquentes ou doentes) também se tornou frequente. Ou seja, foi nos anos 1920, como demonstra a historiadora, e não nos 1960, que os "elementos constitutivos do universo contemporâneo das drogas" se estabeleceram. As mesmas drogas que a jornalista Marise Querlin, autora de uma vasta reportagem sobre o assunto publicada em 1929, já designava como "o mal do século".

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo - http://www.uol.com.br

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O trabalho é um inferno: histórias da classe operária de nossos dias

Michael D. Yates

trabalhoA Organização Internacional do Trabalho (OIT), uma agência das Nações Unidas, deu a conhecer em janeiro passado um relatório sobre "As tendências globais do emprego". O relatório explora o desemprego, a situação dos trabalhadores pobres e o emprego vulnerável.

Os desempregados são os que não trabalham porém buscam  trabalho de maneira ativa. Os trabalhadores pobres são os que têm um trabalho que não lhes permite manter-se acima da linha da pobreza. Há dois umbrais: $ 1,25 por dia (segundo os preços de 2005), que se considera "pobreza extrema", e $ 2 por dia, que é simplesmente "pobreza". As pessoas com emprego vulnerável são os autônomos (no relatório se os denomina trabalhadores por "conta própria") e também os trabalhadores que não recebem salário, porém são membros de uma família trabalhadora  por conta própria. Na maior parte do mundo, o trabalho vulnerável é o que se denomina emprego casual: esses trabalhadores não têm relações formais com um empregador, por exemplo, um contrato de trabalho com salário por empreitada. Trabalhadores vulneráveis são, entre outros, um homem que vende bilhetes de loteria numa esquina, uma mulher oferecendo talões num estacionamento, um jovem que oferece passeios numa carreta de tração humana. Um exemplo do trabalho não remunerado que realiza um membro de uma família por conta própria: um menino que ajuda sua mãe a vender talões. Nem em todos os países, sobretudo  nos ricos, o trabalho por conta própria é vulnerável. De qualquer maneira, em todos os países, e notadamente nos pobres, a grande maioria dos autônomos são pobres e vulneráveis.

A OIT criou três possíveis cenários, em 2009, para as pessoas incluídas nestas três categorias (desempregados, trabalhadores pobres e trabalhadores vulneráveis). A maioria dos economistas está perplexa pela  profunda crise econômica que hoje aflige à maior parte do mundo: não puderam predizê-la, nem estão em condições de fazer diagnósticos sobre o alcance de sua gravidade. Ante a dúvida dos diagnósticos e dos prognósticos sobre o comportamento da economia global, e a modo de compensação, os economistas da OIT têm realizado três estimativas para as três categorias de emprego. Para nossos propósitos, não importam os detalhes dos três "cenários". Porém, dada a severidade da "Grande Recessão" que agora experimentamos - a mais profunda desde 1930 -, o cenário pessimista ou  o terceiro parece o mais realista. Não se vislumbra um possível alívio no horizonte. Não, desde logo, no mundo do trabalho.

De acordo com o cenário pessimista, estes são os números de desempregados, trabalhadores pobres e trabalho vulnerável prognosticados para o final do presente 2009.

Desempregados: 230 milhões (ou 7,1% da força de trabalho mundial, composta aproximadamente de 3.240 milhões de pessoas).

Trabalhadores pobres: (com $ 2 por dia como umbral de pobreza): 1.377 milhões (que está perto de 46% da população trabalhadora mundial, composta, como lembrado antes, por mais de três bilhões de pessoas).

Trabalhadores vulneráveis: 1.606 milhões.

Dois esclarecimentos são necessários a propósito dessa cifras. Em primeiro lugar, a alguns leitores lhes poderá parecer baixo o número de desempregados, dada a profundidade do colapso econômico. De qualquer maneira, na maior parte do mundo o desemprego aberto não é uma opção; não tem rede de segurança que compense o desemprego, nem outros programas sociais de bem-estar. O desemprego significa morte; por isso as pessoas têm que encontrar emprego independentemente do quão pesadas que sejam as condiciones. Em segundo lugar, as categorias de trabalhador pobre e emprego vulnerável se sobrepõem parcialmente. Um ou uma autônomo pode ser ao mesmo tempo vulnerável e pobre, e conta como força de trabalho. De qualquer maneira, o membro de uma família sem arrecadação, segundo a definição estatística, só é vulnerável, e não conta no mercado de trabalho. Trata-se de insignificâncias estatísticas. Independentemente de como se leiam os números, são indicadores assombrosos da realidade do mundo do trabalho atual.

A esses tenebrosos números deveriam agregar-se outros: a OIT estima que no mundo de hoje trabalham, no mínimo, cerca de 200 milhões de crianças. A classificação da OIT sobre o trabalho infantil é complicada, porém bastará dizer que 75% desses infelizes meninos e meninas realizam as piores formas de trabalho: traficantes, soldados em conflitos armados, escravos, trabalhadores sexuais e outras ocupações perigosas e incapacitantes, como a construção ou a manufatura de tijolos ou tapetes.

É muito comum que os meninos trabalhadores vivam na periferia das cidades, ou que tenham sido forçados a abandonar seus lares rurais, às vezes "cedidos" em aluguel por seus próprios pais, para trabalhar nas cidades. Seus pais são camponeses - há uns dois bilhões no mundo - e seu futuro é cada vez mais precário. Sua relação com o campo é cada vez mais tênue, e ano após ano vem  aumentar as filas dos cidadãos do que Mike Davis tem chamado "o planeta das cidades miséria". Não tem crescimento econômico que possa absorvê-los no proletariado tradicional, e muito menos em trabalhos melhores.

Para quase todos os habitantes do mundo, o trabalho é o inferno. A crua e triste verdade é que a imensa maioria tem de ser rebaixada, humilhada, lesionada, deformada mental ou fisicamente, e até, com não pouca freqüência, mortalmente sacrificada no processo de trabalho, para que uns poucos se enriqueçam. Sou consciente de que as estatísticas são piores por causa da crise. Porém se transformará o mundo do trabalho quando volte a subir o PIB e os índices de desemprego decaiam? Começaremos então a "nos inclinar à utopia", para usar uma frase impropriamente patética do economista de Berkeley J..Bradford De Long, que parece acreditar que realmente estamos a caminho de um mundo com renda de classe media e operários satisfeitos?. Asseguro-lhe que não.

Falou-se que o diabo está nos detalhes. Por isso, para outorgar maior força aos dados, acrescentarei exemplos concretos. Estou seguro de cada leitor poderia oferecer exemplos por sua conta.

Um trabalhador da indústria automobilística

Vejamos a descrição  que fez um trabalhador da indústria automobilística, Ben Hamper, em seu livro Rivethead <http://www.amazon.com/exec/obidos/ASIN/0446394009/counterpunchmaga>, quando visitou a fábrica onde trabalhava seu pai para ver o que fazia. Disse assim:

"Estivemos uns quarenta minutos ou algo assim, uma vida inteira em miniatura, e a pauta não variava nunca. Auto, pára-brisas. Auto, pára-brisas. Trabalho duro, e mais trabalho duro. Cigarro após cigarro. Décadas batendo e pranchando vigas, os ossos feitos pó, obstinados relógios amordaçando as carnes, outro para-brisas, outro cigarro, guerras intermitentes, tormentas que murmuram o alfabeto, colrnéias adormecidas ou mortas sobre cabos de alta tensão, esse polvo mecânico contorcidamente solto sobre nada, nada de nada."

Hamper chama as modernas fábricas de automóveis de gulags.

Mira, a menina prostituta

Auxiliemos ao caso de Mira, uma menina prostituta de Bombaim que aos treze anos foi enviada por seus pais do seu povoado para o Nepal, para trabalhar como empregada doméstica, segundo pensavam seus pais. Há pelo menos 20.000 meninas prostituídas em Bombaim, "expostas em fila, como nas gaiolas de animais do zoológico". Disse-nos que:

Quando Mira - uma virgem angelical de pele de cobre - se negou a fazer sexo, foi arrastada a uma câmara de tortura num escuro beco disposto para "acomodar" as novas meninas. Fecharam-na numa habitação estreita, sem janelas, sem comida nem água. Ao quarto dia, quando ainda se negava a trabalhar, um dos empregados da madame chamou um gangster que a jogou no chão e a espancou, até que eladesmaiou. Quando despertou, estava nua;  haviam  lhe introduzido na vagina uma vara cana untada de pimenta. Logo, o gangster a violou.  Mila confidenciou numa reportagem que "te torturam até que digas sim",  porque "ninguém ouvirá o teu choro".

O caso da pequena Irfana, escravizada

Consideremos o caso de Irfana, uma menina paquistanesa vendida aos seis anos ao dono de um forno de tijolos. Ela descreve sua vida deste modo.

"Meu amo nos comprava, vendia e trocava, como se fôssemos ganho, e, em ocasiões, nos embarcava e viajávamos a grandes distâncias. No geral, maltratavam os homens para que trabalhassem mais. Freqüentemente, as mulheres éramos violadas. Minha melhor amiga adoeceu logo após ser violada, e quando já não pode trabalhar, o amo a vendeu a um amigo de um povoado a mil quilômetros de distância. Nunca comunicaram seu paradeiro à família e nunca mais a viram."

Como Mary Anne Walkley, a chapeleira imortalizada por Marx

Recorde-se o caso de Mary Anne Walkley, a chapeleira imortalizada por Karl Marx no Capital. Mary Anne morreu faz 146 anos, porém sua história poderia ser contada hoje, e não só por trabalhadoras meninas como Mira e Irfana, senão que por centena de milhares de confeccionistas de penhores que trabalham em infernais oficinas em condições tão terríveis como as da menina Walkley, e, desde logo, não só na Índia ou no Paquistão, senão que aqui, nos mesmíssimos Estados Unidos da América. Sim, se você dá uma volta pelas ruas de Chinatown em Manhattan, verá os vapores procedentes de centenas de oficinas infernais nos quais as Mary Anne de nossos dias consomem suas vidas. Marx dizia:

"Na ultima semana de junho de 1863, todos os diários de Londres duplicaram um texto com um título ’sensacionalista’: "’morte por simples excesso de trabalho’. Contam a morte de uma chapeleira, Mary Anne Walkley, de 20 anos, empregada num respeitabilíssimo estabelecimento de confecção  de prendas de trajar explorado por uma dama que responde ao encantador nome de Elisa. A velha e tantas vezes narrada história, contada uma vez mais. A colegial trabalhava uma média de 16 horas e meia, e, em plena temporada, até 30 horas seguidas sem interrupção, proporcionando-lhe, para diminuir sua desmaiada capacidade de trabalho, ocasionais bebericações suplementares de xerez, porto e café. Agora estávamos precisamente no momento culminante da temporada. Num abrir e fechar de olhos, havia que dar os últimos pontos aos egrégios tocados que haviam de levar as nobres damas convidadas ao baile organizado em homenagem a uma recentemente importada India de Gales. Mary Anne Walkley havia trabalhado sem parar durante 26 horas e meia, ao lado de outras 60 meninas, 30 delas acomodadas numa habitação que apenas proporcionava um terço dos metros cúbicos de ar que necessitavam. Pela noite, dormiam  duas num dos sufocantes buracos em que dividiam com divisórias a habitação. E isso foi num dos melhores pensões de Londres. Mary Anne Walkley caiu doente na sexta-feira. Morreu no domingo. Sem que, para desgosto de Madame Elisa, houvesse podido terminar o trabalho que tinha em mãos."

Trabalhadores em cruzeiros

Vejamos o caso de quem trabalha em cruzeiros. No geral, os cruzeiros estão registrados em países como Libéria e, por tanto, são imunes às leis trabalhistas norte-americanas. Quase sempre, as pessoas de cor dos países pobres têm a seu cargo os trabalhos mais pesados. Seu salário é baixo e a jornada de trabalho grande. Geralmente, quando por alguma razão resultam feridos gravemente durante a jornada de trabalho e precisam ser hospitalizados, são forçados a voltar ao seu país de origem em busca de atendimento médica, inclusive no caso do que nos EEUU existam melhores tratamentos. Um trabalhador caribenho escorregou na cozinha enquanto transportava uma grande caldeira de óleo. O óleo queimou gravemente sua perna e sua face. O enxotaram de um hospital em Anchorage, Alaska, e o forçaram a tomar vários vôos de regresso a  casa. Então, no desespero, conseguiu chamar sua mãe e durante uma escala em Miami pode se comunicar  com um advogado amigo da família. O advogado conseguiu que o atendessem em Miami e processou a companhia navegadora. A companhia se vingou denunciando-o às autoridades de imigração, que finalmente o deportaram.

No restaurante

Consideremos ao empregado de um restaurante, o Sr. Zheng. Os empregados de restaurante de Manhattan trabalham, em média,  mais de 100 horas semanais e ganham a miséria de 2 dólares por hora. Assim Zheng descreveu a vida um jornalista:

"Após ter chegado há três anos no país, procedente da província costeira de Fujian (na China), o Sr. Zheng ( 35 anos) ainda trabalha para pagar uma dívida de 30.000 dólares aos traficantes que organizaram sua viagem em distintos barcos até chegar ao destino. Para pagar o aluguel, sobram apenas uns poucos dólares de seu exíguo soldo como ajudante de garçom, de modo que divide a moradia com 11 amigos. Compartem um quarto com beliches de três andares, com uma passagem estreita entre elas, semelhante a um corredor. É uma habitação simples, uma mais entre uma dúzia de quartos num complexo de três arranha-céus em Allan Street. Repartem um aluguel de 650 dólares ao mês, pagando 54 cada um.

"Como os demais,o Sr. Zheng custodia seus escassos pertences numa bolsa de plástico debaixo do colchão, e como decoração, penduram em seu retangulozinho de parede uma bolsa de ervas medicinais e uma pintura naif. "

Taxista em Nova York

Tomemos o caso de Koffee, motorista de táxi em Nova York, um africano que vive na cidade há trinta anos. Numa entrevista ao jornal Punching the Clock (PTC) disse:

PTC: Então, quantas horas conduz ao dia?

Koffee: Doze horas, de cinco a cinco.

PTC: Quer dizer que faz um turno de doze horas?

Koffee: Assim é o setor, já  se sabe, é o que se faz. Em menos de treze horas não se pode fazer nada… Algumas vezes trabalha-se doze horas, e volta-se para casa com menos de 20 dólares no bolso.

PTC: Que faz com seu tempo livre?

Koffee: Tempo livre? Descanso. Com esse trabalho, depois de doze horas não se pode fazer nada. É um trabalho que arbusto. Sentado e dirigindo durante doze horas, chego em casa e vou dormir. Quando acordo, é só tenho tempo de pegar algo para comer.

Uma voz do passado, tão presente

Ouçamos a voz de um trabalhador desempregado durante a primeira depressão nacional, na década de 1870. Com algumas variações, o que disse poderia dizê-lo qualquer um que haja experimentado a brutalidade de um desemprego por muito tempo, desde os camponeses na época das secas em 1930, até as vítimas do fechamento maciço de fábricas das ultimas duas décadas, passando pelos milhões de miseráveis desempregados na África, na Ásia e na América Latina. Ou então pergunte ao próximo sem teto que lhe venha pedir esmola na rua.

"Faz três meses, quando por desgraça fiquei sem um centavo, comecei a procurar emprego em Nova Iorque. Sou mecânico e acredito que sou competente em meu trabalho. Durante este ano me desloquei por dezessete estados e tudo o que obtive foram seis semanas de trabalho. Eu enfrentei a fome; durante alguns meses, quando o termômetro baixava a 30 graus abaixo de zero, não tinha nem cama para dormir. No último inverno dormi nos matos e, enquanto procurava trabalho honrado, estive dois ou três dias sem comer. Quando, apelando à clemência de Deus, pedi alimento para meu corpo e para minha alma, fui tachado de ‘vagabundo’."

O trabalho em labores agrícolas

Consideremos o trabalho agrícola, um dos pior pagos em toda parte e dos mais penosos. Curvados sobre a colheita, com calores e frios terríveis, trabalham ao lado de seus filhos pequenos e sem comida suficiente, como é o caso dos trabalhadores das plantações de café que não podem dar-se ao luxo de comprar o grão que colhem. Isso é o que conseguiu o "livre mercado" no México,  ao sul da Califórnia e do Arizona:

"Nos campos, tem um quarto de banheiro público portátil para vários centenas, e um tambor metálico sobre rodas que fornece água….Os pequenos engatinham entre os trabalhadores sentados, alguns deles mamando mamadeiras enquanto outros, com suas carinhas sujas de pó, mastigam cebolas… Uns poucos dormem em tonéis ou em colchonetes improvisados com caixas de legume. Quando o sol da amanhã ilumina o rosto dos trabalhadores, descobre dezenas de meninos e meninas. Fazendo um cálculo grosso, é possível que um quarto dos trabalhadores nesse e em qualquer lugar parecido, tenham entre 6 ou 7 e 15-16 anos. Honorina Ruiz tem 6. Está sentada em frente a uma pilha de cebola verdes. Faz pilhas de oito ou nove cebolas, alinhando talos e cabeças. Logo desfaz a porcaria, põe uma banda de borracha ao redor das cebola e as acrescenta ao grupo das que já estão na caixa próxima. É muito tímida para dizer algo mais do que seu nome, porém parece orgulhosa de ser capaz de fazer o que seu irmão Rigoberto, de treze anos, considera que faz muito bem…  Esses são os meninos esquecidos do México."

Embaladores

Vejamos o caso dos trabalhadores embaladores, que preparam a comida que termina servida em nossas mesas. Antes da vinda das modernas tecnologias produtivas, os desacompanhados nomes desses trabalhadores evocavam a visão do inferno: aldabones, garçons de bar de corda, quebrapernas, pelapés, açougueiros, desventradores, fendedores, lugres… Esse trabalho o faziam então os trabalhadores imigrantes europeus e afroamericanos. Hoje o fazem os novos imigrantes da América Latina e da Ásia, e embora os nomes tenha mudado, o trabalho continua sendo sujo e perigoso:

As empresas empacadoras de carne de rês, cedro e ave têm conscrito agressivamente os trabalhadores estrangeiros mais vulneráveis, os quais são trasladados aos EEUU em troca de um trabalho de 6 dólares por hora na indústria mais perigosa do país. Esses trabalhos apenas requerem continuidade e praticamente têm desaparecido os conceitos de promoção e incrementos salariais significativos. Para essa próspera indústria, não é obstáculo que a metade desses novos imigrantes sejam ilegais: dispõem de uma força de trabalho amenizada e disciplinada com uma agressiva rotatividade.

Os assombrosos níveis de doenças, mutilações ─ 36% dos trabalhadores da carne ─ e estresse gerados por um trabalho difícil e repetitivo trazem com frequência consigo a pouca duração do emprego: uns quantos meses, até que o trabalhador se vai ou a companhia o força a deixar o trabalho. Os controles públicos de segurança têm decrescido em 43% em seu conjunto desde 1994, em consequência dos cortes no orçamento e de uma inclinação crescente a favor das empresas privadas por parte da Administração para a segurança e a saúde do trabalho.

Nos hotéis

Consideremos o caso de Michael, que aceitou um trabalho administrativo num hotel depois de trinta e dois anos como professor de escola. Michael disse:

Pensei que no hotel teria o luxo de não ter que me preocupar pelo que faria amanhã. Porém, se bem que é certo que não tinha de preparar o trabalho do dia seguinte, o trabalho do dia é o que me passava a fatura. O trabalho era esgotante; estava o dia inteiro em pé. Ao final da jornada era livre, porém estava exausto para fazer qualquer coisa. Geralmente, tão como as 7 da tarde já me sentia adormecendo nem bem abria um livro. E em alguns dias ─ especialmente no domingo, que era o pior quanto à  intensidade do trabalho e as reclamações dos clientes ─, não conseguia dormir. As chaves que digitava no computador durante todo o dia permaneciam na minha cabeça desenhando uma espiral interminável e continuava chateado por causa das conversas que mantivera com hóspedes iracundos. A segunda-feira pela amanhã chegaria e eu deveria estar às 7 no trabalho, não conseguia pôr o sono ao dia até a sexta-feira pela noite. O mundo do ensino havia gerado muita ansiedade em mim, porém esse trabalho era física e psiquicamente incapacitante. Era impossível imaginar trinta e dois anos nesse trabalho.

No escritório

Consideremos o caso de Kimberly e Helen, dois empregados temporários de escritório, dois dos milhões de trabalhadores de escritório no mundo inteiro. Assim descrevem seu trabalho:

"Trabalho mínimo. Aborrecimento. E falta de estímulos. Preferiria ver-me com uma planilha eletrônica, tratando de imaginar como montar uma planilha eletrônica, antes que simplesmente digitar os números. Um chefe que te trata como um trabalhador temporário e é exatamente o mesmo, sempre te vigiando ou te ignorando completamente. Nem lembra o teu nome e diz: "Oh, acabo de pôr isso aqui. Aguardaremos até que outro fulano torne a trabalhar nisso".

"Isolamento. Carência de recompensas. Monotonia. Subemprego. Teus recursos, tuas capacidades, tua inteligência, todo isso jogado para o lado. Quero dizer, não tem troco. Não sinto senão desesperança, paralisias. Não tem incremento nenhum da atividade cerebral. Inclusive quando eles descobrem algo novo de ti, até assim, não confiam em te encarregar de algo mais. Porém a solidão é propriamente solidão. O almoço em solidão, cada dia. E nunca ninguém pergunta algo pessoal. Como as secretarias, que nunca se interessam: de onde és? Que tens feito?"

Professores

Consideremos o caso de Beverly Peterson, um professor de universidade que após passar grande parte de sua vida na universidade para obter o seu doutorado, se converteu numa "professora cigana", ensinando aqui e ali e em qualquer lugar, sob condições terríveis e por muito pouco dinheiro. Perto de 40% dos nossos professores o são hoje em tempo parcial, e ganham ao redor 2.000 dólares por curso, sem benefícios de bem-estar social. (Para contrastar: eu ganho  8.000 dólares por curso, e tenho incluídos todos os benefícios de bem-estar social.)

Desde que foi aprovado nos exigentes exames da Universidade William and Mary em 1992, Beverly Peterson nunca teve um posto de trabalho em tempo integral em algum departamento de Estudos Americanos. Após três anos, 121 cartas e dois entrevistas, ainda está procurando um posto de trabalho permanente. Disse esta professora interina de 44 anos, que chegou uma vez a ser professora de inglês numa Escola Superior:   "Estou tão acostumada a receber cartas de rechaço; dizem: você é uma aspirante entre 800 para dois postos". Enquanto especula com a possibilidade de obter um cargo definitivo no estado da Pensilvânia,  Peterson faz o mesmo que muitos doutorados recentes: para subsistir, soma dois postos de professora interina.

Peterson viaja regularmente em seu automóvel de sua casa em Smithfield, Virginia, até seus locais de trabalho na Universidade Thomas Nelson Community, em Hampton, a 40 minutos de sua casa, e depois em direção à Universidade William and Mary, em outros 40 minutos. No barco em que deve atravessar o rio James para vencer este último trecho de seu via-crúcis, soi trabalhar com notas e materiais para o ensino, o último deles, uma reinterpretação da Cabana do Pai Tomás. O contador de quilometragem de seu Chevrolet ─ de apenas quatro anos ─ marca 97.000 milhas. Peterson disse: "Eu gosto do meu trabalho, porém desejo poder fazê-lo em circunstâncias menos complicadas".

Uma história excepcional é a de Fúria Salomon ─ uma professora de história em East Saint Louis, em Illinois ─, cidade de uma pobreza extrema. Deixou isso dito numa entrevista com Jonathan Kozol, o autor de Savage Inequalities <http://www.amazon.com/exec/obidos/ASIN/B0009MK6US/counterpunchmaga>:

" ‘De nenhum maneira é a pior escola da cidade’, me disse quando estávamos sentados na sala do primeiro andar do Instituto. ‘Pero nossos problemas são brutais. Nem sei por onde começar. Não tenho materiais, salvo um simples texto que se entrega a cada garoto. Quando proponho outra coisa ─ livros, vídeos ou revistas ─, os pagamento saem do meu bolso. O Instituto não tem vídeo-gravadora. E é uma ferramenta fundamental. Tem tantas coisas boas na televisão pública! O equipamento audiovisual que existeno prédio é tão velho que nos pressionan para que não o usemos’…."

" ‘Dos 33 rapazes que começam o curso regular de história’, disse, ‘mais de um quarto abandonam no semestre de primavera…  Neste momento, quatro meninas da minha sala de aulas do secundário estão grávidas, ou acabam de ser mães.’ Quando pergunto o que aconteceu, me diz: ‘Bem, não há nenhumaa razão para não ter um menino. A escola pública não me oferece muito’. A verdade é que um diploma de uma escola pública de um ghetto não serve para muita coisa nos Estados Unidos de agora…   ‘Você sabe, há injustiças tão amargas’ …

"Muito pouco da educação recebida na escola seria considerada acadêmica nos bairros residenciais. Talvez entre 10 e 15% dos estudantes estão em programas genuinamente acadêmicos. De 55 % dos estudantes que se diplomam, 20 por cento assistem a faculdades de quatro anos: algo assim como 10% do curso. Outros 10 a 20 por cento podem receber outro tipo de educação superior. Um número igual se alista nas forças armadas…

"’Às vezes me aborrece, porque começo a ficar esgotada. Odeio perder um dia de aula, porque, o mais frequente é que o Departamento não consiga encontrar um substituto para esta escola, e às minhas crianças não lhes agrada que eu esteja ausente’".

A cobertura de bem-estar social

Vejamos o caso de Úrsula e Joy, duas mães cobertas pela assistência social, que trabalham duro para manter unida a família, mas que foram excluídas da lista oficial de trabalhadoras desempregadas e que têm recebido o vilipêndio da sociedade "respeitável".

Úrsula: Eu costumava-se ficar deprimida por depender da assistência social. Havia algo que me fazia sentir menosprezada. Eu me sentia degradada. Eles querem saber de onde tiras isso, ou quem te ajuda a mandar a tuas crianças à escola. Se não pagar a conta d’água este mês não fosse necessário para que os meninos pudessem ir à escola no próximo mês, não a pagaria. Porém esse é o meu problema. Eu não gosto que se intrometam se alguém me ajuda ou me paga qualquer coisa.

Joy: Quando dependes da assistência pública, é como se ficasses com o dinheiro do outro e não trabalhasses para consegui-lo. Não o fazes por tí mesma. Quando obtive meu primeiro cheque do seguro social me lamentei estranhada, porque comparei isso com receber um cheque por meu trabalho. Sabia o que significava cada coisa. A gente costumava-se dizer. "bom, estás ficando com o dinheiro de gente que trabalha e não estás trabalhando," "Me sinto esquisita por ser uma pessoa localizada no outro lado neste caso". Esta é minha primeira experiência com a ajuda social. Nunca ninguém em minha família dependeu da assistência pública, somente eu. Minha mãe e minha avó trabalharam no governo. Eu fui a primeira pessoa que alguma vez recorreu ao seguro social.

Eu não gosto das pessoas que trabalham nos escritórios do seguro social. São desagradáveis comigo. Têm má vontade comigo. Se comportam de uma forma presunçosa, e não gostam de fazer o seu trabalho. Atuam como se o dinheiro saíra justamente de seus bolsos. Penso que se vou com uma atitude agradável ─ porque me consta que tem gente que é desagradável com eles ─, então se comportariam de maneira diferente. Porém isso não ajuda, seguem sendo antipáticos.

Num berçário

Leiamos agora um memorando enviado por um supervisor a um grupo de trabalhadores de um berçário diurno. Recorde-se que os trabalhadores desses centros são gente de considerável experiência e de grande capacidade na atenção dos meninos, porém se lhes paga menos que aos vigilantes de um estacionamento de automóveis:

"Agora mais que nunca, nós, como profissionais, estamos sob o escrutínio de nossos clientes. Desejam observar-nos e questionar-nos para estarem seguros do que seus filhos, a nosso cargo, estão sãos e salvos. Nossa tarefa é fazer o melhor que podemos quando tem uma inspeção dos clientes. Eles escolhem o lugar onde querem que estejam seus filhos. E nós temos que reforçar-lhes a idéia de que sua escolha foi a correta. Temos que lhes dar aquilo pelo que eles pagam, a cada minuto do dia. Temos que cumprimentar pais e crianças por seus nomes quando chegam pela amanhã e quando se retiram no final do dia. Devemos trabalhar com os meninos e cumprir seu dever de casa, de manhã e de tarde. Não se  permite sentar-se à mesa, cochichar com os outros professores, assear-se ou fazer qualquer outra coisa que não seja interagir com as crianças…  Lembrem-se a todo instante: o cliente sempre tem razão e nós sempre devemos fazer o melhor para os meninos. Isso é o que devemos a essas pessoinhas!"

Trabalho na prisão

Vejamos o caso do prisioneiro Dino Navarrete, um dos dez mil trabalhadores presos que trabalham no "complexo industrial da prisão", que colabora com as empresas privadas para obter superlucros. Pode haver um trabalho mais degradante, escravatura total à parte?, De qualquer maneira, trata-se de uma indústria em expansão. Os EEUU encabeçam a lista mundial de tamanho daa população carcerária, que agora se aproxima do milhão e meio de presos, sendo a maioria dos reclusos gente de cor.

Dino Navarrete, encarcerado por um delito de sequestro, não sorri muito quando contempla as maquinas de costura na oficina carcerária que não para de crescer e prosperar no presídio Solidão. O homem, baixo e robusto, com tatuagens que cobrem seu musculoso antebraço, ganha 45 centésimos a hora para fazer camisetas azuis de trabalho nessa prisão de média segurança localizada perto de Monterrey, Califórnia. Após as deduções, ganha cerca de 60 dólares por mês, trabalhando jornadas de 9 horas.

"Te botam na máquina para que trabalhes para eles", disse Navarrete. "Ninguém quer fazê-lo. Estes trabalhos são uma chatice para a maioria dos internos daqui. Faz tempo que a Califórnia deixou de considerar que o trabalho reabilita os presos. Os guardas só querem tê-los ocupados. Se os prisioneiros se negam a trabalhar, os trasladam a lugares de castigo e perdem o privilégio da taberna. E, ainda mais, perdem a possibilidade de diminuir a pena por ‘bom comportamento’."

Navarrete se surpreendeu ao saber que a Califórnia estava exportando roupa confeccionada na prisão para a Ásia. Nem ele nem os outros prisioneiros tinham idéia do que a Califórnia, junto com o Oregón, estavam fazendo aquilo pelo que fustigama China: exportar bens confeccionados na prisão. Então, disse Navarrete, " a isso também se pode denominar trabalho escravo". "Se o estão vendendo em ultramar, então se sabe que estão fazendo dinheiro. Onde vai a parar esse dinheiro? Para nós, não é".

Deficientes

Consideremos o caso de Larry McAffe, que ficou tetraplégico depois de um acidente de motocicleta. Como outras dezenas de milhões de pessoas deficientes, queria trabalhar, e poderia fazê-lo se a sociedade lhe houvera proporcionado os meios. Em vez disso, o que fizeram foi enviá-lo diretamente ao horrível mundo de pesadelo do "cuidado" da saúde, mundo cuja principal hipótese inicial de trabalho é que resulta muito caro lograr capacitar para o trabalho a pessoas como  Larry. Larry chegou a pleitear em tribunais que o deixassem morrer, algo que tribunais, médicos e companhias de seguros ─ que se diriam sequazes de alguma versão de darwinismo social ─ parecem empenhados em estimular.

McAfee lhe disse ao jornalista Joseph Shapiro, do Informador "US News and World Report", que havia odiado perder o controle sobre o seu corpo, porém que era pior perder o controle sobre a sua vida. Esperava poder continuar contribuindo com a sociedade, porém se revelou que em cada intenção realizado estava bloqueado por uma situação sem saída. Dado que não dispunha de um serviço de assistência pessoal, McAfee teve que ser institucionalizado; o que significa que não podia fazer pedidos de trabalho ou tomar cursos de computação; e falta de capacitação implica falta de possibilidade de emprego; e o emprego em si mesmo pode significar que os desincentivos ao trabalho construídos pelas políticas para os deficientes põem em risco a possibilidade de ter os meios para sobreviver. Como poderia uma pessoa motivada não resultar abatida por esses obstáculos aplastantes?

Um trabalhador normal e corrente

Consideremos o caso de Mike Lefevre, um trabalhador "corrente". Isso é o que disse Studs Terkel, autor de um livro genuinamente excepcional, entitulado Working:

"Pertenço a uma espécie em extinção: um trabalhador. Trabalho puramente muscular: levantar, baixar. Administramos entre catorze e quinze mil libras de ferro por dia. Já sei que resulta árduo de acreditar: desde quatrocentas libras até peças de três e quatro libras. É de matar…

"É difícil lamentar-se orgulhoso de uma ponte que nunca atravessarás, de uma porta que nunca abrirás. Produzimos em massa e nunca vemos o resultado final. Uma vez fiz um trabalho para um caminhão, e tive uma pequena satisfação quando o carreguei. Esqueça-te disso numa fábrica de aço. Nunca vemos aonde vai nada.

"Numa ocasião, meu capataz resmungou comigo. Disse: "’Mike, és um bom trabalhador, porém tens uma má atitude’. Minha atitude consiste em não emocionar-me com o meu trabalho. Faço meu trabalho, porém não digo "que milagre!". O dia que me emocione com meu trabalho será o dia em que me topo com um redutor de cabeças selvagens. Como vais a emocionar-te administrando aço? Como te podes emocionar, se estás destroçado e  no única coisa que pensas é em sentar-te?

Não é só o trabalho. Alguém construiu as pirâmides. Sempre tem alguém atrás de uma construção. Pirâmides, o Empire State Building. Essas coisas não saem do nada. Tem trabalho duro atrás delas. Eu gostaria de ver um edifício, digamos o Empire State, gostaria de ver num de seus lados uma tira de cima a baixo com os nomes de cada um dos pedreiros, eletricistas, com todos os nomes. De maneira que, quando um dos meninos passasse por aí, pudesse tomar a mão de seu filho e dizer-lhe. "’Olha, esse sou eu, por aí, no andar quarenta e cinco’."

Vozes dolentes

Escutemos para terminar ao coro das vozes dolentes, procedente também de livro, já mencionado, Working  <http://www.amazon.com/exec/obidos/ASIN/1565843428/counterpunchmaga>:

"Prevalece na imensa maioria um descontentamento apenas encoberto. Os blues dos trabalhadores manuais não são mais amargos que os gemidos dos escriturários. "’Sou uma máquina’, disse o soldador. "’Estou entre grades’, disse o caixa do banco. E o administrativo do hotel faz eco de tudo isso. "’Sou uma mula de carga’, disse o trabalhador do aço. "’Um engraçadinho poderia fazer o que eu faço’, disse o recepcionista. "’Sou menos que o utensílio mais insignificante dos trabalhos agrícolas’, disse o trabalhador imigrante. "’Sou um objeto’, disse a Modelo de alta costura. Trabalhadores manuais e burocratas repetem em uníssono: "’sou um robô’. "’Não temos nada do que falar’, disse o contador desesperado. Passaram-se já uns quantos anos desde que John Henry cantava aquilo de que ‘Um ser humano não tem de ser outra coisa que um ser humano’. O feito duro e nada romântico é este: morreu com o martelo na mão, enquanto a máquina seguia com seu bombear rotineiro. De qualquer maneira, encontrou a imortalidade. É recordado."

Fonte: Fundação Lauro Campos - http://www.socialismo.com.br

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Livro traz histórias de repressão e resistência em SP

Valéria Dias

No próximo dia 30, acontece o lançamento de um livro que busca resgatar histórias de repressão vividas por diversos grupos sociais que atuaram na cidade de São Paulo entre os anos 1924 e 1954. A obra São Paulo, Metrópole das Utopias – histórias de repressão e resistência no arquivo do Deops traz 17 artigos, escritos por 19 autores, sendo todos eles pesquisadores do Projeto Integrado Arquivo Público do Estado e Universidade de São Paulo (PROIN), um projeto temático da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Aguarela apreendida em 10/05/37 (Prontuário 712, de Fúlvio Abramo)

Aquarela apreendida em 10/05/1937 (Prontuário 712, de Fúlvio Abramo)

Esses pesquisadores analisaram dossiês e arquivos do Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo (Deops) com informações sobre operários, judeus, negros, mulheres, comunistas, fascistas, japoneses, alemães, lituanos, entre outros segmentos sociais. A organização do trabalho é da professora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas (FFLCH) da USP e coordenadora do PROIN. De acordo com Maria Luiza, algumas dessas pessoas chegaram a ser presas, outras foram apenas fichadas, mas passaram a ter suas atividades vigiadas pela Polícia Política.

De acordo com ela, a idéia do livro surgiu a cerca de 4 anos, quando a equipe do PROIN inventariava os documentos do Deops, identificando fichas de qualificação, relatórios policiais, Termos de Declaração, dentre outros. Muitos desses ativistas são “anônimos” da história de São Paulo e suas trajetórias nem sempre foram privilegiadas pelos historiadores: “Eram pessoas de vários segmentos da sociedade que “pensavam” uma nova cidade, uma São Paulo mais justa, mais igualitária, livre de injustiças. O livro foi pensado exatamente como um presente para a cidade”, destaca Maria Luiza. A publicação é ricamente ilustrada e traz vasto material como jornais, panfletos, manifestos, gravuras, peças de teatro e poesias, entre outros itens, confiscados pelo Deops como prova de crime político.

Em um dos artigos do livro, “Um bonde chamado utopia”, o autor Rodrigo Archangelo retrata o movimento sindical dos motoristas de bondes. Segundo a professora, a análise dos prontuários desses profissionais instiga o leitor a pensar o cotidiano da cidade: “Nas décadas de 1930-1940 constatamos um certo esvaziamento político por conta do autoritarismo, do anticomunismo e da xenofobia que persistiam durante o governo Vargas e também no pós-guerra. Os sindicatos estavam proibidos de “fazer política” e os grupos da esquerda revolucionária eram obrigados a atuar na clandestinidade. Estava proibido contestar o regime, instigar ou fazer greve ou qualquer outro tipo de manifestação contrária à ordem instituída. Mesmo dentro deste contexto de controle e de vigilância, um grupo de condutores de bondes ou mulheres do movimento feminista conseguiam distribuir panfletos reivindicando, entre outras coisas, folga semanal remunerada”, destaca.

Em outro artigo, a pesquisadora Mariana Cardoso dos Santos Ribeiro fala sobre o “Mito da Nocividade do Estrangeiro”. “Quando o vigiado pela polícia política era estrangeiro, caso fosse considerado subversivo, ele passava por um julgamento arbitrário, muito rápido e sem direito à defesa. Em nome da segurança nacional poderia ser expulso do Brasil através de um decreto assinado pelo presidente da República”, conta.

Material iconográfico traz gravuras, panfletos e imagens apreendidos. Na imagem, Mario de Andrade

Material iconográfico traz gravuras, panfletos e imagens apreendidos. Na foto, o escritor Mario de Andrade.

Um outro grupo apresentado são os operários. Quem aborda o tema é o pesquisador Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci com o texto “Sonhos de Fumaça: operários artistas e intelectuais”. O artigo trata das ideias ditas “subversivas” propagadas por intelectuais, artistas e dramaturgos que costumavam proferir palestras em vários espaços da cidade. Um desse locais era o Salão das Classes Laboriosas, no bairro da Sé, onde era comum encontrar o escritor Mário de Andrade e a pintora Tarsila do Amaral. “O texto também comenta sobre o operário e ator argentino Pedro Catallo, que criou diversas peças de teatro. Ele era sapateiro e fazia parte do movimento anarquista”, conta Maria Luiza.

Da iniciação científica ao pós-doc

Os artigos que formam o livro foram escritos a partir das pesquisas que os autores desenvolveram no PROIN, sendo que muitos deles, hoje no doutorado — ou até pós-doutorandos — iniciaram os estudos ainda na Iniciação Científica durante a graduação em História, na FFLCH.

Para a professora, este dado mostra a importância da Iniciação Científica como uma forma de incentivo aos alunos da graduação. “O trabalho que eles desenvolvem no PROIN junto as Oficinas de História ajuda a formá-los como verdadeiros historiadores. É uma iniciativa que deveria ser aproveitada por outros cursos de história, de outras universidades, interessados em desenvolver projetos integrados com arquivos”, destaca.

Os autores que assinam os textos são: Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci, Simele Soares Rodrigues, Roberto William Ferreira da Silva Biá, Márcio Santos de Santana, Rodrigo Archangelo, Edney dos Santos Gualberto, Vitor Marcos Gregório, Rodrigo Rodrigues Tavares, Priscila Ferreira Perazzo, Márcia Yumi Takeuchi, Erick R. Godliaukas Zen, Ismara Izepe de Souza, Ângela Birardi , Gláucia Rodrigues Castellan, Eduardo Góes de Castro, Luciana Pokorny Magalhães de Castro, Mariana Cardoso dos Santos Ribeiro, Renata Mazzeo dos Santos Ribeiro e Taciana Wiazovsky.

O lançamento do livro acontece no próximo dia 30, das 11 às 13 horas, no Espaço Café Flor da Estação Pinacoteca, no Largo General Osório, 66, Luz.

Fonte: Agência USP de Notícias - http://www.usp.br/

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Com desemprego em alta, japoneses buscam cápsulas para morar

Hiroko Tabuchi
Em Tóquio (Japão)

Para Atsushi Nakanishi, desempregado desde o Natal, seu lar é um cubículo pouco maior que um caixão - um de dezenas de leitos empilhados em um dos decrépitos "hotéis-cápsulas" de Tóquio.

"É apenas um lugar para chegar e dormir", disse ele, torcendo o pescoço e dando batidinhas em seu terno preto - um dos dois que ele possui, pois se livrou do resto de seu guarda-roupa por falta de espaço. "Você se acostuma", disse.

Ko Sasaki/The New York Times

Quando o Capsule Hotel Shinjuku 510 abriu, há quase duas décadas, o Japão estava apenas começando a sair de sua bolha econômica, e os minúsculos cubículos de plástico do hotel ofereciam um refúgio noturno para trabalhadores assalariados que tinham perdido o último trem de volta para casa.
Hoje, as cápsulas do Hotel Shinjuku 510, que não medem mais de 2 metros de comprimento por 1,5 metros de largura, e são tão baixas que uma pessoa não consegue ficar de pé, se tornaram uma opção acessível para quem não tem outro lugar para ir, enquanto o Japão sofre com sua pior recessão desde a Segunda Guerra.
Exportadores que antes atravessavam um acelerado crescimento realizaram demissões em massa em 2009, à medida que a crise econômica mundial encolhia a demanda. Muitos dos recém-empregados, forçados a sair de suas casas patrocinadas pela empresa ou incapazes de conseguir pagar o aluguel, ficaram sem casa.
As desgraças do país levaram o governo a disponibilizar abrigos de emergência no feriado de Ano Novo em um esforço nacional para evitar os sem-teto. O Partido Democrático, que chegou ao poder em setembro, quer evitar o destino do antigo governo pró-negócios, que foi pego desprevenido quando trabalhadores desempregados armaram tendas perto de repartições públicas, no ano passado, para chamar atenção para seus problemas.
"Nesta temporada gelada de fim de ano, o governo pretende fazer tudo que for possível para ajudar os que estão em dificuldades", disse o primeiro-ministro Yukio Hatoyama em um vídeo divulgado no YouTube no dia 26 de dezembro. "Você não está sozinho".
Recentemente, ele visitou um abrigo em Tóquio que acolhia 700 sem-tetos, dizendo a repórteres que "a ajuda não pode esperar".

Ko Sasaki/The New York Times

Nakanishi se considera um homem relativamente sortudo. Após trabalhar em empregos diversos, como uma linha de montagem da Isuzu, em jogos de maquininhas pachinko e como segurança, Nakanishi, 40 anos, se mudou para o hotel-cápsula no distrito Shinjuku em abril para economizar aluguel, enquanto trabalhava à noite para uma empresa de entregas.
Nakanishi, que estudou economia em uma universidade regional, sonha em se tornar advogado e estuda manuais jurídicos durante o dia. Porém, desempregado desde o Natal, ele não sabe por quanto tempo poderá pagar por uma cama-cápsula.
O aluguel é surpreendentemente alto para um espaço tão pequeno: 59 mil ienes por mês, ou cerca de US$ 640, para uma cama alta. No entanto, sem o depósito adiantado ou cobranças adicionais por água e luz, além de cortesias como lençóis limpos e uso gratuito de um banheiro e sauna comuns, o custo é muito menor que o aluguel de um apartamento em Tóquio, diz Nakanishi.
Mesmo assim, é difícil dormir profundamente aqui. As cápsulas não têm portas, apenas telas que sobem e baixam. Todas as batidas de ombro nas paredes de plástico, todas as tosses abafadas ecoam alto através das fileiras de cama.
Cada cápsula é mobiliada apenas com uma luz, uma pequena TV com fones de ouvido, um gancho para casaco, um lençol fino e um travesseiro duro de casca de arroz.
A maioria dos objetos dos hóspedes, de camisas a creme de barbear, deve ser guardada em armários trancados. Há uma sala de uso comum com sofás velhos, uma área de refeição e fileiras de pias. Fumaça de cigarro está em toda parte, assim como as câmeras de segurança. No entanto, os funcionários do hotel fazem o máximo para deixar os hóspedes à vontade: "Bem-vindo ao lar", dizem os funcionários na entrada.

Ko Sasaki/The New York Times

"Nossos principais clientes eram assalariados que ficavam bebendo e perdiam o último trem", disse Tetsuya Akasako, gerente do hotel.
Porém, há cerca de dois anos, o hotel começou a notar que os hóspedes ficavam ali por várias semanas, depois meses, disse ele. Este ano, o hotel passou a oferecer um aluguel reduzido para hóspedes que permaneciam um mês ou mais; agora, cerca de 100 das 300 cápsulas são alugadas por mês.
Após pedidos de seus moradores de longa data, o hotel recebeu uma permissão especial do governo para permitir que as pessoas registrem suas cápsulas como seu domicílio oficial; isso facilitou a obtenção de entrevistas de trabalho.
Às 2h da madrugada em uma noite de dezembro, duas jovens assistiam ao seriado americano "24 horas" em uma TV dentro da sauna. Uma disse ter viajado para Tóquio, vinda de sua cidade natal Gunma, ao norte, em busca de trabalho. Ela pretendia ser hostess em um dos cabarés da capital, onde mulheres se envolvem em uma conversa com homens por um preço.
A moça, de 20 anos, espera conseguir um emprego em um clube noturno, cujo salário a permita mudar para um apartamento. A jovem se recusou a fornecer seu nome, pois não queria que a família soubesse da sua situação.
"É difícil viver assim, mas não vai ser por muito tempo", disse ela. "Pelo menos há mais trabalho aqui do que em Gunma".
O governo afirma que cerca de 15.800 pessoas moram nas ruas no Japão, mas grupos de ajuda afirmam que os números são muito maiores, com pelo menos 10 mil pessoas apenas na capital, Tóquio. Esses números não contam os sem-tetos "escondidos" da cidade, como os que vivem em hotéis-cápsulas. Há também uma população flutuante que dorme nos vários cybercafés e saunas 24 horas do país.

Ko Sasaki/The New York Times

O índice de desemprego, atualmente em 5,2%, atingiu uma alta recorde, e o número de lares que recebem ajuda do governo aumentou acentuadamente. O índice de pobreza do país, de 15,7%, é um dos maiores entre os países industrializados.
Essas estatísticas ajudaram a dissipar uma imagem, considerada desde a ascensão do país como uma potência industrial na década de 1970, de que o Japão é uma sociedade sem classes.
"Quando o país passa por um rápido crescimento econômico, os padrões de vida melhoram e as diferenças de classes são ofuscadas", disse Hiroshi Ishida, professor da Universidade de Tóquio. "Com uma economia em estagnação, as classes ficam mais visíveis novamente".
O governo investiu dinheiro para reforçar o sistema de assistência social do Japão, prometendo pagamentos em espécie para famílias com crianças e abolindo taxas de educação em escolas públicas.
Mesmo assim, Naoto Iwaya, 46 anos, está prestes a se unir àqueles que já não têm mais esperanças. Ex-pescador de atum, ele mora em outro hotel-cápsula de Tóquio desde agosto. Seu trabalho mais recente foi em um aterro no aeroporto Haneda, mas acabou em dezembro.
"Procurei, procurei, mas não há emprego. Agora minhas economias estão quase acabando", disse Iwaya, depois de se registrar em um abrigo de emergência em Tóquio, onde poderá ficar temporariamente.
Depois, disse ele, "não sei mais para onde posso ir".

Fonte: The New York Times - http://www.nytimes.com

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Rússia, China e Irã redesenham o mapa energético

Gasoduto conectando norte do Irã e Turcomenistão assinala a constituição de um novo padrão de cooperação energética em plano regional que dispensa negócios com "as grandes do petróleo". A Rússia tradicionalmente dá o primeiro passo; China e Irã seguem a trilha já aberta. Rússia, Irã e Turcomenistão são donos, respectivamente, da primeira, segunda e terceira maiores reservas mundiais de gás. E a China, nesse século, será consumidora por excelência. Todo esse arranjo regional terá profundas consequências sobre a estratégia global dos EUA. O artigo é de M. K. Bhadrakumar.

M. K. Bhadrakumar

A inauguração do gasoduto Dauletabad-Sarakhs-Khangiran anteontem (06/01), conectando o norte do Irã, região do mar Cáspio, com os vastos campos de gás do Turcomenistão, talvez passe sem ser noticiada na cacofonia da mídia ocidental, para a qual o regime islâmico de Teerã estaria vivendo um momento de “apocalipse now”.
O evento, contudo, é uma mensagem com poderoso significado para a segurança da região. No período de três semanas, o Turcomenistão comprometeu com China, Rússia e Irã, todas as suas exportações de gás. Assim sendo, não há qualquer necessidade urgente dos gasodutos que EUA e União Europeia têm oferecido. Estaremos ouvindo os primeiros acordes de uma sinfonia Rússia-China-Irã?
O gasoduto turcomano de 182 quilômetros começa a bombear modestos 8 bilhões de metros cúbicos (bmc) [ing. billion cubic meters (bcm)] de gás turcomano. Mas tem capacidade para bombear anualmente 20 bmc – com o que serão atendidas todas as necessidades da região do Cáspio iraniano, e Teerã poderá dirigir para a exportação toda a produção dos campos do sul do país.
Os interesses dos dois lados estão em perfeita harmonia: Ashgabat consegue um mercado cativo, na porta ao lado; o norte do Irã pode consumir sem medo de racionamentos de inverno; Teerã passa a gerar excedentes para exportar; o Turcomenistão pode buscar vias de exportação para o mercado mundial, via Irã; e o Irã pode aspirar a extrair vantagens de sua excelente localização geográfica, como eixo para as exportações turcomanas.
Estamos assistindo a constituição de um novo padrão de cooperação energética em plano regional que dispensa negócios com "as grandes do petróleo". A Rússia tradicionalmente dá o primeiro passo; China e Irã seguem a trilha já aberta. Rússia, Irã e Turcomenistão são donos, respectivamente, da primeira, segunda e terceira maiores reservas mundiais de gás. E a China, nesse século, será consumidora por excelência. Todo esse arranjo regional terá profundas consequências sobre a estratégia global dos EUA.
O gasoduto turcomano-iraniano ri-se da política dos EUA para o Irã. Os EUA ameaçam o Irã com novas sanções e bradam que o Irã estaria “cada vez mais isolado”. Mas o jato presidencial de Mahmud Ahmadinejad voa para a Ásia Central, pousa no tapete vermelho de Ashgabat para ser acolhido pelo presidente Gurbanguly Berdymukhammedov do Turcomenistão e… forma-se novo eixo econômico. A diplomacia de coerção e ameaças de Washington não funcionou. O Turcomenistão, com PIB de US$18,3 bilhões, desafiou a única superpotência (PIB de $14,2 trilhões) – e, ainda melhor, fez a coisa parecer rotina.
Há também subtramas. Teerã anuncia negociações com Ancara para transportar o gás turcomano até a Turquia pelos já existentes 2.577 quilômetros de gasoduto que ligam Tabriz, no noroeste do Irã, e Ancara. De fato, a diplomacia turca segue orientação de política exterior independente. A Turquia também aspira a operar como eixo de distribuição para fornecer energia para a Europa. A Europa pode estar perdendo a batalha pelo estabelecimento de acesso direto ao Cáspio.
Em segundo lugar, a Rússia não dá sinais de qualquer incômodo por a China aproveitar-se da energia gerada na Ásia Central. As importações europeias de energia russa caíram, e os produtores de energia na Ásia Central têm batido às portas do mercado consumidor chinês. Do ponto de vista dos russos, as importações chinesas não privarão a Rússia nem da energia de que precisa para consumo, nem da que precisa para exportar. A Rússia já está implantada com suficiente profundidade no setor energético da Ásia Central e do Cáspio, para saber que não enfrentará racionamentos de energia.
O que realmente interessa à Rússia é não comprometer seu papel de maior fornecedor de energia para a Europa. En quanto os países da Ásia Central não precisarem de novos gasodutos transcaspianos financiados pelos EUA, tudo continuará perfeitamente bem do ponto de vista dos russos.
Em recente visita a Ashgabat, o presidente russo Dmitry Medvedev normalizou os contatos energéticos entre Rússia e Turcomenistão. A restauração desses laços é importante conquista política para os dois países. Primeiro, porque depois do reaquecimento dessas relações, o Turcomenistão manterá suprimento anual de 30 bcm de gás para a Rússia. Segundo, nas palavras do presidente Medvedev, "Pela primeira vez na história das relações Rússia-Turcomenistão, o gás será negociado por preços absolutamente alinhados com as condições do mercado europeu.” Analistas russos dizem que a [empresa] Gazprom acabará por descobrir que comprar gás turcomano é mau negócio; e que, se Moscou escolheu pagar preço mais alto, é, sobretudo, porque decidiu não deixar para trás nenhum gás que possa ser distribuído para outros consumidores, sobretudo pelos gasodutos alternativos do Projeto Nabucco financiado pelos EUA
Em terceiro lugar, ao contrário da propaganda ocidental, o Turcomenistão não vê o gasoduto chinês como substituto para a [empresa] Gazprom. A política de preços da Rússia assegura que, do ponto de vista do Turcomenistão, a Gazprom continua a ser consumidor insubstituível. O preço do gás turcomano de exportação para a China ainda está sendo negociado e simplesmente não pode alcançar a oferta russa.
Em quarto, Rússia e Turcomenistão reiteraram seu compromisso com o Gasoduto Cáspio Costeiro [ing. Caspian Coastal Pipeline] (que corre ao longo da costa leste do Cáspio, para a Rússia) com capacidade para 30 bcm. Evidentemente, a Rússia espera obter gás adicional da Ásia Central, do Turcomenistão (e do Cazaquistão).
Em quinto, Moscou e Ashgabat concordaram em construir juntos um gasoduto leste-oeste conectando todos os campos turcomanos de gás a uma única rede, de modo que os gasodutos que andam em direção à Rússia, Irã e China possam receber gás de todos os campos.
De fato, contra o pano de fundo da intensificação dos movimentos dos EUA em direção à Ásia Central, a visita de Medvedev a Ashgabat tem impacto sobre toda a segurança regional. Na conferência conjunta de imprensa com Medvedev, Berdymukhammedov disse que as posições de Turcomenistão e Rússia nos processos regionais, particularmente na região da Ásia Central e do Cáspio, são em geral idênticas. Sublinhou que os dois países entendem que a segurança de um não pode ser obtida à custa do outro. Medvedev concordou que havia semelhança ou unanimidade entre os dois países nas questões relacionadas à segurança, e confirmou a disposição para agirem juntos.
A diplomacia dos EUA para o gasoduto no Cáspio, que visava a passar ao largo da Rússia, deslocar a China e isolar o Irã fracassou. A Rússia planeja agora duplicar o gás importado do Azerbaijão, cortando ainda mais os esforços ocidentais para conquistar Baku como fornecedor para o Projeto Nabucco. Em linha com a Rússia, o Irã também está emergindo como consumidor do gás do Azerbaijão. Em dezembro, o Azerbaijão firmou acordo para fornecer gás ao Irã através dos 1.400 quilômetros do gasoduto de Kazi-Magomed-Astara.
O “grande quadro” mostra que as correntes Sul e Norte Russas – que fornecem gás para o sul e o norte da Europa – estão ganhando força irreversível. Os obstáculos que havia na Corrente do Norte foram superados quando a Dinamarca (em outubro), a Finlândia e a Suécia (em novembro) e a Alemanha (em dezembro) aprovaram o projeto do ponto de vista ambiental. Na próxima primavera, o gasoduto começará a ser construído.
O projeto conjunto para que a Gazprom, a alemã E.ON Ruhrgas e a BASF-Wintershall construam o gasoduto de $12 bilhões, e a empresa de transporte Gasunie evita as rotas de passagem da era soviética via Ucrânia, Polônia e Belarus e parte do porto russo de Vyborg, no noroeste da Rússia, para o porto alemão de Greifswald, em rota de 1.220 km que cruza o Mar Báltico. A primeira perna do projeto, com capacidade para transportar anualmente 27,5 bmc de gás, estará pronta no próximo ano; e até 2012 a capacidade estará duplicada. Essa Corrente Norte afetará profundamente a geopolítica da Eurásia, as equações transatlânticas e os laços que aproximam Rússia e Europa.
Não há dúvidas de que 2009 foi ano de fortes emoções na “guerra da energia”. Com o gasoduto chinês inaugurado pelo presidente Hu Jintao dia 14 de dezembro; com o terminal petroleiro próximo ao porto de Nakhodka, no extremo oriente da Rússia inaugurado pelo primeiro-ministro Vladimir Putin dia 27 de dezembro (que será alimentado pelo oleoduto-gigante de $22 bilhões, desde os novos campos da Sibéria e alcança os mercados do Pacífico asiático); e com o gasoduto iraniano que Ahmadinejad inaugurou anteontem, dia 6 de janeiro – não há dúvidas de que o mapa energético da Eurásia e do Cáspio foi virtualmente redesenhado.
O ano novo de 2010 começa com uma questão fascinante: Rússia, China e Irã saberão operar em movimentos coordenados ou, pelo menos, saberão harmonizar seus interesses concorrentes?

Fonte: Agência Carta Maior - http://www.agenciacartamaior.com.br

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Interesse pelo álcool pode ter levado homem pré-histórico a plantar

Frank Thadeusz

Será que nossos ancestrais do Neolítico se voltaram para a agricultura para garantir um drinque? O arqueólogo norte-americano Patrick McGovern pensa que sim. O especialista em identificar traços de álcool em sítios pré-históricos acredita que a sede de bebidas fermentadas foi um incentivo bom o bastante para que o homem começasse a cultivar as plantas.

Eduardo Knapp/Folha Imagem

Parece que a queda do Paraíso talvez não tenha começado com uma maçã. O mais provável é que a humanidade tenha se desviado do caminho por conta de um punhado de figos maduros.
Eis como é provável que a história tenha começado - um homem, ou mulher, pré-histórico pegou alguma fruta caída do chão e colocou-a inocentemente na boca. O primeiro efeito não foi nada além de um sabor agradável e agridoce que se espalhou pelo palato. Mas à medida que o álcool entrou na corrente sanguínea, o cérebro começou a enviar uma nova mensagem - o que quer que seja isso, quero mais!
Os primeiros encontros da humanidade com o álcool sob a forma de frutas fermentadas provavelmente aconteceram de uma forma acidental como esta. Mas uma vez que se acostumaram ao efeito, acredita o arqueólogo Patrick McGovern, nada deteve os seres humanos em sua busca da intoxicação frequente.
Um fornecimento constante de álcool parece ter sido parte das necessidades básicas da comunidade humana muito mais cedo do que se imagina. Há cerca de 9 mil anos, muito antes da invenção da roda, os habitantes do vilarejo neolítico de Jiahu na China fermentavam um tipo de bebida com 10% de teor alcoólico, descobriu McGovern recentemente.
McGovern analisou artefatos de argila encontrados durante escavações no vale do Rio Amarelo na China em seu Laboratório de Arqueologia Biomolecular para Cozinha, Bebidas Fermentadas e Saúde no Museu da Universidade da Pensilvânia.
O arqueologista, que usa barba, é reconhecido em todo o mundo como um especialista em identificar traços de bebidas alcoólicas em descobertas pré-históricas. Ele realizou a chamada cromatografia líquida associada com a espectrometria de massa nos restos de argila da Ásia e encontrou traços de ácido tartárico - um dos muitos ácidos presentes no vinho - e cera de abelha nos pedaços de argila. Parece que os humanos pré-históricos da China combinavam frutas e mel para produzir uma bebida intoxicante.

Estratégia de sobrevivência
Além disso, esteróis de plantas mostram que o arroz selvagem também era um ingrediente usado. Sem nenhum conhecimento de química, os humanos pré-históricos, ansiosos pelos efeitos intoxicantes do álcool, aparentemente misturavam punhados de arroz com saliva em suas bocas para quebrar o amido dos grãos e transformá-lo em açúcar maltado.
Esses cervejeiros pioneiros cuspiam então o arroz mastigado na bebida. Cascas e espuma fermentada flutuavam no topo do líquido, então eles usavam longos canudos para beber de jarras de boca estreita. O álcool ainda é consumido desta forma em algumas regiões da China.
McGovern vê esse antigo processo de fermentação como uma inteligente estratégia de sobrevivência. "Consumir açúcar e álcool, altamente energéticos, era uma solução fabulosa para sobreviver num ambiente hostil com poucos recursos naturais", explica.
As descobertas mais recentes da China são consistentes com as provas de McGovern, que sugerem que a habilidade de fazer álcool se espalhou rapidamente por vários locais ao redor do mundo durante o período neolítico. Xamãs e alquimistas dos vilarejos misturavam frutas, ervas, especiarias e grãos em potes até que eles formassem uma mistura consumível.
Mas isso não era suficiente para McGovern. Ele levou a teoria muito mais adiante, visando uma completa reinterpretação da história da humanidade. Sua tese corajosa, que ele detalha no livro "Uncorking the Past. The Quest for Wine, Beer and Other Alcoholic Beverage" ["Tirando a Rolha do Passado. A Busca por Vinho, Cerveja e Outras Bebida Alcoólicas"] afirma que a agricultura - e com ela toda a Revolução Neolítica, que começou há cerca de 11 mil anos - são de fato consequência do impulso incontrolável pela bebida e intoxicação.
"Provas científicas sugerem que nossos ancestrais na Ásia, México e África cultivaram trigo, arroz, milho, cevada e painço principalmente com o objetivo de produzir bebidas alcoólicas", explica McGovern. Enquanto faziam isso, essas primeiras civilizações que gostavam de um drinque conseguiram assegurar sua sobrevivência básica.

Uma bebida híbrida
Há muito os arqueologistas consideravam a questão do que veio primeiro, o pão ou a cerveja. McGovern acredita que os humanos pré-históricos não tinham inicialmente a capacidade de dominar o processo complicadíssimo de produzir cerveja. Entretanto, eles eram ainda mais incapazes de produzir pão, para os quais os grãos selvagens eram extremamente inadequados. Eles teriam que primeiro separar os pequenos grãos, e o resultado dificilmente valeria o esforço. Se muito, os primeiros padeiros provavelmente não fizeram nada mais do que um pão grosseiro pouco palatável, com indesejadas cascas de grãos.
Assim, é proável que os primeiros agricultoras enriqueceram sua dieta com uma bebida híbrida - metade vinho de frutas e metade hidromel - que era de fato bastante nutritiva. Os homens do neolítico eram devotos desse líquido precioso. No sítio de escavação de Hajji Firuz Tepe nas montanhas Zagros no nordeste do Irã, McGovern descobriu prateleiras de vinho pré-histórico usadas para guardar jarros hermeticamente fechados. Os habitantes do vilarejo temperavam seu álcool com resina de árvores de pistache do Atlântico. Diz-se que este ingrediente tinha propriedades curativas, no caso de infecções por exemplo, e era usado como um antibiótico antigo.
Os moradores do vilarejo neolítico moravam confortavelmente em espaçosos abrigos de tijolos de barro, e o arqueólogo e sua equipe encontrou sobras de recipientes de vinho nas cozinhas de quase todas as casas. "Beber não era apenas um privilégio dos mais abastados do vilarejo", diz McGovern, que acrescenta que as mulheres também bebiam.

Uma inscrição misteriosa?
Justamente no Irã, onde o consumo de álcool é hoje punido com chibatadas, o cientista americano encontrou vasilhas que continuam a primeira evidência científica da cerveja pré-histórica. Primeiro ele ficou intrigado com os vasilhames bulbosos com aberturas grandes encontrados no vilarejo pré-histórico de Godin Tepe. Todos os vasilhames de vinho até então conhecidos tinham aberturas menores.
McGovern também ficou surpreso com os sulcos em forma de grade riscados no fundo dos recipientes. Tratava-se de alguma uma inscrição misteriosa?
Mas de volta no laboratório, ele isolou o oxalato de cálcio, conhecido dos cervejeiros como um subproduto indesejado da produção de cerveja. Hoje, as cervejarias conseguem filtrar os cristais sem muita dificuldade. Mas seus antecessores habilidosos, 3.500 anos a.C., riscavam sulcos em suas jarras de 50 litros para que as pequenas pedras ficassem presas ali. McGovern descobriu as primeiras garrafas de cerveja da humanidade.
Os antigos fazendeiros de Godin Tepe cultivavam cevada nos campos próximos ao vilarejo e moíam sua colheita usando pedras de basalto. Então eles fermentavam o grão de diversas formas, numa cerveja preta adocicada e com sabor de caramelo, uma bebida com cor de âmbar, e outras bebidas saborosas.
Por volta da mesma época, os sumérios homenageavam sua deusa da fertilidade Nin-Harra, que eles consideravam inventora da cerveja. Os criadores da civilização mesopotâmica deixaram instruções para produzir cerveja em pequenos pedaços de argila em homenagem a Nin-Harra. O principal ingrediente da cerveja que eles faziam era uma espécie de trigo que desapareceu desde então.
Assim o projeto humano que começou com os primeiro hominídeos tropeçando em volta de árvores frutíferas culminou com esses bebedores de cerveja pré-históricos. "O consumo moderado de álcool era vantajoso para nossos ancestrais", especula McGovern, "e eles se adaptaram a isso biologicamente".
É um legado que ainda pesa sobre a humanidade hoje. O arqueólogo, entretanto, vê a si mesmo como alguém razoavelmente equilibrado nesse sentido. Os ancestrais de um dos lados de sua família, os McGovern, abriram o primeiro bar de sua cidade natal, Mitchell, em Dakota do Sul. Entretanto, o outro lado da família, particularmente puritano, veio da Noruega e evitava estritamente o consumo de álcool.

Fonte: Der Spiegel - http://www.spiegel.de/

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Fungo revela data de extinção do mamute

Esporos em fezes sugerem declínio gradual dos grandes mamíferos nas Américas, descartando tese de matança-relâmpago.
Outro estudo, usando DNA, mostra que megafauna sobreviveu em regiões isoladas mesmo depois do pico do desaparecimento
.

RICARDO BONALUME NETO

Ainda não se sabe com 100% de certeza o que causou a extinção dos grandes mamíferos das Américas -mamutes, mastodontes, preguiças gigantes- milhares de anos atrás. Mas dois novos estudos inocentaram em parte os antigos índios da cultura conhecida como Clovis, jogando uma parcela da culpa para seus antecessores.
As pesquisas mostram que o processo de extinção dos grandes animais durou bem mais tempo do que se imaginava, com isso pondo por terra pelo menos duas hipóteses -a de que teria sido causada imediatamente pelo impacto de um meteoro ou por uma rápida matança pelo homem, a chamada hipótese "Blitzkrieg" ("guerra relâmpago").
Os índios da cultura Clovis, de 13,5 mil anos atrás (em idade calibrada), possivelmente apenas deram o golpe de misericórdia nos grandes bichos, afirma um estudo publicado na revista "Science"; e bolsões de mamutes e cavalos sobreviveram no interior do Alasca por pelo menos 2.600 e 3.700 anos a mais do que se imaginava, respectivamente, segundo o outro, publicado na revista "PNAS".
Alguma forma de mudança climática também pode ter apressado o fim dos grandes animais. A prova do crime foi achada em estrume fossilizado.
"Pela primeira vez nós temos uma ligação muito próxima entre esses grandes eventos ecológicos", disse o líder da pesquisa da "Science", John W. Williams, da Universidade de Wisconsin em Madison, EUA.
Responder a essa pergunta -o que trouxe a extinção?- tem criado tanta polêmica que desviou a atenção dos pesquisadores para uma segunda questão importante: como a extinção afetou o ecossistema?
O estudo "dá respostas a ambas questões", foi o comentário de outro pesquisador que trabalha com extinções da chamada megafauna, Christopher Johnson, da Universidade James Cook, na Austrália.
"Minha interpretação da evidência no novo artigo é que foram pessoas que causaram a extinção da megafauna, e que fizeram isso ao caçar demais", disse Johnson à Folha.
"Seria ingenuidade achar que não houve papel humano nas extinções", diz o pesquisador brasileiro Mauro Galetti Rodrigues, da Unesp de Rio Claro, que também publicou artigo na "Science" este ano sobre a extinção da megafauna.
"Na América do Sul a extinção não foi tão abrupta como se falava sobre a América do Norte. A hipótese Blitzkrieg nunca se aplicou aqui", diz Galetti.
A equipe de Williams comparou pólen e carvão pré-históricos em sedimentos tirados do lago Appleman, Indiana, mas a grande estrela da pesquisa é um fungo encontrado no estrume de grandes mamíferos.
Os fungos do gênero Sporormiella são "coprófilos" -isto é, vivem em fezes-, pois precisam da digestão por herbívoros para completar o ciclo de vida.
A quantidade de esporos de Sporormiella representa, portanto, um ótimo indicador da quantidade de grandes herbívoros ao longo do tempo.
O estudo demonstrou que esses grandes animais começaram a declinar cerca de mil anos antes de aparecerem registros da cultura Clovis.
Essa tradição cultural norte-americana, que até a década passada era considerada a mais antiga das Américas, trouxe inovações tecnológicas como pontas de lança chanfradas e machados bifaciais. Isso permitiu que o povo -ou os povos- Clovis vivesse basicamente da caça de grandes mamíferos, como mamutes. Muitos arqueólogos põe nesse grupo humano a culpa pela extinção, mas o declínio principal da megafauna, a julgar pelos esporos de fungo, teria ocorrido entre 14,8 mil e 13,7 mil anos atrás.

Paisagismo natural
"Nosso trabalho não resolve o debate sobre a causa, mas elimina algumas das hipóteses. Quanto ao clima, podemos eliminar a mudança de habitat, que parece ser uma consequência, e não uma causa, das extinções", disse à Folha a principal autora do estudo, Jacquelyn L. Gill, orientanda de Williams.
"Depois do declínio dos esporos, nós observamos uma mudança na comunidade de vegetação e um aumento de incêndios na paisagem", disse.
Tanto o fogo quanto a presença de grandes herbívoros afetam a paisagem vegetal. O "paisagismo" criado pelos animais é função da sua preferência por determinadas plantas.
Sem esses animais de mais de uma tonelada de peso, as plantas que eles comiam podem crescer e se multiplicar, produzindo uma floresta diferente daquela do passado, mas também daquela atual.
O território passou a ser colonizado por árvores como freixos, olmos e carpinos, que antes seriam devoradas.
A paisagem em torno do lago Appleman durante o auge da megafauna era semelhante à de uma savana, com grandes espaços abertos. Com a chegada dos seres humanos ao continente começou a caça aos animais que viviam nessa savana e ajudavam a moldar sua vegetação.
Mas, mesmo no ponto de entrada dos humanos nas Américas, o Alasca, o estudo da "PNAS" mostrou uma inesperada sobrevivência.
Em vez de procurar macrofósseis -isto é, ossos e dentes de animais-, a equipe liderada por Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, foi atrás de restos de seu material genético preservados no solo.
A técnica usada permite descobrir os fósseis moleculares, isto é, DNA preservado no solo onde o animal ou planta morreu sem deixar restos maiores.
"Nossos achados mostram que o mamute e o cavalo existiram lado a lado com os primeiros imigrantes na América com certeza por 3.500 anos e não foram, portanto, exterminados por eles", afirma Willerslev.
"Quanto aos seres humanos, nosso registro sugere que no tempo em que adotaram o kit de ferramentas de Clovis, os animais já estavam em declínio. Há evidências crescentes de que os seres humanos já estavam de fato na paisagem antes de Clovis (…) Os seres humanos estavam na região dos Grandes Lagos 14,.5 mil anos atrás, e embora possam ter desempenhado um papel nas extinções, foi antes de desenvolverem estas ferramentas especializadas", diz Gill.
"Há uma boa chance de que as populações pré-Clovis e Clovis fossem na verdade a mesma, e que Clovis marca um desenvolvimento tecnológico, em vez da chegada de um grupo distinto", acrescenta Johnson.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo - http://www.uol.com.br

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Projeto mapeia impactos de mudanças climáticas no Rio e em São Paulo

Nepo avalia vulnerabilidade de metrópoles em trabalho feito em parceria com Inpe.

ISABEL GARDENAL

Um projeto do Núcleo de Estudos da População (Nepo) da Unicamp, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), está identificando nas duas maiores metrópoles brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro, os lugares mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global. Relatório preliminar apresentado no Workshop do Painel Internacional sobre Megacidades, Vulnerabilidade e Mudança Climática Global, realizado nas duas cidades nos dias 26 e 27 de novembro, apontou que o ponto mais crítico no Rio de Janeiro está nas lagoas Rodrigo de Freitas e nas Baías de Guanabara e de Sepetiba, ao passo que em São Paulo está na ocupação do leito dos rios Tietê e Pinheiros.

Os estudos são coordenados na Unicamp pelo professor Daniel Hogan, responsável pela Área de População e Ambiente, e no Inpe pelo professor Carlos Nobre. Tal atividade mantém vínculo com a Rede Clima, criada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) em 2007, e tem no total dez sub-redes, entre as quais a denominada “Cidades”. A primeira reunião da rede aconteceu no mês passado no Nepo e teve a participação de cerca de 20 pessoas e de representantes de uma dezena de instituições do país.

O aumento da temperatura, constatado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), já começa a dar mostras de que está afetando o Rio de Janeiro. Segundo especialistas, por si esta elevação não seria tão impactante não fosse a sua associação com os eventos de chuva mais intensos e que podem alcançar em cheio as partes mais baixas da cidade. Trata-se de uma situação caótica e já com diversos eventos decorrentes das mudanças naturais. Com o aquecimento global, as mudanças tendem a se intensificar. “Os governos do Rio de Janeiro e de São Paulo não estão preparados para enfrentá-las em curto prazo”, declara a arquiteta e urbanista Andrea Young, autora principal do relatório e pesquisadora do Nepo.

As primeiras avaliações tomaram por base paineis realizados pelo grupo, congregando as ideias dos especialistas dos dois Estados e do exterior na área de mudanças climáticas. O Estado do Rio de Janeiro já possuía um documento elaborado pelos pesquisadores do Instituto Pereira Passos, da Secretaria do Meio Ambiente da Prefeitura, que serviu como ponto inicial para situar os vários problemas das mudanças climáticas. Nesse Estado, foi efetuado um levantamento das áreas mais vulneráveis entre a cota 40 cm e 2 metros, notando-se que a elevação do nível do mar se agravaria muito se somada aos eventos de chuva mais intensos.

Essa associação, explica Young, começaria a interferir também em áreas que normalmente não seriam alcançadas. Conforme ela, como o Rio de Janeiro sofreu um processo de ocupação muito intenso e irregular, as áreas de morros e de encostas sofreram com o desmatamento, tornando-se mais sujeitas a desmoronamentos. Isso porque a superfície do solo passou a não contar mais com a proteção da vegetação e, à medida em que ocorrem chuvas mais intensas, também desprendem-se as camadas superficiais do solo, deixando-o mais propício a escorregamentos, por não dispor de um sistema de drenagem adequado.

Young relata que a ocupação ocorreu onde se situam os manguezais, as planícies, as lagoas como a Rodrigo de Freitas e as baías de Guanabara e de Sepetiba. Todas essas áreas, diz a pesquisadora, passaram a receber esta contribuição tanto do processo de assoreamento como de contaminação, em razão da presença dos lixões que estão nas favelas e em áreas espalhadas pelos morros. “Com o aumento do nível do mar, nas superfícies, ocorrem pressões sobre a infraestrutura de saneamento que, em muitos locais, possui mais de 100 anos. O lençol freático também submerge e colabora para pressionar o sistema de saneamento, que pode se romper e contaminar ainda mais as áreas. Então, o problema das mudanças climáticas no Rio de Janeiro deve agravar a situação”.

São Paulo
Em São Paulo, o processo de ocupação foi diferente do que o registrado no Rio de Janeiro, compara Young, por não ser uma cidade litorânea. Guardadas as devidas proporções, outros problemas relevantes também acometem a Capital. O maior deles talvez seja a ocupação dos leitos dos rios Tietê e Pinheiros. A arquiteta recorda que o Tietê tornou-se comprometido porque a expansão urbana foi tão vasta e intensa que se espalhou por toda esta bacia. Um ponto a ser considerado, expõe, foi que as áreas de várzea e de margem não foram de todo protegidas e nem mantidas ao longo de sua expansão. Também o sistema viário acabou convergindo para o centro da cidade, a partir do qual começou a se expandir, observando-se um núcleo central com as marginais em torno e, a partir disso, iniciando a expansão para outros municípios. Outra coisa: vigora até hoje o mesmo padrão de ocupação dos últimos 100 anos.

Lamentavelmente, pontua a arquiteta, as medidas tomadas pelo governo do Estado não conseguem suprir essas carências. São elas a canalização dos rios e a implantação de piscinões, para prover a ausência das várzeas, que fariam a reservação da água em momentos de cheia. No seu entender, elas não funcionam como poderiam, se não tivesse ocorrido este processo de ocupação, quando tudo foi impermeabilizado. Mesmo a canalização, ao invés de atuar como fator positivo, em alguns momentos chega a atrapalhar.

A pesquisadora enfatiza que o rio Tietê – que tem meandros naturais e que é propício a várzeas e margens, além de ter o poder de diminuir a velocidade das águas, na hora de uma cheia, e as inundações a jusante – fez um processo contrário: a vazão começou a ficar maior devido à impermeabilização e à canalização. “A água cai, não penetra no solo e vai para este rio canalizado. Ele enche muito rapidamente e não consegue dar conta do escoamento porque não tem mais a profundidade anterior em função do assoreamento que vai ocorrendo.”

Dessa forma, dimensiona Young, há o problema de impermeabilização do solo que foi desmatado e da sua ocupação pela área urbana. Logo, onde existe solo exposto, este também sofre run-off, isto é, um carreamento, e vai todo para a bacia. Paralelamente, estas bacias foram ocupadas por sistemas viários absolutamente sobrecarregados. “É uma poluição absurda pela emissão por parte dos veículos, transformando a bacia em uma bacia de poluição, e o que era para ser um local de controle do regime natural do sistema hídrico passa a entrar em colapso. Como consequência, a inundação pode estar presente em vários pontos, como no rio Tamanduateí, na bacia do Aricanduva e em várias microbacias da região”.

Escala e modelagem
A especialista diz que as principais previsões para o planeta partem do IPCC e aludem-se a um período de 100 anos. Ele fornece quatro cenários: A1, A2, B1, B2, que constituem referências com relação às emissões futuras de gases de efeito estufa, os quais levam em consideração forçantes controladoras como demografia, desenvolvimento socioeconômico, mudança tecnológica, bem como suas interações. O IPCC realiza análises sistemáticas sobre o conhecimento científico das mudanças climáticas globais, seus impactos potenciais e as opções de mitigação e de adaptação.

Young diz que caberá ao Brasil fazer uma aproximação mais otimista desses cenários. No entanto, reconhece que existem alguns problemas de escalas para fazer uma aproximação mais realista. Os cenários estão numa escala que, quando trazida para o nível local, praticamente se refere à mancha urbana que toma o município do Rio de Janeiro como um todo, não dando para perceber possíveis variações – há mudanças na microescala em razão do próprio uso e ocupação do solo. “É algo bem complexo e exige detalhamento das áreas que poderão estar sofrendo mais ou menos com isso, por conta da vulnerabilidade local e social”, afirma a arquiteta.

Os modelos mostram ainda muita dificuldade de reportar algo sobre regiões específicas. Particularmente, o meteorologista José Marengo, professor do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTec do Inpe), tem se debruçado em estudar downscaling para conhecer como os impactos serão sentidos diferentemente por regiões. Este é um dos grandes desafios do momento para os estudiosos do clima. “Os modelos devem caminhar para serem mais realistas em regiões como o Litoral Norte de São Paulo ou como a região metropolitana de São Paulo e do Rio de Janeiro”, afirma Hogan.

O que de mais seguro os modelos atuais conseguem fazer, revela ele, é falar em nível de escala global. O primeiro esforço de Marengo para regionalizar os cenários dos grandes modelos indicou que a Amazônia poderá ter diminuída 40% da sua cobertura florestal, que tende a ser substituída pelo bioma savana. No Nordeste, a redução de chuvas poderá causar perdas na agricultura e reduzir a capacidade de pastoreio de bovinos de corte. A região será impactada com a desertificação de grandes áreas. O Sul e o Sudeste, graças às suas maiores resiliências, serão os menos impactados. A Amazônia e o Nordeste seriam, portanto, as regiões brasileiras mais vulneráveis às mudanças climáticas.

Cenários
De acordo com os relatórios de Marengo, o aumento da chuva tem se intensificado nos últimos dez anos. Mas foi ao longo do processo de industrialização que a temperatura nas cidades brasileiras aumentou, sobretudo nos últimos 50 anos. Existe uma previsão pessimista no relatório IPCC de aumento de três graus mundialmente nos próximos 100 anos, ao passo que o último Relatório de Copenhague foi menos otimista ainda, ao informar que o aumento já está se processando. “Se a elevação da temperatura exceder dois graus, poderá então implicar perdas de culturas agrícolas e de vegetação; em termos de biodiversidade, algumas espécies poderão ser extintas; e o degelo nas montanhas, no Ártico e nos polos, com certeza poderá afetar os oceanos”, descreve Hogan.

Não falando mais a respeito de eventos físicos, ele menciona as repercussões para o ser humano. “As mudanças serão em termos de intensidade, não de quantidade de chuvas. As tempestades serão mais frequentes e as precipitações virão com intensidade nos períodos interchuva (secos) e haverá mudanças no padrão de umidade”, informa. Segundo o professor, certos grupos populacionais como os de bebês e de idosos sofrerão mais ainda com os picos de seca.

Algumas medidas do sistema de saúde, acredita ele, deverão ser pensadas para atender e preparar as demandas. Outras medidas em termos das chuvas e precipitações intensas deverão atuar no sentido de reforçar a Defesa Civil que, em sua opinião, já tem melhorado sensivelmente. “Este órgão precisa envolver as populações. Elas devem ser mais aparelhadas para esses eventos. Tudo o que falamos sobre o futuro exige já no presente alguns cuidados, pois por certo o futuro será pior”, relata Hogan. “Se este tema for enfrentado somente por quem está estudando-o, não será suficiente. Todo mundo tem que entender que isso vai repercutir em todas as dinâmicas da vida em sociedade e na forma como são construídas as nossas cidades”, contextualiza o geógrafo Eduardo Marandola Jr., pós-doutorando em Demografia do Nepo.

Não obstante algumas extrapolações servirem de modelo para outras megacidades, Rio de Janeiro e São Paulo apenas fornecem uma radiografia do que pode acontecer. No restante do país, a situação será com certeza muito pior. No Rio de Janeiro, o Instituto Pereira Passos fez um estudo detalhado sobre o assunto e o governo local já está tomando conta disso. Em São Paulo, houve a publicação de uma lei que é a Política Estadual de Mudança Climática do Estado de São Paulo, determinando algumas medidas e levantamento de informações para lidar com a problemática. “Não se pode dizer que a liderança política destas duas grandes cidades não está fazendo nada. Contudo, se for mantido este mesmo padrão de ocupação, essa forma de se apropriar dos recursos e do ambiente, caminharemos para o fim”, sentencia Hogan.

A última reunião de Copenhague, lembra ele, enfocou mais a questão da mitigação. Neste particular, evidentemente é preciso frear este processo. Não se pode tirar do ar o CO2 que está liberado, entretanto é possível criar mecanismos para frear estas liberações futuras, diminuindo-as. “Isso é muito importante e é o principal objetivo de Copenhague. Porém o que temos discutido até agora é mais a emissão do CO2 já liberado e as mudanças climáticas que já vão acontecer, qual é a vulnerabilidade a isso e quais são as adaptações que precisam ser feitas, independentemente de mitigar”, esclarece Marandola Jr.

A próxima reunião de Copenhage, a 15ª Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP-15), na Dinamarca, inicia esta semana (de 7 a 18 de dezembro), reacendendo as discussões sobre a redução das emissões de carbono no mundo. No evento, deve ser acordado um novo arranjo para o enfrentamento das mudanças climáticas. O Brasil já se comprometeu a diminuir as emissões de gases entre 36,1% e 38,9% até 2020.

Livro aborda dimensões humanas das mudanças

O livro População e Mudança Climática: Dimensões Humanas nas Mudanças Ambientais Globais, organizado por Hogan e Marandola Jr., insere-se no debate atual acerca da sociedade contemporânea, no qual riscos e vulnerabilidades darão os contornos das tendências e dos cenários para o século 21. Mudanças ambientais, mudanças climáticas, extremos atmosféricos, desastres hidrometeorológicos e emissão de gás carbônico são temas, entre outros, que se impõem à agenda global. Acrescido a estes desafios está a importância de se incorporar as dimensões humanas das mudanças ambientais. As pesquisas de ponta e as temáticas de vanguarda referentes à questão ambiental traduzem-se nos estudos desta coletânea, marcados pela interdisciplinaridade.

Tais estudos refletem a preocupação teórico-metodológica para a compreensão das relações entre mudanças climáticas e dinâmica populacional. Por outro lado, reforçam a importância das cidades no bojo das transformações sociais, indicando que são nelas onde os cenários mais otimistas se assentam. O livro é uma referência para diferentes áreas do conhecimento, bem como para o enfrentamento e preparação das novas situações a serem vivenciadas em termos das mudanças ambientais globais nas próximas décadas.

É mais recente a participação de demógrafos, urbanistas, geógrafos e sociólogos em debates que envolvem as mudanças climáticas, trabalho desempenhado pelos estudiosos do clima e cientistas da atmosfera. Por acreditar na valiosa contribuição que as Ciências Humanas podem fornecer, Hogan e Marandola Jr. convidaram 16 pesquisadores para serem seus autores, com patrocínio do Fundo de População das Nações Unidas, em parceria com o Nepo. A obra pode ser adquirida na biblioteca do Nepo ou no site.

Litoral de SP será estudado

Na área de população e ambiente, que existe há mais de duas décadas no Nepo, a mudança climática adquiriu um papel bastante destacado sobretudo nos últimos quatro anos. O Núcleo reúne uma série de sete iniciativas mais pontuais que se reforçam mutuamente. Entre elas, sobressaem no momento, além do projeto de vulnerabilidade às mudanças climáticas no Rio de Janeiro e em São Paulo, um grande projeto apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) dentro do Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais que esta agência de fomento criou no ano passado. O projeto, que está detalhado no site do Núcleo, aborda o crescimento urbano, vulnerabilidade e adaptação às mudanças climáticas no litoral de São Paulo, com suas dimensões ecológica e social.

O projeto da Unicamp é um dos dez selecionados na primeira fase. Está sediado no Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) e é uma atividade conjunta com o Nepo. Está ligado tanto às análises por pesquisadores da área de Demografia quanto às áreas de políticas públicas, antropologia e ecologia, com participação, como pesquisadores principais, do professor Carlos Joly, do Instituto de Biologia (IB); da professora Leila da Costa Ferreira, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), e da professora Lúcia da Costa Ferreira (Nepam), além de duas dezenas de doutores de várias instituições, entre elas Univap, Unifesp, FJP/MG, Embrapa e UFSCar.

O estudo busca identificar as vulnerabilidades nas pequenas cidades do litoral de São Paulo, principalmente do litoral Norte, local que deve ser atingido antes e com mais vigor e dramaticidade pelas mudanças climáticas do que outras regiões. Este projeto tem duração de quatro anos e envolve trabalho de campo, ocorrendo num momento em que grandes transformações estão havendo no litoral, basicamente no campo do petróleo e do gás natural, da extração e do transporte dos produtos do gás e do petróleo offshore, que poderão ter um grande impacto na região.

Entre os seus objetivos estão os de avaliar quais são as capacidades de adaptação dos governos locais, até que ponto eles temem o que poderá acontecer e como estão preparados para as mudanças, se é que estão. “Isso envolve também um lado de entender como a população, não somente os governos municipais e outros órgãos, está compreendendo os problemas e como se sente atingida por eles, ou não. E, se sente atingida, como pensa que vai se proteger e reagir a esses impactos e mudanças, quando ocorrerem”, comenta Hogan. O projeto envolve cerca de 20 doutores e 20 alunos de pós-graduação.

Uma segunda atividade coordenada por Carlos Nobre está relacionada ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudança Climática (INCT-MC), que é sediada no Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). Um dos 20 subprojetos é liderado também por Hogan. “Em 2010, iremos estudar as regiões metropolitanas de Belém, Recife, Belo Horizonte e Curitiba”, conta.

Estes projetos desenvolvidos no Nepo são denominados “Dimensões humanas das mudanças climáticas”, dentro da ciência do clima, um campo dominado pelos físicos, pelos cientistas do clima, da atmosfera e dos oceanos. Como contém tanto o lado da população impactar e sofrer os impactos dessas mudanças, é preciso que as Ciências Humanas tenham uma inserção decisiva no processo, apesar de não ser esta a sua tradição. Estas atividades do Nepo nos últimos anos são pioneiras neste sentido e já se idealiza a criação de um novo campo de estudos do clima no contexto das Ciências Humanas.

Fonte: Jornal da UNICAMP - http://www.unicamp.br/

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Entrevista com o escritor inglês Tom Hodgkinson

Para o escritor inglês Tom Hodgkinson, a pior coisa que os jovens podem querer é passar no vestibular e trabalhar desde cedo numa grande empresa.

Maria Eugenia Tomazini

Há 6 anos, o escritor Tom Hodgkinson deixou para trás um emprego estável e uma casa no lado oeste de Londres para não fazer nada o maior tempo possível. Ele mora hoje numa chácara em North Devon, no meio do nada do sul da Inglaterra, e trabalha em média 3 horas por dia. Passa a maior parte do dia na cozinha, lendo, tocando cavaquinho, fazendo pães ou demorando duas horas para lavar a louça com os filhos. Autor da coluna The Idler (algo como “O Vagabundo”), no jornal inglês The Guardian, Tom acha que o melhor jeito de você ser feliz e até mudar o mundo é deixar de sentir culpa por ter preguiça. “Já existe muita gente fazendo coisas demais. Se você deixar de fazer tanto, já vai colaborar”, diz. Nos livros How to Be Idle (“Como Vadiar”) e The Freedom Manifesto (“Manifesto à Liberdade”), ambos sem edição brasileira, ele afirma que trabalhar, especialmente em grandes empresas, só serve para deixar as pessoas ansiosas e deprimidas. E mostra como se entregar ao ócio com profissionalismo, ensinando o leitor a aproveitar os benefícios da ressaca ou a dar a melhor desculpa ao chefe na hora de avisar que faltará no trabalho. Na bancada de sua cozinha, entre bolos, livros e louça para lavar, Tom Hodgkinson conversou com a Super.

Muitos jovens brasileiros, assim que terminam o ensino médio, são pressionados a escolher uma profissão e entrar na faculdade. Qual deveria ser a melhor atitude nessa situação?

Deveriam parar e pensar mais – pensar por alguns anos. Claro que, se o jovem está apaixonado por uma carreira profissional, deve ir atrás dela assim que puder. Mas muitos estudam, conseguem o diploma e, depois de terem pago anos de faculdade, descobrem que estão cheios de dúvidas. O melhor é dar um tempo para encontrar seus interesses e depois, com maturidade, ir atrás deles. Nós temos toda a vida para trabalhar.

O costume de sair da faculdade louco atrás de emprego também não é a melhor opção?

Também não. Quando você é mais novo, recém-saído da faculdade, quer mais é mudar-se para a capital, trabalhar muito e ganhar muito dinheiro. Mal pensa em falta de liberdade. Eu entendo. O que tento mostrar é que existem alternativas. Não é preciso aprender da forma mais difícil o valor que a liberdade tem. O objetivo de meus livros é mostrar que essa busca por segurança e dinheiro leva a outra coisa: ao estresse e ao tédio. O problema do trabalho nas corporações é que as pessoas começam a se acostumar com o tédio. Passam a achar que a situação é normal. Com o tempo, você se acostuma, ganha poder e um salário maior. Mas isso é apenas uma compensação por ter deixado a vida de lado.

Um problema que vem sendo discutido nas grandes empresas é o fato de o funcionário ficar 8 horas na frente do computador com uma produtividade baixíssima. Por que isso acontece?

Esse é o lado negativo da preguiça. Mesmo em ambientes de trabalho mais modernos, é comum você se perceber na seguinte situação: “São 2 horas da tarde, devo ficar no escritório até as 6 e não tenho nada para fazer. Por que não posso ir para casa?” Qual é o problema de chegar uma hora atrasado no trabalho porque você está de ressaca? Sei que terei de ficar até mais tarde de qualquer forma, chegando ou não atrasado. A única coisa importante é o prazo final para a entrega. Por isso, o melhor é trabalhar para realizar uma tarefa específica, e não pelo tempo que o funcionário passou na empresa.

Então a ressaca é um motivo justo para faltar em um dia de trabalho?

Qualquer pessoa pode criar boas desculpas para não trabalhar, tirar um dia de semana de descanso ou ficar com os amigos. Uma empresa britânica criou o Dia do Edredom, permitindo que cada funcionário, uma vez por mês, ligue para o chefe informando que naquele dia não está apto para o trabalho. Você pode fazer isso mesmo se a sua empresa não implantou um programa assim. Com relação à ressaca, o problema é que tentamos nos comportar como se ela não existisse. Depois daquela noitada, você acorda tentando negar que está de ressaca. Só quando o dia passa você se dá conta que não está conseguindo fazer nada. Então o melhor é evitar o excesso de atividades quando estiver nesse estado. O importante é não se sentir culpado por ter gastado o tempo se divertindo.

E os colegas não têm direito de reclamar de quem falta porque está de ressaca?

Não! Quem está errado é esse colega que trabalha demais. Ele é que deveria se sentir culpado por fazer hora extra e trabalhar até tarde da noite. Graças a esse profissional, outras pessoas se sentem culpadas por trabalhar menos.

Sem trabalhar, como vamos sobreviver?

Não digo que devemos deixar de trabalhar, apenas parar de considerar o emprego um fator tão importante na vida. Eu larguei uma grande empresa para ficar em casa, ganhando dinheiro como jornalista freelancer. Se um médico não pode deixar o hospital, consegue facilmente trabalhar por meio período. Se você não pode largar o trabalho, tente não se incomodar tanto com ele.

Gastar menos também é uma opção?

Exatamente. O slogan de uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo é “faça mais, sinta-se melhor, viva mais”. Tudo gira em torno dessa idéia de fazer mais, ser mais eficiente para viver 1 000 anos com a aparência de estar sempre novo. Estamos assustadoramente ocupados e, mesmo assim, entediados. Mas, se você fizer menos coisas, vai gastar menos dinheiro. Pode trabalhar menos mantendo o mesmo padrão de vida.

O ambiente de trabalho muitas vezes é responsável pela sua vida social. Você não sente falta desse tipo de contato?

De forma alguma. Temos que nos esforçar para encontrar amigos em outros ambientes. Gosto do ambiente de trabalho, gosto de trabalhar com outras pessoas com quem agora falo apenas por telefone. Mas existem muitas outras formas de vida social que estão bem longe do emprego. Eu trabalho exaustivamente por 3 horas e depois tenho o resto do dia livre para encontrar quem quiser. Da forma como o trabalho está estruturado, acaba virando um espaço importante da vida social – muitas vezes, o único. É da natureza humana tentar aproveitar ao máximo cada situação, mas isso não significa que a situação não seja ruim.

Trabalhar menos também vale para países como o Brasil, onde se trabalha muito e se ganha pouco?

Minha idéia não é resolver os problemas do mundo, mas buscar outros caminhos para o modelo de vida que pessoas da classe média perseguem em muitos países do mundo. Na Inglaterra, a classe média certamente poderia trabalhar menos e ter uma vida mais ociosa. Acredito que o objetivo de vida das pessoas não deve ser perder dias e meses no escritório.

Quem tenta ficar sem fazer nada geralmente acaba lidando com sentimento de culpa. Por quê?

Outro dia recebi uma carta de uma leitora da Austrália falando que se sentiu muito bem ao ler um dos meus artigos. Ela percebeu que sua família sempre a considerou uma perdedora por causa das escolhas que tinha feito na vida – não ir para faculdade, trabalhar com teatro e morar numa casa mais simples. Assim como ela, você não precisa se sentir culpado por não fazer nada. Tente olhar para os motivos históricos de tanto sentimento de culpa. Ele é um resultado de uma condição imposta pela nossa sociedade e não é um estado nato do ser humano. Somos obrigados a ser bons consumidores e bons trabalhadores, como se quem fugisse desse padrão estivesse agindo da forma errada.

Você largou um bom emprego para morar no meio do nada. Como está sendo a experiência?

Ainda estamos aprendendo. No mês passado o portão caiu e os cavalos comeram toda a plantação. Uma perda! Aprendemos o tempo todo. Agora criamos galinhas e porcos – a carne deles deu um bom dinheiro. Temos uma vida bem confortável, não somos pobres, mas nos esforçamos para precisar de dinheiro o menos possível. Tentamos vender um dos carros para ficar só com um veí culo. Em vez de viajar para outro país, fomos a festivais de música pela Inglaterra.

Você costuma criticar o mundo urbano. Se as cidades são ruins, por que tanta gente se muda para elas?

Para mim, viver no campo é mais barato e menos estressante, mas não sou contra as metrópoles. Viver na cidade pode ser motivante. Toda vez que vou a Londres fico impressionado com a quantidade de oportunidades que o lugar oferece. Não estou dizendo “larguem seu trabalho e mudem-se para o campo”. A cidade pode ser um local libertador, se o que você busca é liberdade.

Mas sempre há coisas chatas para fazer, não?

Sim. Minha próxima tarefa é gostar de lavar louça. Por que ninguém gosta? A água é quente, tenho uma linda paisagem pela janela e há todas essas texturas diferentes com que entro em contato com as mãos. Desde que a lavadora de louças quebrou, lavar os pratos se tornou uma atividade familiar – as crianças adoram ajudar. Victoria, minha esposa, acha um absurdo: sei que em breve vou acabar consertando a lava-louças, mas até lá…

Muitos jovens são obcecados por academias de ginástica. No livro How to Be Idle, porém, você diz que o esporte perfeito é a pesca. Como assim?

A pesca é conhecida como a “meditação do homem comum”, como se fosse o budismo da classe trabalhadora. Ficar sentado, sozinho, na água, é uma interação meio espiritual, que nos dá tempo para pensar. A pesca tem todo o ritual de conexão com a natureza. Cumpre muito bem a função de nos levar para longe dos problemas diários, fazer esquecer o mundo.

Então pegar o peixe não é essencial?

É isso mesmo. Pegar o peixe é o menos importante. O importante é não fazer nada.

Tom Hodgkinson

• Sua casa fica no alto de uma montanha do litoral inglês, com vista para a costa do País de Gales.

• Tem 38 anos e 3 filhos, de 8, 5 e 3 anos.

• Acaba de adquirir a cadela Puppy, uma labrador preta.

• Considera a melhor desculpa no trabalho dizer que teve “problemas familiares”. “Ninguém vai te perguntar detalhes”, diz.

Sem hora para trabalhar

As idéias do inglês Tom Hodgkinson parecem fantasiosas, mas algumas já fazem parte do dia-a-dia de grandes empresas ao redor do mundo. Um exemplo é a tática de pagar os funcionários por tarefas, e não pelas horas que eles tiveram que passar nas baias da firma. Uma reportagem da publicação americana Harvard Business Review mostra que aquela história de ficar 40 horas por semana dentro do escritório é coisa do passado. Na sede americana da IBM, 40% dos funcionários não têm mesa fixa. No escritório da Best Buy, uma empresa de vendas de eletrônicos pela internet, a produtividade dos cerca de 4 mil funcionários aumentou 35% depois que mais da metade deles passou a ser avaliada por tarefas, sem a obrigação de bater ponto todo dia.

Não é apenas uma estratégia dos patrões para pagar menos aos empregados. Pesquisas mostram que os jovens da “geração Y” – que nasceram a partir de 1980 – preferem trabalhar com horários mais flexíveis e receber pelo que fazem, comunicando-se com os colegas a partir de casa, pela internet.

Fonte: Revista Superinteressante - http://super.abril.com.br/super2/home/

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No começo de uma longa viagem

Uma espantosa campanha midiática vem utilizando alguns sinais isolados para dizer que o pior da crise econômica mundial já passou. O renascimento da bolha nas bolsas de valores foi apresentado como o sintoma de uma melhoria geral. Na verdade, estamos perto de uma segunda queda recessiva seguramente mais forte que a de 2008. Os socorros globais de 2008-2009 desaceleraram a queda econômica, mas geraram enormes déficits fiscais nas potências centrais, o que as coloca diante de graves ameaças inflacionárias e de um enfraquecimento extremo em sua capacidade de pagamento. A análise é de Jorge Beinstein.

Jorge Beinstein

Crepúsculo do capitalismo, nostalgias, heranças, barbáries e esperanças no início do século XXI.
Este texto se baseia nas conferências apresentadas nos seminários “Margem Esquerda-Istvan Meszaros” (USP – Editorial Boitempo, 18-21 de agosto de 2009) e “Crisi globale, lavoro, democrazia” (Fondazione Guido Piccini – Facultà di Economia dell Università degli Studi di Brescia, Brescia, 27-28 de novembro de 2009).

Começo do fim (ou fim do começo) da crise?
Desde o início de 2009, Ben Bernanke assinalava que antes do fim do ano começaríamos a ver sintomas claros de superação da crise. No mês de agosto, anunciou que “o pior da recessão havia ficado para trás” (1). Antes do estouro da bolha financeira, em setembro de 2008, Bernanke prognosticava que tal estouro nunca iria ocorrer e, quando finalmente ocorreu, seu novo prognóstico era que em pouco tempo viria a recuperação. Agora, o presidente do Federal Reserve (o Banco Central dos Estados Unidos) decidiu não esperar mais e anuncia ao mundo o começo do fim do pesadelo.
Ele não foi o único a fazê-lo. Uma espantosa campanha midiática vem utilizando alguns sinais isolados para impor essa idéia. Deste modo, o renascimento da bolha das bolsas de valores mundiais, desde meados de março, foi apresentado como o sintoma de uma melhoria econômica geral. Uma nuvem de “especialistas” nos explicou que a euforia da Bolsa estava antecipando o fim da recessão.
Na verdade, as injeções massivas de dinheiro dos governos das grandes potências econômicas beneficiando principalmente o sistema financeiro geraram enormes excedentes de fundos que, em condições de retração generalizada da produção e do consumo, encontraram nos negócios das bolas um espaço favorável para tornar seus capitais rentáveis. Jogando na alta dos valores das ações, empurraram para cima seus preços, o que, por sua vez, estimulou o investimento de mais e mais dinheiro na Bolsa. A isto devemos acrescentar que o motor da euforia das bolsas mundiais, a bolsa dos EUA, além do dinheiro derivado das operações locais de socorro, recebeu importantes fluxos de fundos especulativos externos que, aproveitando a persistente queda do dólar, precipitaram-se na compra de ações baratas e em alta.
Repetiu-se assim a seqüência especulativa do final dos anos 1990 e de 2007, com uma diferença decisiva: o contexto da bolha atual não é o crescimento da economia, mas sim a recessão (ou, no melhor dos casos, a estagnação). As bolhas anteriores (financeiras, imobiliárias, comerciais, etc.) interagiam “positivamente” com o resto das atividades econômicas. As altas nos preços das ações ou das habitações incentivavam o consumo e a produção e estes crescimentos, por sua vez, geravam fundos que em boa medida se voltavam para os negócios especulativos, produzindo-se assim uma espécie de circulo virtuoso especulativo-consumista-produtivo de caráter global em última instância perverso, destinado ao desastre no médio prazo, mas que causava “prosperidade no curto prazo”.
A bolha das bolsas de 2009, pelo contrário, contrasta com baixos níveis de consumo e investimentos produtivos e altos níveis de desemprego. Os excedentes de capitais bloqueados por uma economia produtiva declinante conseguem lucros na especulação financeira. O que ocorre então, graças às fabulosas operações de socorro dos governos, é um circulo vicioso baseado na especulação financeira e no crescimento débil ou negativo.
No caso do governo norte-americano este efeito negativo foi suavizado através de enormes subsídios que conseguiram incentivar alguns consumos e, deste modo, desacelerar primeiro e depois reverter a curva descendente do Produto Interno Bruto. Às fortes quedas do último trimestre de 2008 e do primeiro de 2009, sucedeu-se um decréscimo suave no segundo trimestre e um crescimento no terceiro impulsionado pelos subsídios governamentais para a compra de automóveis e habitações mais os gastos militares. Mas, por trás desta efêmera recuperação, aparece a expansão desenfreada do déficit fiscal e do endividamento público.
É evidente que a economia norteamericana não sai da armadilha da decadência. Os alívios transitórios, as tentativas de recuperação, os crescimentos viciados fortalecem e recompõem os mecanismos parasitários que conduziram ao desastre atual. O afundamento do império (do centro articulador do mundo capitalista) arrasta o conjunto do sistema mundial. Agora, no final de 2009, nos encontramos à espera de uma próxima segunda queda recessiva (2010 poderia ser o ano desta catástrofe) seguramente mais forte do que a do último trimestre de 2008. Os socorros financeiros globais de 2008-2009 desaceleraram a queda econômica, mas geraram enormes déficits fiscais nas potências centrais, o que as coloca diante de graves ameaças inflacionárias e de um enfraquecimento extremo na capacidade de pagamento de seus Estados, cuja generosidade fiscal (para as grandes empresas e as instituições financeiras) não conseguiu gerar a desejada decolagem do investimento e do consumo que era anunciada por seus dirigentes.
Segundo eles, esse prometido golpe de demanda deveria produzir a reativação durável da economia mundial e, conseqüentemente, a redução dos déficits, a anulação do perigo inflacionário, etc. Conseguiram apenas modestas reativações de certos consumos, algumas ilusões estatísticas (crescimentos do PIB, etc.) e mais parasitismo. O fracasso é evidente, o que não impede que voltem mais uma vez a aplicar suas inúteis medicinas intervencionistas (em uma curiosa combinação ideológica de neoliberalismo e neokeynesianismo financeiro). E farão isso até que se esgotem os recursos, prisioneiros da loucura geral do sistema. Em seus cérebros, não entra a realidade da violenta mudança de época que tornou obsoletos vários de seus instrumentos.
Pior ainda, não se trata só de uma “crise econômica”. Outras “crises” estão avista e a qualquer momento podem golpear com força um sistema global muito frágil. Entre elas, devemos destacar as crises energética e alimentar (que se fizeram presentes durante o ano de 2008). Ou a degradação do complexo militar-industrial dos EUA envolvendo o conjunto de aparatos militares da OTAN, atolados nas guerras do Iraque e Afeganistão-Paquistão e mergulhados em uma catastrófica crise de percepção: a surpreendente resistência destes povos periféricos ultrapassa sua capacidade de compreensão da realidade. Repete-se em um nível muito mais elevado o “efeito Vietnã”, ou o desconcerto de Hitler diante da avalanche soviética. Também é necessário mencionar as crises urbana e ambiental que juntamente com o declínio de valores morais e culturais, de crenças sociais, vem afogando gradualmente os paradigmas decisivos do mundo burguês, desordenando e deteriorando os sistemas políticos, as estruturas de inovação produtiva e os mecanismos de manipulação midiática.
Em resumo, parece que nos encontramos diante de uma convergência de numerosas “crises”. Na verdade, trata-se de uma única crise gigantesca, com diversos rostos, de dimensão (planetária) nunca antes vista na história. Seu aspecto é o de um grande crepúsculo que ameaça prolongar-se durante um longo período.
1968-2007: a etapa preparatória
A crise atual teve um longo período de gestão (aproximadamente entre 1968 e 2007), durante o qual desenvolveu-se uma crise crônica de superprodução que foi acumulando parasitismo e depredação do ecossistema. O processo destas quatro décadas pode ser interpretado como uma postergação do desastre graças à expansão financeiro-militar (centrada nos EUA), a integração periférica de mão de obra industrial barata (China, etc.), a depredação acelerada de recursos naturais (em especial os energéticos não renováveis) e a pilhagem financeira de um amplo leque de países subdesenvolvidos. Também pode ser visto sob a forma de uma “fuga para a frente” do sistema impulsionada por seus grandes motores parasitários.
Ambas visões deveriam ser integradas utilizando o conceito de “capitalismo senil” (2), ou seja, um fenômeno de envelhecimento avançado do sistema que emprega todo seu complexo instrumental anti-crise acumulado em uma longa história de dois séculos, mas que não pode impedir o agravamento de suas enfermidades e de sua decadência. A expansão do parasitismo e o declínio da dinâmica produtiva global constituem processos estreitamente vinculados. Desde meados dos anos 1970, as taxas de crescimento do Produto Bruto mundial se moveram de maneira irregular em torno de uma linha descendente, enquanto que a especulação financeira crescia a um ritmo vertiginoso. Se observamos o comportamento das três economias centrais: os EUA, a União Européia e o Japão, constataremos que, ao longo das últimas três décadas, a queda de suas taxas de crescimento de capital líquido (taxa de acumulação) contrastou com o aumento dos lucros empresariais. A chave do fenômeno está na crescente orientação do conjunto destas economias para a especulação financeira (3).
A hipertrofia financeira foi, ao mesmo tempo, causa e efeito da decadência produtiva. A desaceleração da chamada “economia real” gerava fundos ociosos que eram dirigidos para a especulação como via de saída para tornar o capital rentável. Em conseqüência, tais atividades expandiam-se absorvendo capitais disponíveis, dominando com sua subcultura do lucro imediato a totalidade do sistema, degenerando-o e fazendo com que perdesse dinamismo. Um estudo rigoroso do fenômeno demonstra que não existem duas esferas opostas, uma financeira e outra produtiva, com comportamentos diferenciados. Pelo contrário, nos encontramos diante de um único espaço de negócios fortemente interrelacionados, muitas vezes com operadores econômicos combinando ambas atividades. De um ponto de vista macroeconômico, não é possível descrever suas trajetórias sem integrá-las em uma dinâmica capitalista comum que busca a maximização dos lucros.
Por sua parte, o complexo militar-industrial norteamericano sofreu um golpe muito duro ao ser derrotado no Vietnã em meados dos anos 1970, mas as necessidades estruturais do capitalismo deram-lhe novo impulso e ele deu um enorme salto quantitativo no início da década dos 1980 com o mega-programa militar do presidente Reagan. Esse programa pareceu ficar bloqueado com a vitória dos EUA na Guerra Feria, no início dos 1990. Como legitimar aumentos de gastos com o desaparecimento do inimigo? No entanto, ao final da década, o Império havia conseguido fabricar um estranho “inimigo” que permitiu uma nova expansão militarista: o terrorismo internacional, um inimigo difuso, altamente virtual, e justificativa de uma prolongada aventura colonial na Eurásia, tratando de controlar a franja territorial que se estende desde os Bálcãs até o Paquistão, atravessando Iraque, Irã, países da Ásia Central, em cujo coração (ao redor do Golfo Pérsico e da bacia do Mar Cáspio) encontra-se cerca de 70% dos recursos petrolíferos do planeta.
A vitória nesta guerra permitiria ao Império encurralar a Rússia e a China e assegurar a fidelidade de seu grande aliado estratégico, a União Européia, consolidando assim sua hegemonia, impondo condições financeiras e comerciais muito duras ao resto mundo, já que a economia imperial declinante necessita de doses crescentes de riquezas externas para sobreviver. Como no passado, se conjugaram as necessidades “internas”, próprias da reprodução da economia norte-americana (onde os gastos militares cumprem um papel decisivo), com a necessária reprodução da exploração imperialista. Neste sentido, não se tratou de um fenômeno novo. Nos anos 1930, os gastos militares permitiram aos EUA sair da recessão e, ao mesmo tempo, emergir como a grande superpotência capitalista depois da Segunda Guerra Mundial.
Logo em seguida, mais de quarenta anos de Guerra Fria constituíram-se em uma importante contribuição para o crescimento de seu Produto Interno Bruto, superando diversas ameaças recessivas (no fim dos anos 1940, no início dos anos 1980, etc.). A novidade da última militarização (a partir do final da década dos 1990) foi dada pela extrema deformação parasitária da sociedade imperial o que significou o desenvolvimento de uma etapa radicalmente diferente de todas as anteriores.
O declínio do centro do mundo
É necessário constatar que nos encontramos diante do declínio do centro do mundo, os Estados Unidos, e que essa decadência não vem acompanhada da ascensão de nenhum outro centro imperialista mundial para substituir a potência declinante. As outras grandes potências (União Européia, Japão, Rússia, China) encontram-se embarcadas todas no mesmo barco global à deriva.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o capitalismo se estruturou em torno dos EUA, espaço fundamental de todos os negócios (produtivos, financeiros, midiáticos, etc.). Sua degradação desde o início dos anos 1970 e sua decadência atual expressa um mal universal: o parasitismo estadunidense não tem sido outra coisa que sua manifestação específica, central e acelerada pela crise crônica global de superprodução (incluídos os pseudo-milagres como a expansão chinesa, o renascimento russo ou a integração européia). O parasita norte-americano consumia acima de sua capacidade produtiva porque as economias da Europa, China, Japão, etc., precisavam vender seus bens e serviços e investir seus excedentes financeiros. Isso gerou uma interdependência cada vez mais profunda que foi chamada de “globalização” e a propaganda neoliberal descreveu-a como uma espécie de etapa superior do capitalismo, superadora do sistema vigente entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a crise dos anos 1970.
Foi construída uma imagem idílica de um capitalismo transnacional liberado da tutela dos grandes estados nacionais e crescendo indefinidamente em torno dos círculos virtuosos interrelacionados da revolução tecnológica, da expansão do consumo e das finanças globais. Na verdade o que se impôs foi um capitalismo global completamente hegemonizado pelos negócios financeiros e articulados em torno de um grande centro imperialista com claros sintomas de decadência, acumulando dívidas públicas e privadas, externas e internas, cada vez mais dependentes de suas periferias desenvolvidas e subdesenvolvidas.
Seria um erro grosseiro considerar o fenômeno parasitário como um fato específico, exclusivo da sociedade norte-americana. Trata-se, na verdade, de um processo mundial. A financeirização, a proliferação de redes mafiosas e negócios de gansgters (como o tráfico de drogas, a prostituição, os saques de empresas públicas periféricas, etc.) atravessa todas as elites capitalistas dos países centrais e produz uma rápida conversão-degradação de numerosas burguesias do chamado mundo subdesenvolvido, transformadas em autênticas lumpen-burguesias periféricas. Poderia dizer-se que o caso chinês é a exceção, mas não é assim. A China é uma grande exportadora industrial, mas acumula fabulosos excedentes financeiros e cumpre um papel muito importante nos negócios especulativos mundiais. Suas elites dirigentes são altamente corruptas e, em última instância sua industrialização é completamente funcional à reprodução do capitalismo financeiro global, especialmente na fase mais recente da economia norte-americana, fornecendo-lhe mercadorias baratas e acumulando, em troca, dólares, bônus do tesouro e outros papéis. Deste modo, a elite chinesa participa ativamente da festa parasitária global, formando parte do restrito clube dos ricos do mundo (sua base social de trabalhadores e camponeses faz parte da massa proletária de pobres, oprimidos e explorados).
Por outro lado, a realidade da crise desmente as fantasias dos “descolamentos” nacionais ou regionais em relação ao afundamento dos EUA. Ao contrário, mostra o desespero das outras grandes potências diante do declínio de seu espaço central de negócios. O que estamos presenciando não é a substituição da unipolaridade por alguma forma de multipolaridade eficaz, por meio de uma repartição completa do mundo entre potências centrais, mas sim seu deslocamento paulatino para um processo de despolarização, onde vão se abrindo múltiplos espaços nos quais os controles imperialistas (norte-americanos, europeus e outros) estão enfraquecendo, ou, dito de outro modo, onde a articulação capitalista do mundo se debilita ao ritmo da crise. E os antecedentes históricos (sobretudo se pensarmos no que ocorreu a partir da Primeira Guerra Mundial) assinalam que se isso ocorre, se a hierarquia mundial do capitalismo (econômica, política, cultural e militar) entra em crise, então irrompem as condições objetivas e subjetivas para as rebeliões das vítimas do sistema.
Não se trata de um processo ordenado, incluindo tentativas de reconversão estratégica dos mecanismos de dominação (como ocorre atualmente nos EUA sob a presidência de Barack Obama), de aproveitamentos por parte de outras grandes potências que tratam de se apropriar de espaços onde o poder imperial norte-americano se enfraqueceu, de autonomizações periferias às vezes bem sucedidas e às vezes condenadas ao fracasso. Quando certos gurus ocidentais mostram sua preocupação diante do possível desenvolvimento do que chamam de “despolarização caótica” (4) estão expressando um grande medo universal, consciente ou inconsciente frente à perspectiva da reaparição do odiado fantasma anti-capitalista, várias vezes declarado morto e exorcizado, mas que sempre permanece como uma ameaça.
Da crise de superprodução à crise geral de subprodução (esgotamento da civilização burguesa)
O desenlace de 2007-2008, início do longo crepúsculo do sistema, não foi nenhuma surpresa. Estava escrito nos avatares da “crise-controlada” das últimas quatro décadas. Mais ainda, é possível detectar caminhos, processo que ao longo de aproximadamente dois séculos percorrem toda a história do capitalismo industrial, desembocando agora em seu declínio geral. Há germes do parasitismo, anunciadores da futura decadência, presentes desde o nascimento do sistema, durante sua expansão juvenil e, muito mais, em sua fase madura.
A sucessão de crises de superprodução no capitalismo ocidental durante o século XIX não marcou um simples encadeamento de quedas e recuperações em níveis cada vez mais altos de desenvolvimento das forças produtivas. Após cada depressão, o sistema se recompôs, mas acumulando em sua trajetória massas crescentes de parasistismo. O câncer financeiro irrompeu triunfante entre fins do século XIX e início do século XX, obtendo o controle absoluto do sistema sete ou oito décadas depois. O seu desenvolvimento, porém, havia começado muito tempo antes, financiando estruturas industriais e comerciais cada vez mais concentradas e estados imperialistas onde se expandiram burocracias civis e militares. A hegemonia da ideologia do progresso e do discurso positivista serviu para ocultar o fenômeno e instalou a idéia de que o capitalismo, ao contrário das civilizações anteriores, não acumulava parasitismo, mas sim forças produtivas que, ao expandirem-se, criavam problemas de adaptação superáveis no interior do sistema mundial por meio de processos de “destruição criadora”. O parasitismo capitalista em grande escala, quando se tornava evidente, era considerado como uma forma de “atraso” ou uma “degeneração” passageira na marcha ascendente da modernidade.
Essa maré ideológica capturou também boa parte do anticapitalismo (em última instância “progressista”) dos séculos XIX e XX, convencido de que a corrente incontrolável do desenvolvimento das forças produtivas terminaria por enfrentar o bloqueio das relações capitalistas de produção, saltando por cima delas, esmagando-as com uma avalanche revolucionária de trabalhadores industriais dos países mais desenvolvimentos, aos quais se somariam os chamados “países atrasados”. A ilusão do progresso indefinido (mais ou menos turbulento) escondeu a perspectiva da decadência, deixando o pensamento crítico na metade do caminho, tirando-lhe radicalidade, com conseqüências culturais negativas evidentes para os movimentos de emancipação do centro e da periferia.
O militarismo moderno, por sua parte, finca suas raízes no século XIX ocidental, desde as guerras napoleônicas, chegando à guerra franco-prussiana até irromper na Primeira Guerra Mundial como “complexo militar-industrial”. No início, foi percebido como um instrumento privilegiado das estratégias imperialistas e, mais adiante, como instrumento de reativação econômica do capitalismo. Considerava-se, assim, só um aspecto do problema, ignorando ou subestimando sua profunda natureza parasitária: o fato de que, por trás do monstro militar a serviço da reprodução do sistema, escondia-se um monstro muito mais poderoso no longo prazo, um consumidor improdutivo, multiplicador de desequilíbrios, de irracionalidade no sistema de poder.
Atualmente, o complexo militar-industrial norte-americano (em torno do qual se reproduzem os de seus sócios da OTAN) gasta em termos reais mais de US$ 1 trilhão (5), contribuindo de maneira crescente para o déficit fiscal e, por conseguinte, para o endividamento do Império (e para a prosperidade dos negócios financeiros beneficiários deste déficit). Sua eficácia militar é declinante, mas sua burocracia é cada vez maior, a corrupção penetrou em todas as suas atividades e já não é o grande gerador de empregos como foi em outras épocas, uma vez que a tecnologia industrial-militar reduziu significativamente essa função. A época do keynesianismo militar como estratégia eficaz anti-crise pertence ao passado (6).
Presenciamos nos EUA a integração de negócios entre a esfera industrial-militar, as redes financeiras, as grandes empresas energéticas, as camarilhas mafiosas, as “empresas” de segurança e outras atividades muito dinâmicas, conformando o espaço dominante do sistema de poder imperial.
Tampouco a crise energética em torno da chegada do “Peak Oil” (a franja de máxima produção petroleira mundial a partir da qual se desenrola seu declínio) deveria ser restrita à história das últimas décadas. É necessário entendê-la como fase declinante do longo ciclo da exploração moderna dos recursos naturais não renováveis, desde o começo do capitalismo industrial que pode realizar sua expansão graças a esses insumos energéticos abundantes, baratos e facilmente transportáveis, desenvolvendo primeiro o ciclo do carvão sob a hegemonia inglesa no século XIX e, depois, o do petróleo, sob a hegemonia norte-americana no século XX.
Esse ciclo energético de dois séculos condicionou todo o desenvolvimento tecnológico do sistema e foi a vanguarda da dinâmica depredadora do capitalismo, estendida ao conjunto dos recursos naturais e do meio ambiente em geral. O que durante quase dois séculos foi considerado como uma das grandes proezas da civilização burguesa, sua aventura industrial e tecnológica, aparece agora como a mãe de todos os desastres, como uma expansão depredadora que põe em perigo a sobrevivência da espécie humana (que colocou essa expansão em curso). Em resumo, o desenvolvimento da civilização burguesa durante os dois últimos séculos (com raízes em um passado ocidental muito mais prolongado) terminou por engendrar um processo irreversível de decadência. A depredação ambiental e a expansão parasitária, estreitamente interrelacionadas, estão na base do fenômeno.
A dinâmica de desenvolvimento econômico do capitalismo, marcada por uma sucessão de crises de superprodução constitui o motor do processo depredador-parasitário que conduz inevitavelmente a uma crise prolongada de subprodução. A partir de um olhar superficial, poderíamos concluir que esta crise foi causada por fatores exteriores ao sistema: perturbações climáticas, escassez de recursos energéticos, etc., que bloqueiam ou mesmo fazem retroceder o desenvolvimento das forças produtivas. No entanto, uma reflexão mais rigorosa demonstra que a penúria energética e a degradação ambiental são o resultado da dinâmica depredadora do capitalismo, obrigado a crescer indefinidamente para não perecer, ainda que tal crescimento termine por destruir o sistema. Existe uma interrelação dialética perversa entre a expansão da massa global de lucros, sua velocidade crescente, a multiplicação das estruturas burocráticas civis e militares de controle social, a concentração mundial de renda, a ascensão da maré parasitária e a depredação do meio ambiente.
As revoluções tecnológicas do capitalismo têm sido, aparentemente, suas tábuas de salvação. De fato o foram durante muito tempo, incrementando a produtividade industrial e agrícola, melhorando as comunicações, os transportes, etc., mas, no longo prazo histórico, no balanço de vários séculos, constituem-se em uma armadilha mortal. Terminam por degradar o desenvolvimento que impulsionaram pelo fato de estarem estruturalmente baseadas na depredação ambiental, gerando um crescimento exponencial de massas humanas super-exploradas e marginalizadas. A cultura técnica da civilização burguesa se apóia em um duplo combate: o do homem contra a natureza (o contexto ambiental de sua vida) convertida em objeto de exploração, realidade exterior e hostil que precisa ser dominada e devorada; e o do homem (burguês) contra o homem (explorado e dominado) convertido em objeto manipulável.
O progresso técnico integra assim o processo de auto-destruição geral do capitalismo na direção de um horizonte de barbárie. Essa idéia vai muito mais além do conceito de bloqueio tecnológico ou de “limite estrutural do sistema tecnológico”, tal como formulado por Bertrand Gille (7). Não se trata da incapacidade do sistema tecnológico da civilização burguesa para seguir desenvolvendo forças produtivas, mas sim de sua alta capacidade enquanto instrumento de destruição de forças produtivas. Em resumo, a história das crises de super-produção conclui com uma crise geral de sub-produção, como um processo de destruição, de decadência sistêmica no longo prazo. Isso significa que a superação necessária do capitalismo não aparece como o passo indispensável para “a marcha do progresso”, mas sim, em primeiro lugar, como tentativa de sobrevivência humana e de seu contexto ambiental.
O processo de decadência em curso deve ser visto como a fase descendente de um longo ciclo histórico iniciado no final do século XVIII (8) que contou com dois grandes articuladores hoje declinantes: o ciclo de dominação imperialista anglo-norte-americano (etapa inglesa no século XIX e norte-americana no século XX) e o ciclo do estado burguês desde sua etapa “liberal industrial” no século XIX, passando por sua etapa intervencionista produtiva (keynesiana clássica) em boa parte do século XX, para chegar a sua degradação “neoliberal” a partir dos anos 1970-1980.
Enfim, é necessário assinalar que a convergência de numerosas crises mundiais pode indicar a existência de uma perturbação muito grave, mas não necessariamente o desdobramento de um processo de decadência geral do sistema. A decadência aparece como a última etapa de um longo ciclo histórico, sua fase declinante, seu envelhecimento irreversível (sua senilidade), o esgotamento de suas diversas funções. Levando ao extremo os reducionismos tão praticados pelas “ciências sociais” poderíamos falar de “ciclos” energético, alimentar, militar, financeiro, produtivo, estatal, etc., e assim descrever em cada caso trajetórias que se desenrolam no Ocidente entre fins do século XVIII e começos do século XIX, com raízes anteriores e envolvendo espaços geográficos crescentes até assumir finalmente uma dimensão planetária e começar logo a declinar em cada um deles. A coincidência histórica de todas esses declínios e a fácil detecção dessas interrelações entre todos esses “ciclos” nos sugerem a existência de um único super ciclo que os inclui a todos. Dito de outra maneira, a hipótese é que se trata de um ciclo da civilização burguesa que se expressa por meio de uma multiplicidade de “aspectos” (produtivo, moral, político, militar, ambiental, etc.).
Nostalgias, heranças e esperanças
Na esquerda, pululam os nostálgicos do século XX, que é apresentado como um período de grandes revoluções socialistas e antiimperialistas, desde a Revolução Russa até a vitória vietnamita, passando pela Revolução Chinesa, as vitórias anticolonialistas na Ásia e África, etc. Frente a essa sucessão de ondas revolucionárias o que veio depois, nas últimas décadas do século XX, aparece como uma desgraça. Ainda que também seja possível olhar esse “período maravilhoso” como uma sucessão de desilusões, de tentativas libertadoras fracassadas. Além disso, as esperanças (embaladas desde meados do século XIX) em vitórias proletárias no coração do mundo burguês – na Europa mais desenvolvida e na neo-Europa norte-americana, os Estados Unidos – nunca se concretizaram. O peso cultural do capitalismo gerando barbáries fascistas ou “civilizadas” integrações keynesianas dissipou toda possibilidade de superação pós-capitalista.
A última grande crise do sistema, desencadeada no início dos anos 1970, não produziu um deslocamento do mundo para a esquerda, mas justamente o contrário. Tudo isso contribuiu para confirmar a crença simplista, demolidora, de que o capital “sempre encontra alguma saída” (tecnológica, política, militar, etc.) para suas crises. Trata-se de um “pré-conceito” com raízes muito profundas, forjado durante muito tempo. Destruir esse mito constitui uma tarefa decisiva no processo de superação da decadência. Se esse objetivo não for atingido, a armadilha burguesa nos impedirá de sair de um mundo que vai afundando na barbárie. Isso já aconteceu ao longo da história com outras civilizações decadentes que puderam preservar sua hegemonia cultural degradando, neutralizando uma após outra todas as possíveis saídas superadoras.
Por outro lado, o fato de o capitalismo ter ingressado em seu período de declínio significa, entre outras coisas, a aparição de condições civilizacionais para a irrupção de elementos práticos e teóricos que poderiam servir como base para o avanço (destrutivo-criador) do anti-capitalismo como fenômeno universal. Para isso é necessário (urgente) impulsionar a crítica radical e integrá-la com as resistências e os movimentos insurgentes e, a partir daí, com o leque mais amplo de massas populares golpeadas pelo sistema. A chave histórica desse processo necessário é a aparição de um movimento anti-capitalista plural, inovador (que poderíamos denominar, em uma primeira aproximação, de “humanismo revolucionário”) dedicado ao desenvolvimento de sujeitos populares revolucionários, de rupturas, destruições dos sistemas de poder, de opressões imperialistas, de estruturas de reprodução do capitalismo.
A sua implementação pode ser pensada como um duplo fenômeno de inovação social e de recuperação de memórias, de projetos de igualdade e liberdade que atravessaram os dois últimos séculos nos países centrais e periféricos. Um complexo processo universal teórico-prático de recuperação de raízes, de identidades pisoteadas pelas modernizações capitalistas, de crítica integral e intransigente contra as fraudes ideológicas do sistema, seus diversos fetichismos (da tecnologia, da auto-realização individualista, dissociadora, do consumo desenfreado, da coisificação do meio ambiente). Guerra global prolongada, conquista destrutiva (revolucionária) dos sistemas de poder significa o renascimento da idéia de revolução, de uma ofensiva libertadora contra os opressores internos e externos, de uma práxis emancipadora dos oprimidos e do rechaço permanente de todas as tentativas de estabilização do sistema.
A decadência aparece sob a forma de uma imensa totalidade burguesa inevitável. A sua superação só é possível a partir do desenvolvimento de sua negação absoluta, da irrupção de uma “totalidade negativa universal” (9) que, nas condições concretas do século XXI, deveria apresentar-se como convergência dos marginalizados, oprimidos e explorados do planeta. Não como sujeito solitário ou isolado, mas sim como aglutinador, como espaço insurgente de encontro de um amplo leque de forças sociais rebeldes, como vítima absoluta de todos os males da civilização burguesa e, por conseguinte, como líder histórico da regeneração humana (uma recomposição da visão de Marx do “proletariado” como sujeito universal emancipador).
Aqui é necessário assinalar uma diferença decisiva entre a situação atual e as condições culturais nas quais se apoiou o ciclo de revoluções a partir da Primeira Guerra Mundial. O atual começo da crise dispõe de uma herança única que é possível resumir como a existência de uma gigantesco patrimônio democrático, igualitário, acumulado ao longo do século XX por meio de grandes tentativas emancipadoras revolucionárias, reformistas, antiimperialistas mais ou menos radicais, inclusive com objetivos socialistas em muitas delas. Centenas de milhões de oprimidos e explorados em todos os continentes realizaram uma aprendizagem excepcional, obtiveram vitórias, fracassaram, foram enganados por usurpadores de todo tipo, receberam o exemplo de dirigentes heróicos, etc. Esta é outra maneira de olhar o século XX: como uma gigantesca escola de luta pela liberdade, onde o melhor da humanidade aprendeu muitas coisas que ficaram gravadas em sua memória histórica, não como lembrança pessimista de um passado irreversível, mas sim como descobrimento, como ferramenta cultural carregada definitivamente em sua mochila de combate.
Por volta de 1798, quando as esperanças geradas pela Revolução Francesa agonizavam, Kant sustentava com obstinação que “um fenômeno como esse não é esquecido jamais na história humana…é demasiado grande, demasiadamente ligado ao interesse da humanidade, demasiado difundido em virtude de sua influência sobre o mundo, por todas as partes, para que os povos não lembrem dele em alguma ocasião propícia e não sejam incitados por essa lembrança a repetir a tentativa” (10). O século XX equivale a dezenas de revoluções libertárias como a francesa, e muito mais do que isso se o considerarmos do ponto de vista qualitativo.
O patrimônio cultural democrático disponível agora pela humanidade oprimida, armazenado em sua memória, ao início da maior crise da história do capitalismo, é muito mais vasto, rico e denso que o existente no início da anterior crise prolongada do sistema (1914-1945). O pós-capitalismo não só constitui uma necessidade histórica (determinada pela decadência da civilização burguesa), como uma possibilidade real, com uma base cultural imensa nunca antes disponível. A esperança e o otimismo histórico aparecem, são visíveis através das ruínas, das estruturas degradadas de um mundo injusto.
Quatro esclarecimentos são necessários.
Primeiro: no início do século XXI, o sistema global ingressou em um período de crescimento zero, negativo ou muito débil. Isso não se deve à rebelião popular contra o crescimento alienante e destruidor do meio ambiente, mas sim à decadência da civilização burguesa. Nos anos 1970, Joseph Gabel expressava seus temores ante as consequências do esgotamento dos recursos naturais (era a época dos choques do petróleo e da teoria dos limites do crescimento) e a instalação de sociedades de penúria, de sobrevivência, fundadas na distribuição autoritária e hiper-elitista dos escassos bens disponíveis. Gabel assinalava que as utopias igualitárias se baseiam na abundância de bens, no fim da miséria, etc., algo oposto às experiências das sociedades de sobrevivência baseadas na distribuição hierárquica do poder e dos bens (11).
Poderíamos imaginar um cenário sinistro, onde logo após o desmoronamento da cultura do consumismo ante à evidência do fim do crescimento (pelo menos no médio prazo), o sistema gerasse uma espécie de reconversão ideológica apoiada na idéia de austeridade autoridade, na instalação de um conformismo profundamente conservador e ultra elitista impulsionado por um bombardeio midiático gigantesco e sustentado por sistemas repressivos eficazes; em resumo, algo como um neofascismo estabilizador. Para realizar com êxito essa reconversão cultural, o capitalismo precisaria dispor de uma capacidade de controle social universal, de assimilação de suas contradições e de um tempo de desenvolvimento que atualmente não são visíveis. Tudo parece indicar que sua dinâmica cultural, o imenso peso de seus interesses imediatos, as debilidades de seus sistemas de controle social (incluída aí a arma midiática), e sua fragmentação tornam esse futuro muito pouco provável. Pelo contrário, considerando a recente experiência dos “falcões” norte-americanos, a essência parasitária das elites dominantes mundiais sugere cenários turbulentos de confrontos militaristas-imperialistas, de rebeliões sociais, etc.
Fica pendente o tema da diminuição dos recursos naturais disponíveis e, por conseguinte, das técnicas produtivas e do tipo de bens produzidos. Uma metamorfose social complexa é possível, a partir da decadência do sistema, reinstalando utopias igualitárias baseadas na abundância (ponto de partida para a superação do mercado, para a extensão da gratuidade, etc.). Obviamente uma abundância de “outro tipo”, fraternal, criativa e não consumista-passiva, reconciliada com a comunidade e com a natureza. Desta maneira, à farsa capitalista da “abundância geral” (objetivo inalcançável, contraditório com a reprodução do sistema) ou ao pesadelo da sociedade de sobrevivência (autoritária, repressiva, elitista) se contrapõe a utopia da sociedade igualitária de abundância (outros bens, outras técnicas, outras formas de relação entre os seres humanos e destes com o meio ambiente).
Segundo: esse protagonismo radical dos oprimidos não tem porque nascer durante o primeiro dia da crise. É necessário um imenso processo de gestação atravessado por rebeliões populares e reações conservadoras, com avanços e retrocessos, uma longa marcha em um período muito denso e turbulento (cuja duração real é imprevisível), no qual estamos dando os primeiros passos. É um tempo de recuperação de memórias, de novos aprendizados, de construção complexa de uma nova consciência.
Terceiro: a existência do patrimônio democrático global antes mencionado poderia ser a base histórica da superação das frustrações socialistas do século XX, onde a reprodução da hegemonia cultural do capitalismo, articulada com tradições muito antigas de submissão bloqueavam os processos de auto-emancipação, reduzidos a movimentos de massas dirigidos por elites radicais, por dirigentes inevitavelmente autoritários, cujas vitórias resultavam em novos mecanismos de opressão. O desenrolar da história salta por cima da disputa sem solução entre comunistas estatistas e libertários: os primeiros desenvolvendo a possibilidade concreta da revolução, mas postergando para um futuro nebuloso a democracia de base (produzindo, assim, ao mesmo tempo, o fato revolucionário e as condições de seu fracasso); os segundos ignorando a existência de uma densa trama cultural negativa penetrando profundamente a consciência popular e, por conseguinte, a necessidade de complexas transações, desmantelamento de estruturas e estilos de vida, combinações pragmáticas, plurais, entre o velho e o novo.
Quarto: a periferia do capitalismo, o espaço dos povos pobres e marginalizados do planeta aparece como o lugar privilegiado para a irrupção destas forças libertadoras. Isso vem sendo demonstrado pela realidade, desde as resistências ao Império no Iraque e no Afeganistão, até a onda popular democrática na América Latina que já inclui alguns dos espaços mais avançados onde se postula a superação socialista do capitalismo. Ainda que não devamos subestimar suas prováveis prolongações futuras e interações com fenômenos da mesma natureza nos países centrais, coração visível da crise, aí a concentração de renda, o desemprego, o empobrecimento em grande escala se estendem ao ritmo da decadência do sistema. Suas elites aceleram sua degeneração parasitária, o que coloca o perigo de renovadas aventuras neofascistas e imperialistas, mas também a esperança na rebeldia de suas retaguardas populares internas.
A barbárie já está em marcha. A insurgência dos oprimidos, também.
Notas
(1) “Fed says worst of recession over”, BBC News, 12 Agosto, 2009.
(2) O conceito de capitalismo senil tal como é utilizado neste texto aparece nos anos 1970 em um trabalho de Roger Dangeville (Roger Dangeville, “Marx-Engels. La crise”, editions 10/18, Paris 1978) e é retomado por vários autores na década atual: Jorge Beinstein, “Capitalismo Senil”, Record, Rio de Janeiro, 2001; Samir Amin , “Au delà du capitalisme senile”, Actuel Marx -PUF, Paris 2002.
(3) Michel Husson, "Crise de la finance ou crise du capitalisme", http://hussonet.free.fr/denkntzf.pdf
(4) Richard N. Haass, “The Age of Nonpolarity. What Will Follow U.S. Dominance”, Foreign Affairs , May/June, 2008.
(5) Esta cifra é obtida somando o gasto do Departamento de Defesa e os gastos militares de outras áreas da administração pública. Chalmers Johnson, “Going bankrupt: The US’s greatest threat “, Asia Times, 24 Janeiro, 2008.
(6) Scott B. MacDonald, “End of the guns and butter economy”, Asia Times, October 31, 2007.
(7) Bertrand Gille, “Histoire des techniques”, La Pléiade, Paris, 1978.
(8) Uma visão muito mais ampliada o integraria ao mega ciclo da civilização ocidental, chegando ao início do segundo milênio com as cruzadas e os primeiros germens comerciais do capitalismo na Europa, atravessando a conquista da América até chegar à revolução industrial inglesa, ás guerras napoleônicas e à expansão planetária da modernidade (imperialista, de raiz ocidental, é preciso destacar).
(9) Franz Jakubowsky, “Les superestructures idéologiques dans la conception matérialiste de l’histoire”, Etudes et Documentetion Internationales (EDI), París, 1976.
(10), Emmanuel Kant, “Filosofia de la historia”, Fondo de Cultura Económica, México, 1992.
(11), Joseph Gabel, “Idéologies II”, éditions anthropos, París, 1978.

Fonte: Agência Carta Maior - http://www.agenciacartamaior.com.br

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O poder em tempos de cólera

Para pensadora, a política encarna ódio, carisma, paixão. Falta aos governantes saber traduzir essas emoções.

Mônica Manir

Depois de acertar um Duomo de alabastro nas ventas de Berlusconi, Massimo Tartaglia respondeu assim a quem lhe cobrou identidade: "Eu não sou ninguém". Mas Tartaglia é. Ele tem 42 anos, há dez faz tratamento por "problemas mentais" e, antes de ser preso, residia livremente em Milão, cidade onde o primeiro-ministro italiano era vaiado e chamado de palhaço após discursar em um comício. Tartaglia também tem pai e mãe. E foi Alessandro, o pai, quem pediu desculpas pela violência do filho: "Espero que Berlusconi o perdoe, mas temo que não o faça, porque é a segunda vez que o atacam".

Em 2004, Berlusconi de fato levou um tripé de máquina fotográfica na cabeça. O agressor da ocasião, Roberto Dal Bosco, declarou ter cometido o ataque movido pela ira. Tartaglia afirmou possuir forte aversão ao partido de Berlusconi, o Povo da Liberdade. Quatro dias depois, o premiê capitalizou em cima da napa quebrada e da dupla de dentes perdidos: "O período em que estive internado demonstra o ódio de poucos e o amor de muitos italianos".
A argentina Beatriz Sarlo, aclamada como principal crítica cultural latino-americana e colaboradora do jornal La Nación, não se surpreende com atos tresloucados do gênero nem com os dividendos tirados pelos governantes de situações assim. Antes lembra que a democracia moderna já não se agarra nem ao rei, nem a Deus, nem ao proprietário da terra. "Agarra-se aos corpos, morada clássica das paixões." Também diz que vivemos uma crise das hierarquias, na qual o respeito aos políticos descamba morro abaixo. Junte-se a vulgaridade e a leviandade de alguns governantes para que eles sejam visto como um qualquer, vítima inclusive do ódio desmedido.
Quanto às ameaças recebidas por Cristina Kirchner também nesta semana, Beatriz Sarlo concorda que os principais suspeitos da frase "Matem a égua" são os que discordam do julgamento de repressores da ditadura militar. Nem por isso tira os Kirchners da reta: "O discurso deles tem ecos populistas, mas suas políticas não são redistributivas". Lula também incorporaria a seu estilo rasgos do populismo, "porém atento ao horizonte das possibilidades". Se a afetividade é tão indispensável quanto a razão, ela expõe a sua nesta entrevista. Pede que destaque a Ordem do Mérito Cultural, recebida das mãos do ministro da Cultura, Juca Ferreira, em novembro . "É o melhor prêmio que já ganhei."

Episódios como o ataque a Silvio Berlusconi e mesmo as sapatadas na direção de Bush mostram que aumentou a intolerância do povo com os políticos?
Esses episódios mostram não apenas uma escalada de violência como outros traços contemporâneos. Os políticos, por exemplo, já não têm garantido um respeito que os diferencie do resto da sociedade. Na realidade, vivemos uma época de crise das hierarquias tradicionais e também das hierarquias modernas. Ao se tornarem democráticas, as sociedades tendem também a desconfiar e zombar das elites. De outra parte, Berlusconi, com sua vulgaridade desafiante e impudica, faz todo o possível para se passar por esse "qualquer". No episódio das fotos com as mulheres, em que aparece nu ao lado delas, ele se defendeu afirmando que fez o que qualquer italiano gostaria de fazer. Se Berlusconi não se considera comprometido com responsabilidades maiores, tampouco um agressor deveria considerá-lo digno de cortesia.

Alguns defensores do primeiro-ministro enfatizam que o ataque foi provocado por uma pessoa com distúrbios mentais e, portanto, não merece reflexão além da necessidade de tratamento de Tartaglia. A condição psicológica do agressor faz a diferença nessa avaliação?
A loucura, além de suas origens subjetivas, tem contornos culturais. Desde o atentado contra João Paulo II, em 1981, por um terrorista turco que se arrependeu e foi perdoado no cárcere, o magnicídio é uma forma de violência cujas razões devemos buscar. Além disso, os veículos de massa inauguraram um cenário espetacular, onde os crimes adquiriram dimensões de narrativa ininterrupta e de alcance planetário. Isso começou em 1963, com o assassinato de John Kennedy. Temos alguns segundos de filmagem do atentado, mas que nos impactam justamente porque são escassos: nós os conhecemos de memória, como o logotipo do magnicídio. Hoje, devido à presença ininterrupta de câmeras e equipes, um assassinato em público tem sua reprodução assegurada em nível hollywoodiano.

Falando em mídia, jornais do grupo editorial do primeiro-ministro atribuíram o ataque que ele sofreu no domingo a uma "campanha de ódio" supostamente empreendida pela oposição. Setores do governo examinam inclusive a possibilidade de fechar páginas da internet que ‘’incitem à violência'’. Os meios de comunicação estariam fomentando intolerâncias?
Creio que são duas questões diferentes. Berlusconi é dono de um monopólio de meios de comunicação que não se distinguem por promover virtudes cívicas, mas por propiciar uma grosseria desafiante que compete com a de seu proprietário. A oposição se expressa basicamente pela imprensa escrita que, como se sabe, não tem maior influência na esfera pública. Não me parece verossímil que o agressor de Berlusconi seja um leitor fanático do La Repubblica. De outro lado está a internet, onde é possível encontrar todas as boas causas, mas também todos os delírios: páginas que incitam à violência, à anorexia, à homofobia, ao suicídio assistido seguido de canibalismo do cadáver, páginas que falam de política como se a política não exigisse, para ser realmente entendida, o mesmo saber que uma boa partida de futebol. A internet é um universo gigantesco de textos cuja circulação plural é inegável. Mas, como sucede com a democracia, as ideias difundidas nem sempre são corretas e inteligentes. Aceitar isso é o perigo e a essência da democracia.

Quando a intolerância pode ser chamada de ódio?
A passagem da intolerância ao ódio se dá nas ações. E, sobretudo, a partir da decisão de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos de converter um sentimento hostil em um discurso articulado para promover intervenções materiais e condutas sistemáticas. Os judeus europeus foram vítimas da intolerância quase de maneira ininterrupta, mas somente em algumas circunstâncias esse sentimento de hostilidade, causado pela diferença que eles representavam em relação à homogeneidade comunitária, forneceu os argumentos que levaram a práticas agressivas.

Tartaglia agrediu o premiê com a réplica do Duomo de Milão, uma jóia arquitetônica da Baixa Idade Média. É como se o suposto maluco atirasse na face do político o melhor da Itália, inclusive em termos civilizatórios. Como este episódio vai se alojar no imaginário social?
Não podemos sabê-lo ao certo porque, para se unir a uma espécie de alegoria contraditória, como você sugere, é necessário analisar em detalhe como a mídia apresentou essa simbiose entre o Duomo e uma arma. E, portanto, ver como operam outros discursos que encantem ou rechacem o sentido alegórico dessa fusão. No caso das Torres Gêmeas, a imagem sintética de um avião convertido em bomba vinha avalizada por milhões de imagens anteriores, entre elas as de mísseis parecidos com aviões de combate.

Que intenção tem Ahmadinejad ao afirmar que o Holocausto não existiu? Alimentar ainda mais a cizânia entre árabes e judeus? Chávez andou falando o mesmo. A negação de extermínios e genocídios, por si mesmos odiosos, não aprofunda essa raiva em relação ao outro?
Não sou, nem remotamente, uma especialista em política do Oriente Médio. Mas é óbvio que os negativistas do Holocausto se colocam numa perspectiva facilmente desmentida pela história. O Holocausto ocupa um lugar não só central, mas único, na cultura política ocidental porque foi na Alemanha nazista que se montou essa gigantesca máquina de matar. Contudo, parece culturalmente improvável que ocupe esse mesmo espaço no Irã, onde não existiu um desejo público de reconhecimento do crime cometido contra os judeus. E parece mais improvável ainda que essa vontade pública possa emergir nas condições atuais de conflito no Oriente Médio. A pergunta sobre a negação do Holocausto é completamente pertinente, mas eu a faria aos intelectuais e artistas iranianos, embora, se vivem no Irã, é pouco provável que estejam em condições políticas para contestá-la. Caso diferente é o de Chávez, que, sem nenhum princípio, não está disposto a polemizar com quem pode ser um aliado valioso. Mas, como de costume, exagera: não é necessário seguir o Irã de ponta a ponta, pois é provável que a aliança com a América Latina também convenha a Ahmadinejad.

Diante desse comportamento de Ahmadinejad, alguns teóricos, como Gianni Vatimo (que também é político), propõem que não se deve demonizar o presidente iraniano, e sim tentar o diálogo. A senhora concorda com essa proposta?
Os países dialogam sem levar em conta as ideologias, salvo quando estas impulsionam práticas completamente opostas a um conjunto muito restrito de princípios. É o que permite a existência de uma política internacional.

Voltando às sapatadas em George W. Bush, promovidas pelo jornalista iraquiano Al-Zaide em dezembro de 2008, o presidente terminou seu mandato como um dos mais odiados da história americana, igualando-se a Richard Nixon. Barack Obama, por sua vez, começou com enorme carisma, mas, após um ano de mandato, viu seus índices de popularidade caírem sensivelmente. Há no Facebook, por exemplo, grupos com o lema: "Se você odeia Obama e quer vê-lo morto, junte-se a nós". A senhora acha que o desgaste de Obama poderia colocá-lo num patamar de impopularidade semelhante ao de Bush?
O mais inoportuno que podia suceder a Obama foi receber um Prêmio Nobel que funciona como um cheque com data de validade para dez anos e ninguém sabe se terá fundos ou não. A academia se comportou como um clube de aficionados por celebridades. Tão inconsistente como o prêmio são as páginas de "ódio a Obama". Acredito que o público esteja recentemente se dando conta de que Obama é, em primeiro lugar, um presidente americano que não chegaria à Casa Branca se não tivesse oferecido a segurança de sê-lo. O que não quer dizer levar adiante a mesma política de George W. Bush, mas colocar, em primeiro lugar, os interesses de seu país.

Obama também pode ser alvo do recrudescimento do ódio racial?
Acho que não. Ele tem a habilidade suprema de não tratar a questão racial como um problema, muito menos como um conflito. Essa também foi a razão pela qual conseguiu a maioria entre os eleitores.

O ódio na política é tão mais intenso quanto maior a frustração?
Muitas pesquisas mostram que o ódio aumenta à medida que se percebem as desigualdades. Não é fruto simplesmente da pobreza, mas das diferenças insultantes entre os muito pobres e os muito ricos, os muito miseráveis e os muito poderosos. Alguns políticos trabalham com essa paixão, convertendo o ódio em impulso de intervenção pública. De todo modo, há que se reconhecer que a política não é simplesmente uma prática de ideias e programas. A política democrática encarna carisma e sentimentos. Se quisermos uma política que interesse à grande maioria, é impossível pensá-la sem que haja fortes afetividades envolvidas. A responsabilidade dos políticos é fazer uma permanente tradução institucional dessas paixões, em vez de (como costuma acontecer) entregar-se a elas.

Na Argentina e no Chile estão sendo julgados crimes de tortura dos tempos ditatoriais. Há quem diga que isso estimulará o revanchismo. O que a senhora acha?
O Chile mal começou a julgar os responsáveis pelos crimes da ditadura. É difícil saber quais serão os cenários futuros, ainda que se possa, por hipótese, presumir que os políticos chilenos têm duas características: ater-se fortemente aos limites jurídicos e não provocar alarde com as medidas que acreditam ser indispensáveis, porém divisivas. Na Argentina, desde o primeiro julgamento das juntas militares sob o governo de Raúl Alfonsin, sucederam-se fatos distintos: primeiro, revoltas militares que lograram o indulto dos condenados, mas também reclamações pertinentes das organizações de direitos humanos, que impediram que a questão se encerrasse com esse indulto. De fato, continuaram os julgamentos no caso do sequestro das crianças até que, em 2003, já na presidência de Néstor Kirchner, o Congresso anulou a anistia e todas as leis que impediam que se continuasse com outros julgamentos. Hoje, quase semanalmente se produzem condenações. A diferença em relação aos primeiros julgamentos da década de 80 é que hoje não há militares imputados dentro das Forças Armadas e, portanto, não há risco de golpe de Estado, como aconteceu na segunda metade dos anos 80. Creio que a Argentina foi o país que mais avançou no julgamento dos responsáveis pelo terrorismo do Estado, e o arcabouço público construído nos tribunais foi uma das bases para a transição democrática.

As ameaças de morte recebidas pela presidente argentina teriam, de fato, ligação com o julgamento de repressores da ditadura militar do país, entre eles Alfredo Astiz, acusado de cometer crimes de lesa-humanidade na Esma?
Há quem acredite que são ameaças vindas de forças-tarefas ideologicamente identificadas com os repressores. Esses grupos existem. Grupos clandestinos com essa inclinação também atuaram como cúmplices nas explosões que destruíram o edifício da embaixada de Israel e da Associação Mutual Israelita-Argentina, em Buenos Aires. Eles se dedicam como free lance ao tráfico na tríplice fronteira, entram e saem de lugares pouco visados pelos aparatos policiais e pela inteligência.

O Brasil, neste quesito, pouco fez. E são muitas as resistências no País a que se reveja a Lei da Anistia. O que pode ser mais acirrador de ódios: fazer justiça em relação aos crimes de tortura do passado ou se fiar a uma ‘’paz arranjada'’, como a nossa?
A justiça é indispensável e não conheço outra forma de exercê-la senão pelos tribunais. O grande processo de julgamentos está ameaçado pelos riscos de se converter a condenação em revanche. Todavia, não conheço outro caminho e estou feliz que meu país o tenha conseguido (num país tão inconstante em todos os demais aspectos, tão incapaz de manter uma continuidade de políticas, os julgamentos foram contínuos desde 1984). Acho também que os parentes das vítimas deveriam receber um reconhecimento público: os mortos são mortos, e assim, em sua dignidade, devem ser reconhecidos. Não há mortos melhores nem mortos piores.

Governos ditos populistas tendem a tornar mais passional o exercício da política?
Os populistas conhecem perfeitamente as dimensões afetivas da política. Entendem que nem os programas, nem as ideias são suficientes para uma política de massas e, em geral, são bons líderes que sabem recorrer à distância entre o projeto e os sujeitos que devem sustentá-lo. A política democrática moderna tem que se enraizar em alguma coisa: não se agarra ao rei, nem a Deus, nem ao proprietário da terra. Agarra-se aos corpos, morada clássica das paixões. Isso não quer dizer que qualquer solução populista seja aceitável. Existem populismos messiânicos e autoritários, que governam em nome das massas com a segurança de seres superiores. Há populismos que não vacilam em violar princípios institucionais que devem estar na base de um governo democrático e passam por alto no fato de que a institucionalidade republicana é a única garantia para que o populismo não se converta em um regime autoritário. Também há populismos que conservam o estilo de discurso e de mobilização, mas a essência de suas medidas não responde aos interesses do povo que dizem representar. Há populismos conservadores ou corruptos, que mantêm as massas em uma rede onde não se constroem cidadãos, mas clientes. Em minha opinião, o fundamental hoje é a construção de culturas de cidadania. Provavelmente não resultarão em culturas republicanas "puras". Nessas culturas se respeitam os procedimentos institucionais, o que não exclui estilos culturais de matriz populista, plebiscitária ou de mobilização direta. Mas me diga: onde podemos encontrar uma cultura "pura"?

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo - http://www.estadao.com.br

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As primeiras águas de um rio

A busca da nascente revela as peculiaridades do rio Amazonas, agora o mais longo do mundo.

Carlos Fioravanti

Jardins inundados: ilhotas de matéria orgânica nos trechos iniciais do Amazonas, na cordilheira dos Andes.

Em algumas semanas, Paulo Roberto Martini contará a outros geólogos em um congresso na capital de Cuba, Havana, como ele e sua equipe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) concluíram que o rio Amazonas pode ser o mais extenso do mundo. Por meio de imagens de satélite e levantamentos de campo, verificaram que ele deve ter exatos 6.992 quilômetros, 140 a mais que o Nilo, durante séculos considerado o mais longo. Martini provavelmente ouvirá sugestões de ajustes nas medidas, mas dificilmente terá tempo para apresentar as outras descobertas sobre o modo de funcionamento de um rio de muitas personalidades, ora ágil e impetuoso, ora lento e sereno. 
Um rio quase sempre exagerado: nasce como um fio de água que escorre em meio de rochas a 5.500 metros de altitude em um ponto próximo de uma montanha conhecida como o nevado Mismi, nos Andes peruanos, forma cachoeiras monumentais e acolhe águas turvas, cristalinas e escuras de outros 7 mil rios. É eixo de uma bacia hidrográfica do tamanho de dois Méxicos, que despeja no Atlântico 3 milhões de toneladas de sedimentos por dia, como se corroesse e carregasse em quase um mês um morro como o Pão de Açúcar, a rocha mais famosa do Rio de Janeiro.
“O Amazonas é mais do que um rio”, pensa Martini, que aprendeu com sua equipe a entender e admirar o rio enquanto procuravam a nascente. “É um monumento vivo, um agente planetário.” Por enquanto o rio que aparentemente não fala pode apenas insinuar o que pretende. Ao buscar a trajetória mais longa possível para as águas do Amazonas e do Nilo com base no mesmo banco de imagens de dois satélites, o sino-brasileiro Cbers e o norte-americano Landsat, Martini notou que a possível nascente do Amazonas encontra-se a menos de 250 quilômetros do Pacífico, como se pretendesse unir os dois oceanos e rasgar a América do Sul. 
As primeiras águas já começam a entalhar as rochas íngremes mal descem dos Andes como neve derretida. Seguem suaves nos primeiros 100 quilômetros cortando planícies andinas quase desérticas com os nomes de Lloqueta e Ene. Mais adiante formam um riozinho que encorpa, parece acordar e, com o nome de Tambo, torna-se um rio de corredeiras que desabam afoitas do alto da montanha. Prossegue agora sinuoso com o nome de Apurimac, caindo por mais 150 quilômetros de cascatas e cachoeiras. “O volume de sedimentos retirados dos Andes e depositados na bacia amazônica faz desta garganta uma das mais erodidas do planeta”, conta Martini. O rio então se infiltra e serpenteia pelas terras baixas tomadas pela Floresta Amazônica, já com o nome de Ucayali, mais e mais caudaloso à medida que ganha as águas de outros rios. Em Amazonas – Águas, pássaros, seres e milagres, o poeta Thiago de Mello apresenta essa imensa planície verde, “ramificada em milhares de caminhos líquidos”, como um “mágico labirinto que de si mesmo se recria incessante”. O Amazonas, para ele, é a pátria da água.
Eis finalmente o Amazonas que conhecemos: gordo, sonolento, envolvente. O agora convertido em rio de planície escapa de um imenso lago do Ucayali e segue a leste, entrando no Brasil com outro nome, Solimões, que vale por mais 1.700 quilômetros, até as águas barrentas se entenderem com as águas cor de coca-cola do rio Negro, após uma longa negociação que começa em Manaus; sai daí, finalmente, o Amazonas. O rio calmo é ainda inquietante, porque sua habilidade de deslizar em um terreno tão plano a uma velocidade de 6 quilômetros por hora a partir de Tabatinga, a primeira cidade brasileira de seu percurso, intrigou a equipe do Inpe por muito tempo. “Pelo tamanho dele, deveria ser muito mais lento”, diz Martini, que talvez tenha encontrado uma explicação depois de muita conversa com Valdete Duarte, Egídio Arai, Janari de Moraes e Oton Barros, para citar apenas os colegas mais próximos. 
São os estreitos, eles concluíram, que controlam o rio e o fazem andar rápido. Logo depois de Tabatinga, a distância entre as margens do rio é de 2,2 quilômetros. Pouco depois, em dez minutos de barco, o rio se alarga e a largura entre as margens passa a 12 quilômetros. Mais adiante, outro estreito, em São Paulo de Olivença, a três horas de barco, com 2,5 quilômetros de largura, depois vêm outro e mais outro, entremeados por áreas mais largas até o último estreito, em Óbidos, no Pará, com apenas 1.800 metros entre as margens, que comprimem um volume impressionante de água, 200 mil metros cúbicos por segundo, o suficiente para encher a Baía de Guanabara em três minutos e meio.

Sob as ordens dos Andes – “O rio se estreita e se espraia, acelerando ou represando as águas, como se cada segmento dele próprio fosse uma bacia hidrográfica”, comenta Martini. Formados por rochas elevadas, os estreitos que definiram o trajeto do rio funcionam como as válvulas das veias que controlam o fluxo do sangue no corpo humano. Possivelmente foi na época em que se formaram as bases geológicas desses estreitos, há cerca de 6 milhões de anos, que o rio inverteu seu trajeto, outrora rumo ao Pacífico, e embicou para o Atlântico, cedendo às novas ordens dos Andes que haviam recomeçado a crescer e mudaram o trajeto de muitos outros rios sul-americanos.
Mesmo no Brasil o Amazonas não deixa de ser um rio andino, rico em sedimentos trazidos das montanhas do leste até encontrar as águas do Xingu, no Pará, já próximo da foz. Nos arredores do arquipélago de Marajó, formado pelos sedimentos do Amazonas, parte da terra dos Andes cessa a longa jornada, mergulha no Atlântico e pressiona a matéria orgânica de origem marinha que em alguns milhões de anos podem se transformar em petróleo. Se caírem nas correntes marinhas, os sedimentos mais finos do que areia podem chegar ao litoral do Suriname, a 2 mil quilômetros da foz, e fertilizar plantações de arroz.
Nos meses de cheia, quando as águas sobem em média 18 metros, o Amazonas invade a floresta, faz as madeiras apodrecerem e libera uma quantidade colossal de gás carbônico, um dos responsáveis pelo aquecimento global. “Parte do carbono que falta pode estar sendo gerada nas várzeas durante as cheias do Amazonas”, diz Martini, com base em estudos da Nasa que indicam que a cada ano as cheias do Amazonas geram 6 gigatoneladas de gás carbônico, o equivalente a 60 milhões de elefantes mortos deixados a céu aberto. Em outro fenômeno próprio deste rio, a água das cheias deslocando-se ao longo da calha infiltra-se pelos canais subterrâneos e faz quilômetros de terras próximas às margens afundar quase 8 centímetros, de tão encharcadas, de acordo com medições realizadas nos arredores de Manaus. Mesmo as rochas que formam o leito cedem sob o peso da água.  
De Nova York a Roma – Antes de ser candidato a rio mais extenso do mundo, que se colocado em linha reta iria da cidade de Nova York a Roma, o Amazonas já era o rio de maior vazão de água que, somado com os afluentes, contém 20% de toda a água doce da Terra. É tanta água que, estando lá no meio, não conseguimos ver as margens. “As águas do Amazonas sobem no horizonte, e a gente afunda, como se estivesse no mar”, conta Martini, hoje com 60 anos, que viu o rio pela primeira vez quando tinha 22 anos, de um cais de Belém, quando ainda estava no terceiro ano do curso de geologia. Achou que era o mar. Mas como não se deixar iludir por um rio cujas margens desaparecem, a 10 quilômetros uma da outra? 
Só há 15 anos é que Martini decidiu sair em busca da nascente do Amazonas. Ele e os colegas do Inpe também desconfiavam que o ponto de partida do rio não estava no norte, mas no sul do Peru. A análise das imagens de satélite avançou a ponto de indicar em 1995 que o Amazonas seria, sim, o mais extenso, com 7.100 quilômetros, pouco mais de 100 quilômetros a mais que a medição atual, mas depois entrou em um ritmo mais lento, por falta de tempo, gente, dinheiro, equipamentos ou informação. 
Há dois anos as circunstâncias começaram a se tornar novamente favoráveis. Foi quando o grupo do Inpe conheceu um arquivo de imagens da Nasa chamado Geocover, que ajuda a analisar e a corrigir imagens de satélite e seria usado para mapear áreas desmatadas da Amazônia em conjunto com pesquisadores de instituições peruanas. Martini voltou então a se entender com o rio e, em maio do ano passado, recebeu o convite para participar de uma expedição à nascente do Amazonas, organizada pelos produtores de programas de TV Paula Saldanha e Roberto Werneck, que visitaram as primeiras águas do Ucayali em 1994 e pretendiam voltar, agora em uma expedição formal, com representantes do Inpe, da Agência Nacional das Águas (Ana), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Geográfico Nacional (IGN) do Peru. Martini tinha assumido outro compromisso que impedia sua participação, lembrou que subir os Andes era perigoso (Janari de Moraes, alpinista experiente, havia morrido meses antes enquanto percorria uma trilha inca nos Andes peruanos) e, mesmo apaixonado pelo rio, desistiu. 
Duas semanas depois, quem embarcou para o Peru no lugar de Martini foi outro integrante da equipe, Oton Barros, engenheiro agrônomo de 42 anos e esportista amador que percorre 50 quilômetros de bicicleta sempre que pode. Por ter vivido em Manaus dos 9 aos 21 anos e percorrido a Amazônia, sempre quis ver onde o Amazonas nascia. Mas o que sentiu no alto dos Andes, em sua primeira aventura como alpinista, em vez do encanto que esperava, foi um enjôo permanente e uma leve ressaca por causa da altitude e por ter comido muito pouco nos três dias subindo até lá: a maioria dos quase 20 integrantes do grupo já havia tido diarréia, por terem estranhado a alimentação nas montanhas, com molhos à base de creme de leite. Estava tenso e cansado sob o frio e o vento forte. “É um lugar inóspito, que inspira respeito e medo”, descreve Barros. Por causa do ar pobre em oxigênio, sentia o cérebro funcionando em câmera lenta.
A expedição ajudou a estabelecer o consenso entre os especialistas do Brasil e do Peru de que o rio Amazonas nasce nas vertentes do rio Ucayali. O ponto exato de que partem as águas do maior curso de água do mundo talvez ainda custe a ser fixado. “É muito difícil definir qual a água principal, já que a água escorre de tudo que é lado e só vai virar um riozinho três quilômetros abaixo”, conta Barros. Os peruanos já estabeleceram por lei que a nascente encontra-se em uma quebrada chamada Carhuasanta, um vale em forma de U com uma base de 300 metros. Barros e a equipe do Inpe ainda analisam a possibilidade de a nascente estar em outra quebrada, a Apacheta, a um quilômetro de distância, com uma área maior de captação de água e turfas e liquens que armazenam água o ano inteiro. Dilema difícil: acima da Carhuasanta ergue-se o nevado Mismi, uma montanha sagrada para os peruanos desde os tempos em que os incas viviam por lá.

Fonte: Revista Pesquisa - http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Capitalismo e imperialismo

David Harvey reavalia as relações entre Economia e Política esboçadas por Marx.

Ricardo Musse

As reações dos Estados Unidos aos atentados de 11 de setembro causaram perplexidade geral. Afinal, a disposição de invadir e ocupar o Afeganistão e o Iraque não estaria na contramão de uma política cuja hegemonia se firmara ao longo do século 20 graças ao discurso e à prática em favor da autonomia nacional? Além disso, como entender a legitimidade obtida pelo governo Bush - uma singular coalizão de militaristas, neoconservadores e cristãos fundamentalistas, acusada de fraude eleitoral - confirmada com sua escolha para exercer um segundo mandato?

As mudanças na ação externa e no cenário interno suscitaram a onda de explicações que colocou na boca de liberais e conservadores um termo que a esquerda utiliza há muito para caracterizar o Estado norte-americano: imperialismo. A ocupação neocolonial de territórios, seu denodo em determinar os rumos do capitalismo, o estado de guerra permanente (41% dos gastos do governo são destinados às atividades militares) e até mesmo o revezamento de poucas famílias no comando da nação, tudo isso aponta para o ressurgimento de um poder imperial.

Essa inusitada convergência disseminou e banalizou ao extremo a palavra "imperialismo". Quando se debruçou sobre o tema, em 2003, David Harvey, para qualificar o debate, procurou reestabelecer as determinações conceituais e históricas da teoria marxista do imperialismo. Mas, paradoxalmente, poucos anos depois, a atualidade de The new imperialismreporta-se menos às análises de conjuntura - em geral brilhantes e muitas vezes proféticas -, do que ao arcabouço teórico que o livro desenvolve.

Ao contrário do que se crê, a discussão sobre imperialismo não é episódica no corpus marxista, resquício da "era dos impérios" e do leninismo. Quando bem dimensionada, ocupa um lugar central na compreensão teórica e histórica do capitalismo. Se Marx, por um lado, caracteriza a dinâmica desse modo de produção como o desdobramento da acumulação de capitais (numa lógica estritamente econômica), por outro lado, em um capítulo crucial de O capital ("A assim chamada acumulação primitiva") mapeia, uma a uma, as práticas extraeconômicas que favorecem a acumulação capitalista.
O debate polarizou-se entre os que consideram a "acumulação primitiva" como uma mera etapa necessária à emergência do capitalismo e os que a situam como momento estrutural de seu dinamismo histórico. A questão, no fundo, remete às relações entre economia e política, um dos muitos pontos que Marx apenas esboçou e não teve tempo de desenvolver em sua obra.
Harvey é um partidário decidido da segunda alternativa. Para ele, o processo de "acumulação interminável de capital", que configura histórica e geograficamente o capitalismo, combina, de forma contraditória, a lógica econômica, os processos moleculares de acumulação e as estratégias políticas, diplomáticas e militares que denomina "acumulação por espoliação", renomeando o arsenal de práticas que Marx chamava de acumulação primitiva.

A predecessora mais ilustre dessa posição foi Rosa Luxemburgo. Harvey compartilha com ela a tese de que é necessário algum tipo de "exterior" para manter a estabilidade da acumulação capitalista. Discorda, no entanto, que esse "outro" seja sempre uma forma de produção pré-capitalista. O próprio capitalismo, em sua geografia e história, pode produzir esse "exterior", como no caso do desemprego em massa que amplia o exército industrial de reserva. Tampouco concorda que a sucessão de crises que perpassa o capitalismo seja explicável pelo "subconsumo". Para Harvey, as crises advêm da dificuldade em absorver de forma lucrativa os excedentes de capital e são, portanto, "crises de sobreacumulação". Sua resolução acarreta tanto a desvalorização de ativos e a destruição de regiões como a configuração de uma nova paisagem espaço-temporal para acomodar a perpétua acumulação de capital e sua companheira inseparável, a acumulação interminável de poder.

Harvey não despreza os ensinamentos de Lênin sobre o imperialismo, em especial a denúncia da assimetria entre Estados no interior de um sistema global de acumulação de capital. Mas em vez de descrevê-lo como uma fase "última" do capitalismo prefere vê-lo, na fórmula de Hannah Arendt, como "o primeiro estágio do domínio político da burguesia". A partir dessa premissa reconstitui, com alguns deslocamentos decisivos, a hipótese de uma sucessão de Estados hegemônicos desenvolvida por Giovanni Arrighi.

Entre 1870 e 1945 imperialismos rivais assentados no nacionalismo e no racismo conduziram as nações a uma série de crises e guerras. A hegemonia norte-americana após 1945 se torna incontestável, dissimulando seu domínio sob a capa de um universalismo abstrato: a defesa das classes proprietárias de todo o mundo em sua luta contra o comunismo. A partir de 1973, o modelo de acumulação altera-se completamente com a criação de um sistema monetário desmaterializado.

Nesses três períodos convivem, com pesos diferenciados, a acumulação molecular de capital e a acumulação por espoliação. Esta predominou no período 1870-1945 e voltou a prevalecer a partir de 1973, após o interregno dos "trinta anos dourados". A face imperialista do capitalismo torna-se ostensiva nos momentos em que predomina o acúmulo por espoliação, mas nunca deixa de atuar, sobretudo porque também deriva, de forma complexa, da reprodução expandida do capital.

Essa teoria permite a Harvey explicar de forma convincente os principais fenômenos político-econômicos dos últimos 35 anos, apresentando a financeirização, a globalização e a política neoliberal como estratégias da "acumulação por espoliação". Seu predomínio manifesta-se na vida política por meio da cisão dos movimentos antiglobalização, divididos entre a esquerda socialista - cuja ênfase na reprodução ampliada coloca como central a luta anticapitalista -, e os novos movimentos sociais, que tendem a assumir formas difusas, fragmentárias e avessas ao controle do aparelho de Estado, já que lutam prioritariamente contra a espoliação.

Fonte: Revista Cult - http://revistacult.uol.com.br

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A revanche das antigas filosofias

Antigas, sim, mas muito atuais. Epicurismo, estoicismo, ceticismo, cinismo - filosofias clássicas que fizeram grande sucesso bem antes da era cristã - estão de volta. O motivo? Parece que o mundo ocidental cansou das filosofias modernas, em geral pessimistas, niilistas e atormentadas pela falta de sentido da vida e da morte.

Sheila Lobato

Ceticismo, cinismo, estoicismo e epicurismo eram ramos de um único caudal filosófico, que contestava o idealismo de Platão e seu discípulo Aristóteles (personagens centrais de A Escola de Atenas, de Rubens).

Quase 2.500 anos depois, as escolas filosóficas que floresceram na Grécia Antiga estão de volta, reinterpretadas, influenciando pensadores e fazendo novos seguidores em todo o mundo.

Mas por que reinterpretadas? Porque, com o passar dos séculos, todas sofreram deformações que mudaram muito o sentido de seus conceitos. O cinismo, por exemplo, não tem nada de cínico ou vigarista: deve seu nome à praça de Cynosarge, em Atenas, onde se reuniam os adeptos da escola, na falta de um lugar construído para esse fim.

O epicurismo andou em moda no último pós-guerra por sua ideia de que felicidade é viver intensamente o presente, e foi o bastante para cair no gosto dos movimentos libertários da Europa e dos Estados Unidos, onde a geração beat começava a despontar. Mas o pensamento de Epicuro (341- 270 a.C.) não tinha nada a ver com o conceito de fruição e libertinagem, associado à sua filosofia pela turma da contracultura do século 20. No século 21, o epicurismo volta a seus termos de origem: a felicidade está, sim, em viver o presente, só que não na esbórnia, mas com disciplina e moderação.

E por que estão reaparecendo filosofias tão antigas? Uma resposta, simples e direta, é que o mundo ocidental cansou das filosofias modernas. É tudo muito complicado, muito difícil, polêmico, contraditório, compreensível somente por iniciados e, mesmo para eles, em boa parte ininteligível.

Quando vislumbram caminhos no meio do matagal, elas acabam levando a becos sem saída. E não dão tréguas à dor: são pessimistas, quase sempre niilistas e atormentadas pela falta de sentido da vida e da morte.

Não há nada disso em nenhum dos grandes autores das velhas fi- losofias. Epicuro, Diógenes, Zenon de Chipre, Pirro, Sêneca, Marco Aurélio (sim, o imperador romano), Epiteto e outros tinham em comum a clareza e a simplicidade de suas ideias, nem por isso ralas ou reles. Pensavam e ensinavam para as grandes massas. Mas com boa formulação e fundamentação.

A morte, por que temê-la? A vida nos deve inspirar mais cuidado do que ela, pois enquanto estamos vivos é que podemos fazer alguma coisa por nós. Se pouco ou nada fizermos, pouco ou nada seremos. Tudo o que somos devemos a nós mesmos, graças à vida que soubermos construir. Quanto à morte, ela é simplesmente o fim – e que mal tem isso, se a vida foi bem vivida?

E os deuses, por que temê-los? Pois os deuses, se existem, estão ocupados demais com os assuntos divinos para se interessarem pelos nossos. Portanto, não têm tempo nem interesse em nos julgar e, se não nos julgam, não nos condenam. Por outro lado, se os deuses não existirem, por que temer o que não existe?

O racionalismo dos epicuristas, estoicos, cínicos e céticos vai por aí e tem tudo a ver com o pensamento histórico europeu, de Descartes a Diderot ou Wittgenstein, de Schopenhauer a Martin Heiddeger, de Nietzsche a Jean-Paul Sartre e dezenas de outros pensadores. Mas, passe numa livraria em Paris e pergunte pelos filósofos mais vendidos na atualidade. Pensées pour moi-même é um best-seller, não traduzido para o português, mas que aqui poderia chamar-se “Meus pensamentos, por mim mesmo”. É de Marco Aurélio, imperador romano, nascido no ano 121 e morto em 180, depois de um reinado de 19 anos, dos quais passou 17 em cima de um cavalo em campanhas que expandiram ainda mais o vasto império que herdara.

Marco Aurélio era estoico e escreveu já na velhice. Em seu livro há uma cena em que um ancião obser va o campo de batalha de cima de uma colina e espera até o último momento por um gesto de paz do inimigo, que não acontece. Começa o combate e, ao cair da noite, a vitória está assegurada. Volta-se, então, para seu general, Máximo, e diz: “Quando um homem sente que seu fim está próximo, ele se pergunta se sua vida teve um sentido. Vou passar à história como um filósofo, um guerreiro ou um tirano?” Dois mil anos depois, Marco Aurélio é festejado pela primeira alternativa. Seu livro faz companhia às Cartasde Sêneca, ao Manual de Epiteto, estoicos como ele, e às obras de outros pensadores da Antiguidade, dessas e de outras escolas.

Saber o que podemos fazer e o que não podemos, o que cabe a nós e o que é do destino, são ensinamentos que estão na essência do estoicismo e do epicurismo, e também têm a ver com o cinismo e o ceticismo – todos eles ramificações de um mesmo caudal que se dedicava a contestar o idealismo dogmático de Platão e Aristóteles na Grécia Antiga.

Essas filosofias eram um modo de vida. Não brilhavam por fazer grandes construções teóricas, mas por seus ensinamentos para melhorar a vida de cada um. Eram mais socráticas (“a vida é uma preparação para a morte”), mais pedagógicas que metafísicas. Filosofar não era uma especulação abstrata, um devaneio, mas uma busca por respostas práticas para as questões da vida diária. Nisso residiria a felicidade.

Uns, pedagógicos, produziam filoso- fias para a existência; os metafísicos, para a alma, que habitava em outras longitudes. No século 20, a última grande filosofia da existência imitou os pedagógicos: fez um sucesso estrondoso menos por seu edifício teórico do que por sua literatura e dramaturgia. Como romancista em A náusea e teatrólogo em Entre quatro paredes, Jean-Paul Sartre deixou mais ensinamentos para o dia a dia do que como filósofo no monumental O ser e o nada, e isso explica em grande parte sua popularidade em todo o Ocidente por quase 40 anos. Foi na literatura e no teatro que ele mostrou como viver o existencialismo. Havia, nisso, um sentido utilitário, por mais inútil que lhe parecesse a existência humana, por ele definida, na última linha de “O Ser e o Nada”, como uma “passion inutile”. Depois dele, morto em 1980, os filósofos alternativos da Antiguidade reaparecem para suprir em parte essa falta. Embora tenham pouco a ver com o pensamento sartriano, mostram algumas incríveis coincidências.

O Epicurismo

Ansiedade e estresse já eram problemas sérios na época de Epicuro (341-270 a.C.). Tal como hoje, ninguém sabia o dia de amanhã e a incerteza era causa de angústia e sofrimento. O epicurismo propunha uma nova atitude contra essa dor: procurar a felicidade. E a felicidade, para Epicuro, não estava nem no luxo nem nos prazeres da vida, mas no que ele chamou de tranquilidade da alma, que significa não sentir nem dor nem perturbação.

E como conquistar essa tranquilidade? Eliminando a principal causa de angústia: o medo. Para Epicuro, o homem tem basicamente dois tipos de medo: o de Deus e o da morte. Ambos são vencidos pela razão. O primeiro, com a compreensão de que se os deuses existem, eles têm outras coisas com que se ocupar em seus próprios planos, muito mais elevados do que o humano. Não faz sentido, para Epicuro, o divino julgar ou tratar de assuntos que cabem aos mortais pensar e resolver. Portanto, não se deve temê-los porque estão muito distantes de nós.

Resta a morte. Antes de tudo, Epicuro avisa que não é possível viver sem a ideia da morte. Tirá-la de nossa cabeça é impossível, pois se trata de uma realidade inelutável que vemos ocorrer com todos e tudo à nossa volta. Mas podemos chegar à tranquilidade diante dela compreendendo que a morte é simplesmente o nosso fim. Primeiro, de nossas atividades vitais. Segundo, de nossa própria alma, que se desagrega ao retirar-se do corpo que habitou, pois não pode sobreviver sem seu invólucro protetor. Portanto, não se deve temer a morte porque nada mais existe após o fim derradeiro. Só os deuses, se existem, vivem a vida eterna. Jamais morrem, e isso deve ser um problema para eles. Para nós, é uma falsa questão.

Epicuro não se pergunta de onde vem, então, a alma que vive em nós. É uma questão difícil, e a felicidade não quer saber de problemas. Ela consiste em não nos desesperarmos com nosso fim, mas em transformar a vida em uma festa. Não parece a Paris dos anos 20? E que tal compreender que, sem ter o que temer (dos deuses) e o que esperar (após a morte), somos então seres totalmente livres? Não parece a Paris de Jean-Paul Sartre e dos existencialistas?

Livres da angústia, podemos finalmente nos dedicar a viver o presente com todas as nossas forças. Somos mortais, mas felizes. Só que, para nos mantermos assim, precisamos distinguir muito bem nossos desejos. Há os que são naturais e precisam ser satisfeitos, como comer, beber, copular; os que são naturais, mas não necessários, como as fantasias culinárias e sexuais; e os que são vãos, como a riqueza, o poder, as honrarias, a glória. As duas últimas categorias podemos evitar, em nome da nossa felicidade. Não é que Epicuro parece um asceta? A imagem do libertino é um engano, de fato, mas Epicuro tem o mérito de inocentar o desejo, e isso o distingue de Platão e Aristóteles, para quem o desejo é um mal. Epicuro recomenda moderação, e é só.

Fonte: Revista Planeta - http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

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Até onde ir com a verdade?

Podemos admitir o relativismo, mas é preciso erigir um museu com fatos que permaneçam imunes ao tempo.

Renato Lessa

Em tempos de lassidão relativista, algumas experiências talvez mereçam abrigo em uma espécie de museu de verdades imunes ao tempo. Deixo a discussão a respeito do que podem significar as peças do acervo dessa improvável instituição. Contento-me com a reles possibilidade de um depósito de eventos, a espera da inevitável incursão dos intérpretes. De minha parte, agarro-me ao lema: sejamos relativistas, mas cuidemos do museu de verdades imunes ao tempo.
Sustento ser fato indisputado que, assim como estou a escrever este artigo, em março de 1964 um governo legítimo foi, no Brasil, deposto por um golpe de Estado. Ainda que uma aloprada interpretação revisionista insista em atribuir a vítimas do golpe em questão os motivos centrais para a sua perpetração, tratou-se este, sim, de uma incursão que destruiu para sempre o ambiente político e institucional da Republica de 1946. Os méritos do disparate pertencem exclusivamente aos golpistas, e não a suas vítimas. Seu sucesso na empreitada, por maioria de razão, exige que consideremos sua pretensão de governar o país como ilegítima.
Ilegítimos foram, portanto, os governos e os atos que seguiram ao ato inaugural de 31 de março de 1964. Trata-sede uma ilegitimidade com forte componente alucinatório, devotada a extrair de dentro de si mesma crenças e rituais de legitimação. Assim, reacionários empedernidos e saudosos dos idos de março de 1964 chegam às lágrimas ao ressaltar o legalismo (sic) do marechal Castello Branco, o primeiro dos usurpadores. Desde já, adianto que uso o termo "usurpador" como substantivo, a designar agente que obtém, sem direito prévio a isso, algo que não lhe foi atribuído segundo devido procedimento legal. Não falo, pois, da alma ou dos sentimentos do marechal em questão, mas de seus atos e escolhas públicas. Penso mesmo que estou disposto a anistiar o marechal Castello Branco, já que segundo a Lei da Anistia, de 1979, além dos atos praticados pelos que se opuseram à ditadura, "crimes conexos" estariam cobertos. Pois bem, a mãe dos tais crimes conexos foi a intentona de 1964. Então não?
Volto ao componente alucinatório. O regime - e chamá-lo assim já constitui um ato indevido de promoção ontológica - buscou em si mesmo um arsenal de bruxarias institucionais para apresentar-se de modo limpo e legal. Nada de semelhante ocorreu com vizinhos do Cone Sul. Por lá, golpistas, quando não cuidavam do extermínio de opositores, golpeavam-se mutuamente. Por aqui, praticou-se uma pantomima legitimista que, pela repetição e ausência de alternativas, deu azo a uma expressão que sempre me intrigou: a da "institucionalização do regime". Na verdade, aí reside o grande sucesso da empreitada: passar de quartelada a regime, e disso a um "modelo político" próprio, pretensamente institucionalizado. Chamemos a isso de "lavagem de regime". Para coroar, uma transição para a democracia feita pelas regras do próprio regime. Como não há notícia de regime que tenha feito regras para que desaparecesse, algo de incomum deve ter ocorrido.
Alguns se opuseram à pretensão alucinatória, pelas armas ou pela paciente sedimentação de uma resistência não violenta. Os que caíram nas malhas da repressão conheceram o destino que se apresenta aos humanos quando submetidos de modo absoluto a celerados. Quer um repugnante exercício revisionista desqualificar o tema da tortura e da violação dos direitos humanos pela suposição de que os que combateram o regime de 1964 não seriam democratas legítimos, mas agentes protototalitários.
O que hoje está em jogo é saber que lugar ocupará a experiência dos anos da ditadura na longa duração histórica do país. Em uma camada ainda mais profunda, trata-se de saber do lugar reservado ao esquecimento e ao tabu nas narrativas a respeito da experiência histórica da nação. E é aqui que se apresenta o maior sarilho: o modo de inscrever o passado em nossas narrativas depende das erráticas condições do presente. Nada, pois, mais distante dos marcadores inegociáveis contidos nas ideias de verdade e justiça. Na Argentina, uma ditadura derrotada deu passagem a um regime que nada lhe devia. O momento pós-autoritário, naquele país, pôde organizar seu museu de verdades imunes ao tempo, ao mesmo tempo em que fixou sobre o acervo interpretações precisas. Com idas e vindas, militares genocidas foram reconhecidos pelo que foram. Os feitos do capitão Astiz - heroico no assassinato de freiras francesas e covarde na Guerra das Malvinas - estão inscritos indelevelmente na filial portenha do museu ao qual aludi.
Por cá, o enquadramento da resposta às questões acima indicadas foi fixado pela Lei de Anistia, de 1979, e por alterações sucessivas. Imaginar sua revogação, para fins penais, é algo que não combina com a natureza do processo que nos livrou da ditadura. Perdedores absolutos estão sujeitos a aplicação implacável e automática da justiça por parte de vencedores indisputados. Nestas plagas, quem se habilita a ocupar, à vera, tais posições?
Melhor seria ter a coragem e o caráter de tomar a Lei da Anistia ao pé da letra, e estender a todos os envolvidos seus benefícios, o que inclui os tais crimes conexos. Porém, há uma exigência: é fundamental saber quem está a ser anistiado e por qual razão. A condição de usufruto da anistia exige o reconhecimento público de algo que, em algum momento foi de fato feito, com data, hora e lugar.
Devem ser anistiados os envolvidos com a usurpação de 1964, os que mataram e torturam e os que os comandavam. A ênfase na punição para fins estritamente penais dá azo à odiosa cultura do veto e da pretensão da tutela dos comandantes militares sobre a República. Mas, a eventual alopração por parte de um esquerdismo inócuo e reduzido à simbologia ressentida - simpatias chavistas e acenos ao Hamas y compris - é menos grave do que a (in)disposição militar diante da questão. A gravidade reside no fato de que mais do que não admitir que torturadores e seus comandantes venham a ser punidos, os chefes militares recusam a ver seus camaradas antecessores como anistiáveis, pois estão convictos de que não há nada no passado recente das corporações militares que exija autocrítica e arrependimento.
Que apareçam os corpos dos desaparecidos, que se abram os arquivos e que se peça desculpas ao País pelo despautério. Que se mostrem, enfim e para o devido perdão, os anistiáveis perpetradores de "crimes conexos". Assim, completamos o ciclo da anistia. Sem punições a montante, mas sem lacunas no acervo do museu de verdades imunes ao tempo.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo - http://www.estadao.com.br 

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Onde os mortos nunca dormem

Múmias revelam um passado sombrio da Sicília.

A.A. Gill
Foto: Vincent J. Musi

Onde os mortos nunca dormem

Um rosto ressecado olha para o firmamento em uma catacumba italiana. Na Sicília, as múmias revelam detalhes sobre a vida e a morte de séculos atrás.

O aeroporto de Palermo chama-se Falcone-Borselino. Soa como o nome de algum seriado policial dos anos 1970, daqueles estrelados por tiras com sobrenome italiano. Bem, não precisa se culpar por não saber que Falcone e Borselino foram bravos magistrados que tentaram pôr fim ao velho domínio do crime organizado sobre a Sicília. Ambos foram assassinados. O povo não gosta de falar da Máfia com estrangeiros ali. Trata-se de um embaraçoso assunto de família, uma tragédia particular, não é da nossa conta.

A Sicília é um lugar cheio de segredos. Dá para sentir isso nas ruas sombrias e barrocas
de Palermo, a capital onde o estrago dos bombardeios que marcaram o desembarque dos Aliados, em 1943, ainda não foi totalmente sanado e palácios-cortiços são habitados por refugiados norte-africanos. É um lugar masculino, de gente arisca, belo e ao mesmo tempo oprimido por seu passado de crime e corrupção.
A história da Sicília é um novelão pungente sobre gente miserável e fatalista, do tipo que se encontra em qualquer parte da Europa. Até a década de 1950, os camponeses dali estavam entre os mais pobres do mundo ocidental. Durante séculos, eles cavaram uma esquálida existência, padecendo em vendetas e rixas, injustiça e exploração, crimes de honra e códigos homicidas, tudo envolto em perfume de flor de tangerina e incenso de igreja. Na Sicília, perdura ao longo das eras o hábito de lavar sangue com sangue.
O monastério dos capuchinhos em Palermo é um prédio discreto, anódino. Fica do outro lado da cidade, numa praça tranquila, vizinho a um cemitério, onde, em 1992, a Máfia acertou suas contas com o juiz Borselino. Na porta do monastério, num canto recuado, dois camelôs vendem cartões-postais e guias turísticos. Lá dentro, um frade atrás de uma mesa vende ingressos e mais postais, além de pequenos artigos religiosos. Ele lê seu jornal enquanto o dia se arrasta lá fora.
Descendo por um lance de escada e passando por uma estátua de Nossa Senhora das Dores, achamos a porta da catacumba, espécie de sala de espera dos mortos. É fresco e úmido lá dentro, com um odor acre de especiarias em pó e roupa apodrecida. Pelas janelas altas a luz do Sol se filtra difusa, num fulgor esmaecido. Lâmpadas fluorescentes zumbem no teto, adicionando uma luminosidade anêmica de sala de legista. Pendurados pelas paredes, assentados em bancos, descansando em caixões decrépitos, acham-se ali cerca de 2 mil cadáveres. Eles envergam suas melhores vestimentas, os uniformes de suas profissões terrenas. Não há mais ninguém lá.
Na Europa, o dessecamento e a preservação de cadáveres são um assunto de sicilianos. Há outros exemplos na Itália, mas a maioria dos casos está na Sicília, onde a relação entre os vivos e os mortos é forte. Ninguém sabe ao certo quantos são nem quantos já foram removidos de catacumbas e enterrados em cemitérios por sacerdotes incomodados com essa teologia dos corpos votivos. O fenômeno evoca de imediato uma questão: por que alguém faria isso? Qual a razão de exibir gente morta em lenta decomposição?
Percorro as fileiras de mortos experimentando certa confusão mental ao tentar definir o que estou sentindo. No Ocidente, a gente não costuma ver corpos mortos – a ausência de vida é escondida. Esses cadáveres exalam mistério, exibindo atitudes que parecem revelar convicções pessoais. Examinando os cadáveres com interesse mórbido – pois é isso que a morte evoca nesse lugar –, percebo que a grande diferença entre os vivos e os mortos é que você pode encarar estes últimos de perto, sem esconder sua intensa curiosidade, coisa que os vivos não tolerariam.
Eis que me ponho a pensar se eles não deveriam botar a música Thriller, de Michael Jackson, de fundo musical ali, visto que esses corpos evocam aqueles zumbis de filmes de terror com suas próteses cênicas. Mandíbulas abrem-se em gritos silenciosos, dentes apodrecidos sorriem ameaçadores, órbitas oculares vazias a tudo observam, mãos exibem os nós artríticos dos dedos. É uma turma de braços cruzados pendendo dos arames e pregos que os sustentam, a cabeça largada sobre os ombros, o corpo caindo em câmera lenta sob o esforço de imitar a vida passada.

Os corredores abrigam de forma segregada religiosos e profissionais, tais como médicos, advogados e uma parcela de imponentes soldados de opereta em seus uniformes de carabinieri. Há um corredor reservado às mulheres, onde nosso guia salienta que podemos contemplar a moda do passado. Os esqueletos perfilam-se em seus andrajos encardidos. Uma capela lateral é devotada às virgens, algo chocante, uma cruel e patética pecha, pelos padrões liberais contemporâneos – a de ser virgem –, que elas têm de arrastar pela eternidade afora. Quando foram enterradas ali, essas virgens devem ter sido consideradas símbolos de pureza em meio à degeneração da carne que a vida e a morte implicam.
Depois, vem uma capela dedicada às crianças, que vestem suas roupas de festa, posicionadas como bonecos zumbis. Um deles se acha sentado na cadeira de ninar com um esqueletinho no colo, talvez seu irmão menor, compondo um quadro lamentável e risível, de tão grotesco.
Os mortos da Sicília não são como as catacumbas de Roma, uma escavação arqueológica. Os corpos foram colocados nesse lugar para serem vistos, prazer pelo qual você tem de pagar pequena quantia. Cartazes lembram ao visitante que ele deve se comportar de maneira respeitosa e não pode tirar fotos – que, no entanto, são vendidas pelos frades. Não está claro se estamos diante de uma experiência religiosa ou cultural, mas que é uma atração turística, isso é.
A primeira e mais velha múmia é de um frade: Silvestro da Gubbio, de pé em seu nicho desde 1599. (A palavra “múmia” deriva do termo árabe para betumem, substância assemelhada à resina enegrecida que os antigos egípcios usavam para embalsamar cadáveres.) A maioria dos corpos é do século 19. No começo eram apenas frades e outros sacerdotes ligados ao monastério. Com o tempo, os religiosos ganharam a companhia de beneméritos, dignatários e notáveis. Ninguém sabe ao certo o que deflagrou a onda de mumificação. Provavelmente por acaso, descobriu-se que um corpo deixado numa cripta de calcáreo poroso sob determinada temperatura fria acabava ressecando, em vez de apodrecer. Daí nasceu um método: os recém-falecidos eram levados a câmaras chamadas de escoadouros. Ali eram deitados num estrado de terracota sobre bueiros para onde escorriam os fluidos corporais, fazendo com que seus corpos se ressecassem feito presunto. De oito meses a um ano depois, os cadáveres eram lavados com vinagre e vestidos com suas melhores roupas para serem acondicionados em caixões ou pendurados nas paredes.
A preservação de corpos é realizada nos mais diversos lugares, mas é raro que eles sejam exibidos dessa maneira. Tanta gente aportou na Sicília com suas práticas e crenças que resquícios disso tudo acabam aflorando nos tempos modernos, mesmo estando suas origens há muito esquecidas. Já se sugeriu que talvez a prática da mumificação seja um eco residual de ritos muito antigos, pré-cristãos. Nem todos os defuntos ressecavam; alguns deviam apodrecer, levando à crença de que a preservação exprimia a vontade divina, uma intervenção da mão de Deus, mantendo certos indivíduos tais como eram antes da morte, espécie de marca distintiva de sua bondade em vida. Da mesma forma que as relíquias dos santos são utilizadas para reforçar orações e crenças, talvez se acreditasse que Deus preservava alguns corpos para reforçar a fé das pessoas. Ou, quem sabe, as catacumbas cumprissem o papel de grandes vanitas, palavra latina que significa “vazio”, apontando para a insignificância da vida terrena e o caráter transitório da vaidade humana. As catacumbas seriam ilustrações da vacuidade das ambições terrenas e da inevitabilidade da morte, apontando para a tolice que era acumular fortunas na Terra.
Em anos mais recentes, alguns corpos foram preservados de forma mais elaborada, por meio de injeções químicas, o que tirou a responsabilidade das mãos divinas e deixou a tarefa a cargo de agentes funerários. Numa das capelas, uma garotinha chamada Rosalia Lombardo repousa em seu caixão. Ele aparenta dormir sob um imundo lençol marrom. Ao contrário de muitas outras múmias ressecadas, essa mantém o próprio cabelo, apanhado num laço de seda amarela. Cachos de boneca tombam sobre sua fronte escurecida. Rosalia tem os olhos fechados, com cílios bem preservados. Se ela não estivesse cercada por crânios sorridentes e pela podridão reinante no lugar, Rosalia poderia passar por uma criança dormindo no caminho de volta de uma festa. O naturalismo e a beleza da cena são cativantes. O recado, inquietante e amedrontador, é de que a vida não passa de um breve sopro.

Rosalia tinha 2 anos quando pegou pneumonia e morreu. Louco de dor, seu pai pediu a Alfredo Salafia, um emérito embalsamador, que a preservasse. O efeito é terrível, de uma vivacidade trágica, e o pesar parece ainda pairar sobre sua pequena cabeça loira. Em Palermo, Rosalia é citada como semidivindade, um anjinho mágico. O taxista diz: “Você viu a Rosalia? Bella”.
Savoca é uma aldeia silenciosa que escala em espiral a encosta de uma colina até atingir um ponto em que a vista se descortina até o mar. É um lugar retrancado em si mesmo, onde Francis Ford Coppola filmou O Poderoso Chefão. O bar em que os personagens Michael e sua trágica esposa celebram sua festa de casamento se encontra em uma pracinha acanhada com o mesmo aspecto que tinha há 37 anos nas telas.
No topo da colina há um convento que mais parece uma hospedaria para mochileiros do que uma instituição gótica da Idade Média. Só há duas freiras ali, ambas indianas, de Jharkhand, leste do país. Elas vestem malhas e jaquetas por cima do sári. Numa saleta lateral, dispostos em caixões provisórios de madeira compensada, veem-se pouco mais de 20 cadáveres, que estão sendo estudados por um trio de cientistas.
Eles formam um time improvável: Arthur Aufderheide, americano octagenário que começou como patologista até se transformar num dos maiores experts mundiais em múmias; Albert Zink, um alemão volumoso que dirige o Instituto para Múmias e o Homem do Gelo, no norte da Itália; e Dario Piombo Mascali, um jovem siciliano elétrico, nervoso, sempre encanado com alguma coisa, entusiástico e motivado.
Encontro Mascali inclinado sobre uma caixa, erguendo com delicadeza a batina de um padre do século 19. Ele procura por alguma amostra orgânica de qualquer parte íntima do padre para que o professor Zink possa realizar alguns testes. Uma bolsinha de pele fina e poeirenta sai em sua mão. Dela ele extrai uma amostra de meio centímetro, etiquetada. A reverendíssima múmia não vai sentir falta de seu escroto, imagino.
Grande quantidade de informação pode ser coligida desses corpos sem vida sobre seu dia-a-dia no passado – dieta, doenças e longevidade. Saber mais sobre sífilis, malária, cólera e tuberculose séculos atrás pode nos ajudar a enfrentá-las melhor hoje. Os cientistas movem-se de forma metódica, aferindo a idade e a altura dos cadáveres, examinando crânios e dentes. Quase toda essa gente sofria de problemas dentários – depósitos de tártaro, gengivas encurtadas, cáries e abscessos. Alguns abdomens são examinados. Um dos corpos teve seu tecido mole removido e outros foram empalhados com trapos e folhas, inclusive de louro, talvez para mitigar o fedor ou, ainda, porque se supunha que tivessem valor conservativo. Rechear aquelas formas encolhidas era um jeito de lhes atribuir aparência vívida.
As peles têm o aspecto ceroso de pergaminho; as roupas estão úmidas e pegajosas; as caras, inchadas e bocejantes; as bocas, exibindo laringes encarquilhadas e mostrando línguas enrugadas para o médico examinar. Os cientistas demonstram respeito pelos corpos, sem perder de vista que são seres humanos – do mesmo jeito que nós –, embora se refiram a eles como “isso”, mantendo assim uma distância desapaixonada quando vão extrair um molar, por exemplo.
Alguns anos atrás essas múmias foram vandalizadas na cripta. Alguém entrou ali e jogou tinta verde nelas. Gerando um efeito lúgubre e humilhante, a tinta borrifou suas caras e seus casacos, dando a impressão de ainda estar pingando, o que as torna ainda mais parecidas com personagens de trem fantasma. As freiras que cuidam dessa estranha congregação olham a tudo com piedade e desagrado. Elas me confessam que aqueles corpos deveriam ser enterrados, permitindo que retornem ao pó de onde vieram. Uma delas afirma que não há nada espiritual ou edificante a se aprender com aquilo.

Os defuntos borrifados de tinta logo voltarão às alcovas vazias. No momento, o espaço que ocupavam não guarda nada além de centopeias mortas. Algumas múmias ainda jazem em seus elaborados esquifes. Com jeitinho, ergo uma pesada tampa, que não deve ter sido movida por um século, e dou uma espiada lá dentro. O ar escapa com um suspiro espesso, e seu cheiro gruda no fundo de minha garganta. Não é odor de podridão, e sim de caldo de carne misturado com o aroma pegajoso de mofo seco e de camadas finas de gente em pó. É um cheiro dramático, inesquecível, com laivos de silêncio e melancolia, evocando preces incessantes ouvidas a distância, remorsos, saudade – um cheiro ao mesmo tempo repelente e familiar, algo de inédito, mas com estranho e intenso toque de déjà vu.
Nunca saberemos ao certo o que esses cadáveres significavam para as congregações que os prepararam e vestiram. Eles continuam sendo um dos mistérios da Sicília. Ficamos a sós com nossos conceitos e dúvidas ao nos confrontarmos com essas tragicômicas visões da morte.
É difícil discernir os sentimentos despertados pelos corpos imobilizados em sua jornada do nada ao nada – mistérios, medos, perdas e esperanças. As contradições da vida, eternas e universais.
A bela cidade de Novara di Sicilia tem uma catedral decorada com devoção. Diante do altar há uma porta secreta que conduz à cripta.
Ao pressionar um botão, o chão se abre, como num filme do James Bond. Descendo por um lance de degraus, topamos com uma série de nichos que contêm diversos corpos em ruínas de prelados. Sentados em assentos de pedra com furos redondos no meio – os escoadouros –, com suas fisionomias graves de múmias, eles conferem ao ambiente um jeitão de banheiro coletivo para onde todos vieram se aliviar juntos. Numa prateleira alta cheia de crânios vê-se também uma caixa contendo dois gatos mumificados naturalmente, a evocar sombras distantes do Egito Antigo. Os bichanos se viram presos na cripta, e nos mandam uma lembrança: mesmo com suas sete vidas, o fim é o mesmo para todos.

Fonte: National Geographic - http://www.natgeo.com.br/

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Simulacro e compromisso

Diferenças entre os mundos educacional e político.

José Sergio Fonseca de Carvalho

Há quase um século que o ideal de uma escola fundada em "relações pedagógicas democráticas" seduz um grande número de educadores. No Brasil, a adesão a seus princípios parece ter se tornado condição necessária - e na maior parte das vezes, suficiente - para que um educador seja identificado como "progressista"; e sua rejeição tida como sinal inequívoco de obscurantismo e autoritarismo. Essas simplificações maniqueístas podem ter contribuído muito para o teor apaixonado dos debates, mas pouco ou nada colaboram para a discussão e elucidação dos princípios que o animam.

Um dos pressupostos mais comuns à ampla diversidade de correntes pedagógicas autoidentificadas como "democráticas" é o de que a liberdade de escolha dos alunos representa, simultaneamente, uma atualização dos princípios democráticos e um modo de preparação para o exercício da cidadania (daí o recurso comum a aulas não compulsórias, a escolha de temas a partir de um suposto interesse discente etc.). Trata-se de um duplo equívoco.

Confunde a liberdade da vontade - ou de escolha - de um indivíduo com a liberdade como atributo da vida política. Esta - a liberdade política - não resulta do somatório de "espíritos livres", mas decorre da potencialidade humana de romper com os automatismos do passado e de criar, pela ação em concerto, novas configurações políticas e sociais. Sua realização exige, pois, a existência de um mundo público cujas condições, conflitos e lutas são irreprodutíveis no ambiente escolar.

A transposição de certos ritos e procedimentos cujas imagens ligamos à democracia - eleições, assembleias etc. - pode eventualmente gerar exercícios pedagógicos interessantes. Mas jamais passarão de simulações didáticas ou, na irônica expressão do professor José Mário Azanha, de um faz-de-conta pedagógico, ainda que embalado por uma retórica politizada. Há, contudo, um efeito mais deletério nessa insistência em se tentar criar no ambiente escolar um simulacro de ‘democracia’.

Trata-se do fato de que a relação ideal numa sociedade democrática é a plenitude da igualdade. Esta é, na verdade, a grande promessa da democracia. Não é o ponto de partida da existência humana, mas a sua mais nobre conquista. Mas a igualdade política implica a responsabilidade integral e compartilhada pelo mundo. A educação, ao contrário, implica o reconhecimento de que os mais novos, que acabaram de chegar ao mundo, não podem ser plenamente responsabilizados pelo seu curso.

Eles precisam familiarizar-se com esse mundo, compreender suas normas e valores, ser iniciados em suas práticas e realizações históricas, apoderar-se de uma herança pública à qual têm direito, mas cujo pleno gozo exige um processo educativo. Por isso educamos e protegemos os mais novos: inventamos escolas, concebemos um modelo de infância, acreditamos que o exercício de certas tutelas (como a proibição do consumo de álcool ou da frequência em determinados locais…) é legítimo e necessário.

Em síntese, a relação entre adultos e crianças, entre professores e alunos é fundada numa hierarquia de responsabilidade, enquanto a democracia se pauta no ideal da igualdade de responsabilidade. Qualquer forma de elisão dessas diferenças estruturantes entre esses dois âmbitos da existência social pode ser fatal - ou pelo menos degradante - para ambos: a democracia e a educação.

José Sérgio Fonseca de Carvalho é doutor em filosofia da educação pela Feusp.

Fonte: Revista Educação - http://revistaeducacao.uol.com.br 

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Estudantes que trabalham mais se dedicam menos aos estudos

Ana Carolina Athanásio

A relação entre os padrões de sono, sonolência e desempenho nos estudos foi tema de pesquisa desenvolvida na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. De acordo com o estudo, a dupla jornada – profissional e acadêmica – interfere negativamente no tempo que estudantes universitários dedicam às aulas. Além disso, as mulheres apresentaram maiores níveis de sonolência no período da manhã do que os homens.

Mulheres têm maiores níveis de sonolência quando comparadas aos homens

Mulheres têm maiores níveis de sonolência quando comparadas aos homens.

A tese de doutorado O trabalho de jovens universitários e repercussões no sono e na sonolência: trabalhar e estudar afeta diferentemente homens e mulheres?, da bióloga Roberta Nagai Manelli mostra que os universitários que trabalham durante o dia e estudam à noite apresentam redução no tempo de sono durante os dias úteis da semana e têm “rebote de sono” aos finais de semana.

Segundo a pesquisadora, 82 alunos – entre 21 e 26 anos – do período noturno da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP participaram do estudo. Durante 7 dias consecutivos, os alunos utilizaram um equipamento chamado actímetro, que é um acumulador de dados capaz de detectar os momentos de repouso (sono) e vigília ao longo das 24 horas do dia.

“Durante os dias de trabalho, os estudantes têm um ‘dia longo’, pois acordam muito cedo por causa do trabalho e dormem muito tarde devido à vida acadêmica. Com essa dupla jornada, eles apresentam expressiva redução no tempo de sono, o que pode influenciar negativamente o desempenho acadêmico, no trabalho e no tempo livre que dispõe durante a semana. Os universitários que têm jornadas de trabalho mais longas foram aqueles que mais faltaram às aulas, comprometendo o desempenho acadêmico”, explica Roberta.

Foi observado que os estudantes que trabalham dormem, em média, de 5 a 6 horas por noite. Segundo a pesquisadora, não é possível dizer se é uma média baixa, pois isso depende de cada um. “Há pessoas conhecidas como ‘grandes dormidores’, que precisam dormir mais de 8 ou 9 horas por noite e existem também os ‘pequenos dormidores’, que precisam dormir bem menos do que 8 horas”, diz.

Entre os problemas que a redução de sono normalmente causa estão o alto nível de sonolência diurna e o aumento no tempo de reação, que pode estar relacionado a acidentes de trabalho, por exemplo. A longo prazo, os problemas causados pela sonolência podem ficar mais graves e desenvolver um distúrbio de sono e episódios de micro-sonos involuntários durante o dia, em que a pessoa dorme sem perceber enquanto está realizando alguma atividade.

Padrões de sono
Algumas diferenças foram verificadas nos padrões de sono da faixa etária estudada. A principal diferença está em relação à duração de sono e sonolência entre homens e mulheres. “Como já havia sido observado na literatura, a duração do sono das mulheres foi maior que a dos homens. Tanto nos dias de trabalho quanto nos finais de semana essa diferença foi em torno de 1 hora. Alem disso, as mulheres apresentaram maior eficiência de sono. No entanto, ainda assim, as mulheres apresentaram maiores níveis de sonolência quando comparadas aos homens e maiores tempos de reação”, explica Roberta.

Nos finais de semana foi observado o chamado “rebote de sono”, no qual a duração de sono foi mais de 1,5 horas (h) maior se comparada aos dias de trabalho. Segundo a pesquisadora, “os resultados da pesquisa mostraram que menores níveis de sonolência e tempos de reação mais rápidos foram observados nos finais de semana. Possivelmente, o aumento do alerta no domingo pode ser um reflexo de 2 noites de sono em que os jovens puderam dormir o quanto desejavam. Por outro lado, não é possível afirmar que houve uma completa recuperação no fim de semana, pois neste estudo não foram incluídas questões sobre necessidade de sono ou de recuperação nos finais de semana”.

Segundo a bióloga, há várias hipóteses para explicar essas diferenças observadas entre os sexos. “Entre as hipóteses existentes podemos citar a maior necessidade de sono das mulheres, as diferenças biológicas e diferentes formas de lidar com o estresse causado pela dupla jornada trabalhar e estudar. Mas ainda são necessários outros estudos para melhor esclarecer as diferenças entre os sexos relativas ao sono”, completa.

Defendida em dezembro de 2009, a pesquisa foi orientada pela professora da Frida Marina Fischer, da FSP, e contou com o auxílio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Fonte: Agência USP de Notícias - http://www.usp.br/ 

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O que você está disposto a mudar?

Para modificar hábitos, é preciso abrir mão de confortos que prejudicam o ambiente, e negociar a distribuição dos sacrifícios;

Fernando Pachi

A sociedade está disposta a fazer sacrifícios para impedir o aquecimento global.

Você está disposto a abrir mão do seu conforto e de alguns de seus hábitos para salvar a vida e a própria Terra? Feita assim, esta pergunta parece exagerada e com resposta óbvia. “Claro que sim. Faremos o possível. Afinal, não podemos imaginar a vida fora deste mundo” seria o coro ouvido por quem se atrevesse a perguntar a uma multidão. De tão óbvia, a resposta chega a ser falsa e apressada. A verdade é que muitos ainda se perguntam se podem mesmo fazer algo para salvar o planeta, atribuindo os problemas ambientais à sociedade, aos governos ou a qualquer instância supostamente exterior a nós mesmos. Basta lembrar algumas iniciativas que compreenderemos a dificuldade de convencer a todos de participar de algum modo da operação de salvamento da Terra.
Há pouco mais de dez anos começou o rodízio de carros na cidade de São Paulo para manutenção da qualidade do ar e para conter emissões de gases que provocam o efeito estufa. No entanto, muita gente reclamou da arbitrariedade da medida e da falta de transporte coletivo adequado, duvidou da eficácia da iniciativa e até foi parar na Justiça contra o rodízio, alegando perdas econômicas, dificuldades para trabalhar etc. Passados dez anos, o rodízio foi assimilado pelo paulistano e muitos vêem benefícios na diminuição do trânsito.
Há seis anos, nos habituamos a economizar energia. O apagão elétrico demonstrou a necessidade do uso mais racional da energia elétrica. As metas de consumo, com punição monetária a quem as descumprisse, serviram para reeducar o cidadão. Porém, foi necessário adotar uma punição, que pegou o consumidor pelo bolso. O problema é como tornar essas práticas generalizadas numa sociedade como a brasileira, ao mesmo tempo carente e dispendiosa de seus recursos naturais. É uma dificuldade que ultrapassa as muitas iniciativas individuais e tem a ver com a história do Brasil e do mundo.
A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra em fins do século XVIII, expandiu-se pela Europa, Estados Unidos e também por antigas colônias, como o Brasil, que passaram a ver no industrialismo a superação de problemas econômicos e o alívio de suas tensões sociais, com mais empregos e melhores condições de vida. O mundo tornou-se um grande mercado para a circulação de produtos. Produzir em larga escala para uma população cada vez mais numerosa exigia mais energia, maior extração de recursos naturais e, conseqüentemente, geração de mais lixo.

A sociedade de massas atingiu proporções gigantescas no século XX. O capitalismo, já em fins do século XIX, se generalizou como sistema dominante. A conseqüência desse processo foi uma pressão exagerada e nunca antes mensurada sobre o meio ambiente para a manutenção da vida humana na Terra. Hoje, as sociedades pós-industriais, principalmente nos países de primeiro mundo, exigem muito mais do que a Natureza é capaz de dar. É mais grave ainda o fato de os recursos naturais não se regenerarem na mesma velocidade com que são extraídos. Daí a grande dificuldade contemporânea: como manter esse padrão de vida, baseado em modelos e sistemas reconhecidamente lesivos ao meio ambiente?
Estamos em plena “sociedade de risco”, como alertou o sociólogo alemão Ulrich Beck, cunhador desta expressão. Isso quer dizer que a sociedade industrial desenvolveu tecnologia e, proporcionalmente, processos e produtos perigosos para a vida, com conseqüências como o aquecimento global. Doenças e contaminações são alguns dos problemas que surgem cada vez que o controle escapa ao ser humano. É o que temos visto quando o assunto é desastre ambiental. De novo nos perguntamos: como cada um pode reverter esse processo?
Pegada Ecológica
É díficl dimensionar o quanto nosso modo de vida impacta o ambiente. Temos a impressão de que há muito exagero quando se fala que precisamos mudar urgentemente nossos hábitos. Para quem duvida ou necessita de uma medida para entender o drama ambiental, uma boa dica é o site Pegada Ecológica. O resultado do teste demonstra a quantidade de “Natureza” necessária para manter o estilo de vida de cada um, ou seja, o nível de impacto na sustentabilidade da Terra. Dá para ter uma idéia de como os padrões de produção e consumo atuais destroem os recursos naturais e prejudicam a capacidade de regeneração do planeta. Na década de 60, cada habitante do planeta tinha 6 hectares de terras produtivas disponíveis para atender a suas necessidades. Atualmente, esse número é de 1,1 hectare. Em 2050, chegará a 0,9 hectare, para uma população mundial de cerca de 10 bilhões de habitantes.
Dados publicados em 2006 no relatório Planeta Vivo, da organização não-governamental WWF, mostram que o índice da pegada ecológica mais que triplicou desde 1961, superando a capacidade de regeneração da Terra em aproximadamente 25% – ou seja, é necessário um ano e meio para o planeta se recuperar daquilo que é utilizado em um ano. Se o consumo e a degradação continuarem neste ritmo, em 2050 precisaremos de três planetas Terra para dar conta do nosso estilo de vida. Por isso, precisamos equilibrar o consumo e reduzir os resíduos.
Ao longo do século XX, a população mundial cresceu oito vezes e a produção industrial aumentou mais de 100 vezes. Conseqüentemente, o consumo de energia se elevou em cerca de 80 vezes. Para manter esse padrão, as indústrias teriam de aumentar sua produção de cinco a dez vezes nos próximos 50 anos.

Consumo Consciente?
Se considerarmos o consumo ainda como algo em que há relativa liberdade de escolha, podemos vislumbrar uma possibilidade de atuação para os indivíduos em prol do meio ambiente. O preço dos produtos é o que mais pesa na hora de decidir comprar algo em países como o Brasil, em que as necessidades básicas de toda a população não são atendidas. Ainda agimos de acordo com uma lógica econômica, como se o ambiente não existisse. Nem sempre preço baixo é garantia de processos produtivos que respeitem a Natureza. Tampouco o consumidor dispõe de informações consistentes para decidir comprar ou não determinada mercadoria. Ainda assim, é no ato de consumir que fazemos escolhas e podemos definir relações de cidadania, como alertou o sociólogo Nestor Canclini, que vê essa característica na contemporaneidade.
O consumo também se relaciona ao estilo de vida. Por isso, o consumismo exarcebado das sociedades industriais tornou-se alvo de crítica de ambientalistas e até de lideranças religiosas, que não vêem com bons olhos o individualismo de nossos tempos, fruto de intensa e definitiva afirmação do indivíduo desde o século XVIII. Fato é que este indivíduo todo-poderoso, que hoje tem seus direitos reconhecidos, face às instituições, tem também o dever de pensar em como salvar o planeta. Cálculos de ecologistas demonstram que, se a população do mundo consumisse tanto quanto os americanos, seriam necessários mais quatro planetas Terra para que dispuséssemos de água, energia, alimentos, produtos e serviços básicos. Assim, organizações tentam despertar a sociedade para a necessidade de um consumo consciente, como o trabalho realizado pelo Instituto Akatu, que mostra estragos que podemos causar em simples atos cotidianos. Escovar os dentes com a torneira aberta, por exemplo, pode gerar um gasto de 14 litros de água. Se 4 milhões de pessoas escovassem seus dentes com a torneira fechada, economizaríamos água suficiente para o abastecimento de uma cidade com 1 milhão de habitantes num dia. Essas instituições apostam no enorme poder transformador deste indivíduo que seria capaz de mudar seus hábitos, privilegiando produtos de empresas com processos menos prejudiciais ao meio ambiente. Falta informação, e o apelo ao consumo é enorme, muito mais do que o apelo para a preservação do planeta.

Desmatamento
Quando o assunto é aquecimento global, nos países em desenvolvimento, o desmatamento é o principal responsável pela emissão de gases que provocam efeito estufa. No Brasil, 75% das emissões de CO2 são originárias da destruição de florestas. Assim, é necessário pensar em como impedir o desmatamento, gerado, entre outros fatores, pela extração da madeira. Além de contribuir para o aquecimento global, o desmatamento representa a perda sistemática de diversas espécies vegetais e animais, e causa erosão do solo, degradação de áreas de bacias hidrográficas e profundas alterações nos ecossistemas sem que haja nenhuma garantia de preservá-los ou reproduzi-los. Em geral, ainda não há a prática de cobrar dos comerciantes e fabricantes informações sobre a origem da madeira. Isso quer dizer que há formas de manejo sustentável, ou seja, de extrair madeira da Natureza, garantir a reposição e não destruir os ecossistemas. O Forest Stewardhip Council (FSC) é uma organização não-governamental que criou um selo para identificar a madeira originária de processos de extração sustentável. Esse selo é resultado de consulta a organismos de defesa do meio ambiente, tribos indígenas e comerciantes. Os produtores certificados têm de atender a uma série de requisitos, como estabelecimento de regras de controle e impacto ambiental, conservação das florestas e regras de plantio, além de respeito aos direitos dos povos indígenas. A questão é como nos sensibilizarmos para a cobrança desses padrões, aceitos internacionalmente. No caso brasileiro, como dissemos acima, o preço ainda pesa como fator preponderante para a decisão de consumo; e móveis feitos de madeira certificada são mais caros.
Alguns pesquisadores defendem que a redução no consumo de carne é também um bom modo de preservar as florestas. A extensão das áreas para a agropecuária é uma das motivações para desmatar, processo que se acelerou nos anos 90, segundo estudo do Banco Mundial. No Brasil, essas áreas são ocupadas por plantação de soja, que acaba em parte se transformando em ração de animais. Além disso, a produção de cada quilo de carne bovina exige cerca de 20 mil litros de água. A opção são os alimentos orgânicos, inclusive carne de vaca e de frango, que seguem regras de preservação ambiental em sua produção. Este tipo de ação pode, teoricamente, estimular empresas a adotar medidas de controle da origem dos alimentos. Recentemente, indústrias européias do setor de alimentos e a rede de lanchonetes McDonald´s se comprometeram a deixar de comprar soja brasileira produzida em áreas desmatadas da floresta amazônica.
Mudanças nos hábitos alimentares como o consumo de alimentos orgânicos são um caminho interessante, mas não exclusivo. Na hora de comprar, o melhor é optar por alimentos produzidos na região e por frutas da estação, para reduzir a necessidade de transporte em longas distâncias, diminuindo o consumo de combustível.

Transporte Alternativo
Os combustíveis fósseis são apontados por ambientalistas e cientistas como os grandes vilões do aquecimento global. Muitos esforços são feitos na direção de aumentar o uso de fontes energéticas alternativas. Prova disso é o esforço brasileiro de produção de biocombustíveis. Mas ainda temos o desafio de generalizar as alternativas no plano mundial. A principal fonte de energia do planeta é originada de combustíveis fósseis, como o petróleo, o carvão e o gás natural, que determinam 75% do consumo mundial de energia. Se pensarmos numa possibilidade de atuação direta, verificamos que nosso modelo de transporte atual, baseado no uso do automóvel, que redefiniu a configuração urbana no século XX, é um grande equívoco, muito prejudicial ao ambiente. A frota mundial de carros é de cerca de 600 milhões de veículos. Em 2010, deve chegar a 900 milhões.
Só em São Paulo estão em circulação aproximadamente 5 milhões de veículos, que liberam 8 milhões de toneladas de CO2 por ano – o principal gás causador do aquecimento global, resultante da queima de gasolina e óleo diesel no transporte. No total, são emitidos anualmente na cidade 16 milhões de toneladas de CO2. Os dados são do Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Município de São Paulo, levantamento realizado por equipe especializada do Programa de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em convênio com a prefeitura de São Paulo.
Aderir ao transporte coletivo, dar e receber carona e usar bicicleta como transporte, por exemplo, são atitudes que ajudam a diminuir o número de carros na rua e a emissão de CO2. Em 52 dias, considerando-se um trajeto de 20 km, um veículo emite 440 kg de dióxido de carbono. Esta quantidade é a mesma que uma árvore adulta demora 20 anos para absorver em seu processo de fotossíntese. Para diminuir as emissões, basta deixar o carro uma vez por semana em casa. Imagine se todos adotassem esse hábito? Outra atitude como a manutenção adequada da parte mecânica dos automóveis pode ajudar a reduzir a emissão dos poluentes. Estudo da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) mostra que 10% da frota, que corresponde a carros mais antigos e sem manutenção, é responsável por 50% do total de emissões em São Paulo.
Iniciativas individuais somadas a ações públicas podem dar alguns bons resultados. Um exemplo é o governo da Califórnia, que decidiu processar seis montadoras de veículos por danos causados ao meio ambiente. Além disso, esse estado americano aprovou a redução da emissão de gases que provocam efeito estufa em 25% até o ano de 2020. A União Européia adotou como meta a redução em 20% até 2020.

Energia
Vimos que a demanda por energia não parou de crescer e deu um salto no século XX. A fonte dessa energia é basicamente derivada de combustíveis fósseis, o que já é por definição um grande problema ambiental. No Brasil, a energia elétrica provém basicamente de usinas hidrelétricas, devido à disponibilidade fluvial em nosso país. Ambientalistas apontam vantagens na geração de energia hidrelétrica por não emitir gases poluentes para sua geração. No entanto, a construção de usinas provoca alagamentos de áreas extensas, modifica o curso dos rios e promove alteração profunda nos ecossistemas. Além disso, a decomposição da vegetação submersa pode gerar gases como o metano, que tem impacto no efeito estufa. Isso sem contar o impacto provocado nas populações.
A maior parte da energia produzida é usada pelas indústrias. Economizar energia é uma ação que reduz a destruição do meio ambiente causada pelo processo de geração. Geralmente pensamos que o consumo se restringe ao uso doméstico, para fazer funcionar os eletrodomésticos que temos em casa. No entanto, todos os produtos que consumimos têm uma energia embutida, que é aquela utilizada em sua fabricação, e que custa muito para o meio ambiente. Daí ser necessário consumir com racionalidade. Por exemplo, um computador, aparelho de uso cotidiano, consome de energia em sua produção o equivalente ao que vai gastar para funcionar durante 30 anos. Só que sua média de uso é de três anos. Depois, esse produto é geralmente descartado, o que provoca o tão propalado problema da destinação do lixo, que merece um tópico à parte em qualquer discussão sobre meio ambiente. Por isso, um dos aspectos da reciclagem é propiciar economia da energia, que seria utilizada para a fabricação de novos produtos.
Como vivemos atualmente cercados por aparelhos que visam facilitar a vida, impõe-se a reflexão sobre como calcular os gastos de energia não só do ponto de vista econômico, mas de sua eficiência ambiental. Será que poderemos manter todo esse conforto a longo prazo? Queremos mantê-lo? – talvez seja a pergunta mais adequada – e a que custo?

Lógica Perversa
Cada vez mais teremos problemas ambientais, como o aquecimento global, porque não há “desenvolvimento sustentável” que consiga reverter a lógica econômica que os gera: mais produção, mais crescimento econômico e mais consumo. Seria muita fé na tecnologia e na “tolerância” do planeta acreditarmos que o tal desenvolvimento sustentável, criado no plano político para apaziguar os múltiplos interesses econômicos que rondam a questão ambiental, se realize de fato em todo o planeta.
O sistema econômico atual permite que os principais agressores do meio ambiente arquem com pouco prejuízo derivado de sua ação. Nesse ponto, a ação dos indivíduos dificilmente poderá deter o processo de degradação se ela mesma não deixar de legitimar esse sistema econômico. Uma equipe internacional de pesquisadores calculou que os muitos serviços prestados pela Natureza valem em média US$ 33 trilhões por ano, número que se refere a avaliações feitas sobre quanto custaria para fornecer todos esses serviços em projetos realizados pelo homem, por meio de tecnologia. Esse valor equivale a quase o dobro do PIB mundial. Nem economicamente vale destruir o que ainda temos, se é que temos.

A Dimensão Política
O desafio que a questão ambiental nos coloca atinge as pessoas, a sociedade, as relações econômicas e políticas. Na verdade, esses indivíduos que, em sua esfera de atuação, desejam salvar o planeta, pouco podem fazer se não participarem da arena decisória em que se movimenta a sociedade. Falamos da necessidade e urgência de uma ação política numa era em que a política, como forma de construção social, vive também sua crise, historicamente interpretável. As utopias geradas pelo projeto iluminista no século XVIII foram perseguidas nos séculos XIX e XX, o que nos permitiu acreditar numa modernidade que incluísse os direitos sociais. Esse projeto não se completou em boa parte do mundo, restringindo-se a alguns países que alcançaram desenvolvimento social e econômico no século passado. Ao mesmo tempo em que atingia seu auge nestes países, o projeto moderno entrou em descrença e decadência. De certa forma, deixou de mobilizar os indivíduos e de estabelecer os laços sociais necessários para a ação política.
Vivemos hoje um período de degradação da política e descrença em suas instituições. Quem se sente hoje representado de fato por um partido, por um sindicato ou mesmo pelas ditas organizações da sociedade civil? O consumo dos bens privados e os meios de comunicação assumem boa parte do significado de nossas vidas. Encantamo-nos pouco com as regras da democracia e com a participação coletiva no espaço público. Mas consumir também é uma arena de disputas por aquilo que se produz na sociedade. Ocorre que não se pode definir o que se produz, como se produz e como se distribuem esses bens. Esse direito se restringiu às elites, que se tornam mais cidadãs no cenário chamado de “global”.
A grande discussão é como “religar” os indivíduos à política e o Estado à sociedade, num momento em que os agentes tradicionais – sindicatos, partidos e associações de modo geral – não conseguem mobilizar nem seduzir os indivíduos a partir do “velho projeto moderno”, forjado no Século das Luzes. Causas ambientais sensibilizam. A questão é saber se são capazes de congregar. Mais do que isso, devemos descobrir em que espaços públicos esses indivíduos, cientes de seu poder no reconhecimento de sua subjetividade e particularidades, podem atuar, ou quais espaços desejam conquistar.

Fonte: Scientific American Brasil - http://www2.uol.com.br/sciam/

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A espetacularização do patrimônio cultural de São Luiz do Paraitinga-SP

Carlos Murilo Prado Santos
Maria Tereza Duarte Paes Luchiari

Situada no Alto Vale do Paraíba do Sul, entre as cidades de Taubaté e Ubatuba, a 170 km da cidade de São Paulo, capital, São Luiz do Paraitinga teve sua fundação oficial em 1769, apesar de sua área ter sido fracamente ocupada um século antes (1). Com o início da produção cafeeira em meados do século XIX, seus benefícios econômicos fizeram com que o núcleo urbano se tornasse maior, transformando-se em um importante centro urbano regional. A cafeicultura se tornou a atividade mais importante da região, um período de esplendor que durou aproximadamente até 1918 (2).

Após um período de intenso desenvolvimento sócio-econômico nos séculos XIX e início do século XX, com a economia do café, o município passou por pequenos surtos econômicos, como a extração de lenha na década de 1960 e a produção de leite nas décadas de 1970 e 1980, quando então a economia da cidade entrou em decadência, perdurando até os dias atuais (3). Com uma economia inexpressiva, caracterizada por uma pequena produção agropecuária, restou em São Luiz do Paraitinga uma grande riqueza cultural e um expressivo conjunto arquitetônico composto por aproximadamente 90 imóveis, casas térreas e sobradões dos séculos XIX e início do XX, representativos da fase áurea do café na economia paulista, tombado em 1982 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico Artístico e Turístico do Estado (CONDEPHAAT) (4).

Com as mudanças sociais advindas da evolução tecnológica e a conseqüente valorização do turismo e do entretenimento, São Luiz do Paraitinga vem trabalhando para desenvolver tais atividades apoiado na memória da cafeicultura, expressa em seu patrimônio cultural e arquitetônico. Portanto, possuindo este patrimônio remanescente da cafeicultura, entendemos que o mesmo possa ser visto e trabalhado como uma potencialidade ao desenvolvimento econômico-social da comunidade local, procurando relacionar a preservação às atividades turísticas, para daí sim, abrir possibilidades de incorporar o patrimônio como uma ferramenta de inclusão sócio-espacial e econômica a partir de sua refuncionalização (5).

Apesar do patrimônio arquitetônico ser um elemento importante na continuação da identidade local, o mesmo vem passando por transformações que evidenciam a carência de ações da comunidade e do poder público local com relação à sua preservação enquanto memória do lugar, entendendo o lugar como demarcações físicas e simbólicas do espaço “cujos usos lhes qualificam e lhes atribuem sentidos de pertencimento, orientando ações sociais e sendo por estas delimitadas reflexivamente” (6). Para o desenvolvimento das atividades do turismo, a cidade vem passando por uma série de intervenções urbanas (7) em seu centro histórico, sofrendo mudanças em suas formas-conteúdo (8), e refuncionalizando-as com vistas a atender a crescente demanda de tais atividades. De acordo com Santos (9), “(…) quando a sociedade age sobre o espaço, ela não o faz sobre os objetos como realidade física, mas como realidade social, formas-conteúdo, isto é, objetos sociais já valorizados aos quais ela (a sociedade) busca oferecer um novo valor (…)”.

Este processo que está se desenvolvendo em São Luiz do Paraitinga por meio da refuncionalização turística nos ajuda a afirmar a dinâmica das formas-conteúdo. Os lugares em processo de refuncionalização passam a ser transformados em função de suas possibilidades, ou não, de receber os impactos destas novas dinâmicas, aonde podemos apontar uma seletividade entre os lugares, seletividade essa que “tanto se dá no nível das formas, como no nível dos conteúdos (…)” (10). São Luiz do Paraitinga, por meio de suas rugosidades, tem se mostrado apto a acolher tais atividades.

Com base nesta seletividade os projetos de desenvolvimento turístico escolhem os lugares mais atrativos, desenvolvendo aí, uma territorialidadedo e para o turismo. Nesta refuncionalização turística são selecionados os melhores lugares, a partir daí tomados de assalto por investimentos externos. Como destaca Luchiari (11) ao analisar a mercantilização das paisagens naturais, mas que podemos apontar o mesmo processo para as cidades, “(…) o lugar não é visto, vivido ou compartilhado. Deles são selecionados um conjunto de pontos atrativos que constroem uma narrativa artificial do lugar. Em torno destes produtos ocorre, então, a reprodução de modelos urbanos que participam de uma refuncionalização fragmentada da cidade, e de uma valorização do solo que imprime ao território um uso seletivo”.

Assim, com a fetichização da paisagem e a sua refuncionalização para o uso turístico são criados sítios de fantasias com o intuito de substituir a realidade, iniciando um processo de disneyficação do lugar, a partir de um produto oferecido ao entretenimento e ao lazer (12).

Com a tendência a refuncionalização do espaço das cidades pautado na espetacularização do patrimônio cultural e arquitetônico, somos levados a questionar o verdadeiro intuito que sustenta este processo de intervenção urbana. Até que ponto as novas formas de organização sócio-espacial, influenciadas pelo consumo, tem auxiliado na refuncionalização destes lugares enquanto um espaço público e de exercício da cidadania? Como evitar que estas práticas culturais não sejam tratadas somente como um atrativo turístico, descoladas da realidade local? São estas reflexões a respeito das novas funções (13) atribuídas ao patrimônio cultural e arquitetônico de São Luiz do Paraitinga que orientam nossa pesquisa que aponta para um processo de refuncionalização espacial, decorrente de uma tendência da economia urbana.

Em São Luiz do Paraitinga podemos apontar tendências e ações que nos permitem afirmar esta refuncionalização turística. Muito do que vem sendo valorizado como um atrativo turístico cultural, as festas religiosas por exemplo, são atividades que fazem parte do cotidiano local, agora envolvido em uma aura que sobrevaloriza sua encenação e suas formas aparentes. Devemos destacar que esta refuncionalização, que toma a cultura como objeto, está ligada a refuncionalização territorial das cidades, pois estas intervenções urbanas estão sendo feitas no intuito de realçar as manifestações culturais locais enquanto atrativos. Em São Luiz do Paraitinga, a reforma da praça Oswaldo Cruz e do Mercado Municipal foram feitas visando a espetacularização do sitio tombado e não para os moradores, antigos usuários do dia-a-dia, tendo como objetivo transformar estes espaços da cidade em um palco ao ar.

Pelas imagens do Carnaval de 2005, realizado após a conclusão da reforma da Praça Oswaldo Cruz, podemos afirmar que as intervenções urbanas que foram feitas no local têm como objetivo principal adequá-la ao recebimento de espetáculos e turistas, já que pelas obras realizadas, esta praça foi transformada em um palco a céu aberto para a espetacularização do patrimônio cultural local. A mudança na forma do antigo Coreto com a construção de um camarim no subsolo e com um aumento no seu tamanho, agora com sua frente voltada para as escadarias da Igreja Matriz, utilizada como uma arquibancada nos possibilita fazer esta afirmação.

Famoso por suas marchinhas, o Carnaval de São Luiz tem sido uma das manifestações culturais que se enquadra perfeitamente na dinâmica do turismo, sendo uma festa que superlota os espaços da cidade. Apesar de ser uma festa relativamente nova na cidade, sendo realizada desde 1982, é tratada como um dos carnavais mais tradicionais do Brasil (14).

Mesmo com sua nova função de atrativo turístico, a cultura local vem passando por um processo de mudanças decorrentes de transformações sócio-espaciais, mas podemos afirmar que a sua base de sustentação enquanto manifestação cultural popular ainda sobrevive. As manifestações estão sofrendo uma releitura, mas dentro do possível, mantém suas características básicas. Mesmo com os problemas levantados a respeito deste patrimônio, ele ainda é o grande diferencial do município, tratando-se de um atrativo turístico local muito importante. Devido à necessidade de obter resultados a curto prazo, o poder público local vem valorizando este patrimônio pautado em intervenções urbanas pontuais, o que, a longo prazo, pode significar sua completa transformação.

O patrimônio cultural de São Luiz do Paraitinga num contexto de evolução e mudanças

Como já foi colocado anteriormente, a cafeicultura deixou no município um patrimônio cultural muito expressivo, mas após sua estagnação, também deixou a economia da cidade em decadência. Com queda acentuada na produção do campo no início da década de 1980, tivemos um processo de aglutinação das terras, antes parceladas em pequenas propriedades, processo que obrigou muitas famílias a migrarem rumo a cidade. Muitas famílias, ao venderem suas terras, passaram a ser assalariados na mesma terra, porém, morando na área urbana. Foi uma mudança aparentemente natural, mas que vem refletindo na fisionomia dos espaços da cidade já que acentuou a expansão urbana local.

O êxodo rural causado com estas mudanças no campo vem desencadeando algumas mudanças na cultura local que, por se tratar dacultura caipira (15), está se transformando no tempo e no espaço. Onde tínhamos uma série de pequenas propriedades hoje temos grandes fazendas (16) que, mesmo mantendo um bom número de postos de trabalho na zona rural, afasta essa população de suas tarefas tradicionais, base da cultura local, pois todos agora são funcionários assalariados destas fazendas.

Para o patrimônio cultural local estas fazendas podem significar uma brusca transformação, mas sem elas, um grande número de famílias estaria sem rendas. Portanto, temos uma questão complexa e contraditória que precisa de uma solução para satisfazer ambas as partes, e que seja compatível com a nova dinâmica que está por se instalar no município com a afirmação do turismo, extremamente dependente do patrimônio cultural local. Não podemos desprezar os malefícios destas grandes propriedades em termos de mudanças nas formas culturais, mas também não podemos desprezar seus benefícios, assegurando um considerável número de postos de trabalho no município.

Com sua ida à cidade, muitos destes habitantes estão sendo enquadrados na cultura urbana, mesmo que de forma precária, deixando seus hábitos e costumes tradicionais em segundo plano.  Como relata Judas Tadeu, 62, luizense, professor aposentado (17),

(…) quando eles vieram da roça para cá, eles se transferiram para a cidade junto com as suas coisas, trouxeram a cultura também, só que trouxeram a cultura e tiveram que se adaptar a uma nova realidade, a uma realidade urbana, eles estão adaptando também a cultura a uma realidade urbana, a Folia de Reis, o Moçambique, as coisas que existem aqui estão se adaptando a uma realidade urbana, é uma releitura, uma reinterpretação daquela cultura, agora no que vai dar isto, eu não sei (…)”.

Como destaca Fortuna (18), ao analisar as mudanças nas funções das manifestações culturais em Évora, Portugal, voltando-as ao entretenimento do turista, as imagens de uma cidade, expressa em suas manifestações culturais, vem sofrendo um processo de releitura, onde a tradição assume um novo código. Na cidade de São Luiz do Paraitinga temos uma peculiaridade na construção da sua imagem como um local onde prevalece o tradicional, pois apesar de ser uma construção simbólica ligada ao espaço da cidade, muito de suas formas e manifestações provém da zona rural, ligadas aos modos de vida do caipira. Temos uma construção simbólica onde as práticas cotidianas do campo condicionam as manifestações que se dão na cidade, já que na sua origem, São Luiz do Paraitinga foi uma cidade que nasceu em função da sua produção agropecuária.

É importante afirmar aqui que a refuncionalização territorial está, hoje, fortemente associada ao processo de refuncionalização da cultura que tem ganhando destaque nos lugares atrativos para o turismo. Ao partir para uma série de intervenções urbanas visando o desenvolvimento do turismo podemos afirmar que as práticas culturais específicas de cada território assumem novos conteúdos e passam a ser incorporados como bens atrativos dos lugares. O turismo acelera este processo, pois depende destas manifestações para a sua afirmação, independente da situação e do contexto.

Ao pensarmos a questão da função de um patrimônio cultural fica claro que o processo de mudança é dinâmico, seguindo as aspirações sociais de cada período histórico. Podemos afirmar que sua base de sustentação, dentro do processo histórico e social, vem sendo transformada e recriada para atender novas necessidades, induzidas por vetores externos ao lugar. Há vinte anos atrás fazer turismo em São Luiz do Paraitinga era uma atitude fora do contexto; com a valorização do pitoresco, do singular, do patrimônio vernacular, iniciado no começo da década de 1980, esta cidade começou a chamar a atenção por sua arquitetura e por sua cultura imaterial, e passou a despontar como um ponto de atração cada vez mais procurado, sobretudo por turistas alternativos e pesquisadores, na Festa do Divino Espírito Santo e durante o Carnaval, festas em que o número de turistas atinge seu ápice (19).

Este processo que está se desenvolvendo em São Luiz do Paraitinga através da refuncionalização da sua cultura popular nos ajuda afirmar a dinâmica das formas-conteúdo. Na década de 1950, de acordo com a descrição de Petrone (20), São Luiz possuía uma cultura classificada como medíocre. Para o geógrafo, “(…) São Luiz possui uma função cultural sem nenhum realce (…)”. Atualmente São Luiz é destaque devido ao seu rico patrimônio cultural conservado. Mudou-se a estrutura da sociedade, mudaram-se os valores e valorizou-se o singular, conseqüentemente, a cultura local foi destacada como atrativo turístico. Uma das grandes atrações culturais do município é o famoso Afogado, comida servida durante a Festa do Divino, que vem tendo sua confecção e seu consumo espetacularizados; o Afogado é uma comida típica da culinária caipira local. Trata-se de um cozido composto basicamente de carne bovina e farinha de mandioca acompanhado de aguardente de cana. Este prato é servido na Festa do Divino ao povo que para lá se dirige durante sua celebração. Muitos acreditam que esta comida, por ser servida durante a festa, é benta, uma comida que vem com a graça do Divino. Um prato comum no município, porém exótico e atrativo para o turista.

A cultura local hoje é vista como um dos trunfos no momento de atrair turistas, principalmente durante o Carnaval e a Festa do Divino Espírito Santo. Uma cultura que sempre foi tratada pejorativamente, com a valorização do pitoresco, do peculiar, um estilo de vida tido como inferior passou a ser exaltado e visto como um verdadeiro modus vivendi, que deve ser mantido. Agora todos devem ter orgulho de ser caipira, o que era impensável há 30 anos atrás, pois o caipira significava um retrocesso social para o Brasil, materializado na imagem estigmatizada do Jeca Tatu do romancista Monteiro Lobato.

Com a possibilidade de ser vendida e consumida pelo turista, a cultura caipira foi envolvida em uma aura de positividades e adquiriu um novo sentido perante a sociedade. O que está imperando nesta transformação, pelo que se percebe em São Luiz, é o paradigma do consumo em detrimento dos hábitos e costumes do povo local. Com isso tem início um intenso processo de mudança cultural.

A cultura é dinâmica, evolui e se transforma, mas são os novos conteúdos sociais que incorporam novos sentidos à cultura, quer material ou imaterial. Até o momento não podemos apontar muitas mudanças na suas formas de representação, mas temos sim uma mudança na sua função, agora voltada ao entretenimento do turista. O cênico não sofreu muitas alterações, porém o seu sentido ritual, mítico, vem se perdendo no tempo. Os ritos, agora, são realizados independente da ocasião; se tem turista na cidade, tem que ter Moçambique, Congada, João Paulino, enfim, tem que ter uma atividade da cultura local.

Mesmo admitindo a natureza dinâmica da cultura, é importante salientar que a refuncionalização turística contemporânea do patrimônio vem se sobrepondo aos modos de vida locais, aos calendários festivos, aos rituais, geralmente ligados a Igreja Católica e a vida no campo. O patrimônio cultural fica à mercê do tempo do entretenimento. A título de exemplo, atualmente, a Folia do Divino Espírito Santo se apresenta em qualquer dia e horário, e não somente nos atos relacionados aos dias de festa, que geralmente ocorre no mês de maio, sofrendo descaracterizações em seu ritual e em seu sentido enquanto agradecimento a Deus pelas boas colheitas. A encenação continua a mesma, mas o seu sentido vem sendo desfigurado.

Para a população local, apesar de suas apresentações e encenações ficarem cada vez mais à mercê de interesses ligados ao mercado, muito de suas tarefas tidas como atrativas para o turista ainda são desenvolvidas natural e rotineiramente. Se chegarmos no município e questionarmos qualquer habitante local sobre suas verdadeiras intenções com relação a participar de uma procissão do Divino, as respostas serão unânimes:participo porque acredito no Divino; porque este ano foi muito bom para minha roça, para meu comércio, para minha família, então venho na procissão para agradecer sua graça. Já a mesma pergunta feita a um turista (21) teve como resposta: como é bonita esta procissão; como as pessoas respeitam o santo; como a cidade mantém suas tradições, mas nada é comentado a respeito da devoção ao santo ou da fé religiosa. Para o forasteiro trata-se de uma manifestação efêmera e muito atrativa, porém, seu caráter litúrgico é irrelevante.

Antônio Candido (22), em seu celebre estudo sobre a cultura caipira, faz uma colocação interessante a respeito das mudanças nos sentidos das práticas locais em função de vetores externos ao lugar, o que nos permite fazer um paralelo e justificar o processo de refuncionalização turística que vem se dando em São Luiz amparado nas suas manifestações culturais. Segundo o antropólogo a mudança de sentido atribuído à caça pela sociedade moderna, transformando-a em esporte, nos permite fazer um paralelo com as mudanças culturais já que a caça como subsistência do caipira foi substituída pela caça como esporte. “(…) o que era básico se torna acessório, o acessório se torna básico, e vemos um meio de subsistência tornar-se atividade lúdica, dando lugar a uma constelação inteiramente renovada (…)” (23). Podemos apontar o mesmo caminho para a cultura popular local, já que sua função passou a ser nova.

O poder público local, por sua vez, contribui e acelera este processo criando uma série de eventos sazonais e pontuais no intuito de atrair mais turistas, apesar do discurso estar pautado na valorização da cultura local. Muitos destes eventos acabam não se perpetuando e rapidamente são substituídos por outros, como a tentativa de criação de uma feira de produtos agropecuários aos sábados, fora do espaço do Mercado Municipal e de seus arredores. A Roça vai a Cidade, como ficou conhecido este evento, sucumbiu, pois a população não o sustentou enquanto atividade cotidiana e a feira não se afirmou. Hoje ela não existe mais e as compras destes mesmos produtos continuam sendo feitas nos arredores do Mercado Municipal, pois o mesmo ainda se encontra fechado devido a sua reforma, já finalizada.

Estudiosos consideram que a cultura, por representar o modo de vida de um povo, não pode ser reduzida a um objeto, já que ela é a sociedade em suas atividades rotineiras; porém, quando estas atividades passam a ser o atrativo, podemos afirmar que esta fica descolada da realidade local, transformada em produto, e reduzida a um bem passível de ser vendido no mercado. Enquanto a Folia de Reis se apresenta nas festas litúrgicas, dentro de seu sentido religioso ela não deve ser vista como um objeto, mas a partir do momento em que esta mesma Folia de Reis se apresenta noViola Minha Viola da Tv Cultura, seu sentido passa a ser outro, divulgar a cidade e seus produtos. Como coloca Leite (24): “(…) essas apresentações ocorrem, obviamente, na forma alterada de espetáculo, bem diferente das demoradas festas populares que caracterizam essas manifestações (…)”. Podemos dizer que se trata de um fast-food cultural, onde em um curto período o turista consome toda uma tradição secular, agora reduzida ao instante.

A mídia, em conjunto com o poder público, exerce um papel importantíssimo nesta construção de uma imagem atrativa, amparada na memória do patrimônio de São Luiz voltada ao entretenimento. A título de exemplo, recolhemos algumas das reportagens divulgadas na mídia exaltando a cultura da cidade enquanto um atrativo turístico:

- “Em Paraitinga, carnaval a moda antiga” (Folha de Londrina,Caderno Turismo, 7 de fevereiro de 2002);

- “A cidade das mil festas” (Os Caminhos da Terra, julho/2000);

- “Interior de SP une o sagrado e o profano” (Folha de São Paulo, Turismo, 11 de maio de 1998);

- “Cidade do interior de SP promove evento para resgatar figura do Saci” (Folha de São Paulo, Cotidiano, 6 de setembro de 2003);

- “Cenas de Vida Caipira” (ValeParaibano, ValeViver!, 6 de novembro de 2004);

- “Carnaval a Moda Antiga” (ValeParaibano, ValeViver!, 3 de fevereiro de 2005);

- “Marchinha toma conta de São Luiz” (ValeParaibano,ValeViver!, 21 de janeiro de 2005);

- “Anti-samba, São Luís do Paraitinga cultiva marchinha” (Folha de São Paulo, Turismo, 27 de janeiro de 2005);

- “Cidade de SP faz festival de marchinhas” (Folha de São Paulo, Cotidiano, 6 de setembro de 2005);

- “Figuras luizenses viram bonecos gigantes” (Folha de São Paulo, 27/01/2005. Turismo, 27 de janeiro de 2005).

João Rafael Coelho Cursino dos Santos, 22, comerciante, natural de São Luiz do Paraitinga vê o interesse financeiro se sobressaindo aos sociais nesta nova forma de apropriação da cultura local. Para ele:

(…) o interesse financeiro vem sendo visado como ponto principal, esquecendo-se que assim a cultura – responsável por todo nosso turismo – possa se tornar algo cuja função é apenas de entreter. (…) como em várias cidades no mundo, esta nova visão pode permitir, se feito de forma sustentada, uma maior valorização, inclusive pela sua própria população, dos aspectos culturais e/ou históricos da cidade. (…) em São Luiz, faltam aspectos cruciais ao turismo e seus gestores ainda não conseguiram dar esta base de sustentação que o transforme não apenas em instrumento enriquecedor e, sim num  instrumento que valoriza e não deprecia sua cultura (…)”.

Judas Tadeu, 62, também questiona o papel que a mídia e o poder público vem desempenhando quanto ao patrimônio e a cultura local: “(…) a cidade está cheia de problemas em sua estrutura básica e a Prefeitura ainda fica fazendo propaganda na televisão, no ValeParaibano, isto é complicado e não é bom para a cidade (…)”, afirma o professor.

Ao conversar com um representante da Sociedade dos Observadores de Saci (SOSACI), uma ONG que trabalha com a recuperação e conservação de mitos e lendas populares e escolheu São Luiz como sede por sua riqueza cultural, este classifica a utilização da cultura como atrativo turístico, e, se feita de uma forma racional e coerente, em comum acordo com os interesses dos habitantes locais pode trazer benefícios à comunidade, caso contrário ela vai ficar perdida na memória, afirma Jô Amado, 61 anos, jornalista e comerciante, morador na cidade há 3 anos:

(…) num momento em que o modelo capitalista vigente excluiu a produção, no sentido tradicional da palavra, e, conseqüentemente, o emprego, o setor terciário, de serviços, surge como alternativa de sobrevivência. O turismo e a cultura se enquadram neste setor. Conduzida com inteligência, essa dinâmica pode proporcionar benefícios para uma população carente, o que ainda não acontece aqui (…)”.

São Luiz do Paraitinga, seguindo uma tendência global, vem buscando entrar no circuito turístico nacional, tendo como base de apoio seu patrimônio cultural. Como nas demais cidades, o poder público partiu para uma série de intervenções em seu conjunto arquitetônico tombado, negligenciando a dinâmica social cotidiana deste lugar. Foram iniciadas uma série de intervenções urbanas na cidade, em áreas que sustentavam ricas práticas de sociabilidade local, como a Praça Oswaldo Cruz e o Mercado Municipal, sem levar em conta que estas áreas terão suas funções e seus usos cotidianos alterados, podendo desencadear um resultado inverso do esperado pelo poder público, ou seja, desmantelamento de grande parte da expressão cultural local que, baseada em práticas cotidianas tradicionais – como os encontros e as conversas que se davam entre os mais velhos sob as sombras das árvores da praça, que já não existem mais –, que expressavam um modo de vida que funcionava também como um atrativo turístico do lugar (25). Sua vida simples e pacata, as rodinhas de contadores de causos, o pouco movimento de automóveis e transeuntes, são tão atrativos ao turista dos grandes centros urbanos quanto uma procissão religiosa, mas são tradições locais negligenciadas pelo poder público local.

Ao impor uma nova função ao patrimônio cultural, o poder público pode acelerar a descaracterização da cultura, desvirtuando-a em função de resultados econômicos de curto prazo. No longo prazo, com problemas sócio-ambientais que podem ocorrer pela ausência de planejamento, a cidade pode cair no esquecimento novamente, fato que já ocorreu com a decadência da cafeicultura.

Para que a preservação e a utilização do patrimônio cultural se torne eficaz e tenha um sentido mais amplo para a população local, é preciso integrá-la na dinâmica das cidades. Os projetos de preservação devem manter as características da cidade, suas informações e seus significados, mesmo estando abertos às transformações decorrentes da evolução sócio-espacial. As intervenções e a refuncionalização do patrimônio cultural (material e imaterial) devem ser realizadas valorizando o cotidiano e as características que lhe atribuem uma peculiaridade interessante do ponto de vista da atração turística e também da população local.

Devido a este processo, a comunidade local passa a se sentir deslocada diante de um novo cotidiano: sentem a falta do vínculo com o território criado para o turismo já que estas novas territorialidades passam a ter características sazonais. A construção do objeto turístico se dá pelo simbólico, se dá na satisfação de determinadas fantasias criadas pela sociedade e pelas próprias empresas turísticas. Busca-se sempre a novidade, o desconhecido: “(…) trata-se, pois, em converter os sonhos em ações e toda habilidade turística consiste, então, a levar a clientela em direção a estes lugares selecionados, aos lugares-imagens” (26).

Ao tomar o patrimônio cultural como um vetor de desenvolvimento econômico-social por meio da sua utilização como suporte atrativo, temos que objetivar diminuir as desigualdades sociais, trabalhando-o como uma ferramenta de promoção de equidade social. A utilização do patrimônio precisa ser revertida em benefício da comunidade que vive este patrimônio, o que geralmente não ocorre, pois ao entrar no jogo do mercado sobre-valorizados com o rótulo de patrimônio, os especuladores e investidores acabam tomando de assalto estas áreas com o objetivo de obter cada vez mais lucros, expulsando os antigos usuários. Ele não pode ser utilizado como mais um vetor de exclusão sócio-espacial, mas sim como um vetor de inclusão na medida que poderá propiciar melhorias econômicas à comunidade em que este se encontra.

Em São Luiz do Paraitinga o patrimônio local é muito relevante para a formação cultural do habitante, servindo de fonte de conhecimento e de inspiração no desenvolvimento de suas tarefas cotidianas, principalmente as relacionadas à criação cultural. A cultura local é muito ligada ao patrimônio arquitetônico, como podemos perceber pelas declarações de alguns artistas locais, sendo sempre cantado, desenhado, pintado, esculpido e materializado nas mais diversas formas de manifestações culturais que lá se desenvolvem.

Em um trecho extraído da poesia “Gregos e Parahytinganos”, contida no ensaio Parahytinga SLD de autoria de Marco Rio Branco, compositor e escritor luizense, percebemos a preocupação com a preservação da arquitetura local e também a influência destas obras na formação cultural da comunidade local.

(…) Nunca faz que vai, mas não vai. Vai mesmo. Para nunca mais. Eu te quero tudo e o mais. Poesias arquitetônicas de uma nau cidade. Uma nave cidade? (…)”.

Por meio desta quadra escrita por Seu Toninho do Bar (In Memorian), folclorista local, podemos enxergar a influência da arquitetura nas atividades culturais, exaltando os materiais (o barro), a metodologia construtiva (barreado), as benesses da formação natural (quaricanga) e a devoção com a igreja. O material e o imaterial são exaltados, de forma inconsciente, pois fazem parte do cotidiano local.

Tamém fizemo uma capela
De pau fincado no chão
Cobriro com quaricanga
Pranta da região
Barriaro as parede
Não dexaram nem um vão (…)
“.
(Trecho extraído de uma poesia sem título composta por Antonio Nicolau Toledo (in memórian))

Ao ser questionado sobre a relação da cultura e a arquitetura em São Luiz, Rio Branco, 53 anos, enfatiza essa relação como primordial. Para ele: “Uma coisa está muito atrelada à outra, é impossível um viver sem o outro, um ajuda a preservar o outro. O dado cultural é muito forte, é o canto da rua, é o que explode e o que implode das paredes do casarão”.

Ponto de vista também ressaltado por Paulo Baroni, 45 anos, musico e compositor luizense: “(…) são duas coisas que andam juntas. O cenário tem tudo a ver com a inspiração cultural. As pessoas que lidam com a cultura se inspiram no casarão. Então devemos manter esse casarão para mantermos a inspiração da cultura local (…)”, afirma Paulo.

Maria Campos da Silva Velho, Dona Cidoca como é carinhosamente conhecida na cidade, também deixa sinais que nos permitem apontar a influência da arquitetura na sua produção literária, relembrando e exaltando as qualidades de uma praça que não é mais a mesma, mas continuou presente em sua memória. A autora já coloca a praça em seus sonhos, meio que prevendo a sua transformação pelas mudanças que já vinham ocorrendo na cidade em meados da década de 1980.

Jardim da minha cidade,
De encontros termos, tristonhos…
És o abrigo da saudade
Na passagem do meu sonho (…)
” (27)

Assim, visando o fortalecimento da prática da cidadania, a sociedade deve ter a liberdade e o esclarecimento para decidir, e normalmente decide instintivamente, o que vai ser preservado. Devido a pouca liberdade de decisão e de esclarecimento quanto ao seu papel na sociedade, raramente as histórias populares são preservadas oficialmente, sendo preservado somente o que tem interesse e significado político para as classes de poder econômico dominante. É importante que os projetos de preservação sejam apoiados nas vivências das pessoas, pois, caso contrário, a estratégia de preservação perde seu sentido social. Não adianta tentar preservar o que é delimitado pelo Estado ou pelos intelectuais e técnicos, enfim, pelas instâncias de poder, mas sim preservar o que realmente tem sentido enquanto memória do e para o lugar (28).

Ao pensarmos em qualquer projeto de preservação, temos que pensar nos fins sociais deste processo, pois uma forma-conteúdo sacralizada como patrimônio, não deve perder o sentido para a população que nela vive, ou, a partir dela, se reconhece. O patrimônio cultural e arquitetônico pode ser trabalhado como um ponto de partida para novas ações culturais do presente, se tratando de uma ponte para relacionar funcionalmente, elementos culturais do passado e elementos culturais do presente para daí sim partir para políticas efetivas visando a afirmação do turismo como vetor de desenvolvimento local.

São Luiz do Paraitinga possui poucas possibilidades para seu desenvolvimento sócio-econômico e o turismo pode ser um excelente vetor de inclusão e, ao mesmo tempo, de valorização da cultura local, porém, pelos rumos que estão sendo adotados, podemos apontar que a cidade caminha no mesmo sentido de outras cidades que tentaram implantar o turismo. Ao executar uma série de ações que descaracterizam seu patrimônio, o município passa a oferecer as mesmas atividades que encontramos em todas as cidades que vivem do turismo, com shows e espetáculos que pouco fazem sentido para a população local. Caso o município siga esta tendência podemos afirmar que o turismo trará poucos benefícios para a sua população e, ao mesmo tempo, irá acelerar a descaracterização de seu patrimônio cultural material e imaterial.

Notas

1
O município de São Luiz do Paraitinga fica localizado no Alto Vale do Paraíba do Sul, distando cerca de 170 Km da capital do Estado, a cidade de São Paulo. Possuindo uma área de aproximadamente 737 Km2 o mesmo apresenta um clima tropical de altitude e uma topografia montanhosa. O município, localizado à altitude média de 749 m, faz divisa com os municípios de Taubaté, Ubatuba, Redenção da Serra, Natividade da Serra, Lagoinha e Cunha. A cidade está sobre um trecho do médio vale do Paraitinga, no planalto cristalino do reverso da Serra do Mar. O município possui como principal acesso a Rodovia Estadual Dr. Oswaldo Cruz, SP-125, que liga a cidade de Taubaté à Ubatuba.

2
PETRONE, Pasquale. “A região de São Luiz do Paraitinga”. In: Revista Brasileira de Geografia. v. 1, n. 3, 1959, p.82.

3
DEAN. Warren. A ferro e fogo. A história da devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo, Cia das letras, 1997, p.290.

4
O processo de tombamento foi iniciado em 1969 e concluído com a Resolução 55 de 13 de maio de 1982, inscrevendo a cidade no Livro do Tombo do Estado de São Paulo. GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. São Luiz do Paraitinga: revitalização do Centro Histórico. São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura, 1982.

5
Adotaremos o termo refuncionalização por considerá-lo mais adequado para uma abordagem geográfica, porém, é comum, em trabalhos relacionados a patrimônios, utilizar-se os termos revitalização, renovação, requalificação, restauração, enobrecimento, gentrification, entre outros. Mesmo com seus diferentes usos, estes termos são geralmente utilizados considerando as interferências materiais.

6
LEITE, Rogério Proença. Contra-Usos da cidade. Lugares e espaço público na experiência urbana contemporânea. Campinas/SP: Editora da Unicamp; Aracajú/SE, Editora UFS, 2004.

7
Em abril de 2001 a cidade foi classificada como Estância Turística do Estado de São Paulo, passando a receber uma verba anual oriunda do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias (DADE), órgão ligado a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Assim, deu-se início a um intenso processo de requalificação dos equipamentos urbanos do município, principalmente os existentes no centro histórico. Com os recursos obtidos a cidade foi transformada em um canteiro de obras; foram realizadas, a reforma da Praça Oswaldo Cruz (projeto aprovado pelo Condephaat – Processo nº 43.352/02 – em 18 de agosto de 2003. Verba de R$ 349.664,05), a restauração do Mercado Municipal (projeto aprovado pelo Condephaat – Processo nº 44.395/02 – em 15 de setembro de 2003. Verba de R$ 330.000,00) e a reforma do calçamento das ruas do entorno da praça.

8
SANTOS, Milton. A natureza do espaço. Técnica, Tempo, Razão e Emoção. São Paulo, EDUSP, 2002.

9
SANTOS, Milton. Op. Cit., p.109.

10
SANTOS, Milton. Op. Cit., p. 125.

11
LUCHIARI, Maria Tereza Duarte Paes. “A Mercantilização das Paisagens Naturais”. In: BRUNHS, Heloisa Turini; GUTIERREZ, Gustavo Luis (orgs). Enfoques Contemporâneos do Lúdico: III Ciclo de Debates Lazer e Motricidade. Campinas-SP, Autores Associados, Comissão de Pós Graduação da Faculdade de Educação Física da Unicamp, 2002, p. 40.

12
ZUKIN, Sharon. “Paisagens pós-modernas urbanas: mapeando cultura e poder”. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 24. Brasília, IPHAN, 1996, p. 218.

13
Aqui cabe uma colocação a respeito da diferença existente entre a função e o uso que podem ser dados ao patrimônio arquitetônico. Em São Luiz podemos afirmar que atualmente a função do patrimônio arquitetônico é de cenário, atração, porém seus usos continuam sendo os mesmos, de moradia e misto, caracterizado por casas no andar superior e comércio no piso inferior. Para o patrimônio imaterial podemos apontar as mesmas diferenças, aonde, o que era uma atividade cotidiana religiosa, como a Festa do Divino e seus rituais, tornou-se um espetáculo. Para a população local os usos destas celebrações continuam sendo os mesmos, a devoção ao santo e o exercício da fé, porém, para o turista é um atrativo pitoresco e peculiar.

14
O Carnaval luizense, conhecido como o Carnaval do Rabo e Chifre, é famoso por suas marchinhas carnavalescas e por ser um legítimo carnaval de rua. Suas fontes de inspiração são as lendas e mitos da cultura luizense, resgatando a imagem de personagens e histórias marcantes na cidade. Outro ponto que atrai no carnaval local são os famosos bonecões gigantes que circulam com os blocos pelas ruas do Centro Histórico, ironizando personagens e eventos marcantes da cidade. Entre os blocos de destaque podemos citar o Juca Teles dos Sertões das Cotias, o Bloco do Lençol, o Pé na Cova, o Pique das Traias, o do Caipira, o Espanta Vaca, o da Maricota, dentre outros.

15
O estilo de vida caipira é utilizado de acordo com as definições de Candido: “Cultura ligada a formas de sociabilidade e de subsistência que se apoiavam, por assim dizer, em soluções mínimas, apenas suficientes para manter a vida dos indivíduos e a coesão dos bairros”. Segundo o mesmo autor, “(…) a cultura do caipira, como a do primitivo, não foi feita para o progresso: a sua mudança é o seu fim, porque está baseada em tipos tão precários de ajustamento econômico e social, que a alteração destes provoca a derrocada das formas de cultura por eles condicionadas”. CANDIDO, Antonio. Os parceiros do rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação de seus meios de vida. São Paulo, Duas Cidades/Editora 34, 10ª ed., 2003, p. 103 e 107.

16
Em meados dos anos de 1980 a Simão Papel e Celulose começou a comprar terras no município visando a produção de eucalipto para a fabricação de papel e celulose. Com a boa ambientação desta cultura estas fazendas só tem aumentado em número e em área em São Luiz do Paraitinga. Atualmente a Simão Papel e Celulose foi incorporada pelo Grupo Votorantin.

17
Todas as entrevistas aqui apresentadas foram todas realizadas durante os meses de outubro e novembro de 2004.

18
FORTUNA, Carlos. ”Destradicionalização e imagem da cidade. O caso de Évora”. In: FORTUNA, C. (org.). Cidade, Cultura e Globalização. Oeiras, Celta Editora, 1997, p. 235.

19
Enquanto a população de São Luiz do Paraitinga é de 10.429 habitantes (IBGE – 2001), no Carnaval de 2005, a sua população atingiu o número de aproximadamente 10.000 visitantes por dia, segundo estimativas da Prefeitura Municipal de São Luiz do Paraitinga.

20
PETRONE, Pasquale. Op. Cit., p. 88.

21
As posições dos turistas a respeito das manifestações culturais da cidade foram conseguidas através de conversas abertas entre o pesquisador e os turistas durante as festividades de Natal e de virada do ano de 2004 para 2005. Mesmo não se tratando de um período de festas tradicionais na cidade, a mesma recebeu um bom número de visitantes.

22
CANDIDO, Antonio. Op. Cit.

23
Idem, p. 38.

24
LEITE, Rogério Proença. Op. Cit.

25
É uma tradição muito antiga na cidade, aos sábados, domingos e dias de festa nos finais de tardes, os habitantes do município se dirigirem à praça Oswaldo Cruz para dar voltas andando no seu quadrilátero externo, conversando e encontrando com amigos e conhecidos. É interessante que, visando facilitar encontros entre casais, os homens andavam no sentido horário e as mulheres no sentido anti-horário. Com a extinção deste quadrilátero maior as voltas poderão perder sentido e ser esquecidas.

26
ALMEIDA, Maria Geralda de. “Cultura – Invenção e Construção do objeto turístico”. In:Espaço Aberto. Fortaleza, AGB – Seção Fortaleza, 1998, p.23.

27
Trecho extraído de AZEVEDO, Paulo de Campos. Paraitinga no meu tempo. São Paulo, Gráfica Sangirard Ltda, 1986, p.150.

28
ARANTES, A. A. Produzindo o Passado. Estratégias de construção do patrimônio cultural. São Paulo, Brasiliensis, 1984.

Bibliografia complementar

AGUIAR, M. São Luiz do Paraitinga usos e costumes. Revista do Arquivo: Departamento de Cultura, São Paulo, vol. 71, 1949.

LUCHIARI, Maria Tereza Duarte Paes. “A reinvenção do patrimônio arquitetônico no consumo das cidades” (pp. 95-106). In: GEOUSP – Espaço e Tempo, Revista do Departamento de Geografia/USP, N. 17, 2005.

SAIA, Luis. & TRINDADE, Jaelson Bitran. São Luiz do Paraitinga. São Paulo, CONDEPHAAT, nº 2, 1977.

PRADO SANTOS, Carlos Murilo. (2006) “O reencantamento das cidades: tempo e espaço na memória do patrimônio cultural de São Luiz do Paraitinga/SP”. Dissertação (Mestrado em Geografia – Instituto de Geociências – Unicamp) Universidade Estadual de Campinas, Campinas-SP.

Carlos Murilo Prado Santos é Geógrafo, mestre em Geografia pelo Departamento de Geografia, Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Maria Tereza Duarte Paes Luchiari é Geógrafa, Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, professora doutora do Departamento de Geografia, Instituto de Geociências (Dgeo/IG), da Universidade Estadual de Campinas/Unicamp.

Fonte: Vituvius - http://www.vitruvius.com.br

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