Arquivo de Fevereiro de 2010

Desconfiança mútua

Pais com menor grau de instrução tendem a não dialogar com a escola por vergonha ou desconfiança; criança permanece esquecida

Andréa Beltrão e Matheus de Sá em Verônica, de Maurício Farias: a realidade de estudantes que vivem em zonas conflagradas retratada pelo cinema

Um aluno que era tido como problemático em uma escola estadual é colocado para fora da sala de aula em razão da falta de uniforme. A ordem da diretora foi enfática: "enquanto o seu pai não vier falar comigo, você não pode retornar às aulas". O pai tentou marcar um horário diversas vezes, mas nunca era possível. Aos poucos, foi se sentindo culpado. Só percebeu que não estava tão errado assim quando conversou com outros pais em um grupo de entrevistas promovido pela então aluna de doutorado da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto Daniela de Figueiredo Ribeiro.

"Uma das mães disse a ele que tudo que acontecia na escola era culpa do filho dele, por ele ser considerado problemático. Por isso, deve ter sido mais complicado", lembra Daniela. Para ela, o relato resume os moldes da relação entre escola e família quando o assunto é a escola pública. "Muitas vezes, eles nem sabem como lutar pelos direitos, se estão certos ou errados. Ficam muito envergonhados diante da escola quando o filho é visto como problema", diz.

Há um certo estranhamento quando os pais vão à escola pública. Em muitos casos, em função da pouca instrução, não estão habituados com o universo escolar. Acabam conhecendo apenas seu lado ruim, já que são convocados geralmente por problemas disciplinares de seus filhos. Maria Cláudia Vieira Fernandes, diretora da Emef Armando Cridey Righetti, em São Paulo, conta que pouquíssimos pais procuram sua escola - quando o fazem, é em razão da disciplina. "Temos famílias sustentadas pela mãe, que fica fora o dia todo. É difícil que apareçam", diz. Mas ela enxerga outro fator para o distanciamento: a percepção que se tem da escola. Em outras palavras, Maria Cláudia acha que os pais não respeitam a instituição escolar e atribuem todos os problemas da inadequação do filho à escola, e não à família. "Há uma campanha forte na mídia contra educação. Quando aparece algo, é ruim. Isso não ajuda a criar um sentimento de colaboração", acredita.

De um universo de 1.800 alunos, há seis pais que fazem parte do conselho escolar e seis pais que se revezam para acompanhar as crianças durante o recreio. Um dos pais é Manoel Soares de Freitas, comerciante cujo filho está na 7ª série. Ele confirma que não costumava frequentar a escola porque não sabia de sua importância. "Vi as dificuldades que eles têm e deu vontade de ajudar. Agora tenho conversado mais com o meu filho. Digo a ele que, se não estudar, o futuro vai ser difícil", conta. A frase endossa a opinião da professora Maria Alice Nogueira, coordenadora do Observatório Sociológico Família-Escola da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG): esses pais relacionam a importância da escola com a possibilidade de um futuro melhor - o problema é que não encontram os meios culturais e econômicos de ajudar como gostariam. "As pesquisas já nos mostraram que omisso ele não é. O que a escola espera dos pais em geral é a participação de um pai de classe média com capital cultural. Que conhece o funcionamento, o filho, as regras, que se informa", aponta Maria Alice.

Eduardo Garcia Amaral, professor de filosofia na EE Zuleika de Barros, concorda com a visão. Para ele, ao convocar os pais apenas por problemas de disciplina, a escola atesta não haver competência por parte deles para educar os filhos. "Há um discurso de poder aí: nós somos responsáveis pela educação do seu filho porque fomos formados para trabalhar com isso. Você não", afirma. Ele acha que os problemas disciplinares deveriam ficar restritos ao ambiente escolar - caberia à escola repensar suas regras, para que os alunos começassem a respeitá-las. "Você tem professor que assume cada vez mais uma postura paterna por conta da ausência de regras", diz.

Função social
Em outra entrevista, Daniela escutou a história de uma criança do primeiro ciclo do ensino fundamental que começou a morder os colegas e a assumir uma postura agressiva. A diretora chamou a mãe, que tinha acabado de se tornar viúva, e avisou: "dê um jeito no seu filho ou eu vou dar um jeito nele". Ela ficou sem saber o que fazer. O relato levou a estudante de psicologia a se questionar de quem é esse papel. "Na medida em que trabalha com a camada popular, a escola deveria saber como ela é. Não resolve dizer: dá um jeito. A escola pública não tem se preocupado em servir essa população. Pelo contrário, parece que faz um favor de dar escola gratuita a essa população", pondera.

É nesse sentido que a psicóloga Ana Cristina Nassif defende uma parceria entre escola e família. Para ela, a escola pública deveria deixar de lado essa postura que desqualifica o conhecimento do pai sobre o cotidiano daquela criança. "Somos tão especialistas assim que os pais não podem entrar na discussão? É possível haver uma troca de saberes", diz. Para ela, quando uma diretora diz "eu sei o que é bom para o seu filho", ela sabe em termos. Da mesma maneira que os pais sabem em termos. "São saberes diferentes que podem ser trocados para construirmos terceiros saberes", pontua.

Outra sugestão de Ana Cristina é que a escola adapte sua linguagem quando for conversar com o pai. Já que não há conhecimento sobre as questões pedagógicas, os diretores poderiam tentar uma "tradução" dos conhecimentos que precisam ser passados aos pais. "Não quero sobrecarregar a escola, mas é uma questão de adaptação de linguagem. Dá para fazer", diz. Na maior parte dos discursos dos especialistas ouvidos pela reportagem, houve o cuidado de não colocar a culpa na escola ou na família pelos problemas de seu relacionamento. "A verdade é que estamos perdidos. Há uma questão social muito mais ampla na qual a escola está inserida. A cultura escolar precisa ser repensada na maneira de entender os problemas e suas soluções", defende Daniela. Logo depois que terminou sua tese de doutorado, ela ficou sabendo que o aluno problemático do início do texto havia falecido com um tiro na cabeça. "Ele foi sendo rechaçado pela escola e foi para a rua. A escola deveria ter um papel preventivo em termos de problemas sociais e violência e precisa ser acolhedora. Caso contrário, a situação se retroalimenta e quem perde é a criança", finaliza.

Revista Educação

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Paradoxo da burrice

A burrice é do outro: o habitual é que ninguém imagina ser seu portador  

Márcia Tiburi

Ao ser escrita, a palavra burrice soa mal. Por isso, um artigo como este precisa ser justificado. Para começar garantindo a validade epistemológica da palavra, proponho sua definição para além do jargão e do xingamento que a reduzem a um mero mal intelectual. O habitual é que quem a pronuncia acredite sempre falar da alheia. A burrice é do outro. Nem isso nem o contrário é o que espero escrever aqui. Antes é preciso falar da burrice tout court, a burrice nossa de cada dia. Talvez fosse bom escrever sua história, afinal conhecê-la é avaliar o "ser humano".

Já que ninguém se imagina o portador da burrice, nem a autora nem os leitores, devemos primeiro tomá-la como objeto, devemos verificar se o uso da expressão é adequado ou se antes deveríamos considerar algo como a "experiência da burrice" como aquilo a que devemos prestar atenção. Digamos que prestando atenção já estamos na contramão da burrice. Digamos também que toda análise deve se abrir ao objeto e deixar-se influenciar por ele. Mas, nesse caso, quem, falando da burrice, quereria aprender algo com seu objeto, deixar-se tanger, e não escapar dele?

Gostaria de promover uma análise, portanto, dessa coisa que, na verdade, nos assusta, motivo pelo qual evitamos pensar nela. Por isso começamos por não perceber que a natureza dupla da palavra burrice nos prende a um paradoxo do qual devemos tentar escapar. A estrutura do paradoxo é a seguinte: já que não queremos pensar nela, não pensamos; ao não pensar, acabamos por realizá-la. Mas o paradoxo não cessa aí. Ele se renova quando, pelo xingamento, chamamos os outros de burros. Ou de idiotas e/ou imbecis, o que dá no mesmo. Quem designamos como burro é sempre um outro; mesmo quando dizemos a nós mesmos "que burrice eu fiz", "que burro que eu sou", é como se nos referíssemos a algo estranho em nós, um acidente, um excesso, algo que não faz parte do que somos.

Embora muitos pratiquem o xingamento gratuitamente, digamos que essa não seja uma atitude sábia em si mesma. Chamar o outro de burro/idiota/imbecil parece o gozo discursivo de quem não usa a capacidade para entender o que o outro carrega em palavras e atos que fazem com que o chamemos de burro/idiota/imbecil. Com exceção da primeira, as demais já foram palavras técnicas da psiquiatria. Mas, se não desconfiamos da burrice que imputamos aos outros, creio que o paradoxo está novamente realizado. Chamar o outro de burro apenas porque ele fala ou age diferente é atitude burra porque não surge de um pensamento.

Não quero dizer com isso que os "burros não existem" ou que são sempre uma heterodeterminação. Nem quero jogar fora o prazer da declaração sobre a burrice alheia, embora não seja nada nobre. Mas é preciso entender o uso da palavra relativamente a algo que, julgando pertencer ao outro, retorna para mim pelo seu mero uso. Chamar o outro de burro demonstra apenas que não pensei nele e, se não pensei, sou burro antes de parecer inteligente pela rapidez com que o heterodetermino. Estamos diante da falta de autocrítica. De toda a burrice possível, esta seria a mais elementar. A burrice primordial.

Melhor calar, pois a burrice não é de hoje
Um pensador como Kant, cujo senso de humor poucos percebem, escreveu em seu Ensaio sobre as Doenças Mentais que a burrice é uma doença. Ao burro, diferente do ingênuo ou do louco, falta entendimento. Aquela capacidade de pensamento que nos permite conversar com os outros e entender o que dizem e até mesmo o que lhes dizemos. Quantos falam sem pensar? Nietzsche, por sua vez, falou da estupidez de um jeito mais simples: uso de viseiras, ou "estreitamento da perspectiva". Mas somente com Bouvard e Pecuchét, de Flaubert (publicado no Brasil pela editora Estação Liberdade), é que a crítica à burrice atinge seu ápice ao tocar no caso sempre notável da burrice dos inteligentes e da inteligência dos burros. Ou dos que, querendo ser inteligentes, são sempre os mais abestalhados. O erro dos dois amigos trapalhões criados por Flaubert era a crença de que a informação e a experimentação seriam suficientes para o sucesso da ciência. Ao final de Bouverd e Pécuchet, o famoso Dicionário das Ideias Prontas, um fichário de preconceitos de pensamento, é a prova linguística e histórica da acomodação mental que se expressa em palavras e da incapacidade de compreender que está em sua base.

Também Robert Musil, em uma conferência de 1937, percebeu que a burrice muitas vezes se confunde com aquilo que os antigos chamavam de "espírito". Espírito, a propósito, é aquilo que hoje em dia ainda aparece na "sacada" ou no "tá ligado?" dos mais jovens. Quando alguém pergunta "tá ligado?", pesquisa a inteligência do outro. Musil referia-se a uma estupidez estética e afetiva que fazia com que povos fossem incapazes de amar a arte, por exemplo. Mas essa estupidez não oferecia nenhuma certeza, pois se tratava de uma questão de gosto. E o que poderíamos fazer com algo como gosto? Musil mostra que a burrice é um pântano onde chafurdam os que se metem a falar nela.

Mesmo mantendo a dúvida que salva qualquer um da estupidez, Musil sugeriu em seu texto que aquele que deseja falar da burrice comece sustentando a própria inteligência contra tudo e contra todos, em vez de atuar no politicamente correto, humildemente dizendo que é um burro falando de bestas. Pois para ele pode ser estúpido parecer inteligente, mas nem sempre é inteligente passar por estúpido. O medo de parecer estúpido também fará com que alguns se sintam inteligentes evitando dizê-lo. Pior ainda se seu desejo de parecer burro for associado à vaidade: o estúpido é sempre vaidoso porque não tem inteligência para ocultar.

A burrice como categoria moral
Na história a burrice aparece como uma categoria do pensamento marcada justamente pela ausência de raciocínio. Theodor Adorno percebeu que ela é uma categoria moral. Adorno compara a burrice a uma paralisia. Se o corpo é paralisado por um ferimento físico, o espírito o é pelo medo. A burrice, diz ele, é uma cicatriz que surge de uma inibição e que se transforma em repetição. É uma deformação relativa à capacidade de pensar, de criar - quem repete pode nunca inventar nada -, mas também de agir daquele que teve experiências tão negativas a ponto de se tornar burro. Não é burro apenas quem pensa errado, mas quem pensa com inibição. Quem age de modo inibitório também. O medo seria o seu moto inevitável.

A ideia de que a burrice é uma categoria moral parece estar em vigência no Brasil de modo explícito. A ausência de debate, de espírito crítico, o culto da ignorância ou a política do xingamento, a aceitação de qualquer ideia como "politicamente correta" ou "incorreta" - para muitos o correto hoje é ser incorreto, mas raramente alguém se pergunta sobre isso -, sem a verificação da pertinência de cada ideia em si mesma e em sua conexão com o que está ao redor, são traços visíveis da cultura no cotidiano e nos meios de comunicação. Bem como no debate acadêmico de cunho fundamentalista, aquele que se aferra a ideias prontas ou simplesmente crê na exegese dos textos ou na mera aplicação dos métodos, como encontro da verdade.

Nesse sentido, seria bom rever a história do conhecimento em relação às ideias prontas que também são falhas, mas seria melhor ainda começar por refazer a história pensando em como não repeti-la.

Revista CULT

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O mistério do Vale Sagrado dos Incas

Conheceremos um dia o segredo que os antigos andinos possuíam para moldar as pedras de seus templos?

Texto e fotos: Haroldo Castro

O rio Vilcanota no Vale Sagrado dos Incas, pouco antes de sua passagem por Ollantaytambo.

O Vale Sagrado dos Incas foi criado pelas correntezas do rio Vilcanota, também chamado de Wilcamayu, ou rio Osagrado. Posicionado no sentido lesteoeste, ele recebe sol durante o dia e é protegido do frio e do vento. Por isso, é um dos mais férteis da região de Cuzco. Seu clima é o que o vale tem de mais sagrado. No século 16, as primeiras espanholas grávidas saíam de Cuzco para dar à luz ali, onde os bebês tinham mais chances de sobrevivência.

O vale do Vilcanota está a algumas dezenas de quilômetros da antiga capital incaica. Para chegar até lá, é preciso atravessar um pequeno planalto. Nessa região se cultiva muita batata, planta nativa dos Andes. No inverno, alguns lavradores ainda fazem suas últimas tarefas no campo, antes de deixar a terra descansar. No povoado de Chinchero, é interessante não só admirar as muralhas incas, mas também observar uma camponesa espalhando, na grama do sítio arqueológico, as batatas recém-colhidas. Em uma semana, o sol forte do dia e a noite gelada transformarão o tubérculo em chuño, a batata desidratada. É o modo mais prático para guardar alimento. “O chuño dura pelo menos um ano. E, para cozinhar, basta adicionar água”, diz a moradora Rosa Quispe.

A descida de Chinchero até o povoado de Urubamba segue uma série de curvas sinuosas. O Vilcanota, que nessa época do ano possui uma coloração esverdeada, está mais próximo a cada virada que damos. Atravessamos a ponte e continuamos seguindo o rio, em direção a Ollantaytambo.

Situada em uma das extremidades do Vale Sagrado, Ollantaytambo é uma das mais belas fortalezas incas. O lugar testemunhou uma vitória histórica da resistência incaica sobre os conquistadores, logo depois da tomada de Cuzco. Quando, em 1536, Francisco Pizarro e seu exército se aproximavam do povoado, Manco Inca mandou desviar o leito do rio. A estratégia dificultou o avanço das tropas inimigas, principalmente da cavalaria. Após uma batalha sangrenta, os incas derrotaram os espanhóis. Mais tarde, a reação foi implacável e os espanhóis dominaram Ollantaytambo. Manco Inca desapareceu no meio da selva e refugiouse em Vilcabamba.

Faustino Espinoza, fundador da Academia do Idioma Quéchua. Grande conhecedor da cultura indígena, ele dizia que “os incas cortavam a pedra como se fosse barro mole, como se fosse manteiga”.

Uma lenda diz que Ollantaytambo deve seu nome a uma história de amor. Apaixonado pela filha do imperador inca Pachacutec, o chefe Ollanta decidiu raptá-la. Para resgatar sua filha, Pachacutec atacou a cidade e deu início a um conflito que durou dez anos. Mas o amor se mostrou o verdadeiro vencedor. Após a morte de Pachacutec, seu filho, o novo imperador, concedeu a mão de sua irmã Cusi a Ollanta, que passou a ser um oficial de confiança.

Ollantaytambo é um exemplo vivo de cidade inca. Nunca deixou de ser habitada pelos indígenas e manteve sua estrutura urbana praticamente intacta, com pouca influência colonial. As portas têm formas trapezoidais típicas e as residências guardam as características inconfundíveis da arquitetura incaica. De vocação essencialmente agrícola, Ollantaytambo teria sido concebida como uma espiga de milho, com as residências distribuídas como grãos, as maiores juntas e as menores na ponta.

OS TEMPLOS que imperam no topo da montanha representam uma admirável obra de arquitetura. Nas últimas três décadas em que visito a região, ouvi as mais diversas teorias sobre as técnicas incas para cortar pedras. Para os arqueólogos, o trabalho foi feito com outras pedras, mais duras. “Os antigos usaram um material lítico mais resistente para abrandar o material usado nos templos e palácios”, diz Manuel Ollanta, arquiteto da municipalidade de Cuzco. Outros afirmam que os incas teriam usado ferramentas à base de obsidiana, hematita (um minério de ferro) e até diamante. Mas isso teria demandado milhões de horas de mão-de-obra.

Faustino Espinoza foi o fundador da Academia do Idioma Quéchua em 1953. Se estivesse vivo, teria hoje 100 anos. Ouvi desse grande conhecedor da cultura indígena que “os incas cortavam a pedra como se fosse barro mole, como se fosse manteiga”. Espinoza nunca descobriu quais eram os ingredientes secretos que amoleciam a pedra. Um indígena de um vilarejo distante estava prestes a lhe mostrar uma planta que “derretia” os ossos dos animais que a ingeriam. Mas, na hora marcada, o camponês não apareceu, e Espinoza nunca mais o encontrou. Teria sido essa planta o ingrediente principal para desmanchar a rocha? Ou uma mistura de ervas?

Nas ruínas de Ollantaytambo, o contraste entre a montanha bruta e a pedra perfeitamente talhada pelos incas.

À direita: Um bloco de pedra em Ollantaytambo pode ajudar a desvendar o mistério de como os incas moldavam esse material. A face superior da pedra é lisa, enquanto a parte inferior ainda está bruta, sem ser trabalhada. A fresta no meio (cercada pela linha vermelha) não é natural e possui espessura constante. Poderia ser ela a prova de que os incas tinham técnicas, hoje desconhecidas, para moldar a pedra?

Há mais de 20 anos, encontrei por acaso, no topo das ruínas de Ollantaytambo, um bloco de pedra que poderia explicar como essa matéria-prima era moldada. A face superior da pedra é lisa, como se alguém a tivesse lixado. Na parte de baixo, porém, ela ainda está bruta, sem ser trabalhada. No meio, entre os dois tipos de pedra, há uma fresta. Não se trata de uma fenda natural: ela é retilínea e possui sempre 0,7 milímetro de espessura, suficiente apenas para permitir a passagem de um cartão de crédito. Parece ter sido talhada com uma serra. Mas que instrumentos os incas teriam usado para isso? Utilizaram algum líquido para facilitar o corte? Poderia ser essa obra inacabada a prova de que os antigos sabiam como cortar a pedra?

O CERTO É QUE em vários lugares vemos rochas que parecem cortadas com uma espátula. São como cadeiras ou tronos, mas na verdade podem ser o que restou depois de um bloco ter sido retirado. Estamos diante de um dos maiores mistérios da cultura inca, que parece longe de ser decifrado. Após a conquista, os indígenas se calaram e mantiveram sigilo sobre seus conhecimentos. Depois de cinco séculos de silêncio, será que esse segredo já se perdeu na memória do tempo?

Duas meninas gêmeas seguram algumas espigas do milho branco gigante de Cuzco. O produto é a grande estrela agrícola do Vale Sagrado.

Embora esteja entre 2.800 e 3.000 metros de altitude, o Vale Sagrado é o celeiro de Cuzco. Dali saem os cereais e as verduras consumidos pelos cuzquenhos. A grande estrela agrícola é o milho branco de Urubamba, ou milho branco gigante de Cuzco: tal como um vinho francês, ele possui seu certificado internacional de Denominação de Origem desde 2006. Somente os milhos brancos colhidos no Vale Sagrado dos Incas – nas províncias de Calca e Urubamba – podem usar esse nome.

Plantado por 5 mil agricultores (97% deles em pequenas parcelas de terras entre um e cinco hectares), o milho branco foi exportado, nos últimos dez anos, para quase 30 países. Japão e Espanha são os principais compradores. Seu nome em quéchua, paraqay sara, ou “milho branco de grãos grandes e largos”, define bem o cereal. Eles são tão graúdos que, para comê-los, é preciso retirar grão por grão da espiga.

O milho branco é cultivado no Vale Sagrado há um milênio. A extensão plantada hoje representa apenas uma pequena porção do que era usado na época inca, há cinco ou seis séculos. O número de plataformas agrícolas em ruínas e não usadas confirmaria que a produção antiga era de cinco a dez vezes superior à moderna.

Além de ser consumido cozido ou tostado, o milho branco serve como base para a chicha, uma bebida local preparada com o milho fermentado. Um dos melhores mercados para se degustar o milho gigante de Urubamba é o de Pisac, um pequeno povoado no Vale Sagrado dos Incas, na extremidade oposta a Ollantaytambo.

ATÉ POUCOS ANOS ATRÁS, o mercado era montado a cada quinta-feira e domingo. Devido ao sucesso turístico, os mercadores de Pisac resolveram trabalhar sem tomar fôlego. Hoje, o mercado é realizado sete dias por semana. A venda de verduras e legumes do Vale Sagrado acontece em uma das esquinas da Praça da Constituição, a principal da vila. Uma rua que sai da praça leva até um pátio onde encontramos um forno comunitário. Qualquer pessoa pode assar um prato preparado em casa por apenas R$ 1.

Até os cuies, os porquinhos-da-índia criados para se transformar em fonte de proteína, vão para o forno. O mais apetitoso mesmo são as empadas quentinhas, preparadas a cada cinco minutos.

Aos domingos, Pisac é ponto de encontro dos indígenas da região. Eles descem das montanhas para vender seus produtos e participar da missa dominical em quéchua. Pouco antes das 11 horas, jovens indígenas na porta da igreja soam seus pututus, instrumentos tradicionais de sopro feitos com conchas do mar, para anunciar aos devotos, locais e visitantes, que o ritual na Igreja São Pedro Apóstolo vai começar.

A missa é celebrada em quéchua há alguns séculos. Como as populações indígenas que moram nos vilarejos acima de Pisac falavam (e ainda falam) muito pouco o espanhol, a solução encontrada pelos sacerdotes foi atrair a comunidade usando a própria língua. O sermão e todos os cânticos são em quéchua. A missa em quéchua é um excelente exemplo do sincretismo cultural existente na região. O peruano de hoje é justamente o resultado dessa combinação entre a alma inca e o espírito espanhol!

Haroldo Castro viaja como jornalista, fotógrafo e conservacionista. Ele é o fundador do Clube de Viajologia e já documentou 138 países. Apoio Inkaterra Travel: www.inkaterra.com Promperu www.promperu.gob.pe

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Golpe de Estado no Níger acentua a instabilidade no Sahel

O golpe de Estado no Níger adiciona, pelo menos em um primeiro momento, certas doses de caos e instabilidade em um país, e inclusive na região do Sahel, açoitado por tensões étnicas com os tuaregues, por todo tipo de tráfico ilícito e pelo terrorismo do ramo magrebino da Al Qaeda.

Arte UOL

O presidente Mamadú Tandja, que impôs em 2009 uma modificação da Constituição para prorrogar seu mandato por pelo menos três anos, foi derrubado na quinta-feira por um conselho militar que proclamou sua intenção de restabelecer a democracia.

O golpe deixou três mortos, mas na sexta-feira o país permanecia em calma. O presidente e vários ministros estavam detidos em diversos edifícios oficiais mas eram bem tratados, segundo um porta-voz militar.

A embaixadora da Espanha em Niamey, María Soledad Fuentes, levou a sério o anúncio da volta à democracia. "O golpe, embora não seja agradável que as coisas aconteçam assim, talvez ajude a voltarmos a uma via mais democrática", declarou na sexta-feira à Rádio Nacional da Espanha.

Os 60 espanhóis residentes em Níger, na maioria missionários e cooperantes, "estão bem", ela acrescentou. Dos 2 mil ocidentais residentes no Níger, 75% são franceses.

A democracia, e sobretudo a estabilidade, são indispensáveis para o avanço econômico de um país que figura em último lugar no índice mundial de desenvolvimento humano estabelecido pela ONU.

O Níger é potencialmente rico, mas seus 15 milhões de habitantes vivem em uma pobreza angustiante. A fome se instalou em 1972, 1984 e 2005 sobre sua população rural. Este ano novamente cerca de 3 milhões de pessoas estão ameaçadas pela crise alimentar.

No entanto, o país é o terceiro produtor mundial de urânio - mais de 3 mil toneladas em 2008 - e pretende se transformar no segundo, logo atrás do Canadá. De suas minas se extraem 10% da produção mundial de carvão.

A suas minas históricas de urânio em Arlit e Akouta - esta última explorada por uma companhia que tem 10% de participação da empresa pública espanhola Enusa - está se acrescentando agora a de Imamouren.

Depois de anos de disputas com o presidente Tandja, a multinacional francesa Areva fez as pazes em 2009 e assinou um acordo para explorar essa nova mina de urânio. E investirá 1,2 bilhão de euros para transformá-la na segunda do mundo, depois da canadense de McArthur River, da qual espera extrair 5 mil toneladas por ano.

A Areva produz hoje a metade do urânio do Níger, que representa 70% das exportações do país. A multinacional emprega 2.500 pessoas, mas empresas canadenses e chinesas tentam - a Tandya as ajudou nessa tarefa - cortar sua hegemonia.

Além de urânio e carvão, o subsolo do Níger contém fosfatos, ouro e estanho, entre outros minerais.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

El Pais

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China intensifica cabo de guerra com a Índia pelo Nepal

Jim Yardley

Por anos, o Nepal nunca se incomodou muito com o policiamento de sua fronteira norte com a China. O Himalaia parecia uma barreira grande o suficiente, e a atenção política e econômica do Nepal estava orientada ao sul, para a Índia. Se o Nepal fosse um rato preso entre elefantes, como diz um ditado local, o elefante que importava era a Índia.

Contudo, na semana passada, uma delegação do governo nepalês visitou Pequim em uma viagem que novamente ressaltou como o peso recém-adquirido da China no mundo está alterando antigas equações geopolíticas.

O ministro do interior do Nepal, Bhim Rawal, reuniu-se com altos oficiais de segurança da China, e a mídia estatal chinesa informou que os dois países haviam concordado em cooperar em segurança de fronteira, enquanto o Nepal reafirmou seu compromisso em impedir eventos “antitChina” em seu lado da fronteira.

Não foram divulgados detalhes das reuniões, mas os dois países devem concordar com um programa sob o qual a China daria dinheiro, treinamento e apoio logístico para ajudar o Nepal a expandir os postos de policiamento em regiões isoladas de sua fronteira norte.

A razão do acordo é simples: o Tibete.

Em uma época em que a decisão do presidente Barack Obama de se encontrar com o dalai-lama enfureceu a China, as reuniões de Rawal em Pequim podem ter maior efeito prático nas vidas dos tibetanos.

Pete Souza/Efe

Obama recebe dalai-lama na Casa Branca e declara apoio aos direitos humanos do Tibete

Movido pela China, o Nepal agora está se movimentando para fechar as passagens do Himalaia pelas quais os tibetanos há muito fazem viagens secretas, entrando e saindo da China, frequentemente em peregrinações para visitar o dalai-lama em seu exílio na Índia.

A China, que antes via o Nepal com interesse intermitente, está se exercitando mais amplamente na direção de seu pequeno vizinho no Himalaia - em parte por causa de sua preocupação que o Nepal poderia se tornar um local para agitação tibetana, em parte como outro palco sul-asiático em sua disputa de poder na região com a Índia.

O Nepal se tornou um espaço muito interessante, onde os grandes jogadores atuam em dois níveis. Um é em seu relacionamento com o Nepal, e o segundo é no relacionamento entre Índia e China”, disse Ashok Gurung, diretor do Instituto Índia China.

No sentido mais amplo, Índia e China compartilham objetivos similares no Nepal. Cada um quer que a situação política no país se estabilize e está olhando de perto enquanto os maoístas do país negociam com outros partidos políticos sobre uma nova constituição que fundamentalmente reformularia o governo. Os dois também estão preocupados com a segurança, enquanto a Índia se preocupa com a agitação política do lado nepalês de sua fronteira compartilhada, assim como a possibilidade de terroristas treinados no Paquistão transitarem pelo Nepal.

A Índia, porém, também está prestando bastante atenção ao que muitos de seus especialistas consideram um novo ativismo chinês na Ásia meridional, seja construindo portos no Ceilão e Paquistão ou assinando novos acordos até com a menor das nações asiáticas, como a República das Maldivas. Uma presença chinesa maior no Nepal seria especialmente alarmante para a Índia, pois compartilham uma fronteira longa e deliberadamente porosa.

“A Índia sempre se preocupou com o acesso da China ao Nepal. A Índia sempre considerou a Ásia meridional seu quintal, como uma Doutrina Monroe”, disse Sridhar Khatri, diretor executivo do Centro de Estudos Políticos da Ásia do Sul em Katmandu.

Da perspectiva da China, a importância geopolítica do Nepal aumentou após os protestos tibetanos em março de 2008, cinco meses antes de Pequim abrigar os Jogos Olímpicos. Os protestos ocorreram dentro da China; em Lhasa, a capital tibetana, e em outras regiões do país, mas também atravessou a fronteira para Katmandu, onde se estima que haja 12 mil tibetanos.

Enquanto as autoridades chinesas conseguiram impedir a cobertura internacional da repressão no Tibete, os protestos no Nepal atraíram atenção mundial. Circularam fotografias da polícia nepalesa reprimindo os manifestantes tibetanos. Em alguns casos, as agências de notícias identificaram erroneamente o local como sendo o Tibete.

“Houve uma mudança após março”, disse Gurung. “Os chineses compreenderam que o Nepal é um local importante, onde podem ser envergonhados por questões tibetanas.”

V.R. Raghavan, general da reserva indiana, disse que por anos a China permitiu que os tibetanos cruzassem para o Nepal. Muitos partiam em peregrinações ou estudavam em universidades na Índia. Mas as manifestações de março fizeram a China compreender que a “janela no sul” precisava ser fechada.

“Todos os movimentos de personagens importantes, monges e outros do Tibete ocorreram pelo Nepal”, disse General Raghavan, hoje diretor do Grupo de Política Delhi, um instituto de pesquisa.

Autoridades chinesas apertaram a segurança de seu lado da fronteira, a título de impedir agitadores pró-Tibete de entrarem ou saírem do país. Elas também exortaram o Nepal a se tornar mais vigilante. No último outono, Rawal anunciou que o Nepal, pela primeira vez, teria polícia armada em regiões isoladas como Mustang e Manang na fronteira com o Tibete.

Defensores do Tibete dizem que o aperto na segurança de fronteira já reduziu fortemente o movimento na região. Até 2008, 2.500 ou 3.000 tibetanos atravessavam a fronteira anualmente, de acordo com o escritório do dalai-lama. No ano passado, contudo, o número caiu para 600, uma mudança atribuída pelos tibetanos aos maiores laços entre a China e o Nepal.

“A aproximação está tornando as coisas mais difíceis para os tibetanos”, disse Tenzin Taklha, secretário do dalai-lama.

De fato, muitos nepaleses acreditam que a aproximação da China é melhor para o país. Por mais de meio século, a Índia tem sido profundamente influente nos assuntos nepaleses e continua sendo a maior parceira comercial e benfeitora econômica do Nepal, apesar de alguns nepaleses se ressentirem da interferência da Índia em seus assuntos. A moeda do Nepal é atrelada à rúpia indiana, e os cidadãos dos dois países podem atravessar a fronteira livremente. Mais de 1 milhão de nepaleses trabalham na Índia e enviam remessas para casa.

Contudo, o comércio com a China quadruplicou desde 2003, de acordo com estatísticas do governo, e os empresários nepaleses querem aumentar os laços econômicos.

Nos últimos anos, as empresas aéreas chinesas abriram rotas para o Nepal, e o número de turistas chineses cresceu gradativamente. As autoridades nepalesas também querem que a China estenda seus serviços de trem até a fronteira, para que o Nepal possa ser ligado à mesma linha de altitude que conecta Pequim ao Tibete.

Kush Kumar Joshi, presidente da Federação Nepalesa de Câmaras de Comércio e Indústria, disse que seu grupo estava tentando estabelecer zonas econômicas especiais para atrair fabricantes chineses para o Nepal - e para empresas indianas também.

“Precisamos ter os dois países como nossos parceiros de desenvolvimento”, disse ele.

Khatri, analista em Katmandu, disse que a Índia ia continuar sendo a vizinha dominante do Nepal, mas que a expansão do alcance global da China inevitavelmente traria maior relacionamento entre os dois países. Imaginar que a China não aumentaria sua atuação na região “seria negligenciar a realidade”, disse ele.

Tradução: Deborah Weinberg

The New York Times

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Arqueólogos encontram em Jerusalém muralha que poderia ser de Rei Salomão

Daniela Brik

Esta é a primeira vez que se descobre uma estrutura que pode ter uma correlação com as descrições das obras de Salomão em Jerusalém

Esta é a primeira vez que se descobre uma estrutura que pode ter uma correlação com as descrições das obras de Salomão em Jerusalém

Arqueólogos israelenses descobriram em escavações realizadas junto à Cidade Antiga de Jerusalém os restos de uma muralha do século X a.C. que poderiam confirmar a descrição bíblica dos tempos do rei Salomão.

Uma parte da muralha, de 70 metros de comprimento e seis de altura, foi encontrada em uma local de nome Ofel, entre a conhecida como Cidadela de David e a parede sul do Monte do Templo judeu, também conhecido como Esplanada das Mesquitas muçulmana.

Empreendidas nos últimos meses, as escavações fazem parte de um projeto da Universidade Hebraica de Jerusalém, a Autoridade de Antiguidades de Israel e outras instituições, e conta com o financiamento de patrocinadores americanos.

Sua diretora, Eilat Mazar, data a muralha com base em fragmentos de vasilhas descobertas nos arredores. Segundo ela, os objetos são de tempos do reinado de Salomão, o período de maior construção até então em Jerusalém e quando foi erguido o Primeiro Templo judeu, segundo o Antigo Testamento.

"Esta é a primeira vez que se descobre uma estrutura desse período que pode ter uma correlação com as descrições das obras de Salomão em Jerusalém", afirma.

"A Bíblia conta que Salomão construiu, com ajuda dos fenícios, que eram excelentes construtores, o Templo e seu novo palácio e que os rodeou com uma cidade. O mais provável é que estivesse conectada à muralha mais antiga da Cidadela de David", explica a diretora das escavações.

No local, foram desenterradas também uma monumental guarita de vigilância de seis metros de altura e uma torre que serviria de mirante para proteger a entrada da cidade, que são características do estilo do Primeiro Templo.

Deste período datam os antigos povoados israelitas de Meguido ou Be’er Sheva, declaradas em 2005 Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Para a arqueóloga, os restos da muralha representam uma prova adicional da exatidão com que as sagradas escrituras descrevem o esplendor do período dos reis David e Salomão.

Ela cita o Primeiro Livro de Reis (3:1), no qual "Salomão se tornou parente do então Faraó do Egito, pois se casou com sua filha Anelise e a trouxe à cidade de David, quando terminava de construir sua casa, a casa de Jeová e os muros de Jerusalém ao redor".

As pesquisas sugerem que os restos da muralha revelam a presença de uma monarquia e que a fortaleza e forma de construção indicam um alto nível de conhecimentos de engenharia.

Os vestígios estão em um ponto estratégico, no alto do vale do Kidron, hoje limite à Cidade Antiga de Jerusalém.

"Ao comparar as últimas descobertas das muralhas e portas da cidade do período do Primeiro Templo e os restos de vasilhas encontrados no local, podemos assegurar com bastante certeza que os muros são da cidade construída pelo rei Salomão em Jerusalém, na última parte do século X a.C", afirma Mazar.

A inscrição encontrada em um fragmento de vasilha descreve: "do supervisor do pa…", que a arqueóloga acredita se referir ao "supervisor do padeiro", um oficial responsável por controlar o fornecimento de pães à corte real.

Outros fragmentos contêm as palavras "do rei", e também foram encontrados selos de cera com dezenas de nomes.

O explorador britânico Charles Warren descreveu o traçado da torre em 1867, mas sem atribuí-lo à época de Salomão, cuja monarquia ficou conhecida pelas decisões justas ou salomônicas.

Nesse contexto de difícil equilíbrio, cabe se perguntar se a Bíblia pode servir ou não de guia arqueológico, uma polêmica que enfrenta duas tendências na arqueologia israelense e especialmente incerta no que se refere às descobertas em torno do período do rei David e de seu filho Salomão.

Mazar pertence à corrente que reconhece a validade do relato bíblico, enquanto arqueólogos da Universidade de Tel Aviv acham que o Pentateuco não está isento de interesses políticos de seus autores e que as monarquias de ambos os reis não eram uma potência regional como descreve o livro sagrado.

EFE

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Como são gerados terremotos e vulcanismo

Choque de placas que formam a crosta da Terra provoca fenômenos que têm como usina de força o núcleo do planeta

Ulisses Capozzoli


Science Photo/Stock Photos

Linhas vermelhas marcam bordas de placas, como gigantescas balsas rochosas, em que se divide a crosta terrestre

O motor de tantos sismos como vulcanismo é uma descoberta recente na história da ciência. Foi em 1912 que o astrônomo e metereologista alemão Alfred Lothar Wegener (1880-1930) expôs os esboços do que ficou conhecido como tectonia de placas. A versão finalizada destas idéias é de 1915 e, por surpreendente que possa parecer, até meados do século passado havia certa resistência em relação a elas.
A idéia básica de Wegener, reformulada em detalhes, foi comprovada nos anos 60, beneficiada pelo refinamento e especialmente processamento de dados com a disponibilidade crescente de computadores. As novas gerações, para quem os computadores integram a banalidade dos eletrodomésticos, podem surpreender-se com essa realidade. Mas era assim, na infância de seus pais.
As placas tectônicas podem ser pensadas como enormes balsas rochosas flutuando sobre uma camada pastosa e mais densa, o manto, que se estende por mais de 5 mil km e envolve um núcleo líquido no interior do que está o caroço sólido da Terra. O manto não é uma porção uniforme e está dividido entre uma parte superior, mais densa, separadas por uma região de transição.
Com alguma frequência se compara a crosta, superfície fraturada da Terra, com a casa quebrada de um ovo cozido. Cada porção inteira, na casca fraturada do ovo, seria uma placa. Mas essa analogia, como qualquer outra, tem limitações. As placas tectônicas, comparativamente, quase sempre são blocos maiores que as menores e mais numerosas porções da casca partida de um ovo cozido. Outra analogia que ajuda a compreender a estrutura da Terra é considerar a crosta, superfície sobre a qual vivemos, como a casca de uma maçã em relação à polpa, neste caso, as camadas inferiores.


Science Photos/Stock Photos

Deslocamento de placas produz atrito que gera vulcanismo, sismo e formação de cadeias montanhosas como os Andes


As placas incluem tanto regiões emersas – como a América do Sul, situada sobre a placa Sul-Americana – como áreas oceânicas. Sondagens com a ajuda de ondas de choques de sismos, entre outras técnicas, demosntraram que as placas oceânicas são mais finas que as massas continentais. Nos oceanos elas teriam espessura infeiror a 10 km contra até 90km sob os grandes maciços montanhosos.
As placas são postas em movimentos pelo calor do centro da Terra. A usina de força dessa energia interior inclui o calor remanescente da formação do planeta, há 4,6 bilhões de anos, a radioatividade produzida por núcleos pesados e instáveis como o urânio e mesmo a pressão gravitacional.
Há 600 milhões de anos um único um imenso supercontinente, a Pangéia, envolto também por um único oceano, o Panthalassa, começou a fracionar-se. A Pangéia voltaria a se recompor, formando a Pamgéia II. Mas nessa divisão formou o Gonduana, que incluiu terras que hoje formam a América do Sul, a África e a Antártida e a Laurásia, reunindo a atual América do Norte, Europa e Ásia.
Quando expôs sua teoria Wegener foi chamado de “aventureiro” e “charlatão” por ousar propor que o rígido e imóvel aparente sob os nossos pés na verdade é plástico e está em movimento. Ele explicou sismos e vulcanismo pela ação das placas, por atrito ou estiramento. Nas regiões de contato, como acontece entre a Placa Sul-Americana e a Placa de Nazca, no Pacífico, o atrito faz com que Nazca, menos densa, mergulhe sob a balsa Sul-Americana. Esse mergulho levanta a borda oeste da Placa Sul-Americana e está na origem da enorme cadeia Andina que ainda cresce alguns centímetros por ano. O estiramento cria estruturas como a Dorsal Atlântica, que percorre o Atlântico no sentido norte-sul.

O atrito acumula um enorme esforço na borda das placas e quando a estrutura rochosa dessas áreas cede sob essas forças, libera energia sob forma de sismos. É como se um martelo gigante golpeasse essas regiões. A destruição nas bordas das placas faz com que material das profundezas atinja a superfície sob a forma de vulcanismo. Mas tanto sismo como vulcanismo podem ocorrer no interior de placas por outros processos envolvendo torções da placa. Sismos podem ainda ser produzidos pela formação de enormes reservatórios de hidrelétricas ou por acomodações de falhas geológicas.
O trabalho de Wegener, que morreu fazendo pesquisas na Groenlândia, é fundamental para a montagem do enorme e complexo quebra-cabeças envolvendo tanto a previsão de sismos com a atividade vulcânica. Evitar prejuízos materiais e especialmente perdas humanas depende fundamentalmente dessas previsões. Por enquanto, boa parte desse desafio ainda pertence ao futuro.
De certa forma, é surpreendente que o encaixe, como peças de um quebra-cabeças, envolvendo a costa ocidental da África e a costa do Brasil não tenha sugerido mais cedo a idéia de que um dia eles tenham sido únicas. Há uma versão de que o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) considerou esta hipótese, por volta de 1620. Depois disso houve quem relacionasse a partilha de uma terra única com o dilúvio bíblico. No século 19 o astrônomo inglês George Howard Darwin (1845-1912), segundo filho do naturalista Charles Darwin, propôs que o leito do oceano Pacífico teria se formado pela separação da massa que originou a Lua.
A separação das terras que hoje formam a África e América do Sul está na origem do Atlântico Sul, oceano que continua crescendo a velocidades em torno de 2 cm ao ano devido ao afastamento das placas.

A vigilância das placas mesmo para a detecção dos sismos silenciosos com o uso de satélites do sistema GPS pareceria pura ficção científica à época de Wegener. Os satélites GPS (da sigla em inglês para Global Positionning System) em órbita da Terra utilizam quasares como referência a seus próprios posicionamentos, compensando, por exemplo, ligeiras perturbações na rotação da Terra por fenômenos como o El Niño.
Os quasares, astros mais luminosos do Universo, são estruturas ainda enigmáticas, tidas como núcleos de galáxias em formação. Os quasares só são observados a enormes distâncias, o que significa que estão muito afastados de nós também no tempo. De qualquer maneira, distantes bilhões de anos no espaço-tempo, permitem avaliar deslocamentos de poucos milímetros na superfície da Terra. Mesmo levando-se em conta muitos outros movimentos como a distensão do espaço atribuída ao Big Bang, o vôo do Sol acompanhado dos planetas em direção à constelação de Hércules (ápex solar) e mesmo o giro da Terra em torno do Sol. Na realidade, ainda hoje, tudo parece apenas ser ficção.


Ulisses Capozzoli Editor de Scientific American Brasil, é jornalista especializado em divulgação científica, mestre e doutor em ciências pela Universidade de São Paulo.

Scientific American Brasil

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Porto e mar

Rinaldo Aparecido Meroni

O grau de sucesso que uma escola pode alcançar está ligado ao nível de companheirismo de sua tripulação

Sempre tive grande curiosidade pelo significado das palavras. Tenho viva na memória a seguinte imagem: eu, criança, junto à mesa da cozinha, à luz de vela, devorando o dicionário. Não tinha a menor noção de que quanto mais ampliasse meu vocabulário maior seria meu universo. Só fui entender isso depois.
O hábito manteve-se durante a adolescência e a juventude. Ler só com o dicionário do lado. Palavra difícil não era problema – nem pra mim nem pro dicionário. Mas em algum momento minha curiosidade inclinou-se para a origem das palavras. E foi assim que descobri o brilho da etimologia.
Como já disse, não sou especialista… sou curioso. E nas minhas andanças por este universo me deparei com uma palavra cujo significado marcou profundamente minha vida, transformando a forma de encarar o mundo e meu ofício de educador: o termo “companheiro”.
O termo deriva da expressão latina cum panis (cum = com e panis = pão), que indica “partilhar ou dividir o mesmo pão”. O termo traduz uma ideia de comunhão tão grande entre duas ou mais pessoas a ponto de lhes permitir dividir o pão e seus segredos.
A palavra ganha força na época das grandes navegações. A tripulação das caravelas formava uma companhia. Esses companheiros compartilhavam os riscos de navegar rumo ao desconhecido em busca de riqueza e glória. Dividiam o pão, os sucessos e os fracassos.
Falo disso porque, em boa parte dos meus 26 anos navegando pela educação, partilhei de diversas companhias em diferentes embarcações e foi assim que compreendi que o grau de sucesso que uma escola pode alcançar está diretamente relacionado ao nível de companheirismo que sua “tripulação” consegue construir entre si e com sua comunidade. Cada escola um barco e cada barco uma tripulação, umas mais companheiras, outras nem tanto.
Também descobri que não há companheirismo sem cumplicidade. São palavras irmãs. Nascem de uma mesma raiz. O termo cúmplice tem origem do latim complice, que significa “unido”, “junto”, ou seja, pessoas que se unem para a realização de um projeto. Cúmplice é parceiro.
E relações parceiras podem ser positivas para as instituições escolares porque geram comprometimento profissional e responsabilidade social, coloca a escola na rota da qualidade do ensino, potencializa a execução de projetos e possibilita rica aprendizagem institucional. Todos ganham.
As parcerias se tecem de forma sistêmica, unindo os nós da rede, reativando sinapses adormecidas, reconstituindo o tecido social. Nessa condição, a escola deixa de ser barco para se tornar porto de onde estabelece suas ligações com a “teia da vida”. Do porto escola nos lançamos para o mundo.
Os antigos romanos perceberam isso. A palavra educação, do latim educere (ex = fora + ducere = conduzir), significa “conduzir para fora”, ou seja, preparar o indivíduo para o mundo. Para tanto, é preciso que as escolas abram seus portos, conectando-se à vida e ao mundo sem fronteiras nem divisa… assim como o mar. Mas essa é outra história. Tchau!

Carta Capital na Escola

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Argentina e Inglaterra disputam petróleo das Ilhas Malvinas

Raquel Garzón

Petróleo é o nome do jogo. E vem causando atritos nas relações diplomáticas entre a Argentina e o Reino Unido desde o início do mês de fevereiro. As causas são as explorações em busca do cru que empresas britânicas começarão nos próximos dias a cerca de 160 km ao norte das ilhas Malvinas, arquipélago cuja soberania os dois países ainda disputam.

Leo La Valle/EFE

Veteranos da Guerra das Malvinas e seus familiares participam de evento oficial para lembrar os 25 anos da guerra, em Ushuaia (Argentina)

Na terça-feira (16), a Argentina passou do "enérgico protesto" diplomático à ação: a presidente Cristina Fernández de Kirchner decretou que "todo navio ou artefato naval que se proponha transitar" entre os portos continentais e as ilhas Malvinas "deverá solicitar uma autorização prévia" ao governo argentino, desse modo limitando o tráfego marítimo - tanto comercial quanto turístico - na região.

Ian Jones/AFP - 17.jun.2007

A ex-premiê britânica Margaret Thatcher, o príncipe Charles e o ex-premiê Tony Blair participam das comemorações em Londres pelo fim da guerra das Malvinas com vitória britânica sobre a Argentina, em 2007. A vitória britânica aconteceu em 1982 e deixou um saldo de pelo menos 907 mortos

Kirchner baseou a decisão em resoluções da ONU "sistematicamente desacatadas pelo Reino Unido", que instam os dois países a retomar as conversações sobre a soberania das ilhas, abstendo-se de decisões unilaterais. Depois das versões jornalísticas inglesas que especularam, na primeira semana de fevereiro, sobre um eventual "confronto bélico" por esse motivo, agitando o fantasma da guerra de 1982, e negadas rotundamente por Buenos Aires, o ministério das Relações Exteriores britânico tentou baixar os decibéis, expressando o "desejo" de que a "colaboração" que os dois países mantêm em diversas áreas continue.

A chegada da plataforma Ocean Guardian, contratada pela empresa britânica Desire Petroleum para perfurar oito poços, em um programa que duraria entre seis e oito meses, está prevista para sexta-feira (19), embora possa atrasar por razões climáticas. Os custos da exploração - desconhecidos - serão cobertos pela indústria, sem que Londres ou as ilhas desembolsem uma libra.

A medida argentina pretende dificultar, desanimar e encarecer essa exploração, enquanto se multiplicam as reclamações pela via diplomática. Esse é o motivo pelo qual esta semana as autoridades argentinas impediram o embarque de uma partida de tubos sem costura, supostamente destinados à atividade petroleira no arquipélago. "Cada país está agindo segundo a posição que tomou na política internacional e suas pretensões, mas falamos de águas e terras em disputa, por isso a reivindicação argentina é correta", explicou o ex-embaixador Lucio García del Solar, o diplomata argentino que mais conhece o tema Malvinas. "Na Argentina usamos a expressão ‘embarrear o campo’", uma estratégia que neste caso significaria, segundo García del Solar, "apertar os parafusos para dificultar a manutenção da disputa, coisa que na Espanha é compreensível se se pensar que algumas vezes os espanhóis dificultaram a vida dos habitantes de Gibraltar tomando medidas nas fronteiras."

Nas ilhas, o clima de negócios é bem-vindo. Ninguém sabe se há realmente petróleo, mas as perfurações revelarão um mistério que pode se traduzir em uma solvência financeira perpétua para os moradores. Os estudos existentes especulam com reservas entre 60 bilhões de barris (os mais otimistas) e 3 bilhões de barris. "O Reino Unido tem reservas de 3,4 bilhões de barris e a Argentina, de 2,6 bilhões", explica Daniel Montamat, ex-secretário de Energia durante o mandato de Raúl Alfonsín e ex-presidente da YPF. "Com o barril a US$ 77, o negócio é claro."

Crítico da "indiferença e reação retardada" do governo atual em um assunto para o qual, ele afirma, "não há política de Estado", Montamat indica ações indispensáveis. "Sem abandonar a via diplomática, é preciso conceder autorizações de exploração no mar argentino. Deve-se dar aos investidores a oportunidade de trabalhar em águas que não sejam objeto de litígio internacional. Se não o fizermos, há um risco certo: caso se encontre petróleo, isto poderá ajudar o desejo do Reino Unido de validar a autodeterminação das ilhas."

El Pais

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A última colônia

No norte da África, um povo do deserto vive o exílio dentro do próprio país

Laura Toledo Daudén

Os militares compõem 25% da população de 190 mil habitantes

Os militares compõem 25% da população de 190 mil habitantes

Seguíamos de longe. A derraá branca destacava a silhueta alta de Brahim Sabbar entre os passantes. Com a tradicional túnica masculina saaráui, o ativista parecia ainda maior do que realmente era. A manhã na principal avenida de Aaiun estava agitadíssima. Homens enchiam as mesas dos cafés, vendedores já barganhavam nas esquinas, crianças levavam o pão fresco para casa. A capital do Saara Ocidental vibrava, e Sabbar, que parava a cada pouco para dar atenção a tantos conhecidos, parecia liderar aquele pulsar. Nós, ao contrário, éramos dois elementos estranhos: jornalistas brasileiras dispostas a escrever sobre um conflito esquecido. Daí a orientação de guardar distância de Sabbar: na última colônia africana, as aparências precisam ser mantidas sempre, mesmo que sejam falsas.
Estávamos no norte da África, espremidos entre o Marrocos, a Argélia, a Mauritânia e o Atlântico. Sob nossos pés, um território que foi colônia espanhola de 1884 a 1975 e teria uma história similar à de outras colônias africanas se não fosse por um detalhe: até hoje os saaráuis não passaram pelo processo de autodeterminação, direito fundamental expresso na Carta da ONU. Esse povo de origem nômade vive em um país que oficialmente não existe, numa condição entre a ocupação e o exílio. Sua estreita faixa de terra seca é, a leste, controlada pela Frente Polisário (movimento que reivindica a autonomia); e a oeste, onde fica a capital, Aaiun, dominada pela monarquia marroquina desde a saída da Espanha. No meio passa um muro de 2.200 quilômetros de extensão, e 5 metros de altura, fortemente minado e vigiado dia e noite por mais de 100 mil soldados a mando do rei do Marrocos, Mohamed VI.
Em que pesem todas as adversidades, 84 países reconhecem a legitimidade da República Árabe Saaráui Democrática, fundada em 1976 por um governo no exílio. E mesmo sem fronteiras próprias, é nela que se forja o ideal de Estado-Nação ansiado pelos saaráuis. E é nessa "pátria de vento e estrelas", como a descreveu o escritor francês Saint-Exupéry, que começa a história pouco conhecida do Saara Ocidental, da qual Brahim Sabbar - e os cerca de 350 mil saaráuis dispersos sob quatro bandeiras diferentes - são protagonistas.
Na segurança das paredes da casa de Brahim Dahane, grande amigo de Sabbar, falamos pela primeira vez com o homem que seguíamos e percebemos seus pequenos olhos, quase infantis, espreitando por detrás dos óculos redondos. Eram doces, mas guardavam uma angústia inacessível. E Sabbar era ainda maior de perto. Uma rodada de chá nos preparava para a conversa, e da janela avistávamos um salão de cabeleireiro estrategicamente aberto pela polícia real para vigiar a movimentação no pequeno edifício que funciona como sede da ASVDH, a Associação Saaráui de Vítimas de Graves Violações de Direitos Humanos Cometidas pelo Estado Marroquino. Sabbar é o secretário-geral e Dahane, o presidente, mas a organização é ilegal. "Não nos deixam registrá-la", diz Dahane. Os ativistas estimam que, dos 190 mil habitantes de Aaiun, 25% sejam militares - como se vê nas ruas e nas fardas penduradas nos varais. E ainda há um bom punhado de colonos marroquinos, incentivados a ocupar a capital saaráui.  

A presença de colonos marroquinos acentua a instabilidade na porção a leste do muro

VIDAS FRAGMENTADAS
A história da militância de Sabbar começou na juventude, nos tempos da Marcha Verde e da retirada passiva do contingente espanhol. Sabbar viu de perto a multidão rumando para o sul, levando retratos do rei e bandeiras dos Estados Unidos. "Quando os marroquinos começaram a organizar a Marcha Verde, acamparam perto do colégio onde eu estudava, em Gurmin. Estavam se preparando para invadir." A coluna civil organizada pelo então rei Hassam II chegou até a fronteira do Saara Ocidental em 1975 e forçou a assinatura do Acordo Tripartido, que dividiu o território entre a Mauritânia e o Marrocos. Sabbar se uniu à resistência. Distribuir panfletos e organizar peças de teatro nacionalistas o levou à prisão pela primeira vez, em 1981.
Sabbar prestava atenção ao telejornal na sede da ASVDH, que exibia os conflitos na Faixa de Gaza. No intervalo, ele desviou o olhar, esticou os punhos para fora da túnica e, como se de súbito relembrasse a própria história, deparou-se com as cicatrizes dos dez anos de prisão e dos seis meses que passou vendado e com as mãos atadas. Seus olhos então se perdem na parede oposta, que pareciam guardar as duras lembranças da tortura. "Perguntava-me a todo o momento quando me matariam e como. Era o inferno."
Foi libertado em 1991, ano em que a Anistia Internacional e a Cruz Vermelha iniciaram uma campanha que culminou na liberação de 332 presos políticos saaráuis, mas não acabou com a angústia: "Saímos de uma prisão para entrar em outra muito maior", ele diz, referindo-se ao Saara Ocidental sob julgo marroquino. A família de Sabbar não soube de seu paradeiro durante os dez anos de isolamento. Ele nunca foi a julgamento. Para todos, tinha morrido na prisão. "Ao chegar em casa vi que minha mãe tinha ficado muda e não podia se levantar. Meu pai disse que se me encontrasse na rua, não me reconheceria."
A guerra, que duraria de 1976 a 1991, opôs dois povos e duas ideologias: os combatentes da Frente Polisário, saaráuis independentistas e de inspiração socialista; e os soldados marroquinos, leais ao bloco ocidental e ao projeto expansionista do rei Hassan II. As violações contra os direitos humanos foram sistemáticas dos dois lados: muitos marroquinos e dissidentes da Frente Polisário também sofreram nas prisões do movimento independentista. Foi assim que a guerra conseguiu converter a disputa em ódio, e o ódio, em vontade de vingança.
Isso explica em parte a segunda intifada (levante), iniciada em 2005 pelos saaráuis nas zonas ocupadas. Em uma das sucessivas manifestações, Sabbar foi preso uma vez mais e passou outros dois anos encarcerado. "O que está acontecendo desde a intifada é um sinal de que podemos fazer algo, apesar da pressão e da intimidação que sofremos a cada dia. Nós estamos ajudando a criar uma consciência", ele acredita.
DESENHANDO FRONTEIRAS
Para o homem do deserto, que tem uma relação diferente com o espaço e com o tempo, a sensação de não pertencer, de não estar em casa, é mais forte do que qualquer linha em um mapa. Mas de todas as maneiras essa linha está lá, serpenteando na forma do muro construído pelo Rei Hassan II na década de 80. A parede de areia, pedras e arame separa a parte controlada pelo Marrocos daquela sob domínio da Frente Polisário, as chamadas "zonas liberadas". Os poucos nômades que permanecem nessa região convivem com o medo das minas terrestres, que somam 9 milhões, segundo a organização britânica Land Mine Action, a única que trabalha no lado oriental do muro.
Rabuni, a base administrativa da República Árabe Saaráui Democráitica, está mais a leste, em solo argelino. Fica rodeada pelos cinco acampamentos onde vivem cerca de 200 mil refugiados. Essa é a região mais seca do deserto, e a única ponte entre as famílias dos dois lados do muro são os voos esporádicos organizados pela ONU.
O governo no exílio recebe suporte político e financeiro da Argélia, sedenta por manter sua hegemonia no Magreb, por uma saída para o Atlântico e por desgastar o regime marroquino, seu inimigo histórico. Ainda não há acordo de paz, mas um frágil cessar-fogo permitiu que em 1991 a ONU iniciasse a Minurso, uma missão com a responsabilidade de elaborar um referendo de autodeterminação. Por ele, se poderia escolher entre a independência, a autonomia ou a anexação ao Marrocos. Há 19 anos todos esperam.
O fracasso nas negociações desafia a resistência nas zonas ocupadas e leva, pouco a pouco, a uma situação de emergência humanitária nos acampamentos de refugiados. A atitude da comunidade internacional é ambígua: apesar de concordarem com a ilegalidade da anexação, governos, União Européia e empresas negociam com o Marrocos em troca dos benefícios da exploração da pesca e do fosfato - os dois recursos-chave do Saara Ocidental. A estabilidade da monarquia, principal aliada do Ocidente na região do Magreb, onde proliferam as organizações terroristas ligadas à Al-Qaeda, também é fator determinante para que nenhuma atitude impositiva seja aplicada para resolver o conflito. Nessa semana, o diplomata americano Christopher Ross, mediador do conflito desde janeiro de 2009, pela primeira vez mencionou oficialmente a necessidade de incluir a questão dos direitos humanos nos objetivos da Minurso. Ele também conseguiu que as duas partes, Marrocos e Polisário, concordassem em voltar à mesa de negociações na próxima quarta-feira.
ENTRE GUERRA E PAZ
Decidimos chegar até a costa, para tentar ver como se afastavam os navios carregados de fosfato rumo à Europa, aos Estados Unidos, à Austrália e ao Japão. O Saara guarda 9% das reservas mundiais do mineral - usado, principalmente, na produção de fertilizantes. Durante os 21 quilômetros que separam a capital da praia de Foum El Wad, Dahane não tirou os olhos do carro que nos seguia desde que deixamos o primeiro posto policial, na saída de Aaiun. Sabbar mostra o estado de deterioração do seu documento de identidade, "de tanto que me pedem…". Ele está proibido de conseguir um passaporte e desde 2000 não pode viajar para o exterior.
Descemos do carro para acompanhar uma partida de futebol de crianças saaráuis. Sabbar tirou o casaco e começou a correr entre os garotos. Do outro lado, caminhando pelas pedras, Dahane lembrava de fragmentos de um poema do palestino Mahmud Darwish. "Dizia algo como… "os árabes vivem em um tempo vazio. Seu relógio é a areia, que apaga todas as marcas". É uma existência desprovida de densidade…" Ele mal podia imaginar que, pouco tempo depois, perderia de novo sua liberdade. Dahane está preso atualmente, acusado de questionar a integridade territorial do Marrocos. Ele enfrentará um tribunal militar e corre o risco de receber a pena de morte.
Os saaráuis mantêm como podem a cultura nômade. Assim como à praia, costumam ir ao deserto, à noite, quando conversam sobre o que normalmente não podem e escutam a rádio dos acampamentos de refugiados. "Vivemos em uma zona fechada, policial, onde existem poucos jornais ou jornalistas. O embargo é midiático e militar. Essa é a situação", resumiu Sabbar, para logo em seguida, olhando uma pequena rosa branca que inacreditavelmente brotou na aridez, explicar por que não desiste de sua causa: "Essa pequena flor que cresce no deserto, entre os grãos de areia… onde ela cresce, torna tudo um pouco mais bonito". COLABOROU GIOVANA SUZIN

*Jornalista e fotógrafa brasileira baseada em Madri

O Estado de S. Paulo

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Freud, em permanente ebulição

José Andrés Rojo

Desde 1º de janeiro, as obras de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, ficaram livres de direitos autorais no mundo inteiro. Exceto na Espanha, onde devido a uma disposição transitória da lei de propriedade intelectual continuam vigentes até 2019. Na França a notícia mobilizou as editoras, e ao longo do ano serão traduzidos por diversos selos vários textos do fundador da psicanálise. Tal rapidez de reflexos indica que Freud continua conquistando leitores e que sua obra mantém seu virulento poder de agitar o debate intelectual?

AP
Livres de direitos autorais no mundo inteiro,
obras de Freud seguem interessando gerações

Sigmund Freud (1856-1939) veio questionar que o sujeito governasse sua vida com total autonomia, como se acreditava até então. Em condições normais, contou em "O Mal-estar da Cultura", o ego "se apresenta como algo independente, unitário, bem demarcado diante de todo o resto". Mas, acrescentou, esse ego se prolonga "para dentro, sem limites precisos, com uma entidade psíquica inconsciente que denominamos id, ao qual vem a servir de fachada". Por isso não sabemos grande coisa do que ocorre por essas zonas interiores, explicou, onde operam muitos desejos sexuais reprimidos.

Médico de formação, Freud investigou esses territórios obscuros para encontrar a maneira de curar determinados transtornos psicológicos. Daí surgiu uma nova escola, e sua correspondente terapia, a psicanálise. Mas o que fez principalmente esse brilhante senhor vienense foi mudar nossa maneira de entendermos a nós mesmos e ao mundo.

"Pode-se acreditar ou não na psicanálise, como se pode ser ou não marxista, entretanto as contribuições de Freud são indiscutíveis", comenta Antonio Valdecantos, um filósofo que ensina na Universidade Carlos 3º de Madri e que publicou há pouco tempo "La fábrica del bien" (ed. Síntesis). "Todo mundo sabe hoje que o ego não é transparente, nem está sempre disponível. Ninguém discute que haja zonas obscuras e que por mais liberdade que se possa ter nossa sexualidade continuará sendo opaca."

Carlos Gómez Sánchez, autor de "Freud y su obra: Génesis y constitución de la teoría psicoanalítica" (ed. Biblioteca Nueva), entende que o médico vienense soube vincular de maneira muito frutífera a sexualidade com a cultura, o desejo com a norma. Por isso considera que sua influência pode ser localizada em boa parte das referências intelectuais do século 20, começando pela fenomenologia e passando por Sartre, Fromm ou Bloch até chegar a Deleuze. "Há duas questões que me preocupam a propósito de seu legado", explica. "Em primeiro lugar, que não sejam levadas a sério suas contribuições e que sua obra se banalize e vulgarize. Ou, pelo contrário, que se entendam suas teorias como uma nova pedra filosofal, com o que a psicanálise poderá se transformar em uma péssima metafísica. Freud não é nenhum molho que sirva para enfeitar todos os pratos."

Em geral não há discussão: Freud é um clássico, faz parte do patrimônio intelectual de nosso tempo, dinamitou a maneira de entender o sujeito enquanto tentou tratou da força da libido.

Fernando Savater, em um artigo sobre o fundador da psicanálise, lembrou-se da definição que Chesterton deu em sua biografia de Dickens do que é um clássico: "Um rei do qual já se pode desertar, mas que não há modo de destronar". A citação veio a calhar, porque se alguém teve discípulos dispostos a questioná-lo foi Freud. Mas ninguém foi tão longe quanto ele na hora de mostrar o fundamental. É "invulnerável", escreveu Savater, apesar de ter sido muitas vezes traído. E anotou que a mais escandalosa dessas tradições foi a estilística. "É interessante, é detalhista, é pedagógico", dizia sobre Freud, "não renuncia às imagens nem as confunde com as explicações, pertence à cultura da sinceridade."

Continuam, portanto, vivos seus conceitos e sua lucidez na hora de diagnosticar nossas complicações. E sua terapia? Francisco Granados, que é analista há mais de 30 anos e dirige a revista da Associação Psicanalítica de Madri, responde no intervalo entre duas sessões. "O que podemos oferecer a quem nos consulta é a maneira de encontrar suas pulsões, seus medos, sua sexualidade, seus problemas na relação com os outros… mas a cura é algo que fica no ar: está em suas mãos seguir ou não o caminho proposto." Voltando a Freud, Granados insiste em um detalhe que nem sempre é valorizado em sua obra: que não há psicanálise se não for social. "Sem o outro não somos nada", afirma.

O escritor Andrés Barba, que ganhou com Javier Montes o Prêmio Anagrama de Ensaio com o livro "La ceremonia del porno", observa que, por mais permissiva que possa ser a sociedade atual na hora de difundir imagens sexuais, "a pornografia não resolve nada de nossa relação com os outros". "É um canal que nos permite o acesso a uma informação ilimitada sobre as práticas menos ortodoxas", diz, "mas não vai além."

Freud nos permitiu "ser conscientes de que existe uma série de processos que ocorrem de maneira soterrada, inconsciente, mas tanta consciência não consertou grande coisa". Abriu, isso sim, imensos caminhos para a literatura ao "transformar a nós mesmos em objeto de observação". Esse interesse continua aí. Será por isso que, como afirma Antonio Valdecantos, Freud continua sendo lido. E certamente será ainda mais, agora que em quase todo lugar sua obra ficou livre de direitos autorais.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

El Pais

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O Robin Hood da História

Morre Howard Zinn, ‘biógrafo’ da América que dava voz a escravos, operários, sindicalistas e desajustados de variada espécie

Sérgio Augusto

Clio, a musa da história, descuidou-se, e lá se foram, no espaço de uma semana, três grandes historiadores: um da Argentina (Tomás Eloy Martínez), outro da literatura brasileira (Wilson Martins), e o mais sui generis "biógrafo" da América, Howard Zinn.
Conforta saber que ao menos Zinn morreu de repente, do coração, sem prévia agonia hospitalar. "Pensei que ele era imortal", confessou a colunista do semanário The Nation Patricia Williams. Infelizmente, ele era apenas longevo: 87 anos. Não tão longevo quanto Studs Terkel, que durou até os 96, e Eric Hobsbawm, que caminha para os 92.
Terkel e Hobsbawm seriam naturalmente lembrados a propósito de Zinn não apenas pela longevidade, mas sobretudo por suas afinidades eletivas, digamos assim. Hobsbawm tem uma visão marxista, Terkel era um liberal populista, ouvinte e termômetro dos "rostos na multidão"; dois olhares atentos ao mood e às ações das camadas populares, duas perspectivas demofílicas, ainda que filosoficamente distintas.
Nem marxista, nem populista, Zinn foi o mais bem-sucedido (ou o mais célebre) historiador revisionista dos Estados Unidos. Sua magnum opus, A People"s History of the United States, já vendeu mais de 1 milhão de exemplares desde o lançamento, em 1980. Como antecipa o título, é a história dos Estados Unidos com outra sorte de protagonistas, narrada pela perspectiva do lado oposto às tribunas de honra, onde se sentam as elites políticas e econômicas, pelo viés das reformas democráticas geradas por sucessivas ondas de movimentos sociais.
Porque tirava dos ricos e poderosos (políticos, generais, banqueiros, industriais, etc.) a voz que, sem demagogia, dava aos pobres (escravos foragidos, operários, líderes sindicais, desajustados de variada espécie), Zinn foi uma espécie de Robin Hood dos historiadores e inspiração até para seus colegas de ofício no Brasil, muitos dos quais perseguidos, presos e cassados pela ditadura militar, pela audácia de contar uma "nova história".
Prolífico, deixou uma batelada de livros, além de dezenas de ensaios (notadamente para o semanário The Nation) e cartas (especialmente para a New York Review of Books), nenhum com a originalidade e o contagiante vigor de sua história da América protagonizada pelos "pobres e oprimidos". Falava com autoridade da pobreza, da guerra e do racismo, pois trabalhara nos estaleiros de Nova York durante a Depressão, pilotara bombardeiros durante a 2ª Guerra e ajudara no parto do movimento pelos direitos civis, na Geórgia.
The People"s History of the United Artists, que eu saiba jamais traduzido no Brasil, era o livro que Will Hunting, o prodígio matemático do MIT encarnado por Matt Damon no filme O Gênio Indomável, a certa altura dava ao seu terapeuta como se fosse um talismã. Mas quando A. J., filho de Tony na telessérie A Família Soprano, chegou em casa com outro exemplar, vibrando por haver descoberto em suas páginas que Cristóvão Colombo fora um escravocrata e dizimara várias tribos de índios, a recepção foi bem diferente. "Nesta casa, Colombo é um heroi, e fim de papo!", berrou-lhe o pai, que por certo desconhecia também os relatos pós-colombianos do padre espanhol Bartolomeu de Las Casas.
Zinn foi um dos pioneiros da campanha pelos direitos civis e um dos primeiros a protestar contra a Guerra do Vietnã, engajamentos que lhe custaram, em décadas diferentes, dois empregos: um no Spelman College, de Atlanta (Geórgia), a mais antiga instituição de ensino exclusivamente para moças negras do país (Alice Walker, autora de A Cor Púrpura, foi sua aluna), outro na Universidade de Boston - mais um baita desconto nos valores da aposentadoria.
Suas aulas e palestras eram disputadas como um clássico esportivo. Simpático, vibrante, torrencial, seduzia até os policiais incumbidos de prendê-lo em marchas cívicas e passeatas de protesto. Como resistir a um sujeito dócil, avuncular e sorridente, que argumentava estar ali, ou seja, numa manifestação pública, "não para perturbar a paz, mas para perturbar a guerra"?
Em outubro, o cantor negro Harry Belafonte fez uma leitura de A People"s History of the United States, em Washington. Dois meses depois, o History Channel exibiu o documentário The People Speak, adaptação oblíqua do best seller de Zinn, com a participação de Matt Damon (vizinho do historiador em Boston), Morgan Freeman, Danny Glover, Josh Brolin e Bob Dylan. Como Zinn parecia vender saúde, não foram homenagens pé na cova, mas espontâneas manifestações de respeito e apreço pela permanência da obra do historiador, também personagem de um documentário, Howard Zinn: You Can"t Be Neutral on a Moving Train, que quase ficou entre os finalistas do próximo Oscar.
Zinn simpatizava com o socialismo, ou melhor, com a utopia socialista, mas nunca se deixou levar por dogmas e ilusões ideológicas. Sonhava e sempre lutou por uma sociedade mais justa e gentil, "com os pés no chão", dizia, como convém a um radical pragmático. Se tivesse vivido na França dos anos 30, militaria no Front Populaire. Seu mestre indiscutível foi o decano da desobediência civil, Henry David Thoreau, que na metade do século 19 recusou-se a pagar impostos em protesto contra a escravidão e a guerra dos Estados Unidos com o México.
Topava dormir em tendas, acampava na lama, não media sacrifícios para "um bom e necessário protesto". Incansável, na véspera de aposentar-se, liderou uma manifestação dos alunos contra uma medida discricionária do reitor da Universidade de Boston. Se houver uma nuvenzinha no céu para certo tipo de dissidente, Zinn terá toda a eternidade para jogar conversa fora com Thoreau, Eugene V. Debs, Susan B. Anthony, Emma Goldman, I. F. Stone, Norman Mailer, enquanto espera pela chegada de Noam Chomsky e Gore Vidal. Essa é sua turma.

Estado de S. Paulo

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O congênito e o adquirido

Do dinheiro e do amor, da beleza e do valor, da doença e dos remédios

Francisco Bosco

Diz a anedota que o milionário de idade avançada está conversando com um amigo mais jovem. Conta a esse que sua nova namorada, de 20 e poucos anos, não para de lhe pedir presentes: roupas, joias, viagens, e acaba de pedir um carro. O jovem comenta: "Que namorada cara, hein?". Ao que o outro responde: "Rapaz, na minha idade, ou é cara ou é coroa…". As expressões e piadas sobre a relação entre dinheiro e amor são inúmeras. Convergem, em geral, para o sentido da expressão "dar o golpe do baú", em que a relação é taxada de ilegítima do ponto de vista do amor: casou-se por causa do dinheiro, e não por amor; mais precisamente, casou-se contra o amor, disposto a sacrificá-lo pelo luxo material. 

A perspectiva de fundo desse juízo é pseudofilosófica; ela se apoia numa cadeia de oposições que estabelecem um fosso entre os supostos artifício (o dinheiro) e espontâneo (o amor), adquirido e congênito, no limite, falso e verdadeiro. Digo que essa série é pseudofilosófica porque ela reproduz, sem o saber, os termos do vocabulário filosófico, sem chegar, contudo, a questioná-los, sem chegar, portanto, à filosofia, cujo ponto de partida é a questão. E o que é a questão? A questão é o estado filosófico da pergunta. Uma pergunta encerra sempre uma afirmação, um modo de ver a priori. O trabalho filosófico começa por suspender esse a priori da pergunta. Quando uma pergunta perde seu chão, aí ela se metamorfoseia em questão. Daí que se pode detectar um espírito filosófico em sua atitude diante de uma pergunta: o filósofo não é aquele que responde à pergunta, mas que a questiona.

Pois bem, tentemos conduzir o problema ao nível da questão. O que se pode perceber é que a dissociação necessária entre dinheiro e amor não apenas se apoia na série de oposições descrita acima, como moraliza essa série, isto é, faz incidir sobre ela um nítido juízo de valor ao privilegiar um dos lados da cadeia. Assim, entre o congênito e o adquirido, nesse caso, fica-se com o congênito. O dinheiro, por ter sido adquirido, é um aspecto exterior ao sujeito, não lhe é constitutivo. E não se pode amar senão a "essência" da pessoa, já que o amor seria ele mesmo essencial, o que haveria de mais espontâneo em alguém. Esse juízo de fundo é assimilado não só pelo suposto aproveitador, o golpista do golpe do baú, mas também pela suposta vítima. Daí a figura clássica do milionário que se disfarça de pobre, que oculta sua riqueza por temer que os outros só vão gostar dele por causa de seu dinheiro. O milionário submete o outro a um teste, que consiste em que possa amá-lo independentemente de seu dinheiro, ou seja, "pelo que eu sou".

Mas, curiosamente, a expressão mais cínica desse juízo é a que mais se aproxima de desconstruí-lo. "Dinheiro compra até amor sincero." Pois, de certo modo, compra mesmo. Em primeiro lugar, deve-se observar que nenhum amor é, assim, tão sincero. A espontaneidade é um mito, e dos mais fracos. Para Freud, por exemplo, o sujeito só pode amar seja segundo uma determinação narcísica, seja segundo a reprodução de uma situação primitiva. No primeiro caso, apaixonamo-nos por nosso eu ideal: pela imagem que fazemos do outro e que corresponde ao que julgamos ou gostaríamos de ser. No outro caso, apaixonamo-nos por qualquer pessoa que substitua, para nós, o papel protetor da figura materna. O sujeito, assim, "tem originalmente dois objetos sexuais - ele próprio e a mulher que cuida dele", diz-nos Freud. A espontaneidade revela-se tão somente uma construção ignorada. Como diz a canção, "até uma coca-cola é mais pura do que a fórmula do amor".

Desmoralizar para moralizar

O que me interessa aqui é minar a oposição entre o congênito e o adquirido. Poderia fazer esse caminho pela psicanálise, por Freud e Lacan: para ambos a formação do eu remonta a uma alienação, ou a uma série delas. O eu não tem essência, não é da ordem da metáfora do fruto, mas da cebola: descascando-lhe as camadas (de identificações, de que se forma o eu), resta nada. Mas quero fazer o percurso interrogando o senso comum. Pois outra manifestação do espírito antifilosófico do senso comum é sua propensão à moralização. Moralizar os fenômenos é uma operação que raramente alcança o estado filosófico, que contudo é aquele a partir do qual se deve fundar uma moral. Moralizar, normalmente, consiste apenas em escolher um dos lados de uma oposição. É por isso que tão ou mais importante que moralizar os signos é desmoralizá-los. Não se deve moralizar sem antes desmoralizar.

Falando concretamente, no caso que estamos analisando, é preciso primeiro desmoralizar o problema, mostrando que a cadeia de oposições em que se apoia é arbitrária: o congênito e o adquirido formam uma espécie de banda de Moebius. Nos dois polos do problema: tanto no sujeito que ama quanto no sujeito amado (a expressão "objeto amado" é, para falar com humor, de uma perversão impressionante). O dinheiro é parte tão constitutiva do sujeito quanto sua beleza, sua saúde e quaisquer de suas qualidades (e tão transitório quanto essas). Não há como separar o dinheiro do sujeito que o possui. Para um herdeiro, a fortuna terá consequências decisivas em sua formação. Para um self-made man, a conquista do dinheiro terá moldado o seu caráter, ou terá sido moldada por ele. O dinheiro é um mundo. E uma das razões mais legítimas para se amar alguém é amar o seu mundo. Além disso, o próprio dinheiro pode ser congênito ou adquirido, isto é, herdado ou conquistado. 

Essa distinção é irrelevante do ponto de vista filosófico, como vimos, mas não do ponto de vista existencial. Aqui (e em tudo o mais), a observação importante, decisiva, que resolve mesmo a questão, superando-a, é a frase de um personagem de Almodóvar: "Uma pessoa é tanto mais legítima quanto mais se parece com seu sonho". A partir disso, podemos voltar a moralizar a questão. Se há uma crítica a fazer a quem se junta a alguém por dinheiro, é essa: se tal união trai o seu sonho (o que é improvável, se feita por vontade própria), ou se esse sonho é um sonho, existencialmente falando, pequeno. Pois o dinheiro é um mundo, mas pode ser um mundo bem pequeno. Pois o poder é um mundo, mas pode ser um mundo bem infeliz: ser estrela é bem fácil, sair do Estácio é que é o x do problema.

As doenças e os remédios da história

Que a moralização pelo senso comum seja destituída de espírito filosófico, isso o comprova outra relação, aquela entre a beleza e o reconhecimento social. Aqui o caso clássico é o do sujeito belo que não quer se distinguir apenas por sua beleza, mas por sua qualidade profissional. O sinal moral então é invertido: o congênito é bruscamente desvalorizado - como uma espécie de injustiça - e o adquirido, valorizado, sem que se questione a oposição. O que parece estar em jogo, em ambos os casos, é um mecanismo compensatório da economia social das rivalidades imaginárias: desvaloriza-se o que o outro possui em alto grau, e valoriza-se o que ele não possui.

Fora dessa lógica da rivalidade, outro aspecto remonta às oposições entre congênito e adquirido, e também se manifesta como uma moralização. Refiro-me ao uso de medicamentos diretamente ligados ao psiquismo, como antidepressivos, ansiolíticos ou mesmo remédios para disfunção erétil (que muitas vezes tem causa psíquica). É claro que esse problema instaura imediatamente todo um campo complexo de problemas, em que não vou entrar. Quero apenas identificar a postura moralizante que consiste em não ingerir tais remédios com base nas oposições entre dentro e fora, natureza e cultura, puro e impuro etc. 

Muitas pessoas não se incomodam em tomar frequentemente remédios alopáticos para "o corpo": antibióticos, anti-inflamatórios, e por aí vai. Mas hesitam, temem ou repudiam a ingestão de um ansiolítico. O que aí parece operar é uma lógica segundo a qual "o corpo" exclui o psiquismo e é considerado uma espécie de exterioridade, sobre a qual outra exterioridade (a dos remédios) pode atuar. Mas o psiquismo seria o núcleo, a essência do sujeito, uma interioridade que seria uma fraqueza moral socorrer com uma exterioridade. Aqui, no fundo, vige a oposição entre natureza e cultura. Mas o psiquismo, claro, é histórico: sobre ele pesam as determinações do Outro. Às doenças da modernidade correspondem os remédios da modernidade. E, mesmo que se tenha uma postura crítica ao espírito do tempo, mesmo que se consiga subtrair de muitas de suas determinações, ainda assim o sujeito se encontra atravessado por ele, exposto a ele, sofrendo suas consequências. A moralização fundada na positivação de uma suposta natureza implica sofrer as doenças da história e recusar seus remédios. É um ganho da psicanálise não pensar o sujeito sob essa lógica moral e pseudocausal, mas sob a lógica do desejo e da diferença entre tratar da estrutura e aliviar o sintoma.

Cult

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Grécia não é a única a "maquiar" sua dívida

Claire Gatinois e Marie de Vergès

Maquiagem de contas ou roupagem legal de balanço? Na mira dos críticos por sua responsabilidade na crise financeira, os bancos de Wall Street, em especial o Goldman Sachs, estão no centro de um novo escândalo. Desta vez, não se trata mais de “subprimes”, créditos hipotecários explosivos vendidos a simples pessoas físicas, mas produtos financeiros sofisticados oferecidos a Estados endividados para embelezar suas contas.

Mais uma vez a Grécia está no centro do caso. Mas aparentemente o país está longe de ser o único a ter recorrido a astúcias financeiras aconselhadas por bancos de Nova York e Londres. O Reino Unido, a Alemanha, a Itália e Portugal também “otimizaram” suas contas com a ajuda do Goldman Sachs, da JP Morgan, do Barclays ou ainda do “falecido Lehman Brothers”.

No caso da Grécia, segundo a imprensa alemã e americana, o polêmico Goldman Sachs teria oferecido seus serviços a Atenas para reduzir seus déficits utilizando “swap de moedas”. Uma ferramenta que permite se proteger dos efeitos dos câmbios, transformando em euros a dívida inicialmente emitida em dólares ou em ienes.

“É legal!”, afirmam as autoridades gregas. Mas a taxa de câmbio utilizada aqui teria sido exageradamente favorável. Balanço da operação: 1 bilhão de euros de dívida apagado para o país e 300 milhões em comissões embolsados pelo banco.

“Seria uma vergonha se fosse revelado que os bancos, que já nos levaram à beira do precipício, também participaram da falsificação das estatísticas orçamentárias da Grécia”, reagiu a chanceler alemã Angela Merkel, na quarta-feira (17).

A Grécia foi enganada? Talvez, mas na prática o conhecimento dos bancos americanos beneficiou vários países. “Trata-se de operações naturais, que fazem parte da boa gestão da dívida”, garante um emissor de bônus soberanos na Europa. Os mecanismos são variados. “Eles só têm como limite a criatividade dos financiadores”, indica um ex-diretor de banco.

A Itália fez parte dos países mais ávidos por essa engenharia financeira. O país, aliás, aumentou as operações de securitização de sua dívida. Em outras palavras, o Estado revendeu ao mercado sua dívida sob forma de títulos financeiros para se livrar de seus débitos. A Bélgica, por sua vez, securitizou débitos fiscais em atraso, lembra um operador do mercado de bônus: “Foi em 2006”. Dessa forma o país evitou emprestar dinheiro, por não ter conseguido perceber a tempo as somas devidas pelos contribuintes.

Alguns Estados venderam dívidas indexadas “sobre qualquer coisa”, diz um operador de mercado. Exemplo: esses empréstimos gregos emitidos em 2000, cujo pagamento de juros dependia dos lucros esperados da loteria nacional!

“Quando se está no ‘limite’, tem-se necessariamente a tentação de utilizar esses artifícios para tentar reduzir sua dívida”, comenta René Defossez, estrategista do mercado de juros do Natixis. “Não é muito ortodoxo, mas não é necessariamente contestável”.

A França não esteve ausente do jogo. O país garante nunca ter recorrido aos serviços do Goldman Sachs. “Certamente não fazemos operações tão pouco convencionais com a dívida francesa”, dizem no Tesouro.

Mas até 2002, o país utilizou ferramentas financeiras complexas de cobertura (os “swaps de taxas de juros”) para modificar os prazos de pagamento de sua dívida. À primeira vista, graças a esses artifícios, todo mundo sai ganhando. “Para os Estados, essas operações permitem empurrar a dívida para mais tarde. E para os bancos, são promessas de margens lucrativas. Os estabelecimentos embolsariam em média 1%, ou até mais dos montantes de dívidas emitidas.

Os bancos anglo-saxões foram particularmente ativos e procurados nesse “mercado”. Pelo seu conhecimento, mas também por “lhe oferecer um acesso direto a investidores estrangeiros, assim como aos fundos de pensão”, indica o economista Philippe Brossard, da agência Macrorama. Para ele, “aperfeiçoar” dessa forma a estrutura dos déficits públicos tem seus riscos. Ainda que o Estado pareça sair ganhando a curto prazo, ele pode ser obrigado pelo banco a pagar juros muito mais pesados a longo prazo. O “New York Times” conta que o ministro grego das Finanças havia denunciado, em 2005, a operação do Goldman Sachs, queixando-se do fato de que o Estado devia pagar altas somas ao banco americano até… 2019”. Ao utilizar ferramentas sofisticadas, os Estados se tornam dependentes dos bancos, diz Brossard. Alguns haviam negociado com o Lehman Brothers e se preocuparam quando a empresa faliu”.

Ciente do perigo, o Eurostat, instituto europeu de estatísticas, responsável por validar essas operações, em 2008 colocou um fim a certas práticas, desaconselhando em especial a securitização.

É o suficiente? Para Michel Sapin, ex-ministro francês das Finanças e secretário nacional do Partido Socialista, “uma regulação mais dura é absolutamente necessária no mercado. Ainda mais que se trata aqui da assinatura de um Estado”.

Tradução: Lana Lim

Le  Monde

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Uso de meios digitais na educação pode melhorar aprendizagem

Ana Carolina Athanásio - ana.carolina.santos@usp.br

USP

A inclusão de recursos digitais em salas de aula ajuda a aumentar a comunicação entre estudantes  e professores. Projetos desenvolvidos por meio de blogs e aulas interativas incentivam a maior participação dos alunos nas atividades escolares e proporcionam benefícios na aprendizagem. “Os alunos praticamente já nascem sabendo usar computadores e nada mais natural e importante do que os professores passarem a usar os recursos digitais para melhorar o aproveitamento da disciplina”, afirma a professora Lina Maria Braga Mendes.

Blogs e sites ajudam a aumentar a comunicação entre professores e alunos

O pouco uso de meios digitais na educação foi um dos motivos que fizeram com que Lina iniciasse sua pesquisa de mestrado na Faculdade de Educação (FE) da USP, Experiências de fronteira: os meios digitais em sala de aula, sob orientação daprofessora Mary Julia Martins Dietzsch. “A utilização de mídias digitais poderia começar a partir do primeiro ano do ensino fundamental. Desde muito cedo as crianças  têm contato com computadores em casa”, ressalta a pesquisadora.

Suas experiências começaram por meio da implementação de blogs em projetos desenvolvidos com turmas de ensino fundamental de um colégio particular de São Paulo. “Há vários tipos de trabalho que o professor pode desenvolver com blogs. Podemos criar um blog de disciplina, em que o professor e alguns alunos teriam acesso à edição, há também o blog do professor, no qual só ele entra para publicar textos interessantes relacionados ao assunto da aula, além de manter contato com o aluno fora da sala, e ainda o blog de aluno, em que os estudantes publicam os trabalhos que realizam e o professor entra com comentários”, explica Lina.

Entre os principais benefícios dos meios digitais nas escolas estão o aumento do diálogo entre professores e alunos e a ampliação do espaço da sala de aula, já que o contato passa a ser também fora do horário escolar. Além disso, os recursos disponíveis nos computadores e na internet fazem com que os estudantes tenham mais prazer em assistir às aulas e interajam de modo mais efetivo.

“Quando saímos da sala de aula, que muitas vezes conta apenas com o giz e a lousa, e vamos para o computador já temos inicialmente o recurso da imagem e do movimento. É possível usar vídeo, áudio, fotografia e outros recursos para mostrar mais detalhes e curiosidades sobre o assunto estudado. Isso faz com que os alunos prestem mais atenção nas aulas e saiam do espaço imaginário, intangível, representado por um mapa de um livro, e adentrem o espaço real, visível no Google Earth, por exemplo”, explica a pesquisadora.

Barreira da linguagem
Apesar de os alunos terem crescido em frente aos computadores, Lina afirma que muitos têm dificuldades com a linguagem do mundo digital. “A experiência que tivemos com a leitura de adaptações literárias para a internet, por exemplo, foi um pouco complicada, pois os alunos – apesar de passarem horas a fio todos os dias na rede – não conhecem a linguagem do meio em que navegam e alguns acabaram não compreendendo sequer o enredo da obra”, diz.

Um ponto positivo do uso de meios digitais nas salas de aulas é mostrar aos estudantes as diferenças existentes em cada uma das linguagens que utilizamos. Segundo a pesquisadora, “a linguagem de um livro impresso é diferente daquela usada em um vídeo, por exemplo. Do mesmo modo, não podemos confundir o que é feito para o meio digital com o que se destina à publicação em papel. Muitas pessoas afirmam categoricamente que a linguagem de internet, com suas abreviações e símbolos, atrapalha a escrita, mas é preciso perceber que ela é apenas uma outra linguagem, destinada, portanto, a outras situações de uso que não as que acontecem na sala de aula. O aluno deve entender isso e utilizá-la apenas naquele meio.”

Dificuldades para professores
A iniciativa de usar blogs e outros recursos dos meios digitais na educação também tem seus entraves. Um deles é a dificuldade que o professor tem tanto em sua atualização quanto na disponibilidade de tempo. “Muitos professores ainda têm dificuldades em usar recursos básicos do computador, como Word e o Power Point. São recursos que poderiam ajudá-lo a criar uma aula diferente e a trazer novas informações”, garante Lina.

Tendo como pressuposto que todo o professor tem acesso a um computador, a pesquisadora salienta que outro problema para a implementação de aulas que utilizam os recursos digitais é a falta de remuneração para desenvolver projetos como esses. “Por mais que o professor queira levar meios digitais para as salas de aula, ele esbarra no problema do tempo gasto fora do horário escolar. A manutenção de um blog, por exemplo, demanda tempo de pesquisa, produção e criação de atividades, e não há incentivo financeiro ou um horário remunerado para essa prática”, explica.

Para a pesquisadora, mesmo sendo difícil a utilização dos meios digitais na educação é necessário que os professores fiquem atentos a esses novos recursos e aos benefícios que trazem ao aprendizado dos alunos. “O professor que dá aulas do mesmo jeito que teve aulas quando criança ou adolescente comete o erro grave de esquecer que é de outra geração”, alerta.

Mais informações: email linamendes@usp.br, ou blog http://fornodeletras.blogspot.com, com a pesquisadora Lina Maria Braga Mendes

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No Metrô, Serra inaugura era do neoliberalismo total

Marcada por acidente, linha 4 deve dar início à privatização do sistema

Renato Godoy de Toledo

obras-da-Linha-4-do-Metrô_Ciete-Silvério-Governo-do-Estado-de-São-Paulo.gifA linha 4 Amarela do Metrô paulistano deve ser a principal vitrine eleitoral do governador de São Paulo e pré-candidato à presidência José Serra (PSDB). A obra está prevista para ser inaugurada até o fim de março, dias antes do limite para o tucano se licenciar do cargo.

Essa nova rota inaugura um novo modelo de gestão na Companhia do Metropolitano de São Paulo. Um consórcio controlado pela CCR, chamado Via Quatro, será responsável pela administração da linha, assim como pela fiscalização. Essa holding é composta por empreiteiras como Camargo Correa e Andrade Gutierrez e a principal acionista é a própria Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). O grupo já explora pedágios em estradas paulistas e federais, como a Via Dutra.

A principal premissa no contrato de Parceria Público-Privada (PPP) firmado entre governo estadual e empresa parece ser a lucratividade, baseada no baixo custo com a gestão. A garantia da taxa de lucro aos concessionários está inclusive em contrato. Se o valor acertado não for atingido com a cobrança de tarifas, o Estado tem que aportar o recurso restante.

A execução da obra foi marcada pelo acidente que vitimou 7 pessoas em janeiro de 2007. A CCR garante que a linha 4 será uma das mais modernas e seguras do mundo. Mas para o sindicato dos metroviários, a busca pelo lucro e a redução de custos planejados pelo governo e pela iniciativa privada podem vir em detrimento da segurança dos trabalhadores e dos usuários da linha.

Primazia do privado

O início da operação da linha 4 pode dar fôlego a novas licitações similares, num processo que culminaria na privatização completa do Metrô. Para justificar a preferência pelo modelo privado, a nova linha deve servir como um modelo de gestão, segundo críticos do governo paulista.

“A ideia da privatização das linhas é prejudicial, pois o Metrô é um sistema muito bem operado pelo setor público, com profissionais capacitados. Adotaram uma ideia de que as políticas públicas têm que resultar em bons negócios para o setor privado. Nesse sentido, como a linha 4 representa uma lucratividade importante, indo do Morumbi ao Centro, a passaram para a iniciativa privada. Isso é o inicio da privatização. Vão criar dois metrôs, um público e outro privado”, afirma o deputado estadual Simão Pedro (PT-SP). Ainda em 2006, após acidentes com operários, o parlamentar pediu ao Ministério Público uma investigação sobre as obras da linha por ameaças à “ordem urbanística” e por colocarem em “risco a segurança, integridade física, saúde e vida” dos moradores da região.

De acordo com o diretor do Sindicato dos Metroviários, Manuel Xavier, o governo pode dar um privilégio logístico ao setor privado, deslocando recursos humanos para as novas estações. “Eles já terão tratamento privilegiado relacionado à tarifa. Eles não receberão o valor da tarifa, receberão um valor estipulado, que ainda não sabemos, mas que deve melhorar ano a ano, conforme previsto no contrato. Isso causa um desequilíbrio, uma distorção do tratamento entre o setor público e o privado”, contesta o sindicalista.

Trem fantasma”

O primeiro posto dispensado nesse novo Metrô será o de operador de trem. A CCR se gaba de ser a primeira a implementar, em nível mundial, o sistema driverless (sem motorista, em tradução livre). Os trens seriam comandados pelo Centro de Controle Operacional. Segundo a empresa, o sistema coibiria o excesso de velocidade.

Para Xavier, o sistema ainda é uma incógnita, já que não há qualquer experiência semelhante no mundo. “São cerca de um milhão de passageiros que vão ser transportados, sem nenhum condutor”, diz.

Outra preocupação advém do termo contratual que exige apenas um funcionário da ViaQuatro por estação da nova linha. “Não sabemos se os usuários serão bem atendidos ou se sentirão perdidos [pela falta de funcionários]. Se a exigência é de um funcionário por estação, este pode estar dentro de uma sala, isolado, cheio de monitores. Não sabemos se o consórcio será capaz de atender às dúvidas dos usuários”, aponta Xavier.

Além do contrato de concessão ao setor privado na operação da linha, o governo do Estado e a Prefeitura de São Paulo levam em frente um projeto de terceirizar a arrecadação das tarifas de trem, metrô e ônibus na Grande São Paulo. O processo de licitação já foi feito, mas um grupo que foi derrotado conseguiu barrar a decisão na Justiça, alegando favorecimento governamental aos vencedores.

“Tínhamos conseguido barrar, anteriormente, essa terceirização junto ao tribunal de contas. Agora, foi o grupo empresarial que barrou, mas isso não significa que o projeto não será levado a cabo”, analisa Simão Pedro.

Com a concessão a um grupo privado, o Estado perde o protagonismo na arrecadação das tarifas e na fiscalização. A tendência é que funcionários do Metrô que hoje exercem essa função sejam deslocados ou demitidos. “A fiscalização é um grande problema. Acho que o governo não tem controle sobre o que ocorre na arrecadação das rodovias. A Artesp (Agência Reguladora do Transporte do Estado) é um grande escritório de advocacia das empreiteiras”, dispara o deputado. (RGT)

Brasil de Fato

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No Metrô, Serra inaugura era do neoliberalismo total

Marcada por acidente, linha 4 deve dar início à privatização do sistema

Renato Godoy de Toledo
obras-da-Linha-4-do-Metrô_Ciete-Silvério-Governo-do-Estado-de-São-Paulo.gifA linha 4 Amarela do Metrô paulistano deve ser a principal vitrine eleitoral do governador de São Paulo e pré-candidato à presidência José Serra (PSDB). A obra está prevista para ser inaugurada até o fim de março, dias antes do limite para o tucano se licenciar do cargo.

Essa nova rota inaugura um novo modelo de gestão na Companhia do Metropolitano de São Paulo. Um consórcio controlado pela CCR, chamado Via Quatro, será responsável pela administração da linha, assim como pela fiscalização. Essa holding é composta por empreiteiras como Camargo Correa e Andrade Gutierrez e a principal acionista é a própria Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). O grupo já explora pedágios em estradas paulistas e federais, como a Via Dutra.

A principal premissa no contrato de Parceria Público-Privada (PPP) firmado entre governo estadual e empresa parece ser a lucratividade, baseada no baixo custo com a gestão. A garantia da taxa de lucro aos concessionários está inclusive em contrato. Se o valor acertado não for atingido com a cobrança de tarifas, o Estado tem que aportar o recurso restante.

A execução da obra foi marcada pelo acidente que vitimou 7 pessoas em janeiro de 2007. A CCR garante que a linha 4 será uma das mais modernas e seguras do mundo. Mas para o sindicato dos metroviários, a busca pelo lucro e a redução de custos planejados pelo governo e pela iniciativa privada podem vir em detrimento da segurança dos trabalhadores e dos usuários da linha.

Primazia do privado

O início da operação da linha 4 pode dar fôlego a novas licitações similares, num processo que culminaria na privatização completa do Metrô. Para justificar a preferência pelo modelo privado, a nova linha deve servir como um modelo de gestão, segundo críticos do governo paulista.

“A ideia da privatização das linhas é prejudicial, pois o Metrô é um sistema muito bem operado pelo setor público, com profissionais capacitados. Adotaram uma ideia de que as políticas públicas têm que resultar em bons negócios para o setor privado. Nesse sentido, como a linha 4 representa uma lucratividade importante, indo do Morumbi ao Centro, a passaram para a iniciativa privada. Isso é o inicio da privatização. Vão criar dois metrôs, um público e outro privado”, afirma o deputado estadual Simão Pedro (PT-SP). Ainda em 2006, após acidentes com operários, o parlamentar pediu ao Ministério Público uma investigação sobre as obras da linha por ameaças à “ordem urbanística” e por colocarem em “risco a segurança, integridade física, saúde e vida” dos moradores da região.

De acordo com o diretor do Sindicato dos Metroviários, Manuel Xavier, o governo pode dar um privilégio logístico ao setor privado, deslocando recursos humanos para as novas estações. “Eles já terão tratamento privilegiado relacionado à tarifa. Eles não receberão o valor da tarifa, receberão um valor estipulado, que ainda não sabemos, mas que deve melhorar ano a ano, conforme previsto no contrato. Isso causa um desequilíbrio, uma distorção do tratamento entre o setor público e o privado”, contesta o sindicalista.

Trem fantasma”

O primeiro posto dispensado nesse novo Metrô será o de operador de trem. A CCR se gaba de ser a primeira a implementar, em nível mundial, o sistema driverless (sem motorista, em tradução livre). Os trens seriam comandados pelo Centro de Controle Operacional. Segundo a empresa, o sistema coibiria o excesso de velocidade.

Para Xavier, o sistema ainda é uma incógnita, já que não há qualquer experiência semelhante no mundo. “São cerca de um milhão de passageiros que vão ser transportados, sem nenhum condutor”, diz.

Outra preocupação advém do termo contratual que exige apenas um funcionário da ViaQuatro por estação da nova linha. “Não sabemos se os usuários serão bem atendidos ou se sentirão perdidos [pela falta de funcionários]. Se a exigência é de um funcionário por estação, este pode estar dentro de uma sala, isolado, cheio de monitores. Não sabemos se o consórcio será capaz de atender às dúvidas dos usuários”, aponta Xavier.

Além do contrato de concessão ao setor privado na operação da linha, o governo do Estado e a Prefeitura de São Paulo levam em frente um projeto de terceirizar a arrecadação das tarifas de trem, metrô e ônibus na Grande São Paulo. O processo de licitação já foi feito, mas um grupo que foi derrotado conseguiu barrar a decisão na Justiça, alegando favorecimento governamental aos vencedores.

“Tínhamos conseguido barrar, anteriormente, essa terceirização junto ao tribunal de contas. Agora, foi o grupo empresarial que barrou, mas isso não significa que o projeto não será levado a cabo”, analisa Simão Pedro.

Com a concessão a um grupo privado, o Estado perde o protagonismo na arrecadação das tarifas e na fiscalização. A tendência é que funcionários do Metrô que hoje exercem essa função sejam deslocados ou demitidos. “A fiscalização é um grande problema. Acho que o governo não tem controle sobre o que ocorre na arrecadação das rodovias. A Artesp (Agência Reguladora do Transporte do Estado) é um grande escritório de advocacia das empreiteiras”, dispara o deputado. (RGT)

Brasil de Fato

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Os obstáculos para ser professor

Ricardo Carvalho

Apesar do piso nacional, a profissão não é valorizada e é pouco procurada pelos pré-universitários

Entre setembro e outubro de 2009, três estudos foram divulgados com o objetivo de traçar um panorama da situação salarial dos professores da Educação Básica no Brasil. O primeiro deles foi encomendado pela Unesco às pesquisadoras Bernadete Angelina Gatti e Elba Siqueira de Sá Barreto, da Fundação Carlos Chagas. No mesmo mês, um segundo levantamento foi realizado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), com foco no pagamento recebido por professores em início de carreira. Já em outubro, o Ministério da Educação (MEC) comparou os vencimentos do magistério público entre 2003 e 2008.
A principal conclusão da pesquisa do MEC foi que houve um aumento do salário médio dos professores da Educação Básica pública. Em 2003, o valor médio era de 994 reais, em comparação aos 1.527 reais obtidos em 2008. Foram utilizados dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o estudo, que é separado por estados, no Distrito Federal é onde se paga melhor aos professores, com renda média em 3.360 reais. Na outra ponta da tabela está Pernambuco, onde a média de rendimento é de 982 reais, a mais baixa do País. O valor pago pelo DF está muito acima da média nacional, pese que o segundo colocado, o Rio de Janeiro, paga 2.004 reais em média ao magistério, e o terceiro, o estado de São Paulo, 1.845 reais em média. Entretanto, o estudo revela que, entre os 26 estados e o DF, 16 têm salários abaixo da média nacional. Esses estados estão concentrados nas regiões Norte e Nordeste. Porém, na Região Sul, Santa Catarina (1.366 reais) paga abaixo. No Sudeste, por sua vez, Minas Gerais e Espírito Santo (1.443 e 1.401 reais, respectivamente) estão na mesma situação. As informações se referem a uma jornada semanal de 40 horas.
Para o presidente da CNTE, Roberto Franklin de Leão, os dados do MEC podem ser contestados. “Falar em média é muito complicado, porque os poucos estados que pagam mais puxam o restante para cima”, relata. A pesquisadora Bernadete Gatti faz a mesma crítica: “Em uma classe, se um aluno tira nota zero e o outro nota 10, a média é 5. A média camufla demais a situação”. Roberto de Leão defende que a questão da composição salarial também tem de ser levada em conta. “Há uma diferença entre salário e remuneração. Muitos estados completam os pagamentos com abonos e gratificações.” Segundo o levantamento da CNTE, o salário de início de carreira para um professor com licenciatura plena e que trabalhe 40 horas por semana em Mato Grosso do Sul é de 1.496,25 reais. Porém, com as gratificações, esse valor chega a 2.394 reais. A CNTE afirma que, ao fazer isso, os estados desvalorizam a carreira, uma vez que, em caso de aumento salarial, a promoção incide apenas sobre o vencimento. “Ocorre o risco de um piso salarial transformar-se em teto, o que torna a carreira do docente inviável. Se o professor for, por algum problema, aposentado, também não se incorporam essas gratificações nas aposentadorias”, conclui Roberto de Leão.
Outro problema apontado por Bernadete é que os planos de carreira dos estados e municípios, quando existem, não são atrativos para os profissionais. “Em muitos casos, os planos são simplistas e colocam um valor final muito próximo ao da remuneração inicial”, relata. Nesse sentido, o estudo do MEC conta com uma tabela em que apenas professores com nível superior completo ou incompleto são considerados, numa média de, aproximadamente, 14 anos de escolaridade. Se comparado com os dados fornecidos pela CNTE para profissionais com licenciatura curta, há uma proximidade entre o salário inicial e a média em alguns estados. No Ceará, por exemplo, a média indicada pelo MEC é de 1.249 reais, enquanto a remuneração de início de carreira é de 1.092,27 reais.
Escolaridade aumenta a renda
No relatório Professores do Brasil: Impasses e desafios, Bernadete e Elba ressaltam a heterogeneidade das políticas salariais de docentes no País e as inúmeras variáveis que devem ser levadas em conta para compreender a situação de remuneração desses profissionais. Primeiro, é preciso diferenciar todas as etapas da Educação Básica. Professores que ensinam na educação infantil e Fundamental têm salários menores do que seus colegas de Ensino Médio. Com dados da PNAD 2006, as autoras constataram que a média salarial na Região Sudeste de um professor em atividade na educação infantil é de 809 reais, enquanto, nos anos do Ensino Médio, o valor é de 1.066 reais. Do mesmo modo, no Nordeste, as médias dos ensinos infantil e Fundamental são 390 e 585 reais, respectivamente, e de 1.180 reais no Ensino Médio.
Uma segunda questão a ser levada em conta é a escolaridade dos profissionais. No Ensino Fundamental, docentes com até oito anos de escolaridade, ou seja, os professores que têm apenas o Ensino Médio completo, ganham no Sudeste 429 reais em média. Já a média de profissionais que estudaram de 12 a 14 anos é de 690 reais, valor que sobe para 1.151 para pessoas com até 17 anos de escolaridade. As autoras afirmam que as sucessivas graduações pesam positivamente nos vencimentos, o que indica uma coerência com os planos de carreira.
Por último, o cálculo das medianas permite entender a situação salarial da maioria dos docentes em cada região. A mediana é o ponto em que 50% do total dos entrevistados se situa abaixo de um determinado valor. Por exemplo, a média salarial, segundo a PNAD 2006, de um professor do Ensino Fundamental na Região Norte é de 870 reais, enquanto a mediana é de 750 reais. Isso significa que 50% dos professores dessa região ganham menos que 750 reais. Um profissional na mesma situação na Região Sul tem como média de rendimento 1.018 reais e uma mediana de 850 reais. Para Roberto Franklin de Leão, a avaliação das medianas permite constatar que a grande maioria dos professores da Educação Básica ganha abaixo das médias.
No estudo, as autoras comentam que a complexidade e a heterogeneidade da situação salarial dos professores devem-se, entre outros fatores, à organização descentralizada no que diz respeito a políticas de remuneração no País. “Há no País 5.561 municípios, 26 estados e um Distrito Federal, cada qual com seus sistemas de ensino e regulamentações próprios”, escrevem. Apesar disso, Bernadete Gatti se posiciona contra a centralização das atribuições da educação. “A União deve exercer um papel regulador e complementador. Mas é impossível falar em uma política única para a educação em um país tão diverso como o Brasil.” A pesquisadora lembra que em alguns países com melhores condições de remuneração para professores, como Argentina e Estados Unidos, as políticas salariais também são descentralizadas.
Profissão menos valorizada e procurada
O aumento salarial registrado pelo MEC coloca a carreira do magistério mais bem remunerada em quase 600 reais do que a média dos trabalhadores brasileiros, segundo revelou o jornal O Estado de S. Paulo. Porém, comparada às outras profissões com exigência de nível superior, a média salarial dos docentes é bem inferior. Segundo o estudo de Bernadete e Elba, o rendimento médio mensal de arquitetos é de 2.018 reais, enquanto o do magistério se aproxima de 1.200 reais. O valor pago aos professores também é inferior quando comparado com biólogos (1.791 reais); enfermeiros (1.751 reais) e farmacêuticos (2.212 reais). O cálculo foi realizado para jornadas de 40 horas por semana.
A desvalorização da carreira do docente na Educação Básica é refletida na procura por cursos de Pedagogia e Licenciatura, como Letras e Matemática. “Entre 2001 e 2006, houve um aumento de 97% na oferta de cursos de Pedagogia no País, porém, o número de matriculas aumentou apenas 27%”, explica Bernadete. Para se ter uma ideia, as inscrições para o curso de Pedagogia da Universidade de São Paulo, no campus da capital, caíram de 3.310 na Fuvest 2006 para 1.380 na edição 2009 do vestibular. Para a pesquisadora, os cursos de Licenciatura são pouco valorizados nas universidades e tratados como de menor importância. “Há falta de materiais adequados e o número de aulas exigidas é cada vez menor”. Bernadete afirma que a desvalorização da carreira pelas redes de ensino municipal, estadual e as próprias universidades e a representação do trabalho do professor como vocação, e não uma profissão, são fatores que contribuem para a queda da procura e para os baixos salários.

Carta Capital na Escola

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Em 2009, Agroindústria recuou 4,9%

IBGE

Resultado foi inferior ao de 2008 (1,7%), mas ficou acima da indústria geral (-7,4%). A retração da agroindústria em 2009 deve-se à crise econômica mundial e à seca na Região Sul, acarretando redução da safra de 2009 (-8,3%) e dos investimentos em máquinas e equipamentos agrícolas (-28,7%), em adubos e fertilizantes (-2,1) e em defensivos agropecuários (-15,7%).

Em 2009, a agroindústria brasileira recuou 4,9%, resultado inferior ao assinalado em 2008 (1,7%), porém superior ao registrado pela média da indústria geral (-7,4%). Os setores vinculados à agricultura (-5,2%), que têm maior peso na agroindústria, recuaram mais intensamente que os setores associados à pecuária (-1,1%). O grupo inseticidas, herbicidas e outros defensivos para uso agropecuário também recuou (-15,7%), assim como o segmento madeira, (-13,0%).

A agroindústria apresentou resultados negativos nos quatro trimestres de 2009: (- 6,7%) no primeiro, (-4,2%) no segundo, (- 5,9%) no terceiro e (-2,8%) no quarto.

Ambos os semestres apresentaram quedas: (-5,3%) no primeiro e (-4,5%) no segundo. A queda menos intensa no segundo semestre deveu-se à melhora da pecuária, que cresceu 1,8% nesse período.

A retração (-4,9%) na produção agroindustrial está relacionada à crise econômica mundial, que provocou queda no volume e nos preços de diversos produtos agropecuários exportados. Também influiu a redução da safra de 2009 (-8,3%), com a seca que atingiu a Região Sul e com um menor investimento na lavoura. Assim, houve redução da renda agrícola, que provocou queda do investimento em máquinas e equipamentos agrícolas (-28,7%), em adubos e fertilizantes (-2,1) e em defensivos agropecuários (-15,7%).

O resultado da agricultura em 2009 foi influenciado negativamente pela estiagem, iniciada no último trimestre de 2008, sobretudo na Região Sul, principal produtora do país, e pelo menor uso de adubos e defensivos, que contribuíram para a redução da produtividade e da produção. Segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), a safra de grãos de 2009 foi a segunda maior da história (133,8 milhões de toneladas de grãos), resultado 8,3% inferior à safra recorde de 2008 (146,0 milhões de toneladas).

Em função da crise internacional, houve queda no volume e no preço das commodities agropecuárias exportadas, influindo negativamente no resultado da agroindústria. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (SECEX/MDIC), o volume exportado dos principais produtos da agroindústria teve as seguintes variações em relação a 2008: pedaços e miudezas de aves (-3,4%), carnes de bovinos congeladas (-12,3%), couros e peles de bovinos (-15,2%), álcool (-34,7%), óleo de soja em bruto (-22,3%) e bagaços e outros resíduos da extração do óleo de soja (-0,2%). Por outro lado, aumentaram as exportações de açúcar (24,8%), fumo (4,9%), celulose (16,9%), suco de laranja (0,7%) e grãos de soja triturados (16,6%).

Produtos Industriais Derivados da Agricultura

O setor de produtos industriais derivados da agricultura recuou (-4,0%) em 2009, com resultados negativos em seis dos oito subsetores pesquisados. A queda dos derivados da cana-de-açúcar (-5,9%) é explicada pela redução da produção de álcool (-15,4%), devido ao direcionamento da safra para a produção de açúcar. Essa produção cresceu 4,0%, com a alta dos preços internacionais, em função da queda da safra indiana (segundo maior produtor mundial).

Com isso, as exportações de açúcar subiram 24,8%1, enquanto as vendas externas de álcool recuaram (-34,7%). Outras influências negativas vieram dos derivados da soja (-9,1%), do milho (-2,4%) e do trigo (-4,2%), além do fumo (-2,4%) e da laranja (-9,5%). Já as contribuições positivas vieram de arroz (6,4%), produto direcionado ao mercado doméstico e celulose (0,2%), influenciada pela exportação.

Produtos Industriais Utilizados pela Agricultura

O setor dos produtos industriais utilizados pela agricultura apresentou retração (-12,7%), por conta da queda da fabricação de máquinas e equipamentos agrícolas (-28,7%) e de adubos e fertilizantes (-2,1%). Este segmento foi afetado pela redução da renda agrícola, decorrente da queda do volume exportado e das cotações das commodities agrícolas, e do aumento dos custos no período de plantio da safra de 2009.

Com isso, o investimento em máquinas e equipamentos, e a compra de adubos e fertilizantes, itens fundamentais para o crescimento da produtividade agrícola, foram menores. Além do mercado interno, o setor externo também contribuiu para a queda da produção de equipamentos agrícolas. Conforme estatísticas da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA), houve quedas tanto na quantidade exportada de colheitadeiras (-65,5%), como na de tratores de rodas (-46,3%).

Produtos Industriais Derivados da Pecuária

O setor de produtos industriais derivados da pecuária recuou (-1,2%). Os derivados de aves caíram (-0,7%), devido à redução das exportações, principalmente para a Ásia e União Européia. Os derivados da pecuária bovina e suína tiveram sua produção reduzida (-2,9%), em razão da menor quantidade exportada, com destaque para a Rússia e União Européia. A produção de leite, direcionada ao mercado interno, cresceu 2,7%, enquanto a de couros e peles retraiu-se (-11,3%), com a redução nas exportações.

Produtos Industriais Utilizados pela Pecuária

O setor de produtos industriais utilizados pela pecuária recuou (-0,7%). O grupo rações, de maior peso, teve queda (-4,5%), enquanto o de produtos veterinários avançou 19,1%.

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1 Segundo dados da SECEX/MDIC

IBGE

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Um dever de honra

Rosa Luxemburg

Rosa Luxemburg

Não queríamos "anistia" nem perdão para as vítimas políticas do velho poder reacionário. Exigíamos nosso direito à liberdade, à luta e à revolução para aquela centena de militantes corajosos e leais que definhavam nas penitenciárias e nas prisões por terem lutado, sob a ditadura militar do bando criminoso imperialista, pela liberdade do povo, a paz e o socialismo. Agora estão todos em liberdade. Estamos novamente enfileirados, prontos para o combate. Não foram os Scheidemann e seus cúmplices burgueses, com o príncipe Max1 à frente, que nos libertaram. Foi a revolução proletária que fez explodir as portas de nossas casamatas.

Contudo, outra categoria de habitantes infelizes desses edifícios lúgubres foi completamente esquecida. Ninguém pensou até agora nos milhares de figuras pálidas e macilentas que definham anos a fio atrás dos muros de prisões e penitenciárias expiando crimes comuns.

E no entanto são vítimas infelizes da infame ordem social contra a qual a revolução se dirigiu; são vítimas da guerra imperialista, que levou a miséria e a desgraça aos extremos da mais insuportável tortura; que, ao custo de uma carnificina brutal, desencadeou em naturezas fracas, dotadas de taras hereditárias, os instintos mais vis.

A justiça de classe burguesa funcionou mais uma vez como uma rede que deixa tranquilamente escapar de suas malhas os tubarões rapaces enquanto as pequenas sardinhas nelas se debatem desamparadas. Os especuladores, que ganharam milhões com a guerra, ficaram na sua maioria impunes ou receberam penas pecuniárias ridículas; os pequenos ladrões e as pequenas ladras são punidos com penas de prisão draconianas.

Passando fome e frio nas celas quase sem aquecimento, psiquicamente abatidos pelo horror dos quatro anos de guerra, esses enjeitados sociais esperavam misericórdia e alívio.

Mas esperam em vão. O último dos Hohenzollern, soberano bondoso preocupado em fazer os povos degolarem-se uns aos outros e em distribuir coroas, esqueceu-se dos infelizes. Desde a conquista de Liège não houve durante quatro anos qualquer anistia digna de menção, nem sequer no feriado oficial dos escravos alemães, o "aniversário do Kaiser".

Agora a revolução proletária precisa iluminar com um pequeno raio misericordioso a existência sombria nas prisões e nas penitenciárias, diminuir as sentenças draconianas, abolir o bárbaro sistema disciplinar - correntes, açoites! -, melhorar no que for possível o tratamento e os suprimentos médicos, a alimentação e as condições de trabalho. É uma questão de honra!

O sistema penal existente, profundamente impregnado de um brutal espírito de classe e da barbárie do capitalismo, precisa ser extirpado de vez. É preciso começar imediatamente uma reforma de base do sistema penal. É evidente que uma reforma totalmente nova, no espírito do socialismo, só pode ser estabelecida sobre o fundamento de uma nova ordem econômica e social, pois tanto crimes quanto castigos estão em última instância enraizados nas condições econômicas da sociedade. No entanto, uma medida radical pode ser adotada sem mais: a pena de morte, a maior vergonha do ultra-reacionário código penal alemão, precisa desaparecer imediatamente! Por que hesita o governo dos trabalhadores e soldados? Será que o nobre Beccaria, que há duzentos anos denunciou em todas as línguas civilizadas a infâmia da pena de morte, não existiu para vocês, Ledebour, Barth, Däumig? Vocês não têm tempo, têm pela frente mil preocupações, mil dificuldades, mil tarefas. É verdade. Mas peguem o relógio e olhem quanto tempo leva para abrir a boca e dizer: está abolida a pena de morte! Ou será que entre vocês deveria haver a esse respeito um longo debate com votação? Será que nesse caso vocês também se deixariam enredar num emaranhado de formalidades, considerações de competência, questões de rubricas, carimbos e futricas semelhantes?

Ah, como é alemã esta revolução alemã! Como é prosaica, pedante, sem entusiasmo, sem brilho, sem grandeza. A pena de morte esquecida é somente um pequeno detalhe isolado. Mas é precisamente nesses pequenos detalhes que se trai de costume o espírito intrínseco do todo!

Peguemos qualquer livro de história da grande Revolução Francesa, por exemplo, o árido Mignet. É possível ler esse livro sem o coração palpitante e a fronte em brasa? Quem abriu qualquer página ao acaso pode largá-lo antes de ter ouvido, empolgado, sem fôlego, o último acorde desse grandioso acontecimento? É como uma sinfonia de Beethoven, intensamente poderosa, uma tempestade trovejando no órgão dos tempos, grande e soberba, tanto nos erros quanto nos acertos, tanto na vitória quanto na derrota, tanto em seu primeiro grito ingênuo de júbilo quanto em seu último suspiro. E o que acontece agora na Alemanha? A cada passo, pequeno ou grande, sente-se que são sempre os velhos e bem comportados companheiros da defunta social-democracia alemã, para quem os carnês de filiação eram tudo, os homens e o espírito, nada. Não devemos nos esquecer contudo que não se faz história sem grandeza de espírito, sem pathos moral, sem gestos nobres.

Liebknecht e eu, ao deixarmos os hospitaleiros espaços onde vivemos ultimamente - ele, seus irmãos de penitenciária, de cabeça tosada, eu, minhas pobres queridas ladras e mulheres da rua com quem vivi três anos e meio debaixo do mesmo teto - nós lhes prometemos solenemente, enquanto nos acompanhavam com o olhar triste: não os esqueceremos!

Exigimos do Comitê Executivo dos conselhos de operários e soldados um abrandamento imediato do destino dos prisioneiros em todos os cárceres da Alemanha!

Exigimos a supressão da pena de morte do código penal alemão!

Durante os quatro anos de genocídio imperialista o sangue correu em torrentes, em riachos. Agora é preciso guardar respeitosamente cada gota dessa seiva preciosa em recipientes de cristal. A mais violenta atividade revolucionária e a mais generosa humanidade - este é o único e verdadeiro alento do socialismo. Um mundo precisa ser revirado, mas cada lágrima que cai, embora possa ser enxugada, é uma acusação; e aquele que, para realizar algo importante, apressadamente e com brutal descuido esmaga um pobre verme, comete um crime.

Die Rote Fahne (Berlim), nº3, 18 de novembro de 1918.

Tradução: Isabel Loureiro

NOTAS

1 Em 3 de outubro de 1918 o príncipe Max de Bade foi nomeado chanceler, tendo formado um governo parlamentar com o objetivo de paralisar o movimento revolucionário na Alemanha, salvar as classes dominantes e negociar com a Entente. Faziam parte do governo, entre outros, o líder da bancada do partido do Centro, Adolf Gröber, Friedrich von Payer como representante do Partido do Progresso, Philipp Scheidemann e Gustav Bauer como representantes da social-democracia.

Fundação Lauro Campos

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A beleza insolente de Capri

Para os que nela viveram ou a visitaram, Capri sempre representou alguma coisa "diferente", um lugar onde natureza e beleza se encontram, onde o mito e a história, ainda hoje, falam alto

TEXTO E FOTOS: LAMBERTO SCIPIONI

No mar Tirreno, em frente às cidades de Nápoles e Salerno, um imenso rochedo emerge de águas que têm a cor do azul mais puro. É Capri, a joia mais bonita do Mediterrâneo, ilha cantada desde a antiguidade pelos maiores poetas que a humanidade já conheceu.

Se existe um lugar badalado na Itália, sobretudo entre junho e setembro, esse lugar é a ilha de Capri. Pequenina, mede 6 quilômetros de extensão por 2 quilômetros de largura - equivale a pouco mais da metade de Fernando de Noronha. Lá vivem cerca de 13 mil moradores, divididos entre suas duas cidadezinhas, Capri e Anacapri. Rodeada pelo atrativo verde-esmeralda do Mediterrâneo, a ilha ferve de gente bonita e elegante, lojas descoladas, restaurantes badalados, tudo muito caro. Mas o que há de melhor é de graça: belíssimas paisagens.

Do alto, sentido horário, o belvedere de Capri; barraca de frutas; terraço e parte do salão de uma loja de perfumes; butique de joias produzidas com coral vermelho. Esses três artigos fazem parte da produção artesanal tradicional da ilha e desfrutam de renome internacional.

Dentro de Capri, o tráfego de veículos é restrito. Nas vias de acesso, circulam ônibus e táxis.

Diferentemente de Ischia e Prócida, as outras ilhas da região, Capri não é de origem vulcânica, mas calcária, e constitui o derradeiro prolongamento do sistema montanhoso da Península Sorrentina. De longe, já se pode notar a exuberante vegetação da ilha, tipicamente mediterrânea, que dá à paisagem um aspecto sempre vivo e sorridente, inclusive nas estações frias. A fauna permanente da ilha, tanto a terrestre quanto a marinha, inclui muitos tipos de pássaros não migratórios, entre os quais as gaivotas gigantes e répteis como o raríssimo lagarto azul dos faraglioni (rochedos muito íngremes que emergem do mar como altas torres, e que se tornaram um dos símbolos de Capri).

Do belvedere em Anacapri desfrutase de um dos mais belos panoramas do mundo. À beiramar, a Gruta Azul tornou-se ícone internacional de beleza natural. A incrível cor turquesa no interior da gruta provém do reflexo da luz do sol na areia branca que existe no fundo dela.

O IMPERADOR ROMANO CÉSAR AUGUSTO FOI O PRIMEIRO A DESCOBRIR O CHARME DE CAPRI, QUANDO A VISITOU NO ANO 29 ANTES DE CRISTO. FICOU TÃO SEDUZIDO QUE A QUIS PARA SI

É difícil estabelecer quando e como nasceu o mito de Capri. Para aqueles que viveram na ilha, ou a visitaram, é quase impossível encontrar, no mundo todo, outra ilha do tamanho de Capri que tenha testemunhado tantos eventos dramáticos e hospedado tantos personagens ilustres.

O imperador romano César Augusto foi o primeiro a descobrir o charme de Capri, quando a visitou no ano 29 antes de Cristo. Ficou tão seduzido que a quis para si. Em troca dela, ofereceu à sua proprietária - a cidade de Nápoles - outra ilha, Ischia, muito maior e mais fértil. Seu sucessor, o imperador Tibério, também sucumbiu diante dos encantos de Capri, e nela lançou um intenso programa de construção civil entre os anos 27 e 37 depois de Cristo. Desse programa resultaram 12 grandes vilas imperiais. As ruínas de duas delas ainda podem ser visitadas. Mas, antes de César Augusto e Tibério, no século 8 antes de Cristo, os gregos já tinham se instalado em Capri. Sobrevivem ainda hoje as muralhas fortificadas da antiga Acrópole grega como testemunha da sua presença na ilha.

Do alto, sentido horário, a prainha de marina piccola; o teleférico no alto do monte solaro; um prato de frutos do mar pescados nas águas ao redor da ilha; a marina Grande, onde aportam lanchas e veleiros de todo o mundo

Mais perto dos nossos tempos, é imenso o elenco de artistas, intelectuais, escritores, exilados, ricos e excêntricos visitantes que, a partir do século 19, a escolheram como residência habitual ou lugar de férias. Entre eles podemos recordar o poeta chileno Pablo Neruda e a escritora Isabel Allende, o filósofo francês Jean-Paul Sartre, o escritor russo Máximo Gorki, o exilado Lênin, o poeta alemão Rainer Maria Rilke, os escritores Oscar Wilde, Graham Greene, Joseph Conrad, David Herbert Lawrence. Junto a tantos outros, eles ajudaram a criar aquela multicolorida e cosmopolita colônia internacional que tornou famoso o nome de Capri em todo o mundo.

Em Capri, a cultura do acolhimento e da hospitalidade é proverbial e, por isso, os padrões da oferta turística são muito variados e abundantes, conseguindo satisfazer uma ampla gama de hóspedes à procura de silêncio, de autenticidade e de boa cozinha - famosa sobretudo por pratos como o misto di pesce (fritura de peixe e frutos do mar), a salada caprese e a torta de amêndoas.

Capri também significa moda e artesanato. Ainda são numerosos os ateliês e alfaiatarias artesanais que, desde os anos 50, vestiram as mais célebres personagens do mundo da cultura e do espetáculo, como Jacqueline Kennedy, Grace Kelly e Clark Gable, para citar apenas alguns.

EM CAPRI, A CULTURA DO ACOLHIMENTO E DA HOSPITALIDADE É PROVERBIAL. A BOA COZINHA É FAMOSA SOBRETUDO POR PRATOS COMO O MISTO DI PESCE (FRITURA DE PEIXE E FRUTOS DO MAR), A SALADA CAPRESE E A TORTA DE AMÊNDOAS

O patrimônio histórico espalhado no minúsculo território é constituído principalmente pelas ruínas romanas da Villa Jovis e da Villa Damecuta, ambas residências do imperador Tibério, que escolheu a ilha para sua morada entre 27 e 37 depois de Cristo, e do mosteiro de San Giacomo, construído no século 14. Capri é sobretudo um lugar onde se podem fazer esplêndidos e longos passeios a pé, em silêncio, por caminhos que ladeiam vinhedos e jardins onde a flora natural mediterrânea é luxuriante em todas as estações do ano.

Os reflexos transparentes que exaltam e tornaram famosa a Gruta Azul, conhecida já nos tempos de Tibério, ainda são bem visíveis e iluminam não apenas essa gruta, mas várias outras disseminadas pelo litoral da ilha e nas proximidades dos faraglioni, que hoje viraram emblema de Capri.

Acima, a galeria em colunas que leva à Villa san michele é ladeada por estátuas e bustos gregos e romanos autênticos de personagens célebres. a residência caprese do escritor axel munthe é hoje um museu aberto à visitação.

Ao sul da Villa San Michele, onde viveu o escritor Axel Munthe, se eleva o monte Barbarossa, no cume do qual foi construído o "Castelo Barbarossa" (Barba Ruiva). Toda a área do monte e da reserva natural que o circunda constitui uma etapa importante para pássaros migratórios que viajam das zonas de nidificação no continente europeu para os territórios de invernada na África. No passado, os habitantes de Anacapri praticavam uma caça intensa a esses pássaros migratórios. Grandes festas aconteciam nesses períodos, caracterizadas por uma gastronomia à base desses pequenos pássaros caçados com redes. Foi para protegê-los que, em 1904, Axel Munthe comprou o monte inteiro e o transformou em propriedade privada. O castelo, que abriga hoje a Estação Ornitológica de Capri, é da época bizantina, mas deve seu nome ao navegador e pirata turco Keireddin, chamado "Barbarossa", que viveu no século 16.

AO SUL DA VILLA SAN MICHELE, ONDE VIVEU O ESCRITOR AXEL MUNTHE, SE ELEVA O MONTE BARBAROSSA, NO CUME DO QUAL FOI CONSTRUÍDO O "CASTELO BARBAROSSA" (BARBA RUIVA). TODA A ÁREA DO MONTE É HOJE UMA RESERVA NATURAL


Acima, à direita, trecho de uma estreita rua de Capri. Na foto ao lado, aspecto da piazzetta, a zona mais badalada da cidade. Na página oposta, fachada do hotel Quisisana, onde se hospedam algumas das maiores celebridades do mundo.

Estudos ornitológicos sistemáticos foram introduzidos em Capri em 1956, pela Sociedade Ornitológica da Suécia. Desde o início dos anos 1980, ornitólogos italianos e de outras nacionalidade também trabalham ali.

De resto, a hospedagem é abundante em Capri. Os grandes hotéis, como o famosíssimo Quisisana, são luxuosos e caros. Mas nas cidadezinhas da ilha existem muitas locandas (um tipo de pousada) simpáticas que cobram tarifas razoáveis.

O centro da badalação em Capri é, ainda e sempre, a piazzetta, a Piazza Umberto I, uma pracinha cheia de charme e de bares e restaurantes com mesas na calçada. Dela partem várias ruas e ruelas estreitas, ainda com características medievais, nas quais se sucedem as butiques e as lojas de artesanato. Coração da vida mundana de Capri, a piazzetta "ferve" o ano todo. Se você estiver lá para um drinque, não se assuste ao ver passar, mão na mão, Brad Pitt e Angelina Jolie, o rei Abdullah da Jordânia e sua belíssima consorte, a rainha Rania, Nicolas Sarkozy e Carla Bruni. Capri é lugar de lua de mel. Até para quem vai lá sozinho.

Revista Planeta

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Dentro de um mundo cúbico

Microlevantamentos de biodiversidade

Edward O. Wilson
Foto de David Liittschwager

Dentro de um mundo cúbico

Mais de mil formas de vida, nos mais variados tipos de ambiente, são possíveis dentro de um pé cúbico.

Quando enfiamos uma pá na terra ou arrancamos um pedaço de coral, agimos como deuses, recortando um mundo inteiro. Cruzamos uma fronteira oculta da qual muito poucos têm ideia. Ao alcance de nossas mãos, ao redor de nossos pés, está a parte menos explorada na superfície do planeta - o local mais crucial para a manutenção da vida humana.

Em qualquer hábitat, no solo, no dossel da floresta ou na água, nosso olhar é atraído primeiro para os animais maiores - ave, mamífero, peixe, borboleta. Mas aí, pouco a pouco, as criaturas menores, bem mais numerosas, começam a ocupar o centro de nossa atenção. Miríades de insetos arrastam-se e zunem entre a vegetação - vermes e outras criaturas irreconhecíveis que se contorcem ou disparam em busca de refúgio quando reviramos a terra do jardim para plantar algo. Quando levantamos uma pedra, há muito mais: aracnídeos e inúmeras outras pequenas criaturas desconhecidas de todo tipo se esgueiram entre camadas de fungos filamentosos. Minúsculos besouros fogem da luz repentina enquanto tatuzinhos se enrolam, formando bolas defensivas. Centopeias e lacraias se espremem nas frestas e nos buracos mais próximos.
Pode parecer que todo esse conjunto de criaturas nojentas, e os ambientes miniaturizados em que vivem, nada tenha a ver com as questões humanas. No entanto, os cientistas descobriram que exatamente o oposto é verdadeiro. Ao lado de bactérias e outros micro-organismos invisíveis que circulam e se estabelecem em torno dos grânulos minerais no solo, essa minúscula fauna é essencial para a vida na Terra.
O terreno que ela habita não é apenas uma matriz de terra e detritos. Todo o hábitat do solo está vivo: as criaturas criam todas as substâncias que circulam em torno dos grânulos inertes.
Se todos os organismos desaparecessem de qualquer um dos espaços cúbicos mostrados nas fotos, o ambiente ali logo se transformaria de maneira radical. As moléculas do solo ou do leito fluvial se tornariam menores e mais simples. Mudariam as proporções de oxigênio, dióxido de carbono e outros gases existentes no ar. De maneira geral, um novo equilíbrio físico seria alcançado, no qual o ambiente do cubo se assemelharia a um planeta remoto e estéril.
A Terra é o único planeta que tem uma bios-fera. Essa fina camada de vida é o nosso único lar, e apenas ela é capaz de manter o ambiente como é necessário para permanecermos vivos.
A maioria dos organismos da biosfera, e a imensa quantidade de suas espécies, vive na superfície do planeta ou logo abaixo dela. Através de seus corpos ocorrem os ciclos de reações químicas essenciais para a manutenção da vida. Com uma precisão que supera nossas tecnologias mais avançadas, algumas espécies digerem os restos de animais e plantas mortas que se acumulam no solo. Predadores e parasitas especializados devoram esses organismos e, por sua vez, servem de alimento a outros especialistas de padrão mais elevado. Todos eles, participando juntos de uma cadeia ininterrupta de nascimento e morte, devolvem às plantas os nutrientes necessários para que continuem fazendo a fotossíntese. Sem a ação adequada de todos esses elementos, a biosfera deixaria de existir.
Portanto, todos nós dependemos dessa biomassa e dessa biodiversidade, e isso abrange todos os insetos. No entanto, a despeito desse papel vital, a vida ao nível do solo permanece desconhecida, até mesmo para os cientistas. Por exemplo, já foram identificadas cerca de 60 mil espécies de fungos, incluindo cogumelos e bolores, mas os especialistas estimam que existam mais de 1,5 milhão de espécies desse tipo no planeta. Ao lado deles no solo prosperam alguns dos animais mais abundantes do mundo, os nematódeos, que são vermes cilíndricos. Eles incluem, entre muitas outras formas, os verminhos quase invisíveis encontrados por toda parte bem debaixo de nossos pés. Dezenas de milhares de espécies de nematódeos foram identificadas, mas a quantidade de todas elas pode ser da ordem de milhões. Tanto os fungos como os nematódeos, porém, são superados dramaticamente por organismos ainda menores. Em uma pitada de terra de jardim, pesando em torno de 1 grama, proliferam milhões de bactérias, de milhares de espécies - a maioria desconhecida.
As formigas, com mais de 12 mil espécies descritas em todo o mundo (e o grupo no qual me especializei como naturalista), estão entre os insetos mais bem estudados. Todavia, uma estimativa razoável seria a de que há, na realidade, o dobro ou mesmo o triplo de espécies. Em 2003, concluí uma pesquisa sobre as "formigas-cabeçudas" no hemisfério ocidental, um gênero (Pheidole) que inclui o maior número de espécies conhecidas e está entre as formigas mais abundantes. Ao término do estudo, após 18 anos de pesquisas intermitentes, consegui identificar 624 espécies. A maioria delas, 337, era novidade para os cientistas.
Descobri que uma das menores delas se alimenta de ácaros oribatídeos, que, em geral, são bem menores que as letras desta página e parecem uma mescla de aranha e tartaruga. Os oribatídeos estão entre as mais abundantes criaturas dessas dimensões no solo. Um desses cubos pode conter milhares de espécimes.
A vida ao nível do solo não é apenas uma mistura aleatória de espécies, uma confusão de fungos, bactérias, vermes, formigas e todo o resto. As espécies de cada grupo estão estratificadas de acordo com a profundidade. Quando passamos da superfície para as camadas inferiores, as condições do microambiente se alteram de modo gradual mas dramático. A cada polegada em que nos aprofundamos se notam mudanças na luz e na temperatura, no tamanho das cavidades, na química do ar, do solo e da água, no tipo de alimento disponível. A combinação dessas propriedades, até um padrão microscópico, é o que define o ecossistema da superfície. Cada espécie especializa-se de modo a sobreviver e melhor reproduzir-se em seu nicho.
Os estudos sobre o solo, em especial os da biologia no nível superficial, estão se tornando um dos principais ramos da ciência. Hoje as bactérias e outras formas de vida microscópicas podem ser facilmente identificadas pela decodificação de seu DNA. Os ciclos vitais de insetos e outros invertebrados estão sendo esmiuçados em pesquisas tanto de campo como de laboratório. Espécie após espécie, suas necessidades físicas e nutricionais estão sendo conhecidas. A Encyclopedia of Life ("Enciclopédia da Vida"; acessível em eol.org) vem reunindo informações, disponibilizando-as de graça.
Esse mundo de pequenas dimensões aguarda ser explorado. À medida que a fauna e a flora da superfície são examinadas com mais atenção, os mecanismos interligados da vida estão se delineando com detalhes cada vez maiores e mais surpreendentes. Com o tempo, vamos conseguir apreciar os magníficos ecossistemas minúsculos pelos quais devemos nos responsabilizar.

National Geographic

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NO FIO DA NAVALHA

Robert Kurz

Carta aberta às pessoas interessadas na EXIT! na passagem de ano 2009/2010

Imagina que é a crise económica mundial e ninguém vai nisso. Esta era uma espécie de senha sentida dos ignorantes unidos há um ano exactamente. "Hurra, ainda estamos vivos!", titulava a "Spiegel" doze meses depois. Uma maneira indirecta de conceder que a queda fora maior do que se tinha então admitido; mas também um grito de triunfo prematuro, porque novamente se julga ter escapado. Não é preciso ter muita imaginação, perspicácia e capacidade de previsão para perceber que a próxima onda-tsunami do terramoto económico global virá com certeza. Após a longa série de desastres financeiros de vários tipos desde a década de 1980, o processo de crise global da 3ª revolução industrial assumiu em 2008 uma nova qualidade, que tem suas formas próprias de evolução. Notável é o novo encurtamento do horizonte da percepção positivista. Os instrumentos "científicos" têm falhado e muito: "Navegamos à vista”, diz o novo Ministro das Finanças alemão, Schäuble. E um gestor de topo da Daimler foi autorizado a anunciar que as perspectivas de planeamento em política de modelos, marketing e estratégias de vendas encolheram de 12 anos para 12 meses.

Apesar de os mega-empréstimos estatais e a nova inundação forçada de dinheiro dos bancos centrais, após o rebentamento das bolhas financeiras, terem substituído apenas parcialmente a falta de substância de valorização real e terem travado o descalabro económico global quando muito para um crescimento de facto zero, especula-se sobre uma estratégia estatal de “saída” logo que tenha tido êxito a putativa “retoma” e os processos autónomos de mercado tenham gerado um novo crescimento. Essa expectativa é totalmente infundada. A propaganda do optimismo institucional, um ano depois do grande crash financeiro, agarra-se aos sucessivos dados trimestrais, cujas percentagens de crescimento se referem ao nível de partida após a queda e encobrem a real situação da valorização do capital global. Daí que exista também na ciência económica e entre os analistas financeiros uma fracção de pessimistas, que não é assim tão pequena, a qual naturalmente partilha os pressupostos burgueses fundamentais, mas regista fortes dúvidas empíricas em relação à gestão da crise alegadamente já bem sucedida. Assim, os cépticos burgueses revelam mais consciência da realidade do que uma determinada parte da esquerda, que recuperou depressa a confiança básica no capitalismo após o primeiro choque, exactamente como os estrategas oficiais do fim de alarme, e gostaria de acreditar que pode regressar à sua agenda habitual.

Na verdade, ou se corta o combustível às finanças públicas e o abandono do endividamento e da política monetária irresponsáveis dá início à próxima queda, ou, inversamente, a tentativa feita pelo Estado de continuar esta substituição da valorização real desencadeia tendências inflacionistas incontroláveis; o que é bem conhecido por todos, mesmo que ninguém queira saber. Isto é especialmente verdadeiro para a China, que em 2009 lançou uma ponte sobre o colapso da sua industrialização para exportação apoiada no investimento ocidental, através da construção financiada a crédito de novas capacidades industriais e de infra-estruturas. Esta expansão mecânica pressupõe que a conjuntura de deficit do Pacífico se reerga dentro de um ano, para que as capacidades adicionais não se transformem em investimentos ruinosos, provocando um crash financeiro especificamente chinês. Mas não se descortina donde poderá surgir, do outro lado do Pacífico, a correspondente nova capacidade de aquisição dos E. U. A. para a corrente de importação unilateral, uma vez que a sua alimentação com poder de compra sem substância obtido das bolhas financeiras está cada vez mais paralisada. É totalmente ilusório pensar que os chineses pudessem agora consumir eles próprios os seus produtos excedentes, ou mesmo absorver os do resto do mundo, como faziam antes os E.U.A. O poder de compra interno da China teve de permanecer estruturalmente muito aquém da capacidade de produção, tal como do outro lado a produção industrial própria dos E.U.A. teve de permanecer aquém do consumo. Essa foi a base de negócios para a interdependência recíproca da economia das bolhas financeiras e da conjuntura global de deficit, que não pode ser revertida no seu contrário por édito estatal.

Mesmo que a simulação da valorização real do capital, agora patrocinada pelo Estado, possa ser sustentada ainda mais algum tempo, ela não irá atingir os níveis observados antes do crash financeiro global, mas apenas gerir a estagnação. Portanto, é inevitável que as consequências sociais do crescimento extremamente reduzido após a primeira onda da nova crise cheguem também à Alemanha em tempo diferido; não apenas sob a forma de um forte aumento do desemprego em massa em 2010 e 2011, mas também como nova extensão do sector de baixos salários e como desmontagem social agravada pela administração de crise. Os planos de redução de impostos do governo preto-amarelo, determinados pela sua política clientelar, baseiam-se unicamente na crença no milagre de um panorama de crescimento auto-sustentado, situação em que tal política deveria ser financiada automaticamente. Quer essa política fiscal aventureira seja agora implementada, quer se desmorone na balbúrdia da coligação, em qualquer caso é de esperar que os serviços estaduais e municipais, o mais tardar depois das eleições regionais na Renânia do Norte-Vestefália, sejam dramaticamente reduzidos ou encarecidos, para esconder por algum tempo a crise crescente das finanças estatais. Devido à dimensão já atingida pela dívida pública, no entanto, as tradicionais medidas de poupança há muito deixaram de ser suficientes; para já não dizer que elas iriam estrangular ainda mais o esperado crescimento.

Em todo o mundo os Estados, de repente invocados de novo como deus ex machina, encontram-se perante o mesmo dilema, ainda que a situação de cada um nas relações de mercado global seja completamente diferente, tendo em conta a enorme diferença no nível histórico de acumulação. A reprodução económica e social do capital mundial está mesmo no fio da navalha e, no contexto de encadeamento global, nenhuma região do mundo está livre do ulterior desenvolvimento da crise.

A teoria radical da crise representada pelo contexto EXIT! vai acompanhar este desenvolvimento, como até agora, com análises e comentários; além disso, é importante levar a cabo projectos relevantes de teorização da crítica da economia política e de debate da teoria da crise. Porém, não se pode tratar apenas do limite interno objectivo do capital. Desde a sua fundação, o contexto EXIT! tem tentado suplantar algumas deficiências da antiga crítica do valor. Trata-se, por um lado, da relação entre a crítica radical das modernas formas de fetiche e a análise social. Esta última só pode ser denunciada como "sociologismo" se for jogada contra a crítica da forma. Inversamente, a crítica do contexto da forma basilar permanece pobremente abstracta, se não for mediada por uma análise concreta, quer das posições sociais constituídas pela relação de capital, quer do seu desenvolvimento histórico. A situação não é de modo nenhum que sejamos todos imediatamente iguais, perante o valor como perante a morte, e que o limite interno objectivo da valorização se tenha erguido frente a uma massa indiferenciada de átomos sociais completamente iguais. A individualidade geral e abstracta significa apenas um nível de relações e da sua reflexão; mas a dissociação sexual, a estratificação social no contexto funcional capitalista em processo e as exclusões permanentes de vários tipos apontam para outro nível não negligenciável, não menos relevante precisamente na situação agravada de crise e de decadência. Ambos os momentos devem ser considerados em conjunto, como aspectos diferentes da mesma realidade, em vez de fazê-los expressar interpretações superficialmente opostas e unilaterais.

Por outro lado, entretanto, os indivíduos abstractos na sua posição social específica, ou vice-versa, as diferentes posições sociais na sua individualidade abstracta, não executam apenas passivamente a dinâmica objectivada. Pelo contrário, em reacção a esta constituem-se simultaneamente focos de processos de digestão ideológica, pelos quais as formas de desenvolvimento social são activamente influenciadas. Nessa medida, a teoria crítica só pode consistir numa unidade de penetração conceptual da objectividade negativa do fetiche, análise económica do limite interno da crise, análise social das diferentes posições e crítica abrangente da ideologia. Só assim será possível aproximarmo-nos dum entendimento da "totalidade concreta". Este contexto, progressivamente trazido à baila desde há alguns anos pela crítica mais desenvolvida do valor e da dissociação, torna-se arrebatadoramente virulento no decurso da actual crise mundial e da sua percepção. Por isso, na elaboração teórica da EXIT!, além da crítica categorial e da teoria radical da crise, entrou-se na análise crítica não só das formas de consciência e dos paradigmas ideológicos autónomos, mas também das estruturas sociológicas da administração de crise e dos modos de ser e de pensar das chamadas novas classes médias.

O processo histórico de crescente socialização e cientificização da reprodução capitalista tem um conteúdo duplo. Por um lado, ocorre na 3ª revolução industrial um culminar, em que se derrete a substância produtiva do trabalho abstracto e é alcançado o limite interno histórico da valorização; com o resultado daquela economia de bolhas financeiras que vieram inflando por mais de duas décadas, economia que agora foi ao ar e está sendo temporariamente transferida para o crédito público. Por outro lado, entretanto, o mesmo processo já no período fordista (e em estágios iniciais desde o início do século XX) foi acompanhado em termos sociais por uma expansão igualmente maciça de novas e diversificadas classes médias. Essa expansão dos sectores de pesquisa e desenvolvimento, formação e educação, cultura e saúde, comunicações, administração e trabalho social, bem como do aparelho legal da juridificação, tornou-se objectivamente necessária; no entanto, tais sectores não geram, na sua maioria, qualquer valorização real, tendo de ser alimentados, pelo contrário, a partir desta (ou a partir do crédito, como antecipação de mais-valia futura). Estas áreas representam um grau de socialização que o capitalismo agora, na altura da 3ª revolução industrial, já não pode integrar na sua lógica de valorização. Mas os seus portadores estão tão submetidos às formas do trabalho abstracto e da individualidade abstracta como a massa remanescente de trabalho produtivo de capital e as novas classes inferiores caídas fora. Sua posição social de classe média não resulta de meios de produção próprios, mas do "capital humano" das elevadas qualificações académicas ou outras.

Mesmo antes do colapso da conjuntura económica mundial artificialmente alimentada, o dilema da falta de capacidade de financiamento dos "agregados de conhecimento" infra-estruturais já se tinha manifestado na tentativa de privatizar e economificar os sectores em causa, renegando notoriamente o seu carácter, a fim de forçar a sua exploração como potenciais de valorização directa. Esta reacção sistémica levou a processos de precarização, onde o capital humano qualificado foi sendo sucessivamente tão desvalorizado como a mercadoria força de trabalho no seu conjunto. Esta tendência agrava-se nas formas qualitativamente novas de desenvolvimento da crise. A auto-estilização culturalista da intelligentsia das tecnologias de comunicação e da análise de sistemas, e não só, como uma espécie de "boémia" descontraída, assume os traços desagradáveis de um declínio social real. Decisivo é como este processo é digerido na consciência. A teoria crítica vive do facto de que a experiência negativa pode levar fundamentalmente a consequências de crítica social radical. Ninguém é obrigado, na crise, a reduzir-se auto-afirmativamente à sua forma capitalista de existência, e a deixar o "capital cultural" de burguesia cultural, em todo o caso ilusório, cair logo abaixo das condições de precarização das posições sociais "inferiores", em vez de pôr fundamentalmente em questão a forma social dominante. No entanto, a gravidade da situação impulsiona as correspondentes ideologias de crise das novas classes médias ameaçadas de queda.

O pensamento do empreendimento científico conforme ao mercado, sugerindo cosmopolitismo com o seu inglês macarrónico e degradando ou asfixiando completamente qualquer reflexão conceptual, assume traços crassamente social-darwinistas e racistas, desde a China (onde o desemprego dos universitários aumenta sem cessar, apesar das taxas de crescimento subsidiado com os pacotes de estímulo económico na ordem dos 13 por cento do PIB) até à Europa. Os casos Sloterdijk, Bolz ou Sarrazin na Alemanha constituem apenas a ponta de um iceberg de ódio acumulado contra a teoria crítica. Esta auto-ilusão intelectual de uma ideologia de elite agarra-se à ideia economicamente insustentável de que a valorização desgastada do capital industrial poderia realmente ser substituída e ultrapassada por uma “valorização do conhecimento”, em que gostaria de preparar-se para uma auto-realização altamente remunerada, como nova classe suporte do capital com potenciais de “autonomia”, mediante a aceitação da pobreza em massa dos “outros”. A negação ingénua da crise e a dominação esperada da crise a favor de posições supostamente privilegiadas combinam com uma consciência clientelar que garantiu o sucesso eleitoral do FDP na Alemanha.

Este desejo de auto-afirmação burguesa dos adeptos precários da chamada "sociedade do conhecimento" com ânsia de reputação bonsai vai até bem dentro da ideologia do movimento e do resto do marxismo académico. Uma vez que o paradigma do “ponto de vista de classe proletário”, perdido o seu potencial histórico de referência, se desvaneceu até à irreconhecibilidade, os segmentos precarizados do capital humano qualificado afirmam-se como sendo a própria base social. Em vez de reflectirem sobre a íntima relação entre a diminuição do trabalho assalariado produtivo de capital, a barreira histórica da crise, a ascensão e a queda das novas classes médias, também partes crescentes da esquerda tendem para uma atitude neopequeno-burguesa. Por isso a crise, apesar da sua nova dimensão, de modo nenhum leva linearmente à passagem do marxismo do movimento operário para a crítica radical do contexto da forma basilar socialmente abrangente. Não é só a reprodução político-económica do capital mundial que está no fio da navalha, mas também a orientação da crítica social emancipatória, cuja mutação numa ideologia de classe média de esquerda habitualmente “flexível” começa a esboçar-se.

Assim, o foco da atenção desvia-se da resistência social contra a administração de crise para concepções alternativas neopequeno-burguesas, que em pouco tempo ganharam espaço em todo o espectro da esquerda complementarmente ao neokeynesianismo. Termos económico-sociais destilados da análise histórica de elementos da reprodução pré-moderna e protomoderna (“economia da dádiva”, “baldio”) são ideologicamente transformados, amalgamados com formas de trabalho social burguês (“voluntariado”, “ajuda de bairro”) e feitos passar pela perspectiva pós-capitalista de “economia solidária”. É uma mistura de ideias que já grassava no século XIX, que Marx designou com razão como "socialismo reaccionário" e "socialismo burguês". Esta concepção passa ao lado da essência da socialização capitalista e obstina-se nos chamados "modelos" de um modo de vida "diferente", que fogem sistematicamente ao problema da síntese social. Epistemicamente trata-se de uma variante do "individualismo metodológico" burguês. A socialização não é percebida na sua qualidade própria, que só enquanto tal pode ser transformada, mas rebaixada a condições especiais de relacionamento supostamente solidárias, em que a individualidade abstracta não tem de ser suplantada, mas apenas "experimentalmente redefinida”, sem atacar as grandes estruturas reais.

Esta pseudo-perspectiva de bons sentimentos para uma consciência de classe média em queda não tem qualquer efeito prático sobre a relação de capital; mas funciona como construtora de identidade, em termos de uma canção de embalar pequeno-burguesa de fuga ao conflito, que implica o controle social no nível de precarização. Filosoficamente, esta síndrome manifesta-se no facto de a ontologia ser favorecida contra a dialéctica. A ontologia do trabalho abstracto do marxismo do movimento operário não é suplantada, mas afirmada como ideologia do "trabalho imaterial" na forma do valor, ou do “trabalho geral" supostamente fora da forma do valor. Isto é acompanhado por um revivalismo de hipóteses antropológicas fundamentais. A propaganda da "vida boa" é na realidade a apoteose da existência quotidiana burguesa de crise, tanto da masculinidade branca ocidental de classe média “transformada em dona de casa” como da correspondente feminilidade pós-feminista.

O sujeito pequeno-burguês pós-moderno considera-se mais uma vez como “o ser humano” e carrega-se com uma ideologia vitalista da sensibilidade, à semelhança, de resto, com o modo como já preparou o pensamento fascista no fim do século XIX.

A praxeologicamente abunda neste contexto um “pensamento da imediatidade" cujos ressentimentos contra a teoria são óbvios. Neste campo também encontram terreno fértil adicional as bem conhecidas críticas reduzidas ao capital financeiro, com traços de anti-semitismo estrutural, e um “reducionismo ecológico", que reduz a crise à relação imediata com a natureza ou ao esgotamento dos recursos (e, precisamente por isso, já não consegue formular a necessária crítica da destruição da natureza na perspectiva de uma transformação do conjunto da sociedade). A exclusão das cada vez maiores novas classes inferiores é um tema meramente paternalista; na verdade, elas são consideradas como objecto de uma pedagogia de crise ecológica e “da sociedade do conhecimento”, que gostaria de desabituá-las de todas as suas reivindicações. A crítica da dissociação e do valor, se está bem longe de idealizar os pobres como "pessoas melhores" e como sujeitos-em-si, muito menos pode fazer causa comum com o paternalismo de tais ideologias de classe média.

É óbvio que uma “crítica do valor” truncada e aplanada, diluída e enfraquecida, com pendor para o existencialismo e para a ideologia de alternativa, trouxe elementos essenciais a esta síndrome. Portanto, está também no fio da navalha a questão de saber se a crítica do valor e da dissociação representada pela EXIT! consegue afirmar-se como contra-esfera pública teórica, ou se a “falsa imediatidade” de uma filosofia da vida pseudo-crítica do valor e inimiga da teoria consegue usurpar o novo paradigma e injectá-lo impunemente na ideologia do movimento de esquerda. Não se trata de ofertas no supermercado de opiniões. A “virtude da desorientação" ficou finalmente fora de serviço; mais do que nunca são as próprias circunstâncias que exigem uma tomada de posição na área de conflito. Pedimos a todas as pessoas que consideram indispensável uma teorização da crítica da dissociação e do valor para apoiarem este ano a EXIT! nos conteúdos, material e organizativamente.

Robert Kurz pela redacção da EXIT!, Janeiro de 2010

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Crise financeira grega prova ser o maior teste para a zona do euro

Steven Erlanger

O que começou como preocupações a respeito da solvência da Grécia diante de altos déficits, números falsos no orçamento e baixo crescimento, se transformaram rapidamente no teste mais severo da zona do euro de 16 países, em seus 11 anos de história.
A ansiedade em relação à saúde do euro, que se espalhou da Grécia para Portugal, Espanha e Itália, não é apenas uma crise de dívidas, agências de classificação de crédito e mercados voláteis. A questão tem em seu coração elementos de crise política, porque vai ao dilema central da União Europeia: o controle por parte dos Estados individuais sobre a política econômica e fiscal, o que dificulta para a união como um todo exercer a liderança política necessária para lidar de modo eficaz com a crise.

03.10.2005 - Francois
 Lenoir /Reuters

O comissário europeu para Assuntos Econômicos, Joaquín Almunia dá entrevista sobre a crise na Grécia, ele é um ‘pato manco’ (político que não manda mais) devido às mudanças nos cargos

Uma política de avanços por meio de erros pode ser confortável em termos políticos, mas os especialistas alertam que ela pode ter consequências econômicas terríveis. Jean-Paul Fitoussi, professor de economia do Instituto de Estudos Políticos, em Paris, disse que os líderes europeus “lidaram muito mal com esta crise”, alimentando a especulação de mercado e a ganância.
A relação entre dívida pública e produto interno bruto da Grécia não é maior do que a da Alemanha, e a Grécia não deu calote na dívida, ele disse, mas os líderes europeus fizeram muito pouco para acalmar os mercados e as agências de classificação de crédito.
Apesar de ninguém esperar que a União Europeia permitirá que a Grécia ou outros deem calote ou que ocorra um colapso da zona do euro, os líderes europeus e o Banco Central quase certamente flexibilizarão as regras para fornecer garantias ou empréstimos, se necessário. Mas mesmo uma ajuda aos países em dificuldades não solucionará a principal falha do euro: a grande diferença entre as economias nacionais que compartilham uma moeda comum, sem uma coordenação fiscal significativa, muito menos um tesouro único.
“Os desafios diante da zona do euro são muito sérios”, disse Simon Tilford, economista-chefe do Centro para a Reforma Europeia, em Londres. “Para os países que perderam a competitividade na zona do euro e possuem finanças públicas fracas, o ambiente atual é muito perigoso.”

Não ajuda o fato de a União Europeia estar passando por uma grande transição política para novos líderes, uma nova Comissão e Parlamento, e um novo tratado de governo, o Tratado de Lisboa, que cria um novo presidente e um novo chefe de relações exteriores. Mas mesmo se todos esses cargos estivessem preenchidos, ainda restariam sérias dúvidas sobre se a união ou seus principais países membros tomarão a iniciativa antes que ocorra um estrago ainda maior.

De certa forma, há um jogo de quem desiste primeiro, por medo, em andamento, com a Grécia contando com a ajuda e outros países esperando até que Atenas pague um alto preço por sua gastança descontrolada e manipulação das estatísticas. Mas a demora é onerosa e há problemas estruturais mais profundos que poucos querem discutir.

Grécia, Itália, Portugal e Espanha –conhecidos atualmente como PIIGS (porcos, em inglês) se a Irlanda for incluída– são os membros fracos da Europa, com altos déficits estruturais somados a baixas perspectivas do tipo de crescimento econômico e de produtividade que poderia devolvê-los à saúde. A separação norte-sul é em parte geográfica, em parte cultural, em parte religiosa e em parte histórica, mas os sulistas tendem a ser mais pobres e ter economias menos competitivas.

“Os mercados estão se divertindo testando o euro”, disse Nicolas Veron, um membro sênior da Bruegel, um instituto de pesquisa de políticas econômicas em Bruxelas. Mas os mercados também estão aumentando a pressão sobre as maiores economias europeias, como a Alemanha e a França, para encontrarem modos de resgatar a Grécia, que já está enfrentando greves diante das atuais medidas de austeridade, e escorar os outros.

Mas com a União Europeia passando por uma tripla transição política, não está claro de onde virá essa liderança. “Quem está no comando agora?” perguntou Antonio Missoroli, diretor de estudos do Centro de Políticas Europeias, em Bruxelas. “Ainda ninguém, e ainda poderá levar algum tempo.”

Há a recém-nomeada Comissão Europeia e agora um novo presidente europeu, Herman Van Rompuy, e a ministra europeia de relações exteriores, Catherine Ashton. O comissário encarregado desta crise, Joaquin Almunia, é um “pato manco” (político que não manda mais) devido às mudanças nos cargos.

Van Rompuy anunciou um encontro de cúpula econômico informal que ocorrerá na próxima quinta-feira, para fazer com que os países membros se concentrem na crise.

Calote na dívida por parte de um membro da zona do euro é simplesmente inaceitável, dizem as autoridades europeias e os analistas– um país não é um banco. No momento, até mesmo pedir ao Fundo Monetário Internacional para que ajude a Grécia seria considerado embaraçoso demais e ainda não é necessário, dada a aparente determinação do novo governo grego de lidar de forma realista com seus problemas.

Mais provável, segundo eles, é que ocorram empréstimos bilaterais ou garantias de empréstimos por parte de países mais ricos, como a Alemanha. Os líderes na França, Alemanha e outros países europeus já começaram a discutir como uma ajuda dessas seria estruturada, disseram autoridades na semana passada.

“É altamente improvável que seja permitido um calote por parte da Grécia”, disse Missoroli. “Mas ninguém quer dizer isso em voz alta, para não tirar a pressão sobre o governo grego.”

Mas também é sem precedente, e politicamente difícil, para a União Europeia, ou qualquer país membro, impor condições para ajuste econômico a outro país membro, o motivo para alguns analistas pedirem o envolvimento do Fundo Monetário Internacional.

Tradução: George El Khouri Andolfato

The New York Times

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Altiva austeridade

Manuel da Costa Pinto

Morto há 50 anos, Camus resistiu, pela solidariedade da revolta, às promessas e utopias políticas de seu tempo

Comentando a obra do escritor Albert Camus - que morreu há 50 anos, num acidente de automóvel em 4 de janeiro -, o crítico João Alexande Barbosa escreveu:

"Desde Núpcias até a conferência de Uppsala, é possível traçar uma linha de coerência para com o fragmento, que termina por emprestar à obra uma feição incômoda de inconclusão para aqueles que desejam sempre a segurança dos sistemas classificatórios. Para esses, Camus sempre deixou de dizer alguma coisa. O seu mundo não era nem podia ser esgotante porque sobretudo pretendia ser verdadeiro. Feito de sugestões, pesquisas, avanços e recuos, era um mundo dialético por natureza. Se no discurso que pronunciou na Suécia é possível apontar a dimensão de um escritor já amadurecido na sua arte, não é menos possível mostrar a sua fidelidade para com o mundo corajosamente inseguro que construiu. Daí uma espécie de eterno retorno que é constante em sua obra: cada novo livro oferece a possibilidade para melhor compreensão de um anterior. Mas quando esperamos o fechamento do círculo, eis que as cordas se desatam e novamente começa o jogo difícil da procura. Por isso, Jean Starobinski pôde escrever: ‘Camus pertencia menos a seus livros do que à tentativa que lhes sucedia, e que colocava novas questões’."

A obra de Camus sempre girou em torno de alguns temas ou obsessões, examinados a partir de gêneros diferentes: ficção, teatro, ensaio. E cada um deles, por sua vez, recapitula as origens de uma intuição, de uma disposição fundamental, que começa a se delinear em sua Argélia natal.

Camus é conhecido como o "filósofo do absurdo", que teria dado à sua percepção do confronto entre o desejo de clareza do homem e a opacidade do mundo (em O Mito de Sísifo) uma dimensão romanesca e teatral (em livros como O Estrangeiro e A Peste e em peças como Calígula e O Mal-entendido). Essa repartição da obra camusiana é muito semelhante àquela encontrada na obra de Jean-Paul Sartre, também ele um escritor e pensador que abordou temas como consciência e contingência em ensaios ( O Ser e o Nada), romances (A Náusea) e peças ( Entre Quatro Paredes).

Reprodução/Divulgação

Infância : vida pobre, entre banhos de mar, "peladas" em que brilhava

como goleiro e devaneios alimentados pelos livros do tio

Por causa disso, da amizade entre ambos e de certas coincidências intelectuais e biográficas (como a questão do engajamento e a Resistência ao nazismo), Camus se viu a contragosto associado ao existencialismo de Sartre. Enquanto a situação política do pós-guerra sustentou interesses comuns, essa vinculação não foi tão incômoda. Com o acirramento da Guerra Fria, porém, as diferenças se acentuaram, culminando na ruptura entre ambos após a polêmica em torno de O Homem Revoltado, livro de 1951 em que Camus faz uma crítica aos movimentos revolucionários que transformam a história num fim em si mesmo, legitimando a violência em nome da eficácia política - atitude filosófica à qual haviam aderido Sartre e Maurice Merleau-Ponty (este último, ao menos, no livro Humanismo e Terror).

Tais divergências, contudo, não eram apenas de ordem ideológica. É verdade que tanto Sartre quanto Camus escreviam ficção em diálogo cerrado com suas concepções ensaísticas e que a "náusea" sartriana se assemelha ao absurdo - a tal ponto que a própria definição que dele nos dá Camus, em O Mito de Sísifo, faz referência explícita ao filósofo existencialista: "Esse mal-estar diante da inumanidade do próprio homem, esta queda incalculável diante da imagem do que somos, esta ‘náusea’, como a denomina um autor de nossos dias, é também o absurdo".

A diferença fundamental é que aquilo que Sartre denominou de "náusea" é a representação ficcional (no romance homônimo) do movimento da consciência, de sua descoberta da indeterminação do ser em contraste com a viscosa fixidez das coisas, ao passo que Camus cria a "noção de absurdo" depois de ter experimentado o "sentimento do absurdo".

E este, por seu turno, se esboça não a partir de uma pesquisa sobre a estrutura do ser ou da intencionalidade da consciência (como ocorre com Sartre a partir de Husserl e Heidegger), mas de uma sensação de "divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário", que começa a se insinuar nos textos de feição autobiográfica, a meio caminho entre o ensaio e a ficção, que Camus publica na juventude.

Celebrações hedonistas
Nascido em Mondovi (província argelina de Constantine) em 1913, Camus passou a infância em Belcourt, um bairro pobre de Argel, entre banhos de mar, "peladas" em que brilhava como goleiro e devaneios alimentados pelos livros do tio Acault, um açougueiro erudito que lia Balzac, Gide e Valéry.

Essa vida socialmente miserável, porém inundada pela opulência do sol mediterrâneo, acabaria por moldar um temperamento ao mesmo tempo austero e marcado pelo apego físico àquilo que está destinado a desaparecer. Resultam daí seus dois primeiros livros: as ficções breves, quase ensaísticas, de O Avesso e o Direito (1937) e os relatos de Núpcias (1939), sobre suas andanças por cidades da Argélia e da Itália (num registro lírico que ele iria retomar anos depois em O Verão, de 1954).

Entre celebrações hedonistas do mar e da paisagem mediterrânea ("Aqui, compreendo o que se denomina glória: o direto de amar sem medida", escreve ele diante das ruínas romanas de Tipasa, no litoral magrebino), vemos surgir em germe aquele travo do sentimento do absurdo. Camus fala da "confrontação de meu desespero profundo e da indiferença secreta de uma das mais belas paisagens do mundo" ( O Avesso e o Direito) e desse "homem lançado sobre uma terra cujo esplendor e cuja luz lhe falam sem trégua de um Deus que não existe", para então concluir: "Que acordo mais legítimo pode unir o homem à vida do que a dupla consciência de seu desejo de durar e de seu destino de morte?" ( Núpcias).

Tais passagens antecipam O Mito de Sísifo (1943) e sua tentativa de "sistematizar" essas intuições a partir da tonitruante frase inicial - "Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio". É curioso notar que, para tratar de um assunto que no fundo remete a temas do pessimismo clássico (gratuidade, derrelição, disparate), Camus tenha de falar de um gesto extremo como o suicídio, quando poderia se limitar a expor nossa incapacidade para compreender as essências para além das aparências.  

Arquivo Camus/Albert Camus, Vérité et Légendes, Ed. du Chêne

No Brasil, 1949: "Homem lançado sobre uma terra cujo esplendor

e cuja luz lhe falam sem trégua de um Deus que não existe"

Ocorre que "o absurdo não está no homem (…), nem no mundo, mas em sua presença comum", ou seja, no contraste entre nosso "apetite de unidade" e a "hostilidade primitiva do mundo". Portanto, Camus recusa tanto o suicídio (que aboliria o absurdo sem resolvê-lo) quanto as filosofias existenciais (Chestov, Kierkegaard, Husserl, Heidegger, Jaspers) que conduzem à reconciliação com o absurdo e, portanto, ao "suicídio filosófico". Sua conclusão é a aceitação do absurdo como condição humana - mas uma aceitação que não se confunde com resignação: "O absurdo só tem sentido na medida em que não consentimos nele".

"Ponto zero"
Essa tensão perpétua, cuja face luminosa já aparecera nos textos de O Avesso e o Direito e Núpcias, ressurgiria, quase ao mesmo tempo que O Mito de Sísifo, na peça Calígula (em que o imperador, transtornado com a mortalidade e a infelicidade dos homens, torna-se um cruel assassino para rivalizar com a crueldade dos deuses) e no romance O Estrangeiro (em que uma neutra sucessão de episódios conduz o protagonista Meursault à gratuidade de um assassinato cometido "por causa do sol" e ao cadafalso).

Nas anotações reproduzidas em seus Carnets, Camus referiu-se a essa trilogia sobre o absurdo como "ponto zero" de sua obra ficcional e filosófica - que a partir daí vai se desdobrar na vizinhança da história. Vivendo na França, onde participara da luta ao nazismo como editor do jornal Combat, ele escreve Estado de Sítio (peça ambientada na Espanha nos moldes dos autos medievais) e o romance A Peste, no qual a cidade de Oran sitiada pela epidemia é uma alegoria da Resistência, mas também uma fábula cautelar que se aplica a outras formas de hipnose ideológica.

E foi contra o elixir das utopias (e contra o vírus totalitário que estas contêm) que Camus escreveu O Homem Revoltado, libelo político no qual contrapõe a revolução (que "consiste em amar um homem que ainda não existe") à revolta, que consiste em se solidarizar com um homem e com um mundo já existentes.

E como esse homem e esse mundo haviam sido descritos segundo aquela intuição sobre o absurdo, O Homem Revoltado parece sintetizar a complementaridade entre suas obras ficcionais e não ficcionais: "Este ensaio se propõe a prosseguir, diante do assassinato e da revolta, uma reflexão começada em torno do suicídio e da noção de absurdo. O mal que apenas um homem sentia torna-se peste coletiva".

Mas, como afirmou João Alexandre Barbosa, "quando esperamos o fechamento do círculo, eis que as cordas se desatam". Sob o impacto de sua ruptura com Sartre, por causa de O Homem Revoltado, e de sua dilacerante hesitação durante a guerra de libertação da Argélia (filho de operários pobres, Camus não se via na pele do colonizador francês e queria preservar o convívio multiétnico de seu país), ele escreve a novela A Queda, peça de acusação (e de autoacusação) contra a soberba dos guias de consciência, na figura de um "juiz-penitente" que se apresenta como "profeta vazio para tempos medíocres" e expõe suas culpas e vaidades para cancelar qualquer possibilidade de ajuizamento.

Seria o caso de dizer que, após o lirismo dos ensaios de juventude, da tragédia solar de O Estrangeiro e do mundo enclausurado de A Peste, Camus desvela com A Queda os aspectos mais sombrios (porque moralmente ambíguos) da equivalência e da gratuidade impostas às coisas por sua percepção do absurdo. Porém, ao morrer, três anos após receber o Prêmio Nobel de Literatura de 1957 (quando profere a conferência de Uppsala), ele deixava inacabado um romance que de alguma forma retornava a suas raízes mediterrâneas.

Escrito em chave autobiográfica, com várias personagens e passagens identificáveis em sua trajetória pessoal, O Primeiro Homem possivelmente sofreria modificações nas mãos de um autor avesso ao tom confessional. Mas resta dessa peregrinação às origens um ethos que percorre sua obra, a altiva austeridade de uma comunidade de homens indiferentes às promessas e utopias políticas: "incapazes de conceber a vida futura, a tal ponto a vida presente parecia-lhes a cada dia inesgotável sob a proteção das indiferentes divindades do sol, do mar ou da miséria".

Manuel da Costa Pinto, jornalista e autor de Albert Camus - Um Elogio do Ensaio (Ateliê), organizador e tradutor de A Inteligência e o Cadafalso e Outros Ensaios, de Albert Camus (Record). É editor dos programas Entrelinhas e Letra Livre (TV Cultura) e colunista da Folha de S.Paulo.  

Cult

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Boas-novas a granel

Luiz Antonio Cintra

A agricultura brasileira tem uma má notícia para a turma que aposta na alta da inflação e, por consequência, no aumento dos juros ainda neste semestre: o País colherá até junho a segunda maior safra de grãos, leguminosas e oleaginosas da história. Os ganhos de produtividade acumulados nos últimos anos e as chuvas que arrasaram muitas cidades desde novembro passado fizeram bem ao campo, exceto ao arroz gaúcho. Como em outros anos de El Niño, a safra 2009/2010 será gorda. O volume produzido crescerá 7,2% em relação à safra anterior, estima o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, com um aumento na área plantada de 2,1%.

Responsável anualmente por 24% do Produto Interno Bruto (PIB), o peso da produção agropecuária brasileira é considerável. Especialmente no caso do cultivo vegetal, que responde por 71% do PIB do setor, enquanto a pecuária fica com os 29% restantes. Os empregos gerados no agronegócio equivalem a 37% do total.

Ainda que o recorde se mantenha com a safra 2007/2008, o resultado da colheita atual e o cenário para os próximos meses sugerem aos especialistas que a agricultura retomou a sua trajetória de recuperação, como se via antes de setembro de 2008. E que os perío-dos difíceis dos anos de 2004, 2005 e 2006, quando choveu pouco e algumas culturas foram prejudicadas por doenças como a ferrugem, em pouco tempo serão apenas história. A queda das exportações levará algum tempo para ser revertida.

“Embora esse período de crise ainda se reflita até hoje, a situação está melhor agora, e o dólar a 1,85 é razoável. Vamos colher uma safra capaz de abastecer o mercado interno, sem nenhum tipo de pressão de preço”, avalia Luís Carlos Guedes Pinto, vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil. “Em alguns casos, como o do milho, por exemplo, a pressão será baixista, e o governo provavelmente terá de entrar para sustentar o preço de modo a remunerar os produtores.”

Com pouca presença no mercado internacional, o milho brasileiro tem sofrido os reflexos da conjuntura internacional e dos estoques volumosos. Nos EUA, a oferta cresce com rapidez, embalada pelos incentivos aos biocombustíveis, o que contribui para derrubar o preço internacional. Entre as principais commodities, o chamado complexo soja (grãos e itens processados) saiu-se bem, em boa medida devido ao consumo asiá-tico, de modo geral, e chinês, em particular. Em 2009, o total de embarques somou 17,2 bilhões de dólares, praticamente igual aos 18 bilhões do ano anterior. Já as carnes sofreram com a retração da demanda no período pós-crise, especialmente a europeia. Muitos frigoríficos ficaram na mão e repassaram o problema aos pecuaristas, de modo especial na Região Centro-Oeste, onde muitos ainda amargam os prejuízos.

Em alguns casos, as margens ficaram ainda mais apertadas. De acordo com dados do Banco do Brasil, a receita líquida obtida pelos produtores de milho foi de apenas 34% (os de soja conseguiram 60%). Os reflexos desse problema são velhos conhecidos da agricultura nacional. Os resultados ruins desestimulam os produtores, que preferem em muitos casos trocar de cultura, à espera da recuperação dos preços. Esse movimento acaba por derrubar a área plantada na safra seguinte.

A tendência de valorização do real verificada em 2009 também teve papel relevante para aumentar a margem dos produtores. Como o País é um grande importador de fertilizantes, o dólar barato derrubou o preço dos insumos em até 25%. “A demanda pelos insumos e fertilizantes caiu nos primeiros meses após o início da crise, mas o efeito foi principalmente do câmbio, que derrubou os preços. A preocupação maior é justamente com a dependência dos importados. Mudar essa situação levará tempo”, diz Geraldo de Camargo Barros, coordenador científico do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.

Em matéria de preços ao consumidor, Barros recorre a uma série histórica para a sua análise, iniciada em 1970. Desde então, caem em termos reais o preço dos produtos agrícolas pagos aos produtores, os valores cobrados no varejo e mesmo a média mundial. “O que se vê, no Brasil e no mundo, é o reflexo do aumento contínuo da competitividade, que derrubou os preços em até 70%, mas que perderam força a partir de 2000. Foi importante que o Brasil conseguisse sobreviver à queda dos preços, principalmente por ela vir acompanhada de mais protecionismo, de mais concentração em toda a cadeia do setor e de produtividade crescente, o que força os produtores a reduzir custos”, avalia. Os segmentos mais afetados com o aumento da concentração, diz o professor da Esalq, são os de grãos, carnes, etanol e açúcar, em que a atuação das tradings multinacionais é expressiva.

Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), diz acreditar que o setor como um todo sairá melhor do que entrou na crise. “No início de 2009, havia dificuldade para se conseguir crédito e também na comercialização, e isso passou. Esse momento difícil serve para valorizarmos a diversificação da produção brasileira destinada à exportação. Hoje vendemos para a China, Europa, Ásia, Oriente Médio, o que é benéfico.” No caso das carnes, o mercado russo foi o mais atingido pelas turbulências que, entre outras coisas, levaram à falência vários bancos no país. Diante dessa conjuntura, o presidente da Abipecs estima que o Brasil exportará neste ano 607 mil toneladas, número semelhante ao de 2009. No caso do mercado interno, estima-se uma expansão nas vendas de cerca de 5%.

Para o setor agropecuário ganhar musculatura, há uma lista de pendências a ser enfrentada. Guedes Pinto, do BB, chama atenção para a falta de estímulo a mecanismos financeiros de garantia de renda. “Os produtores precisam iniciar o plantio da safra sabendo quanto vão receber pela produção lá na frente. Por isso considero fundamental a disseminação do seguro rural e das operações nos mercados futuros da Bolsa de São Paulo, de modo a minimizar os riscos.” Como as margens são cada vez menores, é preciso aprimorar ainda mais a gestão de suas fazendas, com corte de custos e investimentos em qualidade. Ampliar a produção de fertilizantes (hoje- 90% do potássio, por exemplo, é importado), avançar a regularização fundiária e enfrentar as dificuldades de transporte também será fundamental.

Outro vespeiro que tira uma parcela da produtividade são os armazéns de estocagem. Ao longo dos anos 90, cerca de 70% dos armazéns públicos foram desativados. E os armazéns privados não ocuparam o espaço. Ao contrário do que acontece em outros países, as propriedades rurais brasileiras possuem uma baixa capacidade de estocagem – o BB estima que, da produção total, apenas 15% fique nas fazendas. Na Argentina, o porcentual é de 40% e, no Canadá, de 100%. “Houve uma política deliberada de retirar o Estado dessas atividades, ainda que reconheçamos que havia muitos desvios nas empresas estaduais e federais de armazenamento”, diz Guedes Pinto.

É preciso recuperar esse atraso, dizem especialistas, até para melhorar a competitividade internacional da agricultura- brasileira. As exigências sanitárias e ambientais são crescentes, sem falar nos subsídios generosos dados pelos países ricos. De acordo com a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a participação dos fundos públicos na renda dos agricultores tem sido uma ferramenta importante para ganhar mercados e deter o avanço dos importados. No Brasil, essa fatia é de 5%. Nos EUA, de 18%. Nos países da União Europeia, chega a 34%, enquanto no Japão e na Suíça, dois exemplos extremos, o “colchão público” supera 60%.

“No Brasil, ainda usamos instrumentos menos eficientes, como a compra de estoques para sustentar os preços ou a ampliação dos prazos de pagamento das dívidas rurais, o que sempre sai caro. Por isso defendo a criação de subsídios às operações nos mercados futuros, do mesmo modo que hoje existe o subsídio para o seguro”, afirma o executivo do BB. O montante gasto atualmente no suporte de preços, cerca de 8 bilhões de reais ao ano, é considerado relativamente baixo, diz, dada a relevância do setor na economia brasileira.

Outro embate a envolver o setor diz respeito à legislação ambiental. Os produtores rurais argumentam que, em alguns casos, a lei atropela culturas tradicionais. O plantio de uva na Serra Gaúcha, da maçã em Santa Catarina ou do café em São Paulo e Minas Gerais seria atingido se for mantida a proibição de cultivo no topo de morros em que a declividade é superior a 45 graus. “O meio ambiente é importantíssimo, é vital, mas é preciso levar essa discussão com bom senso”, resume Guedes Pinto.

Carta Capital

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As raízes mais profundas da vida

Alexander S. Bradley

Análises de um tipo de fonte termal, descoberta no leito marinho, sugerem novas possibilidades para a evolução da vida

Restam poucos lugares a serem explorados nos continentes da Terra, e é improvável que muitas novas maravilhas naturais sejam reveladas em algum ponto remoto. Mas abaixo da superfície oceânica é outra história. Sabemos mais sobre as características de Marte que sobre os 75% subaquáticos de nosso próprio planeta. Surpresas incríveis nos aguardam ali.

Uma delas foi desvendada em dezembro de 2000. Uma expedição que mapeava uma montanha submersa, conhecida como maciço Atlantis, a meio caminho entre as ilhas Bermudas e Canárias, e a 800 metros abaixo da superfície do Atlântico Norte, deparou com um pilar de rocha branca, alto como um edifício de 20 andares, que se erguia do leito marinho. Com auxílio do veículo de controle remoto, Argo II, e o submergível tripulado Alvin, os cientistas fizeram um levantamento e colheram amostras da misteriosa torre. Embora restrições de tempo limitassem a investigação a um único mergulho do Alvin, os pesquisadores conseguiram reunir informações suficientes para determinar que a formação rochosa era apenas uma de várias estruturas semelhantes que emitiam água marítima morna. Eles haviam descoberto uma região de fontes termais submarinas, que batizaram de Campo Hidrotermal de Lost City. E ele não se assemelhava a nada conhecido, nem às agora famosas “black smokers” (fumarolas, ou chaminés negras).

O relato inicial sobre o achado, publicado na revista Nature em julho de 2001, suscitou ondas de empolgação na comunidade científica. A principal autora, a geóloga Deborah S. Kelley, da University of Washington, e seus colegas levantaram várias questões fundamentais. Como esse campo hidrotermal se formou? Que tipos de organismos vivem lá e como sobrevivem? Em 2003, Kelley chefiou uma abrangente expedição, de seis semanas, a Lost City para averiguar. Agora, após anos de minuciosas análises das amostras colhidas nessa missão, os cientistas começam a dar respostas fascinantes.

As descobertas do campo termal levaram à reconsideração de noções há muito aceitas sobre o ambiente químico que pode ter propiciado o aparecimento da vida na Terra. Além disso, os resultados acarretaram uma expansão das ideias científicas sobre onde, além deste Planeta Azul, seria possível encontrar vida – e desafiaram os conceitos estabelecidos sobre como procurar por ela.

Química Estranha

Cientistas sabem da existência de fontes termais submarinas desde a década de 70. Os sistemas conhecidos como chaminés negras, ou fumarolas, são os mais comuns. Eles ocorrem nas cordilheiras meso-oceânicas – naquelas fileiras de vulcões que se erguem sobre pontos onde as placas tectônicas se afastam umas das outras. Nessas chaminés, a água pode atingir temperaturas superiores a 400ºC, devido à proximidade de rochas magmáticas. Com pH semelhante ao do suco de limão, ela libera sulfetos, ferro, cobre e zinco, à medida que se infiltra nas rochas vulcânicas abaixo do solo marinho.

Quando esse fluido ebuliente e ácido sobe nova mente à superfície, é expelido pelas chaminés na água gelada das profundezas do mar, onde os sulfetos de metal dissolvidos resfriam rapidamente e precipitam, produzindo uma mistura escura, parecida com nuvens de fumaça negra. Esses sulfetos se depositam e acumulam, formando chaminés cada vez mais altas sobre as nascentes termais. Apesar da agressiva composição química da água ao seu redor, há uma profusão de animais exóticos, como os gigantescos vermes tubiformes (Riftia), desprovidos de boca e intestinos. Essas criaturas florescem graças a uma associação simbiótica com bactérias internas, que consomem o venenoso gás sulfeto de hidrogênio que emana dos orifícios.

Comparado ao selvagem ambiente das chaminés negras, o campo de Lost City é sinistramente tranquilo. Localizado cerca de 15 km a oeste do limite da placa tectônica, na cordilheira Meso-Atlântica, no topo do maciço Atlantis, suas fontes estão distantes demais para que os fluxos ascendentes de lava elevem os fluidos às temperaturas fervilhantes encontradas nas fumarolas. Em vez disso, a água é aquecida na circulação pela camada de rochas moderadamente quentes abaixo, e a temperatura mais alta já registrada é de apenas 90ºC. Além disso, os fluidos de Lost City não são ácidos, mas alcalinos, com pH entre 9 e 11 – semelhante ao do leite de magnésia ou à solução doméstica de amoníaco. Como essas águas são incapazes de dissolver rapidamente concentrações elevadas de metais, como ferro e zinco, suas nascentes não produzem as nuvens de sulfeto metálico que caracterizam as chaminés negras. Em Lost City, a água que brota dos orifícios é rica em cálcio que, ao se misturar com a água marinha, produz carbonato de cálcio. E essa rocha calcária constrói gigantescas chaminés brancas – a maior delas ergue-se a quase 60 metros acima do leito do mar –, significativamente mais altas que a mais elevada chaminé negra.

A estranha química das águas de Lost City resulta de seu singular ambiente geológico, enraizado na própria estrutura do planeta. Imagine a Terra como um pêssego. A pele representa a crosta, a parte carnuda é equivalente à camada subjacente do manto sólido, e o caroço é igual ao núcleo de ferro incandescente. Na cordilheira Meso-Atlântica, a crosta está sendo lentamente dilacerada pela deriva continental, à medida que as placas tectônicas norteamericana e africana se afastam uma da outra, à razão de 25 mm por ano. Essa fragmentação expôs partes do manto terrestre no leito marinho, e seu soerguimento formou o maciço Atlantis.

O manto consiste primordialmente numa rocha chamada peridotito, que revelou ser a chave para a distinta composição química de Lost City. Ao entrar em contato com a água, o peridotito passa por uma reação química denominada serpentinização. À medida que a água marítima penetra nas profundezas do maciço, o peridotito é transformado em serpentinita e a água infiltrada torna-se mais alcalina em decorrência dessa reação. Ao reemergir e se misturar novamente com as águas oceânicas, essa água está repleta de cálcio, liberado durante a serpentinização. Mais importante é que agora esses fluidos estão altamente reduzidos, isto é, desprovidos de todo oxigênio, que foi substituído por gases ricos em energia, como hidrogênio, metano e sulfeto de hidrogênio. As concentrações de hidrogênio, em particular, estão entre as mais elevadas já detectadas em um ambiente natural. E é aqui que as coisas começam a ficar realmente interessantes.

No Início

A riqueza energética do hidrogênio deve-se à sua capacidade de transferir facilmente elétrons para outros compostos, como o oxigênio, e liberar energia. Esse processo é descrito, de modo um tanto confuso, como “redução química”. Os cientistas suspeitavam havia tempos que gases reduzidos desempenhavam papel importante na origem da vida na Terra. Na década de 20, o bioquímico russo Alexander Oparin e o evolucionista britânico J.B.S. Haldane sugeriram, isolada e independentemente, que a atmosfera primitiva da Terra pode ter sido muito rica em gases redutores, como metano, amônia e hidrogênio. E, nessas concentrações elevadas, os ingredientes químicos necessários para a vida podem ter-se formado espontaneamente.

A ideia ganhou credibilidade décadas mais tarde, com o famoso experimento dos químicos Stanley Miller e Harold Urey, da University of Chicago, em 1953. Ao aquecer e descarregar faíscas em uma mistura de gases redutores, os cientistas conseguiram criar uma gama de compostos orgânicos (a maioria contendo carbono e hidrogênio), inclusive aminoácidos, os blocos de construção das proteínas, vitais para todas as formas de vida terrestre. Entretanto, nos anos subsequentes ao experimento, geólogos concluíram que a atmosfera ancestral não era nem de longe tão redutora como a dupla havia pensado. Segundo eles, as condições que formaram aminoácidos e outros compostos orgânicos em sua experiência provavelmente nunca existiram na atmosfera.

Mas nas fontes termais de Lost City os gases redutores proliferam. É possível que, há bilhões de anos, nascentes semelhantes a essas tivessem as condições ideais para produzir os compostos orgânicos necessários à vida? Alguns geoquímicos que investigam a questão acreditam que sim. Diversos estudos realizados na década passada sugeriram que as reações químicas que ocorrem durante a serpentinização são ideais para a produção de compostos orgânicos a partir de dióxido de carbono. Sistemas hidrotérmicos parecidos com o de Lost City podem ter sido fábricas primitivas que emitiam ininterruptamente metano, ácidos orgânicos simples e talvez até ácidos graxos mais complexos – componentes essenciais das membranas celulares de todos os organismos. E as chaminés talvez fossem capazes de gerar esses compostos orgânicos sem o auxílio de organismos vivos.

Lost City é um laboratório natural para testar essas ideias. Em 2008, o químico Giora Proskurowski, da Woods Hole Oceanographic Institution, e seus colegas publicaram um estudo na revista Science, demonstrando que os fluidos quentes do campo termal de fato contêm pequenos compostos orgânicos, como metano, etano e propano. Outro trabalho sugere que as reações químicas na área também produzem pequenos ácidos orgânicos, como formiato e acetato. Juntas, essas descobertas confirmam que os gases reduzidos em Lost City poderiam permitir as reações químicas necessárias para criar compostos orgânicos a partir de inorgânicos – um passo simples, porém vital na química prebiótica.

Esse novo estudo determina que alguns ambientes de fontes hidrotermais são capazes de produzir pelo menos compostos orgânicos simples, possíveis ingredientes para a vida. Mas Lost City não é o local ideal para testar essas ideias, porque as torres de carbonato de cálcio não são reatores químicos estéreis. Na realidade, elas fervilham de vida microbiótica, o que levanta a possibilidade de esses microorganismos estarem contribuindo para a formação de compostos orgânicos nos fluidos das chaminés. Para desvendar esse enigma, é preciso inspecionar os próprios micro-organismos mais de perto.

Sol Desnecessário

Muitos micro-organismos desenvolveram a capacidade de consumir a abundante energia contida no hidrogênio. Os metanogenos são um desses grupos. Como seu nome sugere, eles geram metano, gás natural que muitos de nós utilizam para cozinhar alimentos. Como se constatou, até um terço dos microorganismos em Lost City são metanogenos pertencentes à familia Methanosarcinales. Sua presença não surpreende, dada a abundância de hidrogênio nas águas termais. Notável é que os metanogenos de Lost City operam independentemente do Sol.

Quase toda a vida na Terra depende de energia solar – tanto para seres humanos, que contam com organismos fotossintéticos como alimento, ou plantas e algas que realizam a fotossíntese. Até nas chaminés negras, nas profundezas abissais dos oceanos, a vida depende do Sol. Os micro-organismos que asseguram o crescimento dos vermes tubiformes gigantes, por exemplo, necessitam tanto de sulfeto como de oxigênio. E a fonte suprema de oxigênio são organismos fotossintéticos que vivem muito mais acima. Comparativamente, os metanogenos de Lost City precisam apenas de dióxido de carbono, água em estado líquido e peridotito, que reagem para formar os ingredientes naturais de que necessitam para sobreviver.

Pesquisadores constataram que as duas reações geoquímicas resultantes da serpentinização e da atividade de metanogenos biológicos são fonte de metano para o ecossistema de Lost City. Essa produção simultânea do gás pode não ser coincidência. Em diversos estudos realizados nos últimos anos, o bioquímico William Martin, da Universidade Heinricheine, na Alemanha, e o geoquímico Michael Russell, do Jet Propulsion Laboratory, da Nasa, em Pasadena, examinaram todos os passos químicos necessários para produzir metano abiótico, ou seja, sem participação de organismos vivos, em ambientes como Lost City. Descobriram que cada etapa é replicada nos caminhos biológicos dos organismos produtores do gás. Com base nesse trabalho, sugeriram que nos primórdios da Terra, lugares como Lost City produziam metano geoquimicamente e que as formas de vida ancestrais podem ter agregado para si cada uma das etapas químicas, originando o que pode ter sido a primeira trilha bioquímica.

Martin e Russell não são os primeiros cientistas a propor que a vida pode ter surgido em uma fonte hidrotermal. Essa ideia circula há vários anos e não é corroborada apenas pela favorável composição química da água, mas também pelos registros evolucionistas encontrados em material genético de todos os organismos vivos. Nesse aspecto, o estudo de ribossomos – mecanismos biológicos utilizados pela célula para traduzir em proteínas a informação codificada em ácidos nucleicos (DNA e RNA) – provou ser particularmente elucidativo. Os próprios ribossomos são constituídos de RNA e proteínas. Ao compararem as sequências dos blocos de construção do RNA ribossômico, ou nucleotídeos, cientistas elaboraram uma árvore da vida, que mostra as relações evolutivas entre todas as formas de vida na Terra. Muitos organismos situados em ramos próximos à sua base consomem hidrogênio e habitam fontes termais de altas temperaturas, em terra ou no solo marinho.

Isso indica que o último ancestral comum de toda a vida terrestre pode ter habitado uma fonte termal, possivelmente um ambiente semelhante ao do Campo Hidrotermal de Lost City. Geólogos têm motivo para suspeitar que ecossistemas como esse eram relativamente comuns no passado remoto. O peridotito é um tipo de rocha predominante no Sistema Solar. Na Terra, ele é o principal constituinte do manto superior. Embora atualmente seja raro encontá-lo na superfície terrestre, era abundante há 3 bilhões ou 4 bilhões de anos. Naquela época, o planeta era muito mais quente e o vulcanismo acentuado transportava um volume maior do manto derretido para a superfície. Na realidade, o peridotito provavelmente constituiu a maior parte da camada rochosa no leito marinho nos primórdios da Terra e reagia com água, exatamente como faz hoje. Assim, ambientes cálidos e alcalinos, parecidos com o campo termal mesoatlântico, podem ter nutrido as primeiras formas de vida. Em comparação, condições causticantes e ácidas, como as encontradas nas chaminés negras, possivelmente eram hostis demais para propiciar seu aparecimento.

As descobertas de Lost City também reforçam as hipóteses sobre onde mais, em nosso Sistema Solar, pode existir ou ter existido vida no passado. É concebível que qualquer planeta ou lua que contenha peridotito e água em estado líquido – os ingredientes necessários para a serpentinização – seja capaz de sustentar formas de vida análogas aos microorganismos de Lost City. As evidências mais claras desses componentes ocorrem em Marte e em Europa, uma das luas de Júpiter. De fato, pesquisadores já detectaram metano na atual atmosfera marciana; mas não se sabe ainda se ele resulta de micro-organismos ou de reações químicas nas rochas do planeta.

Prospectando Metano

Determinar isso pode ser mais difícil do que os cientistas imaginaram. A maioria dos organismos na árvore filogenética são micro-organismos. Embora possamos estudar suas sequências de DNA e RNA, encontrar um registro fóssil de criaturas microscópicas, com formas ambíguas, é desafiador. Nas últimas décadas, pesquisadores desenvolveram técnicas específicas que permitem investigar a história evolucionária de micro-organismos, ao combinar registros geológicos de fósseis químicos, não físicos. Fósseis químicos são moléculas rastreáveis até organismos vivos e podem permanecer preservados em rochas durante milhões, até bilhões de anos. A maioria deles deriva de lipídios que constituem as membranas celulares. Embora não contenham tanta informação como o DNA ou um fóssil físico, são indicadores confiáveis de vida e podem ser portadores de diagnósticos estruturais dos organismos que os produziram.

Além disso, o próprio carbono, que forma os lipídios, é informativo por conter um marcador que revela como um organismo o extraía de seu meio ambiente. Esse marcador é o carbono 13, uma forma relativamente rara do elemento, que não degrada ao longo do tempo. O carbono existente na maioria dos organismos apresenta entre 1% e 3,5% menos de C-13 que o dióxido de carbono dissolvido na água do mar. Portanto, cientistas haviam presumido que o carbono contido em rochas antigas, e depauperado nesse percentual, derivava de organismos vivos. Como consequência dessa norma, o carbono não reduzido de rochas ancestrais resultaria de processos abióticos.

Mas Lost City refuta essa teoria. Meu trabalho com uma equipe de cientistas, no Massachusetts Institute of Technology e no Woods Hole, revelou que alguns dos lipídios mais abundantes, encontrados nos carbonatos do campo termal, se originam de metanogenos. No entanto, esses lipídios não exibem nenhum depauperamento de carbono 13. Seus conteúdos do elemento são iguais aos que seriam de esperar de materiais que não derivaram de organismos vivos. Como se explica isso? Através da utilização do C-13 como rastreador de vestígios de vida, com base na suposição de que há mais dióxido de carbono disponível no meio ambiente do que pode ser consumido. Enquanto houver um excedente de CO2, os organismos podem incorporar as moléculas mais leves do carbono 12, que eles preferem, e ignorar o C-13 mais pesado. Se, no entanto, o dióxido de carbono fosse escasso por qualquer razão, os organismos absorveriam do ambiente todas as moléculas de carbono que conseguissem, tanto da variedade mais leve como da mais pesada. E, se isso ocorresse, a relativa abundância de C-13 nos organismos não diferiria da que existe no meio ambiente. O rastreador químico de vida seria invisível.

É precisamente esse processo que se manifesta nas fontes hidrotermais de Lost City. Ao contrário de quase todos os outros ambientes terrestres, onde há sempre disponibilidade de CO2, naquele campo predomina o hidrogênio e o dióxido de carbono é escasso. Na prática, isso obriga os organismos que vivem ali a extrair isótopos de carbono indiscriminadamente. O problema da invisibilidade também se aplica ao metano. Em geral, esse gás, quando produzido por organismos vivos, apresenta uma depauperação extrema de C-13, em comparação ao metano resultante de reações geoquímicas. Mas essa diferença nem sempre aparece nos sistemas de serpentinização. O metano nas águas termais de Lost City não apresenta a reveladora redução de carbono 13. Pesquisadores sabem, por meio de observações, que ele é uma mistura de produtos geológicos e biológicos. Mas isótopos de carbono isolados são incapazes de fazer a distinção.

Se a vida evoluiu em algum outro lugar do Sistema Solar, o melhor palpite provavelmente é que ela consiste em metanogenos microbiais, que vivem em regiões onde a rocha é serpentinizada. Sabemos que, de alguma forma, há produção de metano em Marte. A Nasa planeja lançar o Laboratório de Ciências de Marte em 2011, e uma de suas missões será determinar a proporção de isótopos de carbono nesse gás. Uma acentuada redução de C -13 seria indicação de que organismos vivos habitam o Planeta Vermelho. Contudo, Lost City demonstra que a impossibilidade de encontrar esse sinal de vida dificilmente pode ser considerada como evidência de sua ausência. De fato, a descoberta da proliferação de microrganismos nesse tipo de ecossistema, antes desconhecido, fornece mais motivos adicionais para se esperar que, algum dia, cientistas encontrem indícios de vida fora da Terra.

Scientific American Brasil

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Um panorama dos fluxos ilícitos de capital no sistema internacional

Philipe Moura, bolsista do Ipea para questões de fluxos financeiros, comenta a palestra de Raymond Baker no Instituto

Philipe Moura

A questão dos fluxos financeiros ilícitos figura um importante problema para as finanças globais. Sua importância se dá, entre outros fatores, por sua enorme magnitude: o volume dos fluxos que sai anualmente dos países em desenvolvimento é estimado em US$ 1 trilhão – enquanto isso, a ajuda fornecida aos países pobres soma no máximo US$ 200 bilhões.

Segundo Raymond Baker, diretor do Centro Global Financial Integrity os cálculos e estimativas referentes a fluxos ilícitos são imprecisos, seja pela escassez de dados, seja pela dificuldade de mensurar o volume de certas atividades ilícitas. Assim sendo, certamente o valor real desviado é muito acima de US$ 1 trilhão.

Estes fluxos, definidos como dinheiro de origem ilegal ou transferido ou utilizado ilegalmente, podem cruzar as fronteiras de um país por meio de suborno ou corrupção das autoridades legais, de atividades criminosas como tráfico ou de evasão fiscal, sendo esta última responsável por quase 65% do total da movimentação ilícita.

Os fluxos, prejudiciais especialmente para os países em desenvolvimento, implicam na diminuição da receita fiscal, promovem o comércio desleal e aumentam as disparidades globais; consistem, portanto, em um desvio de recursos dos menos afortunados para os mais ricos.

Os fluxos ilícitos são facilitados por um “mercado informal” criado na década de 1960 pelo setor financeiro na Europa Ocidental e nos EUA. Embora o fenômeno já ocorresse, fatores como a multiplicação das empresas multinacionais em números e operações levaram a uma difusão de capitais internacionais para atividades como lavagem de dinheiro. Este sistema alternativo foi adotado nas décadas de 1970 e 1980 por grupos envolvidos com drogas e tráfico, e, nas duas últimas décadas, por grupos financiadores do terrorismo.

Este sistema financeiro internacional paralelo é uma estrutura que compreende paraísos fiscais, empresas fantasmas, falsificação de preços e lacunas nas legislações nacionais. As falhas legais são um problema crucial no combate aos fluxos ilícitos. Baker analisa o caso dos Estados Unidos, em que é possível tornar legais recursos oriundos de algumas fontes ilegais, e acrescenta que os esforços contra a lavagem de dinheiro não tem sido eficazes.

Baker explica que, para combater os fluxos ilícitos, é preciso corrigir algumas convicções. É necessário desmistificar, por exemplo, a crença de que fluxos ilícitos são um fenômeno temporário, associado a conturbações político-econômicas. A maior parte dos recursos que sai de um país não retorna, e, se o faz, é na forma de investimento direto estrangeiro.

Contudo, e talvez principalmente, é essencial ter em mente que a ocorrência deste fato torna errada grande parte dos dados de que se dispõe atualmente. Os valores de exportações e importações, e até mesmo o Produto Interno Bruto, são imprecisos. Por conseguinte, os dados que mostram as desigualdades mundiais também são errados – o nível de desigualdade entre os países certamente é muito maior.

Baker explica haver muito a ser feito para minorar os fluxos ilícitos. Muito já está sendo feito âmbito multilateral, com a celebração de acordos, criação de grupos de peritos e forças-tarefas.

Foi proposta uma lista de prioridades a serem cumpridas para minorar os fluxos. Algumas obrigações cabem a empresas multinacionais, e incluem, por exemplo, o dever de elaborar relatórios financeiros para cada país em que a empresa atua. Já os Estados devem, entre outras coisas, criar um sistema automático de troca de informações fiscais. Afinal, “não é a regulação que vai diminuir os fluxos ilícitos, mas a transparência”, afirma Baker.
Ele ainda sugeriu que o Ipea contribuísse com o esforço de mapear o sistema financeiro paralelo, pesquisando os dados do Brasil e América do Sul.

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Anotações da palestra proferida no Ipea por Raymond Baker, diretor da Global Financial Integrity, em Washington e autor do livro “Capitalism’s Achilles Heel: Dirty Money and How to Renew the Free-Market System

IPEA

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Malvinas, colonialismo e soberania

A decisão do governo britânico de explorar petróleo e gás nas Ilhas Malvinas reaviva tensões entre a Argentina e o Reino Unido, 28 anos depois da guerra travada entre os dois países por esse arquipélago do Atlântico Sul.

Gilson Caroni Filho

A política internacional costuma ser uma estranha combinação de dramaticidade e de tédio, deslocando-se de uma excitante promessa de mudança para uma triste perspectiva de monotonia. De forma recorrente, trafega-se de conhecidas petições sobre “sinceros desejos de uma nova ordem mundial sustentável" para reiterações de hegemonismos e Destinos Manifestos. Enquanto analistas buscam fornecer conceitos atualizados de Estado e soberania, a realidade continua sendo moldada pelo antigo conceito de imperialismo: aquele que era definido como expressão de uma fase monopolista do capital.
A decisão do governo britânico de explorar petróleo e gás nas Ilhas Malvinas, reavivando tensões entre a Argentina e o Reino Unido, 28 anos depois da guerra travada entre os dois países por esse arquipélago do Atlântico Sul, reafirma o léxico colonialista que faz tábua rasa das resoluções da ONU. A conhecida virulência do antigo império, sempre amparado no apoio dos Estados Unidos, não afronta apenas o povo argentino. Para além das fortes evidências de uma rica província de hidrocarbonetos na região, o que está em xeque é a soberania da América Latina. Elaborar estratégia para a defesa de suas riquezas energéticas, como o pré-sal brasileiro, é imperativo e inadiável.
Como denunciou a presidente Cristina Kirchner, “não é aceitável que as regras do mundo não sejam iguais para todos. As Nações Unidas podem tomar medidas, inclusive de força, contra países que não cumprem certas normas, mas quando são os poderosos que não as cumprem, nada acontece. A permanência de um enclave colonial não tem sentido". Afirmar que tudo não passa de “um assunto de política interna tanto para Cristina quanto para Gordon Brown" é jogar cortina de fumaça sobre questões mais profundas. Trata-se de, agindo com má-fé, estabelecer paralelos equivocados entre o passado e o presente.
Se, em 1982, o desespero foi o conselheiro que inspirou a ditadura militar a um salto no vazio, isto é, a ocupação das Malvinas, o que hoje move o governo argentino é a preservação de um espaço político soberano. Não há um general Galtieri tentando abrir um caminho para escapar do beco sem saída, mas uma presidente eleita reivindicando legítimos direitos nacionais. Um país renascido diante da recuperação de suas liberdades e consciente da importância da autodeterminação.
Não há solução de "meio-termo" quando a ofensiva imperialista não esconde mais seus objetivos. O golpe em Honduras, a ofensiva dos grandes proprietários na Argentina, a ação desestabilizadora da direita paraguaia, e as bases militares na Colômbia e no Panamá são fatos por demais suficientes para afastar a perigosa inércia analítica. Aquela que ignora, entre outras coisas, a crescente militarização das relações dos Estados Unidos com a América Latina.
As Ilhas Malvinas e suas adjacências são argentinas. Devem ser descolonizadas e reintegradas ao país. Têm que ser liberadas da ocupação estrangeira que se propõe a explorar suas riquezas e, provavelmente, instalar bases militares apontando para toda a América Latina e seu projeto de integração regional.
A luta deve prosseguir no plano político, diplomático, e em todos os terrenos apropriados, até a definitiva recuperação do arquipélago. É preciso afrontar todas as responsabilidades exigidas para o cumprimento de um programa de ação democrática e antiimperialista.
Não nos iludamos. Os piratas ingleses fazem parte de uma missão precursora no Atlântico Sul. A gravidade da situação obriga a coordenação no esforço de todos os partidos democráticos e populares para uma ação em conjunto com as correntes militares dispostas a não abdicar na luta contra o colonialismo.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

Carta Maior

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Pompeia, cidade (arqueológica) sem lei

Miguel Mora

A Proteção Civil, órgão dirigido pelo secretário de Estado Bertolaso, que depende de Berlusconi, tem todo o poder nas famosas ruínas. O Fórum Romano, a Galeria dos Uffizi em Florença e a Pinacoteca de Brera em Milão estão sob comissários nomeados por Berlusconi.

Pompeia, a cidade romana sepultada pelas cinzas do Vesúvio, Patrimônio da Humanidade protegido pela Unesco desde 1997, continua sofrendo, dois mil anos depois, o abandono e a imperícia das autoridades. Sob o assédio da Camorra, que interfere no sítio arqueológico e edifica onde bem entende, a gestão de Pompeia foi entregue no verão passado pelo governo a um comissário extraordinário, um diretor da todo-poderosa Proteção Civil, dotado de atribuições especiais.

18.07.2008 - Reuters

Turistas visitam a cidade história de Pompeia, Patrimônio da Humanidade protegido pela Unesco

Justificada como a solução para a "grave degradação" e o "estado de risco" que ameaça a área, a gestão do comissário Marcello Fiori primou pela espetacularidade e a superficialidade, mais que a qualidade e a segurança, segundo especialistas e trabalhadores em campo. "Pompeia, com 2,5 milhões de visitantes e 20 milhões de euros de receitas por ano, é administrada hoje com um estilo espetacular e populista incompatível com o tempo, quase sempre lento e ingrato, da arqueologia", resume um funcionário do sítio que pede para manter o anonimato.

O sintoma mais claro é que entre os 600 trabalhadores de Pompeia reina a "omertà" (lei do silêncio da máfia). Só os sindicalistas falam, de fora, com nome e sobrenome. O resto não revela sua identidade por temor às represálias. Um incidente misterioso, quase transformado em assunto de Estado pela direção, que, segundo os trabalhadores, tentou minimizar danos muito graves, fez eclodir no sítio arqueológico uma tensão latente há meses. No dia 14, uma obra implementada a toda pressa em turnos de sete dias, segundo os sindicatos, para dar brilho à iminente visita ao local de um político (não está claro se o presidente Giorgio Napolitano ou o primeiro-ministro Silvio Berlusconi), causou a derrubada de dois muros, um de 30 metros e outro de 20, duas paredes de casas antigas, segundo algumas fontes decoradas com afrescos, vieram abaixo.

O sindicalista Gianfranco Cerasoli, da UIL, explica que a obra foi decidida pelo comissário Fiori e afetava a zona da Via de La Abundancia, onde se encontram a Casa dos castos amantes - descoberta em 1987 e fechada com andaimes desde então -e a Casa de Polibio. "Colocaram um guindaste muito grande sobre uma terraplenagem frágil, e com a chuva o guindaste caiu sobre o muro que cerca a ilha da Casa dos castos amantes; este por sua vez derrubou uma parede contígua", explica Cerasoli. O comissário Fiori negou que os prejuízos tenham sido graves, desmentiu que tivessem sido causados por um guindaste e os atribuiu às fortes chuvas. Seguindo milimetricamente a linha oficial, Fiori preferiu anunciar que "em fevereiro será possível ver a escavação da Casa dos castos amantes através de um plástico transparente e um sistema de câmeras de televisão". O diretor da escavação de Pompeia, o arqueólogo Antonio Varone, acusou os sindicatos de alarmismo e minimizou o percalço, limitando-o a um "pequeno escorrimento de terras".

Mas a denúncia parte da prestigiosa associação privada Italia Nostra, que cuida do patrimônio cultural. A Italia Nostra fala de "omertà" e de "distorções" na gestão e exigiu "transparência imediata". Uma funcionária do parque dá sua versão enquanto se afasta do escritório para falar sem ser ouvida. "Temos medo, o clima aqui é de intimidação. Não sabemos sequer que danos reais houve, porque a ordem é não falar e nem sequer deixaram os técnicos entrar para tirar fotos."

Os sindicatos explicam que as obras em curso custarão 33 milhões de euros e que no dia 20 o comissário aprovou uma verba de 200 mil euros para reparar os danos. Além disso, indicam que 12 dias depois do incidente não se havia mandado o relatório regulamentar ao diretor-geral do ministério, Stefano De Caro.

Segundo Bagio De Felice, do sindicato CGIL, "a atuação de Fiori e a falta de reação do ministério dirigido por Sandro Bondi revelam que o Estado desistiu de cuidar do patrimônio de Pompeia e Nápoles e confirma o fracasso da política cultural".

"Nesse deserto faz carreira a suposta eficácia da Proteção Civil, que usa os mesmos métodos em Pompeia que em l’Aquila (a localidade atingida por um terremoto na região dos Abrúzios). Entre nós circula esta piada: ‘Vocês chegaram 2 mil anos atrasados à erupção, agora não precisam ter pressa’."

Fiori é um homem versátil e de comprovada capacidade de trabalho. Mas os técnicos duvidam que seja o homem de que Pompeia precisa. "É um lugar muito delicado, não se podem fazer obras como se fosse uma rodovia", salienta Pietro Giovanni Guzzo, responsável estatal pelo sítio de 1994 a 2009. O arqueólogo salienta que "em Pompeia o mais importante é combater a infiltração da Camorra, que constrói residências ilegais onde quer e controla os negócios na região". Segundo o jornal "L’Unità", que revelou o incidente, um comerciante da área, Nicola Mercurio, se transformou no "braço-direito de Fiori". Em junho de 2009 a polícia de Nápoles descobriu um túnel secreto de 30 metros cheio de objetos roubados, que ia da escavação até uma residência próxima.

A Proteção Civil, órgão dirigido pelo secretário de Estado Bertolaso, que depende diretamente da presidência do governo, tem todo o poder em Pompeia. O Fórum Romano, a Galeria dos Uffizi em Florença e a Pinacoteca de Brera em Milão estão sob comissários nomeados por Berlusconi e Bondi. Muitos italianos veem Bertolaso como uma espécie de vice-rei. Tem influência com Berlusconi, manipula volumes crescentes de dinheiro e gera tanta admiração quanto receio. Talvez por isso, quando a parede romana caiu entre as 9 e as 10 da manhã do dia 13, ninguém teve a coragem de denunciá-lo. Entretanto, o guindaste foi retirado da região e o artigo 117 da Constituição, que confere ao Estado a competência exclusiva pela tutela do patrimônio, parece ter ficado em suspenso.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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