Porto e mar

Rinaldo Aparecido Meroni

O grau de sucesso que uma escola pode alcançar está ligado ao nível de companheirismo de sua tripulação

Sempre tive grande curiosidade pelo significado das palavras. Tenho viva na memória a seguinte imagem: eu, criança, junto à mesa da cozinha, à luz de vela, devorando o dicionário. Não tinha a menor noção de que quanto mais ampliasse meu vocabulário maior seria meu universo. Só fui entender isso depois.
O hábito manteve-se durante a adolescência e a juventude. Ler só com o dicionário do lado. Palavra difícil não era problema – nem pra mim nem pro dicionário. Mas em algum momento minha curiosidade inclinou-se para a origem das palavras. E foi assim que descobri o brilho da etimologia.
Como já disse, não sou especialista… sou curioso. E nas minhas andanças por este universo me deparei com uma palavra cujo significado marcou profundamente minha vida, transformando a forma de encarar o mundo e meu ofício de educador: o termo “companheiro”.
O termo deriva da expressão latina cum panis (cum = com e panis = pão), que indica “partilhar ou dividir o mesmo pão”. O termo traduz uma ideia de comunhão tão grande entre duas ou mais pessoas a ponto de lhes permitir dividir o pão e seus segredos.
A palavra ganha força na época das grandes navegações. A tripulação das caravelas formava uma companhia. Esses companheiros compartilhavam os riscos de navegar rumo ao desconhecido em busca de riqueza e glória. Dividiam o pão, os sucessos e os fracassos.
Falo disso porque, em boa parte dos meus 26 anos navegando pela educação, partilhei de diversas companhias em diferentes embarcações e foi assim que compreendi que o grau de sucesso que uma escola pode alcançar está diretamente relacionado ao nível de companheirismo que sua “tripulação” consegue construir entre si e com sua comunidade. Cada escola um barco e cada barco uma tripulação, umas mais companheiras, outras nem tanto.
Também descobri que não há companheirismo sem cumplicidade. São palavras irmãs. Nascem de uma mesma raiz. O termo cúmplice tem origem do latim complice, que significa “unido”, “junto”, ou seja, pessoas que se unem para a realização de um projeto. Cúmplice é parceiro.
E relações parceiras podem ser positivas para as instituições escolares porque geram comprometimento profissional e responsabilidade social, coloca a escola na rota da qualidade do ensino, potencializa a execução de projetos e possibilita rica aprendizagem institucional. Todos ganham.
As parcerias se tecem de forma sistêmica, unindo os nós da rede, reativando sinapses adormecidas, reconstituindo o tecido social. Nessa condição, a escola deixa de ser barco para se tornar porto de onde estabelece suas ligações com a “teia da vida”. Do porto escola nos lançamos para o mundo.
Os antigos romanos perceberam isso. A palavra educação, do latim educere (ex = fora + ducere = conduzir), significa “conduzir para fora”, ou seja, preparar o indivíduo para o mundo. Para tanto, é preciso que as escolas abram seus portos, conectando-se à vida e ao mundo sem fronteiras nem divisa… assim como o mar. Mas essa é outra história. Tchau!

Carta Capital na Escola

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