Artigos Ricardo Alvarez

Crise econômica exige saída política

Ricardo Alvarez 27/02/2009

A crise financeira em que o planeta mergulhou nos últimos meses tem sua origem na raiz do sistema capitalista: a rígida e crescente concentração de renda e poder nas mãos de reduzidos grupos de investidores planetários, os Global Players, e por isso mesmo será duradoura. Dela emergem outras questões fundamentais a serem enfrentadas, como a dívida pública dos países periféricos, a questão do desemprego global e da unidade latino-americana.

As coisas parecem, mas não são. Parece que proprietários de imóveis irresponsáveis em conluio com credores gananciosos nos EUA, provocaram a quebradeira geral que derrubou Bolsas, retraiu as vendas, enxugou o crédito e travou as engrenagens do sistema. Resposta fácil para um problema complexo. Ilusão reduzir as coisas a este patamar de explicações, apesar de largamente utilizado por comentaristas econômicos atônitos diante da falência repentina de suas teses neoliberais.

Nosso planeta é acometido de uma doença que se arrasta há séculos denominada capitalismo, que como sugere o nome, acumular capital é sua sina. A enfermidade global recebe doses medicamentosas regulares que adiam os problemas e, não raro, não fazem mais efeito, provocando surtos permanentes e persistentes de crises. Vivemos um deles que derreteu ativos sem cerimônias e colocou a banca em xeque.

Chateia também os chefões da grana e seus súditos que, além da desconstrução de suas riquezas, foi para o vinagre o discurso do Estado mínimo e do mercado máximo. Assim que a rolha foi puxada e o capital fictício desceu ralo abaixo, em questão de segundos recorreram ao erário público para solicitar desavergonhadamente por auxílio, no que foram prontamente atendidos. Encurralados, não havia outra saída: é melhor sacrificar o discurso do que o lucro.

O mais engraçado, não fosse trágico, é que dinheiro público arrecadado do conjunto da sociedade, venha servir de bóia de salvação dos negócios privados, dentre os quais o setor da economia que provavelmente mais farreou nas últimas décadas com o ganho fácil: o financeiro. E neste caso o receituário aplicado para conter a crise é absolutamente incapaz de resolver o problema senão até agravá-lo, pois reforça os pilares de uma economia geradora de nada e ganhadora de muito, especulativa por natureza e predadora por vocação.

Outro mito abalado foi o da “eficiência capitalista”. O epicentro da crise não partiu de insurreições periféricas, mas sim de desajustes estruturais no coração do sistema, alimentados por décadas de expansionismo financeiro no cassino global. A jogatina é restrita, mas as nefastas conseqüências deste modelo de acumulação de capital explodem com maior violência nos setores mais frágeis da sociedade. A “eficiência da gestão” é tão tocante que os gerentes do cassino faliram as empresas que administravam e ainda recebem indenizações milionárias como tem sido mostrado pela imprensa. É o prêmio pela incompetência!

Deste lado do campo não dá para esperar coisa diferente.

O que se coloca para os setores progressistas é uma união de forças em outras frentes para tentar reverter um agravamento da crise social. Apresentar uma plataforma apoiada na proteção do emprego e do salário é uma tarefa mais do que emergente. Temos muitos pensadores e estudiosos do tema que poderiam contribuir neste sentido.

Mas é preciso ir além, como capitalizar o estado brasileiro para fazer frente aos desafios sociais, provocando o estancamento imediato da sangria de riquezas do país através da interrupção do pagamento da dívida externa e interna, acompanhada de uma auditoria.

O que parece coisa de louco para o capital normalmente é saudável para o trabalho.

É verdade que a esquerda está dividida, que o movimento sindical naufraga em meio ao sindicalismo de poucos resultados, o de nenhum resultado e o que tenta se firmar neste pântano, que os estudantes estão desmobilizados, que os movimentos sociais estão dispersos, enfim, que a conjuntura neste sentido não é favorável, mas é verdade também que o quadro político de crise escancarou as vísceras do sistema, abrindo evidentes possibilidades de mudança nos rumos.

A falta de uma plataforma comum de lutas, que aglutine os setores progressistas, deixa espaço para o velho peleguismo que propõe ao trabalhador a redução da jornada e do salário ou do neopeleguismo chapa branca, que blinda o presidente Lula. Mas não há como isentá-lo, assim como o governador de São Paulo José Serra e outros em menor escala, pois ao mesmo tempo em que abriram os cofres ao setor automotivo, por exemplo, sem contrapartidas sociais, ocorreram demissões e redução de jornada e salários. Além disso, estas empresas mantiveram sua fiel política de remessa de lucros para o exterior. Receberam do governo com uma mão e remeteram para suas matrizes com a outra.

Esta é outra questão que merece muita atenção. O mundo financeiro se alimenta, dentre outros, das transferências de recursos dos países periféricos aos megaespeculadores e países centrais. Para se ter uma idéia do que isto representa em 2007 o Brasil despendeu R$ 180 bilhões. A economia para os pagamentos vem com o famoso superávit primário, que e o arrocho do orçamento em áreas sociais para gastá-lo em repasses frequentes aos credores.

Vem de longa data a sangria de recursos deste país que é carente deles, mas a curva flexionou para cima exatamente nos governos militares. De acordo com o Jubileu Sul Brasil “durante os 21 anos de ditadura a dívida pública aumentou 42 vezes, pulando de 2,5 bilhões de dólares em 1964 para 105 bilhões de dólares em 1985”. Ganhou novo fôlego com a crise dos anos 80, quando os EUA elevaram os juros e nosso endividamento em dólar deu novo salto.

E a abertura econômica dos anos 90, denominada por FHC de “inserção nos mercados globais”, representava na verdade nova sangria, apesar da pompa do nome como era de gosto do ex-presidente. Privatizamos e recebemos por isso, aumentamos os juros e gastamos por isso, numa conta de soma negativa. Ainda de acordo com o Jubileu Sul Brasil o endividamento externo saltou de U$ 148 bilhões em 1995 para U$ 210 bilhões ao final de 2002, mesmo tendo pago U$ 345 bilhões no período. A explosão da dívida interna também não deu vexame e foi de U$ 60 bilhões para U$ 648 bilhões no mesmo período.

Em 2006 gastamos 36,7% do orçamento federal em serviços da dívida, contra 25,7% na Previdência, 4,8% na saúde e 2,2% na educação. Deu para perceber por que os serviços públicos nestas áreas vivem uma crônica falta de recursos para custeio e investimentos? Mas os liberais alegam que a previdência é um buraco, a saúde corrupta e a educação têm muitos professores para poucos alunos e proclamam vivas ao mercado. As vítimas dos Planos de Saúde privados e das mensalidades escolares escorchantes parecem ser mais críticas em relação às maravilhas prometidas.

É mais do que hora de forçar o governo brasileiro a rever seus compromissos com o grande capital e interromper os fluxos que enchem as burras da banca internacional, seguir os exemplos de pequenos países vizinhos, mas engrandecidos por sua coragem em enfrentar o poder financeiro - como o fez recentemente o Equador -, auditar as contas e distinguir os micro investidores dos grandes credores, enfim, reverter a ordem dos pagamentos financeiros para os investimentos sociais.

Deve-se saudar a iniciativa da criação da CPI da Dívida Pública na Câmara Federal, de iniciativa do deputado federal Ivan Valente (Psol/SP), que pode desnudar o rei e expor as mazelas desta inserção subordinada do Brasil aos financistas. É preciso também pressão de baixo para cima para que a CPI ande.

O grande enfrentamento demanda uma plataforma de medidas em defesa do trabalho e na reversão do pagamento das dívidas, na construção de uma sociedade justa e igualitária, menos consumista, geradora da vida e protetora do que resta do meio-ambiente, apoiada em valores como a solidariedade e a cooperação e não o individualismo e a concorrência. É preciso redirecionar a produção em geral para a satisfação das necessidades humanas e não para a garantia da taxa de lucro

Além do mais o Brasil é um país estratégico no sentido de potencializar as ações das nações parceiras da América Latina. Há um terreno amplo e favorável para aprofundar laços de cooperação econômica, de imposição de novas políticas sociais no lugar do assistencialismo, de romper definitivamente com o quadro histórico de dominação, usurpação e espoliação do continente. A economia brasileira surfou num suspiro de crescimento econômico internacional agora interrompido com a crise, mas a grande perda mesmo será não aproveitar a conjuntura política continental e articular uma frente cujo lema bem poderia ser “Outra América Latina é Possível”. A saída é política e não econômica.

Ricardo Alvarez
Geógrafo, é professor e editor do Blog Controvérsia
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Encastelado no poder

Ricardo Alvarez 10/02/2009

O parlamento no Brasil entrou no século XXI com os mesmos vícios de séculos anteriores. O descaso com os anseios populares virou uma prática corriqueira, o histórico político de alguns representantes mais parece uma “capivara” e reina uma salada partidária que confunde até os que convivem cotidianamente em seu meio. Mas é preciso separar o joio do trigo, superar o discurso de que “ninguém presta” e fortalecer a participação popular e as organizações partidárias.

Ele é deputado federal e seu nome é Edmar, mas gosta mesmo é de terra, muita terra. Tanta, que possui uma fazenda de mais de 190 ha no município de São João Nepomuceno, no estado de Minas Gerais, que como todos sabemos, não tem saída para o mar.

Por um desses infortúnios da vida sua propriedade foi mostrada aos quatro cantos deste planeta esférico e abriga um castelo memorável, com muitos quartos, suítes, salas, além de chafariz, lago artificial, piscina com cascata e capela. Já hospedou presidente e até os casais enamorados tiram fotos para o álbum de núpcias. São 7.500 metros quadrados de área construída, mais do que muitos castelos medievais europeus.

A “descoberta” da construção monumental, erguida em meio às colinas da Serra da Mantiqueira, permite reflexões que ilustram a quantas andam a representação política no Brasil.

Edmar Moreira foi eleito internamente para segundo vice-presidente da Câmara dos Deputados, e herdou por força regimental a Corregedoria do órgão. Prerrogativa do cargo, seu papel seria então o de fiscalizar, orientar e punir comportamentos inadequados dos seus pares, em outras palavras, dar um pega naqueles que, por exemplo, não declaram seus bens à Receita Federal ou que são devedores aos cofres públicos. Incumbido foi de uma função que exigia lisura e bom comportamento. Decepcionou desde a primeira hora.

Seu histórico político partidário já seria suficiente para não estar onde esteve. Foi eleito deputado federal em 1991 na onda Collor e pelo seu partido, o PRN. Surfou na aventura do Presidente “fashion”, que foi um desastre como Presidente, mas um marco no mundo “fashion”. Quando a fantasia acabou ele se foi em 1992 para o PP; em 1995 para o PPB; 2003 para o PL; 2005 para o PFL e em 2007 para o DEMO. Coerência a toda prova, jamais abandonou a direita conservadora.

Sua produtividade parlamentar também deve ter servido como parâmetro para chegar à mesa diretora. Em 2005 apresentou seu último projeto de lei cujo artigo primeiro sentencia: “Fica criado o Serviço Voluntário de Capelania Carcerária em toda unidade carcerária do Sistema Penitenciário dos Estados, objetivando o atendimento espiritual e religioso aos presos, internados e seus familiares, assim como aos profissionais de segurança, respeitada, sempre, à vontade dos mesmos”. É a sua grande contribuição ao falido sistema prisional brasileiro.

Além da bondade que reina em seu coração é também um homem de família. Afirma que em 1993 passou todos bens para seus filhos. Uma ação de amor paterno, mas que deixa um cheiro de desconfiança no ar.

Sua irmã foi reeleita em 2007, pelo PSDB, prefeita da cidade. São João Nepomuceno arrecadou com IPTU em 2006 R$ 568 mil, e se em sua propriedade, que parece valer cerca de R$ 25 milhões, fosse aplicado uma alíquota de 1% (aceitável para um patrimônio deste porte), seria quase metade do que toda a cidade recolhe, num único imóvel. Mas como o imóvel está em área rural o imposto devido é o ITR, que no Brasil é inexpressivo.

O Vice-Prefeito José Maria Ribeiro Sampaio ajuda a entender outras questões. Sua origem política está no PMDB, migrou para o PSDB e depois para o PPS. Entrou para o PT e é hoje o segundo nome na linha de poder da cidade. Tem responsabilidade, portanto, na isenção de IPTU do castelo, pois também já foi presidente da Câmara Municipal, líder do governo na Câmara e secretário municipal.

A coluna painel da Folha de S. Paulo publicou neste oito de fevereiro: “Amigos… A declaração favorável do novo líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza, sobre o deputado Edmar Moreira (DEM-MG) tem respaldo na bancada. Mesmo reservadamente, petistas se recusam a dizer um “ai” sobre o “dono do castelo.”

Continua a mesma coluna: “… de longa data. A boa relação é antiga. Além de ter votado pela absolvição de deputados petistas acusados no “mensalão”, Moreira foi favorável à CPMF, mesmo sendo de partido da oposição”. Deu para entender? E o pior é que pesam sobre o deputado denúncias de ligação com a ditadura militar e tortura de presos políticos, mas o passado pode ser apagado em nome da governabilidade do presente e o poder no futuro.

Pelo seu histórico recebeu ainda várias homenagens. É cidadão honorário de três cidades mineiras, ganhou a “Brigadeiro Tobias” da Polícia Militar de São Paulo e a Comenda Universitária da Federal de Itajubá dentre outras tantas condecorações. É o gosto pela fantasia travestida de seriedade.

O apego piegas por honrarias remonta aos títulos de nobreza do período colonial brasileiro, de onde se originam também outras características não menos importantes da elite nacional. Economicamente patrimonialista e extravagante em seus hábitos, faz o delírio de empresas dedicadas ao mercado da ponta do topo da pirâmide. Somos linha de frente nas vendas de Ferrari, jóias e perfumes caros, pela frota de helicópteros, dentre outras quimeras. É a reprodução moderna do binômio Casa Grande e Senzala: na economia o casamento forçado, no social o divórcio litigioso.

Os antigos Barões e Coronéis são hoje os caciques regionais e nacionais, geradores de uma tensão permanente entre o fisiológico poder pessoal e a organização partidária. Por isso vivemos uma oscilação permanente entre a construção de formas mais avançadas de representação política e participação popular e a manutenção desta arcaica estrutura de poder, sintetizada em partidos de pessoas.

No Brasil a sopa de letrinhas ganhou maizena com a incorporação do PT ao caldo. Recentemente o Planalto apoiou José Sarney para a presidência do Senado Federal, isolando Tião Viana que é do partido do presidente Lula, e que por sua vez foi apoiado pelo PSDB. Assim como Sarney, Collor hoje também faz parte da base de sustentação do governo no Senado. Quem mudou de lado?

A aversão ao recolhimento de valores ao fisco também vem de longa data. Juntar bens e não pagar os impostos devidos é outra faceta do enriquecimento fácil, e por isso mesmo o imposto sobre as grandes fortunas não avança no país das grandes fortunas. Nem mesmo um brasileiro que passou a vida inteira as atacando fez força para implantá-lo quando chegou à presidência. A elite dirigente sequer é Republicana neste sentido, não tem um projeto de nação, a não ser pilhar a riqueza nacional e gastar em extravagância, seja aqui ou em Miami, em vestidos de grife ou viagens à Disneilandia.

A superação deste quadro é possível e necessária, mas não se resolve na base das lamúrias. É preciso mobilização social de baixo para cima para enfrentar os escândalos que se sucedem. Reclamos insistentes com o vizinho, indignação de sofá e cuspir respostas mecânicas como “ninguém presta” e “político é tudo ladrão”, só colaboram para ampliar o distanciamento das pessoas da participação política na definição dos rumos do país, que é tudo que os donos do poder querem. O remédio é exatamente o contrário: protestar organizadamente contra este estado de coisas, agir politicamente a favor de uma reforma que fortaleça os partidos e enfraqueça os coronéis, diferenciar a banda podre da banda sadia do parlamento. Enfim, tornar os brasileiros verdadeiros protagonistas das mudanças necessárias.

O brasão do município de São João Nepomuceno, que é o padroeiro contra a calúnia, estampa a frase: Ecce Agnus Dei – “Esse é o Cordeiro de Deus”. Será que Edmar Moreira passa pelo buraco da agulha?

Ricardo Alvarez
Geógrafo, é professor e editor do Blog Controvérsia
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Infernópolis: o pecado de ser pobre

Ricardo Alvarez 04/02/2009

Ação da Polícia Militar de SP na segunda maior favela da cidade peca pela agressividade contra pobres e o direito de protestar, mistifica a origem dos confrontos e alimenta a idéia de “limpeza social”.

Tudo começou com o atropelamento e morte de um garoto que teve duplo azar na vida: nasceu pobre e morreu nos primeiros anos de sua frutífera vida. Seguiu-se ao acidente uma manifestação dos moradores por equipamento público, para coibir novas mortes. Nada mais justo e compreensível.

Na manifestação ocorreram quebradeiras provocadas por garotos que não têm muito a perder, mas não contavam com o apoio dos manifestantes e da Associação de Moradores. Quando se vive no limite, relegado a uma mobilidade restrita numa metrópole repleta de possibilidades, sem a presença efetiva de equipamentos públicos de qualidade, assombrado pela violência, pelo desemprego, miséria, álcool e rendimentos risíveis, a fronteira entre o legal e o ilegal é muito tênue. Não se trata simplesmente de “desvio de caráter”, ou de vandalismo inconsequente como parte da imprensa e a própria SSP fez crer. Mas o teatro estava apenas no começo.

Paraisópolis é uma grande mancha urbana de pequenos casebres, alta densidade demográfica e com indicadores sociais perversos: apenas 0,45% dos jovens entre 18 e 24 anos estão no ensino superior. Em 1991 o índice era de 1,19%. Apenas 20% do mesmo grupo social estão no ensino médio (Moema tem percentual de 84%) e a baixa escolaridade colabora no desemprego: 1 em cada 4 adultos está sem trabalho. A renda média entre seus moradores é de R$ 367,00 ao passo que na cidade de São Paulo o valor chega a R$ 1.325,00. A degradação persistente da qualidade de vida destas pessoas desceu em profundidade abissal.

Ao seu redor encontramos situação inversa: cercada de edifícios majestosos, casas de alto padrão, com imensos terrenos gramados e arborizados, seguranças particulares e abastecidos de total infra-estrutura. Seus vizinhos gastam mais dinheiro num ano em manutenção das piscinas do que o Estado em educação a estes deserdados urbanos.

Cito esta contradição explícita na paisagem da geografia local para reforçar a idéia de que o convívio permanente entre os socialmente desiguais é sempre explosivo, apesar da repetitiva ladainha que o problema reside na personalidade das pessoas, que a delinqüência vem de berço e a violência está no sangue de alguns. Tolos, não percebem que este mesmo discurso embala as políticas de segurança pública há décadas sem solução definitiva.

Também não façamos coro com a tese dos “dois Brasis”, pois as relações entre estes dois mundos são próximas. Trabalhar com o doméstica nestas residências é uma das principais fontes de empregos para as mulheres de Paraisópolis e o assistencialismo corre solto e evidencia sua incapacidade em apontar saídas: Kaká doou bolas, ONG´s distribuem alimentos e roupas, a BOVESPA montou uma Biblioteca, Colégio de classe alta da redondeza oferece bolsas de estudos, enfim, ações apoiadas em responsabilidade social que não dão conta de suprir a irresponsabilidade social dos governos constituídos.

Quando carros foram atacados, pneus queimados e comércios destruídos, num ato espontâneo de revolta contra uma realidade insuportável, a resposta foi o show da operação policial. Estar rodeado de ricos e, principalmente, muito próximos do Palácio do Governo de São Paulo, habitado e dirigido pelo Sr. José Serra, foi outro baita azar.

Na ótica do governo, era preciso agir e rápido. Primeiro, a desculpa padrão: a culpa é da própria população que protege os traficantes que atacaram a Polícia. Segundo, uma movimentação policial exemplar: desfile de viaturas pela Marginal do Rio Pinheiros mostrando que o Governador não tergiversa, age. Terceiro, a grande mídia entra em cena: como sempre criando cenários que levam a conclusão imediata de que a ação se justifica, e mortos e feridos são inevitáveis.

O mais irônico é que ocupar casas sem mandato de segurança virou rotina, matar jovens suspeitos, uma necessidade e, aterrorizar a população local, um aviso. Minha suspeita é que por detrás deste modus operandi, que se diga não é uma exclusividade de São Paulo, existe uma política mal disfarçada de redução das pressões populacionais por emprego e serviços públicos, que acomete principalmente crianças e adolescentes pelo Brasil afora. São grupos de extermínio institucionalizados e que comumente recebem aplausos de telespectadores confortavelmente instalados diante de seus televisores, e crentes de que o melhor foi feito.

Poderia haver o caminho do diálogo, sem dúvida nenhuma, houvesse interesse do Gabinete do Governador. O Cel. Ailton Araújo Brandão, comandante da ação em Paraisópolis tem, inclusive, folha corrida a este respeito. Ele foi um dos participantes daquela malfadada reunião ocorrida com a cúpula da Polícia Militar de SP e o PCC, em 2006, quando era Comandante da PM na ponta oeste do estado de São Paulo, justamente onde estavam presos os membros da cúpula da organização. Um ano depois recebeu o título de cidadão prudentino, com direito a almoço e placa da honraria pelos serviços prestados.

O Cel. Brandão apontou seu dedo para as novas tecnologias como culpada pelo sumiço de gravações contra a PM pela morte de 104 pessoas nos confrontos com o PCC. O gravador do 190 falhou e o backup automático também falhou.

Mas ele foi condecorado pela Assembléia Legislativa de São Paulo em setembro de 2007 como Comandante do Policiamento da Capital da Polícia Militar do Estado de São Paulo, junto com o Governador Serra. Recebeu importante medalha dos paulistanos, embora o povo de Paraisópolis possivelmente nem saiba que ela exista. Talvez por isso a raiva.

A PF também chegou ao referido Cel. através da Operação Santa Tereza. Em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo foi revelado um esquema de distribuição de ingressos para uma festa de peão no interior de São Paulo com artistas consagrados. O “mimo” era a contrapartida pelo oferecimento de segurança pública a um prostíbulo privado que lavava dinheiro do BNDES na capital. Vê-se, portanto, que o crime maior não está em Paraisópolis, mas em outros lugares e o Cel. sabe quais são.

A ação da polícia é a síntese de uma imbricada teia de interesses que passa pela definição, a priori, de que pobre em favela é culpado antes de mais nada, de que é preciso fazer alguma coisa contra a criminalidade e é na favela que o tráfico manda. Humilhar pessoas, revistando-as, invadindo suas casas, num show travestido de caça aos traficantes explicita mais do que uma prática condenável, mas um tratamento de choque para um problema social.

A ocupação da favela de Paraisópolis na cidade de São Paulo, neste começo de fevereiro, é emblemática sobre o papel do tucanato diante dos problemas sociais no estado de São Paulo. Para fazer justiça, o Demo Kassab também foi condecorado na Assembléia Legislativa num ambiente agradável e de confraternização.

Pena que enquanto alguns desfrutam deste conto de fadas com dinheiro público outros vivem num inferno constante e são condenados ao castigo da morte lenta e silenciosa. Mesmo vivendo na “cidade do paraíso”.

Ricardo Alvarez
Geógrafo, professor e editor do Blog Controvérsia
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Capa do Correio da Cidadania em 08/02/2009

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10 Comentários »

  1. Fernando Di Lascio disse,

    12 de Fevereiro de 2009 @ 11h 26m

    Parabéns Ricardo!
    Você não é fraco não….

  2. Dani disse,

    28 de Fevereiro de 2009 @ 10h 52m

    Olá Ricardo,
    Obrigada pelo privilégio de poder desfrutar de seus excelentes textos.
    Um abraço

  3. Izolda Maria batista disse,

    28 de Fevereiro de 2009 @ 18h 52m

    Boa noite Ricardo!

    Muito bom seu texto. Estou lendo todos os e-maisl que recebo seus e repasso para que outras pessoas tenham conhecimento também.
    Sou professora e também discuto com meus alunos tal conteúdo. Desejo que você continue tendo inspiração para escrever e aglutinando cada vez mais pessoas para nossa luta.
    Admiro sua concepção política, já tive oportunidade de vivenciar na Fundação Santo André momentos de mobilização e a sua prática naquele momento foi fundamental para o alcance da nossa conquista. que durou mais aconteceu.

    Grata
    Izolda

  4. Flávio Almeida Curvelo dos Anjos disse,

    28 de Fevereiro de 2009 @ 22h 45m

    Olá Ricardo Alvarez

    Tenho lido as suas matérias e hoje resolvi deixar um comentário.
    Sobre todas as mazelas que assolam o mundo, desde fome, acúmulo de capital, desemprego e diversos outros problemas, penso muito a respeito.
    É tão alardeado muitas vezes que o capitalismo é o principal mal a ser combatido, mas penso o seguinte:
    Claro que analisando friamente e com critérios científicos, é absurdo pensar em um sistema que poucos ganham e muitos sofrem, mas este é um sistema ótimo para os mais primitivos anseios e instintos humanos. Poder, glória, fama…Quem tem isto deseja manter sua posição e quem não tem sempre luta para alcança-los. Pouco se imagina o preço que devemos pagar para que um sistema desse continue vigente. Portanto, no meu entendimento é um sistema que deixa a maioria feliz, quer dizer, pseudofeliz. Enganado em uma fantasia cor de rosa que o capitalismo prega.
    Tenho em mente que, enquanto os valores humanos não evoluírem esse sistema vai continuar por muito tempo… Pois, quem sabe se sobrevivermos a essa loucura consumista, predatória e individualista, as pessoas destes novos tempos irão moldar novos pensares e ter em mente que o importante são os valores humanitários que são universais do que os valores monetários que se esvaecem com um leve oscilar da bolsa de valores…

    Um grande abraço de seu ex-aluno e eterno admirador

  5. Nivaldete Ferreira disse,

    1 de Março de 2009 @ 01h 07m

    Muito competente a análise de Ricardo. O Brasil vem apresentando fatos políticos surrealistas, mesmo. E tudo vai parecendo ‘natural’… Com relação à economia, entendo muito bem de economia doméstica mas sou leiga em economia formal, quer seja a do Brasil, quer seja a mundial, mas me atrevo a manifestar a compreensão que me ocorre: vejo essa cena toda de crise assim: o capitalismo ultrapassou a condição de perverso para se apresentar como perversão. Um banco lucra 30 bilhões num ano. No ano seguinte, lucra 25… Então diz que teve prejuízo, quando apenas deixou de se locupletar com mais 5 bilhões, pois a meta era atingir 40 bi. É a gula desmesurada do lucro. Lembro o que diz Nietzsche no Zaratustra: há homens que são uma grande boca, um grande estômago… Quer dizer: monstros. As grandes empresas não parecem outra coisa.
    Se houvesse menos ganância, não haveria crise. A chamada civilização está estertorando no leito dessa perversão. E a maioria segue hipnotizada, da criança ao adulto ‘esclarecido’, que põe os cotovelos na mesa do bar pra fingir que está indignado e logo depois se ufana de ter adquirido, a prestação, um terreno num condomínio fechado. Adquirir um bem, em si, não é mau. Horrível é ser possuído pelo objeto. A criança, hipnotizada pela propaganda: se não possuir aquele celular de ponta, a auto-estima baixa. Civilização doente, sem felicidade ‘própria’. E a fala presidencial ajuda: comprem, comprem, senão as lojas fecham. E lá vai o dinheiro público socorrer as ‘pobres’ fábricas e bancos. Acho tudo isso feio, sem espírito. Acho POBRE. O que me consola é que há poetas para se ler, boa música pra se ouvir. É onde ainda é possível encontrar espírito.

  6. RGS(pesquisador) disse,

    1 de Março de 2009 @ 14h 39m

    È de fundamental importância um blog - que tenha a participação de todos os cidadãos e cidadãs - brasileiros - sobre tudo com idéias própositivas.Embora, muitos haveriam de escolher, um título pomposo para o mesmo,ex.;Solução Brasil - Idéias de de Progresso,Brasil para Todos ,etc,.

  7. Ame Fundação Mundial de Ecologia disse,

    1 de Março de 2009 @ 14h 53m

    Professor, o senhor está com toda razão.Precisamos virar o leque do capitalismo para um modelo anti-plutocrático, pois o atual modelo é sumamente liberal e não permite nenhum avanço DEMOCRÁTICO!
    Gostaríamos que visitasse o site www.ecologia.org.br e analisasse os arquivos O Brasil precisa de uma revolução ecopolítica, Ecologia Global, e Parceria Cívica.
    Ao mesmo tempo, convidamos V.Sa. a se tornar um dos parceiros do nosso iniciante projeto.
    Pela Vida!
    Waldemar Paioli - presidente

  8. Marinez Gentil Frada disse,

    2 de Março de 2009 @ 15h 47m

    Os textos que tenho recebido sõbre política e economia nacional são muito bem escritos e dão ao leitor excelente informação numa linguagem clara, objetiva e num texto coeso. Tenho lido e enviado para colegas lerem e se informarem a respeito dos vários temas desenvolvidos pelo autor.

  9. Tatiana disse,

    2 de Março de 2009 @ 23h 09m

    Realmente foi incrível a rapidez da resposta dos governos frente à crise. Bilhões que poderiam ter sido usado para seu devido fim - os bens e serviços comunais, além de outros investimentos no campo do concreto. Agora, todo esse dinheiro público, como vc bem disse, caiu pélo ralo…

    Parabéns pelo texto.

  10. Debora disse,

    3 de Março de 2009 @ 21h 21m

    Parabéns,como sempre muito contestador e muito humano

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