Arquivo de Geral

Joana D’Arc: a santa guerreira

Apesar da fé e da coragem para lutar contra a ordem vigente, a ira da Igreja Católica foi implacável contra Joana D’Aarc. A história de sua vida, porém, venceu as fogueiras da Inquisição e atravessou os séculos

Julinan Tavares

Joana D’Arc era uma garota pobre e analfabeta de 17 anos quando decidiu salvar a França dos ingleses. Guiada pelas vozes de santa Catarina, santa Margarida e são Miguel, que ela dizia ouvir desde os 13, deixou a aldeia de Domrémy, na atual Lorena, com a meta de ver o príncipe herdeiro do trono, Carlos VII, o delfim, coroado rei. A vontade tinha fundamento. Era 1429 e a França via-se em maus lençóis: um século antes, fora dizimada por pestes, intempéries e fome. Desde 1337 o país se debatia contra os ingleses, na Guerra dos Cem Anos. A região vivia uma guerra civil entre a população local e o rico ducado da Borgonha, vizinho à Lorena, que se aliara aos ingleses. Para Joana – e suas vozes –, apenas uma França forte e soberana poderia derrotar os inimigos. E isso só aconteceria quando o delfim recebesse a coroa na Catedral de Notre-Dame, em Reims, como mandava a tradição. Destemida, presunçosa e, para alguns, fanática, Joana D’Arc, sem nenhum conhecimento militar, convenceu na base da fé um pequeno grupo de soldados a acompanhá-la. Conseguiu muito mais.

Além de uma conferência com o príncipe, a camponesa obteve o que parecia impossível: seu próprio exército, de cerca de 7 mil homens, e a autorização real para marchar até Orléans (a 130 km de Paris) e livrá-la do cerco inglês. Montada num cavalo branco, a Donzela, como se denominou, inspirou os militares. Os ingleses, porém, não tardaram a chamá-la de vaqueira. De fato, Joana D’Arc havia, até então, apenas montado nas costas do gado do pai. Nunca usara uma armadura, jamais estudara táticas de guerra e nem sequer tinha visto um combate. No entanto, nada disso a intimidava. A prova é uma carta sua endereçada ao alto-comando inglês, pouco antes de invadir Orléans, na qual se afirmava chefe de guerra (posição que não lhe fora dada) e emissária de Deus. “Rei da Inglaterra”, dizia ela no comunicado, “se não entregardes o que haveis tomado e violado na França, vos matarei a todos.”

Seu desempenho como soldado, porém, não se mostrou excepcional: na Batalha de Orléans, ela pisou numa bola de cravos, que machucou seus pés e, por pouco, não a deixou fora do cerco à cidade. Durante o combate, foi ferida no peito por uma flecha, mas resistiu.

Os últimos combates

Em Jargeau, Joana foi derrubada de uma escada por uma pedra e, se não fosse seu elmo, teria sofrido um ferimento sério. Apesar das trapalhadas, a presença de Joana D’Arc foi a inspiração que faltava aos soldados franceses quando chegaram à cidade, em 29 de abril de 1429. Carregando um estandarte branco com a figura de Deus ladeada por dois anjos, ela viu as tropas protagonizarem um ataque sangrento. No dia 8 de maio, 4 mil dos cerca de 5 mil ingleses jaziam aniquilados. Encerrava-se assim a Batalha de Orléans, que alterou o cenário da guerra, até então marcada pela dominação britânica.

"O fato de ela ser mulher e ouvir vozes sagradas era algo fabuloso para as mentes da população do século 15", diz Ricardo Luiz Costa, professor de história medieval da Universidade Federal do Espírito Santo. A aura mística em torno de Joana aumentou ainda mais com novas vitórias nas vilas de Jargeau, Meung e Beauregency. As pessoas passaram a se amontoar para vê-la.

No dia 17 de julho de 1429, seu sonho se realizou: o delfim foi coroado. A missão poderia ter acabado ali, mas a garota tinha incorporado o papel de soldado. Sua nova ambição era expulsar os ingleses de Paris. Mas a total falta de preparo pesou, e Joana nunca mais conheceu a vitória. Na Batalha de Compiègne – que iniciou sem a autorização real –, a jovem, então com 19 anos, foi capturada. “Embora seu julgamento, que durou seis meses, fosse eclesiástico, Joana D’Arc terminou por ser condenada pelo governo inglês, que, ligando suas vitórias militares à bruxaria, pôde justificar suas perdas. Eram derrotas consideradas mais humilhantes por serem para uma mulher", diz a professora inglesa Mary Gordon, autora do livro Joana D’Arc. “A guerreira foi acusada de herege, relapsa e idólatra e levada a morrer na fogueira.” No dia 30 de maio de 1431, Joana caminhou acorrentada até uma praça no centro de Rouen, onde prenderam-na a uma estaca. Uma vez dentro do fogo, ela gritou mais de seis vezes ‘Jesus!’, teria contado um dos carrascos. Seu corpo carbonizado, acabou exposto em praça pública à multidão. Os restos mortais foram queimados e as cinzas atiradas ao rio Sena para impedir o culto. Mas o mito de Joana só aumentou.

Fonte: Aventuras na História – http://historia.abril.com.br/

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Arqueólogos encontram passagem para império viking

Há um século, os arqueólogos vêm buscando uma passagem num muro construído pelos vikings no norte da Europa. Neste verão, encontraram. Os pesquisadores agora acreditam que a extensa barreira foi construída para proteger uma importante rota comercial.

Matthias Schulz

Foto de arquivo mostra um barco viking em museu viking de Oslo, Noruega

Foto de arquivo mostra um barco viking em museu viking de Oslo, Noruega

Seus ataques vindos do nada em barcos longos e rápidos fizeram com que muitos chamassem os vikings de inventores da Blitzkrieg (a guerra-relâmpago alemã). “Como vespas selvagens”, diz uma descrição antiga, os vikings saquearam mosteiros e cidades inteiras da Irlanda à Espanha. O fato de que os vikings, que foram retratados de forma caricata nos quadrinhos, foram também construtores habilidosos é bem menos conhecido.

A prova pode ser vista no norte da Alemanha, não muito distante do Canal do Mar do Norte para o Báltico. Lá é possível maravilhar-se com a muralha gigante de 30 quilômetros que atravessa todo o Estado de Schleswig-Holstein. A construção massiva, chamada de Danevirke - “trabalho dos dinamarqueses” - é considerada a maior obra com terra no norte da Europa.

Os arqueólogos agora observaram mais de perto uma parte da construção – um muro de três metros de largura do século 8 próximo a Hedeby (conhecida como Haithabu em alemão). Ele foi construído inteiramente com pedras retiradas da região ao redor. Algumas delas são do tamanho de um punho, enquanto outras pesam até 100 quilos. “Os vikings coletaram milhões de rochas”, diz a arqueóloga Astrid Tummuscheit, que trabalha para o departamento de arqueologia do Estado de Schleswig-Holstein.

Posto alfandegário, pousada e bordel

Numa entrevista coletiva na sexta-feira (27), a equipe de Tummuscheit anunciou outra descoberta – que eles consideram “sensacional”. Os pesquisadores descobriram o único portão de travessia do Danevirke, um portal de cinco metros de largura. De acordo com escritos antigos, “carroças e homens a cavalo” costumavam passar pelo portão, chamado de “Wiglesdor”. Perto dele havia um posto alfandegário e uma pousada que incluía um bordel.

Há um século os arqueólogos sonhavam em encontrar este portão entre a Dinamarca e o império de Carlos Magno. Especialistas conheciam a localização aproximada, mas os arqueólogos não podiam escavar: havia uma antiga taverna no caminho. “O Café Truberg colocou freios em tudo”, diz Claus von Carnap-Bornheim, chefe do departamento de arqueologia de Schleswig Holstein.

As coisas só começaram a ir adiante quando o café faliu e foi comprado em 2008 com a ajuda da AP Møller-Fonds, um fundo que pertence a Arnold Maersk, dinamarquês de 97 anos que é dono da maior frota de contêineres do mundo. A companhia de energia E.on Hanse, subsidiária da E.on e responsável pelo norte da Alemanha, pagou para que o prédio fosse demolido e os arqueólogos puderam avançar. A nova descoberta também deve atrair uma atenção significativa ao norte da fronteira da Alemanha – o Danevirke é visto como um tesouro nacional na Dinamarca. A rainha Margrethe 2ª da Dinamarca visitou o local, assim como o príncipe Frederik.

Novos cálculos quanto à idade da construção indicam, entretanto, que as partes mais antigas do muro podem ter sido construídas pelos frísios, e não pelos dinamarqueses. Os arqueólogos agora acreditam que a pedra fundamental pode datar até do século 7.

Conhecidos pela pilhagem

Os frísios, que viveram na costa oeste do que hoje é a Dinamarca e em várias ilhas do Mar do Norte, lutavam pela supremacia na região com três outros povos: os dinamarqueses, os eslavos e os saxãos. “Era o Kosovo da Idade Média”, diz Carnap-Bornheim. No final, entretanto, foram os dinamarqueses que saíram vitoriosos. De acordo com registros contemporâneos, o rei Göttrik da Dinamarca ordenou em 808 que a fronteira de seu império com o dos saxõess fosse fortificada.

Mas por que fazer tamanho esforço? Para que os vikings empilharam milhões de toneladas de rochas em sua fronteira? Estruturas semelhantes de fortificação de fronteiras construídas pelos romanos ou a Grande Muralha da China foram construídas para se proteger de hordas de saqueadores. Mas no caso do Danevirke, os próprios construtores tinham fama de saquear. No século 8, a Dinamarca não tinha ruas de pedras nem casas de pedra. O rei pagão era protegido por guerreiros que usavam roupas de animais – os chamados “berserkers”.

Só os seus longos barcos eram tecnologicamente sofisticados – rápidos e leves e facilmente navegáveis. Eles permitiram aos dinamarqueses desenvolverem uma rede formidável de rotas de comércio. Eles viajavam pelos rios da Rússia até Bizâncio e navegavam o Atlântico Norte até a longínqua Islândia, Groenlândia e até o norte da América do Norte.

Comércio por terra

Mas havia um calcanhar de Aquiles nesse império comercial, e este se localizava em Hedeby. Para que os bens do leste fossem enviados para o oeste, eles precisavam cruzar a estreita faixa de terra na base da atual Dinamarca. Os comerciantes entravam no território pela baía de Schlei, até chegar a Hedeby, onde suas mercadorias eram descarregadas e enviadas por terra até o Rio Treene, a 18 quilômetros dali. Só então os bens podiam ser carregados em barcos e enviados pelo Mar do Norte.

Durante toda a duração dessa curta viagem por terra, os bens valiosos – incluindo ouro de Bizâncio, peles de urso de Novgorod e até estátuas de Buda da Índia – ficavam expostos a ataques. Foi para proteger essa importante artéria comercial que os arqueólogos hoje acreditam que foi construída a fortaleza de terra, pedras e tijolos. O Danevirk, em outras palavras, não era nada além de um escudo protetor para o comércio.

Nas próximas semanas, os arqueólogos pretendem escavar o portão recém-descoberto até o nível da antiga rua. Eles esperam encontrar antigas pedras de calçamento, dobradiças ou buracos onde ficavam os postes – os restos, talvez, de uma antiga passagem para a terra dos vikings.

Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

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Medidas xenofóbicas dividem a França

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Ana Teruel

O governo francês preparava sua ofensiva desde a derrota do partido presidencial nas eleições regionais de março. A cada três semanas, o presidente Nicolas Sarkozy organiza reuniões no Eliseu para preparar a campanha de 2012. No final de julho, o Executivo pôs a máquina em ação, ao anunciar uma série de medidas destinadas a combater a criminalidade. Em Grenoble, o mandatário não hesitou em misturar os temas de segurança urbana e imigração, duas temáticas muito populares entre o eleitorado de extrema-direita. A ofensiva provocou indignação de intelectuais, da oposição e de associações, mas as primeiras pesquisas apontam uma recuperação da popularidade do presidente.

Nicolas Sarkozy melhora nas pesquisas eleitoras com discurso de expulsão de ciganos e plano para tirar a nacionalidade de criminosos de origem estrangeira

Nicolas Sarkozy melhora nas pesquisas eleitoras com discurso de expulsão de ciganos e plano para tirar a nacionalidade de criminosos de origem estrangeira

Na sexta-feira, vários membros do partido no governo tiveram de se defender das últimas críticas, articuladas desta vez por uma agência da ONU. "Creio que esse comitê se equivoca", declarou nas ondas da RTL Dominique Paillé, porta-voz adjunto da União por um Movimento Popular (UMP), o partido governista. O político referia-se ao Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial, que esta semana analisou a situação da França. Os 18 especialistas do grupo só entregarão as conclusões de seu relatório no final deste mês, mas durante os debates foram especialmente duros com as últimas iniciativas governamentais.

Concretamente, no centro das críticas do comitê se encontrava a política do governo para a comunidade cigana, em particular os cerca de 15 mil de origem estrangeira. Foi anunciada pelo ministro do Interior, Brice Hortefeux, em 28 de julho passado, depois de uma reunião realizada no Eliseu, em resposta aos distúrbios registrados em Saint-Aignan depois da morte de um jovem cigano nas mãos da polícia. Hortefeux prometeu então desmantelar os cerca de 300 assentamentos ilegais de ciganos em três meses, a maioria habitados por romenos e búlgaros, e a expulsão "quase imediata" de todos os que tiverem cometido algum crime. Esta semana o próprio Hortefuex, que multiplica as intervenções públicas neste mês de agosto, anunciava que já tinham sido desalojados 40 desses assentamentos.

Dois dias depois, o presidente Sarkozy anunciava em Grenoble, palco de outros distúrbios no mesmo fim de semana que o de Saint-Aignan e também em consequência da morte de um jovem por um tiro da polícia, outra bateria de medidas, entre as quais sua intenção de modificar a lei para poder retirar a cidadania dos franceses nacionalizados que atentem contra algum representante da autoridade pública. O projeto, denunciado como anticonstitucional pelas associações de direitos humanos, por diferenciar entre vários tipos de franceses, será em princípio debatido em setembro na Assembleia Nacional. Os primeiros dados indicam que o governo conta com o apoio da população.

Segundo uma pesquisa publicada pelo jornal conservador "Le Figaro", 79% dos pesquisados se declaram a favor do desmantelamento dos povoados de ciganos. Entre o eleitorado de direita, a porcentagem dispara para 94%. Mais de 70% mostram-se favoráveis à retirada da nacionalidade de certo tipo de criminosos. Em outra pesquisa, desta vez publicada pelo jornal comunista "L’Humanité", 62% consideram necessários os desmantelamentos e 57% estão de acordo com as medidas relativas à cidadania. Quanto ao índice de popularidade do presidente, sobe pela primeira vez em meses, recuperando 2 pontos e situando-se em 34%, segundo uma pesquisa do jornal "Le Parisien".

A revista "Marianne", muito crítica ao presidente Sarkozy, publica esta semana outra pesquisa em que salienta que sete em cada dez franceses consideram ineficazes as medidas destinadas a combater a insegurança aplicadas nos últimos oito anos. Quer dizer, desde que Sarkozy ocupou o cargo de ministro do Interior, entre 2002 e 2007. A primeira-secretária do Partido Socialista, Martine Aubry, limitou-se por enquanto a denunciar a tendência "antirrepublicana" do governo, embora membros do partido afirmem que se expressará com mais detalhes sobre o projeto de retirada da nacionalidade quando recomeçar o semestre político.

Mais duras foram as palavras do ex-primeiro-ministro socialista, Michel Rocard, que qualificou a atitude eleitoralista do governo, "em busca do voto do partido [de extrema direita] Frente Nacional", de "execrável e escandalosa". À espera de comprovar se essas medidas representaram o ponto de inflexão esperado pelo governo na reconquista da opinião pública, por enquanto o Executivo conseguiu deixar em segundo plano o que se prenunciava como a novela do verão, o escândalo político-financeiro conhecido como caso Bettencourt, que salpicava em cheio o titular do Trabalho, Eric Woerth. O ministro, que em setembro terá de defender a grande reforma do sistema de aposentadorias do governo, foi interrogado apenas alguns dias antes do discurso de Grenoble pelos agentes da polícia financeira no âmbito da investigação em torno da fortuna da herdeira da l’Oréal, Liliane Bettencourt, devido a um possível conflito de interesses.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

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Envelhecimento pode não estar associado a perda de neurônios

Valéria Dias

Uma série de pesquisas realizadas na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP sugere que o processo de envelhecimento não está, obrigatoriamente, associado a uma diminuição no número de neurônios, podendo este número se manter estável ou até mesmo aumentar nas pessoas idosas. As pesquisas estão sendo realizadas no Laboratório de Estereologia Estocástica e Anatomia Química (LSSCA) do Departamento de Cirurgia da FMVZ, sob a coordenação do estereologista Antonio Augusto Coppi.

Segundo o professor, de 1954 até 1984, o uso de métodos de análise inadequados em diversas pesquisas nacionais e internacionais conduziu os cientistas a acreditarem que, ao envelhecermos, nosso cérebro perdia células nervosas. “Porém, a partir de 1984, com a publicação do método estereológico, os pesquisadores menos resistentes contestaram os resultados anteriores, iniciando o emprego da quantificação de neurônios por estereologia (3D)”, conta.

A Estereologia é uma ciência que permite a análise não apenas em duas dimensões (comprimento e largura), mas também levando em conta a profundidade (3D) e até mesmo o fator tempo (4D). Com isso é possível estimar o número total de objetos (e não apenas o número de perfis dos mesmos), o verdadeiro tamanho (volume), além de outros parâmetros, com precisão e acurácia. O LSSCA é uma referência mundial na área e representante da América do Sul junto à Sociedade Internacional de Estereologia.

Neurônio binucleado de preá idoso: cada seta aponta para um núcleo

Nos últimos nove anos, foram realizados no Laboratório diversos estudos nas modalidades de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado abrangendo o sistema nervoso periférico de roedores como ratos, cobaias, preás, cutias, pacas e capivaras, assim como de cães e cavalos.

Dentro de cada uma dessas espécies, os animais foram divididos em quatro grupos etários: neonatos (3 dias), jovens (1 mês), adultos (12 meses), senis (2 a 10 anos, dependendo da espécie estudada). Esses animais eram saudáveis e não apresentavam sinais clínicos de doenças no sistema nervoso, o que poderia interferir nos resultados.

As análises foram feitas com neurônios do gânglio cervical superior e do gânglio mesentérico inferior. Esses gânglios pertencem ambos ao sistema nervoso simpático, sendo que o primeiro inerva os vasos cerebrais e o coração, entre outros, e o último inerva os intestinos delgado e grosso. “É importante notar que células nervosas (neurônios) são encontradas não só no cérebro, mas também fora dele, em gânglios do sistema nervoso periférico”, aponta Coppi.

Resultados

Entre as conclusões inéditas está o fato de que, na maioria das espécies, o envelhecimento ocasionou um aumento no tamanho (volume) dos neurônios, ou seja, uma hipertrofia. Em cães, os pesquisadores encontraram aumentos de até 100% no tamanho do neurônio. “Não se sabe ao certo porque isso ocorre. Estudos recentes têm sugerido que a hipertrofia seria um mecanismo para manter a quantidade de substâncias produzidas pelos neurônios, como por exemplo, neurotransmissores, no advento de alguma doença ou perda de células”, afirma.

O comportamento do número de neurônios durante o envelhecimento foi extremamente variável nos animais estudados: nos cães o número aumentou 1.700%, ao passo que roedores selvagens idosos apresentaram o mesmo número de neurônios dos neonatos e jovens, ou seja, não houve diminuição no número destas células nervosas durante o envelhecimento. Já em cobaias, o número de neurônios diminuiu 21%.

“Os resultados sugerem que não existe um padrão específico em relação ao número total de neurônios durante o envelhecimento, pois nossos achados mostram 3 situações claras: diminuição, aumento ou estabilidade no número de células nervosas”, afirma Coppi.

Um dado que gerou surpresa nos pesquisadores foi a presença de células nervosas se dividindo em roedores selvagens idosos (preás e cutias). “Esta constatação coloca em dúvida um dogma na neurociência de que os neurônios no sistema nervoso autônomo se dividem até o primeiro ou segundo mês de vida, e partir daí a divisão celular é interrompida”, destaca.

Neurônios marcados em marrom estão em atividade de divisão celular tanto no preá neonato (A) quanto no preá idoso (B)

Binuclearidade

Coppi cita ainda uma outra descoberta importante: a existência de neurônios binucleados em cobaias e em outros roedores selvagens (preás, pacas, cutias e capivaras), tanto em animais neonatos quanto nos animais idosos. No entanto, tais neurônios binucleados não foram vistos em ratos ou camundongos.

Segundo o estereologista, uma das hipóteses para a existência de neurônios binucleados, é de que estes seriam uma reserva para o gânglio cervical superior, podendo os mesmos se dividir (inclusive no animal idoso) e gerar novos neurônios, na tentativa de compensar uma perda de células.

Os resultados destas pesquisas foram publicados em revistas médicas internacionais e com arbitragem, gerando 6 artigos científicos completos. Adicionalmente, foram produzidas duas dissertações de mestrado, defendidas recentemente. Coppi cita ainda que estas pesquisas foram financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

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Norberto Bobbio, L’Unità e o PCI

Bruno Gravagnuolo

Bobbio e L’Unità. Bobbio e o PCI. Ligação dupla e inevitável, que é parte da história da Itália. E que reapresentamos ao leitor neste especial on-line que inclui os escritos do filósofo no nosso jornal entre 1982 e 2004, pouco antes da sua morte.

É verdade, aquela relação começa já no pós-guerra e se prolonga nos anos em que não havia mais o PCI, e o nosso cotidiano não era mais órgão de partido. E, no entanto, tomar 1982 como data inicial tem o valor de uma recapitulação madura e consolidada de uma atitude jamais abandonada por Bobbio em relação ao comunismo e ao pós-comunismo italiano. A saber: uma estratégia de atenção maiêutica. Dirigida a uma força emancipadora de massa, o PCI, por Bobbio considerada crucial para a Itália moderna. Estratégia que penetra fundo e é “escutada” por aquele PCI. Até resultar num ingrediente essencial da futura reviravolta PCI-PDS de 1989, bem como eixo básico da tentativa de imprimir identidade a tudo o que se seguiria a 1989 (que, afinal, se tenha tornado um “eixo” é um outro discurso).

O que significa “maiêutica”? Nada além de tenacidade socrática, por parte de Norberto Bobbio. Tenacidade ativa em torno de pontos chave a serem estimulados na identidade comunista, tal como amadurecia ao longo de todo o pós-guerra. A democracia, antes de mais nada, e a relação política e cultura. E mais ainda: a relação com o marxismo, com o direito. E com a paz, para Bobbio valor irrenunciável e não “estrábico”, que não deve ser confundido com os alinhamentos ideológicos de campo, mas sim medido com o realismo das condições dadas. Um realismo que, às vezes, fazia Bobbio desesperar quanto à possibilidade de brandir, “sem poréns e incondicionalmente”, aquele valor, no entanto, segundo ele, absoluto e não dedutível, a não ser por um ato de fé ou de “ética da intenção”.

Recapitulemos, então. De um lado, Norberto Bobbio, filósofo do direito turinense, que passa do juspositivismo de Hans Kelsen para uma visão funcionalista e de esquerda do direito, insatisfeita com o puro formalismo burguês, que não levava em conta o Estado social e seus direitos expansivos. Do outro, o PCI de Togliatti, que chega à democracia progressiva, gradualista, equilibrando-se entre os dois blocos e esperançoso quanto à distensão geopolítica (mas sempre com o baluarte soviético na retaguarda). O desafio de Bobbio sempre reiterado — mesmo nos escritos dos anos 1980, que reapresentamos — consiste nisso: a democracia levada a sério. Com todos os fatos anexos e conexos. E democracia levada a sério contra visões formalistas e censitárias dos direitos. E contra visões totalitárias e finalistas da emancipação, inclusive a comunista. Aos comunistas italianos Bobbio perguntaria continuamente: que ideia vocês têm de Estado? Das liberdades? Do pluralismo? Do conflito? Da cultura? E que ideia vocês têm da mudança e da paz?

As respostas não faltaram da parte comunista. Especialmente numa célebre disputa emPolitica e cultura do início dos anos 1950, depois retomada com as réplicas de Bobbio num volume da Ed. Einaudi. E as respostas eram mais ou menos “tranquilizadoras”. Isto é: a cultura é um campo hegemônico de interesses em luta, autonomamente transferidos para formações ideais e de pensamento. Por isso, segundo Togliatti e della Volpe, máxima liberdade para todos, mas primado do impulso libertador e emancipador encarnado pela classe operária e pelos seus “intelectuais progressistas”. Nos termos de um marxismo gramsciano, e não mecânico ou grosseiro. Não, replicava Bobbio: a cultura é autônoma. É uma função universal do intelecto, que se conjuga com os interesses e também com eles se mistura. Tal como a ciência empírica, cuja liberdade não subjugada (pelo menos idealmente) reproduz, a seu modo e com seus métodos. Mesmo discurso em Bobbio para a democracia: campo de conflitos, certamente, para o filósofo. Mas campo perene e não superável por plebiscitos, consenso populista ou filosofias da história que extingam a representação e as suas “regras”.

No fundo, era esta, desde os anos 50 a ideia da democracia como “valor universal”assumida por Berlinguer vinte anos depois. Deste modo, para Bobbio, a democracia, assim como o direito eram técnicas não superáveis de exercício da soberania popular, em sintonia com as garantias para as minorias. E com a possibilidade, sempre dada para estas, de se tornarem maioria. Na prática, era o conceito de “alternativa” como mecanismo de troca e modo de funcionamento da democracia (que fosse bipolar ou majoritária pura e simples é um outro discurso, que Bobbio não abordava). Portanto, concordância e discordância entre Bobbio e o PCI, mas em todo caso sintonia, muito bem documentada na antologia on-line que propomos. Por quê? Já o mencionamos. À medida que os anos passam, o PCI aproxima-se de ideias cada vez mais afins às de Bobbio, até o ponto de assumi-las como suas.

Certamente, o Bobbio dos anos 80 não compartilha o compromisso histórico e, precisamente, defende uma alternativa reformista de esquerda, na trilha do liberal-socialismo (do qual, no início, pensou encontrar um líder em Craxi, para depois mudar de opinião). E mais: Bobbio é contra a “terceira via” de Berlinguer, contra o eurocomunismo. De fato, acredita na social-democracia. Mas avançada. E baseada nos direitos sociais. Até mesmo com momentos de democracia direta na sociedade civil (mas com o primado do Parlamento). Todavia, o aguilhão não se detém, incomoda e força os comunistas a acertarem suas contas com tudo isso. Restariam muitas outras coisas por dizer. A paz, a Hungria, a “guerra justa”, ponto este sobre o qual Bobbio foi capaz de autocrítica (não justa, mas “justificada”, corrigiu-se). E restaria falar do juízo final de Bobbio sobre o comunismo implodido: uma utopia falida, mas por trás dela exigências e necessidades atuais. Por fim, as polêmicas que amarguraram o último Bobbio. A descoberta midiática das suas fraquezas em relação ao regime fascista, que, como estudioso, não combateu e até tentou “apaziguar”, quando, em 1935, terminou na sua mira (com os azionisti de Turim). Página amarga, que o filósofo enfrentou com honra e dignidade, sem fingimentos e com extrema crueldade autocrítica. Encontram-se passagens no “especial” de 19/01/2004, que então dedicamos à lição de Bobbio (“Bobbio explicado por Bobbio”). Ali, mais uma vez emL’Unità, está tudo o que Bobbio disse e pensou sobre “política e cultura”. Leiam-no, imprimam-no e conservem-no. Servir-lhes-á em tempos de pensamentos débeis, vira-casaca, e poderosos “fortes”. Que gostariam de destruir tudo aquilo que Bobbio, “companheiro” e mestre, quis e pensou para a Itália.

Fonte: Gramsci e o Brasil – http://www.acessa.com/gramsci/index.php

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Que crise económica? Os lucros aumentam!

James Petras

Enquanto os progressistas e os esquerdistas escrevem sobre as "crises do capitalismo", os industriais, as companhias petrolíferas, os banqueiros e muitas outras grandes empresas de ambos os lados do Atlântico e da costa do Pacífico encaminham-se sorrateiramente para a banca.

A partir do primeiro trimestre deste ano, os lucros das empresas dispararam entre vinte a mais de cem por cento (Financial Times, 10/Agosto/2010, p. 7). Na realidade, os lucros das empresas subiram mais do que antes do início da recessão em 2008 ( Money Morning, 31/Março/2010). Contrariamente aos bloggers progressistas as taxas dos lucros estão a subir em vez de descer, principalmente entre as maiores empresas ( Consensus Economics, 12/Agosto/2010). O acréscimo dos lucros empresariais é consequência directa do agravamento das crises da classe trabalhadora, dos funcionários públicos e privados e das pequenas e médias empresas.

No início da recessão, o grande capital eliminou milhões de postos de trabalho (um em cada quatro americanos ficou desempregado em 2010), conseguiu recuos dos patrões dos sindicatos, beneficiou de isenções de impostos, de subsídios e de empréstimos praticamente sem juros dos governos locais, estaduais e federal.

Quando a recessão bateu no fundo temporariamente, os grandes negócios duplicaram a produção com a restante mão-de-obra, intensificando a exploração (maior produção por trabalhador) e reduziram os custos passando para a classe trabalhadora uma fatia muito maior dos encargos com os seguros de saúde e com os benefícios de pensões a aquiescência dos responsáveis milionários dos sindicatos. O resultado é que, embora as receitas tenham diminuído, os lucros subiram e os balancetes melhoraram ( Financial Times, 10/Agosto/2010). Paradoxalmente, os directores-gerais utilizaram o pretexto e a retórica das "crises" oriunda dos jornalistas progressistas para impedir os trabalhadores de exigirem uma fatia maior dos lucros florescentes, ajudados pela reserva cada vez maior de trabalhadores desempregados e sub-empregados como possíveis "substitutos" (amarelos) no caso de acções de protesto.

A actual explosão de lucros não beneficiou todos os sectores do capitalismo: a sorte grande saiu sobretudo às maiores empresas. Em contrapartida, muitas pequenas e médias empresas registaram altas taxas de falências e de prejuízos, o que as tornou baratas e presa fácil para aquisição pelos "grandes chefões" ( Financial Times,01/Agosto/2010). As crises do capital médio levaram à concentração e centralização do capital e contribuíram para a taxa crescente de lucros das empresas maiores.

O diagnóstico falhado das crises capitalistas feito pela esquerda e pelos progressistas tem sido um problema omnipresente desde o fim da II Guerra Mundial, quando nos foi dito que o capitalismo estava ‘em estagnação’ e se dirigia para um colapso final. Os recentes profetas do apocalipse viram na recessão de 2008-2009 a queda definitiva e total do sistema capitalista mundial. Cegos pelo etnocentrismo euro-americano, não viram que o capital asiático nunca entrou nas "crises finais" e a América Latina teve uma versão suave e passageira ( Financial Times.09/Junho/2010, p. 9). Os falsos profetas não conseguiram reconhecer que os diferentes tipos de capitalismo são mais ou menos susceptíveis às crises… e que algumas variantes tendem a sofrer rápidas recuperações (Ásia, América Latina, Alemanha) enquanto outras (EUA, Inglaterra, Europa do Sul e do Leste) são mais susceptíveis a recuperações anémicas e precárias.

Enquanto a Exxon-Mobil arrebanhou mais de 100% de aumento de lucros em 2010 e as empresas de automóveis registaram os seus maiores lucros dos últimos anos, os salários dos trabalhadores e o seu nível de vida diminuíram e os funcionários públicos sofreram pesados cortes e despedimentos maciços. É óbvio que a recuperação de lucros empresariais se baseia na mais dura exploração da mão-de-obra e de maiores transferências de recursos públicos para as grandes empresas privadas. O estado capitalista, com o presidente democrata Obama à frente, transferiu milhares de milhões para o grande capital através das operações de salvamento, empréstimos praticamente isentos de juros, cortes nos impostos e pressionou a força de trabalho a aceitar salários mais baixos e reduções na saúde e das pensões. O plano da Casa Branca para a ‘recuperação’ resultou para lá de todas as expectativas – os lucros empresariais recuperaram; "só" a grande maioria dos trabalhadores é que se afundou mais nas crises.

As previsões falhadas dos progressistas quanto à morte do capitalismo são consequência directa da subavaliação da dimensão com que a Casa Branca e o Congresso iria pilhar o erário público para ressuscitar o capital. Subavaliaram o grau com que o capital iria ser aliviado para sacudir toda a carga da recuperação de lucros para cima das costas dos trabalhadores. Neste aspecto, a retórica progressista sobre a "resistência da força de trabalho" e o "movimento sindical" reflectiram a falta de compreensão de que praticamente não tem havido qualquer resistência à redução dos salários sociais e monetários porque não existe organização da força de trabalho. O que se intitula como tal está completamente ossificado e ao serviço dos defensores da Wall Street do Partido Democrata na Casa Branca.

PROCESSO PRECÁRIO

O que o actual impacto desigual e injusto do sistema capitalista nos diz é que o capitalismo consegue ultrapassar as crises aumentando apenas a exploração e anulando décadas de "ganhos sociais". Mas o actual processo de recuperação de lucros é altamente precário porque se baseia na exploração de inventários actuais, taxas de juros baixas e cortes nos custos da mão-de-obra ( Financial Times, 10/Agosto/2010, p. 7). Não se baseia em novos investimentos privados dinâmicos nem no aumento da capacidade produtiva. Por outras palavras, são "ganhos ocasionais" – não são lucros provenientes de receitas de vendas acrescidas nem de mercados de consumo em expansão. Como poderiam ser – se os salários estão a diminuir e o desemprego, o sub-emprego e a redução da mão-de-obra é maior do que 22%? Obviamente, esta explosão de lucros a curto prazo, com base em vantagens políticas e sociais e num poder privilegiado, não é sustentável. Há limites para os despedimentos maciços de funcionários públicos e para os ganhos de produção a partir da exploração intensificada da mão-de-obra… alguma coisa tem que ceder. Uma coisa é certa: O sistema capitalista não vai cair nem ser substituído por causa da sua podridão interna ou"contradições".

Fonte: Resitir – http://resistir.info/

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Um rio pra lá de Bagdá

Steven Lee Myers

Novo governo do Iraque não consegue resolver poluição do rio Shatt al Arab, na fronteira com Irã

O Shatt al Arab, rio iraquiano que brota do território bíblico do Jardim do Éden e vai até o Golfo Pérsico, transformou-se em um desastre ambiental e econômico que o recente governo democrático é incapaz de reparar.

A grande estiagem e a negligência da ditadura fizeram com que o rio, formado pela convergência dos rios Tigres e Eufrates, não tivesse força para manter afastadas as águas do mar.

A água salgada do golfo agora está levando embora a Península de Al-Faw. No ano passado, pela primeira vez, ela se estendeu além de Basra, a maior cidade portuária do Iraque, e até mesmo Qurna, onde os dois rios se encontram. Devastou pescas de água doce, animais de fazendas, colheitas e tamareiras que há séculos tornaram a área famosa.

O problema forçou a migração de dezenas de milhares de fazendeiros.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6738

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O avanço do mar

Pesquisa da USP revela que o nível do oceano no Brasil sobe 4mm por ano. Índice é considerado alto e coloca em risco áreas litorâneas do país

Gisela Cabral

 - (Danilson Carvalho/CB/D.A Press)

“Não há dúvida de que o nível do mar tem aumentado gradativamente no litoral brasileiro.” A conclusão consta de estudo realizado pelo Laboratório de Marés e Processos Temporais Oceânicos (Maptolab) do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO/USP). O alerta significa que o país pode sofrer, no futuro, com uma das piores consequências do aquecimento global: a destruição de regiões inteiras localizadas próximo à costa.

As informações obtidas pela equipe do laboratório mostram que o nível do mar vem aumentando cerca de 40cm por século, ou 4mm por ano. O dado surgiu a partir de medições realizadas em estações de pesquisa de Cananeia e de Ubatuba, ambas no litoral de São Paulo, e da análise de registros colhidos em portos do país entre 1957 e 1993. As possíveis consequências do fenômeno vão da perda da faixa de areia à destruição de cidades, passando por ressacas mais violentas e inúmeros outros transtornos.

A equipe coordenada pelo professor Afrânio Mesquita fez uso de equipamentos específicos, como o medidor de boia flutuadora, além de um radar (veja arte abaixo). “Na nossa avaliação, os dados são extremamente preocupantes. A variação do nível do mar detectada é simplesmente absurda”, destaca Mesquita.

Medições feitas na região de Cananeia, por exemplo, mostram um movimento de afundamento vertical da costa na ordem de 0,11cm por ano. Isso faz com que o nível do mar suba em relação à costa 0,38cm no mesmo período. “Essa variação ameaça as praias, talvez, de toda a costa brasileira”, afirma Mesquita.

De acordo com a Marinha do Brasil, a elevação do nível do mar já afeta, direta ou indiretamente, as atividades costeiras. “No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, existem áreas que apresentam indícios claros de erosão, tais como Atafona, Barra do Furado, Macaé e até a praia do Leblon. Essas estariam mais vulneráveis à elevação do nível do mar”, afirma Geraldo Nogueira, professor de marés da Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha.

Monitoramento

A Marinha participa do Programa de Sistema Global de Observação do Nível do Mar (Gloss, na sigla em inglês) com seis estações maregráficas (de medição das marés) permanentes. O período mínimo de observação para estimar tendências de variação do nível do oceano é de 50 anos. “Atualmente, no Brasil, apenas as estações maregráficas da Ilha Fiscal (RJ) e de Cananeia possuem observações com período acima de 50 anos”, explica Nogueira. O professor acredita que, por ter uma costa muito extensa, o país deveria contar com uma rede de medição permanente, a fim de elaborar planos estratégicos de ocupação ou remoção de construções nas áreas onde a variação relativa do nível do mar for mais significativa.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é outra instituição brasileira participante do Gloss-Brasil, que compreende atividades relacionadas ao monitoramento do mar em águas jurisdicionais brasileiras. “Entre os objetivos, está a implantação de rede permanente de monitoramento do nível do mar, geração de dados com qualidade científica que suportem análises de tendência de longo período, capacitação de pessoas para a produção e análise de informações sobre esse tema, entre outras atribuições”, explica Milton Kampel, chefe da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe.

A ferramenta básica de uma estação é o marégrafo, que registra a altura da água ao longo do tempo, utilizando diferentes sistemas. “Para integrar a rede, os marégrafos devem estar de acordo com o Plano de Implementação do Gloss”, destaca Kampel, lembrando que as estações Gloss também podem fazer medições de outros parâmetros meteorológicos e oceanográficos, como pressão atmosférica, temperatura do ar e da água, evaporação, direção e intensidade do vento.

O especialista do Inpe diz que a elevação do oceano preocupa porque as regiões costeiras costumam ter alta densidade populacional. “Milhões de pessoas vivem numa faixa entre 1m e 5m da linha de costa (maré alta). Bilhões de dólares em infraestrutura estão investidos em regiões imediatamente adjacentes à costa. A maioria das megalópoles mundiais, com populações de muitos milhões de habitantes, também estão na zona costeira”, lembra. Kampel aponta ainda que o nível do mar global aumentou durante o século passado e estima-se que essa elevação se acelere no século 21. “Entretanto, a magnitude do problema permanece incerta”, destaca. “Ainda que os impactos da elevação sejam potencialmente grandes, a aplicação e o sucesso de medidas para amenizar esses efeitos permanecem duvidosos, requerendo mais esforço de pesquisa”, alerta.

Fonte: Correio Braziliense – http://www.correiobraziliense.com.br/

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Democracia ou plutocracia?

A palavra democracia, no abstrato, virou bandeira da propaganda ideológica dominante, irradiada a partir dos Estados Unidos, para combater qualquer governo que, de alguma forma, contraria interesses dessas forças sociais e políticas.Qualquer inimigo de Washington é fustigado por violação dos princípios democráticos, mas o mesmo não ocorre com os seus amigos. Na Arábia Saudita, por exemplo, não há sequer partido político, mas a mídia jamais foi acionada para pressionar o rei Abdallah por isso.

Hideyo Saito

Consta que, questionado por um repórter da Folha de S. Paulo se considerava o regime cubano democrático, o presidente do PT, Eduardo Dutra, teria respondido negativamente. Se assim aconteceu, o dirigente petista deu como certo que a sua concepção de democracia era a mesma professada pelo repórter (ou, no caso, pelo jornal que ele representava). Ocorre que a palavra democracia, no abstrato, virou bandeira da propaganda ideológica dominante, irradiada a partir dos Estados Unidos, para combater qualquer governo que, de alguma forma, contraria interesses dessas forças sociais e políticas. É notório que os jornalões brasileiros (inclusive a Folha) e seus funcionários mais salientes assumiram integralmente essa postura. Dutra, portanto, perdeu uma oportunidade para suscitar a verdadeira questão: de que democracia estamos falando, amigo?

Ora, salta aos olhos que, na citada campanha, democracia é o que menos interessa aos seus promotores. Qualquer inimigo de Washington – o governo cubano, o iraniano ou o venezuelano – é invariavelmente fustigado por violação aos princípios democráticos, mas o mesmo não ocorre com os seus amigos. Na Arábia Saudita, por exemplo, não há sequer partido político, mas a mídia jamais foi acionada para pressionar o rei Abdallah por isso. Isso ficará ainda mais claro nos arranjos para a sucessão do presidente egípcio Hosni Mubarak, outro aliado dos Estados Unidos que nunca foi incomodado por reprimir a oposição, censurar a imprensa e fraudar eleições. Por isso, o oposicionista Mohamed El Baradei, ex-chefe da agência atômica ONU, que defende a implantação de uma democracia de tipo ocidental no Egito, dificilmente terá o apoio de Washington e de seus seguidores.

A democracia, definitivamente, tem sido mero pretexto para atacar governos que contrariam interesses dominantes no capitalismo. Assim, os modernos cruzados declaram combater o governo venezuelano porque supostamente ele está sufocando a democracia, escondendo que o fazem, de fato, porque sua política ameaça os interesses de grandes grupos econômicos, pondo em risco o próprio capitalismo. Como já disse outrora o economista John Kenneth Galbraith: “Quando a mídia dominante ataca o governo cubano, seus porta-vozes evitam cuidadosamente colocar os termos ‘socialismo’ e ‘capitalismo’. Atacam Cuba, mas sem falar que combatem o socialismo ou, pior ainda, que defendem o capitalismo” (1).

Eleição nos EUA, política ou negócio?

Em todo caso, os países afetados pela campanha costumam ser acusados de se afastar da democracia. Mas que democracia, afinal? O modelo apresentado como exemplo é o do regime vigente nos Estados Unidos, onde funcionam diversos partidos políticos e há eleições periódicas, além de liberdade de expressão. Mas será essa uma democracia tão exemplar, a ponto de justificar sua apresentação como modelo e até de ser usada para pressionar países soberanos? A eleição presidencial de 2008, que levou Barack Obama à Casa Branca, pode habilitar-nos a responder negativamente a essa questão. Está certo que esse foi um pleito com excepcional participação popular, mas com tudo isso pouco mais de 50% dos eleitores potenciais compareceu às urnas. E, pasmem, há um século não se alcançava essa marca! Em outras palavras, há mais de cem anos todos os presidentes estadunidenses vêm sendo eleitos por uma pequena minoria da população. Nem por isso, cogitou-se estimular maior participação popular: as eleições acontecem em pleno dia de trabalho e não há sequer exortação do governo para que os assalariados sejam liberados para irem votar.

Aliás, é sintomático que a cobertura da mídia a essas eleições presidenciais, como sempre, enfatizou mais a questão da arrecadação de dinheiro do que as propostas dos candidatos, parecendo indicar que isso é o mais importante. É como se houvesse um implícito reconhecimento de que quem conquistar maior apoio dos grandes grupos econômicos (que, em última análise, são os financiadores decisivos das campanhas) terá sido ungido pela classe que realmente conta. Vimos isso nas manchetes dos dias que antecederam e se seguiram à chamada “Superterça” (05/02/2008), em que foram decididas as primárias em 21 estados. A imprensa anunciou que, para continuar com chance nessa maratona, a pré-candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, havia gasto na campanha US$ 5 milhões do seu próprio bolso. Logo após as primárias, em que se saiu vitoriosa em oito daqueles estados, incluindo Califórnia e Nova York, a candidata comentou esse aporte de dinheiro: "Queríamos ser competitivos e fomos. Acho que os resultados da noite de terça provaram a sabedoria do meu investimento”. (2)

O Estado de S. Paulo explicou a importância da arrecadação de dinheiro na eleição estadunidense: “É esse dinheiro que paga os funcionários dos comitês de campanha e financia os comícios e viagens para os diversos Estados americanos. Além disso, os fundos de campanha são importantes também porque nos EUA não existe horário eleitoral gratuito. Assim, todos os candidatos devem comprar seus espaços na TV e no rádio. Quanto mais dinheiro, mais exposição. Firmas e organizações sindicais, no entanto, podem financiar os comitês de ação política, que ajudam a passar o chapéu entre os americanos.” (3)

Prosseguindo na explicação, e correndo o risco de confundir o eleitor, que poderia pensar que se trata de negócio e não de eleição, o jornal detalhou:

“O pré-candidato republicano Mitt Romney, que ontem abandonou a disputa pela indicação de seu partido, é um bom exemplo de como uma campanha de arrecadação ineficiente e a falta de um bom projeto para alocar os recursos coletados pode afundar uma candidatura. Desde o início de sua campanha, Romney, ex-governador de Massachusetts, teve de gastar do próprio bolso pelo menos US$ 35 milhões (sua fortuna pessoal é estimada em US$ 250 milhões). Para cada delegado que conseguiu eleger, Romney gastou US$ 654 mil. O também republicano Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas e agora segundo na disputa pela indicação de seu partido, foi o que teve a campanha mais bem-sucedida em termos de retorno financeiro. Cada um de seus 156 delegados lhe custou US$ 45 mil.

‘Está claro que o dinheiro de Romney não conseguiu lhe comprar apoio’, diz Sheila Krumholz, diretora-executiva do Centro de Políticas Responsáveis, entidade que analisa os dados de financiamento de campanha dos candidatos. ‘Ele gastou muito mais que Huckabee, mas seu rival fez apostas mais certeiras.’ Hillary gastou cerca de US$ 90 mil por delegado (ela tem 892 até agora). Obama, que tem 716 delegados, de acordo com o jornal New York Times, gastou US$ 119 mil.” (4)

Segundo levantamento do Instituto de Financiamento de Campanha, a receita arrecadada pelo comitê de Barack Obama nas prévias e nas eleições gerais totalizou US$ 746 milhões. Desse montante, 24% vieram de doações abaixo de 200 dólares, 28% de 201 a 999 dólares e 48% acima de mil dólares. Como se sabe, a campanha de Obama se notabilizou por ter conseguido mobilizar grande número de eleitores com o uso da internet. Daí o percentual de grandes doações ter representado menos da metade do total, contrariando a tradição. Apenas para comparação, 60% das doações feitas a Bush em 2004 foram de valores superiores a mil dólares (5). Mas é importante não esquecer que, mesmo no caso de Obama, o dinheiro grosso veio mesmo de empresas e organizações (via Comitês de Ação Política ou pessoas físicas), como Califórnia University (US$ 1,6 milhão), Goldman Sachs (US$ 995 mil), Harvard University (US$ 855 mil), Microsoft (US$ 833 mil) e Google (US$ 803 mil). Essa relação não inclui as contribuições corporativas para os comitês partidários (6).

O povo vota a cada 4 anos; o mercado, todos os dias

É evidente que campanhas eleitorais caras, como as dos EUA e dos demais países que acompanham o modelo, inclusive Brasil, aumentam o poder dos detentores de dinheiro. Afinal, como um partido sem apoio empresarial poderia bancar uma campanha tão cara e privatizada? Não é casual que, nos Estados Unidos, os candidatos presidenciais não vinculados à elite econômica sequer são mencionados pela mídia, permanecendo desconhecidos da própria população. Como considerar democráticas eleições como essas? Mas além dessa influência eleitoral, os grandes grupos econômicos exercem a sua “capacidade de persuasão” no dia-a-dia dos representantes que ajudaram a eleger, em todos os níveis de poder. O presidente Eisenhower não foi o primeiro a advertir, no final de seu governo, contra a perniciosa influência das empresas, especificamente do complexo industrial-militar, cujo poderio classificou como um risco para o processo democrático. Nos anos 90, um dos mais ativos especuladores financeiros, George Soros, proclamava alto e bom som: “Enquanto o povo vota a cada quatro anos, o mercado vota todos os dias”. Nada mais verdadeiro.

A revista mexicana Contralínea diz que a maior ameaça à democracia nos EUA não vem do terrorismo, mas da corrupção no Congresso, citando resultado de investigação realizada pelo Projeto Censurado 2010. Os gastos do lobby dos grupos empresariais para comprar (é esta a palavra correta) a aprovação de leis de seu interesse ou o engavetamento de alguns poucos projetos contra, que ainda ousam ser apresentados, ascenderam a US$ 3,2 bilhões em 2008. O Projeto Censurado, criado para denunciar a permanente censura exercida pelos oligopólios informativos do país, para impedir a divulgação de matérias sobre assuntos incômodos à classe dominante, mostrou que 28% dos membros da Câmara de Representantes enriquecem investindo em empresas que receberam contratos do Pentágono, aprovados por eles mesmos (7). O dinheiro gasto pelo lobby empresarial naquele ano, US$ 3,2 bilhões, representou um crescimento sem precedente de 13,7% em relação a 2007, conforme levantamento efetuado pelo Center for Responsive Politics (Centro para a Responsabilidade Política). Foram US$ 17,4 milhões diários (ou US$ 32.523 gastos diariamente por deputado). Os setores que mais “investem” na compra do Congresso são: farmacêutico e de saúde, elétrico, de seguro e petrolífero, além do lobby pró-Israel (8).

Mas não é apenas nos Estados Unidos que a democracia foi suplantada pela plutocracia. Pelo contrário: trata-se de um fenômeno comum (e igualmente visível a olho nu) às diferentes fórmulas da democracia liberal, atingindo também regimes parlamentaristas, como o alemão, o italiano e o japonês. Por isso são tão corriqueiros os escândalos como o que ora atormenta o presidente francês, Nicolas Sarkozy, acusado de receber doações ilegais da proprietária da L’Oreal, Liliane Bittencourt, a mulher mais rica do país. Em troca, indícios de sonegação tributária do grupo eram relevados.

Decapitação das classes populares

Ampliando o foco, o cientista político italiano Domenico Losurdo mostrou que esse tipo de regime resultou de um longo processo de incansável empenho do liberalismo (e do conservadorismo) para restringir o alcance da democracia nos países europeus, no período aberto pela Revolução Francesa, para que as chamadas “classes perigosas” ficassem fora do poder. O projeto se valeu, em primeiro lugar, do voto censitário, no qual apenas proprietários podiam votar e só os maiores dentre eles eram elegíveis. Sucederam-se-lhe outras fórmulas igualmente engenhosas, como o voto plural, em que cidadãos “qualificados” tinham direito a mais de um voto (sendo que quanto mais rica a pessoa, mais qualificada era considerada). Houve, em seguida, as eleições múltiplas, em que os setores populares só votavam nos pleitos locais e os eleitos eram sucessivamente depurados por colégios eleitorais cada vez mais seletos.

Em distintos momentos, vários países garantiram a exclusão dos pobres pela instituição de um imposto cobrado de simples eleitores e também de candidatos, ou pela exigência de complicados trâmites burocráticos para a obtenção de título eleitoral. Houve ainda o sistemático afastamento de mulheres, de analfabetos, de imigrantes e de presidiários do processo eleitoral, que vigorou em quase todos os países capitalistas pelo menos até a Revolução Russa. Na Inglaterra, o voto plural sobreviveu até 1948, conferindo mais de um voto a homens de negócios e a acadêmicos. No Texas, EUA, até 1972 a homologação de uma candidatura dependia do pagamento de um tributo, proporcional à importância do cargo almejado. Ainda hoje estão em vigência, nesse e em outros países, formas camufladas de discriminação censitária contra indígenas, negros e pobres em geral (9).

Apesar de tudo, houve uma progressiva democratização do processo eleitoral, por força de pressões populares e da ameaça representada pela citada Revolução de 1917, resultando no reconhecimento do sufrágio universal ao longo do século XX na maioria dos países capitalistas. Mas, ao mesmo tempo, criaram-se novos e formidáveis obstáculos para impedir a ascensão das “classes perigosas”. Dentre esses, Losurdo destaca o crescente encarecimento das campanhas político-eleitorais e a concentração da mídia nas mãos de grupos econômicos. O monopólio da produção de conhecimento e de informação começou a ser erigido ao longo do século XIX, depois que a proliferação de panfletos e periódicos populares, nas revoluções de 1848 e na Comuna de Paris, em 1871, alertou a classe dominante sobre o poder de mobilização desses veículos. Essas publicações, produtos de uma indústria ainda incipiente, ao alcance de qualquer partido, sindicato ou movimento, passaram então a ser perseguidas por meio da censura e da repressão policial direta. Depois, instituíram-se alvarás e obrigações burocráticas, tanto mais custosos quanto maior a periodicidade pretendida e quanto mais importante o local de circulação.

No final do século XIX – ainda conforme o pensador italiano –, um jornal que circulasse mais de três vezes semanais em Paris já estava fora do alcance das organizações populares, tal o volume de capital necessário para sustentá-lo. As medidas repressivas dos primeiros tempos tornaram-se, assim, desnecessárias. A supressão dos meios de informação das classes subalternas foi acompanhada de igual empenho na eliminação ou no enquadramento das próprias organizações que os editavam. O objetivo, neste caso, era evitar que partidos políticos, sindicatos e outras entidades populares, com sua vida associativa, suas festas e suas publicações, constituíssem centros autônomos de disseminação de cultura, capazes de colocar em xeque o monopólio político, cultural e ideológico da classe dominante, exercido por intermédio do Estado, das escolas, da igreja e da mídia. Para Domenico Losurdo, foi assim que se consumou a “decapitação política das classes subalternas” (10). Quando essas medidas de exclusão mostraram-se insuficientes para impedir a eleição de governantes indesejados pelas classes dominantes, eles foram abatidos por movimentos de desestabilização, atentados ou golpes de Estado.

Analisando esse quadro de crescente fragilização da democracia, que representou uma vitória do ideário liberal que acabamos de abordar com a ajuda de Domenico Losurdo, no início dos anos 1990 o historiador britânico Perry Anderson concluiu: "O que está faltando é qualquer concepção do Estado como estrutura de autoexpressão coletiva mais profunda do que os sistemas eleitorais atuais. Com efeito, a democracia está hoje mais disseminada do que nunca. Mas também está mais superficial, menos consistente - como se quanto mais universalmente acessível se torna, menos significado ativo retém. Os próprios Estados Unidos constituem um exemplo paradigmático: uma sociedade onde menos de metade dos seus cidadãos vota, 90% dos congressistas são reeleitos e o preço do cargo público é avaliado em milhões. No Japão, o dinheiro fala ainda mais alto, e não existe aí sequer uma alternação nominal ente partidos. Na França, a Assembléia foi reduzida a uma cifra. À Grã-Bretanha falta, nem mais nem menos, uma constituição escrita". (11)

Fonte:  Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

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A equação do futuro

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A educação do amanhã substitui a padronização pela criatividade e troca o foco no currículo pela atenção ao aprendiz

Flávia Tavares

Evolução. No passado, aluno diferentes eram ensinados da mesma forma. Hoje, grande desafio é capitalizar a diversidade entre os estudantes

Ano após ano, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) reprova o Brasil no quesito igualdade. O ranking das escolas com melhor desempenho reproduz o abismo da diferença entre a qualidade do ensino oferecido em instituições públicas e privadas. Assim, distancia ainda mais os alunos com a garantia de um futuro bem-sucedido nas universidades dos que engordarão a massa de trabalhadores com escolaridade limitada. O teste final que as avaliações da educação brasileira propõe é como resolver um problema antigo com soluções diferentes e inovadoras.

Para Andreas Schleicher, diretor de Programas de Análise e Indicadores em Educação da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e responsável pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), os dados de verificações como o Enem podem sugerir alguns caminhos. Mas a resposta está mesmo na formulação de um novo modelo de educação, "menos centrado no currículo e mais no aprendiz". "Precisamos entender que a aprendizagem não é um lugar, é uma atividade. Sistemas educacionais precisam reconhecer que os indivíduos aprendem de formas diferentes", diz o físico alemão.

Em entrevista por e-mail, Schleicher defende que, quanto mais autonomia a escola e os professores tiverem, maior será sua interação com os alunos. Além disso, os educadores terão de reinventar suas ferramentas para formar jovens preparados para problemas que nem sequer surgiram ainda. "No passado, professores sabiam que o que eles ensinassem duraria por toda a vida do aluno. Nos dias de hoje, a escola precisa preparar os estudantes para profissões que não foram criadas e tecnologias que não foram inventadas." Schleicher faz ainda um alerta aos gestores de educação: "As nações que não têm bons fundamentos nunca pagaram um preço tão alto por essa deficiência".

Quais as razões para avaliarmos tanto os estudantes, com exames ao fim de cada nível de escolaridade? É para filtrar quem deve chegar ou não ao ensino superior?

O propósito das avaliações não é prioritariamente o de definir caminhos de entrada ou saída para os estudantes, mas sim o de identificar necessidades e melhorias no processo de ensino. Bons sistemas de avaliação reconhecem que um aprendizado de excelência abrange tanto o processo quanto seu conteúdo. O resultado dessas avaliações não produz apenas notas para as escolas, mas tenta fornecer uma compreensão abrangente sobre os estudantes e as estratégias conceituais que eles usam para resolver problemas.

O que mais se aproveita do resultado desses exames?

As verificações melhoram o aprendizado de alunos, professores, administradores de escolas e formuladores de políticas públicas. A partir delas, pode-se construir um quadro claro para atribuição de responsabilidades. Isso significa gerar informação que pode ser transformada em ação. Boas avaliações deixam professores mais conscientes de suas deficiências e isso normalmente resulta numa mudança de comportamento. Em vez de simplesmente selecionar e filtrar aqueles que parecem ser os alunos mais talentosos, escolas e professores competentes usam esses dados para distinguir os alunos extraordinários dos medianos, para estimular a capacidade individual.

Qual a importância desse estímulo?

É simples: as oportunidades para aqueles bem educados nunca foram tantas, mas também os indivíduos - e as nações - que não têm bons fundamentos nunca pagaram tão caro for essa deficiência. Na verdade, o preço econômico e social que as sociedades pagam por não educar bem a totalidade de suas crianças é muito mais alto do que seria o investimento na própria educação.

Números do Enem mostram que o Brasil ainda sustenta uma enorme diferença entre o ensino particular e o privado. Estamos investindo pouco em educação?

É importante analisar o contexto dos dados do Enem. Essa é outra lição que bons sistemas de avaliação nos dão: a comparação deve ser feita entre diferentes períodos da mesma escola, para se analisar quanto ela melhorou. O mesmo parâmetro é verdadeiro quando comparamos países. Não é possível comparar substancialmente países como Finlândia e Japão com o Brasil sem levar em conta o contexto socioeconômico. Na verdade, quando se considera esse pano de fundo, o Brasil está entre os mais bem-sucedidos em melhorar seu desempenho educacional e a igualdade. Sistemas educacionais sempre falam de igualdade e agora nós conseguimos medir seu sucesso nisso, na forma como as escolas conseguem moderar o impacto que o background social tem na educação.

O que países como Finlândia e Japão têm a nos ensinar?

Educação de alta qualidade existe em todo o mundo. Na América do Norte, o exemplo é o Canadá. Na Europa, a Finlândia. Na Ásia, temos Japão, Coreia do Sul e Cingapura. Eles são diferentes entre si, mas têm pontos em comum relevantes. Primeiramente, onde estudantes atuam num ambiente caracterizado pelas expectativas de um bom desempenho a relação com os professores melhora e o moral dos educadores aumenta. Muitos países mudaram suas prioridades, saindo do simples controle dos recursos e do currículo para um foco maior nos resultados do processo educacional. Isso tem direcionado esforços no sentido de uma articulação das expectativas que a sociedade tem e a tradução dessas expectativas em parâmetros e objetivos.

O que esses parâmetros determinam?

Eles ajudam a estabelecer conteúdos rigorosos e coerentes em todos os níveis de escolaridade; reduzem as diferenças de currículos entre esses níveis; diminuem a variação desses currículos de classe para classe; facilitam a coordenação de formuladores de políticas públicas; reduzem a desigualdade de currículos entre diferentes grupos socioeconômicos. Muitos sistemas somaram o desenvolvimento desses parâmetros a uma maior atribuição de responsabilidades à linha de frente do ensino, encorajando escolas a dar respostas assertivas aos problemas locais e ajudando escolas e professores a fazer isso de forma significativa.

Como dar essa autonomia a escolas e professores?

Parâmetros claros e específicos permitem acesso às melhores práticas profissionais nas escolas e ajuda os professores a expandir seu repertório de estratégias pedagógicas para personalizar o ensino para todos os alunos e adotar abordagens inovadoras. Os melhores sistemas educacionais do mundo escolhem as pessoas certas para se tornarem professores porque sabem que a qualidade de educação será proporcional à qualidade do corpo docente e porque a escolha errada desses profissionais pode resultar em 40 anos de ensino fraco. Países como a Finlândia e a Coreia do Sul recrutam seus professores entre os 10% dos que se formaram nos primeiros lugares.

E com relação às escolas?

Na maioria dos países exemplares as escolas se tornaram um ponto chave na reforma educacional, e elas são responsáveis pelos resultados que apresentam. Na Finlândia, por exemplo, o planejamento estratégico acontece em todos os níveis do sistema. Cada escola discute a visão nacional do assunto e, paralelamente, o que essa estratégia representam para ela. O mais impressionante nos ótimos resultados de países como Finlândia e Canadá não são apenas as altas médias de desempenho, mas o fato de eles conseguirem que todos os estudantes e as escolas alcancem essa média. A eventual intervenção e apoio nas escolas não é a aplicação de ideias pré-concebidas - ao contrário, trata-se de diagnosticar problemas em cada escola e desenvolver soluções personalizadas. Também se trata de garantir que as escolas que encaram os maiores desafios tenham acesso aos professores e diretores mais talentosos.

Ou seja, profissionais do ensino têm mais responsabilidades.

Exato. Em todos os países que se saíram bem no Pisa, é responsabilidade das escolas e dos professores se engajar na diversidade de interesses dos estudantes, em suas capacidades diferenciadas e em seus diversos contextos socioeconômicos, sem a alternativa de fazer o aluno repetir de ano ou se transferir para uma escola menos exigente - atalhos normalmente usados em países com desempenhos ruins, onde os diretores de escola e professores podem enganar a si próprios dizendo que fizeram a coisa certa, mas têm os alunos errados.

Como a tecnologia está transformando os antigos modelos de ensino?

Uma palavra-chave para o uso da tecnologia na educação costumava ser o aprendizado "interativo". Agora, ele precisa ser "participativo". E, embora a educação a distância seja uma peça importante da educação no futuro, o ensino permanecerá uma experiência humana. Nas gerações passadas, professores sabiam que o que eles ensinassem duraria por toda a vida do aluno. Hoje, a escola precisa preparar os estudantes para mudanças econômicas e sociais mais rápidas do que nunca, para profissões e tecnologias que não foram inventadas e problemas que ainda não sabemos se surgirão. Como podemos criar uma cultura de educação para a vida inteira e para todas as áreas da vida que atinja a todos? O dilema dos educadores é que as habilidades cognitivas rotineiras, aquelas fáceis de ensinar e de avaliar, são também as mais facilmente digitalizadas, automatizadas e terceirizadas. O sucesso em educação não é mais a reprodução de conteúdo e conhecimento, mas é a capacidade de aplicar esse conhecimento em situações inéditas.

Dê um exemplo.

A questão não é se o ensino da matemática deveria ser mais ou menos rigoroso. O desafio é garantir que a matemática não se restrinja a um mundo de equações e teoremas, mas se transforme numa linguagem que permita aos alunos descrever, estruturar e compreender o mundo. O caminho até esse ponto é desafiador.

Estamos nos preparando para esse desafio? Qual seria o modelo de ensino ideal para o século 21?

Num sistema educacional antigo e burocrático, professores eram deixados sozinhos nas classes com uma receita do que ensinar. O modelo moderno estabelecerá objetivos ambiciosos, será mais claro sobre o que os estudantes devem se tornar capazes de fazer, atribuirá responsabilidades e arregimentará professores com ferramentas para ensinar seus alunos individualmente. A educação do passado se resumia a um conhecimento despejado, a do futuro é um conhecimento gerado por professores e estudantes. No passado, alunos diferentes eram ensinados da mesma forma. Hoje, o desafio é incluir a diversidade no ensino. O objetivo do passado era a padronização. Agora, é a criatividade, a personalização das experiências. O passado era centrado no currículo, o futuro é no aprendiz. Nós também precisamos entender que a aprendizagem não é um lugar, é uma atividade. Sistemas educacionais precisam reconhecer que indivíduos aprendem de formas diferentes - inclusive, de formas diferentes ao longo de suas vidas.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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Gilles Lipovetsky: "a pós-modernidade não existe"

Para o francês, um dos principais nomes da Filosofia contemporânea, vivemos uma modernidade potencializada; nas palavras dele, a "hipermodernidade"

Marcelo Galli

EDITORA MANOLE E DIVULGAÇÃO

Após-modernidade nunca existiu, ao menos terminologicamente. Essa é a opinião do filósofo francês Gilles Lipovetsky. Segundo ele, o que é convencionalmente chamado de pós-moderno, na verdade, pode ser mais corretamente classificado de hipermodernidade, ou seja, a afirmação e prevalência de maneira incontestável e praticamente universal dos valores modernos (democracia, liberdade individual, livre mercado, etc.). "É impossível pensar o que seria pós-moderno. Pode-se imaginar um sistema futuro que poderá conciliar os imperativos da Economia com os da Ecologia, por exemplo, mas isso não seria pós-moderno, mas sim outra face da modernidade", explica.

Nesta entrevista exclusiva por telefone para a Filosofia Ciência & Vida, Lipovetsky falou sobre muitos temas, à maneira dos seus diversos estudos, nos quais a moda, o consumo, a revolução feminina, a Ética e o indivíduo, entre outros, são observados e elucidados, expondo a sua dinâmica na contemporaneidade. "Acredito que a Filosofia esteja aí não para dar lições, mas sim inteligência para a compreensão do mundo e esclarecer como vivemos", afirma.

Membro do Conselho de Análise Social, órgão de apoio ao primeiro-ministro da França, termômetro para questões delicadas como a proibição do véu islâmico e outros sinais ostensivos religiosos nas escolas, Lipovetsky escreveu os livros O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas(Companhia das Letras), A Sociedade da Decepção, A Era do Vazio e A sociedade pós-moralista, estes últimos publicados no Brasil pela editora Manole.

FILOSOFIA Você diz que não é correto falarmos que vivemos a pós-modernidade e empregou o conceito de "hipermodernidade". Mas o que seria, uma sociedade pós-moderna? Qual seria a sua dinâmica?

Gilles Lipovetsky Acredito que temos sociedades cada vez mais hipermodernas. A modernidade já passou em algum sentido, porque o seu princípio organizacional, a tecnociência, o mercado e a democracia são cada vez mais constituições do nosso mundo. Por isso que não é possível falar atualmente de sociedade pós-moderna, não consigo imaginá-la. Pode- se pensar em um sistema futuro que poderá conciliar os imperativos da Economia com os da Ecologia, por exemplo, mas isso não seria pós-moderno, mas sim outra face da modernidade.

EDITORA MANOLE E DIVULGAÇÃO

FILOSOFIA Em sua opinião, o que atualmente a Filosofia tem deixado de abordar, refletir, criticar?

Gilles Lipovetsky A Filosofia hoje não tem mais a necessidade de antigamente ou não somente de maître à penser, da via ativa que defende as grandes questões morais, políticas, sociais, ou que defende os povos colonizados ou luta contra o imperialismo. Essas grandes figuras intelectuais que lutam pelas grandes coisas, os grandes combates, não são mais úteis porque vivemos em sociedades educadas: as pessoas são formadas, têm acesso a informações pela imprensa ou internet. Os filósofos hoje devem pensar o mundo em sua complexidade e por meio de duas coisas essencialmente: fazer pensar o presente de longa duração, compreender a história do presente e, em segundo lugar, apontar os paradoxos da nossa época. Eu não vejo mais a necessidade de engajamento dos filósofos.

FILOSOFIA De acordo com essa perspectiva, podemos então dizer que vivemos a época da "hiper-relatividade"? Porque há sempre resistência quando as coisas parecem generalizadas.

Gilles Lipovetsky Sim, existe sempre um paradoxo porque vivemos em um mundo contraditório e complexo. Por isso eu acredito que a Filosofia esteja aí não para dar lições, porque a sociedade é individualista, mas inteligência para a compreensão do mundo e esclarecer de que forma vivemos. Não temos mais as grandes religiões, os grandes sistemas políticos que dão o sentido geral da vida, esta é a razão pela qual precisamos da Filosofia.

Não é possível falar em sociedade pós-moderna. Seu princípio organizacional, a tecnociência, o mercado e a democracia são cada vez mais constituições do nosso mundo

FILOSOFIA O que é a nova sociedade de consumo e o papel da felicidade na sua dinâmica?

Gilles Lipovetsky É muito complicado, existem muitas coisas envolvidas. Escrevi um livro para descrevê-la chamando de "hiperconsumista", isto é, que consome de uma maneira "hiperindividualizada". Ela é baseada nos indivíduos e não mais na família, por exemplo, como no caso da telefonia. Cada membro da família tem um telefone atualmente, até mesmo as crianças, e isso pode ser estendido aos computadores e máquinas fotográficas, etc. Portanto, cada vez mais por meio do "hiperconsumismo" cada indivíduo pode construir sua vida de uma maneira mais autônoma e livre, porque se é menos tributário do ponto de vista coletivo.

FILOSOFIA Isso ocorre em todas as classes sociais?

Gilles Lipovetsky O "hiperconsumo" é igualmente responsável pelo desaparecimento da cultura de classes. Nas favelas, por exemplo, mesmo os pobres conhecem as marcas de luxo, acompanham a moda, sabem de marcas conhecidas e querem viajar em férias por causa da publicidade e da televisão. As classes sociais ainda existem, há cada vez mais os mais ricos e os mais pobres e grandes injustiças, porém, ao mesmo tempo, todos têm o mesmo ponto de referência. E aqui surgem alguns problemas, porque os pobres desejam ter um carro, viajar, consumir marcas famosas e se frustram porque nem sempre têm dinheiro. Cria-se, dessa maneira, uma sociedade da frustração.

FILOSOFIA A crise econômica do final de 2008 mudou algo desse panorama?

Gilles Lipovetsky Acredito que não. Existe a crise e esta alterou o nível de consumo, o mercado perdeu sua legitimidade. Parece que surge uma economia mais sóbria, os consumidores se tornam mais sábios e racionais, ou seja, consomem menos. Acredito que essa prudência seja algo conjuntural devido à crise. Mais do que nunca, os consumidores de hoje querem novidades, que são como estimulantes da existência.

FILOSOFIA Qual é a grande decepção das pessoas atualmente?

Gilles Lipovetsky Há uma decepção política permanente. Veja, após a realização de eleições, as pessoas ficam decepcionadas muito rapidamente, insatisfeitas com os personagens políticos, pensam que a Política é impotente. Há também muita decepção com a vida privada, observe a desestruturação das famílias, os divórcios, ou seja, é difícil viver em família. Há também insatisfação com a vida cultural. No caso da televisão, o capitalismo cultural produz muitos produtos, programas, filmes e música, e o gosto das pessoas é individualizado. Não acontece mais como na sociedade tradicional, quando as pessoas consumiam as mesmas coisas. Os gostos hoje são bem diferentes.

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FILOSOFIA Porém, essa decepção generalizada não seria ela mesma o motor para a mudança?

Gilles Lipovetsky Sim, porque as empresas, os criadores, também prestam atenção nas mudanças de gostos. Provavelmente a decepção seja útil ao sistema capitalista.

FILOSOFIA E, muito perigoso, é o fenômeno da decepção com a democracia, não?

Gilles Lipovetsky Há uma decepção democrática por um lado, mas ao mesmo tempo não se enxerga outra coisa senão a democracia. E essa insatisfação está ligada de alguma maneira ao fenômeno da mundialização, principalmente na Europa. Na China não há decepção com a mundialização, por outro lado, para eles, ela é uma oportunidade, e o mesmo serve para o Brasil.

O "hiperconsumo" é responsável pelo fim da cultura de classes. Mesmo os pobres conhecem as marcas de luxo e querem viajar em férias por causa da publicidade e da televisão

FILOSOFIA O Brasil e os países latino-americanos podem apontar ao mundo uma nova alternativa de modo de viver e de fazer? Uma nova visão de mundo?

Gilles Lipovetsky De modo de viver e fazer, não tenho certeza. Culturalmente, provavelmente, veja o sucesso da música brasileira e de filmes argentinos. Agora, visão de mundo, a América Latina é liberal atualmente. Mesmo o presidente Lula, que veio da extrema esquerda, não fez a revolução. Não estou certo de que haja uma visão de mundo latino-americana diametralmente diferente da realidade. Todos os países da região, menos a Venezuela de Hugo Chávez, vivem sob o liberalismo. Vive-se sob o domínio da democracia e do capitalismo neoliberal. O problema é que naqueles países há também corrupção, problemas com o narcotráfico e violência.

FILOSOFIA A construção do feminino é ainda um monopólio masculino?

Gilles Lipovetsky Isso é uma coisa que tem mudado bastante. As mulheres não têm mais a obrigação de casar-se, ter filhos ou cuidar da casa. Elas podem fazer parte da Política ou criar uma empresa, não são mais os homens que decidem o que elas devem ou podem fazer. Aliás, são elas que pedem mais o divórcio. Não diria que foi uma revolução completa, existe muita coisa que se mantém, mas para as questões essenciais da vida em relação à família, trabalho, Política ou cultura há um espaço enorme de liberdade.

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FILOSOFIA A moda atualmente é uma forma de liberação, inovação, ou tornou-se, desculpe pelo trocadilho, uma camisa de força?

Gilles Lipovetsky A moda, falo da vestimenta, para ser preciso, é muito menos importante hoje do que antigamente. Por meio das roupas não é possível saber se uma pessoa é pobre ou rica. O corpo sim é mais importante, leve em conta a cirurgia plástica e academias. Antes, a moda possibilitava para as pessoas expressarem sua classe social. Hoje, por outro lado, é mais importante parecer mais jovem do que mais rico. Para muitas mulheres é mais importante fazer regime do que comprar um vestido. A moda não tem mais a centralidade social de outrora.

FILOSOFIA Após quase três décadas de hipermodernidade, você já chegou a fazer uma análise retrospectiva sobre ela? Quero dizer, ganhamos ou perdemos? Ela trouxe mais malefícios ou benefícios?

Gilles Lipovetsky Podemos analisar essa questão de dois pontos de vista diferentes. Com a hipermodernidade e a globalização perdemos bastante, porque surgiram novos poderes que interferem nas nossas vidas, em particular mercados de trabalho muito competitivos; as pessoas perdem mais facilmente seus empregos. Há muita ansiedade e estresse no mundo do trabalho. Dessa maneira, a hipermodernidade aumenta muito a ansiedade dos indivíduos, tanto na esfera econômica quanto, principalmente, na vida privada. A Europa está com dificuldade de crescer, mas países como a China e até o Brasil estão se saindo bem. Por isso, é preciso enxergar a questão na sua totalidade. De outra maneira, no aspecto da vida privada, a hipermodernidade foi útil em dois aspectos: as pessoas são mais livres, pode-se ou não se casar, os homossexuais estão aí, e isso é positivo; ao mesmo tempo, a vida individual ficou muito difícil, porque há muita decepção, a comunicação entre as pessoas tornou-se difícil, há muito sentimento de solidão. Ao mesmo tempo, as pessoas viajam e acessam a internet, comunicando-se com muitas pessoas. A hipermodernidade é positiva e negativa, depende do grupo social ao qual se pertence. Para as categorias sociais pouco flexíveis, a mundialização é muito difícil. Na hipermodernidade, as pessoas devem ser mais móveis, ter a capacidade de se adaptar; para quem não consegue fazer isso, a hipermodernidade torna-se difícil. Mas para as pessoas que são flexíveis e têm a capacidade de mudar de atividade, é uma oportunidade.

Na hipermodernidade, as pessoas têm que ter capacidade de adaptação; para quem não consegue, torna-se difícil. Mas para os que são flexíveis, é uma oportunidade

FILOSOFIA Apesar de citar vários filósofos e pensadores nos seus livros, há algum de sua preferência?

Gilles Lipovetsky Não. Eu nem sempre fui compreendido na França por ser muito eclético. Não me identifico com uma Filosofia em particular. Eu gosto de todos os grandes pensadores, todos eles me cativam, mas meu trabalho não é de comentar uma disciplina ou escola filosófica. Li bastante Marx, Freud, Nietzsche, Tocqueville, são pensadores muito importantes, mas diferentes entre si. Em cada um me interessa algo e aproveito no meu trabalho.

Fonte: Portal Ciência e Vida – http://sociologiacienciaevida.uol.com.br

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Gilles Lipovetsky: "a pós-modernidade não existe"

Para o francês, um dos principais nomes da Filosofia contemporânea, vivemos uma modernidade potencializada; nas palavras dele, a "hipermodernidade"

Marcelo Galli

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Após-modernidade nunca existiu, ao menos terminologicamente. Essa é a opinião do filósofo francês Gilles Lipovetsky. Segundo ele, o que é convencionalmente chamado de pós-moderno, na verdade, pode ser mais corretamente classificado de hipermodernidade, ou seja, a afirmação e prevalência de maneira incontestável e praticamente universal dos valores modernos (democracia, liberdade individual, livre mercado, etc.). "É impossível pensar o que seria pós-moderno. Pode-se imaginar um sistema futuro que poderá conciliar os imperativos da Economia com os da Ecologia, por exemplo, mas isso não seria pós-moderno, mas sim outra face da modernidade", explica.

Nesta entrevista exclusiva por telefone para a Filosofia Ciência & Vida, Lipovetsky falou sobre muitos temas, à maneira dos seus diversos estudos, nos quais a moda, o consumo, a revolução feminina, a Ética e o indivíduo, entre outros, são observados e elucidados, expondo a sua dinâmica na contemporaneidade. "Acredito que a Filosofia esteja aí não para dar lições, mas sim inteligência para a compreensão do mundo e esclarecer como vivemos", afirma.

Membro do Conselho de Análise Social, órgão de apoio ao primeiro-ministro da França, termômetro para questões delicadas como a proibição do véu islâmico e outros sinais ostensivos religiosos nas escolas, Lipovetsky escreveu os livros O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas(Companhia das Letras), A Sociedade da Decepção, A Era do Vazio e A sociedade pós-moralista, estes últimos publicados no Brasil pela editora Manole.

FILOSOFIA Você diz que não é correto falarmos que vivemos a pós-modernidade e empregou o conceito de "hipermodernidade". Mas o que seria, uma sociedade pós-moderna? Qual seria a sua dinâmica?

Gilles Lipovetsky Acredito que temos sociedades cada vez mais hipermodernas. A modernidade já passou em algum sentido, porque o seu princípio organizacional, a tecnociência, o mercado e a democracia são cada vez mais constituições do nosso mundo. Por isso que não é possível falar atualmente de sociedade pós-moderna, não consigo imaginá-la. Pode- se pensar em um sistema futuro que poderá conciliar os imperativos da Economia com os da Ecologia, por exemplo, mas isso não seria pós-moderno, mas sim outra face da modernidade.

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FILOSOFIA Em sua opinião, o que atualmente a Filosofia tem deixado de abordar, refletir, criticar?

Gilles Lipovetsky A Filosofia hoje não tem mais a necessidade de antigamente ou não somente de maître à penser, da via ativa que defende as grandes questões morais, políticas, sociais, ou que defende os povos colonizados ou luta contra o imperialismo. Essas grandes figuras intelectuais que lutam pelas grandes coisas, os grandes combates, não são mais úteis porque vivemos em sociedades educadas: as pessoas são formadas, têm acesso a informações pela imprensa ou internet. Os filósofos hoje devem pensar o mundo em sua complexidade e por meio de duas coisas essencialmente: fazer pensar o presente de longa duração, compreender a história do presente e, em segundo lugar, apontar os paradoxos da nossa época. Eu não vejo mais a necessidade de engajamento dos filósofos.

FILOSOFIA De acordo com essa perspectiva, podemos então dizer que vivemos a época da "hiper-relatividade"? Porque há sempre resistência quando as coisas parecem generalizadas.

Gilles Lipovetsky Sim, existe sempre um paradoxo porque vivemos em um mundo contraditório e complexo. Por isso eu acredito que a Filosofia esteja aí não para dar lições, porque a sociedade é individualista, mas inteligência para a compreensão do mundo e esclarecer de que forma vivemos. Não temos mais as grandes religiões, os grandes sistemas políticos que dão o sentido geral da vida, esta é a razão pela qual precisamos da Filosofia.

Não é possível falar em sociedade pós-moderna. Seu princípio organizacional, a tecnociência, o mercado e a democracia são cada vez mais constituições do nosso mundo

FILOSOFIA O que é a nova sociedade de consumo e o papel da felicidade na sua dinâmica?

Gilles Lipovetsky É muito complicado, existem muitas coisas envolvidas. Escrevi um livro para descrevê-la chamando de "hiperconsumista", isto é, que consome de uma maneira "hiperindividualizada". Ela é baseada nos indivíduos e não mais na família, por exemplo, como no caso da telefonia. Cada membro da família tem um telefone atualmente, até mesmo as crianças, e isso pode ser estendido aos computadores e máquinas fotográficas, etc. Portanto, cada vez mais por meio do "hiperconsumismo" cada indivíduo pode construir sua vida de uma maneira mais autônoma e livre, porque se é menos tributário do ponto de vista coletivo.

FILOSOFIA Isso ocorre em todas as classes sociais?

Gilles Lipovetsky O "hiperconsumo" é igualmente responsável pelo desaparecimento da cultura de classes. Nas favelas, por exemplo, mesmo os pobres conhecem as marcas de luxo, acompanham a moda, sabem de marcas conhecidas e querem viajar em férias por causa da publicidade e da televisão. As classes sociais ainda existem, há cada vez mais os mais ricos e os mais pobres e grandes injustiças, porém, ao mesmo tempo, todos têm o mesmo ponto de referência. E aqui surgem alguns problemas, porque os pobres desejam ter um carro, viajar, consumir marcas famosas e se frustram porque nem sempre têm dinheiro. Cria-se, dessa maneira, uma sociedade da frustração.

FILOSOFIA A crise econômica do final de 2008 mudou algo desse panorama?

Gilles Lipovetsky Acredito que não. Existe a crise e esta alterou o nível de consumo, o mercado perdeu sua legitimidade. Parece que surge uma economia mais sóbria, os consumidores se tornam mais sábios e racionais, ou seja, consomem menos. Acredito que essa prudência seja algo conjuntural devido à crise. Mais do que nunca, os consumidores de hoje querem novidades, que são como estimulantes da existência.

FILOSOFIA Qual é a grande decepção das pessoas atualmente?

Gilles Lipovetsky Há uma decepção política permanente. Veja, após a realização de eleições, as pessoas ficam decepcionadas muito rapidamente, insatisfeitas com os personagens políticos, pensam que a Política é impotente. Há também muita decepção com a vida privada, observe a desestruturação das famílias, os divórcios, ou seja, é difícil viver em família. Há também insatisfação com a vida cultural. No caso da televisão, o capitalismo cultural produz muitos produtos, programas, filmes e música, e o gosto das pessoas é individualizado. Não acontece mais como na sociedade tradicional, quando as pessoas consumiam as mesmas coisas. Os gostos hoje são bem diferentes.

EDITORA MANOLE E DIVULGAÇÃO

FILOSOFIA Porém, essa decepção generalizada não seria ela mesma o motor para a mudança?

Gilles Lipovetsky Sim, porque as empresas, os criadores, também prestam atenção nas mudanças de gostos. Provavelmente a decepção seja útil ao sistema capitalista.

FILOSOFIA E, muito perigoso, é o fenômeno da decepção com a democracia, não?

Gilles Lipovetsky Há uma decepção democrática por um lado, mas ao mesmo tempo não se enxerga outra coisa senão a democracia. E essa insatisfação está ligada de alguma maneira ao fenômeno da mundialização, principalmente na Europa. Na China não há decepção com a mundialização, por outro lado, para eles, ela é uma oportunidade, e o mesmo serve para o Brasil.

O "hiperconsumo" é responsável pelo fim da cultura de classes. Mesmo os pobres conhecem as marcas de luxo e querem viajar em férias por causa da publicidade e da televisão

FILOSOFIA O Brasil e os países latino-americanos podem apontar ao mundo uma nova alternativa de modo de viver e de fazer? Uma nova visão de mundo?

Gilles Lipovetsky De modo de viver e fazer, não tenho certeza. Culturalmente, provavelmente, veja o sucesso da música brasileira e de filmes argentinos. Agora, visão de mundo, a América Latina é liberal atualmente. Mesmo o presidente Lula, que veio da extrema esquerda, não fez a revolução. Não estou certo de que haja uma visão de mundo latino-americana diametralmente diferente da realidade. Todos os países da região, menos a Venezuela de Hugo Chávez, vivem sob o liberalismo. Vive-se sob o domínio da democracia e do capitalismo neoliberal. O problema é que naqueles países há também corrupção, problemas com o narcotráfico e violência.

FILOSOFIA A construção do feminino é ainda um monopólio masculino?

Gilles Lipovetsky Isso é uma coisa que tem mudado bastante. As mulheres não têm mais a obrigação de casar-se, ter filhos ou cuidar da casa. Elas podem fazer parte da Política ou criar uma empresa, não são mais os homens que decidem o que elas devem ou podem fazer. Aliás, são elas que pedem mais o divórcio. Não diria que foi uma revolução completa, existe muita coisa que se mantém, mas para as questões essenciais da vida em relação à família, trabalho, Política ou cultura há um espaço enorme de liberdade.

EDITORA MANOLE E DIVULGAÇÃO

FILOSOFIA A moda atualmente é uma forma de liberação, inovação, ou tornou-se, desculpe pelo trocadilho, uma camisa de força?

Gilles Lipovetsky A moda, falo da vestimenta, para ser preciso, é muito menos importante hoje do que antigamente. Por meio das roupas não é possível saber se uma pessoa é pobre ou rica. O corpo sim é mais importante, leve em conta a cirurgia plástica e academias. Antes, a moda possibilitava para as pessoas expressarem sua classe social. Hoje, por outro lado, é mais importante parecer mais jovem do que mais rico. Para muitas mulheres é mais importante fazer regime do que comprar um vestido. A moda não tem mais a centralidade social de outrora.

FILOSOFIA Após quase três décadas de hipermodernidade, você já chegou a fazer uma análise retrospectiva sobre ela? Quero dizer, ganhamos ou perdemos? Ela trouxe mais malefícios ou benefícios?

Gilles Lipovetsky Podemos analisar essa questão de dois pontos de vista diferentes. Com a hipermodernidade e a globalização perdemos bastante, porque surgiram novos poderes que interferem nas nossas vidas, em particular mercados de trabalho muito competitivos; as pessoas perdem mais facilmente seus empregos. Há muita ansiedade e estresse no mundo do trabalho. Dessa maneira, a hipermodernidade aumenta muito a ansiedade dos indivíduos, tanto na esfera econômica quanto, principalmente, na vida privada. A Europa está com dificuldade de crescer, mas países como a China e até o Brasil estão se saindo bem. Por isso, é preciso enxergar a questão na sua totalidade. De outra maneira, no aspecto da vida privada, a hipermodernidade foi útil em dois aspectos: as pessoas são mais livres, pode-se ou não se casar, os homossexuais estão aí, e isso é positivo; ao mesmo tempo, a vida individual ficou muito difícil, porque há muita decepção, a comunicação entre as pessoas tornou-se difícil, há muito sentimento de solidão. Ao mesmo tempo, as pessoas viajam e acessam a internet, comunicando-se com muitas pessoas. A hipermodernidade é positiva e negativa, depende do grupo social ao qual se pertence. Para as categorias sociais pouco flexíveis, a mundialização é muito difícil. Na hipermodernidade, as pessoas devem ser mais móveis, ter a capacidade de se adaptar; para quem não consegue fazer isso, a hipermodernidade torna-se difícil. Mas para as pessoas que são flexíveis e têm a capacidade de mudar de atividade, é uma oportunidade.

Na hipermodernidade, as pessoas têm que ter capacidade de adaptação; para quem não consegue, torna-se difícil. Mas para os que são flexíveis, é uma oportunidade

FILOSOFIA Apesar de citar vários filósofos e pensadores nos seus livros, há algum de sua preferência?

Gilles Lipovetsky Não. Eu nem sempre fui compreendido na França por ser muito eclético. Não me identifico com uma Filosofia em particular. Eu gosto de todos os grandes pensadores, todos eles me cativam, mas meu trabalho não é de comentar uma disciplina ou escola filosófica. Li bastante Marx, Freud, Nietzsche, Tocqueville, são pensadores muito importantes, mas diferentes entre si. Em cada um me interessa algo e aproveito no meu trabalho.

Fonte: Portal Ciência e Vida – http://sociologiacienciaevida.uol.com.br

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A arte de caminhar

Desde a antiguidade movimentar o corpo ajuda as pessoas a pensar, tomar decisões e expressar indignação; na literatura artistas e apaixonados são andarilhos

Mente e Cérebro

Idoso caminhando no campo de centeio, óleo sobre tela, laurits andersen ring, s/d, coleção particular

A consciência da necessidade de praticar exercícios físicos é recente. “No começo, era o pé”, diz o antropólogo Marvin Harris. O pé, não a mão. A mão nos fez humanos – mas antes de sermos humanos somos parte do reino animal, e o nosso corpo precisa atender às necessidades que os animais enfrentam, entre elas a do deslocamento. O ser humano evoluiu, tornou-se bípede, mas continuou caminhando. E passou a usar a caminhada para outros fins que não o de chegar a um lugar específico: o de buscar determinada coisa. Praticar exercícios físicos é algo relativamente recente, mesmo porque, no passado, o sedentarismo era a exceção antes que a regra; caçadores, agricultores, trabalhadores em geral jamais pensariam nisso. Mas muito cedo o ato de caminhar adquiriu um significado psicológico, simbólico. O protesto político muitas vezes se fez, e ainda se faz, sob a forma de marchas, de caminhadas; foi o caso da Marcha dos 100 Mil (1968), um dos primeiros protestos organizados contra a ditadura no Brasil. Os filósofos gregos muitas vezes ensinavam a seus discípulos caminhando. “Levanta-te, toma teu leito e anda”, diz o Evangelho (João, 5:8), ou seja, vá em busca de seu destino, de seus objetivos. E Santo Agostinho cunhou uma expressão famosa: Solvitur ambulando, caminhar resolve (os problemas, as dúvidas). Por quê?

No livro Wanderlust: a history of walking (A ânsia de vagar: uma história da caminhada), de 2000, Rebecca Solnit diz que andar permite “conhecer o mundo através do corpo”, ou, nas palavras do poeta modernista Wallace Stevens (1879-1955): “Eu sou o mundo no qual caminho”. Trata-se, pois, de uma experiência cognitiva, muito necessária nesses tempos em que as pessoas se deslocam sobretudo utilizando carros, trens, aviões. Mas caminhar também envolve um processo de autoconhecimento, quando não de inspiração. “Os grandes pensamentos resultam da caminhada”, diz o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), uma ideia que Raymond Inmon expressa de forma mais poética: “Os anjos sussurram para aqueles que caminham”. O escritor francês Anatole France (1844-1924) faz uma comparação interessante: “ É bom colecionar coisas, diz ele, mas é melhor caminhar. Porque caminhar também é uma forma de colecionar coisas: as coisas que a gente vê, as coisas que a gente pensa”. Esse processo é facilitado pela renovação da paisagem, seja ela rural ou urbana, e pelo próprio automatismo do ato de caminhar.

Não é de admirar, portanto, que muitos escritores tenham abordado o tema da caminhada. Foi o caso do filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), figura marcante do Iluminismo francês e precursor do romantismo – os românticos, sobretudo os alemães, eram grandes andarilhos. Em suas Confissões, disse Rousseau: “Só consigo meditar quando caminho. Minha mente só trabalha junto com minhas pernas”. À obra (publicada postumamente) que resume muito de sua biografia e de sua filosofia, Rousseau deu o título de Os devaneios do caminhante solitário (Lês rêveries du promeneur solitaire). Os dez capítulos são denominados promenades (caminhadas). Finalmente, temos um termo analisado tanto pelo poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) como pelo escritor alemão Walter Benjamin (1892-1940). Trata-se de flâneur, que vem do verbo flâner, vagar (em português temos o galicismo flanar). O flâneur, do qual Benjamin era um exemplo, vagava por Paris, observando o que se passava a seu redor, num claro desafio à moral burguesa então vigente, que via isso como vagabundagem. Uma vagabundagem da qual resultaram, contudo, textos admiráveis. Caminhar, como diz o escritor americano contemporâneo Gary Snyder, é a grande aventura.

Fonte: Mente e Cérebro – http://www2.uol.com.br/vivermente

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Plástico vegetal

Membranas de caroço de manga servem para tratamento de água

Dinorah Ereno

Um plástico biodegradável feito a partir do caroço da manga mostrou em testes de laboratório ter potencial para ser empregado em finas membranas utilizadas em processos para purificação de água, tratamento de efluentes, sessões de hemodiálise e na liberação controlada de fármacos. A pesquisa que deu origem ao novo material foi conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais, e da Universidade de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. O caroço é a camada dura externa da semente da manga, composta principalmente de fibras, que recobre o embrião. Celulose, hemicelulose e lignina, componentes que formam as paredes celulares das plantas, são encontradas em grande quantidade nessa porção da fruta. “No processo que desenvolvemos, extraímos a celulose do caroço da manga e, a partir dela, produzimos o acetato para fabricação dos plásticos usados nas membranas”, diz o professor Guimes Rodrigues Filho, coordenador do projeto desenvolvido no Laboratório de Reciclagem de Polímeros do Instituto de Química da UFU.

A ideia de aproveitar essa parte desprezada da fruta surgiu quando os pesquisadores constataram que pelo menos 2 mil toneladas de caroços de manga são descartadas a cada safra pela indústria de sucos só na região do Triângulo Mineiro. Como no Brasil a produção de manga atinge cerca de 1,3 milhão de toneladas por ano – utilizadas principalmente como suco –, a quantidade desse resíduo que sobra fica, na média, em torno de 480 mil toneladas por ano. “As sementes correspondem a algo entre 30% e 45% do peso da manga, dependendo da variedade”, diz Rodrigues Filho. Essa montanha de resíduos normalmente tem como destino final a queima ou o descarte no lixo. Além do caroço da manga, os pesquisadores já produziram acetato de celulose a partir de jornais, bagaço da cana-de-açúcar e agora estão trabalhando com a palha de milho. As membranas usadas atualmente nos processos de filtragem são fabricadas, de modo geral, a partir da celulose obtida da polpa de madeira.

Peneira molecular - Em um artigo publicado em maio na revista científicaCarbohydrate Polymers os pesquisadores compararam o desempenho de membranas de acetato de celulose feitas com jornais e com caroços de manga da variedade Tommy Atkins – de coloração avermelhada, polpa doce e bastante resistente – em processos de tratamento e purificação de água chamados de osmose reversa. Nesses processos, a água é separada de seus contaminantes – como sólidos dissolvidos, sólidos suspensos, bactérias e matéria orgânica – por meio de uma membrana semipermeável. Essa membrana se comporta como uma peneira molecular, rejeitando seletivamente quase todas as moléculas dissolvidas e permitindo somente a passagem da água pura.

Como são muitas as aplicações para esse material filtrante, antes de produzir as películas é preciso saber em que tipo de aplicação elas serão usadas. “A porosidade depende do fluxo maior ou menor de líquidos que irão receber”, diz o coordenador do projeto. O controle dos poros é feito com a adição de alguns sais na mistura, como o perclorato de magnésio. Essa substância funciona como um agente indutor na formação de poros na pele da membrana, auxiliando nos processos de filtração. Na avaliação estrutural realizada com o microscópio eletrônico de varredura tanto a membrana feita a partir do caroço da manga como a de jornal apresentaram basicamente o mesmo padrão. No entanto, a subestrutura porosa é mais densa nas películas de acetato de celulose obtidas do caroço da fruta, em função da maior massa molecular do material, resultando em melhor desempenho. “Mesmo quando submetida à pressão em processos de separação, a membrana não se rompeu”, diz Guimes.

Os pesquisadores testaram, além de diversos materiais, vários processos para produzir as membranas de acetato de celulose. Um dos métodos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa está em processo de patenteamento no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A empresa Órbita, do Centro de Incubação de Atividades Empreendedoras da universidade mineira, será a responsável por parcerias com outras empresas e pela transferência de tecnologia.

Embalagens biodegradáveis - A companhia foi criada pelos pesquisadores para poder participar no desenvolvimento de um projeto aprovado em 2008 por meio de um convênio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), que teve como base também a utilização do caroço de manga misturado ao bagaço de cana para produção de tubetes biodegradáveis – embalagens onde são colocadas as mudas de plantas cultivadas em viveiros.

Os pesquisadores trabalham agora na formulação final para moldagem dos tubetes. Além disso, fazem estudos de biodegradação do material na Universidade de Caxias do Sul. Os recipientes encontrados no mercado, feitos de produtos derivados do petróleo como PVC e polipropileno, levam cerca de 150 anos para se decompor na natureza. Foi a partir dos resultados obtidos nesse projeto que os pesquisadores decidiram usar os mesmos resíduos vegetais para a produção de membranas, uma linha de pesquisa que já era conduzida no laboratório da universidade mineira desde 1996. Mas em vez de usar uma base composta da mistura da celulose obtida do caroço de manga e da cana, eles trabalharam com cada resíduo separadamente e agregaram outros materiais, como jornais.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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‘Projeto de reforma agrária mais avançada apresentada até hoje continua sendo a do governo João Goulart’

Mário Augusto Jakobskind

Uma reforma republicana e democrática necessária para o Brasil

Nesta entrevista exclusiva concedida ao Página 64, o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais (MST), João Pedro Stédile, faz um histórico da luta dos brasileiros em favor da reforma agrária, uma reforma democrática e republicana, anda não executada em todo a sua plenitude no Brasil e que até serviu de pretexto para a derrubada do Presidente constitucional João Goulart, em 1 de abril de 1964. Stédile, além de admitir que o projeto de reforma agrária idealizado por Celso Furtado no governo Goulart foi o mais adiantado apresentado até hoje e se tivesse sido colocado em prática transformaria o Brasil tornando um país fortalecido com o desenvolvimento do mercado interno. O coordenador do MST analisa ainda o atual momento brasileiro e explica o papel que vem sendo desempenhado pelos meios de comunicação, alguns deles fortemente vinculados ao agronegócio, na questão fundiária. Stédile demonstra otimismo em relação ao Brasil pós-Lula, por entender que o país ingressará em um novo ciclo histórico de maior consciência das massas e de maior participação, o que ajudará na mobilização da sociedade no sentido de resolver os problemas históricos do povo. (Mário Augusto Jakobskind)

Página 64 - Como anda o processo de reforma agrária no país?

João Pedro Stédile; A expressão reforma agrária gera sempre diferentes interpretações. E cada uma quem interpreta com seu grau de informação. Muita gente no povão influenciado pela televisão confunde sempre reforma agrária com conflitos de terra. Reforma agrária é um programa de política pública que determinado governo, em nome da sociedade, atua para democratizar o acesso à terra a todos os cidadãos daquela sociedade. E assim, a terra que é um bem da natureza, é democratizada, e sua propriedade distribuída da melhor maneira possível entre os membros da sociedade. Portanto, reforma agrária é sinônimo de democratização, de desconcentração, de distribuição da propriedade da terra.

Infelizmente no Brasil nunca houve um processo verdadeiro de reforma agrária. Tanto é que os últimos dados do censo revelaram que hoje (dados de 2006) a concentração da propriedade da terra no Brasil é maior do que em 1920, quando recém saíamos da escravidão.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6731

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Papel Prensa, o fordismo nos crimes de lesa humanidade

A presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, decidiu mexer em um assunto explosivo. Foram cometidos "crimes de lesa humanidade" em série, segundo consta na denúncia da promotoria argentina. Uma família foi violentada, torturada e dela foi esbulhado um bem material - Papel Prensa - que hoje está servindo de instrumento de luta política pela mídia crioula e oligárquica para que a Argentina retorne a um tempo em que as cidadãs e os cidadãos eram torturados, mortos e desaparecidos. É como se a Folha e O Globo estivessem envolvidos em crimes de lesa humanidade para lograr êxito no controle do papel de imprensa com o qual editam seus diários. O artigo é de Cristóvão Feil.

Cristóvão Feil

A presidente Cristina Fernández de Kirchner é uma mulher corajosa. Ela está mexendo com o thriller mais palpitante da Argentina. Suspense total. Ou como chamaríamos a uma história que está sendo contada desde janeiro de 1976, por ocasião de um jantar servido pelos generais Jorge Rafael Videla e Roberto Eduardo Viola ao bilionário casal David Graiver e Lidia Papaleo de Graiver, então donos da empresa Papel Prensa, e prossegue até nossos dias, com a ameaça de quebra da espinha dorsal dos dois principais diários da Argentina? É como se a Folha e O Globo estivessem envolvidos em crimes de lesa humanidade para lograr êxito no controle do papel de imprensa com o qual editam seus diários.

Repito: thriller, suspense.

Ingredientes: mortes violentas jamais explicadas, milhões de dólares (a preços da década de 70), CIA, sabotagem, queda de avião, muitos bancos envolvidos, a O.P.M. Montoneros, um banqueiro que financia a esquerda, grupo Abril/Civita, organizações Bunge y Born, sequestro dos irmãos Born, compra de bancos em Nova York, sequestro em massa da família Graiver, tortura, extorsão, dois presidentes argentinos, não por acaso, gorilas, assassinatos, Martínez de Hoz (que seria o cérebro do caso Papel Prensa, e ainda vive), jornais Clarín e La Nación como monopolizadores de todo o papel destinado à imprensa argentina, etc.

A psicóloga de olhos verdes, Lidia Papaleo, está com 66 anos, hoje. É viúva do conhecido "banqueiro dos Montoneros", David Graiver, morto misteriosamente aos 35 anos de idade no acidente fatal de um avião Jet Falcon de sua propriedade, quando viajava de Nova York, onde trabalhava durante os dias úteis, para Acapulco no México, onde morava e convivia com a sua família nos finais de semana. Quando morre no suspeito acidente, até hoje inexplicado, David Graiver era dono de um império avaliado em 200 milhões de dólares, hoje, certamente mais que um bilhão, corrigidos. Entre suas posses se podiam somar vários imóveis rurais e urbanos herdados de sua família judia, e mais: dois bancos na Argentina, dois bancos em Nova York, um banco na Bélgica e um banco em Israel. Sem esquecer a própria empresa de papel e celulose Papel Prensa, praticamente um monopólio na fabricação e distribuição de matéria-prima para todos os jornais argentinos.

Dudi Graiver, como era conhecido, eram também rico em amigos. Em parte, pelo casamento com Lidia Papaleo, uma mulher forte e influente junto ao marido, e que havia sido companheira de um jornalista de esquerda chamado Jarito Walker, editor da revista política El Descamisado. A relação de Graiver com Jarito Walker lhe valeu uma aproximação com a Organização Político-Militar Montoneros, um dos braços armados do peronismo, através do adjunto do comandante Mario Firmenich, Roberto Quieto.

A propriedade parcial da Papel Prensa foi conseguida em 1973, graças à intervenção de Josef Ber Gelbard, ministro de Economia tanto dos presidentes "peronistas" Raúl Lastiri e Héctor Cámpora, quanto do próprio Perón e Isabelita, quando o líder de massas já havia morrido. O montonero (ex-PC) Gelbard foi um aliado determinante de Graiver na pressão sobre os ítalos-argentinos Civita (grupo Abril) para que estes vendessem cerca de 26% das ações da Papel Prensa. Outros 25% das ações eram do Estado e os 49% restantes estavam pulverizadas em cerca de 30 mil acionistas anônimos.

No conturbado governo de Isabelita Perón (na foto ao lado com Videla e Almirante Massera), grupos de extrema direita começam a se organizar à sombra generosa do peronismo. Eram conhecidos e temidos como a Triple A, a rigor, forças parapoliciais comandadas de dentro do governo de Isabelita pelo "bruxo" José Lopez Rega. Todos eram peronistas e mesmo assim se matavam mutuamente em plena luz do dia, ora eram os sindicalistas, os autores, ora os Monto, as vítimas, ora a milícia fascista e palaciana de Lopez Rega, com a discreta aprovação da presidenta Maria Estela Martínez de Perón. E vice-versa. Os militares assistiam de camarote blindado, prontos para intervir como porta-vozes dos interesses das oligarquias latifundiárias e de suas próprias armas corporativas.

Numa tarde quente de janeiro de 1976, o casal Graiver estava veraneando em seu bangalô em Punta del Este, litoral uruguaio. O telefone toca e no outro lado da linha estava o comandante do Exército argentino, Jorge Rafael Videla, subordinado à temerária presidente Isabelita. O general-comandante estava convidando Dudi e Lidia para jantar naquela noite de verão. Eles aceitaram e seguiram para Buenos Aires de avião alugado. No jantar, estavam os três, o casal e Videla, e juntou-se a eles o subcomandante, general Roberto Eduardo Viola Redondo. O jantar foi indigesto, os dois gorilas estavam comunicando ao influente casal que o golpe estava marcado para março daquele ano, portanto, a menos de dois meses.

E assim aconteceu o "pronunciamento militar" de 24 de março de 1976, como os jornais oligárquicos chamavam os golpes militares na América Latina, em décadas passadas.

Desde o início do governo de Isabelita e com as ameaças e assassinatos da Triple A, os Graiver já haviam se mudado para o eixo Acapulco-Nova York. Mas Dudi Graiver jamais deixou abandonado os interesses negociais e sobretudo as propriedades na Argentina. O resgate pelo sequestro dos irmãos Born (do grupo Bunge y Born), operado pelos guerrilheiros Montoneros em setembro de 1974, estava investido nos bancos de David Graiver. Foram 60 milhões de dólares que circularam pelos bancos Graiver de Buenos Aires, Nova York, Bruxelas e Tel-Aviv. Em março de 1976, mês e ano do golpe gorila de Jorge Rafael Videla contra Isabelita, os bancos de Graiver remuneraram a organização guerrilheira peronista com 193 mil dólares, só de juros, segundo o jornalista investigativo argentino, que vive na Suíça, Juan Gasparini. Hoje, essa quantia não ficaria por menos de meio milhão de dólares ao mês.

Nunca um golpe militar é puramente obra de militares, limitados e parvos que são para as coisas da política, da economia e da gestão pública como um todo. Videla, assim, leva Martínez de Hoz, membro de secular oligarquia argentina, para exercer o cargo de ministro da Economia. Atualmente se sabe que Martínez de Hoz foi um dos ideólogos do golpe e do regime autodenominado de Processo de Reorganização Nacional, ou simplesmente Processo, que durou até 1983, abortado pela derrota argentina na Guerra das Malvinas.

Martínez de Hoz está sendo atualmente processado por seus inúmeros crimes, em especial os que extorquiam grandes empresários mediante tortura para que endossassem a "venda" de suas empresas e bens para militares influentes na ditadura que controlavam com grande violência e crueldade. Foram dezenas de comerciantes, proprietários rurais, industriais e banqueiros que tiveram seus bens roubados debaixo de tortura nos inúmeros aparelhos repressivos clandestinos das três armas militares. O cérebro deste processo fordista de saque consentido e operado pelo aparelho estatal foi o ministro da Economia, José Alfredo Martinez de Hoz, apelido Joe, que está agora com 85 anos.

Pois é o método pragmático e objetivo de Martínez de Hoz (ao lado, sorrindo com o general Videla) que foi empregado à família Graiver para subtrair-lhe o controle da empresa de celulose Papel Prensa. A ditadura civil-militar precisava vencer e impor uma versão ideologizada dos atos abomináveis que cometiam. Para tanto, nada mais justo e adequado do que creditar à mídia impressa o papel que lhe cabe na escrita de um novo consenso, ainda que parido pela vaca fardada da coerção. Os diários Clarín, La Nación, La Razón (hoje extinto) já haviam sido parceiros no golpe de 24 de março, assim como os dois jornais de Jacob Timmermann, La Opinión e La Tarde, este dirigido pelo seu filho Héctor, ex-embaixador argentino nos EUA e atual ministro de Relações Exteriores do governo Cristina Kirchner. Héctor Timmermann, registre-se, está, no presente momento, assumindo uma posição correta, reclamando justiça e pela completa solução do misterioso caso.

No segundo semestre de 1976, nos meses posteriores ao golpe, Lidia Papaleo de Graiver e seus familiares sofrem pressão quase insuportável até que concordam em repassar o controle da Prensa Papel para as empresas que representavam o Clarín, La Nación e la Razón. Os ativos são calculados em 8,3 milhões de dólares, bem abaixo do preço efetivo de mercado, especialmente se fosse considerado o caráter monopolista e estratégico da empresa papeleira. Lidia cedeu não só pela pressão sofrida, mas também pela insolvência que rondava as demais empresas e negócios da família. A morte prematura e misteriosa de David em agosto de 1976 desencadeou uma iliquidez em série nos negócios dos Graiver, era ele que conduzia pessoalmente todos os investimentos cruzados e interdependentes dos ativos financeiros que possuiam. Lidia e familiares estavam acuados, economicamente abalados, politicamente pressionados, e biologicamente em risco.

O jornalista Juan Gasparini assegura que tem a mão pesada da CIA no acidente que levou a vida de Graiver. Para ele, os militares argentinos e Washington não iriam tolerar que o financiador ou gerente financeiro de um grupo político considerado terrorista, como os Montoneros, fosse dono de dois bancos no coração de Nova York e ainda por cima manejar dinheiro mal havido sem que as autoridades pudessem sequer intervir. Logo, a ação de sabotagem no avião foi uma saída honrosa tanto para a Casa Branca quanto para a Casa Rosada.

Depois disso a situação estava em plano inclinado, deslizando rápido para o completo desastre. Culminou que em março de 1977, a repressão argentina desencadeou a Operação Amigo, que consistiu no sequestro de 24 pessoas ligadas às empresas Graiver. A violência se abateu sobre Lidia Papaleo e mais 23 familiares, empregados, e executivos do grupo Graiver, sendo que dois indivíduos ligados ao falecido Dudi Graiver, de nome Rubinstein e Sajón, já estavam mortos e desaparecidos.

Nesta fase há um interregno de perguntas sem respostas, em parte, devido ao trauma sofrido pela viúva de Graiver, que não quis ou não pôde se manifestar. Osvaldo Papaleo, irmão de Lidia, sustentou por algum tempo que a Papel Prensa foi adquirida pelo Clarín e La Nación enquanto a família Graiver e os empregados estavam sequestrados e sendo torturados em algum covil policial ou militar.

O certo é que Lidia Papaleo de Graiver sofreu torturas na prisão. Um torturador perguntava sempre sobre o dinheiro dos Montoneros, chamando-a de "guacha de mierda". O sofrimento foi maior quando desenvolveu um tumor no cérebro, tendo sido operada no próprio cárcere, segundo conta o jornalista Juan Gasparini no seu livro sobre David Graiver. Lidia só foi solta em agosto de 1982, quando a ditadura já havia perdido a Guerra das Malvinas para a Inglaterra de Margaret Thatcher, e estava nos seus estertores, tanto que o ditador Leopoldo Galtieri já havia renunciado. Foi sucedido ainda por outro ditador, o último, Reynaldo Bignone, que depois passou a presidência para o presidente eleito Raúl Alfonsín, em dezembro de 1983.

Antes de ganhar a liberdade, Lidia passou por choques elétricos e pontas de cigarros acesos sobre a pele nos centros militares de tortura conhecidos como Poço Banfield e Posto Vasco, ambos na província de Buenos Aires, sob a custódia do Departamento Central de Polícia. Finalmente, foi submetida à farsa judicial de um Conselho de Guerra, onde foi humilhada e acusada de crimes contra o Estado. O jornalista Juan Gasparini garante ainda que o policial Miguel Etchecolatz, Diretor de Investigações da Polícia Bonaerense, violentou Lidia depois de uma prolongada sessão de tortura física e psicológica. De fato, é certo que muitos psicopatas desenvolvem grande excitação sexual depois de assistirem cenas de sofrimento alheio, especialmente vendo a dor feminina.

Lidia, já em liberdade, ainda sofreria um câncer mamário, mas isso não a impediu de se dedicar à sua profissão de psicóloga e casar novamente, desta vez com um estadunidense chamado Steve Tage.

Segundo depoimento de um irmão de Lidia à imprensa portenha, ela não mexeu mais no áspero tema de sua vida porque considerava que este é um assunto de Estado. Ela não acreditava que as suas agruras e sofrimentos pudessem ser resolvidos por denúncias vagas na imprensa, em livros, em instâncias partidárias, em ONG’s, ou na Justiça comum. Não, ela acredita - segundo seu irmão - que este é um problema para o Estado argentino resolver. Tudo leva a crer que uma mulher, Cristina Fernández de Kirchner, entendeu o recado de Lidia Papaleo de Graiver.

Trata-se, sim, de uma questão de Estado. Foram cometidos "crimes de lesa humanidade" em série, segundo consta na denúncia da promotoria argentina. Uma família foi violentada, torturada e dela foi esbulhado um bem material - Papel Prensa - que hoje está servindo de instrumento de luta política pela mídia crioula e oligárquica para que a Argentina retorne a um tempo em que as cidadãs e os cidadãos eram torturados, mortos e desaparecidos.

O assunto Papel Prensa é estratégico. É uma disputa pelo Estado. Não é de graça que o editorial do jornal Clarín assume um tom confessional quando disse há dois dias que "o Governo avança em Papel Prensa para controlar a palavra impressa". É como disse um articulista do jornal Página/12 ontem, essa admissão do Clarín em Direito se chamaria "confissão da parte" ou "relevo de provas", já em Psicologia pode-se chamar de "projeção". De qualquer forma, é sim um mecanismo de defesa que consiste em atribuir a terceiros ou ao mundo que o rodeia os erros ou desejos pessoais.

A rigor, um ciclo está se fechando na Argentina, e de resto, também em toda a América do Sul. A queda iminente e provável do grupo midiático Clarín (jornais, rádios, tevês) é uma parte da história que queremos ver pelo espelho retrovisor, e não é à toa que tem como protagonistas duas mulheres fortes, Lidia e Cristina.

(*) Este breve relato foi baseado na leitura do livro do jornalista argentino Juan Gasparini chamado "David Graiver - el banquero de los Montoneros" (1990), atualmente com a edição esgotada. Você pode ler esta obra na íntegra

Fonte:  Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

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Estrangeiros usam ‘’laranjas'’ para registrar terras no país

Valor Econômico

O governo não tem a exata dimensão do volume de terras brasileiras em mãos de estrangeiros, mas está convencido que a elevação de 95% no registro de imóveis rurais em nome de pessoas jurídicas brasileiras entre 1998 e 2008 revela um caminho adotado por não brasileiros para comprar áreas no país.

Boa parte desses registros teria sido patrocinada por empresas estrangeiras, via criação de companhia nacionais abertas em nome de terceiros, para "legalizar" sua atuação no Brasil, aponta uma fonte graduada do governo.

O novo parecer da Advocacia-Geral da União (AGU), publicado segunda-feira, obriga os estrangeiros a obter autorização prévia do governo para registrar terras em cartório e coloca limites severos à compra de glebas com até 5 mil hectares por não residentes - cada município poderá ter 25% de seu território nas mãos de estrangeiros.

Estatísticas cadastrais inéditas mantidas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) mostram que o número de imóveis sob domínio de empresas nacionais passou de 67 mil, em 1998, para 131 mil em 2008. O total da área registrada saltou de 80 milhões para 177,2 milhões de hectares nesses dez anos - um aumento de 121%.

Nos registros oficiais do governo, figuram apenas 34.371 imóveis rurais em nome de não residentes em 2010, e 4,307 milhões de glebas no país são propriedade de estrangeiros .

Desde 1971, quando a ditadura militar baixou uma lei para controlar a propriedade da terra no país, os registros oficiais têm minguado. Em 1972, ainda sem a regulamentação legal, existiam 43,4 mil imóveis em mãos estrangeiras. Em 1978, já sob o efeito da nova lei, os registros recuaram para 35 mil imóveis. Bem mais tarde, o recadastramento geral fundiário de 1992 detectou apenas 24 mil propriedades rurais nessa situação. A explicação é que a base das terras foi "zerada" para o recomeço da contagem.

Até 1998, sob efeito de um parecer anterior da AGU, os registros subiram a 27,2 mil. A expansão, considerada "residual" pelo governo, ocorreu pela necessidade de obter certidões oficiais para transações comerciais das terras. Assim, os registros foram subindo até atingir 33,2 mil em 2007. Pequenas áreas acabaram incorporadas a glebas maiores nesse período, já que a área total em mãos estrangeiras cresceu menos do que o número de imóveis. Em 2008, o registro do governo identificou 34,6 mil propriedades rurais sob titularidade de estrangeiros. Em 2010, o número de imóveis caiu a 34,4 mil.

O governo avalia que o "arrocho" na titularidade das terras nacionais provocará uma avalanche de pedidos de regularização da situação. O presidente do Incra, Rolf Hackbart, afirma que está preparado para atender à demanda. "Vistoriamos 6 milhões de hectares todo ano. Não serão muitos processos, mas estamos preparando a equipe e já reunimos nossos procuradores para colocar as novas regras em prática", diz.

O executivo afirma ter sido "correto" o novo parecer da AGU com limitações à aquisição de terras por estrangeiros. O Incra passará a ter um alto grau de controle sobre essas transações. "A medida é correta. Agora, temos regra e isso não inibirá investimentos, mas vai estancar a hemorragia dessas compras", afirma o presidente do Incra.

Hackbart argumenta que o parecer trará estabilidade jurídica, permitirá a regularização fundiária e ambiental, além de favorecer o combate à grilagem de terras, sobretudo na região Norte do país. O presidente do Incra afirma que um conjunto de medidas adotadas pelo governo ajudará na atuação da autarquia.

Além do novo parecer da AGU, Hackbart lista como essenciais ao processo os controles recomendados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e as decisões do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a obrigação dos cartórios de informar essas transações ao Incra e o cancelamento de títulos de posse irregulares no Pará. "Os cartórios vão se preparar. O futuro chegou", afirma.

Fonte: MST – http://www.mst.org.br/mst/index.html

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A geração perdida da América Latina: 45% dos jovens não têm trabalho, segundo um relatório da Organização Ibero-americana da Juventude

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Verónica Calderón

O rosto da América Latina é jovem: 19,5% de sua população têm entre 15 e 24 anos, índice somente superado pela África (20,3%), e é a única região do mundo cuja juventude experimenta um crescimento sustentado. Mas seu panorama não é alentador. Na Ibero-América (América Latina, Espanha e Portugal) há cerca de 150 milhões de jovens, dos quais 45% - aproximadamente 68 milhões - estão desempregados, segundo um estudo da Organização Ibero-americana da Juventude (OIJ). Cerca de 105 milhões estão na América Latina.

Jovens da América Latina sofrem com a falta de empregos e de políticas públicas, segundo relatório

Jovens da América Latina sofrem com a falta de empregos e de políticas públicas, segundo relatório

"Os jovens são invisíveis para a sociedade", afirma o chileno Eugenio Ravinet, presidente da OIJ. "Salvo raras exceções, não existem políticas sociais voltadas especificamente para eles." Uma prova de que não há políticas concretas é a falta de um critério claro para definir quem é jovem. Para a OIJ, são as pessoas entre 18 e 29 anos. Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a ONU, a faixa vai de 15 a 24 anos. Noventa por cento dos jovens do mundo vivem em países em desenvolvimento, indica um relatório da OIT. "O jovem está desprotegido pelas políticas sociais. O primeiro suspeito de um crime costuma ser o jovem. O chefe que vai contratar desconfia antes de um jovem. O índice de desemprego entre os jovens é o dobro ou em alguns casos o triplo da média nacional, e nenhum país empreendeu uma reforma trabalhista que enfrente o assunto", descreve Ravinet.

Um estudo elaborado em 2007 pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e a OIJ detalha os índices de desemprego em cada país latino-americano, mas explica que as estatísticas variam de acordo com o ano em que foram coletadas (uma margem de até cinco anos) e que os números são enganosos. A região tem um dos índices mais altos de subemprego ou emprego informal entre os jovens. As economias latino-americanas, que não têm a proteção social dos países europeus, deixam seus jovens "sem a oportunidade de sair de sua situação", salienta Ravinet.

A OIT detalha que no México, Colômbia, Equador, Panamá e Peru 82,4% dos adolescentes (entre 15 e 19 anos) tinham um emprego informal, número significativamente mais alto que os 50,3% dos adultos (entre 30 e 64 anos) na mesma situação laboral. "Os jovens são o setor mais vulnerável aos trabalhos irregulares, com o salário mais baixo", comenta Ravinet. E a falta de oportunidades é diretamente proporcional à pobreza. O desemprego entre a população jovem pobre é 19% maior que nas classes média e alta.

As mulheres têm uma situação ainda mais difícil. O desemprego entre a população feminina é, em alguns casos, até 10% superior ao masculino. Além disso, a América Latina é a única região do mundo onde o índice de fecundidade entre as adolescentes continuou aumentando nos últimos 30 anos: 7,3% das gravidezes na região ocorrem em jovens entre 15 e 19 anos. Na Europa o índice é de 2,8% e em todo o mundo, 4,8%. "O machismo na região afeta particularmente as mulheres", comenta Ravinet.

Outro dado alarmante é a quantidade de jovens latino-americanos que não estudam nem trabalham: um em cada quatro, segundo o relatório da OIJ e da Cepal. "As consequências de uma juventude sem oportunidades são muito graves", afirma Ravinet. O estudo divulgado pela OIT concorda. "A incapacidade de encontrar emprego cria uma sensação de impotência e inação entre os jovens, que pode conduzir a um aumento da criminalidade, dos problemas de saúde mental, da violência, conflitos e consumo de drogas", diz o relatório.

O maior problema, afirma Ravinet, é o ceticismo diante da juventude. "Acredita-se que os jovens não se interessam pelo futuro, que são apáticos, não desejam se envolver nas decisões, e é mentira. O desejo de um jovem é muito simples: ter um emprego e que seu governo não o abandone. Há necessidade urgente de programas que fomentem a capacitação, o contato com as novas tecnologias. Para cuidar da juventude, não basta organizar uma partida de futebol ou um show de rock."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

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‘Uma nova regulação do capitalismo não resolverá a crise do sistema mundial’. Entrevista com François Houtart

Os movimentos “altermundialistas”, dizFrançois Houtart, foram os que, com maior realismo, advertiram sobre o caráter dos desequilíbriosecológicos globais.

Fabián Bosoer

Os movimentos de resistência à globalização, “globalifóbicos” ou “altermundialistas”, apesar de sua heterogeneidade e seu caráter contestador, tiveram a virtude de advertir sobre a necessidade de respostas e mudanças mais radicais aos desequilíbrios gerados por um predomínio dos mercados financeiros internacionais. Apelidados de “utópicos”, acabaram sendo os mais realistas, mesmo que algumas vozes continuam sem ser devidamente atendidas.

Essa opinião é de François Houtart, sacerdote católico e intelectual marxista, fundador e diretor do Centro Tricontinental da Universidade Católica de Louvain, Bélgica. É um dos principais referenciais intelectuais do chamado “altermundialismo”. Houtart teve também a oportunidade de participar da formação de uma geração de sociólogos latino-americanos que estudaram em Louvain entre os anos 60 e 80, sentando as bases dos estudos de sociologia da religião no nosso continente.

Mais recentemente, integrou a comissão de notáveis presidida no ano passado por Joseph Stiglitz e encarregada pelo secretário-geral da ONU para elaborar recomendações sobre como enfrentar a crise econômica global. Ele esteve em Buenos Aires, convidado para falar na Conferência Internacional “Direitos Humanos e democratização: entre público e privado, entre local e global”, organizada pela Universidade Nacional de San Martín e várias ONGs internacionais.

Eis a entrevista.Passou-se mais de uma década desde o surgimento do chamado “movimento antiglobalização”. Como o senhor, um de seus inspiradores, lembra de seus momentos principais?

Podemos situar um momento das origens do que nós passamos a chamar de “altermundialismo” em 1999, quando, a partir da iniciativa de um grupo de movimentos sociais de diferentes continentes organizamos uma contra-conferência ao Fórum de Davos, na Suíça. Isso teve uma grande repercussão. Estavam ali oMovimento dos Sem Terra do Brasil, os sindicatos operários daCoreia do Sul, cooperativas agrícolas de Burkina Faso, movimentos de mulheres do Canadá e o movimento de desempregados daFrança, junto com um grupo de intelectuais e acadêmicos comoSusan George, Samir Amin e Ricardo Petrella. Podemos ir ali e brindar nossa palavra, enquanto estavam reunidos os representantes e líderes das economias mais ricas e as instituições financeiras mundiais. Fizemos um grande barulho, e, desde então, se começou a falar de “o outro Davos”.

Que resultados obtiveram? O que propuseram então foi antecipação às crises que viriam anos mais tarde?

Naquela coletiva de imprensa, dissemos que não podíamos continuar assim, que era preciso reorientar a economia mundial. E como os brasileiros estavam ali conosco, deles veio a ideia do Fórum Social Mundial, frente ao Fórum Econômico Mundial de Davos, que foi organizado dois anos depois. Desde então, já foram organizados nove Fóruns Sociais Mundiais e outros também continentais, nacionais, temáticos, e são centenas de milhares de pessoas que se mobilizaram durante esses anos. Dois fóruns foram organizados fora da América Latina, um em Mumbai, na Índia, e outro em Nairóbi, na África, mas a maioria aconteceu na América Latina, o que teve um impacto positivo, segundo acredito, também sobre a evolução política do continente. A conquista principal foi desenvolver uma consciência coletiva mundial nova e, por outro lado, ser um lugar onde se constituíram ou se reforçaram muitas redes de movimentos e de temáticas sobre a água, sobre aAmazônia, a vida campesina etc.

O senhor propôs verdadeiras alternativas ou ficou no meramente contestador?Fazer conhecer determinadas situações é fundamental. Não estamos falando de de sistemas ideológicos contrapostos ou confrontados, mas sim de uma experiência histórica que também está se esgotando, e precisamos de alternativas de futuro. Há uma lógica que está destruindo o planeta.

Um exemplo concreto?

Um exemplo é a agroenergia, que se propõe como uma solução à crise ambiental e energética, e não é. De fato, a combustão dos motores ou a produção de dióxido de carbono é menor quando se utilizar etanol ou agrodiesel, mas quando se toma todo o processo de produção, de transformação, de distribuição dessa energia, a conclusão é que, em geral, não é melhor, porque destroem-se as selvas, destrói-se a biodiversidade, contaminam-se os solos, a água. Por outro lado, é uma solução muito marginal para a energia. Por exemplo, na Europa, que decidiu utilizar 20% de energia de origem agrícola para o ano 2020, nos transportes, com toda a produção de agroenergia, neste momento, daqui até 2020, podemos esperar só responder ao aumento da demanda, não à demanda total. Nesse aspecto também não é uma solução. E, por outro lado, se se quer que a agroenergia tenha uma certa contribuição para enfrentar a crise energética, devem-se utilizar milhões de hectares de terras na Ásia, na África e na América Latina, porque não existem terras suficientes na Europa, e isso pode levar à expulsão de pelo menos 60 milhões de agricultores de suas terras. Isso já está acontecendo na África, na América Latina e em certas regiões da Ásia também.

No entanto, existe um fenômeno de profunda reconversão produtiva, revolução tecnológica e dos alimentos e vivemos um ciclo de crescimento que parece inclusive recobrar sua dinâmica depois da crise financeira de 2008. Como se compatibiliza isso com a crise do capitalismo que o senhor descreve?

Vamos à análise dessa última grande crise. Naquele momento, se reuniu no marco da Assembleia Geral da ONU uma comissão de notáveis presidida pelo prêmio Nobel Joseph Stiglitz. Eu tive a oportunidade de participar nela como representante pessoal do presidente da Assembleia Geral, que era Miguel D’Escoto, ex-chanceler nicaraguense. Ali ficaram fixadas grandes posições diante da crise e se concordou sobre a proposta de estabelecer novas regulações ao sistema econômico internacional, que havia saído do seu leito normal. Nessa orientação, coincidiam tanto os que queriam poucas regulações e transitórias, como o G-20, e uma posição mais neokeynesiana, a favor de regulações mais fortes e permanentes. Por exemplo: abolir os paraísos fiscais, o segredo bancário, instituir uma nova instituição de controle global da economia etc. Evidentemente, a maioria dessas propostas não foram aceitas pelas Nações Unidas.

O senhor acha que essas respostas, o ajuste ou a reforma do sistema, são suficientes?

Sim. Mas fora desse consenso mais amplo, surgem no entanto outras duas propostas. A primeira é a do próprio capitalismo liberado de ataduras, uma posição quase naturalista – se poderia dizer “darwinista” – que consiste em dizer que as grandes crises são saudáveis para o próprio sistema, porque permitem eliminar os elementos “fracos” ou “enfermos”, e assim retomar o processo de reacodomodação de maneira mais sadia, e a economia sairá assim fortalecida e pujante. Mas há uma terceira opção e é a de dizer: estamos em uma situação tal, não apenas de uma crise financeira ou econômica, mas sim de uma combinação de crises, alimentar, energética, climática e finalmente uma crise social profunda, entendendo que uma nova regulação do capitalismo não resolverá a crise do sistema mundial.

O que isso significa concretamente?

Significa retomar o que poderíamos chamar de “os fundamentos da vida coletiva” da humanidade na Terra, começando pela nossa relação com a natureza. Significa passar da exploração ilimitada dos recursos ao respeito como fonte de vida. Significa, evidentemente, uma nova filosofia e, de maneira muito concreta, que não é aceitável a propriedade privada irrestrita dos recursos naturais não renováveis e particularmente dos recursos energéticos e que não se pode aceitar que coisas tão essenciais para a vida como a água sejam regidas exclusivamente pela lógica do mercado. Isso questiona também as posturas do socialismo do século XX que estava dentro da mesma filosofia de um progresso sem fim e de uma natureza inesgotável. Se não fizermos isso, vamos continuar destruindo a natureza e autodestruindo as nossas sociedades humanas, levando-as a um ponto de saturação e de catástrofes sem retorno. Calculou-se que a cada ano o período de recuperação da natureza termina mais cedo. Embora seja um cálculo um pouco abstrato, vale a pena levá-lo em consideração: no ano passado, esse tempo de recuperação terminou no dia 23 de setembro. Isto é, no dia 23 de setembro de 2009, esgotamos, pela atividade humana, toda possibilidade de recuperação do planeta. E a cada ano essa data se adianta. Significa que esse tipo de modelo, subsumido pela economia e desprovido de valores éticos, deve ser repensado no curto, médio e longo prazo. Como dizemos: outro mundo é possível.

Fonte: Eco Debate – www.ecodebate.com.br

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Aliança com o nada

Para professor da UFMG, neutralismo é palavra de ordem para candidatos e sinal de pobreza do debate eleitoral

Márcia Vieira

Muito pelo contrário. Na tentativa de ganhar a opinião pública os candidatos ensejam uma posição neutra, empurrando para baixo do tapete temas tabus como aborto, drogas e eutanásia

A menos de dois meses das eleições presidenciais, há uma fração interditada da agenda política. Os principais candidatos a presidente não se aprofundam em temas transversais que mexam com a sociedade. Aborto, drogas, união civil entre homossexuais, reforma agrária, eutanásia, entre outros, foram escanteados do debate. "A política é uma esfera de pensamentos da diferença, um lugar de estratégia e de conflito. A gente não vê isso hoje no Brasil. Ainda vivemos a fase da neutralidade geral", diz Marco Aurélio Prado, doutor em psicologia social pela PUC-SP, membro do Núcleo de Psicologia Política da UFMG e atual presidente da Associação Brasileira de Psicologia Política. "É um momento no mínimo curioso, se não perigoso."

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CNBB deflagra missão debate

Ideias engessadas

Dois fatores contribuiriam para tanto: a forte influência da religião na política e as alianças que sustentam os candidatos. Notório é que o primeiro passo foi dado justamente por um ramo da Igreja Católica. Nessa semana, a CNBB, Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, anunciou a convocação de um debate, com transmissão em rede nacional nas TVs católicas, para cobrar dos presidenciáveis posições claras sobre assuntos tabus, como aborto, reforma agrária e taxação de grandes fortunas. Prado acredita que o caldeirão vá esquentar. "A sociedade é pluralista, seria muito bom que a política expressasse isso."

Por que temas tabus são empurrados para baixo do tapete durante o debate eleitoral?

Há uma tentativa de formar opinião pública e, para isso, os candidatos ensejam uma posição neutra. O debate eleitoral no Brasil é pobre. Em outros países encontramos posições mais definidas. O comportamento chama a atenção porque esses são temas ligados a outro elemento contemporâneo do Brasil: a presença das religiões na esfera da política. Elas têm representantes na Câmara dos Deputados e no Senado a ponto de já fazer parte do nosso imaginário falar que existe bancada evangélica, bancada religiosa, bancada católica. Os candidatos evitam marcar posição para não perder o apoio da opinião pública. Mas não evitam visitar as igrejas ou fazer acordos com pastores e padres.

O que teria motivado a CNBB a sugerir um debate com os presidenciáveis que inclui assuntos polêmicos?

A Igreja Católica é muito capilar e muito contraditória internamente. Tem várias tendências, desde as católicas que defendem o direito de a mulher interromper a gravidez até o discurso do papa, sem dúvida conservador. Ela possui uma forma de lidar com essas temáticas que revela um pouco por que consegue tanto peso na opinião pública. Nos últimos anos, a gente avançou numa certa democratização. Mas ao mesmo tempo as religiões viraram instrumento forte de compreensão da própria política e a política virou instrumento forte da religião. Isso é uma contradição e um fenômeno importante. Acredito que temas sobre direitos vão aparecer no debate à medida que o eleitorado tiver mais cara e as pesquisas indicarem o rumo das coisas. O debate vai esquentar. O problema é como serão as respostas dos candidatos (risos).

A falta de debate em relação a esses temas empobrece o processo eleitoral?

Com certeza. Mas a eleição tem sido assim, com pouquíssimos instrumentos de conscientização política. Sendo o voto uma forma de expressão de direito de cidadão, é curioso que o processo eleitoral esteja tão despolitizado. Veja a forma de construção das alianças. A candidata do governo, por exemplo, é de um partido que fez coligações que vão fortalecer o PMDB em muitos Estados. Conforme essas alianças vão sendo feitas por interesses que não passam por um projeto político, a eleição tende a ser menos esclarecedora para a população. Aí é óbvio que os discursos não dizem nada. No debate da Band foi essa a postura dos candidatos. Apenas quem tem poucas chances, como o Plínio de Arruda Sampaio, pode falar de todos os temas. A sociedade é pluralista. Seria muito bom que a política expressasse isso.

O que constitui, de fato, um debate democrático?

O ideal do debate político é que antagonismos possam aparecer. A política é uma esfera de pensamentos da diferença. É um lugar de estratégia e de conflito. A gente não vê isso hoje no Brasil. Vozes dissonantes aparecem pouco. Repare no caso da união entre homossexuais. Quem está antagonizando são os religiosos no Congresso e uma parte da sociedade civil ligada aos movimentos sociais. E esse é um tema de muita relevância porque mostra como uma nação é capaz de olhar para transformações da sua própria sociedade. O governo tem feito de maneira discreta algumas ações pró-reconhecimento, como a autorização para declarar parceiro no Imposto de Renda, mas é meio envergonhado. Isso não se transforma em debate público, não são projetos que passaram por discussão no Congresso. A eleição vira esse neutralismo, esse grande acordo de relações partidárias. E a gente não sabe como essas rodadas de negociações aconteceram.

Que outros temas são escanteados?

O mais escamoteado é o das alianças. Se houvesse um espaço mais democrático, poderíamos discutir o que isso significa para o futuro. O mundo da política institucional não pode ter partidos fracos. É preciso ter partidos fortes com discursos políticos bem sustentados. Estamos vivendo um momento no mínimo curioso, se não perigoso.

De que maneira o senhor acredita que esses temas vão começar a ser discutidos pelos candidatos?

Não haverá muita discussão, principalmente pelos dois candidatos que estão na frente nas pesquisas. Basta pensar o que eles representam. De um lado, Dilma Rousseff espelha um acordo com partidos que não têm nenhuma posição favorável a esses temas, posição, aliás, que o PSDB também nunca teve.

A população percebe essa agenda tolhida? Por que o eleitor não reage?

Eu sou otimista. Há espaços que reagem. Neste ano todas as paradas LGBT têm como lema a questão do voto contra a homofobia. É uma reação, um recado. Quando todo mundo considerou que as paradas eram carnavais, elas mostraram articulação em torno de um tema: o projeto de lei, que não passa de jeito nenhum, sobre a criminalização de atos homofóbicos. No caso do aborto, é inadmissível que não se discuta em pleno século 21 o direito de as mulheres decidirem sobre o próprio corpo.

Em que momentos da nossa história política o debate lhe pareceu menos engessado?

Sobre essas questões específicas, nunca tivemos, em épocas de eleição, um debate acirrado. Mas, na pós-ditadura militar no Brasil as eleições foram mais politizadas. O debate Collor/Lula teve processo de conscientização política. As posições eram demarcadas, os partidos apresentaram projetos. Para o eleitor que conseguiu ler esses projetos não foi surpresa o que aconteceu no governo Collor. Naquele momento, o debate eleitoral instituiu um processo de reflexão sobre a política e sobre nossa vida como coletividade. É interessante pensar que estamos saindo de um governo do PT, um partido que tem história de politização de tantos temas, mas despolitizou a sociedade brasileira nos últimos anos.

O PT ajudou a despolitizar o debate?

Sim, mas é um fenômeno que não ocorre somente no Brasil. Em outros países, partidos de centro-esquerda ou esquerda, ao assumirem o governo, construíram certa despolitização das sociedades. Um elemento muito forte no País foi o tipo de relação que o governo estabeleceu com os movimentos sociais.

Foi uma relação de dominação?

Não. Foi uma relação de despolitização. Muitos movimentos sociais, que sempre tiveram lideranças importantes para a democratização, entraram para a máquina de governo. É verdade que o Estado precisa da experiência da sociedade civil para instituir políticas públicas, mas o problema é como isso mexe com a participação da sociedade. Há movimentos burocratizados pela lógica do Estado. Costumo brincar que, atualmente, se você formar um grupo para reivindicar algo, no dia seguinte vai ter um edital do governo propondo verbas e formas de funcionamento. A relação entre esses movimentos e o governo ficou engessada em editais. Ao mesmo tempo que há índices de melhora da situação brasileira, temos também uma sociedade menos participativa.

Outras culturas são mais abertas à discussão?

Sim. A Argentina viveu um debate importante sobre a união civil entre gays, que culminou com sua aprovação. A Espanha também. Portugal tomou decisões importantes no caso do aborto, das drogas e do reconhecimento da união entre homossexuais.

Quais seus prognósticos em relação ao Brasil?

Há a tendência de que essas temáticas avancem, mas vai depender de quem for eleito. A política é muita dinâmica. Isso é que é fascinante. Eu sou otimista, mas não é um otimismo redentor. Não imagino que a gente vá alcançar esse patamar fantástico rapidamente. Mas há práticas cotidianas que fazem toda a diferença.

O senhor já decidiu em quem votará?

Já. Não de modo confortável. É uma eleição difícil. Decidi, mas com medo de fazer parte do que vai ser o futuro dos partidos diante dessa situação de alianças tão pouco claras. Seremos cúmplices do que vier.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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Sair da crise?

Adriano Benayon

No artigo publicado em junho de 2010, “O Brasil e o Colapso Mundial”, apontei que o Brasil deixou, desde a crise de 2007/2008, de ter saldos positivos nas transações correntes com o exterior e que, no 1º trimestre de 2010, o déficit dessa conta atingiu recorde: mais de US$ 12 bilhões.

Artigo: Sair da crise? por Adriano Benayon

2. Agora dispomos dos dados para todo o 1º semestre, período em que esse déficit atingiu US$ 23,8 bilhões. Só não aumentou mais, porque em maio entraram em cena as exportações ligadas à safra agrícola. Mas em junho o ritmo de crescimento do déficit acelerou-se novamente.

3. A balança comercial teve saldo positivo de 7,9 bilhões. As transferências unilaterais (remessas de trabalhadores brasileiros no exterior), também tiveram superávit de US$ 1,51 bilhões.

4. Isso significa que o déficit de “rendas e serviços” foi de nada menos que U$ 33,21 bilhões. Nesta conta predomina o peso das “rendas”, com U$ 19,4 bilhões, quantia da qual estão deduzidos os rendimentos de capitais brasileiros no exterior.

5. Portanto, o capital estrangeiro prossegue remetendo vultosos lucros ao exterior, não obstante o Brasil vir tendo medíocre crescimento econômico, valendo, ademais, notar que os rendimentos líquidos oficiais das transnacionais não incluem os serviços superfaturados e fictícios, nem o subfaturamento de exportações e o superfaturamento de importações.

6. O próprio comércio de mercadorias, i.e., a balança comercial, confirma estar o Brasil afundando no  em subdesenvolvimento. De fato, quando se trata de bens de maior conteúdo tecnológico, em vez de superávit, cresce o déficit, como se dá com os eletroeletrônicos, em que, nos seis primeiros meses de 2010, as exportações foram de US$ 3,64 bilhões e as importações, US$ 15,76 bilhões.

7. O balanço de pagamentos está sendo falsamente equilibrado com ingressos líquidos de investimentos estrangeiros, diretos - de longo e curto prazo - além de empréstimos e financiamentos. Trocando em miúdos, enquanto cresce a perda de recursos correntes para o exterior, o capital estrangeiro eleva a base sobre a qual novas perdas serão geradas.

8. Continua, portanto, elevada e ascendente a saída de recursos do Brasil, resultante de ser o mercado brasileiro controlado por empresas transnacionais, subsidiadas por múltiplas benesses proporcionadas pelas leis e regulamentos do País, sob o comando de interesses imperiais forâneos.

9. Aumenta, desse modo, a já excessiva ocupação dos mercados de bens e serviços, via investimento direto estrangeiro, e a exploração dos mercados financeiros por parte do capital estrangeiro de curto prazo.

10. Pode-se estimar uma provável crise externa do Brasil, ainda este ano, já que a depressão mundial está cada vez mais enraizada, e a derrocada financeira se apresenta iminente. A primeira implica queda nas receitas de exportação, e a segunda, saída de capitais para cobrir rombos nos EUA, Europa e Japão.

Investindo” com o nosso dinheiro

11. Predomina cada vez mais na economia brasileira o capital das empresas e bancos transnacionais. A implantação destas no Brasil foi grandemente favorecida por subsídios governamentais. Além disso, a política econômica prejudicou, pelo menos comparativamente, as firmas de capital nacional.

12. Desse modo, as transnacionais foram estendendo e aprofundando seu controle sobre os mercados, bastando-lhes aproveitar os subsídios e investir os ganhos obtidos no Brasil. Nos últimos decênios vêm, ademais, recebendo vultosos empréstimos do BNDES, o banco federal de desenvolvimento, a juros favorecidos.

13. Assim, para explorar os mercados, em condições de oligopólio, nem precisam, nem nunca precisaram, fazer ingressar no País quantidade significativa de dólares.

Moeda falsa

14. Para as aplicações especulativas, o capital estrangeiro tampouco tem qualquer dificuldade, pois os dólares são emitidos a rodo, não havendo garantia alguma de que os aqui convertidos em reais não passem de falsos ativos monetários criados em computadores de agências de bancos em paraísos fiscais.

15. Além disso, a emissão de dólares nos EUA não guarda relação com alguma coisa de real valor, pois o FED e o Tesouro dos EUA têm despejado nos bancos trilhões de dólares, na casa dos dois dígitos, com a finalidade de cobrir os rombos resultantes das jogadas dos próprios banqueiros.

16. Assim, é muito fácil para os praticantes do “carry-trade” obter os dólares para convertê-los em reais e auferir ganhos aproveitando o absurdo diferencial entre as altas taxas de juros aqui praticadas e as baixas taxas, quando não negativas, prevalecentes no exterior. Além disso, os ganhos da apreciação da taxa de câmbio do real.

Poder mundial

17. A oligarquia financeira anglo-americana concentra o poder econômico e exerce o poder político real, encoberto pela fachada dos “governos constituídos” dos países centrais, de seus associados, satélites e áreas periféricas exploradas.

18. Essa oligarquia sabe quais são as fontes do poder. A primeira delas é a criação de moeda, controlando os bancos, que o fazem por meio do crédito, e dominando os bancos centrais, que emitem moeda diretamente, sejam eles privados, como nos EUA, sejam públicos, como no Brasil.

19. A primeira fonte do poder, a oligarquia a quer monopolizada e sem limites. Por isso restringe o uso da segunda fonte: os metais estratégicos e os preciosos, boicotando, por ex., o uso do ouro como reserva de valor.

20. Mas monopoliza esses metais, cujas minas detém em todo o Mundo, e acumula estoques. Impede, ademais, que a emissão de moeda em papel e escritural seja limitada por uma proporção com o ouro ou outro ativo real.

21. Os controladores dos mercados financeiros geram oferta falsa do ouro, manipulam seu preço para baixo e tolhem sua procura, deixando as pessoas sem opção segura de onde pôr as economias, e reféns das moedas emitidas ao bel prazer da oligarquia e fadadas a brutal desvalorização.

22. A terceira fonte do poder é a energia. Não admira que a oligarquia anglo-americana controle a comercialização do petróleo, desde a época das sete irmãs - hoje apenas quatro, duas norte-americanas e duas britânicas. Não admira tampouco que o petróleo e outros combustíveis fósseis continuem sendo as principais matérias energéticas, não obstante os terríveis danos que causam à saúde e ao meio-ambiente.

23. A quarta fonte do poder são as forças armadas. Estas asseguram, por ex., o suprimento de petróleo e que este seja vendido em troca de dólares. Desse modo o poder militar se combina com o da energia e o da moeda.

24. A quinta fonte é a indústria das ilusões, abrangendo os meios de comunicação e universidades de elite, pertencentes a fundações da oligarquia ou por ela estipendiadas. A função dessa indústria é fazer aceitar os absurdos como se fossem naturais e justos, coadjuvadas pelos negócios da drogas e da anticultura, que embotam os espíritos.

Crise e depressão

25. Enquanto isso, aguarda-se nova crise no quadro do colapso econômico mundial, caracterizado, de um lado, pela depressão da economia real com desemprego altíssimo e crescente, e de outro lado, por explosões: a) empréstimos impagáveis; b) dos títulos, inclusive derivativos, com alto valor nominal e quase sem valor de mercado, em parte já empurrados para os governos; c) a dos títulos da dívida pública dos EUA, de países europeus e do Japão; d) os reflexos disso tudo nas economias periféricas, como a brasileira.

26. Tudo isso é problema nosso. É dos povos e de verdadeiras lideranças que os queiram conduzir à libertação. Os concentradores do poder não vêem problema algum nas crises que criam. Ao contrário, elas lhes servem para prosseguir concentrando mais poder e retirando de um número cada vez maior de pessoas os meios que as ajudariam a reagir.

Fonte: Jubileu Brasil – http://www.jubileubrasil.org.br/

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"Código Florestal deve ser preservado”

Igor Felippe Santos

Os parlamentares da comissão especial que discute mudanças no Código Florestal devem votar, no começo do mês de junho, o relatório final do deputado federal Aldo Rebelo (PcdoB-SP). Na avaliação dos movimentos sociais do campo e das organizações ambientalistas, o relatório deve atender aos interesses dos ruralistas, pela ausência de um debate amplo sobre o tema.

“Os objetivos dos ruralistas são claros: consolidar o desmatamento que já promoveram no Cerrado, Mata Atlântica, Pampas e Caatinga; avançar na destruição da Amazônia e consolidar as áreas que já desmataram”, avalia Luiz Zarref, engenheiro florestal, especialista em agroecologia e militante do MST, em entrevista à Página do MST.

Essa comissão foi instalada em outubro para analisar o projeto do ex-deputado Sérgio Carvalho sobre um novo código. No processo de instalação, os ruralistas conseguiram o controle da comissão e passaram a comandar o ritmo do debate.

O Código Florestal é considerado uma barreira ao avanço do agronegócio, porque impõe limites à devastação ambiental na atividade agrícola, com a aplicação da Reserva Legal (RL) e das Áreas de Preservação Permanente (APP). A reserva legal é de 80%, na Amazônia; 35%, no Cerrado e 20% nas outras propriedades.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6724

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Mudança climática deve piorar desigualdade de renda no país

Nilbberth Silva

Até 2020, as transformações que a agricultura do Brasil deve sofre com as mudanças climáticas vão contribuir para diminuir o produto interno bruto (PIB) em 0,29% e piorar a desigualdade de renda. É o que mostra uma simulação feita pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, pelo economista Gustavo de Moraes.

Nordeste e centro-oeste perdem com mudança na agricultura. Sudeste ganha

O pesquisador estudou o assunto durante seu doutorado na Esalq, orientado pelo professor Joaquim Ferreira Filho. Moraes  se baseou em previsões da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) sobre a perda de áreas de cultivo de produtos agrícolas com grande importância econômica: soja, cana de açúcar, milho, café, arroz, feijão, mandioca e algodão. A Embrapa baseou-se em seis cenários de mudanças climáticas, propostos pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU).

O economista escolheu dois cenários – um deles previa mudanças brandas até 2020 e perda pequena em terras aráveis. Outro previa aumentos mais graves de temperatura até 2070 e perdas maiores de terras aptas para produção agrícola. Com os dados, ele alimentou um modelo econômico – uma série de equações que mostra como a perdas na agricultura impactam os outros setores da economia.

“A minha pesquisa avalia apenas os impactos na economia dos efeitos das mudanças climáticas na agricultura”, diz Moraes. “Mas as mudanças também terão efeitos sobre a saúde, o clima das cidades litorâneas e eventos climáticos extremos [como furacões e enchentes]. Por isso, a conta pode aumentar.”

Segundo o estudo, as perdas econômicas acontecem de forma desigual: o PIB do Nordeste em 2020 será 4% menor do que seria caso não houvesse mudança climática. Já o Sudeste teria um aumento de 0,83%. No centro-oeste, a queda é de 2,9%, concentrada nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Para 2070, a pesquisa mostra uma queda do PIB brasileiro em 1,1%. No nordeste, a queda seria 6,13%, o aumento seria de 0,36%.

O nordeste e as regiões produtoras de soja do centro-oeste devem perder dinheiro por que estão em regiões tropicais e, portanto, mais sujeitas às mudanças climáticas. O modelo prevê, por exemplo, que o preço de produção da soja aumente 36% no Mato Grosso e 60% no Mato Grosso do Sul.

Com isso, investimentos destinados à agricultura e trabalhadores da lavoura tendem a migrar para o Distrito Federal e estados do sul e sudeste, onde os setores de indústria e serviços são mais consolidados. Com crédito e salários baixos, os bens produzidos por esses setores devem ficar mais baratos.

O modelo também prevê aumento dos custos de produção de alimentos – que acontece de forma desigual no país. Um exemplo: o cenário de 2020 prevê aumento no custo de produção do arroz em 36% no Maranhão, quarto maior produtor do país. Mas o custo não se altera no maior produtor, o Rio Grande do Sul.

O pesquisador também explica que simulações como esta são boas para prever tendências, mas não para apontar dados exatos. Além disso, é impossível prever com exatidão o comportamento dos agentes da economia – apenas apontar o mais provável.

Concentração de renda

As transformações da agricultura vão contribuir para aumentar o custo de vida dos mais pobres e diminuir o dos mais ricos. O motivo: o preço dos alimentos, que vai sofrer alta, corresponde a uma proporção maior do orçamento dos mais pobres. Já para os mais ricos, a maior parte do dinheiro é direcionada a serviços e bens industriais, cujos preços devem diminuir.

A previsão do modelo é que no nordeste em 2020 , por exemplo, o custo de vida das famílias que ganham entre 3 e 5 salários mínimos aumente 1,19%. O das famílias que ganham de 20 a 30 salários mínimos deve diminuir 0,35%. Já no sudeste, por exemplo, o aumento é de 0,08% para as famílias de menor renda e a queda, de 0,18% para famílias mais ricas.

Já o cenário de 2070 prevê para o nordeste aumento do custo de vida de 1,85% para os mais pobres e queda de 0,18% do custo dos mais ricos.

O pesquisador explica que para se antecipar às mudanças a economia do nordeste deve passar a depender menos da agricultura e mais dos serviços e indústria. “Como são cenários climáticos de longo prazo, os planejadores de políticas públicas podem prepara-se para eles”, acrescenta Moraes.

“As previsões do modelo para o Brasil repetem as transformações em escala global”, diz o economista. “Alguns países industrializados e temperados devem se beneficiar, enquanto países mais pobres de clima quente vão perder.”

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

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A ciência compreendida

Uma safra de livros oferece a uma nova geração de leitores brasileiros temas científicos em linguagem atraente

Fabrício Marques

Faltam nas livrarias brasileiras seções de livros de divulgação científica. Com isso, o leitor tem dificuldade em encontrar as obras

O mercado brasileiro de livros de divulgação científica, aqueles que buscam traduzir temas da ciência para a linguagem dos leigos, ganhou um fôlego inédito no país na última década. O advento de coleções desse gênero lançadas por editoras universitárias e comerciais vem despertando o gosto de leitores para uma safra de obras que vai da astronomia e da biologia à matemática e também privilegia temas emergentes como as mudanças climáticas, as células-tronco e a neurociência. “Das modalidades de divulgação científica, a dos livros é a que permite uma abordagem mais densa e aprofundada”, diz o físico Marcelo Knobel, pró-reitor de Graduação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e responsável pela edição de uma nova coleção de divulgação científica da editora da universidade, chamada Meio de Cultura.

Das seis obras lançadas até agora pela Unicamp, cinco são traduções de originais estrangeiros, mas houve a preocupação de escolher autores fora do eixo anglo-saxão, que é o mais explorado pelas grandes editoras. Um dos livros é Dez teorias que comoveram o mundo, dos argentinos Leonardo Moledo, diretor do Planetário de Buenos Aires, e Esteban Magnani, professor de jornalismo científico. Narra momentos cruciais da produção do conhecimento, do heliocentrismo de Nicolau Copérnico à relatividade de Einstein, mostrando como o gênio dos grandes cientistas apoiou-se num processo de construção coletiva em que a maioria das peças do quebra-cabeça foi reunida, por tentativa e erro, graças a inúmeros pesquisadores que nem sempre entraram para a história. “A divulgação científica é a continuação das ciências por outros meios”, costuma dizer Moledo. Outra obra da coleção, A extinção dos tecnossauros, do italiano Nicola Nosengo, tem ambição semelhante, mas trata das transformações tecnológicas e de seus sucessos e fracassos, explorando a trajetória de engenhos promissores que naufragaram no teste do mercado ou que, depois de se tornarem essenciais na vida das pessoas por muito tempo, mergulharam na obsolescência e viraram peças de museu. “O essencial, nesta coleção, é que sejam livros bem escritos e agradáveis de ler”, diz Marcelo Knobel.

A editora Vieira & Lent, do Rio de Janeiro, foi fundada em 2002 tendo como prato principal a divulgação científica, embora também publique obras nas áreas de educação e ciências humanas. Seu catálogo reúne 70 títulos e o maior sucesso é O cérebro nosso de cada dia, com 30 mil exemplares vendidos – número respeitável para o padrão editorial do país –, escrito por Suzana Herculano-Houzel, neurocientista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O dono da editora, o neurocientista Roberto Lent, venceu recentemente a 30ª edição do Prêmio José Reis de Divulgação Científica, concedido pelo CNPq. Antes de criar a Vieira & Lent, ele já tinha um extenso currículo de contribuições para a popularização da ciência, escreve uma coluna na revista Ciência Hoje, que ajudou a fundar, e é autor de vários livros de divulgação científica para adultos e crianças. “As descobertas da ciência e as novas tecnologias despertam o interesse das pessoas e constituem uma fonte de temas que não esgota nunca”, diz Lent, ressaltando que sua editora, embora bem estabelecida no mercado, não é um empreendimento de grande lucratividade. “Conseguimos nos manter e lançar novos títulos. Talvez seja mais fácil para outras editoras, que trabalham com muitas obras de divulgação traduzidas. Mas para nós, que privilegiamos o autor nacional, é complicado, pois custa bem mais caro”, afirma.

Cotidiano - É certo que o desempenho do mercado brasileiro ainda está a anos-luz dos países desenvolvidos, como Estados Unidos e Reino Unido, onde grandes cientistas como o astrofísico Stephen Hawking, o zoólogo Richard Dawkins e o biólogo Stephen Jay Gould obtiveram sucesso retumbante na carreira de divulgadores, vendendo milhões de livros no mundo inteiro. O mercado brasileiro também é tímido quando comparado ao da vizinha Argentina, onde uma coleção de 32 títulos de divulgação científica chamada Ciên cia que Ladra, dedicada a explorar a ciência escondida no cotidiano, com tiragem de mais de 1 milhão de livros. O carro-chefe são quatro obras sobre matemática, de autoria do jornalista e professor Adrián Paenza, que, juntas, já venderam 500 mil exemplares. “A escola de divulgação científica anglo-saxônica nos ensinou que é possível ler livros sobre temas científicos apaixonadamente, como se fosse uma novela”, disse ao jornal Clarín o biólogo argentino Diego Golombek, professor da Universidade Nacional de Quilmes e organizador da coleção. “O fundamental é surpreender o leitor, ajudando-o a entender um fenômeno da natureza numa leitura prazerosa”, afirma. No Brasil, três títulos da coleção Ciência que Ladra foram lançados pela editora Civilização Brasileira, um dos selos do grupo Record, mas ainda não alcançaram grandes vendagens. Com a experiência de quem se formou na Argentina e radicou-se no Brasil há várias décadas, o neurocientista Iván Izquierdo, pesquisador da PUC do Rio Grande do Sul, define a diferença entre os dois países. “A Argentina tem uma tradição cultural de 200 anos e o Brasil tem a metade disso. Até a língua portuguesa demorou a se firmar como padrão nacional, pois a referência da elite era o francês. A escravidão e o fato de o país ter se tornado uma monarquia têm a ver com isso”, diz Izquierdo, que tem uma experiência de sucesso no mercado de divulgação científica. O livro A arte de esquecer – Cérebro, memória e esquecimento (Vieira & Lent), que narra numa linguagem simples as pesquisas do neurocientista sobre os mecanismos da memória, vai ganhar uma segunda edição atualizada e será lançado em espanhol por uma editora mexicana. “O título do livro instiga os leitores e foi uma boa surpresa a receptividade que teve”, afirma Izquierdo.

Se no Brasil o mercado editorial de divulgação científica só agora está saindo da infância, não é trivial o fato de despontar no país um robusto conjunto de títulos publicados que não existia até o final dos anos 1990. A compreen são de temas científicos estimula o pensamento crítico e é considerada um pré-requisito para a democratização da informação e para semear vocações em carreiras acadêmicas e tecnológicas. “É preciso despertar cada vez mais a curiosidade das crianças e dos jovens para temas científicos se quisermos seguir produzindo ciência”, diz Shoshana Signer, engenheira civil e fundadora da Oficina de Textos, editora de livros acadêmicos que desde 2004 lançou a série Inventando o Futuro, uma coleção de divulgação científica sobre temas de fronteira, como nanotecnologia, energia, radicais livres, DNA e Amazônia. “Apesar do retorno de vendas discreto, vejo como uma missão social da editora enfrentar esse problema. Sem uma percepção dos cidadãos sobre temas científicos, fica difícil enfrentar os gargalos na formação de recursos humanos e os desafios do desenvolvimento”, afirma.

A popularização dos livros de divulgação científica teve início em meados do século XIX, quando começaram a ser editados em países como França, Alemanha e Inglaterra. Muitos cientistas se lembram de algum autor desse gênero que alimentou sua curiosidade na infância e na adolescência, assim como a divulgação científica teve um papel na opção profissional de médicos, engenheiros e técnicos. Einstein, por exemplo, foi um ávido leitor dos livros de Henri Poincaré, filósofo, físico e matemático que escreveu diversos livros nesta área na virada para o século XX. O físico Cylon Gonçalves da Silva, professor emérito da Unicamp e autor do recém-lançado De Sol a Sol, energia no século XXI, da Oficina de Textos, cita a influência de Fritz Kahn (1888-1968), um médico judeu alemão autor de livros sobre astronomia e medicina, em especial sobre o corpo humano. “Eu era um adolescente no interior do Rio Grande do Sul e tinha uma avidez enorme por informação sobre ciência e tecnologia. Era a época do Sputnik e da bomba atômica. E o Fritz Kahn me marcou bastante”, diz Cylon, que, além do livro de sua autoria, coordena os lançamentos da coleção. “Hoje os temas são também fascinantes: há a engenharia genética, as mudanças climáticas, a eletrônica…”. Ao escrever De Sol a Sol, Cylon procurou traduzir os desafios da produção de energia para uma linguagem leiga. “O objetivo é mostrar para a garotada como o tema da energia é crucial e a importância de buscar fontes sustentáveis. O Brasil é um país privilegiado, pois boa parte de sua matriz energética é composta por fontes renováveis. Mas o controle da produção de energia é uma questão fundamental. Sem ele, a sobrevivência da nossa civilização está ameaçada”, afirma. O capítulo inicial do livro, que narra o pesadelo de um mundo sem energia elétrica, é apresentado na forma de uma história em quadrinhos. Mas a coleção não abre concessões ao rigor científico. “Exige-se que o leitor tenha curiosidade sobre o tema e interesse para entendê-lo”, diz Cylon, que nos anos 1980 comandou a implantação do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron e, em 2000, foi um dos organizadores da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada no ano seguinte. Atualmente é coordenador adjunto da FAPESP para programas especiais.

Temas de fronteira – Os livros de divulgação se prestam, ainda, a uma missão mais específica, que é a de esclarecer a opinião pública acerca de temas científicos de fronteira – e a trajetória de uma das obras da coleção da Oficina de Textos é exemplar dessa vocação. Trata-se de O mundo nanométrico: a dimensão do novo século, escrito por Henrique Toma, professor do Instituto de Química da USP, lançado em 2004. “Havia uma efervescência da nanotecnologia no mundo inteiro e pouca gente compreendia a dimensão do tema, que reúne vários campos da ciência ao mesmo tempo”, afirma Toma. A princípio, a obra fez sucesso com outro público. “Circulou mais entre empresários e executivos de empresas interessados em investir em tecnologia. Dei muitas palestras sobre nanotecnologia em empresas e o livro ajudava esse público a entender o que eu estava falando”, afirma Toma, que participou da organização de cinco edições da Nanotech Expo, feira de produtos nanotecnológicos que ocorreu em São Paulo entre 2003 e 2008. Recentemente, ao receber uma comissão de cientistas iranianos na Universidade de São Paulo, Toma compreendeu o papel que o livro cumpriu naquele momento. “Eles me disseram que no Irã o lançamento de qualquer projeto em área de fronteira é sempre acompanhado de uma estratégia de divulgação científica para conquistar a opinião pública. Como são temas novos, a tendência natural é haver rejeição, e é comum que organizações não governamentais consigam vencer a batalha da opinião pública difundindo apenas o potencial pernicioso da ciência, que sempre existe. Foi o que aconteceu com os transgênicos e com as células-tronco, para citar dois exemplos”, afirma.

Cinco anos depois do lançamento, só agora O mundo nanométrico começou a se tornar um sucesso de vendas. Adotado em escolas, ganhou uma versão atualizada, que será lançada também em espanhol por uma editora mexicana. “Fez parte de um processo natural. Demorou um tempo para que o assunto amadurecesse e só agora ele foi compreendido por professores do ensino médio, que passaram a adotá-lo na sala de aula”, explica. A descoberta aconteceu por acaso. Um ex-aluno de Toma, que se tornou professor do Colégio Bandeirantes, de São Paulo, leu o livro e mostrou-o ao coordenador de ciências da escola. “Logo me convidaram para dar palestras para os professores e também para os alunos e o adotaram em sala de aula. Vários colégios seguiram o Bandeirantes. Só no ano passado fui convidado para dar mais de 40 palestras em escolas de ensino médio”, diz Toma, que defende a importância de os pesquisadores lançarem-se à tarefa de escrever para o público leigo. “É lamentável que, na universidade, o trabalho de divulgação científica não tenha nenhum reconhecimento. Se consigo obter 100 citações em um artigo científico, o número de pessoas que leram o livro sobre nanotecnologia é muito maior”, afirma.

Mentalismo – Uma crítica comum de editores e autores é que, apesar dos avanços recentes, faltam nas livrarias brasileiras seções específicas de livros de divulgação científica. Isso faz com que o leitor tenha dificuldade em reconhecer o gênero e encontrar as obras. “A questão é os livreiros darem destaque para os livros, o que não é fácil”, afirma a neurocientista e autora Suzana Herculano-Houzel. Segundo ela, é comum encontrar suas obras na estante de livros sobre ‘mentalismo’. “Até hoje não entendi o que essa palavra significa”, afirma. Outro livro com boa trajetória, A arte de esquecer, de Iván Izquierdo, costuma ser encontrado em prateleiras de autoajuda, conta o editor Roberto Lent. “Persiste o preconceito dos livreiros de que são obras que não vendem, e acabam sobrando como canal de veiculação as livrarias universitárias de centros ligados à ciência”, diz Lent. Para ele, colabora com o problema o fato de haver uma ideologia prevalente que separa a ciência da cultura no Brasil. “É um problema de tradição cultural. É raro ver os suplementos de cultura dos jornais falando de assuntos científicos, a não ser quando resvala na ética ou na filosofia, como no caso do aborto ou das células-tronco. É como se ciência fosse uma coisa e cultura fosse outra, o que não acontece em outros países”, diz ele. Isso, segundo o editor, faz com que obras de educação científica dificilmente sejam contempladas por editais públicos para compra de livros de bibliotecas, uma fonte importante de receita para pequenas editoras.

Mas quais são os ingredientes para fazer o sucesso de um livro de divulgação científica no Brasil? Em boa medida, a receita é a mesma de um livro qualquer. “Tem que ser bem escrito e precisa cativar o leitor. Um bom escritor é um bom escritor, independentemente do gênero”, diz Marcelo Knobel, da Unicamp. “Eu escrevo para o público leigo entender e é incrível como os leitores se sentem gratificados quando conseguem compreender algo que consideravam inacessível”, diz Suzana Herculano-Houzel. Seu livro mais vendido, Fique bem com seu cérebro (Sextante), é uma obra de divulgação científica disfarçada de autoajuda. Ao final de cada capítulo há sempre um parágrafo com dicas práticas relacionadas ao tema em questão, ensinando, por exemplo, a treinar o cérebro e manter a memória. “É gratificante receber mensagens de leitores que aplicaram as recomendações e tiveram algum benefício”, diz.

Certas circunstâncias ajudam, como a avidez dos leitores por determinados temas. O neurocientista Sidarta Ribeiro, chefe de laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal –  Edmond e Lily Safra, em Natal, atribui a isso a receptividade do livro Maconha, cérebro e saúde (Vieira & Lent), que escreveu em parceria com o neurofisiologista Renato Malcher-Lopes. “O interesse pelo assunto é gigantesco e o fracasso da guerra contra as drogas colocou o tema na ordem do dia”, diz Sidarta. Tópicos relacionados à neurociência, de maneira geral, têm boas vendagens. A astronomia também: o astrofísico Marcelo Gleiser é, hoje, o maior best-seller nacional, com livros que tratam de física e astronomia por meio de uma narrativa repleta de metáforas. O renome do autor, evidentemente, pesa bastante. Uma breve história do tempo, do astrofísico Stephen Hawking, foi um gigantesco sucesso editorial. “Como se trata de um livro de compreensão difícil e que teve uma tradução muito ruim, a única explicação para o sucesso é a história de vida do autor, um pesquisador excepcional vítima de uma doença degenerativa”, diz Roberto Lent.

Matemática - As grandes editoras comerciais começaram a investir no filão há relativamente pouco tempo. A editora Zahar tem três títulos de temas científicos entre os seus 10 livros mais vendidos atualmente: O andar do bêbado, de Leonard Mlodinow, breve história da probabilidade e da estatística; Almanaque das curiosidades matemáticas, de Ian Stewart; e Do big bang ao universo eterno, de Mário Novello. O grupo editorial Record, um dos maiores do país, descobriu os livros de divulgação científica no final dos anos 1990, quando O último teorema de Fermat, de Simon Singh, sobre um grande enigma da matemática, tornou-se um sucesso: até hoje foram 62 mil exemplares vendidos. Agora a editora dispõe de algumas dezenas de títulos em campos como a matemática, a física e a biologia, que respondem por 1% do catálogo. “Das grandes editoras, fomos a primeira a reconhecer esse mercado”, afirma Luciana Villas-Boas, diretora editorial da Record. Segundo ela, os títulos de mais sucesso são os que tratam das dimensões humanas das grandes questões científicas, caso, por exemplo, de Rivalidades produtivas, de Michael White, biógrafo de Darwin e Newton, que disseca oito disputas da história da ciência, como as que opuseram Antoine Lavoisier e Joseph Priestley, Thomas Edison e Nikola Tesla, e Isaac Newton e Gottfried Leibniz. Outro best-seller é Criação imperfeita, do físico Marcelo Gleiser, que vendeu 25 mil exemplares. “Não temos certeza de quem é esse  público, mas parece ser composto por estudantes e profissionais liberais interessados em temas científicos e em boa leitura.” Para Luciana, trata-se de um nicho que reúne todos os elementos para crescer. “Vamos apostar fortemente em bons títulos desse gênero”, afirma.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Pré-adolescentes são principais alvos de violência doméstica

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Felipe Maeda Camargo

A violência doméstica praticada contra crianças e adolescentes na região metropolitana de Fortaleza (CE) predomina na faixa etária de 10 a 14 anos. Helena Carvalho, médica legista responsável por uma pesquisa sobre o tema, aponta que os pré-adolescentes representam 39,1% dos casos estudados.

Das 343 casos estudados, a maioria (39,1%) das vítimas era pré-adolescente

Segundo Hellena, esse dado contradiz alguns estudos na área: “As pesquisas apontam que normalmente a violência doméstica acontece com a faixa etária de zero a 9 anos, na infância, em função da própria condição de defesa da criança e da maior dependência de seus cuidadores.”

O motivo da predominância da violência na faixa etária de 10 a 14 anos não foi estudado, mas Hellena acredita que as características do próprio contexto da região do Nordeste pode ter influenciado. Porém, isso é somente uma hipótese.

O estudo da médica faz parte de sua tese de doutorado defendida pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, sob orientação da professora Maria Helena Prado de Mello Jorge. Nele, Hellena analisou 343 casos de violência doméstica registrados no Instituto Médico Legal (IML) de Fortaleza, no segundo semestre de 2008. Os casos são de crianças e adolescentes vítimas de atos violentos cometidos por seus próprios pais ou responsáveis, como uso de força física, abuso sexual e negligência.

O que lhe chamou a atenção foi a declaração de alguns pais (cerca de 40%) que justificavam porquê batiam nos filhos. “Eles acreditam que bater educa os filhos. Argumentavam que também apanharam de seus pais e diziam: ‘Eu sei que isso vai dar vergonha na cara deles’ ”, comenta.

Outro ponto que Hellena destaca é a falta de profissionais da área de saúde e de educação que denunciam esse tipo de violência. Dos casos analisados, nenhum foi notificado por profissional de saúde e somente 1,7% por profissionais de educação. A médica lembra que, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), esses profissionais são obrigados a fazer notificação ao Conselho Tutelar, mesmo dos casos suspeitos, com a finalidade de desencadear uma investigação.

“Acredito que esses profissionais da área de saúde não têm a formação adequada a respeito da violência doméstica como problema de saúde pública. Na educação, os professores não estão devidamente capacitados, além daqueles que acham que não devem se meter ou têm medo de retaliações”, afirma Hellena. “É um problema complexo que não dá para explicar com um único motivo.”

Na pesquisa, o principal notificante foi a mãe do filho/a, em 48,4% dos casos. Em somente 4% dos casos, a vítima foi o principal notificante.

Caracterização

Para complementar as informações sobre a vítima, sua família, o agressor e as circunstâncias em que ocorreu a violência, foi utilizado um formulário específico da pesquisa, aplicado ao responsável, acompanhante e vítima, quando as condições assim o permitiram.

Foram constatados 172 casos de violência física, 167 de violência sexual e 4 de violência múltipla, que envolve mais de um tipo de violência, sendo três casos de violência física e sexual e um caso de violência física e negligência. As vítimas de violência física se distribuíram equitativamente entre os sexos (masculino 45%; feminino 55%), enquanto nos casos de violência sexual, observou-se que o sexo feminino corresponde a 82% das vítimas. Nesta situação, o principal agressor foi o padrasto (32,3%), em seguida vem o pai (30%).

Hellena aponta um dado que vai contra o esperado: quase 50% dos casos de violência doméstica contra crianças e adolescentes ocorreram em famílias nucleares, ou seja, aquelas formadas por pai, mãe e filho(s) que convivem na mesma casa. Segundo a médica, os estudos, em geral, apontam que as famílias não nucleares estão mais sujeitas a terem vítimas de violência doméstica.

Independente da característica dos casos, segundo a médica, os estudos estão demonstrando que a violência vai contra a saúde física e mental das pessoas. “A vítima, ao chegar na fase adulta, tem mais chances de apresentar problemas de saúde como depressão, esquizofrenia e hipertensão.”

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

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Em repressão ao uso de energia, China fecha 2 mil fábricas

Keith Bradsher

Há alguns meses, o primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, prometeu usar “mão de ferro” para melhorar a eficiência do país em energia, e um crescente número de empresas agora está descobrindo qual é essa sensação.

O governo chinês tenta fechar fábricas, em busca de uma mudança no uso da energia

O governo chinês tenta fechar fábricas, em busca de uma mudança no uso da energia

O Ministério da Indústria e Tecnologia de Informação publicou discretamente na noite de domingo uma lista de 2.087 siderúrgicas, usinas de cimento e outras fábricas de uso intensivo de energia que seriam fechadas até 30 de setembro.

Analistas de energia o descreveram como um passo significativo para as metas de eficiência em energia do país, mas não o suficiente por si só para atingi-las.

Ao longo dos anos, as autoridades provinciais e municipais às vezes bloqueavam as tentativas de Pequim de fechar fábricas antigas em suas jurisdições. Essas autoridades buscavam em particular proteger as siderúrgicas mais antigas e outras operações de indústria pesada que frequentemente empregavam milhares de funcionários e às vezes forneciam moradia, instalações esportivas e outros benefícios para os trabalhadores desde os anos 50 e 60.

Desta vez, para impedir essa obstrução local, o ministério disse em uma declaração em seu site que as fábricas em sua lista seriam impedidas de obter empréstimos bancários, crédito para exportação, licenças de funcionamento e terras. O ministério até mesmo alertou que o fornecimento de eletricidade seria cortado se necessário.

A meta do fechamento das fábricas é “melhorar a estrutura de produção, elevar o padrão de capacidade técnica e competitividade internacional e promover uma transformação na indústria, de grande para forte”, disse o ministério.

O anúncio foi o mais recente em uma série de medidas chinesas para aumentar a eficiência em energia. A Comissão Nacional para Desenvolvimento e Reforma, que é a agência mais poderosa de planejamento econômico do governo, anunciou na última sexta-feira que tinha forçado 22 províncias a suspender sua prática de fornecer eletricidade com desconto para indústria intensivas em energia, como a produção de alumínio.

O atual plano chinês de cinco anos pede pelo uso de 20% menos energia neste ano para cada unidade de produto econômico do que em 2005. Mas o aumento da produção na indústria pesada desde o final do ano passado colocou em dúvida a capacidade da China de cumprir sua meta.

O sucesso ou fracasso da campanha de eficiência em energia da China está sendo observado de perto não apenas por economistas, que citam a campanha como um motivo para o crescimento da China ter desacelerado um pouco nos últimos meses, mas também pelos cientistas climáticos.

O consumo de energia na China aumentou tanto desde o final do ano passado a ponto de ser responsável pelo maior aumento de emissão de gases do efeito estufa por um único país. As usinas elétricas queimaram mais carvão para gerar eletricidade suficiente para atender a demanda.

À medida que a China se torna cada vez mais dependente de petróleo e carvão importado, seu establishment de segurança nacional se tornou visivelmente mais envolvido na política de energia e na segurança de energia, incluindo esforços para melhorar a eficiência em energia.

A eficiência melhorou 14,4% nos primeiros quatro anos do plano atual, apenas para deteriorar em 3,6% no primeiro trimestre deste ano, segundo as estatísticas oficiais. Wen respondeu convocando uma reunião especial do Gabinete em maio, para tratar da situação.

A eficiência em energia foi apenas 0,09% pior na primeira metade deste ano em comparação ao mesmo período em 2009, segundo estatísticas divulgadas na semana passada. Analistas de energia disseram que essas estatísticas indicam melhoria da eficiência no segundo trimestre, que quase compensa a deterioração no primeiro trimestre, apesar do governo não ter divulgado números separados para o segundo trimestre.

Zhou Xizhou, um diretor associado da IHS Cambridge Energy Research Associates, em Pequim, disse que a nova lista de fechamento de fábricas pelo ministério foi uma medida forte para melhorar a eficiência. Mas ele acrescentou que a meta da China de obter uma melhoria de 20% até o final deste ano, em comparação a 2005, “ainda é uma tarefa difícil para o restante do ano”.

O ministério disse em sua declaração que as fábricas que seriam fechadas incluiriam 762 de produção de cimento, 279 de produção de papel, 175 de produção de aço e 84 de processamento de couro.

As fábricas foram escolhidas após discussões com autoridades provinciais e municipais para identificação de operações industriais com tecnologia datada, ineficiente, disse o ministério.

O ministério não forneceu números para o percentual de capacidade que seria fechada em cada setor industrial. O ministério também não disse quantos funcionários seriam afetados.

O fechamento de fábricas é mais palatável agora do que no passado, porque a escassez de mão-de-obra em muitas cidades facilita para os trabalhadores, particularmente os mais jovens, encontrarem outros empregos.

A lista de siderúrgicas que serão fechadas parece enfatizar usinas menores, mais velhas, que produzem aço de menor qualidade. Edward Meng, o diretor chefe financeiro da China Gerui Advanced Materials, uma empresa siderúrgica na província de Henan, na região central da China, disse que o fechamento dessas usinas é consistente com as metas maiores do governo de consolidar o setor de aço e pressionar as empresas a produzirem tipos de aço mais sofisticados.

A Agência Internacional de Energia, em Paris, anunciou no mês passado que a China ultrapassou os Estados Unidos no ano passado como maior consumidora de energia do mundo.

A China ultrapassou os Estados Unidos como maior emissora de gases do efeito estufa em 2006. Esse marco foi superado primeiro por causa da alta dependência de carvão pela China, um combustível fóssil especialmente sujo em termos de emissão de gases que contribuem para a mudança climática global.

Além do objetivo de eficiência em energia no atual plano de cinco anos, um plano anunciado pelo presidente Hu Jiabao, no final do ano passado, pede para a China reduzir suas emissões de carbono por unidade de produto econômico em 40% a 45% até 2020, em comparação aos níveis de 2005. As emissões de carbono são uma medição das emissões causadas pelo homem de gases do efeito estufa, como o dióxido de carbono, por um país.

Mesmo se a China cumprir sua meta de eficiência em energia neste ano e sua meta de carbono até 2020, seu total de emissões de carbono ainda apresenta uma tendência de subir acentuadamente na próxima década, segundo previsões da Agência Internacional de Energia. Isso se deve a fatores como o rápido crescimento da economia chinesa, crescente propriedade de carros e aumento da propriedade de eletrodomésticos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

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O declínio populacional da Europa é inevitável?

Martine Laronche

A imigração compensa a baixa natalidade? Dizem que o Velho Continente está em declínio populacional. A constatação é um pouco simplista. Em 1º de janeiro de 2010, a população da União Europeia (UE) ultrapassou a barreira simbólica dos 500 milhões de habitantes; 501,1 milhões, mais precisamente. Comparado aos 499,7 milhões registrados em 2009, esse número marca um aumento de 2,7 habitantes por mil, segundo os dados comunicados, na terça-feira (27 de julho), pelo Eurostat, o serviço de informação estatística da UE.

A imigração, principal contribuidora

Esse ganho populacional, certamente pequeno, mascara uma realidade extremamente desigual nos 27 países da UE, com perdedores e ganhadores. A população aumentou em 19 Estados-membros (entre os quais Reino Unido, Espanha, Itália, França, Suécia, Dinamarca, Eslovênia, Bélgica…) e caiu em oito países, como Lituânia, Letônia, Bulgária e Alemanha.

A imigração é a principal contribuidora desse ganho de 1,4 milhão de habitantes, com um saldo positivo de 0,9 milhão de imigrantes, ou seja, 60% do aumento da população europeia. O “crescimento natural”, que corresponde à diferença entre o número de nascimentos e o número de mortes, só representa 0,5 milhão de recém-nascidos, ou seja, 40% do total.

Em 50 anos, a relação entre a contribuição dos nascimentos e a imigração se inverteu. “Em 1960, o conjunto dos 27 países que hoje constituem a UE mostrava quase 8 milhões de nascimentos e pouco mais de 4 milhões de mortes”, lembra Gilles Pison, diretor de pesquisas do Instituto Nacional de Estudos Demográficos (INED). “As migrações se efetuavam entre países europeus e, de forma geral, o saldo migratório era quase nulo.” Agora se tem somente 5,4 milhões de crianças nascidas na mesma zona, para 4,8 milhões de mortes registradas.

Os países que mostram as mais altas taxas de fecundidade são a Irlanda (10 para 1000), Chipre (5,5), França (4,3), Reino Unido (3,7) ou ainda, em uma menor escala, a Suécia e a Finlândia. No outro extremo, há um saldo natural negativo em dez países, e as maiores quedas são observadas na Bulgária e na Letônia (-3,6), na Hungria (-3,4) e na Alemanha (-2,3). “Existe um verdadeiro contraste entre os países do Sul e do Leste, pouco fecundos, e os do Norte e do Oeste”, comenta Gilles Pison. Nos países mediterrâneos, a fecundidade caiu muito rápido (Espanha, Itália, Grécia). As jovens que estudam por muito tempo e pretendem trabalhar adiam a idade em que elas têm o primeiro filho, por não terem com quem deixá-los.

Na Alemanha, onde uma política de auxílio às famílias foi implantada recentemente, ainda é culturalmente mal visto deixar seu filho sob cuidados de outra pessoa. Por fim, na maior parte dos países do Leste, a fecundidade caiu em razão das incertezas econômicas e políticas relacionadas à queda do muro de Berlim.

Mais mortes do que nascimentos a partir de 2015

De forma geral, com uma taxa de fecundidade de 1,6 criança por mulher em média, em 2008, a população da UE só pôde se manter graças à imigração, somada ao aumento da expectativa de vida. Na escala da União, o número anual de mortes ultrapassará o dos nascimentos a partir de 2015, segundo as projeções elaboradas pelo Eurostat, em 2008. Esse saldo negativo deverá se manter bastante limitado até 2020, para se acelerar nessa data, com a morte das crianças do baby-boom.

Isso pode levar a um desequilíbrio entre ativos e inativos. “Por causa da aposentadoria da geração do baby-boom, a população que não está em idade de trabalhar aumentará de maneira significativa na próxima década”, prevê a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (“Tendências recentes de migrações internacionais”, OCDE, 2010). “Segundo as projeções sobre os níveis migratórios atuais, em vários países o índice de crescimento dessa população provavelmente será superior ao da população em idade ativa”.

A crise desacelera a chegada de imigrantes

Para responder a esse desafio demográfico e econômico, os especialistas da OCDE defendem aumentar a taxa de emprego das pessoas em idade de trabalhar e, em uma menor medida, aumentar os efetivos dos imigrantes internacionais “contanto que eles sejam trabalhadores, e não inativos”. Mas nos dois últimos anos, a crise desacelerou seriamente a chegada de imigrantes à Europa. “Temos nos focado na imigração, mas em 2010 ela caiu pela metade em relação a 2007”, observa Cristina Arhigo, porta-voz para o Emprego e Questões Sociais na Comissão Europeia. “Se não há trabalho, as pessoas vêm menos”.

Entretanto, há situações contrastantes. Em 2009, os saldos migratórios mais elevados foram registrados em Luxemburgo, na Suécia, na Eslovênia, na Itália e na Bélgica, enquanto a Irlanda registrava o saldo mais negativo (-9). Na Itália, as cotas de trabalhadores não sazonais foram reduzidas a zero, em 2009. Segundo a OCDE, a Espanha, a Irlanda, a Itália e a República Tcheca são os países onde o recuo do fluxo de imigração com vocação permanente (em oposição à temporária) foi mais acentuado (-25%, ou até mais), entre 2007 e 2008, enquanto na Dinamarca ultrapassava os 40%.

Os primeiros países atingidos pela crise registraram fortes diminuições da migração induzida pela demanda. Na Espanha, as demandas dos empregadores passaram de 200 mil, em 2007, para menos de 16 mil, em 2009. Na Irlanda, após vários anos em que o número de retornos de irlandeses expatriados ultrapassava o número de partidas de cidadãos desse país, a emigração aumentou 37%, entre abril de 2008 e abril de 2009.

Na Europa, a queda observada do fluxo de entradas diz respeito principalmente aos migrantes de trabalho vindos dentro de um regime de livre circulação ou da migração de trabalho discricionária. A migração de caráter familiar não diminuiu em 2008, com exceção da França, pelo endurecimento dos critérios.

O viveiro turco

Como fazer para conter o declínio populacional e suas consequências em termos de política social, cujas principais são o equilíbrio dos regimes de aposentadoria e as necessidades em mão de obra? “À medida que a retomada econômica avançar, recorrer aos migrantes internacionais como solução possível para os problemas gerados pelo envelhecimento da população voltará a ser uma prioridade da ação pública”, diz a OCDE. “Somente com as futuras ampliações é que a União Europeia poderá aumentar substancialmente sua população”, analisa Gilles Pison. “A Turquia, supondo que ela entre na UE, levaria a um rejuvenescimento temporário, mas ela não modificará profundamente a trajetória de declínio populacional.”

Com seus cerca de 75 milhões de habitantes, uma população jovem e a perspectiva de ter quase 90 milhões de habitantes em 2025, ela constitui um viveiro considerável, mas com uma taxa de fecundidade de 2,1 crianças por mulher, ela também está fadada a envelhecer.

Tradução: Lana Lim

Fonte : Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

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A erosão da classe média americana

Thomas Schulz

Ventura é uma pequena cidade na costa do Pacífico, a cerca de uma hora de carro ao norte de Los Angeles. Casas de luxo com vista para o oceano pontilham as encostas e as praias são populares entre os surfistas. Ventura é a Califórnia da imaginação das pessoas. “É um lugar abastado”, diz o capitão William Finley. “Mas cerca de 20% da cidade corre o risco de virar sem-teto.” Finley comanda uma divisão local do Exército da Salvação.

Enquanto os americanos super-ricos se parabenizam por doarem bilhões para caridade, o restante do país está pior do que nunca. O desemprego a longo prazo está aumentando e milhões de americanos estão lutando para sobreviver. A desigualdade entre ricos e pobres está maior do que nunca e a classe média está desaparecendo.

Em meados do ano passado, Ventura lançou um programa piloto, administrado por Finley, que permite que pessoas durmam em seus carros dentro dos limites da cidade. Isso normalmente é ilegal, tanto em Ventura quanto no restante do país, onde moradores e autoridades locais temem ver vans em estado precário, cheias de trabalhadores migrantes mexicanos, estacionadas em ruas residenciais.

Mas no início do ano passado, as pessoas em Ventura perceberam que os carros estacionados em frente de suas casas à noite não eram veículos velhos, mas peruas e utilitários esportivos bem cuidados. E as pessoas que dormiam nelas não eram trabalhadores rurais ou moradores de rua comuns, mas seus antigos vizinhos.

Finley também notou uma mudança. De repente, o dobro de pessoas estava fazendo uso do programa de refeições gratuitas de sua organização de serviços sociais, e algumas até mesmo chegavam dirigindo BMWs – aparentemente relutantes em abrir mão de seus carros caros, que os recordavam de dias melhores.

O capitão os chama de “os novos pobres”. “Esta é uma categoria diferente de pessoas que estamos vendo”, ele diz. “São pessoas que nunca imaginaram que algum dia seria sem-teto.” Eram pessoas que tinham dinheiro suficiente – em alguns casos muito dinheiro– até recentemente.

“A imagem do que é uma pessoa pobre atualmente é diferente. Quando eu cresci pobre, e éramos bem pobres, nós andávamos em um carro com 10 anos de idade e com alguns amassados. Era o único carro da família e vivíamos de alimentos distribuídos por caridades”, diz Finley. “No passado, você se esforçava para sair da pobreza e então melhorava de vida.”

O modo de vida americano caminha na direção oposta

Era o modo de vida americano, um caminho trilhado por milhões. “Hoje, a imagem é a de carros último modelo, que a certa altura custaram 40 mil, 50 mil (dólares), mas essas pessoas agora não sabem mais o que fazer, e estão vivendo de comida doada por organizações de caridade. E para muitas delas, é preciso um esforço imenso para engolir o orgulho”, diz Finley.

Hoje, o modo de vida americano caminha na direção oposta: para baixo.

Por algum tempo, os Estados Unidos pareciam ter saído relativamente ilesos da pior crise econômica em décadas – com vigor e energia renovados– como fizeram após crises do passado.

O governo estava anunciando novos números de crescimento econômico já no início do último trimestre do ano passado, muito mais cedo do que o esperado. Os bancos, moribundos até recentemente, voltaram a ganhar bilhões. Empresas de todo o país estão anunciando forte crescimento e o mercado de ações quase retornou aos níveis pré-crise. Até mesmo o número de bilionários cresceu, em bons 17%, em 2009.

Há duas semanas, o fundador da Microsoft, Bill Gates, e 40 outros bilionários prometeram doar pelo menos metade de suas fortunas para filantropia, seja ainda em vida ou após a morte. Os Estados Unidos são um país tão abençoado com riqueza que pode arcar em doar bilhões, assim fácil?

Crescente ressentimento

A ação de Gates poderia também ser interpretada como uma campanha de relações públicas, em um país onde os super-ricos sentem que apesar de estarem lucrando com a crise, como seria de se esperar, o número de pessoas afetadas de forma adversa por ela cresceu enormemente. Eles também sentem que há um crescente ressentimento na sociedade americana contra aqueles no topo.

Para as pessoas nas faixas de renda mais baixas, a recuperação já parece estar falhando. Os especialistas temem que a economia americana possa permanecer fraca por ainda muitos anos. E apesar dos muitos programas assistenciais do governo, a pequena dose de esperança que proporcionam ainda precisa ser sentida pelo público em geral. Na verdade, para muitas pessoas as coisas ainda continuam piorando dramaticamente.

Segundo uma recente pesquisa de opinião, 70% dos americanos acreditam que a recessão ainda continua plenamente. E desta vez não são apenas os pobres que foram atingidos de forma especialmente dura, como geralmente são durante recessões.

Desta vez a recessão também está afetando pessoas com alta escolaridade e que ganhavam bem até recentemente. Essas pessoas, que se consideram solidamente como sendo de classe média, agora se sentem mais ameaçadas do que nunca na história do país. Quatro entre 10 americanos que se consideram como parte da classe média acreditam que não conseguirão manter seu status social.

O desemprego persiste

Em uma recente história de capa intitulada “Adeus, Classe Média”, o “New York Post” apresentou aos seus leitores “25 estatísticas que provam que a classe média está sendo sistematicamente erradicada da existência na América”. Na semana passada, a importante colunista online Arianna Huffington emitiu um alerta quase apocalíptico de que “a América corre o risco de se transformar em um país de Terceiro Mundo”.

De fato, os Estados Unidos, após as crises imobiliária, financeira, econômica e agora da dívida, que ainda não foram superadas, corre o risco de uma Era Glacial social mais severa do que qualquer coisa que o país viu desde a Grande Depressão.

Mais de um ano após o fim oficial da recessão, a taxa de desemprego geral permanece consistentemente acima de 9,5%. Mas esse é apenas o número oficial. Quando corrigido para incluir as pessoas que já desistiram de procurar emprego ou mal sobrevivem com as poucas centenas de dólares que ganham em empregos de meio expediente e estão usando suas economias, a taxa real de desemprego sobe para mais de 17%.

Em seu relatório anual atual, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos nota que a “insegurança alimentar” está aumentando, e que 50 milhões de americanos não tiveram condições de comprar comida suficiente para permanecerem com saúde em algum momento do ano passado. Um entre cada oito adultos americanos e uma entre quatro crianças atualmente sobrevive de cupons de alimento do governo. São números inacreditáveis para o país mais rico do mundo.

Ainda mais perturbador é o fato dos Estados Unidos, que sempre foram caracterizados por sua crença inabalável no Sonho Americano e em sua convicção de que qualquer um, mesmo aquele na mais baixa das condições, pode ascender ao topo, estarem começando a perder seu famoso otimismo. Segundo dados recentes, uma minoria significativa de cidadãos americanos atualmente acredita que seus filhos estarão em situação pior do que eles.

Muitos americanos estão começando a perceber que para eles, o Sonho Americano ultimamente mais parece um pesadelo. Eles enfrentam a realidade amarga de cada vez menos empregos, décadas de salários estagnados e aumentos dramáticos na desigualdade. Apenas nos últimos meses – à medida que a economia crescia, mas sem o retorno dos empregos, à medida que os lucros voltavam, mas os números de pobreza aumentavam semanalmente– o país parece ter reconhecido que está lutando com uma crise estrutural profunda, que se desenvolveu por anos. Como escreve o “Washington Post”, a crise financeira foi apenas o último passo – para pior.

Para onde foi todo o dinheiro?

O boom em ações e imóveis, o endividamento louco do país e seu consumo excessivo por muito tempo mascararam o fato de que a grande maioria dos americanos não se beneficiou quase nada com os 30 anos de crescimento econômico. Em 1978, a renda per capita média para os homens nos Estados Unidos era de US$ 45.879. O mesmo número para 2007, corrigido pela inflação, era de US$ 45.113.

Para onde foi todo o dinheiro? Todos os enormes ganhos de mercado e lucros corporativos, os lucros com o boom dos mercados financeiros e o aumento de 110% no produto interno bruto nos últimos 30 anos? Eles foram para aqueles que sempre tiveram mais do que o suficiente.

Enquanto 90% dos americanos viram ganhos apenas modestos em suas rendas desde 1973, as rendas quase triplicaram para as pessoas no topo da pirâmide. Em 1979, um terço dos lucros produzidos pelo país foi para o 1% mais rico da sociedade americana. Hoje são quase 60%. Em 1950, um presidente-executivo corporativo ganhava 30 vezes mais que um trabalhador comum. Hoje ele ganha 300 vezes mais. E hoje, 1% dos americanos é dono de 37% do total da riqueza nacional.

A desigualdade de renda nos Estados Unidos é muito maior hoje do que desde os anos 20, exceto que até agora quase ninguém se importava.

Pouca chance do sonho americano

Nos Estados Unidos, o livre mercado é rei e as pessoas de baixa renda têm apenas a si mesmas para culpar. Aqueles que ganham muito dinheiro são aplaudidos – e copiados. O único problema é que os americanos há muito ignoram o fato de que o Sonho Americano estava se tornando uma realidade para cada vez menos pessoas.

Estatisticamente, os americanos mais pobres têm uma chance de 4% de ingressarem na classe média alta – um número menor do que em quase metade dos países industrializados.

Até o momento, os políticos fracassaram em apresentar soluções para a crescente crise social. Washington ainda está aguardando por empregos que não estão aparecendo. O presidente Barack Obama e seu governo parecem estar depositando suas esperanças na noção de que os americanos no final se reerguerão por meio de iniciativa própria – preferivelmente fazendo o mesmo que sempre fizeram: consumindo. O consumo doméstico é responsável por dois terços do produto econômico americano.

Mas apesar do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, continuar injetando dinheiro no mercado, e apesar do déficit do governo já ter atingido o nível vertiginoso de US$ 1,4 trilhão, esses esforços permanecem malsucedidos.

“As luzes estão apagando por toda a América”, escreveu na semana passada o ganhador do Nobel de economia, Paul Krugman, descrevendo comunidades que nem mais conseguem arcar com a despesa de manter suas ruas.

O problema é que muitos americanos não podem mais gastar dinheiro em produtos de consumo, porque eles não têm economias. Em alguns casos, suas casas perderam metade de seu valor. Eles não mais se qualificam a empréstimos a juros baixos. Eles estão ganhando menos do que antes ou estão desempregados. Isto, por sua vez, reduz ou elimina sua capacidade de pagar impostos.

Apagando as luzes

Como resultado, muitos governos estaduais e prefeituras estão com enormes déficits orçamentários. No Havaí, por exemplo, as escolas estão fechando em algumas sextas-feiras para economizar dinheiro do Estado. Um condado na Geórgia eliminou todos os serviços públicos de ônibus. Colorado Springs, uma cidade de 380 mil habitantes, desligou um terço de seus postes de iluminação para economizar eletricidade.

Há muitas discrepâncias nos Estados Unidos após a crise financeira. De um lado, o Fed está imprimindo dinheiro constantemente e o governo gastou US$ 182 bilhões para resgatar uma só empresa, a seguradora AIG. Por outro, as luzes estão de fato apagando em algumas áreas, porque Washington, citando a necessidade de reduzir gastos, não está disposto a fornecer ajuda financeira aos governos locais. “A América está atualmente na estrada não pavimentada, sem luz, para lugar nenhum”, alerta o economista Krugman.

Chanelle Sabedra já está nessa estrada. Ela e seu marido dormiram em seu carro por três semanas. “Nós nunca imaginávamos que isso aconteceria, nunca”, diz Sabedra. Ela começa a chorar. “Eu sou uma adulta, eu posso cuidar de mim mesma de uma forma ou de outra, e meu marido também, mas meus filhos são pequenos demais para passar por essas coisas.” Sem condições de continuar pagando o aluguel, os Sabedra foram despejados de sua casa em agosto.

Amigos e parentes tinham poucos recursos para ajudá-los. Agora eles vivem em um quarto no abrigo de moradores de rua do Exército da Salvação, no centro de Ventura, que é dirigido pelo capitão Finley.

A queda repentina para moradores de rua é uma realidade difícil de entender, dada as imagens dos Estados Unidos que estamos acostumados a ver nas séries de televisão e filmes. Elas sempre descrevem lares com jardins bem cuidados e dois carros na garagem, com cestas de basquete penduradas sobre a entrada. Essa América ainda existe, mas está encolhendo. E frequentemente aqueles que estão conseguindo manter a ilusão viva têm dificuldade para fazê-lo.

Os americanos estão lutando com um aumento do custo de vida nos últimos 20 anos. No início da década, as famílias já estavam pagando o dobro pelos planos de saúde e hipotecas do que a geração anterior.

“Para lidar, milhões de famílias colocaram os dois pais na força de trabalho”, diz a professora de Harvard, Elizabeth Warren, que foi nomeada pelo presidente Obama para presidir o painel do Congresso para supervisão do programa do governo de resgate aos bancos. Segundo Warren, a família média gastou toda sua renda e gastou todas suas economias “apenas para se manter mais um pouco à tona”.

Dívida crescente

Por carecerem de economias, os americanos começaram a tomar empréstimos para cobrir todas as suas outras despesas, incluindo educação, saúde e consumo. A dívida do consumidor americano atualmente totaliza cerca de US$ 13,5 trilhões.

Muitas pessoas correm o risco de sufocar sob o peso de sua dívida. Aproximadamente 61% dos americanos não têm reservas financeiras e estão vivendo de contracheque a contracheque. Basta uma única conta hospitalar para levar à ruína financeira.

O marido de Chanelle Sabedra encontrou outro emprego, desta vez como funcionário de depósito de uma empresa que produz turbinas para aviões. Mas ele não ganha o suficiente para tirar sua família do abrigo de moradores de rua. “Eu ainda não consegui um novo emprego”, diz Sabedra. O emprego de seu marido não paga o suficiente e o casal agora ingressou nas fileiras de trabalhadores pobres, para quem até dois empregos mal remunerados são insuficientes para alimentar suas famílias. “Nós precisamos de uma segunda renda”, diz Sabedra. “Só a creche do bebê custa US$ 600 por mês por meio dia.”

Nos Estados Unidos pré-recessão, ela e seu marido tinham dois empregos cada para arcar com as despesas. Eles trabalhavam como caixas no Wal-Mart durante o dia e fritavam hambúrgueres no McDonalds ao anoitecer, além de que às vezes passavam metade da noite trabalhando como vigias noturnos ou realizando a limpeza de prédios. Todos eram empregos mal remunerados, longe de serem carreiras, mas a renda somada bastava para manter a família à tona. Nos Estados Unidos pré-recessão, a vida não era luxuosa para Chanelle Sabedra, mas dava para levar se eles estivessem dispostos a trabalhar arduamente e sacrificar o suficiente para permanecer à tona.

Que tipo de emprego ela está procurando agora? “Por qualquer coisa. Em geral estou procurando no varejo, qualquer coisa para começar, mas no momento não há nada”, diz Sabedra.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

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Eleições estaduais: tudo pela governabilidade

Rivais nacionais se aliam em plano estadual; e PT e PSDB abrem mão de cabeças de chapa

Renato Godoy de Toledo

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Em 1986, a alta popularidade do recém-lançado Plano Cruzado promoveu a maior vitória eleitoral que um partido já apresentou em termos de governos estaduais. À época, o PMDB levou quase todos os Estados brasileiros. O então PFL venceu apenas em Sergipe e o PDS faturou o Distrito Federal.

Hoje, o governo apresenta uma popularidade comparável à do Plano Cruzado na época do pleito de 1986, no entanto, não há indícios de que aquela transferência de votos seja reeditada. A peculiaridade deste próximo processo eleitoral é o fato de os partidos que encabeçam as candidaturas favoritas, PT e PSDB, não terão tanto peso nas disputas estaduais quanto nos anos anteriores.

Para consolidar alianças em nível nacional, o PT optou por ceder a cabeça de chapa para aliados, como PSB e PMDB. Os partidos que compuseram a extinta Frente de Esquerda – que apoiou Heloísa Helena à presidência da República em 2006 – são os que possuem o maior número de candidaturas. Justamente por não terem reeditado a aliança, Psol, PSTU e PCB lideram a lista de postulantes aos governos estaduais.

Despolitização

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6716

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Uma em cada 7 brasileiras entre 18 e 39 anos já fez aborto, diz pesquisa

O Globo

Pesquisa nacional inédita do Ministério da Saúde revela que 5 milhões de brasileiras de até 39 anos, uma em cada sete, já fez pelo menos um aborto. A proporção é ainda maior quando analisada a faixa etária de 35 a 39 anos: uma em cada cinco.

O estudo, financiado pelo ministério e realizado pelo instituto Ibope, ouviu 2.002 mulheres entre 18 e 39 anos, de todas as capitais brasileiras e mais os municípios acima de 5 mil habitantes. Não foram incluídas as que vivem na zona rural e as analfabetas.

De acordo com os números apresentados, 48% das mulheres que abortaram usaram algum medicamento. Esse procedimento levou 55% delas a ficarem internadas.

A maior frequência da prática foi registrada entre as mulheres com baixo nível de escolaridade, sendo 23% delas com até o quarto ano do ensino fundamental e 12% entre aqueles que concluíram o ensino médio.

De acordo com a antropóloga da Universidade de Brasília, Debora Diniz, a maioria das mulheres é casada, religiosa e já com filhos, quase todas com baixa escolaridade.

- Elas já têm experiência da maternidade e tanta convicção de que não podem ter outro filho no momento que, mesmo correndo o risco de serem presas, interrompem a gestação, diz a principal autora do estudo.

Para o assessor especial do ministro José Gomes Temporão, Adson França, os dados mais uma vez confirmam a opinião do Ministério da Saúde de que aborto é uma questão de saúde pública.

- Por isso devemos ampliar a oferta de métodos contraceptivos no Sistema Único de Saúde (SUS), que já atende 34,5 milhões de usuárias.

Número de abortos não é estimado

A pesquisa, no entanto, não estima o número de abortos em todo o país. Contudo, explica Débora, o número é com certeza maior do que o número de mulheres que abortam pelo fato de uma mesma mulher poder ter feito mais de um aborto

- O número também sobe se as áreas rurais e a população analfabeta forem computadas.

A técnica utilizada é parecida a de pesquisas eleitorais, com anonimato garantido e margem de erro de apenas 2%. As analfabetas foram excluídas porque não poderiam preencher o questionário.

Fonte: O Globo - http://oglobo.globo.com/

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