Arquivo de Geral

Lições de humanidade

José Pacheco

Não vá  por aí, que tem assaltante esperando!

Arrepiei caminho, com um sorriso de agradecimento para o moço que me lançara o aviso. Afagava um vira-lata esquálido, que retribuía, lambendo-lhe o rosto.

Mais adiante, um menino da rua remexia num caixote de lixo e dele retirava um pedaço de carne infecta. Sacudiu-o, para soltá-lo de pedaços de guardanapo de papel. Quando já abria a boca para engoli-lo, um transeunte foi junto do moço, deu-lhe dinheiro e afastou-se, em silêncio…

Cheguei, por fim, à escola que pretendia visitar. As lições de humanidade não cessaram. Retirante baiana, a Antônia chegou à grande cidade só com os andrajos que lhe cobriam o magro corpo. Não foi o amor, mas a fome, que a fez parir dez filhos, a juntar aos oito que o seu homem já fizera em outra mulher. Vai fazer cinquenta anos, mas tem no rosto as marcas de séculos de provações - mais de um século decorrido sobre a Lei Áurea, ainda existe uma cidadania que conhece, possui e tem poder e uma cidadania que nada possui, pouco conhece e nada pode. Há dez anos, o seu homem sofreu três derrames e caiu na cama para não mais se levantar. A Antônia cuida-o com o mesmo desvelo que dedica a um menino que uma jovem nordestina lhe confiou, antes de se perder nos atalhos da vida e da prostituição.

O meu menino é como o meu homem, não fala nem consegue andar dois passos, mas eu peço à senhora que o deixe vir para a sua escola. Vai ver que ele ainda assim consegue aprender…

Comovida, a diretora da escola abraçou a Antônia e garantiu-lhe que o Edilson seria bem tratado e aprenderia tudo o que pudesse aprender. A Antônia abriu no rosto um sorriso terno e desdentado e lá se foi de bem com a vida. E eu ali fiquei, num canto da sala, a voz amordaçada pela emoção, incapaz de responder à diretora, quando me dirigiu a palavra: É como canta o Milton, professor, "há que se cuidar do broto, para que a vida nos dê flor"…

Dizia o mestre Agostinho da Silva que não existem só poetas de verso. A ideia de que a pessoa tem de se dizer poeta, porque faz verso, não é verdade. Poeta é aquele que cria na vida alguma coisa que na vida não existia. Na minha peregrinação pelo Brasil das escolas, encontro poesia nos gestos mais simples, aprendo humanidade, deparo com beleza a todo o momento. E, no dia em que conheci a Antônia, aconteceu uma overdose… A Tatiane deixou uma mensagem no meu computador:
O que me move é o amor, pela vida, pelo outro e por acreditar nisto traço meu percurso enquanto educadora na emoção e no sentimento. Não posso basear minha ação pedagógica no sistema falho, devo baseá-la no ato vivo na emoção e na relação que estabeleço a cada dia. Para resgatar este outro que foi julgado, descriminado e rotulado…

Comenius, na Pampaedia, diz-nos: Nosso primeiro desejo é que todos os homens sejam educados plenamente em sua plena humanidade, não apenas um indivíduo, não alguns poucos, nem mesmo muitos, mas todos os homens, reunidos e individualmente, jovens e velhos, ricos e pobres, de nascimento elevado e humilde. Infelizmente, não parece que vamos nesse sentido. E, como alguém já disse, quando falha a educação, sobe à cena o polícia e o juiz…

Nas minhas peregrinações pelo Brasil das escolas, encontro muita e maravilhosa gente que busca realizar o desiderato de Comenius. A esperança - aquela que Pandora não deixou que saísse da sua caixa e cuja etimologia nos remete para a fé na bondade da natureza - manifesta-se em discretos gestos de educadores, que nos dão lições de humanidade.

José Pacheco Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

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Para onde vai a Argélia?

Miguel Urbano Rodrigues

O fascínio que Argel exerce há séculos sobre os estrangeiros que ali chegam é inseparável do cenário.

O casario, predominantemente branco, sobe pelas encostas que a encerram em gigantesca taça, moldura de uma baía deslumbrante, apenas superada em grandeza pela Guanabara e Nápoles.

O Colóquio Internacional de Homenagem a Georges Labica proporcionou-me em fevereiro o reencontro com a cidade, por onde tinha passado em 1953 quando a Argélia era ainda uma colônia mascarada de parcela da França.

Dessa breve visita guardava na memória imagens de uma cidade onde a grande maioria dos moradores era de origem francesa. Recordo ter percorrido então a Casbah, o núcleo urbano anterior à conquista onde residiam muitas dezenas de milhares de muçulmanos, definidos como indígenas pela administração colonial. Achei a Casbah atual quase irreconhecível.

Agora Argel é uma cidade muçulmana onde os europeus são uma minoria insignificante. Na Casbah não há gendarmes nem bandeiras francesas, o árabe substituiu a língua de Voltaire como idioma nacional, mas a modernidade aparente da era da globalização impõe-se nos ruídos das ruas, nas cores de cartazes publicitários e no desaparecimento do vestuário tradicional.

Declarada patrimônio da humanidade, a cidade velha não se assemelha a qualquer outra do Islã. Nos 45 hectares que restam da antiga capital amuralhada da época da conquista, concentram-se 1.200 casas, labirinto de ruelas, becos, escadas tortuosas, numa malha urbana onde se destacam mesquitas e palácios do período da dominação turca, santuários, museus, um medersa (universidade corânica) e minúsculas lojas.

Com alguma surpresa, recordando cidades asiáticas do Islã como a antiga Cabul, achei a Casbah limpa.

Percorrendo o dédalo das suas ruas, a minha imaginação viajou pelo tempo. Revivi a gesta da resistência de 18 anos do emir Abdel Kader à invasão francesa de 1830 e, com emoção, a luta travada na Casbah pelos patriotas da FLN contra os paraquedistas de Massu, imortalizada em "A Batalha de Argel", o filme de Pontecorvo.

Pisando aquele solo milenar, com o olhar descendo para o mar azul das escarpas nuas que fecham o horizonte, subiu em mim naquela tarde fria um sentimento de respeito e admiração pelos povos da Argélia que ao longo de 20 séculos se bateram com heroísmo contra todos os invasores desde Roma à ocupação francesa.

Um país militarizado

As Forças Armadas Argelinas, avaliadas em 180.000 homens (as mulheres são escassas no exército), constituem hoje talvez o corpo militar mais numeroso no continente africano, superando o Egito.

Esse gigantismo não resulta de qualquer ameaça externa previsível. O exército cresceu como resposta do Estado à onda de violência desencadeada na sociedade argelina pela Frente Islâmica de Salvação – FIS.

Não cabe neste artigo comentar a situação criada pelo desafio do radicalismo islâmico ao Poder detido pelos herdeiros do movimento que dirigira a luta pela independência nacional.

Registro somente que a mensagem do FIS encontrou de início receptividade entre as camadas mais desfavorecidas de uma população misérrima, que perdera a esperança suscitada pela independência e as promessas do "socialismo argelino".

Enquanto a população do país quadruplicou desde meados do século passado – hoje supera os 30 milhões –, a anunciada revolução não se concretizou e o êxodo total da população européia provocou o desmoronamento do sistema econômico preexistente.

A anulação das eleições ganhas pelo FIS, que se beneficiava do descontentamento geral, traduziu-se numa vaga de violência irracional (150.000 mortos e centenas de milhares de exilados). O Grande Medo contribuiu decisivamente para a perda de popularidade da organização.

A resposta do Estado foi a militarização do país. Argel é hoje uma cidade muito mais "segura" do que a maioria das capitais da América Latina. A FIS foi militarmente esmagada.

Mas o preço social da derrota infligida à organização islâmica foi muito alto. A densidade do policiamento e a visibilidade do dispositivo militar impressionam o forasteiro.

Às seis da tarde não se encontra uma mulher nas praças e ruas do centro; às oito, a cidade, deserta, parece adormecida. A vida noturna é praticamente inexistente.

O contraste com o dia perturba o visitante porque a grande metrópole (talvez uns três milhões com os subúrbios, mas as estatísticas argelinas não inspiram muita confiança) é um formigueiro de gente desde a manhã ao pôr-do-sol.

Na própria Residência Oficial onde se realizou o Colóquio Labica, reservada aos participantes e convidados, não se podia entrar sem passagem por um detector de metais similar ao dos aeroportos.

Um cordão de militares cerca a capital à noite. Mas, nas três vezes que saímos para jantar em restaurantes do centro, distante meia dúzia de quilômetros dos bairros altos, os carros oficiais em que seguíamos foram submetidos a numerosos controles em postos militares. Com os táxis, a inspeção é mais rigorosa.

Uma economia frágil

Durante a nossa breve permanência em Argel, a minha companheira e eu tivemos a oportunidade de manter prolongados encontros com velhos combatentes da guerra de independência. Essas conversas proporcionaram-me uma informação importante, embora superficial, sobre a conjuntura argelina, tal como a sentem e vivem intelectuais revolucionários distanciados do poder. Falei também com jornalistas que esboçaram um panorama da comunicação social.

Uma realidade indesmentível: a dependência da Argélia aos combustíveis é preocupante. O petróleo e o gás fornecem, segundo as estatísticas oficiais, quase 98% das exportações do país e representam 40% do Produto Interno Bruto. As reservas comprovadas garantem a extração no nível atual até 2030, o que suscita inquietação quanto ao futuro de uma sociedade na qual o setor produtivo é de uma insuficiência transparente.

A agricultura atravessa uma crise profunda, agravada pela política neoliberal ortodoxa imposta no início dos anos 90. Um punhado de multimilionários monopoliza as importações de cereais, leite e carne, com a cumplicidade de personalidades destacadas do Exército. A conseqüência dessa estratégia foi desastrosa para os produtores nacionais, incapazes de suportar a concorrência dos preços internacionais. Aliás, as cooperativas estatais formadas após a independência não puderam corresponder às esperanças nelas depositadas por falta de apoio do poder central.

Essa grande burguesia, que acumulou fortunas colossais, possui casas no estrangeiro, onde passa largas temporadas. Não se conhece o nível das suas contas em bancos suíços, mas é certamente elevadíssimo. Num patamar inferior, formou-se uma burguesia próspera, enriquecida também através de negócios escusos. Mas muitos milhões de argelinos vivem abaixo do nível da pobreza.

A crise econômica e social assumiu tamanhas proporções que o governo sentiu a necessidade de reconhecer o fracasso da chamada economia de mercado cuja apologia fizera durante anos. No seu discurso de junho de 2008, o presidente Bouteflika anunciou uma viragem de estratégia. Mas a condenação da política neoliberal não foi acompanhada da formulação de uma alternativa. Não basta reconhecer que as transnacionais que tinham prometido realizar investimentos grandiosos trataram de saquear o país, tripudiando sobre os compromissos assumidos. A nova lei de finanças suprimiu os privilégios de que gozava o capital estrangeiro; mas o Poder não elaborou um projeto nacional.

O presidente Boumedienne, após o golpe que derrubou Ben Bella, ainda utilizou durante algum tempo a expressão "socialismo argelino". Mas a fórmula, retórica, não travou a marcha do país rumo a um capitalismo dependente.

A indústria metalúrgica, que gerou esperanças graças a uma siderurgia nacional que viabilizou a produção de tratores e a montagem de veículos de transporte, é hoje pouco mais do que uma recordação. O PIB per capita não excede 2.300 dólares.

A Argélia é territorialmente um gigante com mais de 2.350.000 quilômetros quadrados (grande parte no Deserto do Saara, onde se concentram o petróleo e o gás). Mas enormes extensões de terras férteis permanecem incultas.

Temor do futuro

Uma implantação débil da Internet facilita a compreensão de um absurdo aparente: as grandes tiragens dos jornais argelinos num continente onde se lê pouquíssimo.

O maior diário do país, em língua árabe, tem uma tiragem que ronda os 400.000 exemplares. O principal dos diários de língua francesa atinge os 80.000.

Oficialmente não existe censura. Mas jornalistas com quem falei disseram-me que a auto-censura é rotineira na maioria das redações.

Como a corrupção é considerada um flagelo nacional, os editoriais e reportagens sobre grandes escândalos são tolerados e por vezes incentivados. Mas desde que neles não seja transparente o envolvimento de altas personalidades das Forças Armadas.

Oficialmente, estas apresentam-se unidas no apoio ao regime. Mas a realidade desmente a imagem difundida. No corpo de oficiais, mesmo nos escalões superiores, manifestam-se tendências contraditórias quanto ao rumo do país.

Na área internacional a imprensa é anti-sionista e, com o apoio oficial, solidária com a luta dos povos da Palestina e do Líbano. O Hamas e o Hizbollah não são satanizados, ao contrário do que ocorre noutros países muçulmanos. As críticas às guerras de agressão dos EUA no Iraque e no Afeganistão e às campanhas contra o Irã são, aliás, freqüentes.

Mas no tocante às relações internacionais do governo Bouteflika, as surpresas são muitas para o visitante desconhecedor dos meandros sinuosos da estratégia do Poder.

A economia está orientada para a União Européia (aproximadamente 60% do comércio externo), mas o alto comando do Exército aprofunda a cooperação militar com a China e mantém relações cordiais com Washington. É inquietante que a CIA tenha sido autorizada a funcionar discretamente em Argel. O governo Obama, invocando a necessidade de "combater o terrorismo" no continente, iniciou negociações – segundo a revista web de Michel Collon – tendentes à utilização pelos EUA da nova base militar instalada em Tamanrasset, no extremo sul.

Com o governo de Sarkozy as relações são hoje marcadas por uma tensão inocultável. A França foi forçada pela luta do povo argelino a aceitar a independência do país. Mas os seus sucessivos governos nunca assumiram uma atitude responsável no relacionamento com a República da Argélia. Não somente sempre recusaram debater a legitimidade de reparações materiais ao povo da sua antiga colônia (centenas de milhares de argelinos foram mortos durante os oito anos da guerra que provocou enormes destruições materiais) como, sobretudo desde que Sarkozy chegou à presidência, insistem em reescrever a História, apresentando a colonização como globalmente positiva.

Um governo desprestigiado

A FLN, o partido do governo, é hoje uma caricatura do movimento de libertação que dirigiu a luta pela independência numa guerra de oito anos. Como não dispõe de uma base eleitoral que lhe garanta maioria no Parlamento, montou uma heterogênea coligação, a Aliança Presidencial. Os seus parceiros são a União Nacional Democrática (RND), um partido de tecnocratas cuja bandeira é a modernização do país, e o Movimento Social Popular (ex-Hamas), organização populista.

A ideologia está ausente da teoria e da prática da Aliança e do governo por ela apoiado. O presidente Bouteflika mantém-se no poder pela inexistência de uma alternativa a curto prazo. Mas perdeu o escasso prestígio que tinha ao ser eleito em 1999. Na opinião de observadores internacionais, o FIS, não obstante inspirar hoje mais temor e repulsa do que simpatia, venceria as próximas eleições se elas fossem normais. Seria essa uma forma de castigar Bouteflika e os seus aliados.

Para se avaliar a complexidade da reação popular perante o Poder e aqueles que para o enfrentar optaram por uma orgia de violência, é útil esclarecer que o analfabetismo real na Argélia deve rondar os 50%, o que desmente as estatísticas oficiais.

O fosso que separa uma intelectualidade brilhante (na Universidade, o francês predomina sobre o árabe) e as massas é muito profundo.

Mas é importante registrar que houve um enorme progresso no campo da educação. Antes da independência, apenas umas centenas de argelinos tinham acesso ao ensino universitário, reservado quase exclusivamente a europeus. Hoje, o total de estudantes nas numerosas universidades existentes ultrapassa os 250.000. Lamentavelmente, o diploma, concluídos os cursos, não assegura trabalho a dezenas de milhares, cuja frustração é legítima.

Os sindicatos são hoje de pura fachada, e o desemprego, elevadíssimo, dificulta a luta dos trabalhadores, cuja combatividade é escassa pela ausência de uma organização revolucionária com implantação entre a classe operária, capaz de mobilizá-la em defesa dos seus direitos; uma organização que pudesse desempenhar o papel assumido durante a guerra pelo Partido Comunista Argelino.

Num país onde o salário mínimo equivale a 150 euros, e o médio oscila entre os 250 e os 300, o custo de vida é comparável ao de Portugal, com a peculiaridade de os hotéis e os restaurantes serem caríssimos.

Para onde caminha a Argélia?

Não me sinto em condições de esboçar uma resposta. Nos meus breves dias de Argel encontrei-me num país desconhecido que perdeu a grande esperança que mobilizou a nação numa guerra de libertação épica.

A juventude atual nasceu após a guerra da independência, tal como a geração anterior. Sente uma enorme frustração pela ausência de perspectivas. Um veterano do combate dos anos 50 dizia-me, com tristeza: "Milhares de jovens emigram todos os anos, principalmente para a França e Quebec, no Canadá. Acredito que, se não fosse a extrema dificuldade de obtenção de vistos para entrar na Europa e na América, nove entre cada dez jovens argelinos deixariam o país".

O futuro próximo parece sombrio. Mas a história heróica dos povos da Argélia demarca-me de uma atitude pessimista.

Conheci ali neste reencontro homens cuja lucidez e firmeza reforçaram a minha confiança no amanhã da terra milenarmente martirizada da Argélia, berço de grandes pensadores e sábios e de revolucionários que se impuseram ao respeito da humanidade.

Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e escritor português.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

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Brasil deve ter excedente de trabalhadores qualificados

Ainda assim, alguns setores sofreriam com escassez em 2010, segundo o Comunicado nº 41, que analisou ainda regiões e UFs

Um contingente de quase 653 mil profissionais com experiência e qualificados terá dificuldade para se inserir no mercado de trabalho em 2010. Situação, contudo, não tão ruim quanto à do exército de 5,5 milhões de brasileiros sem qualificação, dentro de um universo de 24,8 milhões de pessoas disponíveis para a potencial demanda de 18,6 milhões de postos de trabalho.

É o que consta no Comunicado 41 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado nesta quarta-feira (10), em São Paulo: Emprego e Oferta Qualificada de Mão de Obra no Brasil - Impactos do Crescimento Econômico Pós-crise. O texto traz dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE; da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Demanda

A estimativa da demanda de 18,6 milhões de ocupações para 2010 divide-se em cerca de 11% de abertura líquida (pouco mais de 2 milhões de novas vagas) e quase 90% advindos de demissões (rotatividade), estimados pelo número de pessoas admitidas e demitidas entre 2004 e 2008. Leva em conta ainda um crescimento de 5,5% do PIB (a projeção não é a oficial do Ipea, apenas um parâmetro técnico).

"Vivemos uma fase de recuperação muito forte, superamos a contaminação da crise de 2008 e a expectativa, de maneira geral, é de um ano muito melhor do que foram o ano passado e 2007", disse o presidente do Ipea, Marcio Pochmann. Porém, acrescentou, "5,5 milhões de pessoas dificilmente vão conseguir emprego pelo baixíssimo nível de educação, e outros 653 mil trabalhadores vão ’sobrar’, a despeito de terem qualificação".

Oferta

Essas estimativas nacionais, no entanto, escondem realidades diversas nas projeções regionais e por setores da economia. Paraná, com saldo de -18.441 entre a oferta e a demanda de trabalhadores, Santa Catarina (-13.300) e Rondônia (-4.531) poderão sofrer escassez de mão de obra qualificada. Já quanto aos setores, comércio e reparação (-187.580), e educação, saúde e serviços sociais (-50.086) seriam os mais atingidos pela falta de trabalhadores com formação adequada.

Para o presidente do Ipea, este é um "problema bom", já que o Brasil ainda possui um elevado excedente de mão de obra e acostumou-se a ele. "A última vez que o País teve escassez assim foi no milagre econômico [nos anos 1970]", lembrou. Segundo o estudo, a ação de políticas públicas de promoção de qualificação dos trabalhadores poderia não apenas minorar essa escassez, mas também reverter a baixa remuneração nas ofertas de emprego.

O Comunicado do Ipea 41: Emprego e Oferta Qualificada de Mão de Obra no Brasil - Impactos do Crescimento Econômico Pós-crise foi lançado em São Paulo, nas dependências da Caixa Econômica Federal da Praça da Sé.

Fonte: IPEA – http://www.ipea.gov.br/

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A perversão nossa de cada dia

Os perversos não são extra-humanos, mas demasiadamente humanos; definir a perversão é um paradoxo ético

Christian Ingo Lenz Dunker

A perversão é uma das três grandes estruturas da psicopatologia psicanalítica. Ao lado da psicose e da neurose, ela representa um tipo específico de subjetividade, desejo e fantasia. Comparativamente, seu diagnóstico é mais difícil e controverso: consideram-se a extensão e a variedade de seus sintomas, bem como sua alta suscetibilidade à dimensão política. Nas perversões podemos incluir, aproximativamente, três subgrupos: as perversões sexuais, as personalidades antissociais e os tipos impulsivos. Essa subdivisão é problemática e apenas descritiva, pois cruza categorias originadas em diferentes tradições clínicas.

Devemos distinguir uma perversão ordinária de uma perversão extraordinária, representada pelos "tipos concentrados" com os quais a perversão foi historicamente associada, para, em seguida, ser excluída, silenciada e expulsa da condição humana. Aquela que seria a forma mais forte de perversão, como confronto e desafio à lei, é, na verdade, expressão de um tipo coletivo de exagero da lei, baseado na atração pela forma, desligada e deslocada de seu conteúdo.

"Perversão", assim, seria o nome para o que nos desperta indignação. Mas, porque o estado social "normal" não representa necessariamente o bem ético, torna-se difícil pensar a perversão de modo simples. A anomalia que nega a norma pode ser um desvio progressivo, útil ou benéfico. Além disso, mesmo a dissociação entre a norma e seu oposto, entre real e ideal, entre o bem e o mal, é justamente uma das características da perversão.

Tipologia da perversão
Isso posto, há três famílias principais da perversão. A primeira refere-se ao exagero ou à diminuição de algo, que, sob justa medida, seria tolerável e até mesmo desejável. O perverso, assim, estereotipa um comportamento, fixa-se em um modo de estar com o outro e de orientar sua satisfação. Tome-se o exemplo de um sujeito que, para encontrar satisfação sexual, deve empregar adereços como calcinhas, vestir-se com roupas do sexo oposto, admirar partes específicas do corpo do parceiro ou manipulá-las de modo bizarro. Tudo isso, sem "exagero", seria parte admissível de um encontro sexual, mas, quando sua presença torna-se coercitiva, necessária e condicional, percebemos que há uma espécie de excesso. A parte toma conta do todo.

A segunda família de perversões decorre da ideia de desvio. Trata-se aqui da metáfora da vida como um caminho, no qual o perverso "toma um atalho" ou elege para si "outra via". Ele se desgarra dos outros, torna-se alguém fora da ordem, fora do lugar adequado. Curiosamente, essa negação da "norma" funciona como reafirmação de sua força. Se a primeira perversão é definida pelo traço de exagero, a ideia central do segundo tipo é a de deslocamento, inversão e dissociação.

A terceira classe de perversão é formada pelos que marcam seu compromisso com a transgressão, com a violação da lei, da moral ou dos costumes. Essa transgressão não é efeito secundário, mas decorre da identificação do sujeito com a lei. Alude-se aqui à lei materna (em oposição à lei paterna) para designar essa relação de passividade radical e de disposição soberana sobre o corpo do outro. Apesar da extrema variedade histórica e antropológica, há duas maneiras básicas de perversão da lei: afirmá-la por meio de uma negação ou negá-la por meio de uma afirmação.

Perversão e lei
No primeiro caso, a lei está escrita em alguma parte e há intérpretes confiáveis e executores fiéis. Dessa perspectiva, exagera-se o caráter formal da lei, de maneira que sua execução deixe de aparecer como efeito de agentes empíricos dotados de sensibilidade. Ou seja, cria-se uma e xceção à lei dentro da lei. Não importa se o modo de relação com o objeto é contrário à lei social instituída (como a pedofilia ou o assassinato do parceiro sexual); se ele é indiferente a essa lei (como o sujeito que obrigatoriamente deve "tatuar" sua parceira com uma caneta Bic durante o intercurso sexual para encontrar orgasmo); ou se ele é parasitário da lei socialmente instituída (como no filme O Cheiro do Ralo, no qual o fetiche do cheiro se especifica como traço adicional nas relações de compra e venda de objetos). O importante é que, do ponto de vista do sujeito, afirma-se a lei para negá-la.

A segunda forma de perversão da lei aparece quando o sujeito nega a lei para afirmá-la em outro nível. A satisfação não decorre de uma "falsa submissão a uma falsa lei", mas da elevação do sujeito à condição de autor da lei.  Esse é o caso dos que se identificam com o objeto para causar angústia no outro, ou seja, para dividir o outro e assim fugir à sua própria divisão. São as chamadas personalidades psicopáticas, hoje personalidades antissociais, nas quais predomina o sadismo: nego a lei socialmente compartilhada para afirmar uma lei maior, cuja enunciação está em minhas mãos.

A questão se complica se observamos que a lei considerada como fato positivo para a definição de perversão não é apenas a lei como ordenamento jurídico, nem a lei como conjunto de costumes, mas a lei que, a cada momento, é a pré-condição que orienta nossa escolhas, juízos e desejos. Mesmo que ela não esteja escrita nem encontre corpo em um código formal ou informal, essa lei está pressuposta a cada vez que agimos. O problema da perversão torna-se mais interessante se observarmos que a lei que orienta a vida desejante do sujeito, a partir de seu inconsciente, não é outra que uma versão da lei social corrente, institutiva das relações de autoridade e pertinência, de ordem e de poder, de família e de Estado. Uma é versão da outra, uma père-version (versão do pai), como diria Lacan (psicanalista francês, 1901-1981).

Divulgação

O cheiro do ralo: no filme de Heitor Dhalia, o cheiro-fetiche é associado às relações

de compra e venda de objetos

A matriz das perversões
A psicanálise chama de supereu essa lei interna ou essa voz que interdita certos tipos de satisfação, obrigando a outros. O supereu é a matriz ordinária de nossas perversões particulares e, ao mesmo tempo, a língua na qual expressamos e somos expressos pela lei social. Segundo essa tese, nossa consciência crítica, tida por muitos como a maior realização da razão humana, é ao mesmo tempo um olhar no qual nos aprisionamos, a voz do exagero e engrandecimento (das exigências, dos ideais e das expectativas normativas) e o núcleo de nossa satisfação e de nossa culpa em transgredir.

Por exemplo, vibrar em êxtase vendo um formigueiro pegar fogo não é um ato ilegal, mas sugere um tipo de gozo associado com a perversão. Qualquer criança explora esse tipo de satisfação, até que seus pais a convidem à seguinte "inversão de perspectiva": "Imagine se você fosse uma formiga? Iria gostar de ver a casa pegar fogo?". Esse tipo de inversão faz com que abandonemos uma gramática da satisfação - nesse caso o sadomasoquismo - em prol de outra. Cada um de nós possui uma história composta de gramáticas como estas: exibicionismo e voyeurismo, heterossexualidade e homossexualidade, feminilidade e masculinidade. Há gramáticas pulsionais mais simples, tais como ingerir e expelir, dar e receber, bater e apanhar, e há gramáticas mais complexas e mais abrangentes, tais como ser e ter ou aceitar e recusar.

Contudo, a tese psicanalítica é a de que a sexualidade infantil possui a característica de ser perversa, por explorar, exagerar e transgredir os diferentes modos de satisfação, e de ser polimorfa, por admitir muitas formas, plásticas e mutáveis. A perversão no adulto diferencia-se disso por seu caráter de fixidez (uniforme) e pela função subjetiva de desautorização da lei. Assim, a perversão não é só uma questão de infração procedimental da lei, mas refere-se ao tipo de intenção (ou de desejo), ao modo como nos colocamos situamos o outro diante do que fazemos.

É nesse ponto que a definição popular de perversão argumentará que ela ocorre justamente por falta de sentimentos morais como a culpa, a vergonha e o nojo. Daí a ausência de arrependimento, de reparação e de consideração pelo outro que historicamente fez dos perversos os ícones da maldade. Eles não apenas praticam o mal, mas, principalmente, gostam de fazer mal aos outros, especialmente quando se comprazem em causar angústia, terror e tortura. Ora, o que acontece aqui não é a ausência de supereu, que poderia ser curada com a administração massiva da lei,  mas a construção de uma espécie de supereu ampliado, como se algumas de suas funções fossem experienciadas, de modo deslocado, fora do sujeito, ou seja, no seu infeliz e circunstancial parceiro.

Perversão e experiência comum
Os mais diferentes e insólitos tipos de satisfação estão presentes em todos nós, de forma atenuada, disfarçada ou restrita. Não é pela ausência ou presença dessas tendências que podemos definir a perversão. Os perversos não são extra-humanos, mas demasiadamente humanos. O problema para definir a perversão, nesse sentido, é que temos de resolver o chamado paradoxo ético do ato. Não basta saber se ele é conforme ou contrário à lei, mas saber qual tipo de experiência ele produz em quem o realiza e o tipo de posição que ele confere ao outro.

Há vários exemplos de como o gozo, ou seja, o tipo de satisfação ordenado pelo supereu, constitui uma perversão particular e ao mesmo tempo um fator político incontornável. Há, por exemplo, um fascínio espontâneo por aquele que se coloca no lugar de supereu. A atração exercida por líderes e "celebridades", assim como pelos sistemas totalitários, sejam eles nações, instituições, corporações ou mesmo empresas e grupos, baseia-se neste sentimento de que eles expressam em exterioridade nossa própria relação perversa com a lei. Diante disso, estaremos voluntariamente dispostos a servir como instrumento do gozo do outro, posto que ele é o meio pelo qual posso ter acesso deslocado à minha própria fantasia, exagerada pelo fato de ser vivida em massa. Isso tudo sem o ônus da culpa e do risco que estariam em jogo se eu me dispusesse a realizá-la por meios próprios.

A chave para entender esse tipo de perversão ordinária está na dissociação e na simplificação produzidas pela montagem da fantasia. Dissociação e simplificação encontradas na principal expressão sintomática da perversão, a saber, o fetiche, ou seja, esta propriedade ou esta função que permite transformar o outro em objeto inanimado (meio de gozo para meus fins) e reversamente o objeto em outro animado (fim para o qual todos os meios se justificam). Em acordo com a regra perversa da inversão, o fetiche é a condição básica a que todo objeto deve atender para tonar-se viável no universo de consumo. Para funcionar como tal, ele deve conseguir dissociar seu potencial de ilusão, por um lado, de seu efeito de decepção, por outro. Não é um acaso que Karl Marx (1818-1883) tenha descrito a economia capitalista baseando-se no fetiche da mercadoria.

Outro exemplo de montagem perversa são os sistemas e dispositivos burocráticos responsáveis pela judicialização da vida cotidiana. A burocracia é uma forma regrada e metódica de produzir anonimato e álibi para nosso desejo e, portanto, para confirmar a máxima perversa de que "o outro deseja, mas segundo a lei que eu determino". Nessa medida, há tanta perversão nos excessos alimentares - no bulímico e no anoréxico - quanto no discurso de vigilância sanitária sobre nossa alimentação, para não falar do exibicionismo de uma infância sexualizada pela moda, do voyeurismo de nossos reality shows, da estética pornográfica de nossas produções culturais, do sadismo de nossos programas de violência ao vivo, do masoquismo do trabalho e da "vida corporativa", do descompromisso "líquido" de nossa vida amorosa, da cultura da drogadição (legal e ilegal), e tantos fenômenos que costumam ser reunidos sob a hipótese da perversão generalizada. Ao contrário da perversão clássica, a perversão ordinária de nossos tempos é uma perversão flexível, silenciosa e pragmática. Ela não se mostra como experiência "fora da lei", que convidaria a ajustar as contas com os limites de nossa própria liberdade, mas, ao contrário, é mais perniciosa, pois reafirma nossa realidade assim como ela é.

As articulações que constituem a perversão, tais como a transgressão, a exageração e a dissociação, tornaram-se aspectos decisivos de nosso laço social ordinário. Bem-vindos à perversão nossa de cada dia.

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

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Estresse no trabalho pode causar doença de voz em professor

Nilbberth Silva

Muito trabalho e pouca autonomia podem causar doenças na voz dos professores

Cerca de 60% dos professores da rede municipal da cidade de São Paulo têm distúrbios na voz — uma prevalência cinco vezes maior que no resto da população (1). De acordo com uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, o estresse no trabalho está fortemente associado com essas doenças e elas aumentam de 6 a 9,5 vezes as chances de o professor tornar-se incapaz para o trabalho.

A fonoaudióloga Susana Giannini avaliou 167 professores de ensino infantil, fundamental e médio com distúrbios de voz na cidade de São Paulo. Ela comparou-os com 105 colegas saudáveis, provenientes das mesmas escolas. Depois, Susana analisou os grupos com duas escalas:uma media o nível de estresse no trabalho e outra, a capacidade para o trabalho.

A pesquisadora encontrou uma associação estatística entre ter distúrbios vocais e estresse provocado pela organização do trabalho — indício de que o estresse pode ser uma causa dos distúrbios vocais. O estresse era medido pelos níveis de excesso de trabalho e falta de autonomia sobre o trabalho dos professores.

Cerca de 70% daqueles que tinham problemas vocais apresentaram excesso de trabalho, mostrando que a pressão para realizá-lo era média ou alta. Já nos professores saudáveis a porcentagem era de 54,4%.
Os professores com distúrbios de voz também tiveram menor autonomia para realizar seu trabalho. Cerca de 73% dos professores com distúrbio de voz mostraram ter pouca ou média autonomia sobre o trabalho. Já nos professores sem alteração vocal, a porcentagem é de 62,1%.

“A condição de estresse é de alto desgaste”, explica Susana. Nesse nível, o professor perde a possibilidade de criar e intervir no trabalho. Ele tem muitas tarefas para desempenhar e não consegue criar soluções para os problemas que aparecem.

Incapacidade
A pesquisa analisou os professores com um índice que media a capacidade de um trabalhador desempenhar suas tarefas em função do seu estado de saúde, capacidades físicas e mentais, e exigências do trabalho. O resultado foi que professores com distúrbio vocal tem chances de 6 a 9,5 vezes maiores de não ter condições de executar o trabalho antes de chegar à aposentadoria.

“Com o adoecimento da voz, o professor se aposenta mais cedo ou precisa sair da sala de aula, vai pra secretaria fazer trabalho burocrático. É como se o distúrbio interrompesse sua carreira precocemente. E isso reduz a satisfação com o trabalho”.

De acordo com a pesquisa, as novas políticas do governo para inclusão de alunos aumentaram a carga de trabalho dos professores, que passam a ter de ensinar alunos com níveis de conhecimento diferentes. As salas de aula também aumentaram de número e os estudantes passam mais tempo na escola. “No entanto, não aumenta a estrutura das escolas”, diz a pesquisadora. “O professor tem de dar conta sozinho de mais trabalho. Aumenta a pressão e o volume do trabalho, que vai invadindo o espaço familiar e social. O professor não dá conta de transmitir o conteúdo planejado”.

Na opinião de Suzana, o estudo pode ajudar a rever as regras da previdência social, que não reconhecem perda da voz do professor como doença relacionada ao trabalho. “A pesquisa levanta que o professor pode adoecer e ser incapacitado de trabalhar em sua função quando relaciona muito trabalho com pouca autonomia”, indica a fonoaudióloga. “Se for compreendido que isso é causado pelo trabalho, eu tenho que ter políticas públicas que reconheçam esse nexo causal. Se alguma lei compreender que o disturbio de voz está relacionado ao trabalho, o professor deixa de arcar sozinho com a doença que adquiriu”.

(1) Fonte: “Condições de produção vocal de professores da rede do município de São Paulo” – Revista dos Distúrbios da Comunicação.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

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IBGE divulga informações sobre a mulher no mercado de trabalho

Ibge

A participação das mulheres no mercado de trabalho, seu perfil etário e educacional, o contingente feminino no setor público, a jornada de trabalho considerada a escolaridade, o percentual de mulheres que gostaria de trabalhar mais. Esses e outros pontos são levantados pelo IBGE no Dia Internacional da Mulher. O trabalho especial Mulher no Mercado de Trabalho: Perguntas e Respostas tem como objetivo apresentar um panorama da mulher no mercado de trabalho. As informações usadas provêm da Pesquisa Mensal de Emprego (PME)2009, realizada nas regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

35,5% das mulheres tinham carteira de trabalho assinada

Em 2009, aproximadamente 35,5% das mulheres estavam inseridas no mercado de trabalho como empregadas com carteira de trabalho assinada, percentual inferior ao observado na distribuição masculina (43,9%). As mulheres empregadas sem carteira e trabalhando por conta própria correspondiam a 30,9%. Entre os homens, este percentual era de 40%. Já o percentual de mulheres empregadoras era de 3,6%, pouco mais da metade do percentual verificado na população masculina (7,0%).

61,2% das trabalhadoras tinham 11 anos ou mais de estudo

Enquanto 61,2% das trabalhadoras tinham 11 anos ou mais de estudo, ou seja, pelo menos o ensino médio completo, para os homens este percentual era de 53,2%. A parcela de mulheres ocupadas com nível superior completo era de 19,6%, também superior ao dos homens (14,2%). Por outro lado, nos grupos de menor escolaridade, a participação dos homens era superior a das mulheres.

Elas trabalharam 38,9 horas em média

Apesar de desde 2003 ter ocorrido uma redução de aproximadamente 36 minutos na diferença entre a média de horas trabalhadas por homens e mulheres, em 2009 as mulheres continuaram trabalhando, em média, menos que os homens. Cabe esclarecer que essa queda foi ocasionada pela redução na média de horas trabalhadas pelos homens. As mulheres, em 2009, trabalharam em média 38,9 horas, 4,6 horas a menos que os homens.

As mulheres trabalhavam menos que os homens em todos os grupamentos de atividade. Com a exceção das mulheres ocupadas em “Outros Serviços”, as demais atividades apresentaram aumento da média de horas trabalhadas para as mulheres. No grupamento “Administração Pública”, as mulheres trabalharam, em média, 36,4 horas semanais.

Em 2009, as mulheres com 8 a 10 anos de estudo foram as que declararam trabalhar mais horas semanais (39,4 horas). No entanto, aquelas com 11 anos ou mais de estudo foram as que apresentaram a menor diferença na média de horas trabalhadas em relação aos homens, 3,6 horas. Em 2003, esta diferença era de 4,4 horas.

As mulheres com 1 até 3 anos de estudo foram as que apresentaram a maior diferença (7,2 horas) na média de horas trabalhadas, quando comparadas aos homens. Tal realidade é similar à verificada em 2003, quando a diferença era de 7,3 horas.

O número de horas trabalhadas pelas mulheres que possuíam curso superior completo somente ultrapassava ao das que tinham até 3 anos de estudos.

Já as mulheres com 11 anos ou mais de estudo foram as únicas a aumentar a média de horas trabalhadas semanalmente, em todo o mercado de trabalho: de 38,8 horas em 2003 para 39,1 horas em 2009.

O rendimento continua sendo inferior ao dos homens

O rendimento de trabalho das mulheres, estimado em R$ 1.097,93, continua inferior ao dos homens (R$ 1.518,31). Em 2009, comparando a média anual de rendimentos dos homens e das mulheres, verificou-se que as mulheres ganham em torno de 72,3% do rendimento recebido pelos homens. Em 2003, esse percentual era de 70,8%.

Considerando um grupo mais homogêneo, com a mesma escolaridade e do mesmo grupamento de atividade, a diferença entre os rendimentos persiste. Tanto para as pessoas que possuíam 11 anos ou mais de estudo quanto para as que tinham curso superior completo, os rendimentos da população masculina eram superiores aos da feminina.

Verificou-se que nos diversos grupamentos de atividade econômica, a escolaridade de nível superior não aproxima os rendimentos recebidos por homens e mulheres. Pelo contrário, a diferença acentua-se: no caso do “Comércio”, por exemplo, a diferença de rendimento para a escolaridade de 11 anos ou mais de estudo é de R$ 616,80 a mais para os homens. Quando a comparação é feita para o nível superior, ela é de R$ 1.653,70 para eles.

No entanto, no grupamento da Construção, as mulheres com 11 anos ou mais de estudo têm rendimento ligeiramente superior ao dos homens com a mesma escolaridade: elas recebem, em média, R$ 2.007,80, contra R$ 1.917,20 dos homens.

Aumentou a escolaridade das mulheres que procuram trabalho

Em 2009, entre o 1,057 milhão de mulheres desocupadas e procurando por trabalho, 8,1% tinha nível superior. Houve aumento na escolaridade dessas mulheres, visto que em 2003, em média, 5,0% tinham nível superior. Esse crescimento resulta do aumento da escolaridade de uma forma geral.

O aumento da escolaridade também pode ser verificado em outros níveis. Em 2003, em média, 44,7% das mulheres desocupadas tinham 11 anos ou mais de estudo. Em 2009, essa proporção ultrapassou significativamente a metade da população (59,8%). Verificou-se que a população feminina desocupada é proporcionalmente mais escolarizada que a população feminina acima de 10 anos. Enquanto, em média, 81,2% da população feminina desocupada tinham oito anos ou mais de escolaridade, na população em idade ativa este percentual era de 61,1%.

Cresceu o percentual de mulheres adultas querendo trabalhar

A população feminina desocupada (1,057 milhão de mulheres, em 2009) está muito concentrada no grupo etário entre 25 e 49 anos de idade. Em 2003, as mulheres nesta faixa etária correspondiam a 49,3% da população feminina desocupada. Em 2009, elas já eram mais da metade: 54,2%.

Fonte: IBGE – http://www.ibge.gov.br/

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Aumenta o número de grupos de "patriotas" ativistas nos EUA

Antoine Strobel-Dahan

O número de milícias patriotas nos Estados Unidos disparou em um ano, relata uma das mais ativas organizações de defesa dos direitos humanos na América do Norte, a Southern Poverty Law Center (SPLC). Fundada em 1971 em Montgomery, no Alabama, pelo jurista Morris Dees para defender na justiça os militantes dos direitos civis, o SPLC publica todos os anos um respeitável relatório sobre os grupos extremistas americanos.

De 149 “grupos patriotas ativistas” em 2008, passou-se para 512 em 2009, entre os quais 127 milícias paramilitares, ou seja, um aumento de 244%. E essa conta só leva em consideração os grupos ditos “patriotas”, implicando uma ação contra “a nova ordem mundial”. Ao estender o cálculo para todos os grupos que apregoam o ódio, o SPLC estabelece um assustador mapa registrando 932 grupos que manifestaram ativismo em 2009.

A “direita radical americana” pode ser homófoba, segregacionista, “pró-vida”, antigovernamental, antissemita, anti-árabes, chineses e latinos, xenófoba, conspiracionista, antissocialista, neonazista, uma combinação de algumas dessas fobias ou de todas ao mesmo tempo. Aproveitando-se, por meio de uma retórica populista, da raiva crescente entre determinados segmentos da população americana em razão das mudanças políticas, demográficas e econômicas recentes, os ativistas patriotas voltam para primeiro plano. Desde o cerco de Waco em 1993 (86 mortos) e o atentado de Oklahoma City em 1995 (168 mortos), os patriotas se mantinham discretos.

Com a palavra, os conspiracionistas

Para essa direita muito à direita, a administração Obama tem todos os defeitos, a começar por seu pecado original, o da cor de seu presidente. Taxada de “socialista” ou de “fascista”, o governo americano concentra os ataques dos populistas, que por sua vez se encontram reafirmados pela preocupação crescente dos americanos quanto ao estado de sua nação. Em uma pesquisa publicada pelo “Wall Street Journal” e pela NBC News no fim de janeiro, quase 60% dos americanos afirmavam sentir que as coisas iam mal em seu país.

Segundo o “Guardian”, algumas mídias, entre as quais a Fox News, voltaram a dar voz aos adeptos das teorias conspiratórias, que acreditam que o ex-presidente dos Estados Unidos, Eisenhower, era um agente soviético, ou que estão convencidos de que o governo americano dispõe de campos de concentração secretos destinados à “reeducação” dos patriotas. A batalha não se dá somente no discurso e nas ideias, observa o SPLC, que desde a posse de Obama relata homicídios de diversos policiais por extremistas de direita, planos de assassinato do presidente por skinheads, uma volta dos crimes racistas e tentativas de atentado contra o governo ou populações não-brancas.

Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

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Estudo mostra que o Mar da Sibéria ‘borbulha’ com metano, o que pode acelerar o aquecimento global

Imagem:2007 MBARI. Escape de metano no oceano Ártico, a partir do 
aumento de temperatura e descongelamento do permafrost.
Imagem:2007 MBARI. Escape de metano no oceano Ártico, a partir do aumento de temperatura e descongelamento do permafrost.

Fenômeno pode dar início a círculo vicioso que alimenta aquecimento global. Região libera 8 milhões de toneladas de CH4 por ano; situação não é "alarmante", mas precisa ser monitorada com cuidado, diz cientista

A imagem de um mar inteiro borbulhando como um colossal copo de sal de frutas pode parecer engraçada. Mas cientistas da Rússia e dos EUA que observaram algo parecido com isso no Ártico garantem que não há motivo para rir: as bolhas são de metano, um gás-estufa poderoso, e seu vazamento em águas siberianas pode significar que um dos efeitos mais temidos do aquecimento global está em pleno curso.

O grupo liderado pelos russos Natalia Shakhova e Igor Semiletov, da Universidade do Alasca em Fairbanks e da Academia Russa de Ciências, afirma que metade das águas do mar do leste da Sibéria está supersaturada de metano em sua superfície. Em alguns pontos, a concentração do gás é cem vezes maior que a esperada. Em outros, até mil vezes. Reportagem de Claudio Angelo, Editor de Ciências, Folha de S.Paulo.

No verão, quando o mar descongela, o gás escapa para a atmosfera em bolhas, tão numerosas que podem ser detectadas por microfones na água.
O fenômeno foi mapeado por Shakhova e colegas entre 2003 e 2008, durante várias expedições ao mar do leste siberiano, uma região de 2 milhões de km2. “A quantidade de metano saindo da Plataforma Ártica Leste-Siberiana é comparável ao total que sai de todos os oceanos da Terra”, afirmou a cientista em um comunicado.

O gás vem de vários depósitos de permafrost, ou solo congelado, abaixo do leito marinho. Esses solos, resquícios da Era do Gelo ricos em matéria orgânica, se decompõem liberando metano, gás com 21 vezes mais potencial de esquentar o planeta do que o CO2.

Segundo os cientistas, a liberação de uma parte que seja do metano estocado no fundo do mar do Ártico poderia provocar um aquecimento global descontrolado, com consequências catastróficas. No entanto, o próprio permafrost age como uma “tampa” para o gás, que fica aprisionado na forma de compostos estáveis.

Mas “essa tampa de permafrost está claramente perfurada”, afirmou Shakhova. Segundo ela, o aquecimento das águas árticas nas últimas décadas está acelerando o processo de degradação do permafrost.

“Feedback”
O derretimento desses solos submarinos lança ao ano 8 milhões de toneladas de metano no ar. Ainda é uma fração mínima do total desse gás emitido no mundo. Porém, à medida que o aquecimento se intensifica, o vasto estoque de metano siberiano pode parar na atmosfera, provocando um “feedback” positivo: aquecimento causando mais aquecimento.

“Esses depósitos submarinos são uma fonte de metano diferente, que nunca havia sido considerada antes e que precisa ser monitorada”, disse Shakhova em teleconferência.

Segundo ela, o fato de que as águas da região são rasas -50 m, em média- torna o vazamento mais preocupante. “Não dá tempo de o metano ser oxidado ou degradado no mar. Ele vaza direto para a atmosfera.”

O geoquímico alemão Martin Heimann, do Instituto Max Planck em Jena, elogia o trabalho do grupo, que chamou de “evidência convincente” em comentário na “Science”. No entanto, ele diz que ainda não está claro o que causa as emissões. “Como ninguém tinha observado esse vazamento antes, não sabemos se ele resulta da lenta erosão do permafrost, ou se de fato foi disparado pelo aquecimento global”, disse Heimann à Folha.

O cientista diz que não está “nem um pouco alarmado” com o fenômeno. “Não vejo isso como uma catástrofe, certamente não como um ponto de virada climático”, afirma. No entanto, continua, “precisamos monitorar esse metano, porque ele pode de fato indicar um “feedback” positivo.”

Fonte: Eco Debate – www.ecodebate.com.br

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Grupo acha fóssil de superpredador gaúcho com 220 milhões de anos

REINALDO JOSÉ LOPES

Em meio aos membros diminutos e tímidos da linhagem que desembocaria nos mamíferos, havia um gaúcho feroz. Do tamanho de um lobo e com igual apetite por carne, o animal de uns 220 milhões de anos pouco devia aos primeiros dinossauros predadores, com os quais provavelmente conviveu.

O nome da espécie, que acaba de ser apresentada formalmente à comunidade científica por um trio de pesquisadores da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), não deixa margem para dúvidas: Trucidocynodon riograndensis.

"É um supercarnívoro", define a paleontóloga Marina Bento Soares, coautora do estudo sobre a fera na revista científica "Zootaxa", junto com Cesar Leandro Schultz e o aluno de doutorado Téo Veiga de Oliveira.

Por causa da preservação extraordinária do espécime ("o esqueleto está quase completo, até o osso ainda é branquinho", conta Soares), o trio achou que valia a pena uma descrição minuciosa, que ocupa um artigo de 71 páginas -raridade nas normalmente sucintas publicações científicas.

Os mamíferos de hoje foram precedidos por uma grande variedade de criaturas chamadas cinodontes, cujo esqueleto mescla elementos típicos de répteis e outros mais característicos dos mamíferos, ou "mamaliformes".

Segundo Soares, esse mosaico de características também aparece no Trucidocynodon, que não está na linhagem da qual os mamíferos são descendentes diretos.

Apesar disso, a postura geral do animal lembra bastante os elementos típicos de um mamífero caçador. Em vez da postura "esparramada" de animais como lagartos, cujos membros arqueados fazem o corpo se arrastar pelo chão, o predador gaúcho mantinha suas patas em posição ereta.

Ligeiro

Também há indícios de que, ao menos com os membros da frente, ele caminhasse apoiado nos dedos, e não na planta das patas. "Por isso, ele poderia ter hábitos mais cursoriais, ou seja, de corredor", afirma Soares.

É tentador associar o ar de lobo do esqueleto com a imagem de uma espécie que caçava em bando, mas a pesquisadora lembra que não há indícios desse tipo de comportamento entre cinodontes.

Por outro lado, é provável que o bicho já fosse coberto de pelos e tivesse sangue quente, porque essas características favorecem o estilo de vida ativo indicado pelos membros mais móveis desse e de outros representantes do grupo.

O tamanho e os caninos afiados fazem do bicho uma exceção entre os cinodontes gaúchos. "Foi uma surpresa, de fato", afirma a paleontóloga.

Quase todos os parentes do animal têm dimensões mais próximas das de ratos ou camundongos, sendo provavelmente comedores de insetos. O único contemporâneo de tamanho comparável é um herbívoro.

O curioso, porém, é que, conforme os milhões de anos se sucedem, "há uma tendência de miniaturização dos cinodontes", explica Soares.

Por algum motivo, são as formas pequenas ou muito pequenas que sobrevivem e acabam dando origem aos mamíferos, enquanto bichos maiores, como o Trucidocynodon, desaparecem.

"Ocorrem vários pulsos de extinção ao longo do Triássico [período geológico no qual a espécie viveu], mas o porquê do fim dos cinodontes maiores ainda não está claro", diz ela.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

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Decifração de um país

Humberto Pereira da Silva

A historiadora Lilia Schwarcz e o sociólogo André Botelho falam sobre o livro “Um Enigma Chamado Brasil”

O Brasil ocupa posição singular na América Latina. Único país colonizado pelos portugueses, com o processo de independência instituiu um regime monárquico nos moldes do da colônia e que sobreviveu por quase 70 anos.

Além disso, a catequização de diversos grupos indígenas com a presença dos jesuítas, os ciclos de riqueza –açúcar, ouro, café–, as dimensões continentais, mantida a fogo e ferro durante o Império, o regime de escravidão, que se manteve até seus estertores, e os fluxos migratórios e imigratórios dão ao país características próprias quando comparado ao restante das nações latino-americanas.

Dadas as características próprias de sua formação histórica, o Brasil se tornou um desafio para diversos pensadores sociais que procuraram compreender seu processo formativo, suas contradições, o sentido de identidade do “povo brasileiro”. Com o intuito de apresentarem um quadro com diversas e discordantes interpretações do Brasil, Lilia Schwarcz, professora de antropologia na Universidade de São Paulo, e André Botelho, professor de sociologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, organizaram o livro “Um Enigma Chamado Brasil: 29 Intérpretes e um País” (Companhia das Letras.).

Concebido a partir de um grupo de trabalho originário da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), uma das finalidades dos organizadores foi a de preparar um livro com uma linguagem acessível a não especialistas. “Partimos de estudos acadêmicos, mas nosso grande desafio era convencer os colaboradores que precisávamos alcançar um público leitor mais amplo”, diz Lilia.

A seguir, os organizadores discutem a seleção dos “intérpretes do Brasil” que fizeram para o livro e a pertinência das análises desses autores para a compreensão do momento presente do país. Apesar do destaque a interpretações discordantes, ambos sustentam que um ponto de inflexão entre os intérpretes é o acerto de contas com a questão da escravidão.

“Não dá para pensar a formação da sociedade brasileira sem discutir o papel da escravidão e, por conseguinte, da população negra. Diria mais: o fato de o Brasil ainda ser um ‘enigma’ tão mobilizador tem a ver em grande medida com a escravidão e o seu legado”, afirma Botelho.

***

“Um Enigma Chamado Brasil” reúne 29 “interpretações” do Brasil. Numa iniciativa assim, alguns nomes canônicos, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr., vêm à mente; numa iniciativa assim, também, pode-se pensar igualmente em ausências e “presenças fora do lugar”. No livro, nomes como André Rebouças, Gilda de Melo e Souza e Roberto Schwarz, não teriam tanto a pretensão de “interpretar” o Brasil, mas sim os condicionantes sociais de certo período histórico-cultural?

Lilia Schwarcz: Todos os autores, à sua maneira, são centrais. Dentre os que você cita, Rebouças representou a nascente da intelectualidade negra do Império, com seus anseios de igualdade. Roberto Schwarz é grande intérprete do Brasil. Basta notar, entre outros, sua visão sobre a “originalidade da cópia” ou os descompassos entre escravidão e liberalismo.

Gilda de Melo e Souza apresenta reflexão fundamental e absolutamente original, dentre outros, sobre moda e sua importância num país como o Brasil. Mas a melhor resposta está mesmo nos competentes verbetes de Maria Alice Rezende, Leopoldo Waizbort e Heloisa Pontes. Os autores mostram como existem maneiras diferentes, e igualmente importantes, de interpretar o Brasil. Enfim, são todos autores que a partir de entradas diferentes têm como perspectiva uma interpretação relevante do Brasil.

André Botelho: Uma das constatações do livro que organizamos é que o interesse, e mesmo o empenho, em interpretar o Brasil, de conhecer a sociedade como um todo, persiste após o bem sucedido processo de institucionalização das nossas ciências sociais; ainda que, naturalmente, isso seja feito agora de acordo com os critérios de cientificidade válidos em nosso tempo, o que sem dúvida implica em maior especialização disciplinar do que nas interpretações do passado.

Mas, mesmo quando se trata de um tema à primeira vista mais circunscrito, como a moda ou uma leitura dos romances de Machado de Assis, a visada geral da sociedade que ganhamos é impressionante. Isso tem a ver com a qualidade da abordagem dos autores, é claro, mas também com certas características da própria sociedade brasileira, que não lhes dá sossego ou segurança.

Com alguma provocação eu diria que, mesmo entre os autores dos verbetes, há alguns “intérpretes do Brasil” que poderiam tranquilamente figurar, pela importância e alcance das suas obras, como objetos do livro; e para citar apenas dois deles, penso nos professores Luiz Werneck Vianna e Sergio Miceli, e, sobre este último, aliás, eu mesmo já escrevi nessa chave.

Rui Barbosa, Celso Furtado, Alfredo Bosi, Dante Moreira Leite e Roberto da Matta teriam lugar entre os “interpretes” do Brasil?

Lilia: Eu concordo com você que outros autores poderiam entrar. Celso Furtado, Alfredo Bosi e Roberto da Matta, que você cita, são exemplos gritantes, assim como José Bonifácio. Nós tínhamos uma limitação temporal e pragmática, que era alimentada pelos temas e autores já trabalhados pelo grupo que se reúne na Anpocs (Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais).

Mas um livro como esse pode ser sempre considerado como uma obra aberta e vir a ser ampliado. Celso Furtado já estava na lista dos faltantes; o Bosi não estava, mas a partir de hoje estará também. Eu e o André (Botelho) estamos anotando todas as sugestões e, se possível, incluiremos novos verbetes, numa outra edição.

Por outro lado, se as pessoas partirem de outras áreas, vão encontrar novos autores fundamentais. Quer dizer, autores que se movimentam a partir da discussão na medicina, do direito, da engenharia e por aí afora. Enfim, essa é obrigatoriamente uma obra infinda, pensada nesses termos. Quem sabe venhamos a animar outras iniciativas nessas mesmas bases.

Mas eu acho que no formato do livro dá para perceber um padrão nas interpretações. O livro revela uma preocupação de situar historicamente a trajetória do intérprete e em fornecer elementos para a compreensão do Brasil.

Lilia: A ideia era um pouco essa. Partimos de estudos acadêmicos, mas nosso grande desafio era convencer os colaboradores que precisávamos alcançar um público leitor mais amplo. Por isso fizemos um livro sem notas, sem tantas referências e contando com uma linguagem mais accessível. A intelectualidade brasileira, de fato, encontra-se mais madura para um tipo trabalho como esse, que se abra para a sociedade em termos mais amplos.

André: Esse, de fato, é um dos desafios centrais para a intelectualidade brasileira do nosso tempo, especialmente para os cientistas sociais. A divulgação científica, entendida como a comunicação entre especialistas e o leitor leigo, é componente crucial não apenas do trabalho intelectual, mas de uma esfera pública democrática.

Qual foi o critério para a seleção das 29 “interpretações” do Brasil?

Lilia: Na verdade o que acontece é que -como está destacado na apresentação do livro- a ideia partiu de um grupo de trabalho, o que é uma raridade. Chama-se Grupo de Trabalho Pensamento Social no Brasil e se reúne todo ano na Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais). Ele tem se reunido inclusive mais de uma vez por ano.

Vários pesquisadores que colaboraram para a realização do livro já trabalham tradicionalmente com esses autores (Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., para citarmos apenas alguns nomes). Então, uma primeira seleção foi feita de maneira pouco ortodoxa. Ou seja, nós pegamos os trabalhos existentes no grupo, e fizemos uma seleção dessas pesquisas, visando um panorama amplo do pensamento social do e no país.

André: É isso que explica, inclusive, como dizia a Lília antes, a ausência de alguns intérpretes muito importantes nessa primeira edição do livro, o fato de a seleção ter operado num universo predefinido a partir das trajetórias dos pesquisadores ligados a este grupo de trabalho.

No livro há um tema que domina boa parte dos ensaios e mobiliza autores com perfis diversos. Trata-se da presença do negro na formação de uma identidade brasileira. Para vocês o acerto de contas com a questão racial é o problema mais saliente para “decifrar” o “enigma chamado Brasil”?

Lilia: Você tem toda razão; quer dizer, se você perguntar para o André a resposta seria talvez um pouco diferente. Eu penso que a questão racial no Brasil, sobretudo a temática da escravidão e a relação com a população negra, perpassa o pensamento brasileiro muito antes desses autores que nós reunimos.

Já Von Martius, em seu “Como Se Deve Escrever a História do Brasil”, escrito em 1843, colocava a questão do negro –ou melhor da mestiçagem- como um tema fundamental. O estudioso alemão, que fez expedições pelo interior do Brasil sob patrocínio do rei da Baviera, foi o primeiro a salientar a importância de escrever a história do Brasil tendo como elemento básico o caldeamento de raças.

Penso que a questão racial é o limite e a grande contradição para o pensamento social brasileiro em vários momentos da história nacional. Ocorre que o problema acaba sendo fundamental para uma série de autores –ora como elogio, ora como crítica. Se você tomar um autor como Nina Rodrigues, que é o que eu trato no livro, a questão negra é um problema sem metáfora; é um problema de fato para o Brasil, que vai marcar a ausência de futuro: sua degeneração.

Mas, se você tomar autores que guardam uma perspectiva mais culturalista, como Gilberto Freyre, a concepção será totalmente diferente. E aí vamos: de Manoel Bonfim até autores mais recentes, como Roberto Schwarz. A questão racial, especificamente a questão negra, é central para a compreensão desse enigma brasileiro; enigma aí tomado como contradição. Como pensar em modernidade e escravidão? Discriminação e inclusão oficial?

André: Eu concordo vocês. Não dá para pensar a formação da sociedade brasileira sem discutir o papel da escravidão e, por conseguinte, da população negra. Diria mais: o fato do Brasil ainda ser um “enigma” tão mobilizador tem a ver em grande medida com a escravidão e o seu legado. Mas eu não sou especialista no tema, ao contrário da Lília, cujos trabalhos são hoje referencias obrigatórias –recomendo particularmente a leitura do fundamental “O Espetáculo das Raças: Cientistas, Instituições e Pensamento Racial no Brasil: 1870-1930”.

Minha compreensão geral da questão racial também passa pelo tratamento dado a ela por Florestan Fernandes e seus assistentes. Eles mostraram como a não-integração dos ex-escravos à ordem social competitiva após a Abolição, bem como de parcela significativa dos homens livres pobres, constitui um dos indícios mais reveladores da forma conservadora pela qual se processou, entre nós, a modernização capitalista.

Lembro, por exemplo, da tese de Octavio Ianni, apresentada no livro por Elide Rugai Bastos, de que, no contexto da desagregação da ordem social escravocrata, a própria identidade de “negro” ou “mulato”, transfiguração do ex-escravo operada pela ideologia racial então dominante, cristalizou um conjunto de representações sociais que, ao fim e ao cabo, acabaram por mantê-los em situação de submissão na sociedade de classes emergente.

Por que a discussão racial entre nós persiste e gera polêmicas até os dias de hoje? A ponto de, creio, não ter em nosso calendário dia tão envolto em controvérsia como o da Consciência Negra.

Lilia: São questões de ordens diferentes. Eu tenho uma opinião particular sobre elas, que não tem a ver exatamente com o livro. Particularmente sou a favor, mas o dia da Consciência Negra é um dia polêmico porque no Brasil há a experiência de um preconceito silencioso, preconceito de ter preconceito (nos termos de Florestan Fernandes).

André: Entendendo que a complexidade envolvida na questão não permite de forma alguma respostas simples. E por isso não creio também que possa haver uma resposta unívoca para a centralidade da chamada “questão racial” na sociedade brasileira contemporânea. Eu diria, recuperando minha resposta a pergunta anterior, que isso ocorre, em parte, porque as escolhas do passado sempre trazem constrangimentos para as opções do presente.

A se considerar o sertanejo e o indígena como tipos ideais, ou arquétipos, vocês entendem que esses tipos humanos referem-se mais ao passado rural do que ao presente, com o rápido processo de urbanização do Brasil nas últimas décadas?

Lilia: Eu acho que não. Penso que o sertanejo, tal como tratado na literatura de início do século XX, guarda uma especificidade contextual, mas pode viajar no tempo e lembrar outras dicotomias -sertão/litoral, mas também questão urbana/rural; modernidade/barbárie. Nesse sentido, a questão urbana e rural no Brasil é ainda tema candente entre nós; representa um outro enigma e uma outra contradição. Ou seja, como é que se dá esse processo de construção da modernidade em países periféricos como o nosso? Quais são as fraturas da modernidade?

Temos assim uma questão presente, vista a partir de outras formas. Afinal, esse ano que passou mostrou como Euclides da Cunha não é bibliografia ultrapassada. Ele trata de grandes impasses ainda atuais: um Brasil dividido, os vários brasis, a impossibilidade de se pensar num país unificado. Essas questões continuam presentes, no meu entender.

André: Vou dar apenas um exemplo, para complementar a afirmação da Lília, de como o “rural” também está presente no “urbano”, e ainda o “passado” no “presente”. Como mostra Carlos Antonio Costa Ribeiro no livro “Estrutura de Classe e Mobilidade Social no Brasil’’ é imensa a “herança rural” da população brasileira, isto é, o fato da maioria das pessoas no mercado de trabalho urbano atualmente ter origem nas classes de trabalhadores rurais.

Dada nossa estrutura agrária historicamente marcada por concentração de terras e riquezas, isso se torna um problema. Daí que dentre os filhos de trabalhadores rurais, apenas 1,1 % tenha chegado às posições de profissionais qualificados, a mais alta hierarquia de classes, contra 60% que permaneceu em ocupações manuais não-qualificadas.

O sertanejo é hoje propriamente uma figura épica na literatura e no cinema. Como vocês entendem a atualidade de autores como Euclides de Cunha, Câmara Cascudo e Maria Isaura Pereira de Queiroz?

Lilia: Acho que respondi, em parte, essa questão. A importância de uma maneira geral, de um livro como esse –sem descurar que os autores sempre dialogam com seus contextos–, é que todos eles, no nosso entender, trafegam, tratam e iluminam questões que são importantíssimas para pensar embates contemporâneos, cada um à sua maneira. Maria Isaura com a questão do mandonismo, Câmara Cascudo com o tema do folclore, Euclides com a problemática dos vários brasis.

Lembro sempre da frase de Macunaíma: triste do país sem memória. Esses são, pois, autores presentes, não ultrapassados no sentido evolutivo. O pensamento social se faz sempre a partir de continuidade e rupturas. Acentuar quebras é importante, mas encontrar famílias, tradições, continuidades é tarefa urgente, para não estarmos sempre “inventando a roda”.

André: A orientação positivista hegemônica nas ciências sociais até muito recentemente explica, em parte, a expectativa difusa de que a “ciência” praticada hoje teria plenas condições de solucionar as questões pertinentes colocadas pelas interpretações mais antigas. O problema é que várias questões que já foram objeto da reflexão dos nossos antecessores estão vivas no presente, como, por exemplo, a questão racial que você mesmo lembrou anteriormente.

Mas eu gostei muito da imagem do Macunaíma que a Lília usou. E creio que, em parte, foi isso mesmo que procuramos com o livro: contrariar o destino mais costumeiro reservado à nossa intelectualidade do passado (e não apenas a ela), que é viver o “brilho inútil das estrelas”, como Mario diz na rapsódia.

Nossa intenção ao recolocar as interpretações do Brasil em circulação para um público-alvo mais amplo do que o acadêmico não era afirmar necessariamente a sua validade cognitiva, embora isso seja possível em vários pontos; mas antes favorecer o reconhecimento de que são também forças sociopolíticas. Quer dizer, reconhecer que as formulações do pensamento e das ciências sociais do passado e do presente não são meras descrições externas do mundo, mas também participam, desde dentro, da orientação das condutas de indivíduos e grupos sociais e da modelagem das próprias instituições.

A interpretação deles ainda dá conta dos problemas do Brasil de hoje, na medida em que há elementos que talvez não se coadunem ao presente?

Lilia: Nunca se dá conta de tudo, e seria anacronismo cobrar isso deles. Afinal, muitos desses intérpretes não poderiam refletir sobre temas que desconheciam; como a globalização, por exemplo. É importante também você pensar como esses autores inauguram tradições na história do pensamento.

Essa é uma forma importante de relativizarmos nossos autores contemporâneos. Muitas vezes eles se remetem a tradições, releem, retraduzem pensadores do passado. Interpretações não surgem do nada, ou do exercício da genialidade isolada. Entender como o debate vem se nutrindo de outras perspectivas do passado é um dos objetivos dessa coletânea.

André: Concordo com a Lília, e acho que já respondi à questão anteriormente, ao menos em parte. Acrescentaria apenas que, mesmo considerando as mudanças notáveis dos últimos anos, a estrutura básica sobre a qual nossos autores do passado refletiram e nós prosseguimos desafiados a refletir, talvez, não tenha sido exatamente alterada substantivamente do ponto de vista social e político e nem mesmo esgotada em termos intelectuais. Como diz Theodor Adorno, o passado só estará “plenamente elaborado”, de fato, quando “estiverem eliminadas as causas do que passou”.

Como vocês veem o tema da violência nos grandes centros à luz de “interpretações” do Brasil, como a de Sérgio Buarque de Holanda, e seu pressuposto da “cordialidade”? A lhaneza no trato, como defende Sergio Buarque, sobrevive às relações conflituosas no ambiente urbano?

Lilia: Quando Holanda se refere ao homem cordial, ele não está obrigatoriamente fazendo o paralelo da não violência. Se o leitor tomar o interessante verbete de Robert Wegner, que escreveu sobre Sérgio Buarque, ou o próprio “Raízes do Brasil”, verá que a ideia é em tudo contrária a essa. Cordial vem de “cor”, de “coração”, e o problema no Brasil é que nós tratamos tudo na esfera da privacidade, e não apontamos para as instituições públicas.

Tal descompasso gera, sim, muitas formas de violência; e tal perspectiva nada tem não tem a ver com cordialidade, no sentido de boa convivência. Corrupção, nosso mau uso da máquina publica, a fragilidade institucional, são temas contemplados pelo professor Sérgio. Como você vê, mais uma vez não se trata de tema suplantado pelo tempo.

André: Exato. A violência é a contrapartida necessária da cordialidade, e ambas ganham significado particular tendo em vista a sociedade brasileira marcadamente pessoalizada, quer dizer, avessa ao tratamento impessoal e universal, que Sérgio Buarque, e outros autores, tinham em vista.

É o “código do sertão”, como dirá anos depois Maria Sylvia de Carvalho Franco (em “Homens Livres na Ordem Escravocrata”), ou seja, um padrão societário de ajustamento das relações sociais centrado no recurso à violência como forma normal, institucionalizada, positivamente valorada e moralmente legitimada de resolução de tensões e conflitos.

Entre os intelectuais com ciclos de aceitação e rejeição no Brasil, lembro de Oliveira Vianna. Na medida em que seu pensamento se volta para a proposta de um Estado autoritário, qual é a importância hoje dada a ele? Em que medida um pensamento de matiz autoritário ajudaria a “decifrar” o Brasil?

Lilia: Essa questão fica para o André, que é um grande especialista em Oliveira Vianna. Sugiro também que o leitor vá rapidamente para o verbete escrito por Angela de Castro Gomes, um verdadeiro primor. O que eu diria mais especialmente é que, se a biografia desse pensador é importante, a obra nem sempre se resume a ela.

Também destacaria que existem diferentes Oliveiras Viannas. O Oliveira Vianna de “Raça e Assimilação”, que propõe um projeto de eugenia; o Oliveira Vianna pensador do Estado, dos problemas do privatismo, que é do maior interesse. Então, penso que não é possível colar as possibilidades heurísticas e analíticas da obra à biografia de um autor como Vianna. Se não, o que seria do Pirandello, por exemplo.

André: Entendo que, apesar da posição política pessoal de um autor, ou mesmo das relações estabelecidas entre suas ideias –intencionalmente ou não– e determinados projetos políticos, sua obra guarda sempre diferentes dimensões. O caso de Oliveira Vianna me parece exemplar. Destaco três motivos, a começar pelo fato, destacado pela Lilia, de que suas idéias não permanecem as mesmas ao longo de sua vida, nem foram sempre vencedoras nos embates intelectuais e institucionais que travou.

Em segundo lugar, pode-se lembrar que, quando passamos dos aspectos mais salientes –e mais datados– da obra e da trajetória de Oliveira Vianna e de sua recepção, e entramos nos aspectos teóricos mais gerais que encerra, é possível identificar um conjunto de proposições que conferem interesse mais amplo à sua sociologia política para além do sentido autoritário normativo a que está originalmente associada.

Por fim, lembraria que o menosprezo por determinados autores ou tradições intelectuais, como o pensamento autoritário, levou, frequentemente, a que se negligenciasse a vigência dessas formas de pensar no âmbito da cultura política. O que não deixa de ser ingênuo. Afinal, como já sugerimos, as ideias também são forças sociais e operam na orientação de condutas individuais e coletivas, além de contribuírem na configuração de instituições e processos culturais, políticos e sociais.

A questão anterior me faz pensar em nomes que foram influentes para a sustentação teórica do regime militar nos anos 60 e 70: Roberto Campos, Mario Henrique Simonsen, Golbery do Couto e Silva, hoje um tanto quanto esquecidos. Para vocês estes autores, da mesma forma que Oliveira Vianna, carecem de melhor avaliação de suas fortunas críticas para que possamos ter uma melhor aproximação de suas ideias?

André: Pelos motivos expostos na resposta anterior, minha opinião é que conhecer as interpretações desses autores e atores políticos, como quaisquer outros, constitui, sim, condição para uma compreensão mais detalhada dos processos recentes vividos pela sociedade brasileira.

Lilia: Não há qualquer veto a esses autores. Mas também penso que tomamos autores que possuem uma obra interpretativa do país. Na minha opinião, não há como limitar o pensamento desses autores a uma trajetória política. Se sim, então não mereceriam um verbete. O próprio Fernando Henrique foi selecionado, menos como político e mais a partir de sua obra, como pensador. Ao menos foi esse o desafio que demos para o Leôncio Martins Rodrigues, e foi isso que ele fez, com grande desenvoltura. Enfim, não se analisa uma obra desgarrada da biografia. Mas a biografia não é uma trava a condicionar a produção autoral.

De Fernando Henrique Cardoso, creio, uma questão básica é discutir a convivência entre o intelectual e o exercício do poder. Para vocês, no período em que foi presidente da República, como FHC lidou com as tensões entre o intelectual, seu pensamento, portanto, e o poder?

Lilia: Essa é uma questão muito difícil. Eu não me considero uma especialista em Fernando Henrique e concordo que essa relação entre o intelectual e o político não é de fácil doma. Eu acho que a grande inteligência do texto de Leôncio Martins Rodrigues é justamente a de investir nessa fronteira nada fácil. Por que Fernando Henrique foi selecionado para o livro, e não o Lula?

Nós tentamos tomar Fernando Henrique Cardoso como intelectual. Então é a questão da análise das suas obras que mais interessa. Ele está no livro como pensador, por mais que as duas esferas não se separem. Caso contrário, teríamos que fazer uma obra sobre políticos e suas ações; o que resultaria em outro livro. Interessante, sem dúvida, mas outro livro.

André: A inclusão de Fernando Henrique Cardoso no livro deve-se ao reconhecimento que a sua obra sociológica possui não apenas no Brasil, mas no mundo acadêmico em geral. Obra reconhecida como fundamental muito antes da Presidência da República, e isso continuará, a meu ver, pois ela é parte de um projeto intelectual muito consistente.

Sua interpretação sociológica da modernização capitalista em sociedade periféricas é fundamental. Interpretação desenvolvida tanto em relação à sociedade brasileira, como em “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional” e “Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico”, como às sociedades latino-americanas em geral, como em “Dependência e Desenvolvimento na América Latina”.

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

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“O poder revela quem somos”

Um pesquisador americano diz como o poder nos torna mais corruptos, mesquinhos e hipócritas

ISABEL CLEMENTE

Dizer que o poder corrompe é um antigo chavão. A novidade é que esse velho axioma acaba de ser comprovado cientificamente em um trabalho de pesquisadores da Kellogg School of Management, nos Estados Unidos. Após uma série de testes comportamentais com voluntários, eles demonstraram como o poder costuma, em geral, mudar as pessoas para pior. Em testes, os poderosos não só trapaceavam mais, como se mostravam mais hipócritas ao se desculpar por atitudes que condenavam nos outros. “Os poderosos acreditam que devem ser excluídos de certas regras”, afirma o psicólogo social Adam Galinsky, professor de ética e decisões em gerência da Kellogg School of Management e um dos autores do estudo.

 Divulgação
QUEM É
Americano de 41 anos, é Ph.D. em psicologia social pela Universidade Princeton
O QUE FAZ
Professor de ética e decisões em gerência da Kellogg School of Management, nos Estados Unidos
O QUE PUBLICOU
Mais de 75 artigos científicos. É coautor do estudo Power increases hypocrisy (O poder aumenta a hipocrisia)

ÉPOCA – O poder corrompe?

Adam Galinsky – Sim, corrompe. Basicamente, apesar de o poder deixar as pessoas no centro das atenções, de estarmos todos olhando para as autoridades, os poderosos se sentem psicologicamente invisíveis. E, por causa dessa sensação de invisibilidade, eles se permitem agir de maneiras imorais, ao passo que outras pessoas não agiriam assim por medo de punição. É como se ficassem à vontade para preencher suas mais íntimas necessidades. Uma das comparações de que gosto de fazer é a história do Senhor dos Anéis. No momento que ele põe o anel, fica invisível e age mal. O poder é esse anel.

ÉPOCA – Como o senhor constatou isso?

Galinsky – Fizemos vários experimentos. Um deles foi com um jogo de dados. Dividimos os voluntários para a experiência em dois grupos: os muito poderosos e os pouco poderosos. Isolamos os grupos em um cubículo. Dissemos a cada um que eles ganhariam bilhetes para uma loteria conforme os pontos obtidos ao jogar os dados, que poderiam variar de 0 a 100. A média esperada era de 50 pontos. O grupo pouco poderoso anunciou ter obtido um resultado de 59 pontos, enquanto o grupo muito poderoso disse ter obtido 70 pontos. A conclusão é que o grupo pouco poderoso pode ter trapaceado com os dados, mas o muito poderoso trapeceou muito mais para conseguir mais bilhetes de loteria.

ÉPOCA – O senhor diria que a melhor s maneira de testar a identidade moral de um indivíduo é dar poder a ele?

Galinsky – Sim, porque o poder não apenas muda a pessoa, mas revela quem ela é de verdade. Podemos afirmar, a partir dessa pesquisa, que a experiência do poder provoca certas mudanças no ser humano – e a maior é torná-lo hipócrita.

ÉPOCA – A pesquisa chega a essa conclusão a partir de questões que envolvem superfaturar despesas de viagem ou ultrapassar o limite de velocidade. Quem faz isso está mais propenso a se tornar corrupto se chegar ao poder?

Galinsky – Em média, muitas pessoas, quando investidas de poder, tornam-se mais mesquinhas, afrouxam seus padrões éticos. Você está me fazendo uma pergunta diferente: se as pessoas que agem sem ética provavelmente se corromperiam no poder. “Provavelmente”, é a minha resposta.

"Quando estão fora do poder, as pessoas dizem: ‘Eu nunca agiria
dessa forma’. Mas a verdade é que, no poder, muitos mudam"

ÉPOCA – Por que o senhor afirma que os poderosos, quando flagrados, mostram-se pouco arrependidos?

Galinsky – Por causa de um processo psicológico mostrado na pesquisa: os poderosos acreditam, de fato, que eles devem ser excluídos de certas regras e padrões aplicados aos demais. Ou então eles apresentam justificativas psicológicas para ter agido como agiram.

ÉPOCA – Executivos e políticos mostram-se incomodados quando o senhor comenta com eles esse tipo de comportamento?

Galinsky – Quando estão fora do poder, as pessoas dizem: “Eu nunca agiria dessa forma”. Temos a tendência de acreditar que não temos a mesma vulnerabilidade e que não corremos os mesmos riscos dos outros. Mas a verdade é que, investidos de poder, muitos mudam. Somos suscetíveis. A pesquisa mostra, sistemática e cientificamente, que não só as pessoas agem imoralmente quando podem, como elas se tornam hipócritas. Defendem padrões comportamentais mais rígidos para os outros do que para si mesmas. Foi o caso do governador de Nova York, Eliot Spitzer, que traiu a mulher com uma prostituta. Veio à tona depois que ele, como procurador-geral do Estado, combatia a prostituição. É nesse ponto que os poderosos caem do pedestal e a sociedade se revolta. Se eles apenas agissem mal, seria ruim, mas ainda por cima pregar o contrário do que fazem… A hipocrisia revolta. Vocês, por exemplo, têm um governador preso por obstruir a Justiça (José Roberto Arruda, governador afastado do Distrito Federal). Um governador é alguém que defende leis e comportamentos para a sociedade. Quando um político age assim, é mais revoltante do que executivos de empresas – porque executivos não necessariamente posam de modelo comportamental para os outros.

ÉPOCA – Nessa era de Big Brothers, em que câmeras revelam até gestos das autoridades em lugares onde elas pensam estar protegidas, não é mais difícil agir de forma hipócrita?

Galinsky – Não é uma questão de ser vigiado, mas de se sentir conectado à coletividade e obrigado a prestar contas aos outros. Mera vigilância nem sempre é eficaz e tende a dissipar seu efeito com o tempo, porque não é um processo que internaliza no indivíduo essa noção de que ele deve se explicar.

ÉPOCA – No Brasil existem cortes judiciais e celas especiais nos presídios para políticos, pessoas com nível universitário e autoridades. Isso reforça a crença de que os poderosos são pessoas diferentes?

Galinsky – Essa é uma questão mais complicada. Se as cortes especiais forem mais lenientes, daí você reforça o problema do tratamento especial. Se esses julgamentos forem mais rápidos e defender altos padrões éticos e legais para os poderosos, podem servir para reforçar que ninguém está acima da lei. É muito fácil para as pessoas que conquistaram certos postos atuar pelo bem delas mesmas, em vez de trabalhar pela coletividade, que as colocou lá. Costumo dizer em minhas aulas que é preciso criar algemas para os honestos: como podemos garantir que ninguém se sinta tentado a trapacear? Por isso eu nunca dou provas para fazer em casa. A tentação para fazer consultas é enorme.

ÉPOCA – A punição é capaz de conter essa tendência humana de agir mal?

Galinsky – O melhor caminho é fazer com que os poderosos tenham de prestar contas. O Congresso tem de fiscalizar seus políticos, o governo e dividir o poder com eles. Os processos decisórios têm de ser transparentes. Os políticos têm de estar na vitrine da sociedade, bem visíveis. No mundo dos negócios, os altos executivos também têm de ser monitorados pela diretoria, pelos conselhos. Se a diretoria for uma rede formada por “mais dos mesmos”, ou seja, por indivíduos poderosos com o mesmo padrão comportamental, aí ela não exerce sua função de controlar o presidente, que se sente, por isso, invisível para os demais. Isso resulta em histórias parecidas com as da Enron e da World Com (empresas que faliram em 2001 em meio a graves escândalos de corrupção). O combate à falta de ética e à imoralidade passa pela divisão de poder. O Executivo tem de precisar do Legislativo, porque aí há um equilíbrio quase natural de forças.

ÉPOCA – O senhor ficou surpreso com algum resultado de suas experiências?

Galinsky – Não, mas, se num experimento comportamental em que o poder não é uma força real acontece isso, imagine no mundo real, onde as pessoas lidam com o poder de verdade?

Revista Época

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Nas entranhas da invenção

Projeto recupera trajeto da criação de Mário de Andrade

Carlos Haag

© Reprodução do livro A imagem de Mário; fotobiografia de Mário de Andrade/Mário, 1938

“Isso corria o mês de abril. Peguei um resto de caderno em branco, e na letrinha pentea-da dos calmos começos de livro comecei escrevendo. Mas logo a letra ficou afobada, rapidíssima, ilegível para os outros, frases parando no meio com ortografias mágicas em que tanto eu botava um ípsilon na palavra ‘caderno’, como um hífen em ‘jardim’, eu escrevia com fogo. Tudo vinha dócil, pressentido com ardor apaixonado, numa adoração de mim, da minha possível inteligência, como poucas vezes me tenho gozado assim tão fácil nesta vida”, descreveu Mário de Andrade (1893-1945) sobre seu processo criativo. Como seria igualmente fácil a vida dos pesquisadores envolvidos em recriar esse processo hoje se houvesse mais textos como esse, tão explícito sobre o labor da gestação de um livro. Daí a importância do projeto temático sediado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), Estudo do processo de criação de Mário de Andrade nos manuscritos de seu arquivo, em sua correspondência, em sua marginália e em suas leituras, apoiado pela FAPESP, coordenado pela professora Telê Ancona Lopez. “O que se pretende é descobrir como se deu toda a organização de uma invenção em busca do processo criativo. O IEB centraliza a maior parte dos dossiês de fólios deixados pelo escritor. A partir de todo esse material vai ser possível recuperar o trajeto de uma criação”, explica a pesquisadora.

O objeto de estudo são 102 manuscritos em posse do IEB-USP e a classificação será divulgada em um banco de dados, um catálogo analítico (catálogo raisonné) dos manuscritos literários e um índice dos títulos de todas as áreas, acompanhado de uma cronologia da criação e da publicação. “A novidade do catálogo é que se tenta montar o trajeto de criação. Os pesquisadores vão poder examinar o manuscrito no fac-símile e vão contar com a trajetória montada no dossiê, bem como com as notas de pesquisa que justificavam os caminhos tomados na organização e todas as outras informações encontradas”, avisa Telê. “Será um celeiro de pesquisas.” A classificação, no catálogo e no índice, prolonga-se na produção de cópias em fac-símile escaneadas e na microfilmagem de todos os fólios, como um recurso extra para salvaguardar os documentos do uso pelos pesquisadores. Tudo virá em detalhes: dimensão do papel usado, que tipo de caneta foi empregado na escrita do poema ou na correção de um texto, a cor etc. “Há mesmo o caso interessante do poema em que as dobras feitas mostram que Mário andou com ele no bolso, indicando que o mostrou para outras pessoas, que estava preocupado com sua escrita e assim por diante, um mistério que pode ser resolvido pelo pesquisador interessado em crítica genética e na vivência do documento. Esse tipo de análise também nos permite datar documentos por meio da comparação da filigrana do papel etc.”, afirma Telê. Outro resultado do projeto é a parceria com a editora Agir, que está publicando a obra completa de Mário de Andrade a partir de edições feitas pela equipe do temático e que já resultaram em novas versões de Amar, verbo intransitivo, Macunaíma, Obra imatura, Os contos de Belazarte, entre outros, e que vai trazer, em maio, na nova edição de Poesias completas uma série de poemas inéditos de Mário, que o escritor havia pensado em publicar, mas descartou na versão final.

Mário era um constante revisor de si mesmo em suas obras, sempre ocupado em dar uma última mão de tinta em seus escritos e deixando um espaço para mais um retoque futuro. Assim, o seu imenso arquivo pessoal de fólios deixados para a posteridade, reveladores de uma criação sempre em movimento, nunca terminada, zelosamente guardada. “O escritor, um arquivista de si mesmo, identificou e separou conjuntos documentais no fundo que compôs durante sua vida, armazenando-os em uma estante e uma grande cômoda na sua casa à rua Lopes Chaves, em São Paulo.  Na série Manuscritos Mário de Andrade, os documentos do processo criativo abrigam trajetos a serem decodificados nos dossiês de inéditos, os maiores e mais ricos montados pelo escritor em envelopes verdes e pastas de cartolina, estas por sua vez reaproveitadas, como nos conta a sobreposição de cabeçalhos rabiscados”, conta Telê. “Itinerários são decodificados ou estabelecidos por via da análise e interpretação sujeita a percalços e enganos. Esse trabalho, na realidade, deve sempre se lembrar que os dossiês não integralizam materialmente o processo criativo, tanto o do artista das letras e das artes como o do ensaísta nas ciências humanas. A criação ultrapassa dossiê, arquivo e, sobretudo, a própria materialidade, ao jogar, neste último ponto, com a psique do escritor.” Daí o trabalho da equipe em cruzar um manuscrito com outras fontes do arquivo como cartas (o IEB-USP concentra a maior coleção de correspondência ativa e passiva do autor de Macunaíma), entrevistas, outros manuscritos, marginália de livros, enfim, tudo o que possa iluminar a leitura de uma dada obra e esclarecer o trajeto criativo de Mário, fazendo então da biblioteca do escritor o seu locus creationis, o espaço criativo por excelência, o caldeirão onde colocará os ingredientes capazes de gerar a mistura “ideal”, por mais efêmera que seja.

Um conceito importante na criação de Mário são os “exemplares de trabalho”, como eram apelidados os manuscritos de textos impressos de livros ou periódicos em que ele cristalizava novas versões das obras ao colocar suas rasuras criativas com tinta preta ou a grafite, lápis vermelho ou azul. Os exemplares de trabalho juntam-se a notas, versões, planos etc. nos dossiês que os conservam. Após enviar para a editora o texto escrito e receber de volta as provas, o escritor se punha a rabiscar nos seus exemplares de trabalho as modificações que desejava. “Crítico austero do próprio labor, Mário, nos exemplares de trabalho, assume sua pena de Sísifo até o final da sua vida. Em 1944, na capa de um Macunaíma da reedição Martins daquele ano, em cujos cadernos nem sequer passou a espátula, anota apressado, fechando parênteses que não abriu: ‘Exemplar corrigido para servir a futuras reedições/M.’”, diz a pesquisadora. Ao mesmo tempo, o esforço com os exemplares de trabalho nem sempre era passado adiante. “É curioso perceber que ao poupar os exemplares de trabalho, passando a limpo as rasuras em outra cópia do livro, esta endereçada ao prelo, o copista Mário, que assim age interessado talvez no confronto com o texto na nova edição, cochila ou cumpre com displicência a tarefa. O cotejo das rasuras nos exemplares de trabalho de Amar, verbo intransitivo e Macunaíma com os respectivos textos na segunda edição aponta a ausência de certas reformulações”, observa Telê.

Nesse ponto é possível perceber a noção assumida por Mário em sua criação da rasura, não como correção (salvo nos casos em que a gramática ou a coerência são feridas), e sim como nova possibilidade descoberta durante o processo criativo, acima da noção pragmática de certo ou errado, em especial em projetos literários como os dele que têm o movimento e a inacabilidade como traços essenciais. Nesses casos, o exemplar de trabalho aparece como manuscrito de obra, dono de uma tipologia e uma dinâmica em todas as áreas de atuação de um polígrafo como o autor de Macunaíma. Um exemplo notável é novamente Amar, verbo intransitivo, criado e recriado entre 1927 e 1944 por Mário e fruto de sua correspondência e amizade com Pio Lourenço Correa, o tio Pio, em verdade um primo e amigo com quem manteve intensa troca de cartas entre 1917 e 1945. As rasuras no exemplar de trabalho do livro, lançado na fase heroica do modernismo, mostram um escritor menos afoito na sua defesa do freudismo e do cientificismo e mais flexível em aceitar as sugestões do tio Pio em coisas como o emprego do “pra” que o amigo prefere na sua forma “para”. Na página de rosto do exemplar rasurado escreve: “A edição deverá obedecer à ortografia oficial brasileira… do momento” com a mesma tinta em que corrige o “intransitivo”, agora grafado com “s” e não com “z”. Assim a segunda fase da criação toda acontece nesse exemplar rasurado e acontece entre 1942 e 1943 com Mário já um nome conceituado nas letras brasileiras. “Vem um amigo para revermos as provas do futuro Amar, verbo intransitivo, que sai bem remodelado. Vamos ver se melhora um bocado”, escreve ao crítico Álvaro Lins em 1944, mostrando a importância da correspondência mais uma vez na consolidação do entendimento da trajetória da sua criação, assim como fora com o tio Pio.

© Mário, 1932/foto de gilda de moraes rocha

Mário em foto de 1932: corrigindo suas obras sempre

“As cartas são o espaço onde ele encontra o entendimento de processos, caminhos, escolhas, algo como um diá-rio de produção de Mário. Ao mesmo tempo, ao contar algo dele, ele suscita no outro uma reação: é um work in progress. Não se trata de uma obra fechada, mas há espaço para o outro que dialoga com ele dar palpites, intervir no processo criativo de Mário”, explica Marcos Antonio de Moraes, do IEB-USP, coor-denador associado do temático, responsável pela correspondência do autor de Macunaíma. “Está claro que certas palavras, certos vocativos, por mais que me psicanalise, não consigo descobrir donde vieram. Mas vibram como palavras, são expressões-palavras que me parecem sugestivas e por isso deixei elas assim mesmo”, escreveu Mário em carta a Carlos Lacerda. “Ele reconhece que não sabe por que fez isso ou aquilo, mas o desejo de conhecer o mecanismo de criação impõe-se ao escritor, ao recusar a ideia do processo criativo domesticado. Mário parece impor a moral do artista verdadeiro: o ser fatalizado, consciente de sua técnica expressiva e insaciável pelo conhecimento dos subterrâneos de si e sua arte ou, como escreve a Drummond, ‘Faz uns dois anos ou pouco mais que eu me apaixonei pelo fenômeno da criação estética’”, explica o pesquisador. O diálogo mais intenso inicia-se com Bandeira e depois transfere-se para Drummond quando a conversa com o primeiro sobre os mistérios da criação parece estar se esgotando. “Principiei dando atenção mais cuidadosa aos meus processos de criação. Não pra modificar coisa nenhuma, não por conhecer a menor insinceridade nos meus processos de criação, mas para verificá-los”, escreveu ainda para Lacerda.

“Localiza-se na correspondência de Mário uma constelação de depoimentos que permitem ao estudioso da crítica genética acompanhar o tortuoso processo de produção de um texto em suas diversas etapas”, nota Marcos. Ao mesmo tempo, continua o pesquisador, Mário atuou diretamente sobre o processo de criação de artistas como Di Cavalcanti, Brecheret, Mignone, Guarnieri, Anita Malfatti, Cícero Dias, entre outros. “Ele e os artistas plantam no terreno da carta a expressão essencial de seu trabalho, desenhos como expressão lúdica e esboços de obras em processo ou concluídas, desejando compartilhar o trabalho de invenção e, ao mesmo tempo, aspirando a eventuais sugestões do amigo que muitas vezes atuou como crítico de arte na imprensa. A carta torna-se território da criação e o processo de autoria se esfacela na criação a quatro mãos na troca de experiências, versos, ideias etc. Isso é totalmente moderno e o instrumento são as cartas”, diz Marcos.

Mas, polígrafo exemplar, o arquivo de Mário também guarda a sua paixão pela música com partituras anotadas, cartas a compositores, textos sobre crítica musical, entre outros manuscritos que revelam seus diálogos com compositores e, mais importante, a sua  coautoria, verdadeira parceria em obras musicais como a ópera Malazarte e a inacabada Café, em que sua participação não se restringiu ao libreto, mas também se refletiu na construção musical. “Da mesma forma em que há um espaço ocupado pela escrita literária, há um Mário que se ocupa da escrita musical, o Mário musicólogo que além de pensar versos pensa a música e quer o desenvolvimento de uma estética nacional”, observa Flávia Toni, do IEB-USP, coordenadora adjunta do temático responsável pelos manuscritos musicais. Além da coautoria nos grandes projetos musicais de compositores como Camargo Guarnieri ou Mignone, Mário também expressou sua criação por meio da música. “Há uma partitura em que se pode ver o desenho do que seria a Pequena história da música e em outra há um poema inédito composto após ele ler a música para piano. Existem três músicas, tentativas tímidas, de composições populares, compostas por Mário, mas podem existir outras”, diz Flávia.

É nas cartas, porém, que o escritor inspira os amigos a criar. Numa delas, conta a pesquisadora, arranja uma forma bastante peculiar de “arrancar” de Villa-Lobos as Cirandas “de caso pensado, sabendo que ia dar certo”, usando como argumento um compositor chileno, Humberto Allende, compositor das Doze Tonadas, melodias populares para piano, feitas para serem tocadas por alunos.

“Sei que isso é bem elementar para você e nem ousaria pedir algo assim para um compositor da sua estatura, mas nem imagino quem no Brasil, além do nosso grande Villa, seria capaz de compor algo no estilo do Allende.” O peixe musical morde a isca e em breve saem as Cirandas nos moldes desejados por Mário, cujo nacionalismo, na contramão do de Villa, preconizava melodias mais folclóricas, como as das Cirandas, algo que era difícil de se arrancar do compositor carioca. O diálogo era muito mais fluido com o paulista Camargo Guarnieri, músico favorito de Mário, com quem gostava de ouvir discos em sua casa e de quem foi um interlocutor privilegiado. Pedro Malazarte, como já se disse, teve, na sua concepção, para além do libreto, a coautoria de Mário e, agora, graças às pesquisas do temático, feitas por Flávia, descobriu-se o aprofundamento dessa parceria em duas melodias inéditas colhidas pelo escritor em 1927, em sua primeira viagem pelo país, e ofertadas ao músico (que as guardou em seu arquivo nos originais de Mário) e as usou na ópera.

“Também há muitas análises de quase todas as óperas de Carlos Gomes, o que mostra uma vontade não apenas de atuar sobre o seu presente, mas também de tentar entender o passado, acompanhar a criação da ópera no Brasil”, fala Flávia. Para a pesquisadora, Mário parecia repetir, na música, a mesma busca feita em meados dos anos 1920, quando da escrita de Gramatiquinha da fala brasileira. “Ele pretendia dar conta do passado ao futuro musical brasileiro, construir um dia uma ‘gramática’ da construção musical brasileira, ou seja, usar determinadas construções sonoras para criar música, da mesma forma que se usavam palavras para criar versos.” O temático vai igualmente recuperar um diálogo perdido nas cartas. Sempre que recebia cartas com informações para o seu Dicionário de música, nos anos 1930, o escritor colocava a correspondência na seção de manuscritos em vez de na de cartas, já que essas entravam no processo de criação. Agora esse fluxo será restabelecido.

Por fim, a marginália dos livros como manuscrito. “O que se percebe é um diálogo, já que leitura anotada, um movimento na pesquisa do artista que se desenrola em consonância com suas obsessões, subentende crítica, seleção e assimilação. A marginália em Mário é seara e celeiro convivendo paralelos ou fundidos nos arquivos da criação”, analisa Telê. “As notas marginais autógrafas fazem parte do percurso do universo da criação de outros textos e, na medida em que se enquadram no percurso da escritura, duplicam a natureza documental do livro. Assim, ao texto impresso da biblioteca soma-se o manuscrito. Transformando ou selecionando, nas margens, a matéria do autor, tecendo comentários em uma leitura crítica lateral, o escritor promove uma  coexistência de discursos. Esse diálogo exibe o texto nascente que se defronta com uma criação no estágio final, isto é, o livro alheio oferecido ao público.” A marginália pode funcionar, no caso do escritor como matriz implícita, quando se depara com um livro de anotações autógrafas, mas que, ainda assim, se sabe que influenciou o trabalho de Mário, como, por exemplo, Les villes tentaculaires precedées de Les campagnes hallucinées, de Emile Verhaeren, matriz confessada em cartas não apenas do título, mas do conteúdo de Paulicéia desvairada.

Tudo isso não passaria de mera investigação fria e impessoal se não servisse ao autor e a seus leitores. Para tanto há a bela história de Os contos de Belazarte, que revela a necessidade de acompanhar a criação sempre em movimento de Mário, nunca terminada com seus muitos e infindos exemplares de trabalho. Em 1968, em plena ditadura militar, Valentim Faccioli, estudante de direito e revisor de uma editora, viu um livrinho cor de vinho calçando a mesa em que trabalhava. Ao pegá-lo viu que era um boneco de Belazarte (que, entre outros contos, trazia “O besouro e a rosa”) cheio de anotações feitas a lápis que julgou feitas pelo autor. Preso, perdeu o emprego e abandonou a universidade. Anos mais tarde, já professor da USP, resolveu entregar o livrinho para o IEB-USP, que, agora se sabe, é um documento importantíssimo, um exemplar de trabalho com anotações de Mário de Andrade. Para felicidade do escritor, as correções chegaram em tempo.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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O mundo sem petróleo

Previsões sombrias sobre o futuro da humanidade são divulgadas a cada dia. Como será a vida sem petróleo? Sem água? Sem comida? Mas há uma luz no fim do túnel

Sheila Lobato

Age fotostock/Keystone

Venda de gasolina no Quirguistão, Ásia Central. A escassez do produto e seu alto preço no país têm estimulado algumas pessoas a comercializá-lo em pequenas quantidades à beira das estradas.

Disparada do preço do petróleo, aquecimento global, degelo das calotas polares, elevação dos oceanos, alta do preço dos alimentos, escassez de água potável - tudo isso e mais um pouco está tirando o sono do planeta. Sem reservas Dapreciáveis de petróleo e de terras agricultáveis, com verões escaldantes, invernos gelados e violentas tempestades nas épocas de chuvas, os europeus estão vivendo o pior dos mundos. E não só eles.

A imprensa tem divulgado previsões sombrias sobre o futuro da Europa e da humanidade. Se assim será por lá, pior ainda na China, na Índia e em outros países emergentes, Brasil incluído. Como será a vida sem petróleo? Sem água? Sem comida? E, por mal dos pecados, sem sexo? Porque será humanamente impossível, com tanto problema na cabeça, pensar ainda naquilo.

Mas ainda existe gente otimista. Uma publicação francesa pediu a pesquisadores de novas tecnologias que descrevessem o cenário que imaginavam para um mundo sem petróleo. Nenhum pintou o caos, mas todos concordaram que a vida será muito diferente. Um deles prevê que o fim do petróleo fará a humanidade voltar ao melhor dos tempos: em vez do automóvel, a carroça; em vez de possantes motores, cavalos, jumentos, asnos e outros bichos de tração.

O PESQUISADOR não pensou, porém, no grave problema de trânsito que as carroças vão causar na Place de l’Etoile, na Times Square ou na Avenida Paulista, com centenas de garis correndo para lá e para cá a fim de recolher o produto indesejável dos escapamentos animais. Em vez disso, ele pensou nos preços da aveia e forragens nos mercados spot, prevendo uma disparada igual à do petróleo hoje. Com a grande vantagem de que aveia e forragem são cultiváveis.

No entanto, plantar aveia onde? Na Europa, onde não haverá terra suficiente para alimentar os humanos? Nos países pobres? Com isso, vão ter uma gorda receita para equilibrar suas finanças. Mas e se houver fome nesses países, pela substituição de cultivos para os humanos por forragens para os animais?

A questão remete ao debate entre os países ricos produtores de etanol à base de milho e os pobres produtores de etanol da cana-de-açúcar. Os ricos, acusados de encarecer os alimentos no mundo; os pobres, de crime contra a humanidade por plantar cana em vez de feijão.

Quem tem razão? Nenhum dos visionários europeus abre uma chance sequer ao etanol brasileiro. Se pensam na volta das diligências, porém, é porque os produtores de cana não estão vendendo direito seu peixe. Com os Estados Unidos plantando milho para fazer álcool e o galão de gasolina a cerca de US$ 5, não há dúvida de que estamos na nova era. Aí, a vantagem do álcool de cana - dez vezes mais competitivo que o do milho e derivado de um cultivo nãoalimentar - é fora de série.

Roger Ressmeyer/Corbis/LatinStock

Grupo de refletores de luz solar na usina Solar-1, em Barstow, na Califórnia. A luz é enviada para uma torre da usina, que a transforma em energia. Essa matriz energética deve ganhar cada vez mais força com o passar dos anos.

Haverá fome por causa disso no mundo? É lobby das grandes empresas petrolíferas. A área cultivável não aproveitada do Terceiro Mundo pode abastecer toda a frota mundial de veículos. A floresta amazônica seria varrida do mapa? Ora, lá não dá para plantar nem cana nem grãos. A ameaça ao pulmão do mundo vem dos desmatamentos para as pastagens e da venda ilegal de madeira aos países ricos.

QUANDO O PETRÓLEO VAI ACABAR?

O petróleo um dia vai acabar, isso é certo. Em muitos lugares já acabou. Mas, por enquanto, não é possível estabelecer uma data precisa para essa total exaustão das reservas. O que há são especulações, mais ou menos verossímeis.

No início deste século, os cálculos mais acurados indicavam que a produção iria se estabilizar ao redor de 2004, e que esse patamar iria durar, na melhor das hipóteses, apenas 15 anos. Depois disso, a extração de petróleo convencional entraria em gradativo, mas inexorável, declínio. Para a maioria dos especialistas, o patamar estável já foi atingido. O próximo passo, fatalmente - e apesar de recentes descobertas alvissareiras, como a dos campos de petróleo na camada de pré-sal -, é que a produção global irá parar de crescer em breve. Preparados ou não, teremos de enfrentar um futuro sem petróleo. Um futuro que poderá ser marcado pela recessão e pela guerra.

Ninguém sabe de fato quanto combustível existe no subsolo do planeta. Os chamados pessimistas do setor petroleiro argumentam que o ponto de inflexão é iminente, ou já ocorreu, e está mascarado pelas flutuações diárias na produção. Os otimistas, por seu lado, afirmam que décadas se passarão até esse ponto ser atingido. Segundo eles, ainda existe muito petróleo acabanpara ser extraído ou achado. Há também imensas reservas de petróleo "não convencional", como os maciços depósitos de areia betuminosa no oeste do Canadá.

Mas até mesmo os mais otimistas admitem que os limites físicos já são visíveis. O número de novas jazidas descobertas a cada ano vem se reduzindo nas últimas décadas, apesar dos avanços tecnológicos, entre os quais sistemas digitais de levantamento sísmico que permitem aos técnicos distinguir os depósitos de petróleo muito abaixo da superfície da Terra. Por outro lado, a maioria dos campos grandes e fáceis de localizar - os chamados "elefantes" - foi descoberta décadas atrás, e os remanescentes tendem a ser bem menores. Estes não apenas são mais difíceis de ser encontrados do que os campos maiores, como também precisam ser descobertos em maior número para que se extraia a mesma quantidade de petróleo.

O grande temor é a lentidão com que o mundo está reagindo à quase certa escassez do petróleo no futuro próximo. Carros com motores mais eficientes e alternativas como os biocombustíveis vão compensar o fim de algumas fontes de petróleo, mas o maior desafio talvez seja o de reduzir a demanda em sociedades sedentas de energia. No entanto, discussões realmente sérias sobre mudanças em nosso modo de vida e nossos hábitos perdulários ainda não começaram. Corremos o risco de ser simplesmente atropelados pela história.

Mais: os alimentos não estão em alta por falta de plantio, mas por especulação combinada com o apetite dos chineses, hoje comendo como nunca. Quando a bolha especulativa furar, os preços vão cair pelo menos 30%. Quando? Os visionários não foram perguntados, mas é uma boa questão. E a resposta é: quando os EUA e a Europa reduzirem seus déficits públicos a menos de 2% ou 3% de seus PNBs. (PNB, o produto nacional bruto, é a soma das riquezas produzidas anualmente num país, com o acréscimo das rendas recebidas do exterior por empresas e cidadãos desse país e o desconto das rendas obtidas por empresas e cidadãos de outros países).

Voltando às previsões mundiais, pensar no fim da era do petróleo até que não é má idéia. O futuro será da organoquímica, sucessora da petroquímica. Os copinhos hoje de plástico obtido a partir do petróleo serão feitos de bagaço de cana e casca de batata. Translúcidos e bonitos, decompõem-se na natureza em menos de oito meses. O vestuário dos humanos, a decoração de interiores de suas casas, o plástico amplamente usado em veículos, equipamentos e utensílios domésticos, tudo será de fibras orgânicas, sem um pingo de poliéster, derivado do petróleo devidamente extinto. E alô, alô, atenção, agricultores: a fibra do bambu, já presente na produção de tecidos, é um aperitivo do que a criativa organoquímica irá produzir.

Fontes limpas e abundantes de energia, como a eólica, a das marés e a geotérmica, substituirão a energia das termelétricas e usinas nucleares. O motor movido a ar comprimido vai tirar das cidades os gastadores, poluidores e lentos caminhões de entrega. Está acabando o ar? É só parar no posto e encher o tanque de ar comprimido, como se enchem hoje os pneus do carro. De graça, viu? Modelos esportivos ou para duas pessoas também cruzarão as ruas das cidades, com autonomia para rodar o dia inteiro. Repito, de graça!

Para as auto-estradas, o cardápio é variado: automóveis 100% elétricos, movidos a baterias e painéis solares; caminhões e ônibus com motores a hidrogênio ou elétricos, conforme o tamanho e a necessidade. No céu, aviões com painéis solares e reatores a nitrogênio sugado do próprio ar. Nos oceanos, supercargueiros no lugar dos superpetroleiros, propulsados a hidrogênio do próprio mar, além de turbinas acionadas pela força das ondas e pelo vento. Nas ferrovias, trens-bala com baterias auto-recarregáveis correrão suspensos sobre trilhos eletromagnéticos, a 500 km/h, dispensando energia elétrica da rede pública.

PROTÓTIPOS ESPORTIVOS do automóvel 100% elétrico já estão em testes, andando a 210 km/h e acelerando de 0 a 100 em quatro segundos, com autonomia de 400 km e recarga de baterias em apenas 20 segundos. Quando tiverem painéis solares, a recarga será automática. Grátis também, viu? E do trem-bala a nitrogênio já existe um protótipo brasileiro, mostrado em julho à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Funciona e é mais avançado que os atuais trens-bala japoneses.

Casas e prédios produzirão sua própria energia, à base de baterias, painéis solares e miniturbinas eólicas. As piscinas serão fontes de energia gratuita, refrigerando a casa no verão e aquecendo-a no inverno. Painéis solares miniaturizados para caber na bolsa ou no bolso vão recarregar o celular, o notebook e qualquer aparelho a pilha ou a bateria.

E o vaso sanitário do futuro, se não haverá água bastante nem para beber? Um vaso meio jurássico que hoje custa US$ 5 mil a unidade, de fabricação japonesa e com direito a um banhozinho automático no traseiro, será desenvolvido para aposentar os atuais modelos. Com um detalhe essencial: sem uma gota d’água.

É simples. Ao se levantar a tampa, um produto higiênico inerte desce pelas laterais, levando tudo para o fundo, limpando e eliminando totalmente os odores. Embaixo do trono, o segredo do negócio: uma miniusina de decomposição ativada pelas mesmas e poderosas bactérias que consomem troncos de árvores tombadas nas florestas. É só jogar um punhado de casca picada no fundo, depois do serviço. As crianças vão adorar. Após o tratamento, o produto vira um farelo seco e sem cheiro que será expelido por um golpe de ar comprimido para a caixa de dejetos do prédio - aliás, não mais uma caixa de dejetos, mas de adubo orgânico da melhor qualidade, pronto para uso na agricultura.

Por falar nela, o problema da escassez de terras produtivas estará resolvido. Em vez das fazendas horizontais de hoje, superfazendas verticais - imensas torres metálicas, com até mil metros de altura e centenas de andares de produção (ver págs. 24-25). Os do topo produzindo energia fotovoltaica a partir dos raios solares; os da base, energia a partir do calor do manto terrestre através de poços que usarão tecnologias semelhantes às de hoje para extrair petróleo.

Age fotostock/Keystone

ESSA ENERGIA movimentará turbinas e geradores para alimentar as torres e iluminar as cidades próximas. As torres produzirão sua própria água a partir do ar. Um túnel central fará o ar quente da superfície subir em alta velocidade até o topo, lançando às nuvens produtos para provocar chuvas artificiais programáveis. A água dessas chuvas servirá às torres, às cidades próximas e à recomposição dos lençóis freáticos exauridos. Ao mesmo tempo, os ventos do túnel e do exterior acionarão superventiladores para gerar energia eólica.

Nessas torres, todos os cultivos serão hidropônicos. A terra firme será usada apenas para as culturas extensivas, como soja, trigo, milho, arroz. Tudo o mais será produzido nas torres por hidroponia. Protótipos já estão em construção na Espanha.

Não haverá lugar para a criação de gado de corte, pelo menos na Europa. A carne virá de países como Brasil, EUA e Austrália, com seus vastos territórios. Mas as torres criarão peixes em tanques, reduzindo a necessidade da pesca em rios e mares, pelo menos até a vida aquática se recuperar da poluição deixada pela era do petróleo.

Por último, a tecnologia da comunicação estará tão desenvolvida que os milhões de toneladas de árvores que as indústrias da imprensa e do papel abatem por ano serão lembrados como um dos muitos desatinos do passado. Livros, jornais e revistas serão lidos em imagens holográficas manipuladas pela voz e pelos olhos do leitor.

Como? Basta pedir ao microcomputador as notícias do seu jornal favorito e uma imagem tridimensional com textos e fotos surgirá no ar em frente a você. Movimentos dos olhos e da cabeça farão as páginas correr, como se faz hoje com as mãos para virar as folhas de um livro. Se não gostar do visual, o leitor poderá mudar toda a página, ampliando, reduzindo ou suprimindo fotos e diagramando como quiser, aí sim usando as mãos, como no filme Minority Report. Os editores vão se moer.

Papel, só para embrulhar presentes. Nesse mundo admiravelmente novo, os visionários deixam a boa sensação de que a humanidade, em meio a tantas delícias, poderá dormir em paz e o sexo não será coisa do passado, mas terá lugar garantido num futuro tranqüilo e reparador.

Nada como sonhar.

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

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Espíritos na areia

As milenares linhas de Nasca, no Peru, revelam seus segredos

Stephen S. Hall
Foto de Robert Clark

Espíritos na areia

Figuras no desértico solo da costa meridional do Peru - aranha, macaco, um estranho animal voador - fascinam quem sobrevoa o local desde que foram descobertas, nos anos 1920.

Do avião as linhas traçadas no solo são difíceis de ver, esmaecidas como desenhos deixados ao sol. Quando o piloto faz curvas sobre um platô desértico no sul do Peru ao norte da cidade de Nasca, mal consigo discernir uma sucessão de figuras primorosamente traçadas.
"Orca!", avisa Johny Isla, arqueólogo peruano, gritando por causa do barulho do motor. Aponta lá embaixo a forma da baleia assassina. "Mono!", diz logo depois, quando o famoso macaco de Nasca fica visível. "Colibri!", o beija-flor.
Desde que se tornaram conhecidos no mundo todo, em fins dos anos 1920, com o advento da aviação comercial entre Lima e a cidade peruana meridional de Arequipa, os misteriosos desenhos no deserto chamados de linhas de Nasca intrigam arqueólogos, antropólogos e qualquer pessoa fascinada pelas antigas culturas das Américas. Daí em diante, ondas de cientistas - e de leigos - arriscaram diversas interpretações dessas linhas. Dentre as várias explicações, já disseram que são antigas estradas incas, projetos de irrigação, imagens para ser vistas de primitivos balões de ar quente e o mais cômico: pistas de pouso para naves extraterrestres.
Depois da Segunda Guerra Mundial, uma professora nascida na Alemanha, Maria Reiche, fez os primeiros levantamentos topográficos das linhas e figuras, chamadas geoglifos, nos arredores de Nasca e da cidade vizinha de Palpa. Por meio século, até sua morte, em 1998, Maria Reiche teve um papel crucial na conservação dos geoglifos. Mas sua teoria preferida, a de que as linhas eram configurações de um calendário astronômico, também está praticamente desacreditada. A mesma ferocidade com que essa professora protegeu as linhas dos intrusos é vista nos que hoje zelam por elas. Por isso até os cientistas têm dificuldade de acesso às mais famosas figuras de animais na planície, ou pampa, na orla noroeste de Nasca.
Desde 1997, porém, uma área mais ao norte, nas imediações da cidade de Palpa, vem sendo analisada por um projeto peruano-alemão. Dirigido por Isla e por Markus Reindel, do Instituto Arqueológico Alemão, o Projeto Nasca-Palpa é um estudo multidisciplinar sobre o antigo povo da região que pretende descobrir, para começar, onde e como os nascas viviam, por que desapareceram e qual era o significado dos desenhos que eles deixaram nas areias do deserto.
O avião inclina-se noutra curva, e Isla, um nativo do planalto que trabalha no Instituto Andino de Estudos Arqueológicos, não desgruda o rosto largo de maçãs salientes da janela. "Trapézio!", grita ele, apontando uma imensa clareira geométrica que começa a aparecer. "Plataforma!", acrescenta, gesticulando com o dedo.
Plataforma? O que ele aponta é uma pequena pilha de rochas numa ponta do trapézio. Se Isla e seus colegas estiverem corretos, essas estruturas podem ser a chave do verdadeiro propósito das linhas de Nasca. A história começa e termina com água.
A região costeira do sul do Peru e norte do Chile é um dos lugares mais secos do planeta. Na protegida bacia em que surgiu a cultura nasca, dez rios desciam dos Andes, a leste, e a maioria secava por boa parte do ano. Essas dez frágeis linhas verdes cercadas por mil matizes de marrom eram um fértil viveiro para a emergência de uma civilização antiga, como foram também o delta do Nilo e os rios da Mesopotâmia. "Era um lugar perfeito para seres humanos povoarem, pois tinha água", diz o geógrafo Bernhard Eitel, do Projeto Nasca-Palpa. "Mas era um ambiente de alto risco - um meio de altíssimo risco."
Eitel e seu colega Bertil Mächtle, da Universidade de Heidelberg, dizem que nos últimos 5 mil anos o microclima da região de Nasca sofreu grandes oscilações. Quando um sistema de alta pressão sobre a América do Sul chamado "alta da Bolívia" se desloca para o norte, chove mais nas encostas ocidentais da cordilheira dos Andes. Quando a alta vai para o sul, a precipitação diminui e os rios nos vales de Nasca secam.

Apesar das condições de risco, o povo de Nasca floresceu por oito séculos. Por volta de 200 a.C., os nascas emergiram de uma cultura anterior conhecida como paracas. Fixaram-se nos vales fluviais e lá cultivaram vegetais, como algodão, feijão, tubérculos, lucuma (uma fruta) e um tipo de milho de espiga curta. Célebres por sua cerâmica, inventaram uma técnica que misturava mais de dez pigmentos minerais em argila diluída para fixar as cores pelo calor. Um famoso quadro em cerâmica conhecido como Placa de Tello mostra vários nascas em passeio tocando antara (flauta de Pã) e rodeados de cachorros dançantes. Essa tornou-se uma imagem icônica de um povo pacífico cujos rituais continham música, dança e caminhadas sagradas.
A capital teocrática da Nasca primitiva era Cahuachi, uma meca varrida pela areia. O sítio, escavado pela primeira vez nos anos 1950 por William Duncan Strong, arqueólogo da Universidade Columbia, é um vasto complexo de 150 hectares com uma imponente pirâmide de adobe, vários templos grandes, praças e plataformas amplas e uma intricada rede de escadarias e corredores ligando tudo. Em seu livro de 2003 sobre os sistemas de irrigação de Nasca, Katharina Schreiber, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, e Josué Lancho Rojas, professor e historiador da região, salientam que o rio Nasca, que corre no subsolo por cerca de 15 quilômetros a leste, reemerge como um manancial às portas de Cahuachi. "O fato de a água minar naquele trecho era, quase certamente, visto como algo sagrado nos tempos pré-históricos", escreveram Katharina e Rojas.
"Cahuachi era um centro cerimonial", diz o italiano Giuseppe Orefici, arqueólogo que há anos chefia as escavações. "Vinha gente das montanhas e da costa trazer oferendas." Entre os artefatos descobertos estão dezenas de cabeças, em geral com um orifício perfurado na testa por onde passa uma corda trançada, talvez para permitir que o crânio fosse atado à cintura.
Em outras partes do reino nasca os habitantes se deslocavam para leste ou oeste ao longo dos vales fluviais conforme mudavam os padrões das chuvas. A iniciativa arqueológica peruana-alemã explora a região desde a costa do Pacífico até altitudes que beiram os 4,6 mil metros no planalto andino. Em quase todos os lugares estudados foram encontrados indícios de povoações nascas, "como pérolas nas margens dos vales", comenta Reindel. "E nas proximidades de quase todas as povoações encontramos geoglifos."
O deserto e as encostas de montes dão uma tela convidativa: removendo apenas uma camada de pedras escuras que junca o solo para deixar à mostra a areia de baixo, os nascas criaram traçados que perduraram por séculos. Os arqueólogos supõem que a feitura e a manutenção das linhas fossem atividades comunitárias, "como a construção de uma catedral", diz Reindel.
Nos áridos vales do sul, os primeiros engenheiros nascas talvez também tenham concebido algum modo mais prático de lidar com a escassez de água. Um engenhoso sistema de poços horizontais abastecidos com o líquido que desce dos contrafortes andinos permitia às povoações trazer a água subterrânea à superfície. Conhecidos como puquios, esses sistemas de irrigação ainda abastecem os vales meridionais.
Talvez por causa das adversidades que enfrentava, o povo nasca parece ter sido notavelmente "ecológico". A construção dos puquios indica noções refinadas sobre a conservação de água, pois os aquedutos subterrâneos minimizavam a evaporação. Os agricultores plantavam sementes fazendo um único buraco no chão, em vez de arar o solo, preservando assim sua subestrutura. Durante uma visita ao sítio La Muña, Isla mostrou-me camadas de matéria vegetal nas paredes das construções e nos terraços que marcavam o povoado na encosta rochosa. Os nascas, diz Isla, reciclavam seu lixo, transformando-o em material de construção. "Era uma sociedade que administrava bem seus recursos", conclui. "Essa é a principal característica de Nasca."
Muitos hoje acham que são as linhas. Mas, embora os nascas talvez sejam os mais prolíficos criadores de geoglifos, eles não foram os primeiros. Em uma encosta pegada a um platô ao sul de Palpa esparramam-se três figuras humanas estilizadas, de olhos esbugalhados e bizarro cabelo raiado. Os arqueólogos dizem que eles são de no mínimo 2,4 mil anos atrás - mais antigas que as datas que quase todos os livros didáticos indicam para o nascimento da civilização nasca. A equipe de Reindel atribuiu nada menos que 75 grupos de geoglifos na área de Palpa a uma cultura anterior, os paracas. Por sua vez, os geoglifos dos paracas, em geral retratando figuras humanoides estilizadas, têm motivos visuais em comum com as imagens ainda mais antigas esculpidas em rocha, os chamados petroglifos. Durante uma caminhada para fazer o levantamento de um sítio no vale do rio Palpa que os arqueólogos suspeitavam ter sido habitado pelos paracas, Isla encontrou um petroglifo retratando um macaco: uma surpreendente encarnação anterior do famoso geoglifo de Nasca que, do avião, ele me mostrara lá embaixo no pampa.

Esses novos achados trazem uma informação importante sobre as linhas: elas não foram feitas em uma única época, em um só lugar e com apenas um propósito. Muitas foram traçadas por cima de outras, mais antigas, com emendas e sobreposições que complicam sua interpretação; a arqueóloga Helaine Silverman comparou-as a um quadro-negro todo riscado no fim de um movimentado dia de aula. A ideia de que eles só podem ser vistos do ar é um mito moderno. Os primeiros geoglifos da era paracas foram traçados em encostas de onde podiam ser vistos por quem estivesse no pampa. No começo da era nasca, as imagens, menos antropomórficas, mais naturalistas, eles haviam migrado das encostas próximas para o solo do pampa. Quase todas essas figuras de animais icônicas, como a aranha e o beija-flor, eram desenhadas com uma única linha; quem as percorresse por inteiro, começando por um ponto qualquer, terminaria no outro extremo sem cruzar nenhuma linha. Por isso, os arqueólogos supõem que em algum momento no começo da cultura nasca as linhas evoluíram de meras imagens para rotas de procissões cerimoniais. Mais tarde, possivelmente em resposta ao explosivo crescimento da população documentado pela equipe alemã-peruana, mais pessoas talvez participassem desses rituais, e os geoglifos adquiriram padrões geométricos amplos, com algumas figuras trapezoides alcançando mais de 600 metros. "Imaginamos que elas deixaram de ser imagens para ser vistas e passaram a ser estágios a ser percorridos a pé em cerimônias religiosas", analisa Reindel.
Esses rituais antigos deixaram vestígios no próprio solo. Entre 2003 e 2007, os geofísicos Tomasz Gorka e Jörg Fassbinder mediram o campo magnético da Terra em um trapézio próximo a Yunama, um vilarejo nas cercanias de Palpa, e em outras linhas vizinhas. Discretas perturbações no sinal magnético indicaram que o solo fora compactado por atividade humana, especialmente ao redor das plataformas. Nesse meio tempo, Karsten Lambers, outro membro do Projeto Nasca-Palpa, coligiu dados posicionais e fez medições precisas das linhas de visão para centenas de geoglifos. Os dados mostraram que os trapézios e outras formas geométricas foram construídos onde pudessem ser vistos de vários pontos. A equipe concluiu que eram lugares em que "grupos sociais agiam e interagiam e aos quais espectadores, nos vales e em outros sítios com geoglifos, pudessem assistir e observar".
Cerro Blanco, uma das mais altas dunas de areia do mundo, assoma pálida e árida no meio de uma ressequida concavidade nos contrafortes andinos, dominando a paisagem física e espiritual dos vales meridionais de Nasca. Por séculos o povo dos Andes venerou deidades incorporadas em montanhas como Cerro Blanco. Johan Reinhard, explorador da National Geographic Society, diz que tradicionalmente - em mitos, senão na própria geologia -, as montanhas são associadas a recursos hídricos. Os cacos de cerâmica nasca que cobrem a trilha até o topo de Cerro Blanco levam a crer que essa associação vem de um passado remoto.
Em 1986, Reinhard informou ter encontrado ruínas de um círculo de pedra cerimonial no cume da montanha Illakata, de mais de 4,2 mil metros de altura, um dos mais altos montes cujos rios alimentam o sistema de drenagem de Nasca. Esse achado, juntamente com outros vestígios de atividades rituais no alto das vertentes nascas, levou Reinhard a supor que um dos principais objetivos das linhas de Nasca relacionava-se ao culto de deidades das montanhas, entre elas Cerro Blanco, devido a sua ligação com a água.
Estudos recentes reforçaram essa hipótese. Nos altiplanos mais ao norte, em que vicunhas selvagens vagueiam nas cabeceiras do rio Palpa, junto-me a Reindel e seu grupo numa caminhada até o topo de uma montanha sagrada conhecida como Apu Llamoca - na língua nativa, apu significa "deidade". No alto dessa massa escura de rocha vulcânica, Reindel mostra-me um círculo ritual com cacos de cerâmica que o grupo encontrou em 2008 e, ali perto, uma estrutura semicircular quase idêntica à que Reinhard informou ter encontrado em Illakata.
Mas, para os pesquisadores do Projeto Nasca-Palpa, a verdadeira epifania que associou os rituais sagrados de Nasca ao culto da água ocorreu em 2000, no trapézio que domina o desolado platô próximo ao vilarejo de Yunama. Os arqueólogos haviam notado várias pilhas grandes de pedra no extremo desses trapézios e imaginaram que fossem altares cerimoniais. Quando Reindel escavava perto de um desses montes, descobrindo cacos de cerâmica, cascas de lagostim, restos vegetais e outras relíquias que claramente representavam oferendas rituais, deparou com fragmentos de uma grande concha de um molusco do gênero Spondylus, que se distingue pelos tons coralíneos e por sua superfície espinhenta. Ele aparece nas águas litorâneas ao norte do Peru apenas durante eventos climáticos ligados ao fenômeno El Niño, e por isso é associado à chegada das chuvas e da fertilidade agrícola.
"A concha do Spondylus é um dos poucos elementos bem estudados da arqueologia andina", diz Reindel. "Ela é um símbolo religioso muito importante da água e da fertilidade. Como o incenso no Velho Mundo, foi trazida de longe e é encontrada em contextos específicos, como objetos funerários e nestas plataformas. Relacionava-se em certas atividades às preces que suplicavam por água. E é evidente", acrescenta ele, "que nesta região a água era o principal problema."
Mas, no fim das contas, todas as oferendas e preces foram em vão. Em 2004, em um sítio próximo ao ressequido rio Aja chamado de La Tiza, na parte meridional de Nasca, a arqueóloga Christina Conlee fez uma lúgubre descoberta quando escavava uma tumba nasca. Foi uma cena chocante. A primeira parte do esqueleto que emergiu da terra não foi o crânio, mas os ossos do pescoço. "Dava para ver as vértebras na parte de cima", diz ela. A pessoa estava sentada, de braços e pernas cruzados, sem a cabeça."

Marcas de corte nos ossos protuberantes do pescoço indicavam que a cabeça fora decepada de forma violenta por uma afiada faca de obsidiana. Reforçando essa ideia, encostado no cotovelo do esqueleto havia um pote de cerâmica conhecido como jarro de cabeça; nele estava retratado um "troféu de cabeça" decapitada, da qual saía um sinistro tronco de árvore com olhos - mais parecendo um artefato de Halloween. Donald Proulx, especialista em cerâmica nasca e professor da Universidade de Massachusetts, em Amherst, diz que o estilo do jarro sugere alguma data entre os anos de 325 e 450.
Tudo naquele sepultamento - a postura do esqueleto, o jarro de cabeça - indica um confinamento deliberado e respeitoso. "Ninguém faz assim com um inimigo", comenta Christina Conlee, pesquisadora da Universidade do Texas. A análise isotópica dos ossos do jovem deixa claro que ele vivia nas imediações. Portanto, era gente do lugar, não um inimigo estrangeiro capturado numa guerra. Christina desconfia de que o esqueleto represente um sacrifício ritual. "Embora encontremos troféus de cabeça espalhados por todo o período nasca", explica ela, "temos alguns indícios de que se tornaram mais comuns a partir de meados desse período e também em épocas de flagelos ambientais, como a seca. Se esse foi um sacrifício, seu objetivo terá sido apaziguar os deuses, quem sabe por causa de alguma seca ou colheita arruinada."
Não há dúvida de que a água, ou melhor, a ausência dela, assumira importância suprema nos últimos tempos da cultura nasca, entre os anos de 500 e 600. Na área de Palpa, os geofísicos identificaram o lento avanço da margem oriental do deserto por cerca de 20 quilômetros vale acima entre 200 a.C. e 600 d.C., chegando a 2 mil metros de altitude. Os centros populacionais nos oásis ribeirinhos próximos a Palpa também foram se mudando para áreas mais altas do vale, como se tentassem cada vez mais fugir da aridez mortal da região. No fim do século 6, concluíram Eitel e Mächtle em um artigo recente, "a aridez chegou ao auge, e a sociedade nasca enfim sucumbiu." Em 650, o Império Wari, mais militarista, já se expandira a partir de sua base no centro do planalto e suplantara os nascas no platô desértico sul.
"Não foram apenas as condições climáticas que acarretaram o colapso da cultura nasca, e não só em Cahuachi", argumenta Johny Isla. "Um estado de crise foi provocado porque a água preponderava mais em certos vales do que em outros, e os diferentes líderes dessas áreas talvez tenham entrado em conflito por causa dela."
O legado do povo nasca vive nas linhas, é claro, e, embora a maioria das pessoas venha para admirá-las do alto, o que vejo e ouço me convence de que só podemos entender realmente os geoglifos se os virmos do solo. Em uma conversa com Isla, ele me descreve a sensação de caminhar por essas trilhas sagradas. "Dá para sentir", diz ele. E eu, curioso para saber o que é que se sente, peço para andar em várias linhas na Cresta de Sacramento, uma pequena serrania ao norte da cidade de Palpa.
Vou encontrá-lo ao amanhecer de um dia de inverno em agosto. A neblina flutua no vale lá embaixo, e o sol ainda não escapou sobre os contrafortes andinos a leste. Começamos a percorrer um grande trapézio no chão do platô desértico, e Isla me alerta para pisar com cautela e cuidar daquela paisagem sagrada como faria um zelador de campo de golfe: se ao andar eu tirasse alguma pedra do lugar, deveria arrumá-la de volta no chão. Após vários minutos naquela curiosa caminhada na ponta dos pés, estamos na direção de um antigo espiral: outra forma comum nos geoglifos de Nasca.
Conforme seguimos pela espiral, meus pés me põem face a face com cada ponto cardeal daquela paisagem: o vale de Palpa ao sul, os montes costeiros a oeste, a "montanha sagrada" (Cerro Pinchango) ao norte e, a leste, os contrafortes dos Andes com seu poder de, como uma divindade, alimentar os frágeis rios que serpenteiam pelo desaguadouro de Nasca, irrigando as sementes de civilização no meio de toda aquela aridez. Se eu houvesse pisado no vórtice daquele itinerário curvilíneo em tempos remotos, também teria sido forçado a encarar outros devotos que estivessem percorrendo a trilha. Percebi, então, que uma caminhada devocional dos nascas também podia reforçar as relações sociais.
"Olhe!", exclama Isla. O sol então aparece por detrás das montanhas, e a oblíqua luz da manhã projeta nossas sombras alongadas sobre o geoglifo. A espiral paira algo acima da paisagem, com seu perímetro de pedras empilhadas.
Prosseguindo em meus passos pelas curvas da espiral, me dou conta de que uma das mais importantes funções das "misteriosas" linhas de Nasca não tem mistério algum. Os geoglifos decerto tinham por finalidade lembrar ao povo de Nasca, pelo movimento ritualístico, de que o destino deles estava ligado a seu meio - àquela beleza natural, sua efêmera abundância e sua ameaçadora austeridade. Podemos sentir a reverência pela natureza, em tempos de fartura e de escassez desesperadora, em cada linha e em cada curva que eles entalharam no chão do deserto. Quando nossos pés ocupam esse espaço sagrado, mesmo por um breve momento que nos torna humildes, podemos sentir isso.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

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Novas missões espaciais dão impulso para a volta do homem à Lua

William Cullerne Bown

Dos anos 70, quando as missões soviética e Apollo foram concluídas, até 2005, as agências espaciais internacionais iniciaram apenas duas missões para a Lua. Mas desde 2006, agências do Japão, Índia, China, Europa e EUA lançaram nove missões. Oito ainda estão em desenvolvimento, e o Reino Unido está ponderando sua própria viagem ao lado escuro. Por que o súbito interesse?

AP- Reprodução

Chegada do homem à Lua: o astronauta Edwin E. "Buzz" Aldrin Jr. caminha em solo lunar. Ele e seu companheiro de tripulação, Neil Armstrong, da Apolo 11, chegaram à Lua em 20 de julho de 1969. Com um terceiro astronauta que permaneceu em órbita lunar, haviam decolado de Cabo Canaveral quatro dias antes, a bordo do foguete Saturn 5

No curto prazo, os novos atores no espaço estão buscando a Lua enquanto mantêm seus olhos firmes na Terra. Como disse Jon Cartwright em dezembro de 2009 no “Prospect”, os satélites se tornaram importantes peças militares, usados para comunicações, inteligência e navegação. E os programas lunares, como todos os programas espaciais, permitem que os poderes em ascensão desenvolvam tecnologias encobrindo uma função militar crucial com um disfarce civil.

REUTERS

Em foto de dezembro de 2002, a Shenzhou 4, ou "Navio divino", decola do Centro de Lançamento Jiuquan, no noroeste da China; os chineses correm contra o tempo para enviarem uma missão tripulada à lua, tentando vencer a nova corrida contra o EUA

Ainda assim, países como China e Índia têm pouca experiência para construir e lançar foguetes, navegá-los com precisão e empregar e administrar os satélites. As tecnologias necessárias ainda estão, na maior parte, nos EUA e na Rússia e, em menor extensão, na Europa. Por enquanto, os EUA estão fazendo o que podem para impedir a China de ter acesso a eles. A Nasa convidou astronautas de 15 nações para visitarem a Estação Espacial Internacional, parte central de suas operações, mas a China não foi um deles.

Ainda assim, o programa lunar da China, chamado Chang’e, nome de uma princesa de conto de fadas que viaja para a Lua com seu coelho, está superando a restrição americana. A sonda Chang’e 1 usou estações da Agência Espacial europeia para fazer a difícil inserção na órbita lunar no dia 5 de novembro de 2007. E a China tornou-se sócia do Galileo, sistema de navegação por satélite europeu, que está em construção e deve rivalizar som o GPS controlado pelos EUA.

Apesar de ser alto o custo de construir uma base lunar permanente –que é o objetivo final, as pequenas sondas atuais são muito baratas: a mais recente sonda da NASA custou apenas US$ 57 milhões (em torno de R$ 100 milhões), de um orçamento anual de US$ 17 bilhões. Isso tem especial valor para os iniciantes; como o Apollo, as viagens à Lua aumentam o prestígio no exterior e a solidariedade em casa.

Contudo, o interesse de longo prazo na Lua está na crença crescente que sua exploração agora pode ser possível, uma consequência de 40 anos de avanços tecnológicos e de um acúmulo de evidências de recursos usáveis. A sonda Lcross da Nasa, que acidentou-se perto do polo sul da Lua em outubro, fez levantar material contendo 115 litros de água. A água é importante não apenas para beber, mas porque pode fornecer oxigênio e hidrogênio, dois elementos que, combinados, podem servir de combustível para o foguete.

E a água não é o único incentivo. Nos polos da Lua, há cantos escuros nas crateras que nunca são atingidos pelos raios solares. Ali se acumularam minerais estranhos congelados que não são encontrados na Terra. Não sabemos ainda o que são, muito menos seu valor. Há também montanhas nos polos cujos picos são quase permanentemente expostos ao sol. Agora parece provável que, ao menos o polo sul da Lua pode abrigar uma base, que seria alimentada por energia solar contínua e teria acesso à água. E o Monte Malapert, ali perto, está sempre de frente para a Terra, o que seria de ajuda para sistemas de comunicação no futuro.

Por essas razões, o polo sul da Lua agora está sendo comparado aos campos de petróleo sauditas do século 21. E cada vez menos está claro quem vai controlar esse novo “campo”. Um tratado redigido pela ONU nos anos 70 tinha a meta ambiciosa de colocar a Lua sob governança da ONU, proibindo o uso militar e disputas territoriais. Mas fracassou –nenhum dos poderes espaciais ratificaram-no. Assim, a Lua continua desprotegida pela lei. Na ONU, há um debate a cada outono sobre questões de segurança que inclui uma discussão de um novo tratado para prevenir uma corrida armamentista no espaço. Isso poderia fornecer o regime legal ausente. Mas, nos últimos anos, os EUA sempre vetaram as propostas. Como tem a tecnologia espacial mais avançada, sentem-se menos incentivados a substituir a força pelo Estado de direito.

Por enquanto, não se sabe o que se pode obter com a Lua. Talvez a água possa ser inutilizável. As oportunidades comerciais podem se evaporar. Há algum significado militar em um lugar a dois dias de viagem de nosso planeta? Em caso afirmativo, provavelmente está a décadas de distância. Ainda assim, se você ignora a Lua, arrisca ser desastrosamente ultrapassado. Como a Rússia nervosa antes da Primeira Guerra, você é obrigado a se mobilizar –obrigando seus rivais a fazerem-no também.

Autoridades chinesas repetidamente afirmaram que “quem conquistar a Lua primeiro vai se beneficiar mais”. Há uma grande dose de bravata nisso: por enquanto, parece apenas que a Nasa tem bolsos profundos o suficiente para contemplar uma base permanente. Mas isso é típico. Como a Antártica há um século, a Lua hoje inspira uma mistura precipitada de bravura, curiosidade, entusiasmo nacional e sonhos imperiais. Trinta nações atualmente mantêm bases na Antártica, muitas brigando por território que não tem valor comercial ou estratégico realizável. A clara lição de nosso Polo Sul é que os tratados podem reduzir a tensão, mas provavelmente não vão remover a ameaça da força se algo surgir de valor real.

(William Cullerne Bown fundou o serviço de alerta Research Fortnight, www.ResearchResearch.com.)

Tradução: Deborah Weinberg

Fonte: Prospect – http://www.prospect-magazine.co.uk

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Grécia & euro: a sujeição dos tratados

Bernard Cassen

Queima da bandeira da UE em Atenas.

Os plano de "salvamento" financeiro da Grécia de hoje – e sem dúvida da Espanha e de Portugal amanhã, e de outros Estados depois de amanhã – não têm como objectivo "salvar" um país. Trata-se de evitar a todo preço o afundamento de uma construção monetária, o euro, e consequentemente o dos fundamentos ideológicos da construção europeia.
A decisão de criar uma moeda única europeia, principal disposição do Tratado de Maastricht de 1992, constituía um desafio à lógica. Ela impunha com efeito a mesmo política monetária a economia tão diferentes como, por exemplo, as da Alemanha e da Grécia. Por definição, esta política, qualquer que fosse, podia servir apenas um interesse nacional particular – estrutural ou conjuntural – e portanto prejudicar outros interesses nacionais. Neste caso forem os interesses alemães, e só eles (um euro "forte" substituindo um marco "forte"), que presidiram a sua definição.
O euro teria tido sentido numa zona económica relativamente homogénea, como os Estados Unidos para o dólar, dispondo igualmente de instrumentos de transferências internas maciças (o que é caso do orçamento federal americano), decididos por uma autoridade política única (a presidência e os Congresso) a agirem eles próprios em estreita coordenação com um banco central: a Reserva Federal. Sem falar de uma língua única, o inglês, e de uma cultura da mobilidade da mão-de-obra.
Nenhuma destas condições é preenchida na União Europeia (UE). O seu orçamento representa apenas cerca de 1% do produto interno bruto do conjunto dos Estados membros. A mobilidade no seu seio não pode ser senão muito limitada, nem que fosse por razões linguísticas. As políticas europeias não visam reduzir as desigualdades de desenvolvimento económico e social, acrescidas pela entrada de dez novos membros em 2004 e de dois outros em 2006, mas, ao contrário, utilizá-las para favorecer as deslocalizações internas e o dumping social. Se há harmonização, ela se faz para baixo. Enfim, as capacidades de intervenção económica e financeira dos Estados foram transferidas pelos sucessivos tratados (inclusive o de Lisboa), não para autoridades democráticas supra-estatais, mas, no essencial, para o mercado e para instâncias ditas "independentes", o que na realidade significa guardiãs dos dogmas ultra-liberais: a Comissão e o Banco Central Europeu (BCE).
Verdadeira sujeição, as regras da UE proíbem-lhe participar, enquanto tal, no "salvamento" financeiro de um dos seus 27 países membros. O BCE "salvou" bancos que a seguir especularam indirectamente contra o euro, mas não pode conceder empréstimos a um dos 16 membros da eurozona! Prisioneira de uma moeda única cuja super-valorização não beneficia senão a Alemanha, a Grécia (e este será em breve o caso para os outros países em dificuldade) só pode contar, se se pode dizer, com um vago apoio "político" da UE (que desempenha igualmente, em relação aos mercados financeiros, o papel de polícia dos compromissos assumidos pelo seu governo), com empréstimos que lhes concedessem outros Estados e com… o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Em face deste balanço lamentável, doravante o absurdo dos tratados europeus explode à plena luz. Os governos dos 27, que os adoptaram em nome dos princípios liberais, são agora obrigados a violá-los mais ou menos discretamente para salvar a UE contra ela própria! Pode-se duvidar que este grande afastamento entre os dogmas e a realidade possa perdurar por longo tempo.

O original encontra-se em http://www.legrandsoir.info/Grece-euro-le-carcan-des-traites.html
e em http://www.medelu.org/spip.php?article350

Fonte: Resitir – http://resistir.info/

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Mais da metade dos homens ajuda no trabalho doméstico

Resultado é de pesquisa do IBGE que analisa o trabalho doméstico no Brasil

Alessandra Saraiva

Trabalho doméstico ocupa 94% de mulheres entre 25 e 49 anos; diz pesquisa do IBGE

Clayton de Souza/AE

Trabalho doméstico ocupa 94% de mulheres entre 25 e 49 anos; diz pesquisa do IBGE

RIO - Mesmo com a crescente participação feminina no mercado de trabalho, os afazeres domésticos continuam fazendo parte da jornada de trabalho da maioria das mulheres no País. Segundo estudo do Instituto Brasileiro Geografia e Estatística (IBGE), em relação ao total da população feminina, 90,6% das mulheres se ocupam das tarefas do lar enquanto 51,1% dos homens fazem o mesmo.

O novo estudo do IBGE tem como objetivo explorar a análise sobre atividades domésticas contida na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2001 e de 2005. Segundo o levantamento, na faixa etária de 25 a 49 anos de idade, onde a inserção das mulheres nas atividades remuneradas é maior e que coincide com a presença de filhos menores, o trabalho doméstico ocupa 94,0% das mulheres.

Ainda de acordo com a pesquisa, no País, 109,2 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade declararam realizar tarefas domésticas; sendo que, deste conjunto, 71,5 milhões (65,4%) são mulheres e 37,7 milhões (34,6%) são homens. O número total de população feminina e de população masculina não foi informado pelo instituto, em seu comunicado sobre o levantamento.

Dupla jornada

A dupla jornada feminina, de trabalhar fora de casa e realizar afazeres domésticos foi comprovada no estudo. Para a população que tem emprego, o tempo dispensado para as tarefas domésticas entre homens e mulheres é de 9,1 horas e 21,8 horas semanais, respectivamente. No entanto, considerando a jornada do trabalho produtivo, mais os afazeres domésticos, nos cinco dias úteis da semana, as mulheres, em média, trabalham 11,5 horas por dia, ante 10,6 horas para os homens.

A jornada média das mulheres casadas é cerca do triplo dos homens casados - respectivamente, de 31,1 horas semanais para as esposas; e 10,9 horas semanais para os maridos. Ainda de acordo com o instituto, o fato de a mulher ser ou não casada é outro fator que também interfere no número de horas gastas durante a semana. As que são casadas e tem filhos menores de 14 anos têm a maior média, de 29 horas, sendo que entre as não-casadas, este dado é de 22 horas semanais.

O levantamento revelou ainda que as meninas, desde cedo, são orientadas para o trabalho doméstico. De acordo com o instituto, cerca de 83% delas realizam tais tarefas, enquanto que, entre o total de meninos, a proporção é de 47,4%. O tempo despendido para os afazeres domésticos entre meninas e meninas também é diferenciado: 8,2 horas semanas para os meninos; e 14,3 horas semanais para as meninas.

Regiões

Ao fazer a análise regional sobre o tema da pesquisa, o instituto informou que, na região Sul, 92,4% do total de mulheres naquela localidade e 62,0% do total de homens naquela região estão envolvidos nestas atividades - sendo que essas são as maiores médias nacionais.

Os homens da região Nordeste são os que menos ajudam nos afazeres domésticos. Segundo a pesquisa, 46,7% do total de homens naquela localidade participam dos afazeres domésticos, o que representa 10,3 horas por semana, a mais baixa participação na comparação com homens de outras regiões. Dessa forma, as mulheres nordestinas acabam por deter a maior média de horas para afazeres domésticos, que é de 26,5 horas semanais.

De acordo com o levantamento, na análise por faixa etária, são os homens de 60 ou mais anos de idade que dedicam maior parte do seu tempo a atividades domésticas, com média de 13 horas semanais gastos com essa atividade. Na avaliação do IBGE, a aposentadoria permite aos homens mais dedicação a estas tarefas em casa. Porém, ainda na análise por faixa etária, é no grupo feminino, com idade entre 50 e 59 anos, que se verifica o maior tempo de jornada, com 31 horas semanais. A mulher de 60 anos ou mais, dispensa, em média, 28,7 horas para as mesmas tarefas, de acordo com o instituto.

Ao analisar no âmbito da escolaridade, o IBGE informou que é na população com 12 anos ou mais de estudo que se verifica o menor tempo dedicado aos afazeres domésticos, sejam homens ou mulheres. Ainda de acordo com o instituto, para as mulheres com esse nível de escolaridade, a jornada doméstica é cerca 5 horas por semana menor do que a observada para as mulheres menos escolarizadas.

Renda

O fator renda também foi analisado na pesquisa sobre afazeres domésticos. O levantamento revelou que, nas famílias mais pobres, com rendimento familiar de até 1 salário mínimo per capita, o maior tempo observado despendido pelas mulheres em atividades domésticas ocorre nas famílias formadas por casal com filhos menores de 14 anos (33,2 horas semanais). No caso das famílias com rendimento familiar per capita acima de 3 salários mínimos, a jornada é mais intensa para as mulheres em famílias formadas por casal com filhos maiores de 14 anos (26,5 horas semanais).

O cuidado da população com afazeres domésticos aumentou em todo no País, nos últimos anos. De acordo com a pesquisa, houve um aumento na proporção de pessoas que realizaram tarefas em casa, de 66,9% para 71,5%. Na análise do instituto, este resultado pode ser o reflexo da ligeira queda no trabalho doméstico remunerado de 7,8% para 7,6%, e também na renda real das pessoas de R$ 858 para R$ 763, neste período.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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Bem além do preto e branco

Medos ancestrais de contaminação e contágio podem explicar, pelo menos em parte, por que tendemos a pensar no bem e no mal em termos de claro e escuro

Wray Herbert

Em 1977, quando a indústria automobilística Chrysler lançou um novo modelo do Dodge Coronet, o mote da campanha publicitária era “o especial de chapéu branco”. Algumas propagandas exibiam caubóis cavalgando a esmo e “mantendo os preços baixos”, enquanto outras tinham a onipresente “garota Dodge” com o típico chapéu branco de vaqueiro dizendo: “Só os mocinhos poderiam propor um negócio destes”.
Essas propagandas não precisavam ser muito elaboradas. Os profissionais da americana Madison Avenue, reduto de publicitários, sabiam que os consumidores potenciais haviam crescido vendo filmes de Velho Oeste e estavam familiarizados com o simbolismo dos chapéus brancos. No cinema, Roy Rogers e Gene Autry encarnavam heróis: usavam chapéus brancos; já os bandidos ficavam com os adereços negros. Simples assim.
O branco e o preto carregam sutilezas de significado moral muito antes de caubóis e automóveis chegarem à mídia. Alguns cientistas acreditam que a nossa associação entre escuridão e pecado pode estar relacionada a um temor ancestral de sujeira e contágio que ainda hoje permanece profundamente arraigado em nossos neurônios. Recentemente, os psicólogos Gary D. Sherman e Gerald L. Clore, da Universidade de Virgínia, decidiram explorar essa ideia no laboratório. Os pesquisadores queriam descobrir se as metáforas comuns limitavam-se à retórica ou se poderiam estar inseridas no pensamento moral. Assim, decidiram testar a associação entre os tons claros e a virtude e o preto e a ideia de algo ruim, nocivo.
Os psicólogos adaptaram um teste de tempo de reação da década de 30, o Stroop. Talvez você já o conheça da internet, onde ele circula como um tipo de jogo, no qual os nomes das cores são impressos em cores desencontradas – a palavra “azul”, por exemplo, pode aparecer em amarelo. A pessoa deve rapidamente indicar a cor que vê – e não o que está escrito.
Aparentemente simples, revela que nossa mente teima em ler a palavra. A lentidão para reagir pode ser sinal de desconexão ou conflito cognitivo.

Na versão adaptada por Sherman e Clore, os voluntários não leram os nomes das cores e sim palavras como avareza e honestidade. Algumas foram impressas em preto e outras em branco – e todas apareciam rapidamente na tela. Como no Stroop original, a rapidez da reação mental era tomada como evidência de uma conexão automática e “natural”; a hesitação era vista como sinal de que a conexão não parecia verdadeira.
Os pesquisadores queriam ver se os voluntários associavam imediatamente imoralidade com a cor negra e virtude, com brancura. A hipótese dos cientistas se confirmou tão rapidamente que as associações não poderiam ter sido intencionais. Quando as palavras ligadas à virtude eram impressas em branco e aquelas com conotação negativa, em preto, o tempo de reação era significativamente menor que quando se dava o contrário – como se houvesse um “estranhamento” por parte do voluntário. Da mesma forma como nós, sem pensar, “sabemos” que limão é verde, reconhecemos instantaneamente que a negatividade é escura, sombria, e a virtude é clara e luminosa.
Por que existe essa associação intrínseca? Uma possibilidade é que a metáfora seja mais ampla e abranja não apenas conceitos de certo e errado, mas também de pureza e contágio. Pense em um floco de neve recém-caído. Ele não é apenas claro, também parece intocado, novo, inalterado, como um vestido de noiva. Já os tons de terra não apenas o mancham, também maculam a pureza – pelo menos simbolicamente. Pensando nisso, psicólogos fizeram outro experimento, acrescentando à noção de contágio a ideia de “moralmente sujo”. Eles pediram a um grupo de voluntários que lesse uma história sobre um advogado egoísta e antiético e depois compararam suas reações às de outros participantes do estudo que receberam informações sobre um personagem virtuoso.
Resultado: pessoas que receberam informações sobre comportamento inescrupuloso reagiriam mais rapidamente ao fazer a conexão entre a imoralidade e a cor negra no teste moral. Os pesquisadores descobriram essa relação usando definições mais livres de moralidade e imoralidade, incluindo vocábulos como dieta, fofoca, sair para baladas, ajuda etc. Em outras palavras, os que receberam a ideia de mau comportamento associaram a negrura não apenas ao crime e à trapaça, mas à irresponsabilidade, à falta de confiança e a comportamentos egoístas e irresponsáveis.

O resultado oferece uma evidência bastante convincente de que a relação entre o preto e o mau não é apenas uma metáfora: está mais profundamente associada com nosso velho medo de adoecimento e contágio. Sherman e Clore, porém, queriam examinar a questão ainda sob outro ângulo. Se a associação entre o mau e o escuro realmente se reflete em uma fixação em sujeira e impureza, então essa aproximação deveria ser mais forte para as pessoas muito preocupadas com limpeza e poluição, ou mesmo compulsivas. Os pesquisadores testaram essa sequência de conexões psicológicas em um estudo, finalizado com o teste de Stroop.
As conclusões foram inequívocas. Conforme publicado na edição de agosto do ano passado da Psychological Science, os que expressaram fixação acentuada por produtos de higiene pessoal(por creme dental e sabonete) também mostraram tendência de associar a moralidade com o branco e a imoralidade com o preto. O curioso é que itens para faxina, como detergentes, não ativaram o mesmo mecanismo psíquico. Em resumo: preocupações excessivas com sujeira e higiene pessoal parecem ser essenciais para ver o universo moral em preto e branco.
As descobertas têm implicações para o entendimento sobre o preconceito racial. Embora os cientistas ainda não tenham investigado se as pessoas de diferentes etnias têm desempenho semelhante no teste de Stroop moral, pesquisas sobre outros tipos de associações inconscientes mostram diferenças. Novos estudos podem ajudar a explicar por que o negro costuma ser vinculado à impureza de forma tão arraigada na mente de muitas pessoas. E, quem sabe, colaborar para diminuir preconceitos.

Wray Herbert é diretor de negócios públicos da Association for Psychological Science

Fonte: Mente e Cérebro – http://www2.uol.com.br/vivermente

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Livro mostra efeito da iluminação artificial no meio ambiente

Júlio Bernardes - jubern@usp.br

A influência da iluminação artificial sobre o ambiente é o tema do livro Antes que os vaga-lumes desapareçam, que será lançado em março por Alessandro Barghini, pesquisador do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) e do Laboratório de Estudos Evolutivos do Instituto de Biociências (IB) da USP. Na obra, o autor alerta para os efeitos negativos da iluminação sobre plantas, insetos e no metabolismo humano, além de propor medidas de controle da luminosidade para reduzir seus impactos.

Florada de paineiras (a esquerda) orientada na direção das lâmpadas de vapor de sódio

“A iluminação artificial é responsabilizada por gerar poluição astronômica e excesso de dióxido de carbono (CO2) emitido pela produção de eletricidade, mas o impacto da luz sobre a biodiversidade é muito maior”, aponta Barghini. O título do livro faz referência ao efeito da iluminação na reprodução dos vagalumes. Para atrair os machos, as fêmeas começam a brilhar quando a luz ambiente é inferior a 0,5 lux (medida de intensidade luminosa), equivalente a uma noite de lua cheia. “Como as luzes artificiais são muito mais fortes, a fêmea não pisca e o macho não é atraído, o que leva a diminuição da população dos insetos.”

O livro se baseia na tese de doutorado de Barghini, apresentada no IB,  que analisou os efeitos da iluminação em espécies vegetais e de insetos. “A vida na Terra não aproveita indiscriminadamente a luz solar, cada espécie se adequou a um comprimento de onda específico”, diz o pesquisador. “No caso da luz artificial, a radiação ultravioleta pode ser muito maior que a do Sol, cujas ondas são filtradas pela atmosfera, por isso algumas luminárias halogênicas possuem anteparos de vidro para filtrar a radiação”.

A obra descreve as características dos principais tipos de iluminação artificial e a influência que exercem sobre plantas, animais e seres humanos. “Por exemplo, as luzes de LED brancas, muito difundidas atualmente, possuem uma radiância muito alta na faixa do azul”, explica Barghini. Esse comprimento de onda sensibiliza a melanopsina, proteína que gera sinas para o núcleo suprasquiasmático do cérebro, responsável por regular o metabolismo do corpo humano. “O organismo entende que o dia está claro e aumenta o ritmo metabólico, podendo causar dificuldades para dormir”, acrescenta.

Evolução
A iluminação também pode causar distúrbios comportamentais e até doenças degenerativas, como câncer de mama. O pesquisador explica que embora a iluminação artificial seja vista hoje como um fato natural, ela é um fenômeno recente diante do período de evolução humana. “Todas as espécies se adaptaram a escuridão, embora os seres humanos só dêem conta dessa percepção após uma ou duas horas em ambiente não iluminado”, aponta. O livro revisa os conceitos de percepção e descreve como ela é modificada pela luz artificial.

“No caso dos insetos, que utilizam as luzes noturnas para orientar o vôo, as luminárias acabam prejudicando sua trajetória”. Nas plantas, Barghini cita o exemplo da floração de árvores expostas a diferentes tipos de iluminação artificial. “Dependendo do comprimento de onda, as lâmpadas podem tanto induzir quanto inibir a florada”, conta. Devido a alteração nos ritmos circadianos, as espécies animais podem ter a impressão que é sempre dia. “Alguns pássaros nas grandes cidades cantam a noite toda devido a presença da iluminação pública”.

As luzes artificiais também podem ser benéficas, segundo o pesquisador, desde que haja o cuidado de avaliar o modo de exposição, para que não cause danos. “No exterior, a iluminação é usada em tratamentos com pacientes com Mal de Alzheimer que apresentam distúrbios de sono e em alguns casos de distúrbios psicológicos”, afirma. “Também estão em desenvolvimento sensores de iluminação associados aos ritmos circadianos, para verificar se há exposição a quantidades excessivas de luz”.

O livro será lançado pela editora Annablume, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O lançamento deverá coincidir com a “Hora do Planeta”, marcada para o dia 27 de março. Na manifestação, que terá escala mundial, todas as luzes deverão ser apagadas por uma hora durante a noite, como forma de alerta sobre a poluição gerada pela produção de eletricidade. “O livro pretende aprofundar o debate, mostrando o efeito da iluminação artificial de forma mais ampla.”

Veja matéria sobre a tese de Doutorado do pesquisador clicando aqui.

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A devassa da devassa

Suspensão de propaganda de cerveja estrelada por Paris Hilton escancara os limites do "politicamente correto" e aponta para o desgaste do erotismo na sociedade atual

Michal Cizek - 17.mar.06/France Presse

Mulheres utilizam serviços de "spa da cerveja", que incluem imersão na bebida, em Chodova Plana, República Tcheca

RENATO JANINE RIBEIRO
 

Provei a cerveja Devassa num dia no aeroporto. Mas, quando vi na TV sua propaganda com uma norte-americana rica que deve a fama a um vídeo pornô que circulou na internet, achei de mau gosto e perdi a simpatia pela bebida. Ponto. Agora, quando o Conar retirou a propaganda do ar, vale a pena discutir um pouco o assunto.
O Conar é um órgão privado -Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária. Quando alguém fala em regular os excessos da televisão, a mídia costuma citar o Conar como exemplo de como fazê-lo sem o Estado intervir. Quando se para de falar em regulação social, esquece-se o Conar. De todo modo, ele nada tem a ver com o governo.
Numa pesquisa de 2000 que publiquei em meu livro "O Afeto Autoritário" (ed. Ateliê), analisei os julgamentos do Conar que encontrei. Notei uma certa contradição. Quando o Conselho de Enfermagem reclamou de quatro propagandas mostrando enfermeiras como mulheres fáceis, o Conar concordou e as publicidades sumiram.
Já quando psicólogos reclamaram duas vezes porque sua profissão era ridicularizada, o Conar disse que as propagandas eram, só, engraçadas. Em suma, onde para uns há humor, para outros há preconceito; mas a linha de corte depende, muito, do grau de mobilização dos que se sentem ofendidos.
A questão do humor ou do preconceito é ponto em que a publicidade converge com uma preferência dos jornalistas que tratam de entretenimento e variedades: segundo eles, o politicamente correto se distinguiria pela falta de humor. O elogio-padrão a uma peça de teatro engraçada diz que ela é "politicamente incorreta".
"Politicamente correto" é um termo pejorativo, usado para criticar a preocupação, nascida nos EUA, de movimentos sociais com expressões que depreciam grupos historicamente perseguidos. Por exemplo, os verbos denegrir e judiar vêm do preconceito contra negros e judeus -embora ninguém pense nisso hoje, quando os usa.
Piada de português
É difícil, mas necessário, separar o que é justo, para combater um preconceito de largas raízes históricas, e o que é excesso de algumas pessoas que levam, com boa-fé ou mesmo sem ela, longe demais a suscetibilidade. Denegrir, judiar, humor negro não me parecem exprimir, hoje, preconceito. Tampouco vejo problema em piadas de loira, de português, de papagaio e do Juquinha. Já afirmar que "o asfalto é o preto de quem todo mundo gosta", como disse um ministro dos Transportes em 1997, é grave.
E o é justamente porque o ministro o disse sem maldade: mostra que em nossos costumes há brincadeiras preconceituosas que rotulam negativamente grupos discriminados. Sem o "politicamente correto", isso passaria batido.
A propaganda da Devassa recorda que, na TV brasileira, a publicidade de cerveja a alia a mulheres gostosas. Lembro uma publicidade que fazia um corpo feminino tornar-se garrafa de cerveja. Mulheres são convertidas em coisa, em objeto de consumo? São, sim. Aparecer em propaganda de cerveja é coisa de gostosa. Recentemente, [o colunista da Folha] José Simão foi proibido de dizer que uma atriz era devassa (porque a personagem dela, não ela como pessoa, tinha um "bar da Boa").
Se Hilton aceita aparecer como devassa -mesmo acreditando que a palavra quer dizer apenas "sexy", como sua equipe declarou à Folha-, talvez seja uma resposta ao "affair" Simão: ela aceita fundir sua pessoa com sua personagem. Quem gosta de cerveja gosta de gostosa, portanto, cerveja é gostosa, talvez devassa.
Mas, se não há diferença entre a mulher-garrafa e a "devassa", por que saiu do ar esta última propaganda? O Conar pode ter mudado sua percepção das sensibilidades sociais. A redução da mulher a objeto se teria tornado intolerável. Se o Conar deu razão às enfermeiras, mas não aos psicólogos, é porque atua sob pressão -o que é outro modo de dizer que é atento à sensibilidade social.
Pois, se um indivíduo é injustiçado e só consegue justiça fazendo pressão, isso é errado. Mas, se um grupo maior se sente injustiçado e só obtém o que deseja pressionando, isso pode ser positivo. Nas relações macrossociais, justiça não se dá, não se recebe passivamente, mas se constrói. Por isso, se as mulheres recusam o papel de objeto, a decisão do Conar pode ser uma conquista delas.
Contudo, para várias mulheres, tornar-se objeto não é redução, mas aumento, de poder.
"Playboy" e "Big Brother"
É o que leva algumas ao "Big Brother Brasil". Nos anos 90, a revista "Playboy" colhia suas capas nas novelas da Globo.
Hoje, seu maior estoque é o "BBB". Há décadas, a mulher que posava para calendários de borracharia saía mal na reputação. Mas, hoje, na mídia, é ela, como objeto de desejo, que controla o sujeito desejante.
O jogo ficou mais complexo. O sujeito não manda, necessariamente, no objeto. Há mulheres que extraem poder de uma condição de objeto habilmente constituída. Madonna explicitou isso com seus clipes, com seu livro "Sex". O problema é que essa não é uma verdade universal nem majoritária. A mulher atacada sexualmente na rua não controla nada, não tem poder, é vítima de uma violência inadmissível.
Mas um número menor de mulheres -que consegue ser protagonista do que [o filósofo] Walter Benjamin chamava a reprodução mecânica e que hoje chamaríamos a imagem na mídia- ganha dinheiro, fama, poder com isso.
O problema é que há mais estupros do que capas de "Playboy", de modo que o poder e a riqueza de algumas não apagam o abuso sobre muitas. Finalmente: quando a mídia defende o direito (da cervejaria? da socialite? do espectador voyeur?) à propaganda com Paris Hilton, vivemos um fenômeno de desgaste: durante milênios o erotismo esteve no jogo entre o que se vê e o que apenas se adivinha. Mostrar dependia de esconder. Um autor árabe fala do erotismo que emana de um corpo velado: ele se faz imaginar pelo som das joias se chocando, pelo perfume, pelo movimento do corpo andando. Erotismo é imaginação.
Ora, como ficam as coisas quando o corpo se desnuda tanto? Não se trata apenas de transformar a mulher em objeto. Pois muda o registro sensual do corpo. Seria errado achar que as mulheres despidas suscitam menor desejo do que as imaginadas. Nossa sociedade se sexualizou intensamente, com a mostra ilimitada dos corpos objetos.
Falta de imaginação
Não creio que isso vá embotar o desejo, embora digam alguns que é de sua natureza buscar o difícil e desdenhar o fácil. Mas o certo é que, entre o desejo e a realização, o prazo diminuiu. Imaginação exige tempo, demora, frustração, desvio. Corpos se oferecem, se tomam, como cervejas, mas parece que, se aumentou o acesso físico ao corpo alheio, reduziu-se a capacidade de imaginar. Sexo, talvez, sem erotismo.

RENATO JANINE RIBEIRO é professor titular de ética e filosofia política na USP. O título deste texto é uma homenagem do autor, totalmente fora de contexto, ao belo livro de Kenneth Maxwell sobre a Inconfidência Mineira (Paz e Terra).

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O pensamento de Lênin

Luciano Gruppi

"A análise concreta da situação concreta é a alma viva, a essência do marxismo."

Vladimir Ilie Ulianov - Lênin (1870-1924)

Vladimir Ilyitch Ulianov - Lênin (1870-1924)

Do estudo do pensamento de Lênin, fica-nos a persuasão de que a característica mais profunda de seu método, de sua mentalidade, é o sentido da concreticidade histórica, a consciência da historicidade.  "A análise concreta da situação concreta é a alma viva, a essência do marxismo" (v. 31, p. 135).  Essa advertência, que reaparece mais de uma vez, parece-nos caracterizar o modo pelo qual ele se situa diante do marxismo.

Assim, ele parte - com um emprego do marxismo que já é incrivelmente maduro - da investigação da específica situação histórica russa, do modo peculiar pelo qual o capitalismo se desenvolve nesse país.  A investigação da especificidade russa serve-lhe para fundar a posição do proletariado diante da democracia burguesa, assim como a necessidade da sua hegemonia.  Em 1917, ele vê a articulação singular, original, que se verifica na Rússia entre o poder da grande burguesia e a ditadura democrática dos operários e dos camponeses; vê o modo pelo qual o alinhamento das forças políticas cria as condições e põe a necessidade de que as tarefas da revolução democrática sejam assumidas pela ditadura do proletariado e resolvidas numa conexão historicamente nova, original, entre a revolução democrática e a revolução socialista.

A convicção de Marx e Engels de que o marxismo não é um dogma, mas um método para a ação, é assim em Lênin algo muito forte; trata-se de uma ideia frequentemente repetida, sobretudo nos momentos de virada histórica e quando surgem novas situações políticas.  É o caso em 1907, quando - após a derrota da primeira revolução - coloca-se a questão da atitude da classe operária em face da Duma reacionária; é o caso depois da Revolução de Fevereiro, quando se trata de passar para a nova etapa da revolução proletária.  A teoria revolucionária não é dada para sempre; ela generaliza, elevando ao nível da consciência, a experiência histórica.  Todas as vezes que - a história, como Lênin observa, "jamais se repete" - todas as vezes que se põem à praxis tarefas novas, as conquistas teóricas alcançadas até aquele momento não bastam mais e colocam-se novas tarefas de investigação e de elaboração.

O marxismo, portanto, não é uma teoria universal que contenha em si todas as respostas; não é uma "filosofia da história" da qual possam ser deduzidas todos os momentos históricos.  É o método que permite compreender o processo histórico em sua determinação concreta.  Não é possível nenhuma separação entre método e teoria.  O método só é tal enquanto se vale de categorias científicas, resultantes da tomada de consciência dos elementos que constituem o processo da história.  Mas a história não é um fluir indistinto de fatos que devam ser apenas constatados e aos quais se deva apenas aderir; movida pelo desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção, pelos alinhamentos de classe correspondentes, a história se divide em formações econômico-sociais diversas.  Essa categoria de formação econômico-social, definida pelas leis que a governam, permite compreender a direção de um desenvolvimento histórico, antes mesmo que suas linhas tenham emergido com plena clareza; mas não esgota a necessidade de descobrir o modo específico pelo qual uma formação econômico-social se realiza nas diferentes situações.  Na noção de formação econômico-social, na consciência da historicidade das leis econômicas, do caráter dinâmico dos sistemas econômicos, na conexão que estabelece entre análise econômica e análise sociólogo e política, consistem a cientificidade do marxismo.  Nisso reside sua capacidade de descobrir as características concretas do processo histórico.

No interior de uma formação econômico-social geral (por exemplo: a capitalista), especificam-se os diversos processos de desenvolvimento dessa formação: a especificidade nacional, a especificidade dos alinhamentos de classe, a singularidade das situações e dos eventos políticos.  Só se faz política, praxis transformadora, quando há utilização das categorias constitutivas da formação econômico-social com o objetivo de descobrir as formas concretas através das quais ela se desenvolve.

Reside também aqui o fundamento científico da política proletária, que se faz guiar por categorias científicas e que as verifica na praxis.

Mas, precisamente porque a formação econômico-social representa o modo pelo qual se demarca o desenvolvimento histórico, ela deve ser captada em seu desenvolvimento, em suas transformações.  É assim que Lênin - que compreendeu a concreticidade de uma situação histórica determinada (russa) graças à aplicação das categorias científicas do marxismo - se eleva à compreensão da nova fase do desenvolvimento da formação econômico-social capitalista: o imperialismo.

O processo histórico é concebido em sua totalidade, na relação de estrutura e superestrutura, na conexão entre economia e política.  Se Marx nos dá a estrutura do capitalismo - observa Lênin - emprega ao mesmo tempo as categorias constitutivas dessa estrutura para a compreensão dos desenvolvimentos reais, da atitude das forças políticas, da função das personalidades individuais.

Para Lênin, o momento decisivo é o da política.  É o caso quando, diante da Revolução de 1905, critica os neo-iskristas por não compreenderem a função dos partidos, que intervêm ativamente no desenvolvimento histórico, por não terem entendido as teses de Marx sobre Feuerbach, por terem rebaixado o materialismo histórico a um materialismo pré-marxista, metafísico.  É o caso depois da Revolução de Fevereiro, quando a atitude a assumir é sugerida antes de mais nada pelo juízo sobre o alinhamento político.  É sempre o caso.  Mas a política só decide na medida em que implica a compreensão da situação objetiva, empregando categorias científicas, reportando-se à estrutura que governa o processo histórico.

Há uma conexão dialética entre economia e política, estrutura e superestrutura, situação objetiva e iniciativa revolucionária, objeto e sujeito.  Se considerarmos o conjunto do pensamento de Lênin, veremos que a atenção se volta sempre para a dialética: dialética dos processos reais, modo pelo qual se manifesta neles a contradição, relação entre todos os elementos que a constitutem, conexão entre situação objetiva e iniciativa política.  A política só é plenamente tal, só atinge uma fundamentação científica própria, se for guiada pela teoria, pelo conhecimento das leis que governam o desenvolvimento histórico e das categorias que devem ser aplicadas à análise das situações concretas.  Mas, precisamente por isso, a política - fundada pela teoria - por sua vez funda essa teoria, a verifica, exige seu desenvolvimento, num constante reexame crítico.  A política representa a unidade entre a teoria e a ação, a mediação entre elas.

A estreita relação entre a teoria e a ação, a permanente preocupação política, prática, que guia todos os momentos do pensamento de Lênin, a estreita adesão à concreticidade da história, torna esse pensamento - como esperamos ter conseguido demonstrar - extremamente rico e articulado.

Disso resulta a impossibilidade de reduzir sua concepção (ou, mais exatamente, o desenvolvimento de sua concepção) a algumas obras, por mais importantes que sejam.  Assim, para darmos um exemplo, não entenderemos sua concepção do imperialismo, em toda sua riqueza, se nos limitarmos ao famoso ensaio, embora seja o escrito mais importante sobre o assunto, e se não considerarmos as análises desenvolvidas em outros textos sobre o capitalismo monopolista de Estado.  Do mesmo modo, não entenderemos sua concepção do Estado se nos limitarmos a O Estado e a Revolução.  Se nos referirmos só a algumas obras, correremos o risco de incidir em graves equívocos, em perigosas sinplificações do seu pensamento.

Mas, sobretudo, nada - ou quase nada - compreenderemos da sua ação e dos seus escritos se não os situarmos no momento histórico e político a que eles se referem, se não esclarecermos qual era o fim político, prático, ao qual sempre tendiam de modo consciente.  Ele mesmo o diz, num prefácio a seus escritos, datado de 1907: "O erro fundamental em que incorrem hoje os que polemizam com o Que Fazer? está no fato de que esse escrito é inteiramente separado de sua conexão com uma situação histórica determinada, com um período determinado" (v. 13, p. 89).

Uma daquelas ironias da história, às quais Lênin gosta de se referir, terminou por fazer com que precisamente seu pensamento - e, mais ainda, momentos de seu pensamento - fossem absolutizados, prescindindo-se do seu condicionamento histórico-político, tomando-se esse pensamento ou esses momentos isolados dos desenvolvimentos que as concepções leninianas conhecem em outros momentos e escritos.

O fato é que, quando de sua morte, a áspera luta política (e consequentemente teórica) que se travou no Partido Comunista Russo (bolchevique), envolvendo alguns temas decisivos para a vida do regime soviético, teve de tomar como referência - o que era não só inevitável, mas também justo - os ensinamentos de Lênin.  Condição para que uma tese se afirmasse sobre outra foi a de que aparecesse como a interpretação mais fiel e consequente do pensamento de Lênin: e aqui se foi além do que era justo.  A luta política, assim, transformou-se também em luta por uma determinada interpretação de Lênin.  Formulações que eram desenvolvimentos da teoria revolucionária em comparação com o pensamente do Lênin, desenvolvimentos exigidos por situações novas, eram ao contrário apresentadas pura e simplesmente como teses do próprio Lênin.  Foi o caso, por exemplo, da teoria do socialismo num só país, cuja possibilidade está contida nos últimos escritos - em particular em Melhor pouco mas bom -, mas apenas a possibilidade e não a afirmação explícita.  A afirmação de que o socialsimo pode vencer "primeiro" em alguns ou mesmo em um só país - contida em Os Estados Unidos da Europa - é invocada como a prova de que a teoria do socialismo num só país já estava presente em Lênin.  E deixou-se de lado o "primeiro", assim como o fato de que ele não especificou de que países se pudesse tratar.

Em suma, toda uma série de momentos do pensamento de Lênin foram absolutizados, destacados da situação concreta de onde surgiram e para a qual se dirigiam.  Enquanto isso, outros momentos foram deixados na sombra ou esquecidos.

Mestre desse modo de "utilizar" Lênin foi indubitavelmente Stalin.  Não se pode negar, ao seu modo de interpretar o pensamento de Lênin, força teórica e extrema lucidez, notabilíssima capacidade de síntese.  É preciso reconhecer que "acertar contas" com Lênin, confrontar-se na base de uma interpretação do seu pensamento, assim como "sintetizá-lo", era naquele momento uma necessidade.  É isso tanto para a luta política que então se travava, quanto em função da necessidade de formar teoricamente uma grande massa de quadros e de militantes, não só soviéticos, mas de outros países, provenientes dos mais variados ambientes políticos e culturais e geralmente pouco aparelhados culturalmente.  Assim, interpretação para os fins da luta política e difusão e divulgação se articulavam como dois momentos igualmente necessários.  Mas,.desse modo, perdia-se grande parte da rica articulação do pensamento e da ação de Lênin.  Sua concepção é simplificada, empobrecida, em grande parte deformada.

Tomemos, como o exemplo mais rico de consequências e mais significativo, a "síntese" da concepção de Lênin contida nas lições de Stalin sobre os Princípios do Leninismo.  Trata-se, em seu gênero, de uma obra prima de síntese teórica, de precisão e de clareza.  Não se poderia explicar de outrro modo sua enorme influência.  Mas quanto se perde da "polpa" nessa tentativa de reduzir a concepção leniniana à sua estrutura essencial?  E quantas deformações são assim introduzidas na concepção de Lênin?

Vejamos alguns exemplos.  "Lênin chamava o imperialismo de ‘capitalismo moribundo’" (As questões do leninismo, Edições em Línguas Estrangeiras, Moscou, 1946, p. 11).  As contradições do imperialismo "transformaram o ‘florescente’ capitalismo de outrora em capitalismo moribundo" (Ibdem, p. 12).  Ora, como vimos, a concepção de Lênin sobre o imperialismo é bem mais rica e dialética.  Decerto, o imperialismo é a fase de putrefação do capitalismo; mas é também a fase de seu máximo desenvolvimento, a fase na qual têm lugar também grandes possibilidades de desenvolvimento tecnológico e produtivo.  Precisamente por isso, porque o imperialismo é o momento do máximo desenvolvimento do capitalismo, ele é também o momento de sua crise e de sua putrefação.  É perdida assim toda uma dimensão do pensamento de Lênin.  Toda a compreensão da complexidade e contraditoriedade de um desenvolvimento econômico-social é simplificada.  E pode-se bem compreender as consequências disso para um estudo objetivo do capitalismo nessa fase, o empobrecimento que resulta para a luta política e para o desenvolvimento da teoria.

E mais: destaca-se apenas um momento da ditadura do proletariado, o momento da violência exercida sem nenhuma limitação legal.  Trata-se, sem dúvida, de um elemento essencial da teoria de Lênin.  Mas, como vimos, não é o único.  A noção de ditadura do proletariado conheceu em Lênin, à medida que ele insistia cada vez mais no momento da direção, uma articulação bem mais complexa.  Deve-se notar que, enquanto Lênin insistia cada vez mais sobre a ditadura do proletariado como capacidade de direção, de educação, de persuasão, à medida mesmo que se iam colocando as tarefas construtivas do poder, Stalin - numa fase posterior, quando as tarefas do poder soviético tinham se tornado cada vez mais positivas - insiste, ao contrário, na violência, no momento que Lênin pusera em evidência sobretudo no período mais áspero da guerra civil, negligenciando os demais aspectos.  As razões e as consequências políticas desse modo de interpretar a teoria leniniana da ditadura são de fácil compreensão.

É assim deixada na sombra a insistência com a qual Lênin afirma que, com a ditadura do proletariado, o Estado começa imediatamente a se extinguir.  O fato de que logo após a tomada do poder e na época de Stalin, numa situação de isolamento do Estado soviético e não de rápida extensão da revolução, a questão não pudesse mais ser colocada desse modo é algo evidente.  Mas aqui não nos encontramos diante de um confronto teórico, avaliado em relação à diversidade de situações, mas simplesmente diante do cancelamento da questão.  E isso não deixa de ter profundas consequências, já que - quando as condições históricas não permitem (como não permitiam) uma rápida extinção do Estado - perde-se uma das características essenciais do regime socialista, isto é, a gradual identificação do poder estatal com o autogoverno da sociedade; é assim uma das razões fundamentais da sua democraticidade que se perde.  Com isso, recusa-se ver como a construção do socialismo em um só pais, ainda que obrigatória, alterou algo essencial na concepção que Lênin (reportando-se a Marx e Engels) tinha da "primeira fase do comunismo".  O fato é que a maneira pela qual Lênin é agora tratado torna impossível uma real confrontação teórica.  Os textos de Lênin são cada vez mais assumidos como o critério da verdade.  O critério da verdade transfere-se da praxis para os "clássicos" do marxismo.  Na realidade, o critério da verdade é estabelecido segundo o modo pelo qual Stalin interpreta Lênin; e cada vez mais se transferirá, de modo imediato, para as afirmações de Stalin.

Para Lênin, o partido é sem dúvida o momento mais alto da cosnciência de classe em comparação com as outras organizações da classe operária.  Em Stalin, essa concepção se converte numa rígida hierarquização das relações e num substancial empobrecimento da articulação das diversas organizações do poder proletário.  "O partido - diz Stalin - […] é a única organização capaz de centralizar a luta do proletariado e, portanto, de transformar as organizações proletárias apartidárias […] em orgãos auxiliares e em correias de transmissão que ligam o partido à classe" (Ibdem, p. 84).  Ora, o conceito de "correia de transmissão" está certamente presente em Lênin, em referência ao sindicato; mas é também verdade que é empregado, entre outras coisas, para recusar a proposta de sua estatização, para defender a função que lhe é própria.  Lênin não fala de organizações "auxiliares" do partido; ao contrário, vê o poder soviético apoiar-se num conjunto de organizações sobre as quais o partido exerce a função dirigente.

Mais tarde, na concepção da unidade do partido, será introduzido o conceito de monolítico, inteiramente ausente em Lênin, o qual - se havia insistido sobre a necessária compacticidade do partido - concebera-a sempre como o resultado de uma confrontação dialética.

Um outro exemplo nos é dado pelo modo de situar historicamente Lênin.  "Entre Marx e Engels, por um lado, e Lênin, por outro, estende-se todo o período do domínio do oportunismo da II Internacional" (Ibdem, p. 16).  O juízo de Lênin sobre a II Internacional, como vimos, era bem mais rico.  Ele indica, em toda uma fase histórica da II Internacional, uma função positiva, de desenvolvimento do movimento em partidos nacionais, de difusão do marxismo, e até mesmo de sua defesa frente aos ataques "revisionistas" de Bernstein.  Ao mesmo tempo, vê como as razões do oportunismo foram se acumulando gradualmente, até determinarem a capitulação de 1914.

Não se pode dizer que a análise histórica de Lênin esgote inteiramente a questao, que a categoria de "aristocracia operária" explique tudo o que pretende explicar.  Pode-se observar que ele não viu como a "renegação" do marxismo por Kaustsky tivesse suas raízes no modo pelo qual este interpretara o marxismo já nos anos anteriores; mas é certo que, em Stalin, encontramo-nos diante da extrema esquematização de uma avaliação histórica e da profunda modificação do juízo que Lênin formulara sobre a questão.

Disso resulta o que nos parece ser uma falsificação pura e simples da inserção de Lênin na história do movimento operário.  Trata-se da conhecida carta de Stalin à revista Proletarskaia Revoliutsia, de 1931, onde ele afirma: "Todo bolchevique sabe […] que já muito antes da guerra, mais ou menos por volta de 1903-1904, quando se formou na Rússia o grupo dos bolcheviques e pela primeira vez se ouviu falar dos esquerdistas na social-democracia alemã, Lênin seguia uma linha orientada para o rompimento, para a cisão com os oportunistas, tanto entre nós, no Partido Social-democrata da Rússia, quanto na II Internacional, particularmemnte na social democracia alemã" (Ibidem, p. 384).

Ora, é fato incontestável que a constituição da fração bolchevique no POSDR determinou divergências com a II Internacional, a respeito da posição que essa deveria ter assumido diante dos contrastes no interior da social democracia russa.  E é também certo que a II Internacional e o próprio Kautsky tinham maiores simpatias pelos mencheviques do que pelos bolcheviques, e que a razão disso se encontra numa concepção de partido diversa da que Lênin propugnava.  Mas não há um só documento, um só escrito ou discurso de Lênin onde se revele uma intenção de rompimento.  Ao contrário, a orientação de Lênin se volta no sentido de superar as incompreensões da II Internacional para com os bolcheviques, de conquistar para eles a plena cidadania naquela organização, acompanhando esse esforço com a luta contra o oportunismo.  Pode-se dizer que o Lênin de Que Fazer?, e, mesmo antes, o dos primeiros escritos econômicos, já fosse um marxista bem diverso do de Kautsky; mas deve-se também acrescentar que, no próprio Lênin, não havia uma plena consciência dessa diferença, tanto assim que ele continuou a se referir a Kautsky como à maior autoridade em marxismo; e deve-se ainda recordar, sobretudo, que mesmo depois, quando a ruptura já ocorrera e a crítica não poderia ter sido atenuada por motivações políticas, ele continuou a falar com admiração de textos de Kautsky anteriores a 1914 e a referir-se, sem reservas, a um período no qual este "ainda era marxista".

Também no que se refere à social democracia russa, não se deve esquecer o esforço de Lênin - embora com sucesso pouco consistente - no sentido de reconstituir a unidade das duas correntes, por ocasião do IV Congresso do POSDR.

Depois da morte de Lênin, formou-se toda uma tendência a cancelar da história do movimento operário a II Internacional em seu conjunto, como se se tratasse de um obscuro parênteses.  Ignora-se assim que se Lênin, desde os primeiros anos, reportou-se diretamente a Marx e aplicou com originalidade o seu método e a sua teoria, sem deixar-se aprisionar pela mediação de Kautsky, ele aceitou porém uma certa mediação desse teórico do marxismo.  Assim como também aceitou a de Plekhânov para a luta contra os populistas, embora a tenha travado logo em seguida de modo original.  Aceitou a mediação de Kautsky, tanto no que se refere à questão agrária quanto à teoria do partido; nesse último caso, recolheu de Kautsky a tese decisiva segundo a qual a teoria revolucionária vem "de fora" do movimento operário.  A influência filosófica de Plekhânov continuou a atuar, mesmo depois do rompimento, pelo  menos até Materialismo e Empirocriticismo.

Essa eliminação de qualquer mediaçãqo da II Internacional na relação de Lênin com Marx e Engels foi o momento necessário de uma importante operação ideológica: a construção da noção de "marxismo-leninismo".  Com essa fórmula, pretende-se precisamente afirmar a rigorosa continuidade da concepção e da ação de Lênin com relação a Marx; e, ao mesmo tempo, pretendeu-se dizer que Lênin imprimiu um vigoroso e consequente desenvovlimento ao marxismo, tal como a nova fase imperialista do capitalismo tornara necessário.  Há nisso tudo uma profunda verdade, tanto na afirmação de uma rigorosa relação de continuidade entre Lênin e Marx, quanto na acentuação do valor essencial do desenvolvimento que ele emprestou ao marxismo.  Mas há também uma simplificação inaceitável.  Precisamente a negação da existência de uma mediação histórica entre Marx e Lênin, que na verdade existiu; e a recusa de analisar o que essa mediação significou.  A consequência foi que depois, com a noção de "marxismo-leninismo", terminou-se por apresentar a teoria revolucionária do movimento comunista como um todo compacto, em si acabado, capaz de responder a todos os problemas.  Perdeu-se de vista a extraordinária riqueza do pensamento de Marx, Engels e Lênin, as diversidades que existem entre momentos diversos do pensamento deles e de cada um deles em particular, assim como o que distingue a personalidade desses revolucionários.  Perdeu-se o sentido da historicidade do marxismo e a consciência de que era necessário aplicar o método marxista ao estudo da história do próprio marxismo.

Essa fórmula tornou-se possível por causa de uma certa interpretação de Lênin que transformava seu pensamento num sentido doutrinário, que o simplificava e empobrecia.  Só se pode falar de "marxismo-leninismo" quando Lênin é visto através da interpretação de Stalin.  Na realidade, o marxismo-leninismo é essencialmente a interpretação de Lênin que nos é dada por Stalin1.

Stalin nos deu uma célebre definição do "leninismo".  Como se sabe, Stalin gostava das definições e possuía uma incomum capacidade didática ao apresentá-las; não tinha, em face das definições, a prudência e a desconfiança de Lênin.

"O leninismo é o marxismo da época do imperialismo e da revolução proletária.  Mais exatamente: o leninismo é a teoria e a prática da revolução proletária em geral, a teoria e a prática da ditadura do proletariado em particular" (Ibdem, p. 10).

Pode-se observar que nem todo Marx está presente em Lênin, nem toda a excepcional dimensão de sua visão teórica (e isso mesmo sem levar em conta os escritos marxianos que Lênin não pudera conhecer).  E pode-se observar que existem em Lênin, além de novos desenvovlimentos da teoria e de novas tarefas da ação revolucionária por ele enfrentadas, capacidades e sensibiluidades que não existiam em Marx ou que a história não lhe dera ocasião de manifestar.

Não queremos aqui nos deter sobre o modo pelo qual a conexão entre teoria e ação passa historicamente, com Lênin, a um novo nível e atinge uma dimensão qualitativamente diversa.

Todavia, Stalin se dá conta - quando fala de "leninismo" - que não se refere à concepção geral do marxismo que Lênin assumira, mas "ao que há de particular e de novo na obra de Lênin" (Ibidem, p. 9).

É difícil negar que essa definição de Stalin capte o momento em que Lênin se insere na história de modo decisivo, um modo que faz dele o grande dirigente do movimento revolucionário que conhecemos.  Desse ponto de vista, cremos que essa definição possa ser aceita; mas recordando o que o apodítico Stalin esquece, algo que Lênin, ao contrário, tinha bem presente: ou seja, que "todas as definições muito concisas são certamente cômodas, como é o caso das que resumem o essêncial do fenômeno em questão, mas revelam-se insuficientes quando se trata de deduzir delas os traços mais essenciais do fenômeno a definir (v. 22, p. 266). Isso vale também para a definição staliniana de "leninismo", que deixa na sombra toda uma série de momentos essenciais do pensamento de Lênin.  Basta pensar na investigação da especificidade russa, que nos fornece também o exemplo de um método de investigação aplicável a outras realidades históricas; basta pensar na teoria do partido, que não pode ser reabsorvida na referência "à teoria e tática da revolução proletária em geral, da ditadura do proletariado em particular".

Concluindo: é preciso voltar hoje a uma leitura não dogmática, não doutrinária de Lênin, mas a uma leitura guiada pelo senso da historicidade, capaz de estabelecer a colocação histórico-política e a riqueza da articulação do pensamento e da ação de Lênin.  Uma leitura capaz de recuperar a relação entre método e teoria que lhe era propria e, por isso, a visão crítica do seu pensamento, única que pode ser fecunda.

Isso significa que é preciso libertar-se da mediação deformante do péríodo da direção de Stalin, mas sem repetir o erro que Stalin cometeu: o de ignorar que as mediações existem, não podem ser canceladas; por isso, elas devem ser também atentamente estudadas, pelo que foram, pelas razões históricas profundas que as determinaram, já que só assim poderão ser criticamente superadas.

Nota:

1 CF. Valentino Gerratana.  Lo stalinismo teorico. In Rinascita, no 43, ano 26, outubro de 1969.

Fonte:  GRUPPI, Luciano.  O pensamento de Lênin.  Tradução de Carlos Nelson Coutinho.  Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, p. 297-308.

O pensamento de LêninLuciano Gruppi (1920-2003), teórico e dirigente comunista italiano, escreveu na revista Critica marxista e organizou os últimos volumes das Obras de Palmiro Togliatti; é autor de uma valiosa Introdução ao estudo de Gramsci (1987); vários de seus livros foram traduzidos no Brasil: O pensamento de Lênin, O conceito de hegemonia em Gramsci, Tudo começou com Maquiavel.

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

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Movimentos gravitacionais de massa, tragédias de verão

Chuvas torrenciais em áreas de ocupação indevida, associadas a outros processos de desequilíbrio ambiental, levam a acidentes que podem ser evitados na maior parte dos casos, mas ainda produzem mortes e prejuízos materiais

Jefferson Picanço


Roosewelt Pinheiros/ABR

Excesso de chuva em área de ocupação de risco soterrou pousada e residências na enseada do Bananal, Ilha Grande em Angra dos Reis, na passagem do ano de 2009 para 2010

O roteiro é conhecido. De repente, toneladas de solo, rochas e troncos de árvores, acompanhados do som que lembra um trovão, deslizam do morro. Pelo caminho, arrasam construções,soterrando e matando pessoas e animais. A repetição dessas catástrofes no Brasil, durante o verão, parece sempre uma tragédia anunciada. As autoridades, pegas de surpresa, atiram a responsabilidade sobre os próprios fenômenos naturais, como se a chuva fosse algo anormal ou as rochas do morro estivessem todas carregadas de uma estranha má intenção. Os cidadãos, enlutados e estupefatos, perguntam se essas tragédias poderiam ter sido evitadas e com isso pode ser feito.
Os movimentos de terra e solo que todos os anos provocam desastres nas cidades brasileiras fazem parte de um tipo de fenômenos naturais denominados movimentos gravitacionais de massa. Esses movimentos caracterizam-se pela dissipação de significativa quantidade de energia e pelo deslocamento de grandes massas de materiais terrestres, como rochas, solo, e por vezes troncos de árvores, sob a ação da gravidade.Os movimentos gravitacionais de massa têm geometrias, volumes e velocidades muito distintas entre si. Alguns tipos, como as quedas de blocos ou avalanches, são extremamente rápidos. Outros, como os rastejos, apresentam movimentos da ordem de centímetros por ano.
Numa paisagem serrana qualquer do sul-sudeste do Brasil, enxergamos a princípio somente árvores, pedras e solo. Mas, longe de ser estática, essa paisagem está sofrendo a ação de forças tectônicas, que criam o relevo, e está sob a ação de diferentes agentes geológicos, como a água, o vento e os organismos vivos, que a modelam. A paisagem é o resultado desse somatório de processos no tempo.
A formação de solos é mais intensa em climas tropicais quando as elevadas temperaturas e as precipitações atmosféricas fazem com que as rochas sejam mais facilmente decompostas e desagregadas, num processo denominado intemperismo. O principal produto do intemperismo é a formação de uma espessa capa de material desagregado e poroso, que contém desde finas partículas até blocos parcialmente decompostos de rocha. Essa capa é denominada regolito, ou manto de intemperismo. O regolito é composto por saprolito, a rocha total ou parcialmente decomposta, e pelo solum, que é o solo propriamente dito.

Roosewelt Pinheiros/ABR

Estrada do Contorno, em Angra dos Reis, foi completamente bloqueada por várias quedas de barreiras e rolamento de rochas em 31/12/2009 e 01/01/2010

Em encostas íngremes, as águas escoam mais rapidamente, sem contato com as rochas por tempo suficiente para intemperizá-las, transformando-as em regolito. O pouco regolito formado em vertentes íngremes, quando atinge determinadas espessuras críticas para sua estabilidade, desloca-se vertente abaixo por erosão ou na forma de movimentos de massa. Por isso, o solo em áreas íngremes é menos espesso e pouco evoluído, ou mesmo inexistente.
A porção superior dessa vertente será então um maciço de pedra com algumas árvores isoladas, nos trechos onde o solo consegue se formar. Os morros tipo Pão de Açúcar, que modelam espetacularmente a paisagem do Rio de Janeiro e de outras regiões de serra, representam o estágio de maturidade de paisagens tropicais com vertentes íngremes sustentadas por rochas cristalinas, como gnaisses ou granitos.
O regolito, nessas áreas de alta declividade, terá sido sucessivamente deslocado por movimentos de massa e pelos rios para a base das vertentes, na forma de uma mistura caótica de blocos de rocha e solo. Esses depósitos não consolidados são denominados tálus. Como se trata de um material ainda inconsistente, o tálus é instável e pode facilmente ser instabilizado, provocando outros movimentos de massa. Em muitas áreas urbanas, são comuns os acidentes com movimentação gravitacional de massa em depósitos de tálus instabilizados pela ação humana.
As partículas de solo e blocos de rocha, numa encosta natural, sofrem a ação de dois conjuntos distintos de forças: as solicitantes e as resistentes. As forças solicitantes induzem o movimento das partículas encosta abaixo, paralelo à encosta, enquanto as forças resistentes se opõem a esse movimento. As principais forças resistentes ao movimento são a coesão interna entre as partículas e a resistência friccional entre os blocos de rocha e o solo.

Roosewelt Pinheiros/ABR

Área de risco em Angra dos Reis teve 3 mil moradias condenadas após deslizamentos em janeiro passado

A gravidade é uma das principais forças solicitantes. Num bloco de rocha qualquer numa vertente, a gravidade pode ser dividida em dois componentes: o perpendicular da gravidade atua em ângulo reto com a vertente e tende a manter o bloco de rocha onde está. Já o componente tangencial atua paralelamente à vertente e tende a movimentar o bloco de rocha para baixo. A inclinação da vertente também é importante, pois vertentes mais inclinadas apresentam maior componente tangencial da gravidade que as de menor inclinação.
A estabilidade de uma dada vertente é, portanto, o resultado da interação entre as forças solicitantes e as forças resistentes. Quando as forças resistentes excedem as solicitantes, a vertente é considerada muito estável. Porém, sob a ação de determinados processos, a perda de coesão é tão forte que as resistentes tornam-se menores que as solicitantes. Nesse caso, a vertente pode ser instabilizada a qualquer momento.
Uma das causas mais importantes que levam à perda de coesão e consequente ruptura de um material de encosta é a presença de água. E é fácil entender a razão disso. Quem já construiu um castelo de areia na praia sabe que, quando seca, a areia é instável e difícil de moldar. Quando umedecida, no entanto, a força de atração capilar entre os grãos e os poros cheios de água torna a areia passível de ser moldada. Se, no entanto, for acrescentado excesso de água, a areia fica saturada e perde a coesão. Torna-se fluida.
A água também pode estar presente em fendas e trincas do solo. Por vezes, a superfície de contato do regolito com a rocha íntegra funciona como um armazenador da água que não consegue se infiltrar. Essa superfície saturada cria um verdadeiro colchão de água na encosta, que perde sua coesão e desliza como um veículo em aquaplanagem quando seu condutor perde o controle.
Outros fatores importantes a serem levados em conta na estabilidade de vertentes são a forma das encostas, a natureza da cobertura vegetal e as características dos diferentes tipos de solos e de rochas. Dependendo das condições gerais de estabilidades de uma encosta, movimentos de massa podem ser iniciados por abalos sísmicos naturais ou induzidos por ações humanas.

Diversidade de Processos
Os processos de movimentos gravitacionais de massa mais rápidos e catastróficos são as quedas, escorregamentos e deslizamentos e os fluxos de terra e lama, com velocidades em metros/dia ou mesmo em quilômetros por hora. Os fenômenos mais espetaculares e potencialmente perigosos são as quedas de materiais, caracterizadas por episódios de queda livre de maciços de rocha ou de fragmentos de rocha e de solo. As quedas ocorrem em áreas com grande inclinação, como escarpas.
Escorregamentos são rupturas que deslocam massas coerentes de rocha, de solo ou ambos. Apresentam dois tipos principais: os escorregamentos cuja superfície de separação é plana, ou planares, e os com superfície de separação curva, ou escorregamentos rotacionais. Em função da rotação sofrida, o topo do material escorregado apresenta, frequentemente, uma inclinação contrária à vertente. Já os deslizamentos são rupturas de rocha e/ou solo, em que o material deslizado não tem coerência interna, formando agregados caóticos.
Os movimentos gravitacionais de fluxo reúnem misturas densas de sedimentos, água e ar, sob a ação da gravidade. Podem também ser chamados de corridas de detritos, de terra, ou lama, dependendo do tipo de material envolvido. As corridas, dependendo da proporção água/sedimento, podem ter a consistência de cimento fresco, ou de uma sopa espessa. Com frequência são misturas tão densas que podem transportar enormes blocos de rocha. Os fluxos também têm velocidades de deslocamentos que variam de metros/ano a quilômetros por hora. Muitas vezes ocorre associado a escorregamentos e deslizamentos, e pode ser mobilizado ao longo de canais.
O rastejo é um movimento gravitacional de massa muito lento, da ordem de centímetros por ano. As velocidades de escoamento são mais rápidas em superfície e decrescentes com a profundidade. O rastejo movimenta solo e rocha, e esse deslocamento pode ser constante, sazonal ou intermitente. O reconhecimento de encostas sob ação de rastejo se dá pela observação de algumas feições características, como árvores tortas no sentido da vertente, tombamento de muros, trincas no solo. É comum o truncamento e o dobramento de camadas de rocha no sentido da vertente. Os processos de rastejo formam na base das vertentes depósitos de materiais incoerentes e pobremente selecionados, os colúvios. A ocorrência de rastejo numa vertente é uma clara indicação de sua instabilidade, com maior probabilidade de ocorrer outros tipos de movimentos de massa. A identificação do rastejo é importante na prevenção de movimentos de massa mais rápidos e potencialmente mais perigosos.

 

Marcelo Ximenez/Folha Imagem

Lixo acumulado nos fundos de favela em São Paulo por falta de serviços básicos fragiliza a estabilidade do solo com riscos geológicos

Nas cidades litorâneas brasileiras o processo de urbanização desde o fim do século 19 levou a uma ocupação intensiva, muitas vezes descontrolada, das áreas de encosta. Nas grandes cidades, os loteamentos populares começaram a surgir na década de 40, tendo progressivamente se espalhado para a periferia. Na década de 70 essas áreas se adensaram e começou- se a ocupar porções ainda remanescentes, situadas em encostas, que passam também a ser loteadas e comercializadas a preços convidativos, atraindo justamente parcelas de população de menor poder aquisitivo. As favelas que se instalam ao longo de todo esse período, por exemplo, estão quase sempre situadas em áreas de risco. A precariedade das construções e a ausência de preocupação com acidentes tornam essas áreas extremamente suscetíveis a movimentações de massa.
Os impactos dessa urbanização se refletem inicialmente na retirada de vegetação, com alteração do ambiente natural. As ocupações com lotes de tamanho reduzido, por exemplo, diminuem em muito a área vegetada da encosta, tornando-a ainda mais suscetível à erosão e a movimentos de massa. A execução de cortes no terreno, tanto para construção quanto para regularização do traçado das vias, gera taludes artificiais frequentemente instáveis. Os cortes levam à exposição de solos naturalmente instáveis, como os tálus e colúvios, originalmente situados em camadas mais profundas, e mais suscetíveis a um ou mais processos de instabilização mencionados.
Aterros em encostas urbanizadas são importantes desencadeadores de movimentações de massa. É frequente nessas áreas a deposição de lixo e/ou entulho nas encostas, materiais em geral muito porosos e que originam sobrecargas capazes de induzir movimentos de massa catastróficos.
A urbanização também promove a alteração do regime natural de escoamento e infiltração de águas pluviais, originando quase sempre fluxos e lançamentos concentrados de água. A introdução de novas fontes de águas superficiais e sub-superficiais associadas a redes de água e de esgotos com vazamentos e a fossas negras e sépticas produzem outros impactos importantes na dinâmica das encostas, aumentando a carga no solo e diminuindo as pressões neutras, favorecendo as movimentações de massa.

Instrumentos de Prevenção
Frente às situações catastróficas que ocorrem nessas áreas, a engenharia geotécnica e a geologia de engenharia desenvolveram muitas respostas técnicas para equacionar esses problemas nas cidades brasileiras. Entre esses instrumentos estão a cartografia geotécnica, cartas de risco e planos de defesa civil.
As cartas geotécnicas são mapas que compartimentam o meio físico de uma região, de acordo com as características do solo. O mapeamento oferece um perfil geral de métodos a adotar na ocupação de uma área de encosta, para que se garantam condições de segurança geotécnica e de adequação ambiental. Esses mapeamentos procuram avaliar e retratar as características do meio físico, ou seja, os diferentes tipos de solo e rocha.Também e principalmente buscam prever seus possíveis comportamentos frente às diferentes formas de cobertura vegetal, uso do solo e processos induzidos pelo homem.
Em 1966 foi fundado, no Rio de Janeiro, o Instituto de Geotécnica (atual GeoRio), que cuida das áreas de encosta no estado. O primeiro mapeamento geotécnico foi a Carta Geotécnica de Santos e São Vicente (1979), realizado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Hoje, a cartografia geotécnica é um instrumento muito usado nas principais cidades do país.
Com a carta geotécnica é possível executar o zoneamento de risco. O risco geológico é definido como uma situação de perigo, perda ou dano, ao homem ou suas propriedades, em razão da existência de processos geológicos induzidos ou não. Assim, por exemplo, um escorregamento de grandes proporções que ocorra numa área desabitada apresenta um risco menor que o mesmo fenômeno, em dimensões mais reduzidas, mas que tenha maior probabilidade de causar danos materiais ou em vidas.

O mapa de riscos fornece informações sobre intensidade e probabilidade temporal e espacial dos eventos perigosos. Representa uma avaliação dos riscos presentes, incluindo o histórico dos efeitos dos desastres e a estimativa de sua provável evolução, frente às mudanças registradas nas comunidades que afetam, como o crescimento populacional e incremento do patrimônio. A partir do zoneamento de risco, são desenvolvidos os planos de defesa civil, um conjunto de medidas e ações capazes de minimizar os efeitos dos acidentes, envolvendo medidas de organização da comunidade e definição de infraestrutura específica para atender situações emergenciais.
Além das situações emergenciais é preciso que técnicos e comunidades estejam em alerta para que se possa conhecer, ainda que de maneira aproximada, o momento e os locais prováveis de deflagração dos movimentos de massa catastróficos. Também é necessário controlar novas ocupações em áreas expostas a riscos, assegurando-se que novas construções sejam resistentes aos fenômenos. E, finalmente, ter programas para reformar as ocupações existentes, aumentando a cultura sobre riscos e criando ou reforçando as estruturas das moradias frente aos fenômenos que ocorrem em encostas.
Dificuldades
Mas, são muitas as dificuldades para implementar planos dessa natureza. A pressão por moradias nas cidades faz com que as populações mais pobres busquem construir em áreas de risco.
O corpo técnico de prefeituras e governos estaduais sabe muito bem que, sempre que uma área de risco é desocupada e seus habitantes transferidos para regiões mais seguras, elas são reocupadas por outras pessoas, desprovidas de abrigo. A pressão, frequentemente, é tão grande que, por conveniências políticas, o próprio poder público permite essas iniciativas de alto risco.
A legislação brasileira que se refere à ocupação de encostas é definida por leis ambientais que disciplinam o uso do solo urbano. As encostas estão incluídas nas leis ambientais, muitas vezes em áreas sob proteção ambiental, com variadas restrições à ocupação, ou simplesmente como áreas de ocupação proibida. A experiência mostra que a proibição pura e simples, sem mecanismos compensatórios, faz com que os próprios donos de terreno ou políticos populistas facilitem as invasões e ocupações de áreas ambientalmente sensíveis. Em contraposição, a ausência de fiscalização proporcional à criação dessas áreas de proteção ambiental faz com que essas reservas sejam simplesmente ocupadas, à margem de qualquer lei, tanto por moradores de alta quanto de baixa renda.

Outra das dificuldades mais comuns é tornar efetivos os resultados do mapeamento geotécnico e da carta de riscos. Muitas vezes estes documentos ficam engavetados, esperando por recursos financeiros e por políticas adequadas. As administrações com frequência não compreendem que o mapeamento geotécnico não é uma obra acabada, mas deve ser continuamente refeito e aperfeiçoado, o que pressupõe a existência de equipes técnicas estáveis cuidando desse problema. Infelizmente, quase sempre é necessária uma temporada de chuvas mais intensas, acompanhadas de catástrofes previsíveis, para que mapas e projetos sejam desengavetados.
Não existem soluções fáceis nem simples para os problemas de ocupação de encostas em áreas urbanas. Essas iniciativas envolvem problemas que tiveram origem em situações sociais e econômicas do passado recente, e que só se agravaram com o adensamento da ocupação em áreas de risco. A falta de informação da população assim como a carência de políticas públicas efetivas são comprometedores agravantes desse problema.
As áreas de morro podem ser ocupadas. Ressalvando as áreas de risco, existem muitas soluções técnicas já propostas que buscam soluções para o problema. É necessário, mais que nunca, que mais e mais equipes multidisciplinares, envolvendo geólogos, geógrafos, engenheiros, arquitetos, urbanistas, advogados e muitos outros profissionais possam trazer abordagens inovadoras para uma ocupação segura e ambientalmente responsável de áreas de encosta.
É necessário ainda que se desenvolva um novo entendimento, uma nova cultura que entenda que as chuvas acima da média e as encostas instáveis não têm culpa de nada. Cabe a nós entender os sinais que a Natureza nos dá e resolver os problemas da melhor forma possível. Isso se faz com ciência e informação. Dezembro, janeiro e fevereiro devem ser meses de chuva, não de tragédias anunciadas.

Terra em transe

1. Desenho esquemático de um escorregamento, com a indicação dos elementos que o constituem Fonte:ABNT
2. Corrida de lama, com a indicação dos elementos que o constituem Fonte: Skinner & Porter (2003)

Jefferson Picanço geólogo formado pela UFPR(1989), tem mestrado (1994) e doutorado(2000) pela Universidade de São Paulo(USP). Trabalha com mapeamento geológico aplicado à exploração mineral e com geologia aplicada à engenharia. Atualmente também desenvolve pesquisas sobre a história das ciências geológicas no Brasil colonial.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/

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Um avanço ainda tímido

Dermeval Saviani

Lula seguiu a política tucana e inovou pouco no 2º mandato

Foram grandes os embates travados entre a comunidade educacional e o governo FHC, cuja política não contemplava as principais aspirações dos educadores. Nesse contexto, durante as eleições presidenciais de 2002, o movimento dos educadores tendia a encontrar no PT um canal político natural de desaguadouro de suas reivindicações. A expectativa era a de que a chegada desse partido ao poder federal abriria uma nova era para a educação no País.
Entretanto, a posse de Lula e os primeiros movimentos de seu governo foram deixando clara a frustração daquela expectativa. Em suas linhas gerais e no que se refere às questões de fundo, a orientação política do governo anterior foi mantida. Não se constatou ruptura também na política educacional. No entanto, novas medidas foram tomadas e implicaram modificações em relação ao que fora estabelecido no governo FHC.
As primeiras iniciativas incidiram sobre a educação superior. Trata-se da criação, em 2004, do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) e do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), seguidos da criação, em 2005, do Programa Universidade para todos (ProUni).
Para gerir o Sinaes, que avalia instituições, cursos e desempenho dos estudantes do nível superior, foi instituída, no âmbito do MEC, a Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior. O Enade, por sua vez, substituiu o “Provão”, instituído no governo FHC.
O ProUni configurou-se como um programa de concessão de bolsas de estudo para que alunos não portadores de diploma de nível superior pudessem cursar instituições de ensino particulares. A lei que o instituiu previu três modalidades de bolsa: integral, concedida a candidatos com renda familiar mensal per capita limitada a um salário mínimo e meio, parcial de 50% e parcial de 25% – ambas destinadas a candidatos com renda familiar per capita de até três salários mínimos. Para se candidatar ao ProUni é necessário preencher um dos seguintes requisitos: ter cursado o ensino médio completo em escola pública ou em instituição privada como bolsista integral, ser portador de deficiência, ser professor da rede pública de ensino (independentemente da renda). As instituições particulares que participam do programa se comprometem a oferecer vagas em consonância com os requisitos estabelecidos no texto da lei. Como contrapartida ficam isentas do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas, da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, da Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social e da Contribuição para o Programa de Integração Social.
Foram essas as medidas tomadas pelo governo Lula no que se refere ao ensino superior. Em termos gerais, as modificações­ propostas não chegaram a alterar o espírito que presidiu a política educacional do governo FHC. A substituição do Provão pelo Enade incidiu, fundamentalmente, sobre aspectos operacionais. A criação do ProUni, embora constitua uma inovação, não se opõe à orientação anterior. Ao contrário, a reforça, pois uma das diretrizes básicas do governo FHC era ampliar a participação das instituições privadas na oferta de vagas, para reduzir o déficit de estudantes de nível superior no Brasil.
Mas é importante destacar que, especialmente ao longo do segundo mandato, a iniciativa de criar novas universidades federais e institutos federais de educação tecnológica, além da ampliação das vagas das instituições já existentes, marcou uma diferença importante em relação à era FHC, quando nada foi feito a esse respeito.
Financiamento da educação básica
Já ao apagar das luzes do primeiro mandato de Lula ocorreu, em dezembro de 2006, a substituição do Fundef, que financiava apenas o ensino fundamental, pelo Fundeb, fundo que abrange toda a educação básica.
A estrutura do Fundeb mantém as linhas do Fundef. Mas promoveu um importante avanço, representado pela ampliação do âmbito de incidência e pelo aumento dos recursos financeiros que compõem o fundo.
Pelo primeiro aspecto, o novo fundo passa a abranger, além do ensino fundamental, também a educação infantil (creches e pré-escolas), o ensino médio e a educação de jovens e adultos (EJA), incluindo os meios urbano e rural e as modalidades da educação especial, indígena e quilombola, assim como a educação profissional integrada ao ensino médio.
Pelo segundo aspecto, além de elevar de 15% para 20% a contribuição dos estados e municípios, um indicador da disposição de ampliar o compromisso da União com o financiamento da educação básica foi o dispositivo legal vedando à instância federal a utilização do salário-educação para suprir a sua parte na composição do fundo, diferentemente do que fazia o governo FHC.
O Fundeb é um fundo de natureza contábil que não chega a resolver o problema do financiamento da educação. Seu montante, se efetivamente aplicado, melhorará sensivelmente o financiamento da educação comparativamente à situação anterior. Mas não terá força para alterar o status quo vigente. Ou seja, a ampliação dos recursos permitirá atender um número maior de alunos, porém em condições não muito menos precárias do que as atuais, isto é, com professores em regime de hora-aula, com classes numerosas e sendo obrigados a ministrar grande número de aulas semanais para compensar os baixos salários, ainda em vigor nos estados e municípios.
Um simples exemplo ilustra a limitação apontada. Calculado pela nova metodologia do IBGE, o PIB brasileiro em 2006 foi de 2 trilhões e 322 bilhões de reais. Isso significa que, levando-se em conta a informação do próprio MEC de que o Brasil gasta com educação em torno de 4,3% do PIB, o orçamento da educação para 2007 deveria ser da ordem de 99 bilhões e 846 milhões de reais. Assim, mesmo descontando os gastos com ensino superior, que não chegam a 1% do PIB (23 bilhões de reais), o montante a ser destinado à educação básica seria de 76 bilhões e 800 milhões de reais, muito superior, portanto, ao valor de 43 bilhões e 100 milhões previstos para o Fundeb em 2007.
Educação e trabalho
Outro aspecto que foi objeto de modificação operada pelo governo Lula é o referente à educação profissional. Contrapondo-se ao decreto do governo FHC, que buscou separar o ensino técnico do ensino médio regular, foi elaborado um novo decreto cuja marca distintiva é a articulação, entendida de forma ampla e abrangendo os distintos aspectos envolvidos na questão da educação profissional. Assim, prevê-se a articulação de esforços das áreas da educação, trabalho e emprego, e ciência e tecnologia, e se introduz o conceito de “itinerário formativo”, definido como o conjunto das etapas da organização da educação profissional em uma determinada área. Determina-se, ainda, a articulação preferencial com os cursos de jovens e adultos e a integração entre a educação profissional de nível médio com o ensino médio. Por fim, além dessa integração horizontal, estipula-se, também, a articulação vertical entre a formação profissional técnica de nível médio e os cursos de educação tecnológica de graduação.
Vê-se que essa nova concepção de educação profissional representa claro avanço, pois retoma a tendência da formação integrada, revertendo o retrocesso representado pelo governo tucano. Portanto, ainda que limitado ao plano das ideias, esse avanço não deixa de ser positivo, pois possibilita a reorganização do ensino técnico segundo uma concepção pedagógica mais coerente com as necessidades atuais.
Um passo à frente
O segundo mandato de Lula, iniciado em 2007, marca uma diferença mais nítida em relação ao governo FHC, representada pelo envolvimento do MEC no enfrentamento dos problemas da educação básica, o que foi traduzido na criação do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), lançado em abril de 2007.
Embora constituído por uma gama grande de ações de certo modo justapostas entre si, o PDE dispõe-se a atacar o problema da qualidade da educação básica fundamentalmente por meio de três programas: “Índice de Desenvolvimento da Educação Básica” (Ideb), Provinha Brasil e Piso do Magistério, complementados pelo Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica.
Do ponto de vista financeiro, os recursos básicos com que conta o PDE são aqueles constitutivos do Fundeb, aos quais o MEC se propôs a adicionar, em 2007, 1 bilhão de reais, visando atender prioritariamente os mil municípios com os mais baixos níveis de qualidade aferidos pelo Ideb.
Mas o Fundeb não representou efetivo aumento dos recursos financeiros, uma vez que o número de estudantes atendidos passou de 30 milhões para 47 milhões, portanto, um aumento de 56,6%, enquanto o montante do fundo passou de 35,2 bilhões para 48 bilhões de reais, o que significa um acréscimo de apenas 36,3%. Portanto, proporcionalmente, o valor do investimento por aluno diminuiu.
Legalismo e improvisação
Numa breve apreciação crítica podemos dizer que o legado educacional positivo do governo Lula foi prejudicado por certo legalismo aliado à certa improvisação, o que pode ser ilustrado pela questão do ensino fundamental obrigatório. Elevado legalmente para nove anos, o nível fundamental incorporou o último ano da educação infantil, reivindicação antiga dos prefeitos para contar com parte dos recursos do Fundef que não contemplava a educação infantil. No entanto, essa justificativa logo perdeu sentido com a aprovação do Fundeb, que estendeu os recursos do fundo para toda a educação básica. E agora o governo patrocina a aprovação de uma nova medida legal que torna obrigatório o ensino dos 4 aos 17 anos, o que torna mais uma vez inócuo o ensino fundamental de nove anos.
O legado a ser deixado pelo governo Lula no campo da educação será completado com os resultados da Conferência Nacional de Educação (Conae), prevista para ocorrer de 28 de março a 1º de abril deste ano.
O grande desafio
Fica, pois, como desafio imposto ao último ano do governo Lula e ao próximo presidente a ser eleito em 2010: a instituição de um sistema nacional de educação que, sob a coordenação da União, articule a participação em regime de colaboração dos estados e municípios, assegurando uma educação pública com um mesmo e elevado nível de qualidade. Para isso será necessário, em consonância com o discurso hoje consensual que atribui à educação formal a posição de fator econômico estratégico, tomá-la como o eixo do próprio projeto de desenvolvimento, articulando o Plano Nacional de Educação com o projeto econômico nacional. Isso implicará transportar para a educação todos os recursos disponíveis, pois ela se tornará a via pela qual serão atacados todos os problemas do País.
Trata-se de mudar o próprio modelo de desenvolvimento econômico que, desde o início do século XX, vem tendo como eixo o automóvel (fordismo e toyotismo) deslocando-o para a educação. Essa mudança permitirá um crescimento com maior distribuição de renda e estimulador da igualdade social. Além de não apresentar efeitos colaterais negativos, já traz consigo o antídoto aos efeitos negativos na montagem dos currículos formativos dos vários níveis de ensino. Essa é a verdadeira solução e, portanto, o grande desafio a ser enfrentado.

Fonte: Carta na Escola – http://www.cartanaescola.com.br/

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África “condenada à incineração” e ao subdesenvolvimento crónico

Martinho Júnior

Os Estados Unidos acabam de demonstrar em Copenhaga e na Cimeira sobre o clima, a sua disposição em alargar as políticas típicas do “capitalismo de desastre” da esfera económica para outros campos de acção, inclusive em relação ao clima, ao ambiente e à biodiversidade.

O ponto de vista do arcebispo Desmond Tutu, uma das personalidades africanas mais atentas em relação às decisões que se estão a tomar sobre as medidas que influenciarão nos fenómenos climáticos e ambientais, é de que com a decisão dos Estados Unidos «África será condenada à incineração e à ausência de desenvolvimento».

Barack Hussein Obama, filho dum africano, não se coibiu de ser o porta-voz das pressões corporativas e das poderosas multinacionais, ferindo a expectativa dos mais avisados, ferindo os interesses dos pobres e sobretudo do desamparado continente africano.

Prevendo um aquecimento de 2º em média para o planeta, isso significará que África terá temperaturas acima dessa média, dada a natureza dos seus desertos e das suas reservas aquíferas.

O deserto do Sahara expandir-se-á para sul, tornando muito difícil a situação em todo o Sahel.

Os desertos a leste, como o Ogaden, que envolve a Somália e a Etiópia, tenderão a expandir-se para oeste e para sul, aumentando a pressão ambiental sobre as populações da Etiópia, da Eritreia, de Djibouti, da Somália e do Quénia.

No sul do continente, os desertos do Kalahári e do Namibe tenderão a expandir-se para sul, na direcção da África do Sul, para norte, na direcção de Angola e Zâmbia, e para leste, na direcção do Zimbabwe.

É prematuro fazer uma avaliação do comportamento das enormes reservas aquíferas de Angola e de bacias hidrográficas como as do Zambeze, do Okawango e as bacias de rios independentes angolanos que, nascendo na região central das grandes nascentes (bem no centro físico-geográfico do país), desaguam a oeste no Atlântico, particularmente o rio Cunene, mas o risco é a sua degradação.

O aumento da extensão das áreas desérticas em África redundante dum aquecimento de 3º (em África, para um aquecimento médio global de 2º, é de prever que as temperaturas sejam excessivas a essa média) poderá mesmo, aliada a outros factores, influenciar alterações na bacia do Congo, cuja cobertura vegetal tenderá a diminuir, ou seja, pondo em causa a vitalidade do segundo maior pulmão da Terra, que se tornará raquítico ao mesmo tempo que a bacia do Amazonas.

A diversidade biológica ficará ainda mais em causa, com o desaparecimento de várias espécies e a disseminação daquelas que estarão mais adaptadas ao aquecimento e à secura do ambiente.

A disponibilidade de fundos dos países ricos, tendo como base o que “foi decidido” em Copenhaga e a observação sobre a “experiência” das potências, será alvo de manipulação: para que os pobres tenham acesso a esses fundos, terão de cumprir com o diktat dos poderosos e, sem políticas alternativas, os países do continente africano assistirão ao espectáculo das suas elites se tornarem ainda mais venais e dóceis instrumentos da neocolonização, ao mesmo tempo que se incrementarão as explorações das matérias primas e as inevitáveis situações de tensão, de conflito e de guerra…

A tendência para o aumento do fosso das desigualdades sociais será reforçada, tornando ainda mais insuportável o ambiente humano, com a probabilidade do incremento das injustiças sociais de toda a ordem.

As ingerências externas crescerão, inclusive sob os pontos de vista operativo e militar, com implicação na gestão dos estados, nos seus relacionamentos, nas políticas de conveniência, com toda a cosmética que se vai conhecendo e que implicitamente se irão pôr em prática.

África confluirá assim para o inferno em que se tornou a vasta região do Médio Oriente, do Iraque ao Paquistão, e o elo de ligação poderá ser o Iémen e a Somália.

Há uma certa expectativa sobre como reagirão as organizações sociais e ambientais africanas em relação à “Primeira Conferência Mundial dos Povos sobre os câmbios climáticos e os direitos da Mãe Terra”, mas sobretudo quais os estados africanos que vão assumir a coragem de se fazer nela representar.

De facto, ao se fazerem representar, esse é desde logo um sinal de “agravo” em relação ao diktat dos poderosos, e a ambiguidade da China, conforme o que ficou demonstrado em Copenhaga, não vai amparar os resolutos.

É provável que na Bolívia estejam representados alguns estados do Sahel africano, a África do Sul.

Angola está de certeza muito mais interessada em “mostrar-se ao mundo” na Expo/Shangai 2010, do que participar na Conferência de Cochabamba…

Para Shangai, já há quase um ano que está nomeada comissária a antiga ministra do petróleo Albina Assis, mas em relação a Cochabamba impera o silêncio quase absoluto.

Fonte: Informação Alternativa – http://infoalternativa.org

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Jornada de trabalho de doméstica chega a 54 horas semanais

Apesar da jornada excessiva, o estudo indica que as condições de trabalho melhoraram, em cinco das sete regiões monitoradas.

SEBRAE

A jornada de trabalho das empregadas domésticas com carteira assinada no país atingiu até 54 horas semanais em 2009, segundo pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Apesar da jornada excessiva, o estudo indica que as condições de trabalho melhoraram. Em cinco das sete regiões monitoradas, a maioria das que atuam como mensalistas é registrada. Segundo o Dieese, as jornadas mais extensas são cumpridas pelas domésticas do Nordeste. Em Recife, as mensalistas com carteira assinada trabalham em média 54 horas por semana. Na região, as que não são negras e não têm registro formal trabalham em média 59 horas por semana. Negras não formalizadas trabalham 57.
As menores cargas horárias foram registradas em São Paulo e em Porto Alegre, onde as empregadas domésticas cumprem em média 41 horas semanais.
Patrícia Costa, economista do Dieese, afirma que trabalhadoras que dormem no local de trabalho costumam ter jornada de trabalho mais extensa, mas que mesmo as demais cumprem longas jornadas. "Existe informalidade na relação com a família. Como é uma atividade que se exerce dentro de casa, é difícil estabelecer o limite.'’
Costa destaca que cada vez menos trabalhadoras aceitam dormir no emprego. Entre as regiões pesquisadas, o Distrito Federal teve o maior percentual de domésticas dormindo no emprego, com 25% .
Segundo o Dieese, o serviço doméstico é a atividade que oferece a pior remuneração no país. A trabalhadora doméstica recebe, em média, em toda as regiões monitoradas, metade do valor pago às funcionárias do setor de serviços.

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Cabral, Votorantim e a expansão da monocultura do eucalipto no Médio Vale do Paraíba Fluminense

Thiago Lucas

“Uma árvore sozinha não faz uma floresta” – Provérbio Chinês

A região do Médio Vale do Paraíba Fluminense é considerada uma das mais dinâmicas do estado do Rio de Janeiro, pois possui um importante pólo metal-mecânico, uma ótima logística de transportes e está entre as metrópoles (São Paulo e Rio de Janeiro) mais importantes do país. Entretanto, esta região apesar de ter um forte caráter urbano-industrial, possui ainda uma agropecuária bastante significativa numa escala estadual, especialmente, no que se refere à pecuária leiteira.

É notória a força do latifúndio no ordenamento territorial dessa região. Vários estudos socioambientais descreveram os danos ambientais causados pela monocultura do café. Hoje essa dinâmica de destruição dos resquícios de mata atlântica na região, a concentração da terra e a subordinação dos pequenos agricultores é realizada pela pecuária leiteira e agora também pela monocultura do eucalipto.

Uma das principais políticas de desenvolvimento econômico e “social” que o atual governo estadual (de Sérgio Cabral) tem apontado como fundamental para ser realizada, é a implementação do projeto da silvicultura comercial de larga escala no território fluminense, os Secretários Julio Bueno (Desenvolvimento) e Christino Áureo (Agricultura) tiveram e ainda tem um papel central na realização de tal empreitada, pois além de defenderem o projeto da silvicultura, ambos têm defendido a importância das empresas de celulose e papel para o desenvolvimento do nosso estado, utilizando o argumento, que esses novos empreendimentos possibilitarão que o estado possa concorrer neste mercado com os estados vizinhos dando uma “nova” dinâmica ao “decadente” espaço agrário fluminense.

Apesar da forte mobilização de diversos movimentos sociais aglutinados na Rede Alerta contra o Deserto Verde que tem conseguido expressivas vitórias no conflito com a Aracruz Celulose no Espírito Santo, as empresas de papel e celulose juntamente com o governo do estado conseguiram aprovar o projeto de lei que foi enviado pelo governador em “regime de urgência” para a Assembléia. Em relação à lei anterior – Lei n.º 4.063/2003 – a atual lei n.º 5067/2007 traz alterações e facilidades para a silvicultura comercial, como o ônus total para o estado na realização do zoneamento ecológico-econômico, ausência de EIA-RIMA nas áreas com plantio de eucalipto em até 400 hectares nas regiões hidrográficas do Baixo Paraíba (IX) e Itabapoana (X) e a diminuição no percentual (de 30% para 20%) da área a ser plantada com espécies nativas.

De acordo com o site da Aracruz, “o cultivo de florestas plantadas esbarrava na falta de regras claras para disciplinar a atividade, na morosidade dos licenciamentos e na falta de um incentivo para deslanchar”. Como essas barreiras foram derrubadas pela lei vigente, a Votorantim que já atuava no Médio Vale do Paraíba Fluminense e a Aracruz Celulose que desde 2005 já estava instalada no município de Itaperuna, terão o caminho aberto para expandir o plantio de eucalipto.

Outro importante mecanismo que será utilizado para expandir a silvicultura comercial no estado é fomento florestal. Com isso, tanto os secretários Julio Bueno e Christino Áureo, juntamente com engenheiros agrônomos da Aracruz Celulose e da Votorantim Celulose e Papel, além de representantes da Firjan e da EMATER têm percorrido diferentes municípios do estado, participando de eventos como a Exposição Agropecuária do Sul Fluminense 2008, realizada em Barra do Piraí na Região do Médio Vale do Paraíba, e a IX Merco Noroeste 2007, ocorrida em Itaperuna no Noroeste Fluminense, buscando divulgar o crescimento do mercado da silvicultura comercial para os produtores rurais dessas regiões e os incentivos públicos e privados para esse mercado. Tal incentivo pode ser entendido como medida política por parte do estado a favor da expansão da silvicultura comercial de larga escala.

Segundo os geógrafos Paulo Alentejano e Carlos Walter Porto-Gonçalves, o fomento florestal é um projeto no qual são firmados contratos de fornecimento entre o produtor e a empresa, esse contrato, representa na verdade uma forma de monopolização, pois o agricultor tem apenas uma opção de comprador, além disso, nos contratos de fomento florestal a empresa fornece as mudas, o adubo, o formicida e a assistência técnica para desenvolver as plantações, sendo com isso, uma espécie de assalariamento disfarçado.

É importante destacarmos que o projeto da silvicultura no estado do Rio de Janeiro representa não só uma aliança entre o governo estadual e as multinacionais deste setor, pois este projeto está atrelado à expansão de novos projetos siderúrgicos no estado, tais como: a construção da Companhia Siderúrgica do Atlântico em Santa Cruz - RJ com previsão de começar a realizar suas atividades em 2010 e a nova siderúrgica da Votorantim em Resende que já esta em funcionamento.

Além disso, tanto o governo estadual como o federal, sinalizam com fortes investimentos (e parceiras público-privadas) na melhoria da logística e do escoamento da produção industrial, representados entre outros pela melhoria e a construção de novos portos (por exemplo, Porto do Açu) no estado e a criação de novos acessos rodoviários, como, por exemplo, a ponte (sobre o rio Paraíba do Sul) do acesso oeste em Resende, ligando a Siderúrgica da Votorantim a rodovia Presidente Dutra e futuro arco rodoviário ligando o porto de Sepetiba ao Comperj em Itaboraí.

Thiago Lucas Alves da Silva – Licenciado em Geografia pela FFP/UERJ, Pós-Graduado em Políticas Territoriais no Estado do Rio de Janeiro e Mestrando pelo CPDA/UFRRJ

Referência bibliográfica

ALENTEJANO e PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. Cabral e o Deserto Verde. Rio de Janeiro: mimeo, 2007.

Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Lei n.º 4.063/2003. Rio de Janeiro: 2003.
______________. Lei n.º 5.067/2007. Rio de Janeiro: 2007.

FOEGER, Tarcisio J. e PEDLOWSKI, Marcos A. Transgredindo escalas e estabelecendo parcerias inusitadas na luta pela justiça a ambiental: o caso da mobilização contra a monocultura de eucalipto no Rio de Janeiro. In: ACSELRAD, Henri (org.). Conflito social e meio ambiente no Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.

RIBEIRO, M. A. C. (Org.); MARAFON, G. J. (Org.). Revisitando o Território Fluminense. Rio de Janeiro: Edições NEGEF, 2003.

Fonte: Geógrafos sem Fronteiras – http://gsf.org.br/

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Celebração do Dia da Mulher completa 100 anos

Especialistas da UnB traçam um panorama das conquistas e desafios das mulheres do século XXI

Thais Antonio

Em 1910, foi instituído o Dia da Mulher, 8 de março. Cem anos depois, ainda há muito pelo que lutar, segundo especialistas ouvidas pela UnB Agência. “No imaginário social de hoje, as mulheres persistem inexistentes na memória histórica, em termos de poder, criação, ação. Apenas com a história social das mulheres, desenvolvida pelas feministas, é que se percebe o imenso abismo onde foram jogadas as mulheres, para melhor desaparecerem", afirma a professora Tânia Navarro Swain, do Departamento de História da UnB.
"Encontramos artistas, poetas, escritoras, pintoras, musicistas, rainhas, suseranas, guerreiras, que foram simplesmente apagadas da história e da memória social”, lembra. A professora Tânia Montoro, da Faculdade de Comunicação, complementa: “Conhecemos muito pouco as nossas cientistas mulheres. A ciência também foi feita de descobertas femininas”.

Para comemorar os 100 anos do Dia Internacional da Mulher, o Decanato de Extensão (DEX) da UnB e os departamentos de Saúde Coletiva e de Enfermagem promovem palestra da professora Daphne Rattner, que fará um panorama histórico das lutas e conquistas das mulheres no último século. A iniciativa tem o apoio da Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento (ReHuna) e do grupo Ciranda de Mulheres. Na ocasião, também será exibido o vídeo Prazer no Parto (veja lateral).

Daphne explica a importância de trazer o debate sobre as questões de gênero para o ambiente acadêmico: “Em primeiro lugar, as mulheres são maioria na universidade. É importante conhecer a história de lutas e conquistas femininas para perceber que há muito o que comemorar", diz. "Considero que se vive numa época privilegiada para ser mulher. Ainda há diferenças, mas há muitas conquistas que não podem passar em branco”.

DITADURA DO CORPO - Para a pesquisadora Tânia Fontenele, um dos desafios a serem enfrentados é a cobrança social em relação à estética das mulheres. Ela explica que essa preocupação está além do corpo e da saúde. “Lamento isso porque num país tão diverso como o nosso, o padrão de beleza é pesar 45 kg, ter o cabelo loiro e liso, olhos azuis. É um padrão cruel e limitante”, reclama.

Tânia Montoro acredita que os meios de comunicação ainda são muito machistas. “Ao invés da ditadura do patricarcado, vivemos a ditadura do corpo. Num país de multiculturalismos racial e genético, o padrão de beleza deixa de fora negras, indígenas, imigrantes e qualquer outra mulher que não tiver esse padrão”, explica. Ela diz que as indústrias farmacêutica, de cosméticos e cultural promovem um excessivo consumo da beleza, criando mulheres com problemas como bulimia, anorexia e depressão profunda. E aponta a ausência da mulher madura, com mais de 50 anos, nos meios de comunicação. “É como se a função social da mulher acabasse com o fim da fase reprodutora”, diz.
VIOLÊNCIA - Ana Liési Thurler, doutora em Sociologia pela UnB, acredita que as relações de gênero ainda determinam a condição da mulher na sociedade atual. “A violência não é um detalhe na história da mulher, é um marcador nas relações de gênero”. Helenice Gama Dias de Lima, psicóloga do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, conta que a violência contra a mulher é real e sempre existiu. A diferença é a punição ao agressor. “Hoje, a violência é crime. A minha experiência tem me mostrado que as mulheres estão mais encorajadas a denunciar. Antes o agressor não sentia a ressonância do ato dele”, explica.

“A violência contra as mulheres só diminui na medida da conscientização e da resistência dos movimentos das mulheres, das feministas, daquelas que não aceitam a dominação da metade da população pela outra metade, pela simples representação social de inferioridade que é marca da definição das mulheres enquanto tais”, explica Tânia Navarro. “O século XXI tem um caminho enorme a ser percorrido para que as mulheres deixem de ser cidadãs de segunda classe ou vistas apenas como carne a ser consumida, com parâmetros bem definidos de beleza e disponibilidade”.

Fonte: Universidade de Brasília – http://www.unb.br/

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A louca corrida dos EUA pela hegemonia ameaça o planeta

Antes do 11 de setembro os neoconservadores norte-americanos foram explícitos quanto afirmaram que as guerras de agressão que pretendiam desencadear no Oriente Médio exigiam "um novo Pearl Harbour". Para seu próprio bem e para o bem de todo o mundo, é preciso que os norte-americanos prestem atenção ao número cada vez maior de especialistas que estão dizendo que o relato do governo sobre o 11 de Setembro não condiz com as suas próprias investigações. O 11 de Setembro desencadeou o plano neoconservador para a hegemonia mundial dos EUA. O artigo é de Paul Craig Roberts, ex-secretário assistente do tesouro no governo Reagan.

Paul Craig Roberts (*)

O Washington Times é um jornal que encara com bons olhos as guerras de agressão de Bush/Cheney/Obama/ neoconservadores no Médio Oriente e defende que se obrigue os terroristas a pagar pelo 11/Setembro. Por isso, fiquei admirado ao saber que, em 24 de fevereiro, a notícia mais apreciada no sítio web do jornal durante os últimos três dias era a reportagem "Explosive News" , do "Inside the Beltway", sobre as 31 conferências de imprensa em cidades dos EUA e no estrangeiro realizadas a 19 de Fevereiro pelos Arquitetos e Engenheiros para a Verdade do 11/Setembro, uma organização de profissionais que já tem 1 000 membros.
E ainda fiquei mais admirado por a reportagem do jornal tratar a conferência de imprensa muito a sério.
Como é que três arranha-céus do World Trade Center se desintegram subitamente em poeira fina? Como é que sólidas vigas de aço em três arranha-céus cedem subitamente em consequência de incêndios de curta duração, isolados e de baixa temperatura? "Mil arquitetos e engenheiros querem saber, e apelam ao Congresso que promova uma nova investigação sobre a destruição das Torres Gêmeas e do Edifício 7", noticia o Washington Times.
O jornal noticia que os arquitetos e engenheiros chegaram à conclusão de que a Federal Emergency Management Agency (FEMA) e o National Institute of Standards and Technology (NIST) forneceram "relatos insuficientes, contraditórios e fraudulentos das circunstâncias da destruição das torres" e "exigem uma investigação de um grande júri aos funcionários do NIST".
O jornal relata que Richard Gage, o porta-voz dos arquitetos e engenheiros disse: "Deverão ser notificados funcionários do governo de que a ‘Conivência com a Traição’, Código 18 (Sec. 2382) dos EUA é um grave crime federal, que exige a ação dos que possuem indícios de traição. As implicações são enormes e podem ter um impacto profundo no próximo julgamento de Khalid Sheik Mohammed".
Agora há uma outra organização, os Bombeiros pela Verdade do 11/Setembro. Na principal conferência de imprensa em São Francisco, Eric Lawyer, o líder desta organização, anunciou o apoio dos bombeiros às exigências dos arquitetos e engenheiros. Denunciou que não houve qualquer investigação forense aos incêndios que supostamente destruíram os três edifícios e que esta omissão constitui um crime.
Não foram seguidos os procedimentos obrigatórios e, em vez de ser preservada e investigada, a cena do crime foi destruída. Também denunciou que há mais de cem testemunhas de primeira-mão que ouviram e sentiram explosões e há provas de explosões através da rádio, de gravações de som e de vídeos.
Também na conferência de imprensa, o físico Steven Jones apresentou provas da existência de nano-termite em resíduos dos edifícios do WTC encontrada por um painel internacional de cientistas, chefiado pelo Professor Niels Harrit, da Universidade de Copenhaga. A nano-termite é um explosivo/pirotécnico de alta tecnologia capaz de derreter instantaneamente vigas mestras de aço.
Antes de gritarmos "teoria da conspiração", temos que ter presente que os arquitetos, engenheiros, bombeiros e cientistas não apresentam qualquer teoria. Apresentam provas que contestam a teoria oficial. Estas provas não vão desaparecer.
Se o fato de exprimir dúvidas ou reservas quanto à versão oficial do Relatório da Comissão do 11/Setembro torna uma pessoa num idiota da teoria da conspiração, então também temos que incluir o co-presidente da Comissão do 11/Setembro e o conselheiro legal da Comissão, que escreveram livros em que declaram abertamente que foram enganados por funcionários do governo quando dirigiam a investigação, ou, melhor, quando presidiam à investigação dirigida pelo director executivo Philip Zelikow, membro da equipa de transição do Presidente George W. Bush e do Foreign Intelligence Advisory Board e um co-autor com a secretária de Estado de Bush, Condi "Mushroom Cloud" Rice.
Há-de haver sempre americanos que acreditam em tudo o que o governo lhes diz apesar de saberem que o governo lhes tem mentido muitas vezes. Apesar das dispendiosas guerras que ameaçam a Segurança Social e os Cuidados de Saúde, guerras essas baseadas em inexistentes armas de destruição maciça iraquianas, em inexistentes ligações de Saddam Hussein à al Qaida, em inexistente participação afegã nos ataques de 11/Setembro, e em inexistentes armas nucleares iranianas, que estão a ser invocadas como razão para a próxima guerra americana de agressão no Médio Oriente, mais de metade da população dos EUA continua a acreditar na história fantástica que o governo lhes contou sobre o 11/Setembro, uma conspiração muçulmana que ludibriou todo o mundo ocidental.
Mais ainda, esses americanos não se preocupam com a quantidade de vezes que o governo altera a sua versão. Por exemplo, os americanos ouviram falar pela primeira vez de Osama bin Laden porque o regime Bush lhe atribuiu os ataques do 11/Setembro. Ano após ano foram apresentados vídeos ao público crédulo americano com declarações de bin Laden. Os especialistas consideraram que esses vídeos eram falsificações, mas os americanos mantiveram-se crédulos. Depois, subitamente no ano passado, surgiu um novo "cérebro" do 11/Setembro que ocupou o lugar de Bin Laden, o preso Khalid Sheik Mohammed, o detido que foi mergulhado em água 183 vezes até confessar ter sido o cérebro dos ataques do 11/Setembro.
Na Idade Média, as confissões arrancadas sob tortura constituíam prova, mas o sistema legal dos EUA sempre recusou a auto-incriminação desde a sua fundação. Mas com o regime Bush e os juízes federais Republicanos, que nos juraram defender a Constituição dos EUA, a auto-incriminação de Sheik Mohammed consiste hoje na única prova que o governo americano tem de que foram terroristas muçulmanos que provocaram o 11/Setembro.
Se uma pessoa analisar as acções atribuídas a Khalid Sheik Mohammed, estas são simplesmente incríveis. Sheik Mohammed é um super-herói mais brilhante, com mais capacidades do que V no filme de ficção, "V de Vingança" (V for Vendetta). Sheik Mohammed ludibriou todas as 16 agências de informações americanas e as de todos os aliados ou fantoches dos EUA, incluindo o Mossad de Israel. Não há nenhum serviço de informações na terra nem mesmo todos eles juntos que cheguem aos calcanhares de Sheik Mohammed.
Sheik Mohammed ludibriou o Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Dick Cheney, o Pentágono, o Departamento de Estado, o NORAD, a Força Aérea americana, e o Controlo de Tráfego Aéreo.
Fez com que a Segurança dos Aeroportos falhasse quatro vezes na mesma manhã. Provocou a falha das modernas defesas aéreas do Pentágono, o que permitiu que se jogasse no Pentágono um avião comercial pirateado, que andou fora da rota durante toda a manhã enquanto a Força Aérea americana, pela primeira vez na história, foi incapaz de o interceptar,
Sheik Mohammed conseguiu realizar estas façanhas com pilotos não qualificados.
Sheik Mohammed, apesar de ser um prisioneiro mergulhado em água, conseguiu impedir que o FBI divulgasse os muitos vídeos confiscados que, segundo a versão oficial, mostrariam o avião pirateado a bater no Pentágono.
Até que ponto temos que ser ingênuos para acreditar que qualquer ser humano, qual personagem de ficção de Hollywood, tem este poder e capacidades?
Se Sheik Mohammed tem estas capacidades super humanas, como é que os incompetentes americanos o apanharam? Este tipo é um bode expiatório torturado até à confissão, a fim de que os americanos ingênuos continuem a acreditar na teoria da conspiração governamental.
O que está havendo é que o governo americano tem que pôr fim ao mistério do 11/Setembro. O governo tem que levar a julgamento e condenar um réu para poder encerrar o caso antes que ele rebente. Qualquer pessoa que foi mergulhada em água 183 vezes confessa o que quer que seja.
O governo americano tem respondido às provas, que têm sido apresentadas contra a sua extraordinária teoria da conspiração do 11/Setembro, redefinindo a guerra contra o terrorismo de inimigos externos para inimigos internos. Janet Napolitano, secretária da Segurança Nacional, disse em 21 de Fevereiro que atualmente os extremistas americanos são motivo de preocupação tão grande como os terroristas internacionais. Os extremistas, claro, são pessoas que interferem na agenda do governo, como os 1 000 Arquitectos e Engenheiros pela Verdade do 11/Setembro. Este grupo era de 100, agora já são 1 000. E se vierem a ser 10 000?
Cass Sunstein, um funcionário do regime Obama, tem uma solução para os céticos do 11/Setembro: infiltrar-se dentro deles e levá-los a fazerem declarações e ações que possam ser usadas para os desacreditar ou para os prender. Mas livrar-se deles a todo o custo.
Por quê utilizar estas medidas extremas contra supostos idiotas se eles apenas provocam divertimento e risadas? Estará o governo preocupado que eles farejem alguma coisa?
Em vez disso, por que é que o governo americano não confronta pura e simplesmente as provas que são apresentadas e as contesta?
Se os arquitetos, engenheiros, bombeiros e cientistas são uns idiotas chapados, seria fácil analisar as suas provas e refutá-las. Porque é que é necessário infiltrar-se neles com agentes secretos e armar-lhes ratoeiras?
Muitos norte-americanos responderiam que o "seu" governo nunca sequer pensaria em matar seus próprios cidadãos, roubando aviões e destruindo edifícios só para promover a agenda do governo. Mas em 3 de Fevereiro, Dennis Blair, diretor do National Intelligence, disse à Comissão de Informações da Câmara que o governo dos EUA pode assassinar os seus próprios cidadãos quando eles estão além-mar. Não é necessário nenhuma detenção, nenhum julgamento, nenhuma condenação por um crime capital. Apenas um assassínio impune.
Obviamente, se o governo dos EUA pode assassinar os seus cidadãos no estrangeiro, também pode assassiná-los internamente, e é o que tem feito. Por exemplo, foram assassinados 100 davidianos Branch [1] em Waco, Texas, por ordem da administração Clinton, sem qualquer razão legítima. O governo decidiu apenas usar do seu poder sabendo que o podia fazer, e foi o que fez.
Os americanos que pensam que o "seu governo" é uma espécie de operação moralmente pura, deviam familiarizar-se com a Operação Northwoods. A Operação Northwoods foi uma conspiração organizada pelos chefes de estado-maior conjuntos para que a CIA efetuasse atos de terrorismo em cidades americanas e fabricasse provas culpando Castro a fim de os EUA poderem conquistar o apoio interno e internacional para a mudança de regime em Cuba. O plano secreto foi vetado pelo presidente John F. Kennedy e foi revelado pelo John F. Kennedy Assassination Records Review Board. Está disponível online no National Security Archive. Há inúmeros relatos disponíveis online, incluindo na Wikipedia. O livro de James Bamford, Body of Secrets , também fala resumidamente na conspiração.
"A Operação Northwoods, que teve a aprovação por escrito do presidente [Gen. Lemnitzer] e de todos os membros dos chefes de estado-maior, propunha que fossem alvejadas pessoas inocentes nas ruas americanas; que fossem afundados no alto mar barcos que transportassem refugiados fugidos de Cuba; que fosse desencadeada uma onda de terrorismo violento em Washington, DC, Miami, e noutros lugares. Seriam acusadas pessoas por explosões que não tinham feito, seriam sequestrados aviões. Através de provas fabricadas, tudo isso seria atribuído a Castro, dando a Lemnitzer e à sua pandilha a justificação e o apoio público e internacional de que precisavam para desencadear a sua guerra".
Antes do 11 de Setembro os neoconservadores americanos foram explícitos quanto afirmaram que as guerras de agressão que pretendiam desencadear no Médio Oriente exigiam "um novo Pearl Harbour".
Para seu próprio bem e para o bem de todo o mundo, é preciso que os norte-americanos prestem atenção ao número cada vez maior de especialistas que estão dizendo que o relato do governo sobre o 11 de Setembro não condiz com as suas próprias investigações. O 11 de Setembro desencadeou o plano neoconservador para a hegemonia mundial dos EUA. Enquanto escrevo, o governo dos EUA está a negociar o acordo de governos estrangeiros que rodeiam a Rússia para aceitar bases americanas de intercepção de mísseis. Os EUA pretendem cercar a Rússia com bases americanas de mísseis desde a Polônia, passando pela Europa Central e Kosovo, até à Geórgia, Azerbaijão e Ásia central [ver http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=17709 ]. O enviado especial americano Richard Holbrooke declarou a 20 de Fevereiro que a Al Qaeda está infiltrando-se em regiões da antiga União Soviética na Ásia central, como o Tajiquistão, o Quirguistão, o Uzbequistão, o Turquemenistão e o Cazaquistão. Hollbrooke está pedindo bases norte-americanas nestas repúblicas ex-soviéticas com a desculpa da "guerra contra o terrorismo" sempre em expansão.
Os EUA já cercaram o Irã com bases militares. O governo norte-americano pretende neutralizar a China assumindo o controlo do Oriente Médio e isolando a China do petróleo.
Este plano parte do princípio que a Rússia e a China, países com armas nucleares, ficarão intimidados com as defesas anti-mísseis americanas e cederão à hegemonia dos EUA e que a China ficará sem petróleo para as suas indústrias e forças militares.
O governo dos EUA está enganado. Os líderes militares e políticos russos responderam a esta ameaça óbvia declarando que a OTAN é uma ameaça direta para a segurança da Rússia e anunciando uma mudança na doutrina russa da guerra quanto ao lançamento preventivo de armas nucleares. Os chineses estão demasiado confiantes para serem intimidados por uma "superpotência" americana enfraquecida.
Os retardados mentais de Washington estão jogando a cartada da guerra nuclear. O impulso louco para a hegemonia americana ameaça a vida sobre a terra. O povo norte-americano, ao aceitar as mentiras e enganos do "seu" governo, estão facilitando este resultado.
(*) Ex-secretário assistente do Tesouro na administração Reagan, co-autor de The Tyranny of Good Intentions. Foi editor associado da página editorial do Wall Street Journal e editor colaborador na National Review.
26 de Fevereiro de 2010
[1] Davidianos Branch – seita religiosa destrutiva com origem na igreja adventista; em 1993 agentes federais dos EUA cercaram as suas instalações em Waco (Texas), tendo daí resultado a morte de dezenas dos seus membros quando o complexo ardeu completamente (N.T.).
O original encontra-se em http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=17821 . Tradução de Margarida Ferreira.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

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ESCÁRNIO PARA O SALÁRIO MÍNIMO

Robert Kurz

Uma sentença judicial e as suas consequências

É a velha cantiga no eterno tratamento da contradição entre o trabalho assalariado e o capital: até mesmo pagar apenas o valor da força de trabalho já é pintado como a decadência do Ocidente. Os correios alemães tinham negociado com o sindicato Verdi, como é sabido, salários mínimos entre 8 e 9,80 euros por hora. Tendo tal regulamentação sido declarada de aplicação obrigatória para o sector postal por portaria de extensão do então ministro do trabalho, Scholz, os operadores postais privados insurgiram-se contra essa “ditadura”. A "almejada concorrência" seria prejudicada a favor de um monopolista. Assim se provou, finalmente, que uma possível concorrência entre as empresas privadas na área das infra-estruturas somente é possível com base em salários de fome. Agora, o Tribunal Administrativo Federal invalidou o regulamento. Teria havido um erro processual por não envolver os concorrentes aos correios. O truque está em que eles haviam fundado a associação patronal dos concorrente aos Novos Serviços Postais e de Entrega (NBZ). Cujo presidente, Florian Gerster, ironicamente o ex-chefe do serviço de emprego, ganhou fama como promotor dos salários baixos na Alemanha.

Já antes empresas privadas de entrega, como TNT ou PIN (uma subsidiária do Grupo Holtzbrinck), ignoraram olimpicamente aquelas regras. Agora obtiveram uma absolvição de primeira classe. Pois o que é uma ordem legal contra a "lei natural" da concorrência? A sentença encaixa na situação política global desde o início do governo de coligação preto-amarelo. Para encobrir a situação do mercado de trabalho sob condições de crise, terá de se forçar mais uma vez a desvalorização da força de trabalho, já levada a efeito por todos os governos anteriores. Servem de tropa de choque particularmente as empresas privatizadas na área das infra-estruturas. A ferrovia tem mostrado como é, com empresas subcontratadas, cujos salários de 3 euros por hora para os trabalhadores do Leste Europeu na construção ferroviária foram descritos como "imorais" até por quadros da CDU. Agora estão abertas as portas para a generalização gradual de tais condições, uma vez que o acordo de coligação preto-amarelo dificulta novas propostas legislativas de salário mínimo.

Aliás, é bem conhecido que os serviços privados de entrega num aspecto preferiam concorrer menos, ou seja, no investimento em novas redes postais. No privado não tem de haver nenhuma infra-estrutura com cobertura generalizada. Neste ponto, os correios alemães são novamente "exemplares", uma vez que alargaram sem escrúpulos as áreas de entrega de cada carteiro. Menos pessoal para áreas maiores, este é o primeiro mandamento da generalização da economia empresarial. O ideal capitalista de uma combinação de pressão no serviço e baixo salário estende a mais um sector empresarial a sua realização. Que importa se o correio já só vem raramente, ou apenas quando calha, e se já não há estações de correio, mas apenas duvidosas lojecas subcontratadas? O que interessa é que a “concorrência” está salva; graças a Deus e ao Tribunal Administrativo Federal.

Original HOHN FÜR DEN MINDESTLOHN in www.exit-online.org. Publicado na edição impressa e online do semanário Freitag, 04.02.2010

Fonte: O Beco – http://o-beco.planetaclix.pt

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Os segredos do cavalo-marinho

Esses peixes têm um sistema reprodutivo atípico: a incubação dos filhotes é feita nos machos. Em sua coluna de março, Jerry Borges explica como isso acontece e mostra como os cavalos-marinhos podem inspirar pesquisas sobre a reprodução humana.

Jerry Carvalho Borges

Os segredos do cavalo-marinho

Cavalo-marinho da espécie ‘Hippocampus histrix’. Esses animais pertencem a um dos poucos grupos de peixes que se reproduzem por viviparidade, sistema incomum entre os peixes (foto: Nick Hobgood).

Além da sua beleza, os cavalos-marinhos chamam a atenção por seu sistema reprodutivo peculiar, que se caracteriza pela incubação dos embriões em desenvolvimento dentro do corpo do macho. Descobertas recentes esclareceram alguns dos ’segredos‘ associados a essa forma única de reprodução e nos deram pistas importantes sobre alguns aspectos da biologia do desenvolvimento, inclusive de nossa espécie.

Os cavalos-marinhos e seus parentes, os peixes-pipa, pertencem à família dos singnatídeos, um grupo taxonômico que se reproduz por viviparidade. Essa forma de desenvolvimento é encontrada em todos os grupos de vertebrados, com exceção das aves, mas é pouco comum entre os peixes.

A viviparidade é definida como o nascimento de filhotes bem desenvolvidos e ativos e está associada com a fecundação interna e o desenvolvimento embrionário e fetal no interior do corpo de um dos pais.

Os organismos em que ocorre esse tipo de incubação têm custos energéticos elevados e riscos maiores de predação. Embora os organismos vivíparos apresentem tamanhos reduzidos de ninhada se comparados com espécies que se reproduzem por meio de ovos (ovíparas), a viviparidade permite uma maior sobrevivência da prole, pois minimiza a influência ambiental durante o desenvolvimento embrionário.

A viviparidade é encontrada em apenas 2-3% das cerca de 30 mil espécies de peixes conhecidas

A viviparidade é encontrada em 54 famílias de peixes, mas ocorre em apenas 2-3% das cerca de 30 mil espécies conhecidas. Como essas espécies não possuem útero, o desenvolvimento da prole ocorre na cavidade ovariana ou folicular.

A nutrição embrionária pode ocorrer através do vitelo, de outros ovos ou mesmo de outros embriões. Em algumas espécies os recursos alimentares e os gases respiratórios são fornecidos aos embriões através de estruturas epidérmicas, de projeções intestinais, de pseudoplacentas foliculares ou de estruturas similares a placentas, mas que possuem vitelo.

Casos raros

Sempre que se fala em viviparidade, pensamos logo na incubação da prole no corpo das fêmeas. Há, contudo, alguns casos extremamente raros em que o desenvolvimento embrionário pode se processar no corpo de machos.

Alguns exemplos desse tipo incomum de incubação ocorrem em duas espécies de pequenos e ameaçados anfíbios habitantes do sudoeste da América do Sul e conhecidos como sapos de Darwin (gênero Rhinoderma). Esses animais apresentam fertilização externa e seus embriões se desenvolvem por cerca de 20 dias no meio ambiente até se transformarem em girinos e serem capturados e mantidos em expansões bucais dos machos, conhecidas como sacos vocais, até sua metamorfose.

Peixe-pipa
 
Peixe-pipa da espécie ‘Corythoichthys haematopterus’. Assim como os cavalos-marinhos, esses animais pertencem à família dos singnatídeos, uma das 54 famílias de peixes vivíparos (foto: Steve Childs).
 

Os peixes singnatídeos são outro exemplo da incubação de embriões vivíparos em machos. Esse grupo compreende 232 espécies conhecidas que exibem uma ampla variedade e complexidade reprodutiva. Entre os singnatídeos, existem espécies que apresentam reprodução externa e outras nas quais as fêmeas incubam seus filhotes. Contudo, é a incubação por machos que faz esse grupo de peixes especial para os estudiosos da reprodução.

Em algumas espécies de singnatídeos, os machos mantêm os embriões em desenvolvimento em uma bolsa de incubação especializada existente na superfície de seus abdomes ou caudas. Esses locais apresentam modificações morfológicas e fisiológicas semelhantes às encontradas nas fêmeas vivíparas.

As estruturas reprodutivas mais complexas são encontradas nas 33 espécies de cavalos-marinhos que também apresentam as alterações fisiológicas reprodutivas mais marcantes. Nessas espécies, as fêmeas transferem seus gametas (ovócitos) ricos em reservas nutritivas (vitelo) para a bolsa de incubação dos machos, onde ocorre a fertilização pelos gametas masculinos.

Os cavalos-marinhos machos apresentam uma produção muito reduzida de gametas

Nos machos dessas espécies há uma produção muito reduzida de gametas – apenas cerca de 150 células por testículo, o menor valor conhecido entre os peixes. A reduzida competição espermática nessas espécies talvez esteja associada com esse processo, que talvez seja uma adaptação para evitar a fecundação dos ovócitos por mais de um espermatozoide.

Após a fertilização, os zigotos se implantam rapidamente e ocorrem diferenciações e adaptações fisiológicas e morfológicas nos tecidos masculinos associadas com o desenvolvimento embrionário. Há um aumento da vascularização nos locais de implantação embrionária. Também é observada a ocorrência de alterações relacionadas com a osmorregulação, a aeração, a nutrição e a proteção imune dos embriões em desenvolvimento.

Cavalo-marinho grávido
 
Cavalo-marinho grávido no Aquário de Nova York. O período de gestação dos signatídeos pode ir de 9 a 69 dias, dependendo da temperatura ambiental (foto: Jaro Nemcok).
 

Apesar de os embriões receberem um suprimento rico de energia de suas mães através do vitelo, acredita-se que os pais também contribuam com nutrientes durante a incubação. Além disso, pesquisas genéticas indicam que as lectinas C – um grupo de proteínas com atividade antibacteriana – são secretadas pelos machos para a proteção dos embriões antes que esses desenvolvam as suas próprias defesas imunes.

A gestação e depois

O período de gestação dos signatídeos possui uma enorme variação, podendo alcançar de 9 a 69 dias, dependendo da temperatura ambiental. Após a gestação, a pseudoplacenta dos machos é eliminada juntamente com os as formas jovens, que passam então a depender somente de si para o desenvolvimento futuro. Não há, portanto, entre os signatídeos qualquer forma de cuidado paternal (ou maternal) da prole.

A regulação hormonal da reprodução dos signatídeos depende da prolactina, um hormônio da hipófise que está relacionado com a osmorregulação, com o desenvolvimento, com as respostas imunes e com a reprodução nos vertebrados. Nos signatídeos, o bloqueio da síntese de prolactina causa abortos e a eliminação dos tecidos associados com a reprodução.

Bolsa de incubação do cavalo-marinho

O esquema indica a localização e a estrutura interna da bolsa de incubação de um cavalo-marinho macho antes e durante o desenvolvimento embrionário (adapatado de Stolting e Wilson, 2007).

A testosterona e outros hormônios esteroides masculinos regulam o início da incubação nos signatídeos. Os esteroides femininos, como o estradiol e a progesterona, por sua vez, também controlam o desenvolvimento embrionário nessas espécies de peixes. Contudo, são necessárias pesquisas para verificar como se comportam os níveis desses hormônios durante a incubação masculina.

Os peixes do grupo dos cavalos-marinhos são modelos interessantes para pesquisas sobre reprodução

Diversas espécies de signatídeos podem ser cultivadas em laboratório com certa facilidade. Por terem tempos de geração curtos (3-12 meses), elevada fecundidade (de 50 a 2 mil filhotes por ninhada) e um genoma haploide pequeno (de 500 milhões a um bilhão de bases nitrogenadas), os cavalos-marinhos e outras espécies de seu grupo podem ser considerados modelos interessantes para pesquisas futuras que poderão esclarecer como ocorre a reprodução do ponto de vista morfológico, fisiológico e genético.

O estudo desses animais pode gerar dados essenciais para a compreensão desse processo em nossa própria espécie. Além disso, esses simpáticos peixes oferecem uma oportunidade para que possamos investigar o processo de seleção sexual e compreender melhor o papel masculino na reprodução.
Jerry Carvalho Borges
Departamento de Medicina Veterinária
Universidade Federal de Lavras

Sugestões para leitura
Dzyuba,B., Van Look,K.J., Cliffe,A., Koldewey,H.J., and Holt,W.V. (2006). Effect of parental age and associated size on fecundity, growth and survival in the yellow seahorse Hippocampus kuda. J. Exp. Biol. 209, 3055-3061.
Jones,A.G., Moore,G.I., Kvarnemo,C., Walker,D., and Avise,J.C. (2003). Sympatric speciation as a consequence of male pregnancy in seahorses. Proc. Natl. Acad. Sci. U. S. A 100, 6598-6603.
Ripley,J.L. and Foran,C.M. (2006). Differential parental nutrient allocation in two congeneric pipefish species (Syngnathidae: Syngnathus spp.). J. Exp. Biol. 209, 1112-1121.
Rothchild,I. (2003). The yolkless egg and the evolution of eutherian viviparity. Biol. Reprod. 68, 337-357.
Soares,M.J., Konno,T., and Alam,S.M. (2007). The prolactin family: effectors of pregnancy-dependent adaptations. Trends Endocrinol. Metab 18, 114-121.
Stolting,K.N. and Wilson,A.B. (2007). Male pregnancy in seahorses and pipefish: beyond the mammalian model. Bioessays 29, 884-896.
Van Look,K.J., Dzyuba,B., Cliffe,A., Koldewey,H.J., and Holt,W.V. (2007). Dimorphic sperm and the unlikely route to fertilisation in the yellow seahorse. J. Exp. Biol. 210, 432-437.

Fonte: Instituto Ciência Hoje – http://cienciahoje.uol.com.br

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